"Eu me confesso, tinha esta newsletter fisgada para dedicar por inteiro a Vitinha. Reparem: na era dos matulões de estampa no futebol em que pelo jargão dentro entram termos como a “dimensão física” ou a “fisicalidade”, o Paris Saint-Germain ganhou a segunda final seguida da Liga dos Campeões dando a bola, dizendo-lhe “toma, é tua, pensa-a tu”, ao tipo fininho de membros, baixinho em altura, de fraca figura à vista desarmada que tem no coração do meio-campo. Trata-se de uma divergência ambulante, o Vitinha, a quem cometeram o desplante de o batizar com um diminutivo de modo a que o que ele joga, além de extraordinário, ser irónico.
E condigno por reforçar a contradição.
Vitinha joga muitíssimo, uma barbaridade, afinal deram-lhe um pequeno troféu arredondado em forma daquilo que não lhe sai dos pés, feito das estrelas prateadas e iconográficas da Champions, que distingue o melhor jogador da final onde ele, o pequenote irrequieto, lá esteve a pedir a bola sem descanso, a querê-la por defeito que é feitio mesmo perante o antídoto do Arsenal que também foi buscar à ironia um dos seus ingredientes: para tentarem anular a influência do português, os ingleses não o pressionaram além do mínimo exigível quando tinha a bola.
Seria de rir não fosse de gabar. Trocado por miúdos, o Arsenal pôs um jogador na frente de Vitinha perto o suficiente para ele não se sentir à vontade mas longe o quanto baste de maneira a não ser atraído à sua beira e abrir um espaço atrás para o passe entrar.
Outra costela de ironia: tentar diminuir o alcance do jogador conhecido pelo seu diminutivo, que ditador de jogo é se a bola estiver na sua companhia, deixando-o tê-la, preferindo antes tapar as hipóteses de o português a passar a alguém que estivesse numa posição vantajosa. É mau que ele tenha a bola, pior fica se a conseguir passar, eis a lógica. Resultou até deixar de resultar, o PSG deu a volta à estratégia, Vitinha rodeado está de craques, imerso numa equipa fluída que mesmo sem a dinâmica do costume lá se desemaranhou do bloco compacto do Arsenal, por demais defensivo e aborrecido.
Quando o fez em modo cruzeiro, a partir da segunda parte, teve outro português, um mais discreto, no cerne de tudo. Se nos rendermos ao engodo do holofote e atentarmos só ao que o foco ilumina tendemos a não ver o que está literalmente ao lado, e é o caso de João Neves. Quando as cãibras queimaram os músculos de Ousmane Dembélé, o Bola de Ouro que continuamos por descobrir com que pé prefere chutar, do capitão Marquinhos e de Vitinha, tirando-os da partida, prevaleceu em Budapeste a fibra do discreto ladrão de bolas, igualmente pequenino como o conterrâneo do meio-campo, igualmente gigante no quanto joga.
Em João Neves não há cortes de cabelo desbastados ou aparados antes do jogo como é costume nos futebolistas dados a cuidarem da imagem, que fazem de barbeiros convidados de honra dentro dos estágios das equipas. João jogou com a guedelha com que acordou naquele dia, discreto nas funções e simples nas ações durante 120 minutos, uma formiga operária que engana: trabalha tanto, estando tantas vezes no sítio certo, que o seu lado gregário distrai da delicadeza do seu jogo.
Era impossível ignorar o português que joga com a ponta da língua encostada à bochecha a favor do que estica o dedo indicador da mão direita quando se entretém com a bola, cada um com o seu tique. Vitinha ser o tipo que mais passes e toques na bola deu na final da Champions entende-se por João Neves ter sido quem mais vezes roubou a bola, ganhou duelos (no ar) e sofreu faltas na sua equipa. As valias de um ligam às do outro, os seus trejeitos futebolísticos são umbilicais. Não há o Vítor de Santo Tirso, filho de pai jogador, sem o João de Tavira, cuja primeira experiência no desporto veio do andebol.
Outra ironia: como pôde um rapaz baixote, com os pés atolados em jeito, começar por fazer uso das mãos para se recriar com uma bola?
Faço eu ideia, mistério da vida, desta em que hoje o maior dos organizadores de jogo no futebol é Vitinha, exímio a dar um passe mas sem ser só isso, já não como Andrea Pirlo, Sergi Busquets ou Toni Kroos, últimos da geração onde receber para um lado e fingir com o corpo para o outro era o refogado do seu estilo; vergavam jogos à sua vontade usando os engodos da tanta técnica que tinham. Vitinha também, mas corre, farta-se de correr, o golo que marcou não nesta, na anterior final da Champions, é prova disso.
Ele tem algo de irónico assim como João Neves. Já que muito dado a comparações se assume o futebol, ele é uma espécie de sucessor de N’Golo Kanté. O francês era, ainda vai sendo, um destruidor de jogo omnipresente, incansável a cobrir todo o campo; o português encarna essas qualidades, acrescentando bastantes camadas: não se limita a correr, perseguir, disputar duelos, roubar ou desfazer o jogo dos adversários; também joga bastante no resto, excecional no controlo de bola, tentacular a guardá-la, movido por uma cabecinha pensadora com os neurónios em sintonia com os de Vitinha.
Seria ironia suprema que Roberto Martínez, elogiador em entrevista à Tribuna Expresso da “química natural” entre os jogadores, acendedor da brasa que esquenta a sua sardinha gabarola ao lembrar ocasionalmente ter sido quem os juntou pela primeira vez na mesma equipa, não aproveitasse esta telepatia na seleção nacional. Vitinha pensa a bola, João Neves vai buscá-la. Tenho para mim que separá-los deveria ser pecado futebolístico pelo que se vê quando jogam juntos.
Eu não os vejo nos treinos, mas não dá para ver como não dedicar o jogo de Portugal no Mundial aos dois que fazem mexer o melhor meio-campo do futebol europeu. Pode ser que seja por ter visto a final da Champions em Tavira, terra do menos badalado dos médios, atravessada pelo Rio Gilão que rima com João. Ou por ter olhos na cara."

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