"O melhor marcador da história do Haiti vai chegar ao Mundial 2026 sem ritmo. Apesar de estar ligado a uma equipa do Irão, decidiu fugir do país quando viu bombas caírem a 100 metros. A busca por um refúgio não se fez sem peripécias, nomeadamente uma espera de cerca de 35 horas na fronteira com o Azerbaijão que só foi resolvida graças a um cartão SIM virtual. O avançado de 32 anos não compete desde essa odisseia.
Em vésperas de Mundial, era altura de tratar da burocracia. A equipa iraniana do Esteghlal deu dois dias de folga e Duckens Nazon decidiu viajar até França. Internacional pelo Haiti, pretendia usar o descanso para tratar de papelada no país de nascimento, de modo a que tudo estivesse em ordem na altura da convocatória.
Sentou-se dentro do avião. Enquanto o
s procedimentos de embarque decorriam, recebeu uma mensagem de um amigo a jogar em Israel. O colega disse que estava a ouvir o alarme que sinaliza ataques. Duckens considerou-se um sortudo por não estar na mesma situação. Enquanto tinha este pensamento, o capitão mandou toda a gente sair do avião. O espaço aéreo tinha sido fechado.
s procedimentos de embarque decorriam, recebeu uma mensagem de um amigo a jogar em Israel. O colega disse que estava a ouvir o alarme que sinaliza ataques. Duckens considerou-se um sortudo por não estar na mesma situação. Enquanto tinha este pensamento, o capitão mandou toda a gente sair do avião. O espaço aéreo tinha sido fechado.
Voltou ao centro de Teerão, o alvo das investidas dos Estados Unidos e de Israel no final de fevereiro, porque a equipa treinada por Ricardo Sá Pinto estava a organizar a retirada dos jogadores estrangeiros. Pelo caminho, viu bombas caírem a 100 metros. Nazon esperou sete horas pelo veículo que o levou à fronteira com o Azerbaijão e demorou nove horas a completar o percurso. Quando chegou, eram 4h30.
De manhã, carimbaram-lhe o passaporte e preparava-se para seguir caminho. Porém, a travessia não seria assim tão fácil. Supostamente, precisava de um código para continuar. Duckens encontrava-se incontactável e, no Irão, a internet estava em baixo. Com um cartão SIM virtual de que, por acaso, era proprietário, fez um milagre com a pouca rede azeri que conseguia obter. Mesmo com dificuldades, falou com a mulher e acionou o embaixador francês no Azerbaijão. Ainda assim, esteve entalado entre os dois países aproximadamente 35 horas.
Desde aí, não voltou a jogar no Irão, país que, entretanto, suspendeu as competições. Apesar do pouco ritmo competitivo, o nome de Duckens Nazon consta da convocatória do Haiti para o Mundial 2026. Seria difícil que tal não acontecesse. O avançado tem 44 golos em 80 encontros, números que fazem dele o melhor marcador da história da seleção que esteve presente pela última vez no torneio em 1974. Mais seis encontros e isola-se também como o jogador com mais internacionalizações pelo Haiti.
Se tiver decidido escrever crónicas de viagens, certamente que tem material de apetecível leitura. Aos 32 anos, já jogou em oito países. Começou a carreira nos escalões inferiores de França antes de emigrar pela primeira vez. Estava na Índia quando o Wolverhampton demonstrou um súbito interesse no ponta de lança. Acabaria por não se estrear na equipa principal e continuar a carreira em países como Bélgica, Escócia, Bulgária e Turquia.
Durante o drama passado no Irão, a mulher estava a acompanhar a situação à distância. Junto a si, tinha os quatro filhos. Um deles nasceu há menos de um ano. A companheira de Duckens tinha uma cesariana marcada para o dia seguinte ao Costa Rica-Haiti, jogo de qualificação para o Mundial. Porém, o risco de o tempo de vida do bebé começar a contar antes do previsto era alto.
O jogador percebeu que não ia ser titular e decidiu questionar o treinador. Os dois tinham ideias divergentes sobre a situação. O técnico preferia que Nazon entrasse na segunda parte para dar um impulso à equipa. Desagradado, o jogador transmitiu que não estava disponível, porque queria estar junto da mulher durante o nascimento da criança. O selecionador argumentou que a sua presença era “importante para o espírito de equipa” e Duckens reclamou. “Não sou um comediante”, contou em entrevista à FIFA.
Ainda assim, o goleador acabou convencido e comunicou à mulher que ia assumir o risco de não assistir ao nascimento para estar no jogo frente aos costa-riquenhos. Duckens Nazon entrou na segunda parte e marcou um hat-trick, contributo fundamental para o empate (3-3). No final, a esposa entristecida com a decisão acabou por ter companhia na hora H."

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