Últimas indefectivações

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Convincente...

Braga 3 - 6 Benfica

Um dos melhores jogos do Benfica nesta época... estivemos bem a defender, o Cristian quando foi chamado esteve bem... e ao contrário de outros jogos, fomos razoavelmente eficazes no ataque! Sendo que o Henmi esteve mesmo inspirado...!!!

E já agora: um tweet do Fernando esta semana, levantou alguma especulação sobre um suposto mau ambiente na secção!!! A forma como jogámos, e como festejámos, espero que tenha acabado com todas as dúvidas!!!

Campeões em título, em frente...

Benfica 12 - 2 Diessbach

Já com a qualificação e o 1.º lugar garantidos, vitória normal, na última jornada...
Nos Quartos-de-final vamos defrontar o Liceo da Corunha...

PS: Em França, depois da vitória larga na 1.ª mão, as nossas meninas voltaram a vencer o Coutras por 2-5 (Rita Lopes(3), Maca, Marlene), qualificando-se para a Final Four da Liga Europeia feminina, onde vamos encontrar o Gijón, o Manileu e o Voltregá.

100% !!!

Madalena 0 - 3 Benfica
16-25, 9-25, 17-25

Mais uma vitória... amanhã temos novo jogo, desta vez na Luz, com a Ac. São Mamede.

Uma centena

Benfica 100 - 65 Lusitânia
36-16, 22-13, 20-12, 22-24

Continuamos a jogar sem 3 jogadores (Raivio, Morais, Lonkovic), mas contra estes adversários não se notam as ausências...

Juniores - 1.ª jornada - Fase Final

Benfica 3 - 2 Rio Ave
Dju, Tavares, Nuca


Boa vitória, num jogo complicado onde fomos superiores, mas permitimos dois golos completamente evitáveis... então o 2.º foi de bradar aos céus...!!!

Com vários jogadores na equipa B, os resultados desta equipa têm estado abaixo do esperado, mas os nossos principais adversários têm o mesmo 'problema', portanto temos que acreditar...

A impunidade vai dando força à coacção...

Benfiquismo (CCCLXXXIII)

Nas actuais condições, regressar a esta varanda,
para celebrar o Tetra...
... será hiper-épico !!!

Jogo Limpo... futebolês

Não me lembro de tamanha sorte!

"Vamos começar pelo princípio: que grande equipa tem o Borussia Dortmund! Pode vencer a qualquer equipa do mundo, joga muito, e bem, e poderá ser campeão europeu. Isto aumenta, em muito, o valor da vitória do Benfica, pois o Benfica venceu mesmo uma das melhores equipas do mundo.
Dito isto... não me lembro de ter assistido a um jogo onde o Benfica tivesse tanta sorte, onde a constelação cósmica se alinhasse para proteger o onze encarnado. Lembro-me de ter tido azar igual, ou superior, num jogo em casa com o Boavista com seis bolas ao poste (só de Katsouranis foram três), ou mesmo num jogo contra o Espanhol, dos quartos-de-final da Taça UEFA, onde a bola não queria entrar de maneira nenhuma.
Realmente Ederson é dos melhores do mundo e, na Alemanha, teremos de fazer mais e melhor para eliminar o claro favorito. Se é verdade que a defesa alemã é o ponto menos forte, também é verdade que não é nada frequente lá chegar. O ritmo e a velocidade dos alemães, a qualidade de jogo, são um hino a quem gosta de bom ter vencido e a preocupação de perceber o quase impossível que nos espera na ida. Ainda bem que a gloriosa história do Benfica é feita de impossíveis sucessivas. O Benfica vai disputar a qualificação na segunda mão, o Barcelona ou o Arsenal nem isso.
O jogo mais importante da semana é, sem dúvida, o da Pedreira, domingo em Braga. Para esse tem de haver o melhor Benfica, porque não vai haver Ederson nem Jonas. Jogámos bem contra o Arouca; até à expulsão de Ederson foi dos melhores jogos da época. Aquela vitória sobre o Arouca, a forma como foi obtida, os números finais do resultado, fazem acreditar no sonho do tetra. Esse sonho tem etapa decisiva no domingo."

Sílvio Cervan, in A Bola

A aposta na formação

"Já por diversas vezes defendi que a aposta na formação não deverá ser um fim em si mesma, mas antes utilizada enquanto instrumento no firmamento de um Benfica vencedor e sustentável económica e financeiramente. Se é, do meu ponto de vista, indiscutível que os jogadores oriundos da nossa formação não deverão gozar de oportunidades por decreto, não menos o é que, em caso de igualdade com outros atletas, deverão ser privilegiados na entrada no plantel da equipa principal.
Na actual conjuntura do futebol, a qual, estou certo, pendurá, a independência face aos 'tubarões' europeus só poderá ser obtida recorrendo à formação e, em paralelo, à prospecção de atletas de países cujo futebol é ainda mais débil que o nosso em termos económicos. Nas posições em que não for possível encontrar um atleta que garanta qualidade entre os habituais convocados, deverá recorrer-se a jogadores mais experientes e, em princípio, mais caros.
Em suma, é o modelo actual do Benfica e com o qual estou inteiramente de acordo. Mantendo-o, conseguiremos paulatinamente obter a independência referida acima (menores custos de amortização e maiores mais-valias na alienação de passes) e, consequentemente, incrementar a capacidade de retenção de jogadores devido à maior margem de decisão quanto ao timing das vendas.
Não creio que alguma vez consigamos estar ao nível ao Barcelona, mas entre o nosso estado actual e o dos catalães, há uma diferença considerável que poderemos esbater. Conseguindo-o, manteremos intacta a competitividade nacional (o que não significa que ganharemos sempre, nem tal alguma vez aconteceu) e aumentaremos as nossas possibilidades de um brilharete na Liga dos Campeões."

João Tomaz, in O Benfica

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Quando eu era pequenino...

"Escrevo esta crónica a poucas horas de entrar no Estádio da Luz para assistir ao embate com o Dortmund, em Dia dos Namorados. Olho cerca de 25 anos para trás e vejo-me, com uns 16 ou 17 anos, a encher a mochila de comida para ver o SL Benfica a jogar em casa, a uma quarta-feira, para a Taça dos Campeões. Não me lembro quem era o adversário, nem em que fase de competição nos encontrávamos. Isso não é importante para a história. Era sempre assim, de cada vez que havia noite europeia. Dia de semana, saíamos de Setúbal - uns amigos e eu - como a Luz em mente. 
Apanhávamos o comboio até ao Barreiro, cruzávamos o Tejo de barco até à Praça do Comércio, atravessávamos a Baixa a pé até ao metro e só saíamos no Colégio Militar. Levávamos tupperwares com panados e rissóis, comprávamos cervejas pelo caminho acampávamos à porta da Rampa 2, à espera que nos deixassem aceder ao Terceiro Anel.
Entrávamos três ou quatro horas antes de o jogo começar, jogávamos à sueca e à moeda sobre o cimento das bancadas. Esperávamos, sem angústia.
A equipa entrava em campo para aquecer e era a loucura. Do topo do estádio tentávamos adivinhar quem jogava de início. Passávamos hora e meia a cantar, a incentivar, a insultar quando se justificava. Os golos eram festejados com o mesmo com quem se partilhavam os rissóis.
No fim do jogo, já a caminhar para a meia-noite, fazíamos a viagem de regresso a casa: a pé, de metro, a pé, de barco, de comboio, a pé novamente.
Duas horas para chegar à cama. O dia seguinte era de escolha às oito da manhã. Ninguém se queixava. Ninguém se continua a queixar. O amor é assim."

Ricardo Santos, in O Benfica

#Luisão500

"Como todas as grandes organizações, o Sport Lisboa e Benfica rege-se por princípios éticos e valores que ajudam a reforçar os elementos identitários da nossa cultura desportiva. Luisão é um dos protagonistas dessa cultura desportiva. Luisão é um dos protagonistas dessa cultura. Quando falamos do nosso capitão, todos sentimos o orgulho que ele sente em pertencer à maior instituição desportiva portuguesa. Ao longo de 14 épocas provou toda a sua dedicação, aplicação extrema para ajudar na conquista de 17 títulos êxitos esses que permitiram honrar a história ímpar do nosso Clube.
Outras das facetas é a abnegação continua, já que Luisão não só nunca desanimou perante as dificuldades, como tudo tem feito para transformar os problemas em êxitos. Luisão conquistou um estatuto que lhe permite ser respeitado pelos adversários, árbitros, dirigentes e adeptos. Porquê? Porque Luisão sempre pautou as suas actuações com categoria, trabalho árduo e empenho notável para vencer todos os desafios. Com Luisão as nossas equipas revelaram-se audaciosas, com iniciativa, empreendedorismo e espírito ganhador. Uma outra virtude que deve ser destacada é a sua honestidade, baseada em valores tão raros - verdade e verticalidade.
Outras das razões que me levam a admirar Luisão é a sua modéstia, manifestando em todos os momentos comportamentos amáveis, francos, discretos e tolerantes. Uma faceta que catapultou Luisão para o patamar dos intocáveis tem que ver com o seu espírito solidário, dando a cara por várias causas. Mas há um valor em que Luisão se tem revelado imbatível - o espírito de equipa. É por reconhecer em Luisão todos estes atributos que considero que ele interpreta, de forma exemplar, a chamada Mística."

Pedro Guerra, in O Benfica

Passado e presente: dois símbolos

"1. A chegada de Fernando Chalana à equipa principal do Benfica coincidiu, no tempo, com o meu despertar para o futebol. Ainda muito jovem, já o “pequeno genial” era a estrela que fazia a diferença. Com barbas grandes e um pé esquerdo divinal, trocava os olhos a qualquer defesa. Sempre com um toque de magia, driblava, cruzava e marcava. Todos na escola queríamos ser como ele. Era um ídolo. Era o ídolo. Para a minha geração – que já não chegou a tempo de Eusébio – Chalana lia-se Benfica. Havia outros (Bento, Humberto, Toni, Shéu, Nené…), mas Chalana era o melhor. Foi ele o “meu” Eusébio. Na semana passada, Chalana completou mais um aniversário. Para os mais novos, que nunca o viram jogar, é preciso dizer que se tratou de um craque, que facilmente entraria num top-5 dos melhores de sempre do futebol português. Se têm dúvidas, vejam ou revejam o Europeu de 1984. Devo-lhe muito do meu benfiquismo.
2. Luisão completou esta semana a impressionante soma de quinhentos jogos de águia ao peito. Nessa estatística, só é suplantado por Nené, Veloso e Coluna, figurando à frente de nomes como Eusébio, Simões, Humberto, Shéu e Bento. Anderson Luís da Silva veio para o Benfica em tempos difíceis, quando nada ganhávamos. Quando começávamos a recuperar do período mais negro do nosso historial. Daí para cá fomos crescendo, até atingir o nível gigantesco e ganhador que ostentamos hoje. Luisão foi, dentro do campo, o principal rosto desse processo. Capitão com letra grande, tem o seu lugar assegurado na história do Benfica. Chalana e Luisão, dois símbolos maiores do Glorioso. Os meus parabéns a ambos!"

Luís Fialho, in O Benfica

À Portuga

"À portuga é termos três estarolas que não sabem o que estão a dizer.
À portuga é chegar a um centro de estágio e ameaçar tudo e todos em directo pelas TV.
À portuga é existirem agentes desportivos que ficam todos molhados de medo.
Á portuga é ninguém perceber nada de nada e comer como bom tudo o que lhe vendem.
À portuga é viver escondido na ponta da Europa e somar três mais três para dar sete.
À portuga é o discurso inflamado e brejeco ser mais eficiente do que o discurso sincero e honesto.
À portuga é andarmos sempre a falar do mesmo sem percebermos do que estamos a falar.
À portuga é o futebol, o fado e Fátima serem realmente os três milagres nacionais.
À portuga é já nem aqueles que considerávamos os Juízos Finais saberem o que fazem ou o que devem fazer.
À portuga é afinal passar a vida a falar do mesmo sem dizer nada!"

Pragal Colaço, in O Benfica

O Benfica europeu

"Pelo que se viu esta semana, ganha dimensão a vitória do Benfica sobre o Dortmund. Mas não deve a águia ignorar como a conseguiu!

Disse Mourinho esta quarta-feira que o miúdo Ederson salvou o Benfica no jogo com o Borussia Dortmund. Falava o treinador português numa conferência de imprensa do seu Manchester United quando lhe pediram para comentar o triunfo encarnado Mourinho destacou naturalmente Ederson e com toda a razão.
Ederson ficou na verdade como o gigante encarnado de uma noite que para já valeu ao Benfica ter mantido realmente em aberto estes oitavos de final da Liga dos Campeões. Um golo na Alemanha e podem na verdade os benfiquistas ter esperança de seguir em frente numa competição que é tão dura, tão particular, tão exigente, tão surpreendente que o Barcelona só levou quatro em paris e o Arsenal só levou cinco em Munique.
O miúdo Ederson foi mesmo impressionante na Luz. Executou, sobretudo, três defesas decisivas - duas a remates de fora da área, o último dos quais a levar a bola a tocar no corpo do imprudente Jiménez e a quase trair o fenomenal guarda-redes encarnado, e uma a parar a grande penalidade que condenou no jogo o gabonês Aubameyang. Nesse sentido, Ederson salvou, pois, o Benfica e terá confirmado ser, no momento, um dos cinco melhores guarda-redes a jogar na Europa, num grupo que, a meu ver, terá ainda o eterno Buffon (Juventus), Manuel Neuer (Bayern), De Gea (Man. United) e Oblak (Atl. Madrid).
Ederson não podia, pois, deixar de ter sido considerado a grande figura deste duríssimo embate da mais difícil competição de futebol do mundo, que reservou ao Benfica o destino de sofrer e saber sofrer diante de um Borussia Dortmund muito poderoso e muito ofensivo, mas que foi incapaz de fazer um golo na Luz.

O principal mérito do Benfica? Sobretudo, repito, o de ter sido humildemente capaz de aceitar o sofrimento a que o jogo o destinou, quer por ter entrado com um onze demasiado desequilibrado, na minha opinião, quer por, em muitas circunstâncias, não ter sabido dar um safanão no domínio adversário, mostrando insuficiências de algum modo até inesperadas - Carrillo não foi capaz de interpretar o indispensável papel defensivo e Rafa nunca conseguiu ser elo de ligação eficaz de acção atacante.
Mas não foi só. Não me lembro de ver Fejsa, por exemplo, fazer um jogo tão mau, do mesmo modo, já agora, que me parece que há muito que Luisão não fazia um jogo tão bom, tendo até (coisa pouca!!!) sido decisivo no golo conseguido por Mitrolgou.
Foram poucos, na verdade, os jogadores encarnados que conseguiram aproximar-se mais do nível que exige a Liga dos Campeões (fantásticos Ederson e Nélson Semedo acima de todos os outros). Apesar disso, não se pode esquecer o trabalho muito competente de Mitrolgou, o bom desempenho dos centrais, a permanente a extraordinária atitude de Salvio mesmo quando as coisas não lhe correm bem, e a esperteza de um Eliseu que se limitou a tentar não dar, e na verdade não deu, um único passo em falso.
Bem mais pálidos em campo Fejsa e Pizzi, sem nunca conseguirem pegar na bola, e Carrillo e Rafa, que não deixaram praticamente nada no jogo.
Percebe-se, assim, como o Benfica se vale muito da estabilidade emocional da equipa e da força de um balneário que só pode mesmo respirar um ambiente... muito saudável. Sem isso, dificilmente resistira a tanto.
Junte-se-lhe ainda o poder mágico do inexplicável, porque há no futebol - e todos no futebol sabem que há - treinadores que são autênticos... pés frios... capazes de atrair a infelicidade mesmo quando nada o faz prever, e treinadores que são verdadeiros pés quentes... abençoados até no momento em que o talentoso adversário escolhe atirar a bola para o centro da baliza na marcação do penalty e vêem (muito invulgarmente) o seu guarda-redes decidir não se mexer e (muito surpreendentemente) defender a bola e garantir a vantagem.
Rui Vitória, está visto, é mesmo um treinador pé quente!

Foi o Borussia Dortmund senhor do jogo na Luz. Mas é bom lembrar que uma boa parte dos momentos de maior aflição vividos pela equipa da Luz aconteceram por culpa própria e não tanto por mérito do adversário - a bola perdida em zona proibida, o mau alívio, o corte defeituoso, a atrapalhação no momento de decidir o caminho a dar ao lance (por exemplo, quando Fejsa ficou à espera de Ederson e Ederson ficou à espera de Fejsa, num lance aparentemente controlado que acabaria por dar ao Dortmund mais uma oportunidade para marcar).
Em todo o caso, é evidentemente consensual a dificuldade que o Benfica sentiu para suportar a qualidade de jogo da equipa alemã, o que ainda releva mais a dimensão da vitória benfiquista, graças a um golo pleno de eficácia e sentido de oportunidade (muito bem Luisão e melhor ainda Mitrolgou!...) e a um evidente e sólido espírito de equipa, volto a repetir, que tem realmente permitido ao Benfica de Rui Vitória superar-se mesmo quando a realidade do jogo nos mostra um futebol encarnado bem mais insuficiente do que seria de esperar.
Como foi, mais uma vez, o caso."

João Bonzinho, in A Bola

Os ardis da crença

"De repente tudo parece desmoronar-se e desabar - e um calafrio percorre os nervos em franja do universo benfiquista. O mais engraçado e irónico, porém, é que nada do que se está a passar fica fora do arco das fervorosas previsões de responsáveis e afins.
Ouvi-o vezes sem conta aos mais expeditos e iluminados comentadores quer do Benfica quer do mundo da bola em geral: o Benfica vai seguramente perder pontos, vai passar também por dificuldades e o desfecho do campeonato é dramaticamente incerto – vai ser discutido taco-a-taco até ao fim!
O mais recente contributo para esta onda de arúspices do aperto foi protagonizado pelo inefável adjunto do técnico benfiquista que, no rescaldo da cheia do Sado, ao tentar desajeitadamente recolher os cacos da desgraça, não encontrou melhor justificação do que a seguinte sentença, em jeito de conveniente soporífero: “nós sempre dissemos e estamos seguros que isto vai ser mito apertado até final – e é o que está a acontecer”.
O que mais impressiona é esse narcísico suspiro de alívio, esse trejeito vagamente triunfal de ver confirmado na prática aquilo que tão ousada e diligentemente fora pelos próprios previsto. Esta a sua glória!
Sim, o circunspecto adjunto do castigado Vitória, naquele seu ar de seminarista recém investido das ordens menores, achou-se possuído do pentecostal carisma da profecia que, ao fim, nada mais fará do que auto-realizar-se, enchendo de infecto ar os pulmões ufanos de tão délficos arúspices.
Meus amigos, a coisa é feia, séria …e desarmantemente simples: as nossas crenças, veiculadas pela densidade sémica da palavra, criam a nossa realidade – sempre.
Os males do mundo não são consequências absolutas de um Deus mágico e caprichoso, que se entretêm a colocar à prova os pobres mortais. Não: cada um de nós, a partir do seu real estado de consciência, é, através da sua operante intencionalidade, o co-criador da sua própria experiência. Os males, incluindo os que povoam o instável território da bola, não são fulgurações aleatórias de uma realidade caótica e em desalinho – eles são, de facto, categorias móveis da nossa situada percepção. 
Muita gente, atletas e treinadores, se entregam a severos regimes dietéticos no afã de acautelar o almejado sucesso, mas a ninguém ocorre exercitar um outro tipo de dieta, urgente e essencial – a dieta de pensamentos, emoções e sentimentos, pois todos transportamos um SOE (sistema de orientação emocional): diz-me como te sentes e dir-te-ei quem serás e o que terás. Há um famoso ditado com que “nuestros hermanos” costumam ilustrar esta verdade perceptiva: “en este mundo traidor, nada es verdad ni mentira: todo es del color del cristal con que se mira”. Nem mais.
De facto, este nosso mundo é pintado com as cores dos óculos com que armamos este nosso incauto e impertinente olhar – é por isso que a nossa avó nos prevenia para os malefícios do “olho gordo” da inveja da vizinha, do “mau olhado”. Não é no olhar que está o mal, mas no sentimento venenoso que o inquina e turva.
O pretensioso exercício de antecipar tempestades como elemento de afirmação de uma competência à prova de toda a sorte de ventania é o mais tonitruante logro em que alegremente cai a esmagadora maioria dos treinadores. Não cuidam eles que, com esse zelo premonitório, o que fazem é darem-se a si mesmos razão, num patético e irónico afago a um ego que é precisamente isso que, acima de tudo quer: ter razão!
E lá se ficam eles com essa penosa razão – e com ela se revolteiam noites inteiras, numa insone e insana luta com o infindável cortejo de seus fantasmas de estimação. Chega, haja bom senso: cuidem-se e vejam bem não tanto o que pela boca lhes entra mas sobretudo o que dela sai – vindo do coração.
Juízo, se querem que o sucesso lhes amaine e cure as insónias.
Talvez o António Conte possa contar como é...talvez. Digo eu…"

Benfiquismo (CCCLXXXII)

Mestre...

Aquecimento... de volta ao Tugão!

A partir de agora vai valer tudo contra o Benfica

"No ano passado a santa aliança fez-se em torno do Sporting. Agora é o FC Porto. O que estiver mais longe do Benfica abdica de lutar pelo título e apoia o outro.

1. Liga dos Campeões: Benfica vinga vitórias morais dos 'outros'
Pois, enquanto pensava no tema para esta crónica de hoje, ia vendo o Benfica a fazer um jogo pouco conseguido, em termos atacantes, mas de uma eficácia total, a nível defensivo.
Contra um Borussia Dortmund que julgava que vir a Lisboa era sinal de vitória, mesmo jogando sem 9 ou 10 dos jogadores considerados efectivos.
E, não dizem os especialistas, que um bom ataque dá vitórias e uma grande defesa dá campeonatos?
A não ser que essa verdade, com o Benfica, não seja tão verdade como isso, para poderem criticar como tanto gostam de fazer em relação a nós e têm tanto medo de fazer com os outros (uns e outros, porque, neste caso, a falta de coragem para com os dois amiguinhos chegar a ser... pornográfica)!
Vingámos, assim, com aquele golo de Mitrolgou, as vitórias morais de quem nos habituou a «jogar como nunca e a perder como sempre»!
Mas, a par dessa vitória - e de uma exibição monstruosa de Ederson - Luisão comemorou 500 jogos de águia ao peito.
É obra!
500 jogos, só superados, no Benfica (se as fontes estatísticas a que recorri não me induziram em erro), por Mário Coluna (528), António Veloso (534) e Nené (578).
500 jogos num mundo onde o normal é mudar algumas vezes de clube (e todos nós sabemos quem, na esmagadora maioria das vezes, leva os jogadores a isso).
500 jogos felizmente atingidos, apesar de algumas tentações de saída (umas reais, outras... nem por isso), para dar consistência e densidade histórica a um balneário que mudou precisamente.. com Luisão.
Porque a história de muitos títulos começa, precisamente, ... no balneário e no que apreendem, com os mais velhos, os que vão chegando, em cada ano!
Como David Luíz fez questão de nos relembrar (ainda esta semana), sobre a importância de Luisão na sua percepção sobre o que significava... ser jogador do Benfica.
E sobre a dimensão, a grandeza, a diferença entre o Benfica... e os outros!
Parabéns, Luisão!
E força aí, porque Mário Coluna está, apenas, a uma época de distância (ou menos, se com uma exibição à Benfica, continuarmos - como acredito - na Liga dos Campeões, eliminado, para já, o Borussia)!
Mas, atenção, porque a partir de agora, com o facto de nós termos muito mais jogos do que os outros (esperando eu que isso se prolongue no tempo, por boas razões), contra o Benfica, vai valer tudo.
Tudo, mesmo!
Como no ano passado, a santa aliança (sem maiúsculas para nivelar com os ataques que nos dirigem) se fez em torno do Sporting, porque estava mais próximo de ser capaz de evitar o nosso tricampeonato, também este ano a reedição dessa velhíssima junção de forças se fará, desta vez em torno e em apoio ao Porto.
Na última semana, expliquei, aqui, a adaptação que fazem - esses teóricos e estrategas do vale tudo contra o Benfica - do princípio da subsidiaridade ao futebol português.
Ou seja, ... como então referi, ... o que estiver mais longe do Benfica abdica de lutar pelo título e apoia o outro.
Essa foi - e ninguém me pode impedir de ser essa a minha convicção - a ideia que bailava na mente (ou no subconsciente, pois então) do treinador do Sporting e que o traiu quando afirmou, nas vésperas de ter ido ao Dragão, com 7 pontos de atraso para o Benfica, que no máximo que podia ambicionar era lutar pelo 2.º lugar.
Um 2.º lugar que, a ser esse mesmo o seu objectivo, seria conseguido mais depressa sem oferecer meia parte e 2 golos ao Porto no jogo do passado dia 4.
Para agora, a 9 e a 10 pontos de atraso do 2.º e do 1.º, voltar a afirmar que ainda pensa no título!
Pensar, não pensa!

Pensa, isso sim, no único jogo que tem até ao fim da época: o que vai ter contra nós!
Se tivessem ganho ao Porto ficavam a 7 do 1.º e a 3 do 2.º!

Mas ainda bem que fizeram um hiatozinho na vontade de querer ganhar... precisamente no joguinho contra o Porto!
Ou melhor... no encontro em que o clube anti-Benfica do Porto recebeu o clube anti-Benfica de Lisboa.
Até mais do que o ridículo, ... o ódio ao Benfica mata-os!

2. Os novos 'condottieri'
Por isso, por essa disponibilidade de muitos sportinguistas darem a cara por causas que não são as suas, me lembrei - com as devidas distâncias mas com a liberdade de pensamento que tenho, por muito que isso custe a muita gente - dos Condottieri italianos, dos séculos XV e XVI.
Eles que se batiam de acordo, não com convicções, mas, antes, por interesses!
E embora me digam que as convicções de uns são os interesses dos outros e vice-versa... eles só pensam (uns e outros) em impedir o tetra do Benfica!
Porque, como não me canso de referir - e o que eu digo, preocupa-os... e muitos - para um deles ganhar, não precisa de ganhar!
Para um deles ganhar, ... basta o Benfica perder!
São assim, os pequenotes!
Por isso, passado este interlúdio de liderança estratégica, com alguma visibilidade do Sporting, voltamos a assistir ao reaparecimento do Porto no 1.º lugar do combate contra o Benfica!
Um combate que nos volta a trazer à lembrança os tempos do Apito Dourado!
Que não me cansarei de recordar.
E isso - sabemos das respectivas páginas de comunicação - como lhes dói!
Como seria bom apagar essa fase como se apaga o que se escreve num quadro negro!
A mesma cor - o negro - dessas páginas vergonhosas de corrupção do desporto português!
Eles estão de volta!
Para ganhar?
Não acredito!
Mas sei que, em cada estádio, em cada jogo, em cada minuto, teremos de lutar contra os que nos querem ganhar, porque jogam contra nós (o que é natural)... e os que nos querem ganhar... mesmo não jogando contra nós... ou não tendo, sequer, interesse directo no resultado que possamos fazer, a não ser o de que ganhem todos, menos nós!
Porque a sua inveja de adeptos e de dirigentes é o que alimenta e motiva a sua relação (mal resolvida como só Freud poderá explicar) com quem sabe que lhes é superior!
Por isso, em Braga, vamos ter mais um jogo do título.
Onde teremos que jogar tudo, mas tudo mesmo, para lhes dar a resposta que merecem.
Com respeito pelo Sporting de Braga, mas com a obrigação de oferecer a todos nós... uma resposta que todos temos que dar!
Porque, como todos sabem... maior de que nós, nem a inveja deles.
E, já agora, digo eu, ... mesmo juntando a de uns e de outros, seremos sempre maiores.
Maiores do que eles, juntos!
Carrega, Benfica!!!"

Rui Gomes da Silva, in A Bola

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O que é a Cavalgada das Valquírias comparada com a Vaca da Luz?

"Há dias em que o mundo, ainda que por breves instantes, parece perfeito. Senão reparem: num jogo da Liga dos Campeões, uma equipa portuguesa derrota um adversário alemão e o marcador do golo que decidiu a partida é grego.
Que mais se poderia pedir aos deuses do velho Olimpo?
Uma breve, simbólica mas saborosa vingança contra a troika, os mercados, o intratável Schäuble e as diatribes racistas contra os PIIGS. E tanto mais deliciosa quanto o treinador do Borussia veio declarar no fim do encontro que o resultado “tinha sido ridículo”. Talvez. Mas não mais do que uma equipa com 64% de posse de bola e 14 remates não conseguir meter nem um golinho para a amostra. O digno herr Tuchel não levará a mal mas, há perto de um século, os britânicos inventaram uma coisa chamada fair play que, tal como o álcool, as febras e o bailarico, é para consumir, mesmo que em doses mínimas.
Dito isto, foi uma noite digna dos velhos tempos? Não! Na primeira parte o Benfica viu completamente asfixiada a saída de bola e teve de recorrer ao pontapé para a frente. Houve momentos de verdadeiro terror junto à baliza sul, com a bola a passar a centímetros da barra ou a percorrer perigosamente uma trajectória paralela à linha de golo.
Na segunda parte houve arreganho, sorte a marcar (que melhor prenda poderia Luisão ter querido no 500.º jogo pela sua equipa?) e competência a defender, a começar por esse notável guarda-redes chamado Ederson que não se deixou enganar por um penálti batido (perdoe-se a expressão) à cagadinha.
Na bancada os últimos dez minutos foram de verdadeira loucura, com 50 mil aos saltos, a gritar, a aplaudir, a rir, a chorar. A começar pelo meu improvável vizinho do lado, um rapaz que se apresentava enrolado numa bandeira vermelha com uma águia bicéfala preta e que me explicava “eu sou albanês”, enquanto gritava pelo Benfica com um sotaque mais que aceitável.
E agora? Como vai ser em Dortmund? Não sabemos, mas estes momentos de glória, mesmo mal jogados e com alguma sorte à mistura, ninguém nos tira. De resto, se o futebol fosse uma ciência exacta seria jogado por físicos de partículas e engenheiros aeroespaciais. E as equipas com mais dinheiro e mais nome ganhavam sempre. Vêm aí 90 minutos verdadeiramente infernais mas o que é a Cavalgada das Valquírias comparada com a Vaca da Luz? E, afinal, como a História demonstrou, os panzer, esses prodígios de engenharia, também tinham marcha atrás."

A sorte (e não só)

"No rescaldo da Luz, a primeira coisa que ouvi, ouvindo-a num tom ressequido, ressequido e amargo, foi:
- É verdade, o Benfica ganhou ao Dortmund, mas levou um banho de bola...
Exagero, claro - e não foi só esse exagero que me levou a pensar no Mujammad Ali, no Ali ter dito:
- Não são as montanhas à nossa frente que nos cansam ou que nos vencem, o que nos cansa e o que nos vence é a pedra que vai no nosso sapato...
Sim: o Benfica não se cansou e venceu porque fez o seu jogo (mesmo quando andou entre o susto e o negrume...) sem que se vissem os seus jogadores a jogá-lo de pedras nos sapatos.
Outra coisa que ouvi, ouvindo-a num tom displicente, displicente e ressabiado:
- ... Rui Vitória levou do Thomas Tuchel um banho de táctica ainda maior...
Disparate, claro - e não foi só esse disparate que me levou a pensar no Alex Ferguson, no Ferguson ter dito:
- Não se é capaz de construir uma grande equipa com almas irrequietas...
Sim: perante esse Dortmund que é uma trituradora máquina de ataque, nunca se viram, no Benfica, almas irrequietas - e se isso é mérito dos jogadores que as não têm, mais mérito é do treinador que é capaz de fazer o que faz dos jogadores.
Outra coisa ouvi, ouvindo-o num tom oblíquo, obliquo e farisaico:
- O resultado é ridículo. Jogámos muito bem, fizemos grande exibição...
Engano, claro - porque ninguém joga bem perdendo como o Borussia perdeu, ninguém joga bem falhando o que o Borussia falhou. E não, não foi só esse engano que me levou a pensar no Jorge Valdano, no Valdano ter dito:
- No futebol ou se luta ou não se luta - e muito pior do que não se utar é um jogador colocar a agressividade errada no sítio errado... porque o que o Benfica fez foi colocar a agressividade certa no sítio certo - tendo debaixo da sua baliza duas mãos de um deus qualquer. Foi sorte? Sim, foi - foi a sorte do ponto onde a competência se encontrou com a oportunidade..."

António Simões, in A Bola

Nova imagem no Benfica Emirates



Reabertura...!!!

Canadá, o 20 no Benfica e Paris iluminada

"Não se esqueçam que passa entre os pingos da chuva sem se molhar ou que teve de lutar em campo enquanto a filha lutava pela vida. Não se esqueçam do Fideo...

Lionel Messi.
Deixem-no ali, no topo, no lugar dele. Esqueçam-no, imaginem que não existe.

América do Norte, 2007.
José Couceiro com 21 futebolistas.
Leva um guarda-redes campeão europeu por Portugal e um outro pela lateral-esquerda do Real Madrid. O técnico não o sabe. Nem eles ainda o são.
Leva Zezinando, Paulo Renato e Feliciano Condesso. Bruno Pereirinha, Bruno Gama, Nuno Coelho ou Zequinha.
Já o Japão leva um tal Shinji Kagawa.
A Polónia um guarda-redes chamado Szczęsny e o Canadá tem outro de nome Begovic.
Espanhóis: Adrian Lopez, Alberto Bueno, Mario Suárez, Piqué, Granero, Javi Garcia, Juan Mata.
O México tem Giovani dos Santos, Carlos Vela e Javier Chicharito Hernández.
Os EUA Jozy Altidore, Michael Bradley e a mais espantosa das estrelas cadentes: Freddy Adu.
O Brasil, claro, nunca esquecer o Brasil: Alexandre Pato, Luiz Adriano, Renato Augusto, Marcelo, Willian, David Luiz e Leandro Lima que não tinha o direito de lá estar.
E o Chile? Arturo Vidal, Gary Medel, Mauricio Isla e Alexis Sanchez.
Agora o Uruguai: Edinson Cavani e Luis Suárez. Martin Cáceres também.
Atenção que entra a Argentina em campo!
Sergio Romero, Gabriel Mercado, Federico Fazio, Emiliano Insúa. 
O-novo-Fernando-Gago-que-até-já-é-o-novo-Fernando-Redondo: Ever-Banega. Pablo Piatti e… …Sergio Kun Aguero….

América do Sul, 2007, tempos antes.
Riquelme, Pablo Aimar, Lucho Gonzalez, Javier Zanetti, Carlitos Tevez.
E apenas para treinar na preparação para a Copa América na Venezuela:
«Alfio Basile pôs um miúdo. (…) Vinha com todas as dificuldades físicas que pode ter um rapaz de 19 anos, mas via-se logo que era diferente, um jogadorzaço.»
Hernan Crespo, in Mundo Deportivo 

Península Ibérica, 2007, ao mesmo tempo.
Fernando Santos, treinador do Benfica: «Perder Simão Sabrosa seria um pesadelo».
O 20, capitão, sai mesmo.
Iliev, Jordão, Hugo Leal, Maniche, antes de Sabrosa.
Nico Gaitán e Gonçalo Guedes depois.

O Grande Octágono, 2017.
Praticamente nove anos e meio passados, em França: Verratti, Cavani, Matuidi, Rabiot, Pastore e Lucas.
Piqué, Busquets, Iniesta, Luis Suárez, Neymar.
Desde o início do texto e no Parque dos Príncipes também, Messi esquecido..

Futuro...
Não se esqueçam é de quem iluminou Paris pelo menos por uma noite. Nem se esqueçam do escolhido por Basile para treinar com a constelação argentina, aos 19 anos.
Não se esqueçam de quem caminha ao lado de Piqué, Luis Suárez, Edinson Cavani ou Aguero: todos eles emergentes do Mundial sub-20 de 2007, no Canadá, um dos que deu mais estrelas ao futebol mundial.
Não se esqueçam de Simão, mas lembrem-se de Di María.
Que foi memorável numa das noites mais memoráveis do Parc.
Que foi campeão europeu em Lisboa pelo Real Madrid. Que «caiu» no Manchester United e reergeu-se em Paris.
Que foi o melhor 20 da Luz.
Que esse número que Simão tornou pesado, o argentino sublinha de cada vez que brilha numa carreira de nível altíssimo.
Lembrem-se que lhe chamam Fideo.
Que passa entre os pingos da chuva sem se molhar.
Que teve de lutar em campo enquanto a filha lutou pela vida.
Que nos últimos anos, na Argentina - a que esteve mais próxima do Mundial desde a era Maradona - não há ninguém acima dele!
E não se esqueça de voltar ao topo do texto, se ainda tiver dúvidas."

500 Luisões

"O quingentésimo jogo oficial de Luisão no Benfica, ao longo de 14 temporadas e um dia depois de perfazer 36 anos, é um marco assinalável. Para o atleta, para o homem e para o clube. Sobretudo num tempo em que a permanência num clube é uma ideia que se esvanece com uma ligeira brisa de vento, quer dizer de dinheiro, em que a transumância clubista é alucinante e em que as juras de fidelidade eterna são um devaneio de um qualquer entusiasmo de momento.
Gostei de ver as imagens de Luisão no fim do jogo para a Champions a falar embargado pela emoção. Gostei, porque senti autenticidade naquela sua maneira muito peculiar de ser e de estar.
O mágico número 500 é, em numeração romana, D. Neste caso de Dortmund, depois da belíssima assistência para o golo de Mitroglou. No sistema binário corresponde a 111110100, o que não deixa de ser curioso porque o Benfica venceu por 1-0 e nós, no Estádio gritámos efusivamente o 1 (golo) e Ederson, Luisão e & C.ª asseguraram o 0, igualmente festejado com alegria e sorte.
Chegado à Luz com 22 anos, não se pode dizer que chegou, viu e venceu. Precisou dessa variável às vezes tão traiçoeira, que é o tempo. Hoje é vertiginosa a velocidade com que se transforma um jogador banal num astro e se reduz a pó uma antes cognominada estrela. Luisão teve de convencer, com inexcedível profissionalismo, perseverança, determinação e exemplar respeito pela camisola que enverga, o exigente tribunal encarnado. Passo a passo, soube conquistar a consideração e gratidão dos adeptos e construir uma carreira brilhante, enquanto jogador e (eterno) capitão de equipa. Por tudo, obrigado Luisão!"

Bagão Félix, in A Bola

Luisão: uma viagem no tempo

"Luisão chegou ao Benfica numa época em que os jogadores se equipavam numa garagem do velho Estádio da Luz, jogavam no Estádio Nacional, treinavam-se uns dias na Cidade Universitária, outros em Massamá e por vezes no Monte da Galega, na Amadora. Pouco depois de se integrar no novo plantel, teve uma lesão muscular grave motivada por uma cárie. Simultaneamente, via o grande FC Porto de Mourinho assumir-se como uma potência europeia, vencendo uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões. O Benfica era uma testemunha ocular da hegemonia dos dragões em Portugal.
Pensar nesse Luisão e no de agora não é apenas uma viagem no tempo. É identificar um jogador que assistiu de perto à profunda transformação de um clube. Se em 2003 corria o risco de tropeçar num fio às escuras ao sair do balneário em direcção ao parque de estacionamento, hoje tem à volta dele uma enorme equipa multidisciplinar, é tricampeão, aspira ao inédito tetra e tem nova palavra a dizer na Champions.
A cerimónia que ontem se realizou no camarote presidencial pela ocasião dos 500 jogos do capitão das águias foi a de um emblema que atingiu há muito a maioridade, com todos os momentos e elementos pensados ao pormenor. Da luz certa ao verbo, dos abraços ao improviso e até da abertura saudável à imprensa, tantas vezes submetida ao papel de figurantes em ocasiões do género.
É correta a decisão de Luís Filipe Vieira em renovar com Luisão. Não só pelo que o defesa fez em 14 anos (mesmo descontando as vezes em que quis sair, e não foram poucas) mas porque o brasileiro é a prova viva de que com pouco se pode fazer muito. Porque apesar de não ser um Humberto, soube ser Coluna. Uma equipa que ainda sonha com a utopia (Liga dos Campeões) precisa de um líder assim."

Fernando Urbano, in A Bola

Benfiquismo (CCCLXXXI)

E assim nascia uma Lenda...

Uma Semana do Melhor... (semana anterior)!!!

Vitória importante, derrota ridícula...

"O Benfica venceu o Borussia Dortmund e ganhou uma vantagem significativa para a partida da segunda mão, a disputar na Alemanha. Foi um jogo complicado para os da Luz, que viram o adversário falhar várias oportunidades, mas ainda mais complicado para os forasteiros, que regressam ao Iduna Park vergados ao peso de uma derrota, por mais que achem que deviam ter ganho...
No fim da partida, o treinador do Dortmund, Thomas Tuchel, classificou o resultado de «absolutamente ridículo», numa manifestação flagrante de arrogância e falta de desportivismo. Quanto muito, ridícula terá sido a forma como decidiu castigar Aubameyang, tirando-o do jogo quando ainda faltavam muitos minutos, para alívio dos jogadores do Benfica, sempre apoquentados pelo goleador gabonês, que embora estivesse desinspirado continuava a representar o maior perigo para as redes de Ederson.
Por falar em Ederson, a exibição que assinou ontem tem entrada directa na galeria das melhores de um guarda-redes encarnado numa noite europeia. A defesa que fez, já à beira do fim, e um remate de Pulisic, que ainda desviou em Jiménez, vai dar a volta ao mundo, pela dificuldade que encerrou, mas também pela beleza plástica daquele movimento corrigido a meio, por asas invisíveis, a dizer não ao golo.
Quanto ao Benfica, deve meditar nas dificuldades que sentiu, especialmente na primeira parte, para poder crescer em qualidade, especialmente a meio-campo, onde se mostrou quase sempre pouco à altura das necessidades. E não há melhor momento no futebol para fazer correcções do que depois de um triunfo saboroso..."

José Manuel Delgado, in A Bola

Os milhões estão no fim das pedras

"1. O Benfica não foi descobrir Ederson atrás das pedras porque o brasileiro já representava um grande clube brasileiro, o São Paulo. No entanto, o guarda-redes teve de percorrer o caminho das pedras até se consolidar como titular indiscutível nos encarnados, relegando indiscutivelmente para o banco o consagrado Júlio César. Ederson chegou sozinho a Lisboa com 16 anos, apontaram-lhe muitos defeitos, teve de ir ao Ribeirão e ao Rio Ave para mostrar qualidade e voltar ao Benfica. Na primeira prova de fogo, o jogo com o Sporting na época passada, poderia ter saído queimado, tal a responsabilidade associada. Não saiu. Longe disso. O Dortmund, nos jogos em casa, costuma ter uma parede constituída pelos seus adeptos e empurrá-lo para as vitórias. Ontem houve uma parede branca intransponível. Daqui a três semanas, no Iduna Park, ver-se-á qual das paredes terá mais força.
2. Nelsinho veio menino o moço de Cabo Verde para Lisboa. Fez vida na linha de Sintra, o sonho de jogar futebol cumpriu-o no Sintrense. Descoberto pelo Benfica com 18 anos, cumpriu via sacra de final de formação no Fátima, regressou ao Seixal e ganhou apelido: Semedo, Nélson Semedo. A história de sucesso fez-se, certamente, depois de muitas agruras.
Os dois foram dos protagonistas maiores na épica vitória - não pelos números mas pelas circunstâncias - do Benfica ontem sobre o Borussia Dortmund. O golo foi marcado por Mitrolgou, que custou sete milhões de euros e andava meio escondido no Fulham, da II divisão inglesa.
O pote de ouro do Benfica não estará no final do arco-íris mas, nestes casos, no final do caminho das pedras. E não deixa de ser irónico que dois dos heróis. Ederson e Nélson Semedo, tenham custado tão pouco a quem tanto tem investido."

Hugo Forte, in A Bola

Os deuses devem estar loucos

"Há dias assim, dias em que os deuses fazem acertos de contas. Olham para as anotações na folha de cada um dos clubes e procuram equilibrar com um pouco de fortuna aqui, um pouco de azar acolá, para que ninguém fique demasiado queixoso ou seja particularmente beneficiado, independentemente dos argumentos desportivos de cada um (esse já não é o departamento divino).
Quem seguiu o jogo entre Benfica e Dortmund terá pensado que os deuses deviam estar loucos, que não é possível tanta felicidade num só jogo e que só por isso o Benfica conseguiu vencer uma partida que a dada altura parecia destinado a perder perante a superioridade demonstrada pelos alemães. É indesmentível que o Benfica foi uma equipa feliz (embora a explicação para o desfecho da partida não possa ser apenas essa, há sempre mérito de quem ganha, mais que não seja a capacidade de sofrimento), mas talvez valha a pena pensar no dia em que, na época passada, Rui Vitória levou as mãos à cabeça por ter perdido o guarda-redes titular, Júlio César, na véspera de deslocar-se a Alvalade para defrontar o Sporting, num jogo que acabaria por revelar-se decisivo na atribuição do título de campeão. Foi por esse azar que hoje Rui Vitória teve a sorte de ter Ederson na baliza.
Ou talvez valha a pena pensar nos muitos dias, ao longo desta época (e também da anterior) em que o treinador do Benfica levou as mãos à cabeça perante tantas lesões, tanta dificuldade em montar um onze competitivo (ainda não conseguiu ter todo o plantel disponível ou sequer formar o melhor onze possível...).
Mas atenção: jogos como o de ontem não se repetem todos os dias. Os deuses, provavelmente, vão exigir muito mais do Benfica na Alemanha, talvez até tirem folga. E as águias terão de fazer bem melhor para conseguirem o apuramento para os quartos da Champions."

Gonçalo Guimarães, in A Bola

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A sorte ainda explica o jogo?

"Fascinante: onde uns podem ver mérito e incompetência, outros só vêem sorte e azar.

Na edição de ontem de A Bola escrevemos um texto que, felizmente, era premonitório. Dizíamos que o Benfica tinha ao seu dispor um daqueles raros dias em que podia surpreender a Europa a que essa oportunidade valia o «sacrifício da tentativa honesta de todos». Acrescentávamos a receita: «É só preciso talento, inteligência, capacidade de sacrifício e... sorte. Às vezes acontece».
Pois não é que aconteceu mesmo!?
De tudo o que se pedia, talento, inteligência, capacidade de sacrifício e sorte, o Benfica teve um pouco de tudo isso, mas teve muito de sorte. O que nos remete para uma dura realidade para aqueles que olham o futebol numa base sistemática e até essencial das ciências aplicadas. É o que o futebol pode ser muita coisa junta, mas nunca deixa de ser um jogo e um jogo pode ser decidido pela sorte, ou pelo azar, e contrariar a ciência.
Dirão os mais cépticos que a sorte é feita de competências e os azares de défices técnicos e tácticos.
Não é verdade. A primeira parte do Benfica teve uma soma quase exagerada de algumas incompetências (desajustado preenchimento das zonas fundamentais do campo, erros de escolha de jogadores, incompreensão do jogo, má adaptação ao adversário) e o Benfica conseguiu chegar a salvo ao intervalo.
Dirão os meus contrários: pois, mas isso ficou a dever-se à competência de Ederson e à incompetência de Aubameyang.
Posso contrariar a tese repetindo os meus argumentos, dizendo que em noite de pouca ou nenhuma sorte, o Benfica tinha já perdido a eliminatória, mas compreendo que seja, apenas, uma visão do problema e que a oportunidade que um jogo de futebol nos dá, a todos, de ter diversas visões e interpretações, é, afinal uma dádiva e uma sorte que nos contempla a todos os que gostamos deste jogo fantástico."

Vítor Serpa, in A Bola

A arte maior de Ederson

"Os deuses eram encarnados e 'São Ederson' mostrava argumentos únicos

1. Início estonteante com o jogo aberto e as suas equipas em busca da baliza contrária sem amarras tácticas. Dortmund a aparecer como era previsto com 3 defesas e projectando a equipa ofensivamente com 5 médios e dois jogadores mais à frente, numa louca vertigem ofensiva. O Benfica, fiel ao seu figurino, com Rafa a entrar no lugar do infortunado Jonas, emprestando mais velocidade à equipa mas subtraindo virtudes que só o brasileiro empresta (grande limitação no processo ofensivo). Volvidos os primeiros minutos, as dificuldades eram gritantes para um macio Benfica, com um meio campo sem capacidade para pressionar os adversários.
A equipa germânica foi construindo sucessivas oportunidades e a sua capacidade de colocar muitos homens em situação de finalização era avassaladora. O Benfica mostrava debilidades; falta de agressividade nos diferentes momentos do jogo, intensidade baixa para os duelos, dificuldades imensas em sair do esmagador espartilho alemão, um tormento para o Benfica.

2. O intervalo foi como o soar do gongue para um atordoado e golpeado pugilista. Rui Vitória mexeu e dispôs a equipa num mais 4x3x3 com um triângulo no meio campo com Filipe Augusto e Pizzi a saltarem-se no apoio aos avançados. O recomeço mostrava um Benfica mais subido no campo e caído do céu apareceu o golo num canto do lado direito do seu ataque. Num canto aberto, (não se percebeu a colocação de Guerreiro no primeiro poste quando pelam trajectória da bola tal não se justificava), o habitual bloqueio e Mitroglou apareceu a facturar. Por estratégia ou pura incapacidade de disputar o jogo no campo todo, o Benfica recuou e entregou de novo a iniciativa de jogo ao adversário.
As múltiplas opções ofensivas alemãs voltavam ao jogo. Apesar dos espaços entre os jogadores do Benfica se terem tornado mais curtos, (Filipe Augusto e Pizzi mais perto do Fejsa), o Dortmund demonstrava estar muito mais forte que o Benfica, e a incapacidade dos homens de Rui Vitória de beliscar o último reduto forasteiro e trazer a nu as insuficiências da sua linha defensiva, permitiu que os germânicos mantivessem incessante a corrida louca à baliza de Ederson.

3. Inúmeras foram oportunidades - até uma grande penalidade - desperdiçada pelo Borussia neste derradeiro assalto, mas os Deuses eram encarnados e São Ederson mostrava argumentos únicos que o tornam quase inultrapassável. Era uma vitória difícil dos visitados, bafejada de sorte, com fortes motivos de análise para Rui Vitória (dificuldades em acompanhar o ritmo diabólico do adversário), mas que permite ao Benfica sonhar com uma passagem para os quartos de final."

Daúto Faquirá, in A Bola

Sinais da bola

"Viram-se gregos
por uma vez Mitroglou conseguiu fugir à marcação do compatriota, ontem adversário, Sokratis. E foi suficiente. Ao minuto 49, o grego do Benfica ficou sozinho com Burki e, com alguma sorte no domínio, não deu depois hipótese: aí estava o 1-0!

O bom gigante
Na celebração do seu 500.º jogo pelo Benfica, Luisão não marcou o golo que daria toque de perfeição ao momento mas foi fundamental com passe de cabeça para Mitrolgou fazer o 1-0. No fim, o bom gigante, o girafa da Luz, sorriu. Tinha motivos para isso...

3 minutos infernais...
O nervosismo demonstrado tinha sido muito mas, de súbito, e já com as águias a vencer, eis que, em três minutos (entre o 56 e o 58), Ederson assumiu o papel de diabo, infernal para o Dortmund: três defesas fundamentais, a última na conversão de penalty de... Aubameyang!

... e o 'imperador' sorriu
Faltava pouco para o fim e Ederson fez defesa do outro mundo, após remate de Pulisic e desvio em Jiménez... No banco, Júlio César, imperador das balizas, ergueu-se para aplaudir. Na bancada, Taffarel, técnico de guarda-redes da selecção, sorriu perante visão... do futuro.

Posse de bola?!
As estatísticas não ganham jogos. Nem a posse de bola, nem a quantidade de passes, nem a percentagem de acerto dos mesmos. Ganha quem marca. O Dortmund teve 64 por cento de posse de bola e fez mais 360 passes certos do que o Benfica. Mas... perdeu."

João Pimpim, in A Bola

Muitos golos desperdiçados...

Ac. Viseu 2 - 1 Benfica B


O Académico também falhou alguns golos (marcou os dois, praticamente se seguida... no início do 2.º tempo), mas o Benfica 'exagerou' no desperdício... o golo só apareceu nos descontos, e já foi tarde demais...
Desta vez, 'entrámos' com um 11 totalmente da Formação... e dos três substitutos, só 'entrou' um 'estrangeiro' (Belém)!!!

Treinadores portugueses

"De volta às competições europeias. Das equipas portuguesas, restam as do costume: Benfica e Porto. Não sendo favoritas nestes oitavos de final da Champions, podem justamente alimentar alguma esperança na passagem à fase seguinte (escrevo este texto antes do jogo da Luz).
Há dias, li no Diário de Notícias, um excelente trabalho sobre os treinadores portugueses emigrantes não só por essa Europa fora, como pelo mundo inteiro. Regra geral com bons resultados da sua acção, como ainda agora vimos com Paulo Duarte, treinador do Burkina Faso, terceiro classificado no CAN.
Os treinadores das 48 equipas ainda em prova da UEFA (16 na Champions e 32 na L. Europa), distribuem-se por nacionalidades assim: 1.º Portugal (7); 2.º Espanha (6); 3.º Itália (5); 4.º Alemanha, Holanda, França e Argentina (4 cada). Depois seguem-se a Rússia, Roménia e Turquia com 2 treinadores cada e com um há seis países: Noruega, Rep. Checa, Polónia, Israel, Bulgária, Bélgica, Suíça e Sérvia.
O 1.º lugar para Portugal é a prova categórica do nível dos nossos treinadores. Neste caso, Rui Vitória, Nuno Espírito Santo, Leonardo Jardim (na Champions) e Paulo Bento, Paulo Sousa, José Mourinho e Paulo Fonseca (na L. europa). Além de Fernando Santos, campeão europeu de selecções.
Há quatro treinadores que lideram as suas ligas: Rui Vitória no Benfica, Paulo Fonseca no Shakhtar Donetsk, Paulo Bento, no Olympiakos e o sensacional Leonardo Jardim no Mónaco (ele que era tido como técnico defensivo, orienta a equipa com melhor ataque na Europa: 75 golos em 25 jogos)! Simplesmente notável! Assim o dirigismo e a arbitragem pudessem dizer o mesmo..."

Bagão Félix, in A Bola

Eram três, agora são dois

"Se há dores de cotovelo, a de Jesus deve ter sido aguda quando olhou para o lado e viu Augusto Inácio, que foi o último treinador português a ser campeão nacional pelo Sporting.

Quando a Liga começou o Sporting tinha o objectivo de ser primeiro, mas, nesta altura, a mesa principal passou a ser uma classificação que permita, na próxima época, «entrar na Champions», de forma directa ou indirecta. Diluíram-se as dúvidas: de três candidatos, restam dois...
A seguir ao empate com o Marítimo, o treinador leonino, em declaração a quente e apressada, apontou ao segundo lugar. Anteontem, após árdua e categórica vitória em Moreira de Cónegos, baixou a fasquia para o terceiro, a última posição de acesso à Liga dos Campeões através do play-off, parecendo esse desiderato de fácil alcance devido ao Sporting de Braga, outro assumido pretendente, não estar a recolher o sucesso desejado com a mudança de treinadores.
Pela segunda vez, em menos de um mês, Jesus confundiu-se no discurso. Entrou por atalhos que as circunstâncias não aconselhavam em face de uma exibição convincente e que nos transporta para a questão central: em vez de justificações que suavizem o atraso pontual para os primeiros, sugerem-se esclarecimentos para uma dúvida que emergiu do relevante desempenho de quase todos os jogadores, desempenho esse a encaixar mal na oratória do treinador, o qual, pacote de desculpas à parte, onde cabem azares, guarda-redes, árbitros e afins, não explicou por que razão um plantel que era bom há ano e continua a ser bom hoje perdeu o rótulo, no seu entendimento, de candidato ao título de corpo inteiro, sem dar conta que ainda há treze rondas por disputar, com dois clássicos de permeio (Benfica-FC Porto, 27.ª e Sporting-Benfica, 30.ª) que alguma agitação irão provocar no topo da tabela.

Na temporada passada, à saída da 21.º jornada, o Sporting estava a par do Benfica, ambos com 52 pontos. Agora, o leão soma menos onze. Trata-se de uma queda pronunciada, embora insuficiente para se proclamar a capitulação. A situação é problemática mas há futuro, prometido pela dimensão de Adrien Silva, jogador que merece uma Liga com mais visibilidade, pela valentia de Bas Dost, que pouco fica a dever a Slimani, pelo talento de Gelson Martins, um jovem especialista em desembrulhar jogos, o termo é feliz e tem a assinatura de Jesus, e pela estabilidade associada aos outros campeões da Europa: Rui Patrício (não se chama Casillas, mas foi considerado o melhor guarda-redes do Europeu de França) e William Carvalho, que tem resistido aos efeitos devastadores do furacão.
Os futebolistas são os menos culpados porque obedecem a ordens, respeitam estratégias e em caso de incumprimento ou menos aplicação saem de cena, são substituídos por outros. Que às vezes não existem com atributos para clube grande, mas, nesse caso, a responsabilidade continua a ser do mesmo: de quem escolhe. Sabe-se que o futebol é um negócio de risco, mas deve haver limites até para os enganos...

Apesar de sobrarem poucos adjectivos no dicionário para qualificar os méritos de Jesus, abro um parêntesis por causa das dores de cotovelo, que as há, sim senhor, e a dele deve ter sido aguda quando subiu ao relvado de Moreira de Cónegos, olhou para o lado e viu Augusto Inácio, que foi o último treinador português a ser campeão nacional pelo Sporting, fecho o parêntesis, insisto na convicção de que, nos seis anos em que esteve no Benfica, nas mesmas condições de trabalho, que foram excelentes, e dispondo dos mesmos jogadores, qualquer outro treinador com o mínimo de competências teria apresentado idêntico saldo. Por isso também já o escrevi, considerei o ataque leonino extravagante, no foguetório e nos milhões despendidos, sem o cuidado de acautelar que Jesus era contratado: o que ganhou três campeonatos ou o que perdeu três campeonatos. Se calhar o segundo,daí Bruno de Carvalho ter feito uma revisão de matéria e percebido que as coisas não eram como lhe terão pintado.
Parou para pensar, rectificar coordenadas e impor medidas. Vai ganhar as próximas eleições, porque depende só dele, mas não sabe quando será campeão nacional, porque não depende só dele. Um troféu (Supertaça) em duas épocas é o que Jesus tem para oferecer. Caríssimo.
«Não vamos baixar os braços», afirmou o capitão Adrien Silva, no final do jogo com o Moreirense. Mensagem simples e forte que, seguramente, calou fundo na família sportinguista. Porque é sincera e exprime um estado de alma. O resto é conversa de embalar...

Nota final - Rui Vitória, líder no Campeonato, e Nuno Espírito Santo, 2.º classificado, a um ponto, seguem os seus caminhos, firmes, lúcidos e discretos. Preparam-se para competir nos oitavos de final da Liga dos Campeões: mais logo, o Benfica, com o Borussia Dortmund; na próxima semana, o FC Porto, com a Juventus. É o futebol português representado ao mais alto nível."

Fernando Guerra, in A Bola

Hoje serias o nosso Messi, Chalanix!

"O destino é coisa lixada, Chalanix. Hoje, esta Bombonera é sobre ti. Equipa-te, que jogas. Calça as botas pretas, já sei que são dois pés esquerdos. Ou direitos. Vai dar no mesmo para ti.
Estás a ver aquele lateral com ares de hastado romano enfezado, atrás do gládio desembainhado? Bebe a tua poção e enrola-lhe os rins como corda de pião, faz com que voe como um dois-de-copas ao vento, segue em fúria para a área, não deixes que nenhum russo te derrube antes de lá chegares.
Já alguém te disse que foste grande? Claro que disseram. Como não? Muitas, tantas vezes, e mesmo assim tão poucas.
Vi-te a desenhar golos em esquadria para Jordão quando tinha dez anos, a deixar defesas por terra com uma simples insinuação do bigode, a tornar ésses numa linha recta. Sei, e posso escrevê-lo com todas as gordas que vieram com este teclado em tempo de vagas magras
Hoje serias enorme! Enorme!
Chalanix. O terceiro anel sempre foi teu. Literalmente. Foste tu quem acabou de pagá-lo com os 200 mil euros que vieram de Bordéus. Só que todos sabem que bastariam as arrancadas anteriores para derrubar os ideais de qualquer materialista convicto.
Melhor ainda se o velhinho Vélodrome também se tivesse tornado teu como se justificava, não tivessem os gauleses bebido também da poção mágica de Panoramix, resistido ao prolongamento e acabado com o sonho de um primeiro Euro, com um tal de Domergue, defesa-central, a tornar-se herói improvável, aguentando os Bleus com o bis até um Platini Astérix-reencarnado apunhalar-nos no abdómen, a um minuto do fim.
O destino é coisa lixada, Chalanix! Um gigante como tu não merecia tantas lesões. Que te deixassem jogar, arrancar, fintar e cruzar. Marcar. Festejar. Com um pé, com outro. Era igual, sempre foi igual. Como podia ser igual?
Que te deixassem ser tu!
Barreirense e Benfica. Bordéus, Benfica, Belenenses, Estrela da Amadora e o fim. Em França, começou o mundo a virar do avesso. Sempre França.
Tantos acidentes de percurso também do lado fora de campo. O azar perseguiu-te sempre. O azar era também um Domergue disfarçado a aparecer do nada, um Platini com superpoderes, capaz de destruir legiões inteiras. O azar crescia até ficar desse tamanho para ti. Um karma incomensurável.
A tua vida foi feita de Domergues injustos, capazes de se superar a si próprios, empurrando-te para trás.
Tu, Chalana, no tempo em que o futebol amarrava os portugueses atrás foste enorme! E também hoje o serias! Um dos maiores, um dos melhores. O Messi de um país que também teve Futre, Figo e Cristiano Ronaldo, depois de Eusébio. Tomara a ti que te tivessem dado também uma poção mágica que te fizesse resistir a tudo.
Enorme, Fernando! Hoje e sempre. Nunca o esqueças!"

"Chupa, betão", diz (...) sobre a exibição de Ederson, num jogo em que Pizzi cumpriu com dignidade as instruções de não morrer

"(Preâmbulo)
Rui Vitória, ao intervalo
Rapazes, tenho uma boa e uma má notícia. A boa notícia é que por milagre não estamos a levar na pá. A má notícia é que ainda faltam 45 minutos. Podia agora fazer uma comparação entre a minha condição miserável e a situação em que vocês se encontram, mas sinceramente a minha vida é bastante porreira, acabei de renovar e isto não é o Any Given Sunday. Uma coisa posso dizer-vos: se fosse fácil não era para nós. Estou a brincar. Já ninguém consegue ouvir essa. Até eu estou farto.
É assim. Eu prometi à minha família que só fazia esta barba se ganhássemos a uma equipa alemã, ou se algum dia tivesse todo o plantel disponível. Neste momento, parece-me mais provável o Grimaldo entrar para o lugar do Eliseu do que vencermos este jogo. Mas, nem eu nasci para usar estas pilosidades capilares, nem vocês estão cá para levar baile. Vamos lá comê-los vivos. Antes de voltarem lá para fora, só algumas indicações.
Ederson, pára de pontapear adversários.
Nélson, seguiste o Bayern no instagram, não foi? Porreiro. Experimenta seguir os adversários. 
Lindelof, nem acredito que vou dizer isto, mas estiveste bem. Luisão, a direção já avisou os jornais que o teu jogo 500 afinal é só no próximo domingo. Isto assim não é nada.
Eliseu, é isso mas em bom.
Fejsa, parece que levaste uma injeção de estrogénio e estás jogar de saltos altos.
Salvio, um dos teus lances individuais terminou na Casa do Artista. Levanta a cabeça.
Rafa, pareces o filho de um jogador do Benfica que entrou para fazer número.
Carrillo, a jogar assim nem os chineses te pegam.
Mitroglou, eu sei. Estamos todos a sofrer. Eu também queria que ele estivesse aqui.
Filipe Augusto. Porque é que tens dois nomes? Que raio de ideia. Ninguém te deu uma alcunha no Brasil? Veste lá a camisola e calça-te. Tenho aqui uma táctica muita simples para ti: vais andar ali perto do Fejsa e do Pizzi e fazes o contrário do que eles fizerem.
Só mais uma coisa. Alguém sabe do Pizzi?

Análise Individual
Ederson Moraes
Incansável. Melhorou no único capítulo em que tem demonstrado inexperiência, já que desta vez não enfiou os pitons no adversário. O árbitro reconheceu a boa fé do pontapé em Dembélé e mandou seguir. Ederson olhou para Nicola Rizzoli, contemplou o céu, e decidiu que iria confundir a decisão errada do árbitro com uma intervenção divina - graças a Deus que assim foi. A partir daí, avançou decidido para uma exibição inesquecível, que justificaria comparações com um muro de betão não fosse esta uma matéria com muito menor maleabilidade, total inaptidão para fazer a mancha, incapacidade para defender penalties, e muito menos possuidora dos mesmos reflexos. Chupa, betão. 

Nélson Semedo
Entrou em campo com a tranquilidade de quem vai pendurar meias no estendal, mas rapidamente a normalidade se esfumou quando percebeu que o adversário de hoje não era o Portimonense. Aos 35 minutos foi visto a duvidar das suas capacidades para vingar no futebol alemão, mas um berro de Luisão devolveu-o à realidade, onde por acaso um individuo em roupa fluorescente já surgia desmarcado. Passou o resto do jogo a recuperar deste rude despertar e terminou em bom plano, tendo no final agradecido aos adeptos, a Rui Vitória e a Carlo Ancelotti pela confiança depositada.

Luisão
Tudo se encaminhava para ser o mais deprimente jogo 500 de qualquer jogador que tenha feito 500 jogos num só clube, mas felizmente houve mais 45 minutos e portanto esse galardão continuará à espera do Rui Patrício. Não que tenha sido dos piores na primeira parte, mas a sua exibição após o golo foi, piadas à parte, uma das coisas mais bonitas que vimos neste novo Estádio da Luz. Luisão sempre foi líder e capitão nos maus momentos, mas a sua capacidade de somar energia e uma aura de invencibilidade aos melhores momentos da vida do clube merecem o maior dos agradecimentos, e estão inscritos no código genético daquilo que são hoje o orgulho e a mística benfiquista. Luisão trabalha no Benfica há quase 14 anos. Porra. São 14 anos a partilhar o balneário com alguns dos melhores jogadores do mundo e com alguns dos piores. 14 anos em que nunca foi dos que se limitavam a picar o ponto. O contrário: passou uma carreira inteira preocupado em chegar a horas ao lance seguinte, ao seguinte, e ao seguinte. Já perdemos a conta à quantidade de vezes que celebrámos desarmes seus como se fossem golos, mas, sempre que a memória nos parece trair enganada pelo BI do nosso capitão, ele regressa para nos mostrar, como hoje, 14 anos depois, exactamente ao minuto 78, como é que se vencem jogos de futebol e porque é que isto é tão importante para nós. 14 anos. A maioria dos miúdos hoje não aguenta 14 dias sem exigir o lugar do director-geral. Amanhã voltaremos às piadas, mas hoje é altura de dizer: Muito obrigado, capitão. 

Victor Lindelof
Uma das melhores exibições da época. Mostrou níveis de atenção que não lhe víamos desde que recebeu a proposta salarial do Manchester United.

Eliseu
A sua primeira intervenção no jogo foi uma fruta descomplexadíssima num alemão. Parecia um bom presságio, mas rapidamente se percebeu que aquelas rabias manhosas dos alemães na zona central tinham como finalidade apanhar Eliseu a sonhar com carne maturada e fazer a churrascada nas suas costas. A coisa só não correu pior devido a uma combinação de eventos espácio-temporais que Stephen Hawking, na sua famosa conferência de Geneva, descreveu como “uma sorte dos diabos”.

Ljubomir Fejsa
Nota-se que foi pai há pouco tempo. Só na segunda parte conseguiu adormecer o bebé e lá foi tentando dominar as circunstâncias em que se encontra, com um pé junto à canela dos adversários e outro a abanar a espreguiçadeira, não vá o gajo acordar.

Pizzi
Rui Vitória tinha instruções muito específicas para Pizzi na partida de hoje. Pediu-lhe essencialmente que não morresse. Pizzi cumpriu com toda a dignidade. Agora é levantar a cabeça e pensar no próximo jogo.

Carrillo
Exibição muito apagada do peruano. Foi substituído ao intervalo e recebido em apoteose no regresso ao banco de suplentes.

Toto Salvio
Começou o jogo com vontade de fintar meia equipa do Borussia Dortmund, e assim o fez, quase sempre indiferente ao facto de sobrar outra meia equipa para lhe tirar a bola. Esta espécie de narrativa paralela Toto vs. mundo, que tantas alegrias já nos deu, foi pouco consequente e serviu para expôr algumas fragilidades da nossa construção de jogo, mas fez milhares de adeptos acreditarem que era possível ganhar o jogo. Terminou por isso no lado certo da história.

Kostas Mitrolgou
Heróico. Sobreviveu a este dia de São Valentim longe do seu amor Jonas, que torcia por si na cama de um osteopata qualquer. Foi o único indivíduo em campo que teve oportunidade de se dirigir a uma câmara de tv para fazer um coraçãozinho ridículo com as mãos, mas soube ser superior a isso.

Rafa Silva
Foi uma das histórias do jogo. Ao intervalo, já no seu balneário, o defesa Bartra encontrou Rafa num bolso dos calções. Felizmente, o fair-play dos alemães imperou e o jogador foi devolvido a Rui Vitória. Dizem que a barba faz o homem, mas nem assim o miúdo fez esquecer Jonas.

Filipe Augusto
À hora em que escrevemos isto, Filipe Augusto continua no relvado da Luz a perseguir furiosamente a bola, e já avisou que vai a correr para casa.

Aubemayang
Que grande benfiquista."