Últimas indefectivações

sábado, 10 de setembro de 2016

Boa defesa!

Benfica 27 - 20 Madeira SAD
(11-10)

Não começamos muito bem, principalmente no ataque, mas estivemos quase sempre bem na defesa! Na 2.ª parte tivemos momentos muito bons...
O Terzic está com dificuldades em recuperar o ritmo... ao contrário do Belone, que está com a 'corda toda'!!!

Recordo que o Madeira SAD, terá sido das equipas que melhor contratou, é claramente favorito ao 5.º lugar, e se alguma das equipas mais fortes, se descuidar, os Madeirenses vão estar por perto... sofrer só 20 golos, é um excelente indicador...

No próximo Sábado, temos o primeiro grande jogo da época, no antro Corrupto, onde o ano passado, até fomos felizes...!!!

Carlos Morais

Já era de conhecimento público que Lace Dunn, não tinha dado notícias, no momento da apresentação da nossa equipa de Basket!!! Seria um regresso ao Benfica, de um jogador que deixou excelentes indicações no passado... Mesmo sem ter jogado na última época por lesão, para o nível do Basket português, parecia que tínhamos 'jogador'... Isso não aconteceu, e pelo que parece, nem sequer avisou os nossos dirigentes!!!!
No momento, onde a maior parte dos plantéis já estavam definidos, principalmente com os 'melhores' jogadores, o Benfica foi obrigado a ir ao mercado. Admito, fiquei preocupado...!!!
O anuncio da contratação do Carlos Morais, apanhou-me completamente de surpresa, e deixou-me bastante feliz!
Estamos a falar do melhor jogador Angolano (mercado que nos últimos anos, tem estado fora do alcance dos Clubes portugueses... será o 'regresso' do Benfica a Angola!!!), jogador com experiência da NBA (diminuta, mas por lá andou...), com experiência de Mundiais, Afrobasket e Jogos Olímpicos, tem sido o melhor jogador da Liga Angolana, repetidamente...
No Benfica vai jogar a 2, ou a 3... lança 3 pontos, mas gosta de 'penetrar'! Acho que tem características parecidas com o Betinho, mas até o considero mais completo!

Ontem fizemos o primeiro jogo de preparação, com o Nanterre, sem os nossos Internacionais (Fernandes, Barroso, Oliveira, Soares, Santos)... e com muita juventude a dar boas indicações! Excelente 1.ª parte, mas cedemos no 2.º tempo (Hollis, 22; Lonkovic 11; Andrade 10; Silva 9; Barber 6; Slutej 4; Stankovic 2; Monteiro; Mendes).
Mas com a entrada do Morais, do Raivio (lesionado), parece que temos equipa... vamos ver se as outras insuficiências, não se vão notar!
Recordo que o nosso primeiro compromisso oficial, é com os Italianos  do Varese, para a Champions, no dia 27 de Setembro!!!

José Gomes, o Rashford da Luz

"Não será inédita, mas é seguramente situação rara uma equipa ver-se provada de todos os seus avançados quando prepara um jogo. Para quem acredita, até parece que mau-olhado sobrevoou o centro de treinos do Seixal e os avançados do plantel foram fulminados pela ira de alguma divindade tresloucada que não inclui o vermelho na lista de cores preferidas. De uma assentada inutilizou os homens que costumam marcar golos: Jonas, Mitroglou e Jiménez. Perigo agravado por duas razões.
O adversário chamar-se Arouca, que, há um ano, à segunda jornada, deu tiro certeiro na águia, em Aveiro; o Benfica, no regresso à Luz na presente temporada ter empatado com o Vitória de Setúbal e riscado dois pontos na sua contabilidade de uma forma tanto inesperada quando imperdoável.
Era natural, por isso, que Jorge Jesus e Espírito Santo,que hoje recebem Moreirense e Vitória de Guimarães, ambos em situação mais confortável, esperassem mais do desempenho do pessoal de Lito Vidigal, o qual, manda a verdade dizer, só deu um ar de graça porque Rafa ainda pensou à Braga: ou seja, rematar muito e mesmo que nada marcasse se antes o enchia de aplausos, agora também... por enquanto. São outras as exigências, muito mais elevadas. Se ele tivesse conseguido pensar já à Benfica, seria uma noite para recordar: a exibição e os golos que prometeu e não concretizou.
Em matéria de novidades, a mais significativa, porém, fica ligada à estreia na equipa principal de José Gomes, 17 anos, quase um ano mais novo do que Rashford quando foi lançado às feras no Manchester United, há meia dúzia de meses. Quando um treinador percebe que tem um jovem praticante acima da média por perto, deve protegê-lo, assumir a responsabilidade pelo seu crescimento e investir nele. É essa a ideia de Vieira. É essa a ideia de Vitória."

Fernando Guerra, in A Bola

Benfiquismo (CCXV)

Mágico... muito bem acompanhado!

Vermelhão: fazer das 'ausências', forças !!!!

Arouca 1 - 2 Benfica


Mais um resultado sofrido, num jogo onde praticámos o melhor futebol da época (até aos 30 minutos), dominámos completamente o adversário, podíamos e devíamos estar a golear (bastaria um dos nossos pontas-de-lança estar apto...)... marcamos o 2.º golo no início da 2.ª parte, temos um penalty descarado a nosso favor, que o Ladrão não marca (seria penalty e expulsão), e na jogada seguinte, no 1.º remate à nossa baliza, o Arouca reduz para 1-2 !!! Inacreditável...
A equipa, ficou inquieta, logo a seguir aquele que estava a ser o nosso principal desequilibrador do jogo: Rafa! Lesiona-se!!! Inacreditável...!!!
É verdade que o Arouca nunca mais acertou na baliza, fez dois remates ao lado... mas nós sabemos como é que estas coisas se podem 'arranjar', com umas faltinhas, uns amarelos... e num ressalto, quem sabe!!!!
Felizmente, aguentámos bem... e nos últimos minutos voltámos a ter várias oportunidades, inclusive o puto, Zé Gomes, podia ter tido uma estreia de ouro!!!!
Como já afirmei o Rafa fez de facto um bom jogo, só não foi perfeito, porque desperdiçou várias oportunidades! Mas como eu já tinha defendido aqui, o Rafa nunca será um 'Jonas', porque falta-lhe a 'pontaria', algo que não se aprende, ou têm-se, ou não se tem... Com os avançados de volta, o Rafa será seguramente, um desequilibrador, que vai fazer muitas assistências e de vez enquanto vai marcar o seu golinho...
Destaco também o regresso do Jardel, muito importante... é de longe o nosso melhor Central a jogar na esquerda. A ausência do Lindelof apanhou alguns desprevenidos, mas o lugar do Jardel na esquerda é dele... com as Selecções, e as viagens, o Lisandro acabou por ser o escolhido para o Central da direita, mas creio que o Lindelof voltará à sua posição natural (isto se não tiver algum problema físico!!!).
O Guedes fez um jogo de muito sacrifício, numa posição que não a dele... foi um dos melhores nos tais 30 minutos iniciais!
Parece que é cada vez mais evidente, que com a entrada do Rafa, a subida de forma do Carrillo... e o crescimento esperado do Cervi (e do Zivkovic), será o Pizzi o 'sacrificado'! E ele parece estar consciente disso, talvez por isso, este 'nervoso'...!!!
Uma nota ainda para a substituição 'atrasada' do Samaris!!! Uma das melhores qualidades do Rui Vitória, é a sua leitura no banco, e o ano passado, raramente 'demorava' a fazer as substituições. Esta época, já é a 2.ª vez, que me pareceu hesitar... Era óbvio que o Samaris tinha que entrar mais cedo!
Conquistámos os 3 pontos, verdade... mas mais uma vez (4 em 4 nesta época... em Tondela terá sido o menos evidente), houve uma clara tentativa, por parte da equipa de arbitragem, em não permitir que o Benfica somasse os 3 pontos!!! Veríssimo é Lagartão, daqueles fanáticos... além disso é corrupto, daqueles que subiu dos Regionais a Internacional de forma instantânea... ficando a dever favores a muita gente no caminho!!! Tenho a certeza absoluta, que vamos ter que levar com ele, durante muitos anos... vai ser um dos adorados da crítica esverdeada, e por isso tem o futuro garantido...
Para os mais esquecidos, recordo o penalty no Rio Ave - Corruptos, da 1.ª jornada, ainda não passou 1 mês: penalty para os Corruptos, falta sobre Otávio e Marcelo com o cartão vermelho! Falta muito parecida, com esta sobre o Rafa... Na altura tinha o Rio Ave acabado de fazer o 1-2... ajudou a garantir uns minutos finais fáceis!!!
Agora, temos Champions, e logo um jogo decisivo!!! Neste grupo, estamos obrigados a fazer os 9 pontos em casa. Com tantas ausências, e tantos jogadores condicionados, aquele que teoricamente seria o jogo mais fácil do grupo, vai ser o mais complicado...!!! E se hoje, o Rafa disfarçou muitas insuficiências, na Luz, com o Besiktas a jogar 'recuado' (estrategicamente), sem 'músculo' na área, será muito complicado!!! Já o disse várias vezes: o Jonas faz mais falta nos jogos da Luz, do que nos jogos fora...

BCC !!!

Confiança no rumo traçado

"Com o mercado fechado, os três grandes candidatos aos títulos viram os seus dirigentes dirigir-se de forma directa ou indirecta aos adeptos. O presidente do Benfica, de forma mais institucional, preferiu uma clássica entrevista para no essencial passar uma imagem de serenidade e confiança num rumo traçado. Aproveitou para reforçar a posição de Rui Vitória e definir os objectivos que são os clássicos num clube como o Benfica.
O presidente do Sporting elogiou os jogadores que ficaram, por um lado para não referir os que tiveram que sair e por outro para diminuir a azia de quem queria seguir o mesmo rumo e não conseguiu. Parece-me correcta a estratégia, e de facto Jorge Jesus tem mesmo que corresponder a um investimento e um esforço financeiro que sem resultados desportivos seriam uma catástrofe com danos vitalícios para o Sporting.
Habituados e com a mesma vontade de ganhar, mas com menos fôlego financeiro, o FC Porto tem o que conseguiu. Com algumas das suas principais figuras a abandonar o barco, o seu presidente de forma inteligente procura um adversário externo para tentar unir os cacos e traçar um rumo. Veremos os resultados porque ao contrário dos sportinguistas, mais habituados a justificar derrotas, os portistas têm patamares de exigência que nos últimos 30 anos fazem da vitória o seu único cimento de aglutinação.
Vai ser um campeonato interessante. É uma análise repetida pelos diversos analistas que o Benfica é o único com margem para não ganhar, pois nos seus adversários o insucesso será desastroso. Discordo. Enquanto adepto também quero ganhar. O Benfica este ano tem que lutar pelo tetra como se o nosso jejum fosse tão desagradável como é o da concorrência. Quero ganhar mais.
Arouca, que no último ano nos deixou marcas, é o próximo adversário nesta busca de glória. Para mim é o jogo mais importante da semana. A minha Liga do Campeões começa em Arouca."

Sílvio Cervan, in A Bola

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O mundo ao contrário

"Supertaças nacionais e europeia, jornadas de Campeonato, play-offs de competições da UEFA, tudo disputado no meio de um vai e vem de jogadores, e de consequente diarreia de informação e contra-informação corrosiva e desestabilizadora, por via do estapafúrdio estender do mercado de transferências para além dos timings aceitáveis.
Encerrado o mercado, quando os adeptos puderam, enfim, entusiasmar-se com os seus jogadores, e com as suas equipas, eis que o futebol de clubes ficou parado, dando lugar a uma jornada dupla de selecções – que poderia ter sido disputada uma ou duas semanas antes.
Não conheço razões que expliquem tamanho absurdo, perturbador para a generalidade dos adeptos que, directa ou indirectamente, paga tudo isto.
Mais do que vídeo-árbitros, ou seja o que for que destrua aquilo que o futebol tem de melhor face a outras modalidades – a fluidez -, importava às instâncias federativas nacionais e internacionais rever os calendários competitivos, e ajustá-los a um qualquer assomo de lógica minimamente entendível. 
Se as sacro-santas janelas de mercado de transferências são intocáveis, se as datas FIFA são impostas pelos seus tão credíveis e zelosos dirigentes, então que se altere o calendário nacional, começando o Campeonato na segunda semana de Setembro, e deixando o mês de Agosto, por exemplo, para eliminatórias da Taça da Liga e/ou Taça de Portugal, e para todas as insuportáveis contingências do mercado de transferências.
Hoje jogamos em Arouca, com os nossos jogadores, com o nosso plantel. Hoje começa, finalmente, o futebol de que todos gostamos. Já não era sem tempo."

Luís Fialho, in O Benfica

Não aprendem...

"No 'Livro do Tri', que escrevi com o João Gonçalves, incluímos um pequeno capítulo intitulado 'O voucheur do desespero', dedicado às inúmeras tentativas de desestabilização do Benfica empreendidas em Alvalade. Num dos seus parágrafos, elencámos propositadamente sem qualquer tentativa de ordenação muitas das atoardas lançadas (39 e tantas que foram omitidas), com a intenção de demonstrarmos inequivocamente o que considerámos ter sido uma estratégia, tal foi a parafernália de acusações, insinuações e dislates da mais variada espécie, que não só não surtiu o efeito desejado como, em dado momento, se tornou contraproducente.
Sei há muitos anos que, para aqueles lados, 'sportinguiza-se' o (raro) sucesso e 'benfiquiza-se' o (frequente) insucesso, pelo que tal estratégia, mais que pensada, foi sobretudo consequência do complexo de inferioridade latente, exteriorizado de diversas maneiras conforme a relação de forças entre ambos os clubes numa determinada conjuntura.
Se evidências desta característica falassem, tivemos, no fim-de-semana passado, mais um exemplo paradigmático. O treinador leonino concedeu mais uma entrevista em que o Benfica foi um dos tópicos principais. As mais recentes tentativas de desestabilização (que, pelo caminho, servem igualmente para escamotear eventuais problemas internos) não merecem comentário, mas estão registadas. E logo foram acompanhadas por declarações no mesmo sentido noutra publicação. Não há coincidências, já dizia a escritora.
O que eles persistem em não entender é que estas acções estimulam a nossa ambição de lutar por vitórias, algo que, mesmo não precisando que seja reforçada, agradecemos. Continuem!"

João Tomaz, in O Benfica

Casa ou fora, tanto faz

"Hoje, às 20h30, o Tricampeão Nacional volta ao trabalho.
À quarta jornada do campeonato de futebol, o SL Benfica disputa o terceiro jogo fora de casa, depois das deslocações a Tondela e à Choupana. Em Arouca, hoje a partir das 20h30, tudo indica que a história se repetirá. E não estou a falar apenas de mais uma vitória da equipa, refiro-me à diferença substancial que o Glorioso tem em relação a todos os outros clubes nacionais e à maioria das instituições desportivas de todo o mundo: os seus adeptos.
Na semana em que ficamos a saber que o SL Benfica ocupa a 12.ª posição no ranking dos clubes mundiais com maiores assistências no seu estádio, fica uma questão: e se aos números de ocupação do Estádio da Luz (média superior a 50 mil pessoas por jogo em 2015/16) se juntassem os dados relativos às partidas disputadas fora de casa?
Não é complicado fazer estas contas e esta temporada prometo estar atento a essa realidade. Em Tondela foram 4973 pessoas num estádio com capacidade para cinco mil. Na Madeira, contra o Nacional, estavam 5017 para uma lotação de 5100. E em Arouca, como será? Não será muito diferente, já que o estádio tem igualmente o mínimo de lugares exigido para a participação no principal campeonato português: 5000 lugares. Lá vai a taxa de ocupação rondar os 100%. E estou, recordo mais uma vez, apenas a falar dos números que os adeptos do SL Benfica conseguem fazer fora de casa.
Os outros querem comparar-se connosco? Então, tentem cobrir as clareiras dos vossos recintos desportivos. De preferência sem pintar cadeiras para parecer que tem gente ou sem aldrabar assistências para 'rimar' com o número da camisola do marcador dos golos."

Ricardo Santos, in O Benfica

Arte do improviso segundo Vitória

"Ao problema que é jogar em Arouca, onde mora a equipa-revelação da época passada e que já na corrente temporada tomou o gosto às competições europeias, o Benfica acaba de juntar uma enxurrada de lesões dos homens-golos. Mitroglou e Jonas, que em 2015/16 valeram 52 dos 88 golos marcados pelos encarnados na gesta do tri, estão fora de jogo, o mesmo acontecendo a Raúl Jiménez, o mexicano em quem Luís Filipe Vieira vê uma futura galinha dos ovos de ouro e ainda ao promissor Jovic.
Perante este cenário de penúria, a Rui Vitória não resta outra alternativa que não seja caçar com gato. O recurso à equipa B, onde evolui o luso-guineense José Gomes, de 17 anos, estrela do último Europeu da categoria, é obrigatório, caindo como sopa no mel no discurso pró-Seixal de Luís Filipe Vieira. Mas não será crível que Zé Golo entre no onze inicial. Gonçalo Guedes a nove, um pouco à revelia do que são as suas características, poderá ser uma solução de recurso, complementada por Rafa, que fez finca-pé em jogar no Benfica e ouviu do presidente encarnado rasgados elogios, para compor a dupla atacante em Arouca. O ex-bracarense, que apenas fez dois ou três treinos no Seixal, tem já tarimba suficiente para não se impressionar com uma estreia supersónica, e logo numa posição que não deverá ser a que Rui Vitória tem para ele. Mas em tempo de guerra não se limpam armas...
Depois de ter perdido dois pontos, na Luz, com o V. Setúbal, o Benfica viaja a Arouca sem a artilharia pesada, num contexto em que não pode deixar fugir mais o Sporting, líder da prova.
É certo que a procissão ainda vai no adro, mas... vidinha difícil, não é?"

José Manuel Delgado, in A Bola

Para... opção

"Arrancaram ontem os Jogos Paralímpicos Rio 2016. A Missão portuguesa é composta por 37 atletas que vão competir em sete modalidades. Incontornavelmente vamos falando de medalhas e objectivos desportivos, numa vertente de alto rendimento que o desporto adaptado também quer para si.
O Chefe da Missão Paralímpica, Rui Oliveira, realçou que a profissionalização «é o caminho para os atletas portugueses poderem participar em igualdade de circunstâncias». Convém termos presente que a grande maioria dos atletas que integram a Missão Olímpica não são profissionais, aliás, tal como a maioria dos atletas que participaram nos Jogos Olímpicos. Alguns recebem bolsas de apoio (técnico e logístico) à preparação olímpica, mas as suas modalidades não têm enquadramento profissional, nem têm contratos de trabalho com clubes ou outras instituições.
Antes de saber se podemos ou devemos dar condições profissionais aos nossos atletas de elite, é necessário saber se queremos, realmente, alto rendimento em Portugal. Competidores de modalidades sem quadros profissionais num país com clubes de escassos recursos, dificilmente chegam lá sozinhos, só ocasionalmente e por geração espontânea.
Se é isso que queremos, é necessária uma utilização mais eficiente dos recursos disponíveis para o alto rendimento. Se pretendemos melhores resultados, temos de investir, detectar os nossos talentos, conseguir que os atletas tenham melhores performances e isso faz-se treinando melhor, com mais qualidade e com enquadramento técnico multidisciplinar.
Se quisermos um verdadeiro alto rendimento é, em muitas modalidades, necessário ter atletas a tempo inteiro. Podem e devem conciliar a sua vida desportiva com a académica e social, mas têm que ter disponibilidade de tempo, física e financeira.
Quem está disposto a isso?"

Mário Santos, in A Bola

Benfiquismo (CCXIV)

Gigante...

O mercado de transferências e a feira das vaidades (o que valem cada um dos três grandes)

"Ser pago para treinar o Sporting e não parar de falar do Benfica. O homem não resiste.

Comecemos pelo Porto
1. Em 2015 tiveram a necessidade de contratar um guarda-redes mediático, que acabou por não ser determinante num plantel mediano.
Esta época, mantiveram Maxi Pereira, inferior, reconheça-se, ao seu antecessor (Danilo) e, surpreendentemente, não contrataram nenhum lateral direito, mas, antes, dois laterais-esquerdos (talvez para, em conjunto, fazerem esquecer Alex Sandro). Contrataram, ainda, dois defesas centrais: Felipe e Willy Boly, reconhecendo, com isso, erros passados. Contrataram, também, dois médios, um deles a custo zero (João Teixeira) e outro (Óliver) por empréstimo. Por fim, foram buscar dois avançados: Laurent Depoitre e Diogo Jota (tenho pena), este também por empréstimo. Depoitre já fez estragos no Dragão; não nas balizas adversárias, mas antes na Administração da SAD (há cada coincidência por aqueles lados).
Ao invés, e quanto a jogadores relevantes - até peco por defeito, se relermos os jornais de há um ano - saíram Aboubakar, Licá e Alberto Bueno, para não falar em Pablo Osvaldo. Os tais que vinham fazer esquecer Jackson Martinez.
O plantel do Porto tem vindo a descer de categoria de época para época, razão pela qual e para colmatar as grandes deficiências existentes, tiveram de se reforçar muitíssimo.
Muito e bem? Ou só muito? A ver vamos!??

O Sporting foi o vencedor
2. Sem Supertaça, não brincaram em serviço e arrebataram o título de Rei das compras. Beto, a custo zero, e o tão desejado e namorado - a julgar pelo que se lia e ouvia - Douglas.
Em 12 meses, 3 defesas novas completas!
É obra!!!
Quanto a médios, redescobriram Bruno Paulista e contrataram Elias e Petrovic (Marcelo Meli chegou por empréstimo).
Relaticamente a avançados, o Sporting contratou Bas Dost, Alan Ruiz, Luc Castaignos, André e Lukas Spalvis, para substituir Slimani (se pudessem jogar todos e só contar como um), E ainda foram buscar Joel Campbell e Markovic (por empréstimo).
Com tanta compra, vou contar os minutos da formação em campo (sem me rir, mas, apenas, para constatar).

A estratégia do Benfica
3. Quanto ao BENFICA - e como adepto - reforçou-se, quanto a médios, com Rafa, André Horta, Danilo e Celis. Quanto a avançados, fomos buscar Franco Cervi, Carrillo e Zivkovic.
Uma opção estratégica clara de Luís Filipe Vieira, que soube planificar bem a época, de acordo com a avaliação das dificuldades que se avizinham e da definição dos objectivos do Benfica, gerindo - numa óptica externa e de pura observação - a cobiça dos grandes clubes.

Os jogadores e as juras eternas
4. A vida dá muitas voltas e o futebol não é excepção. O que hoje é dado como certo, amanhã poderá não o ser. O que nos leva a constatar, tantas vezes, que pela boca morre o peixe.
No dia do encerramento do mercado, entre outras surpresas (ou tentativas de), fomos informados do regresso de Lazar Markovic a Portugal, para o Sporting.
Apesar da sua curta passagem pelo Benfica, deu para o jogador criar uma grande paixão pelo clube.
Markovic, para além de ter percebido rapidamente que «o grande segredo do Benfica são os seus adeptos» - disse-o várias vezes, inclusivamente a uma semana do fecho da janela de transferências -, imediatamente após a sua saída, classificou o Benfica como a sua segunda casa - tal como tantos outros que saem, sendo um dos exemplos mais recentes Carcela.
Ora, presumindo que a sua «primeira casa» não será em Alvalade - ou melhor, o Sporting, por este e aquela freguesia de Lisboa não se confundirem - como irá conciliar essas juras de amor eterno com a sua actual situação?
Terá, certamente, um problema para resolver, para que se evitem crises existenciais e de identidade (que não tiveram Artur, Cardozo, Garay e Coentrão, por exemplo).
Ou, como diria Ricardo Araújo Pereira, a camisola do Benfica honra todos os jogadores que a vestem, sem excepção; alguns deles, não muitos, «honram tanto a camisola como ela os honra eles». E outros há, ainda mais raros, que «conseguem dar mais ao Benfica do que o Benfica lhes dá», sendo que a estes, por esse motivo, o clube lhes ergue uma estátua no estádio e «só lá está uma».
Como tem razão.
Os jogadores, os técnicos, os dirigentes mudam, regularmente; já o símbolo e os adeptos, esses permanecem ad eternum.
Por isso, ninguém está acima do Benfica (nem no mesmo plano, acrescento eu)!

A grande entrevista
5. As paragens de campeonato dão para tudo. Desta vez, deu para uma grande entrevista - pelo menos, em extensão - do treinador que se auto-intitula como o melhor do mundo.
Dela destaco essencialmente a frontalidade com que assumiu a «pequenez» que encontrou no seu actual clube.
Então o que encontrou «lá dentro» era «muito pequenino»?
Muito nos conta!
Mais: ficámos a saber que os jogadores que estavam no seu clube foram valorizados pelo próprio - algo, aliás, que sempre fez em todos os clubes por onde andou, sem excepção, como bom «cérebro» que é.
Mas, o que terá a dizer relativamente a alguns jogadores da sua academia, quais pérolas, que, se a memória não me falha, deu como certas no plantel e que, entretanto, foram dispensadas?
E o que terão a dizer Iuri Medeiros, Mané e João Palhinha, por exemplo?
Mas não posso deixar de constatar que, da época passada, não retirou uma (grande) lição: ser pago para treinar o Sporting e não para falar do Benfica. O homem não resiste (talvez não fosse ele próprio se assim não fosse).
Diz que o Benfica quer «correr com o Luisão».
Terá memória curta?
Quem dispensou Nolito, que está, agora, a jogar no Manchester City e é titular da selecção espanhola?
E André Gomes, que foi parar ao Barcelona?
O que terá a dizer das prestações de Bernardo Silva e João Cancelo na selecção principal?
E das oportunidades que não deu a Nélson Semedo e a Lindelof, por exemplo?
E de Renato Sanches, que, com ele, não só não teve a devida oportunidade, como ainda se deu ao atrevimento de defender, há 3 meses, que não poderia ser titular da Selecção (como se viu, anteontem, com o resultado alcançado pelos aurélios na Suíça, se lhe tivessem dado ouvidos, nunca seríamos Campeões da Europa).
E sobre Oblak, a quem resistiu, durante anos, até lhe dar, quase obrigado, a titularidade do Benfica e que hoje é indiscutível no Atlético de Madrid?
Isto para não falar de Pablo Aimar e Saviola.
Afinal, ele, sim, foi a única pessoa que nos últimos sete anos, no Benfica empurrou jogadores para fora do clube.
Para já não falar na comparação infeliz - para o capitão do Sporting - entre Luisão e Adrien.
De facto, ele bem tenta não falar do Benfica, mas não consegue.
Tendo como únicas preocupações a grandeza do Benfica e a do seu narcisismo.

Por mim, uma certeza: não poderemos entrar no jogo de quem precisa de muito barulho para parecer o que foi. Até porque, ganha quem merece e não quem faz mais barulho!
Quanto a contas, contas, talvez lhas peçam um dia destes, lá para meio da época, quem, bem ou mal, fez alguma coisa para lhe pagar tanto ou mais do que ganham todos os restantes treinadores da 1.ª divisão portuguesa (a não ser que, em Alvalade, se ache bem dar 6 milhões/ano para ganhar uma Supertaça, ou nem isso)."


Rui Gomes da Silva, in A Bola

PS: Duas notas, o consócio Rui Gomes da Silva, esqueceu-se do último capitão do Benfica a ser empurrado pelo treinador para fora do Benfica: Nuno Gomes...; e já agora temos que ser justos, além da Supertaça, o homem já conquistou a Taça Rui Santos!!!!

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Inacreditável...

O discurso do nosso treinador, tentou ser tranquilizador, mas como é óbvio, o que se tem passado este ano no Benfica, em relações às lesões, é inacreditável! Para esta jornada então, atingimos todos os limites do ridículo: todos os nossos avançados lesionados...!!!
Jiménez, Jonas, Mitrolgou, Jovic... e até o Saponjic na equipa B, tem estado indisponível!!!

Se fossem lesões musculares, até podíamos imputar as culpas na preparação física da equipa, mas 95% das situações, têm sido lesões de origem traumática. Só o Jardel e agora o Mitro me parecem ter origem muscular...

Defendo há bastante tempo, a criação no final das épocas, de uma 'época' de Selecções, onde todos os compromissos das Selecções seriam jogados, seguindo o exemplo de outras modalidades, acabando de vez, com estas absurdas pausas para as Selecções! No caso do Benfica, têm sido raríssimas as vezes, que 'recebemos' todos os nossos internacionais de volta, sem condicionalismos... Um absurdo, os Clubes que investem milhões nos jogadores, estarem sujeitos a estas situações...
Já que apoiamos o actual Presidente da FPF, já que ele está a ganhar protagonismo dentro da UEFA, que se faça 'força' para acabar com esta forma de condicionar competições, com factores estranhos...
O Benfica corre o sério risco de ver nos próximos dias, os dois principais objectivos da temporada (tetra, e oitavos da Champions) ficarem altamente prejudicados, devido a lesões contraídas nas Selecções...

Além dos lesionados, o Celis que esteve no Brasil-Colômbia da madrugada de Quarta para Quinta (mesmo sem jogar), também não foi convocado!!!

No meio de toda esta preocupação, os regressos do Jardel do Luisão e do André Almeida aos convocados, acaba por passar despercebido... e até a estreia do Rafa, é relativa!
Não sei qual será o 11 titular, não sei se o Zé Gomes (17 anos) será utilizado, mas o grau de dificuldade deste jogo seria sempre alto (Veríssimo no apito!!!), agora com todos estes obstáculos, estamos 'quase' a falar de uma final da 'Champions'!!! E não estou a exagerar...

À 4.ª jornada e... sem mercado

"Terminada a pausa, o Benfica vai jogar o seu 4.º jogo da liga, o terceiro fora da Luz. Em Arouca, jogo difícil e com a recordação de, no ano passado, ter perdido, ainda que em Aveiro. O invés se passa com o Sporting que, em 4 jogos, tem o terceiro em casa.
Esta jornada coincide com o fim das transferências do Estio, por sinal bem tórrido este e bem quentes aquelas. E com o interregno de programas especulativos e análises transcendentes sobre as movimentações mercantis.
É consensual que o Sporting se reforçou em quantidade e, aparentemente, em qualidade, como há muito não se via. Perdeu dois jogadores decisivos, e o poder de asas de Slimani, mas tem agora outra soluções. Quanto ao Benfica, quase se pode dizer o mesmo, reforçando a estabilidade e continuidade de uma política antes encetada. Também saíram duas grandes referências, mas diversificaram-se vias, ainda que não necessariamente equivalentes. Já quanto ao Porto, foi manifesta a inversão do registo que o clube habituara o mercado. Continua a ter uma boa equipa, mas terá enfraquecido o conjunto do plantel.
Em suma, vai ser uma luta renhida e, espero, leal. No ano passado, ninguém dava nada pelo Benfica e foi o que se viu. Este ano, o Sporting já foi quase aclamado campeão antecipado e o Porto relegado para uma tristonha terceira posição. Numa prova de de regularidade, não me excito muito com este tipo de previsões/desejos. A ver vamos.

P.S. A BOLA subestimou o valor das vendas do SLB. Não são 68 M, mas perto de 80 M, e ter-se-á esquecido de não considerar, nas comparações, as partes do direitos que não pertenciam aos clubes vendedores."

Bagão Félix, in A Bola

Domingos e o 'parceiro' Mendes

"Luís Filipe Vieira mostrou um grande à vontade na entrevista na TVI. São já muitos anos de mediatismo que lhe permitem aliar o profundo conhecimento dos dossiers a um registo intimista, que soube desenvolver, e que acaba por passar bem na televisão. Por tudo, a noite correu bem ao presidente do Benfica e os sócios e adeptos do clube da Luz receberam mensagem que lhes agrada.
Tivesse o discurso pró-Seixal sido debitado numa circunstância em que os encarnados não fossem campeões há 14 anos e o nível de aceitação teria sido outro. Porém, quando o objectivo é o tetra, é evidente que este é o registo mais apropriado...
Da conversa e do que disse Vieira emerge desde já um vencedor: Domingos Soares de Oliveira, CEO da SAD e claramente o número dois da hierarquia encarnada, elogiado em múltiplas ocasiões, e de facto uma pedra basilar da reconstrução encarnada. De registar a forma como se referiu a Jorge Mendes, «um parceiro nosso», uma abordagem que deve ter deixado boa gente preocupada e que revela que a relação com a Gestifute não é para esconder e sobrevive à luz do dia.
Depois, uma convicção tremenda na formação, expressa em 2012, em A BOLA, quando disse sonhar com «um Benfica made in Seixal». É por aí que quer ir e percebeu-se a amargura que o assalta quando os nomes de Cancelo e Bernardo Silva vêm à conversa...
Quanto a Jorge Jesus, entre a vontade de dar encerrada a matéria e a tentação de nunca deixar e dar uma alfinetadas, manteve-se sóbrio, mas reprimido. Quem se der ao trabalho de ir às entrelinhas perceberá que ainda há ali pano para mangas na polémica.
Em relação a treinadores, Rui Vitória forever, porque é campeão e porque é capaz de planificar a médio prazo (ao contrário de vocês sabem quem...).
Outro tema candente, Luisão, foi abordado sem uma resposta conclusiva. Porque Filipe Vieira não pode dizer mais do que disse. O capitão continuará a mandar no balneário mas isso não lhe garante lugar no onze. Sensibilidade para Rui Vitória gerir. Se quis sair ou se quiserem que saísse, serão contas de outro rosário, para juntar a todas as outras em que Luisão, por vontade própria, esteve com um pé fora.
Claramente a não querer abrir frentes de batalha com os rivais (para discutir o negócio até com o Diabo se senta), Vieira marcou posição de força quanto à arbitragem, lembrando queixas que diz ter a propósito de um certo juiz.
Depois de duas horas de conversa, única dúvida a pairar prendeu-se com resolução da posição oito. Nenhuma das soluções pós-Renato pareceu convivente.
O futuro dirá o resto..."

José Manuel Delgado, in A Bola

Benfiquismo (CCXIII)

Palco...

Grande entrevista...

Em primeiro lugar, devemos referir que esta entrevista seria impossível com qualquer outro Clube português. Só o Benfica, tem uma 'massa critica' que permite ter adeptos a fazer este tipo de perguntas em directo na televisão, e só o Benfica tem um Presidente que se dispõe a responder desta forma... sem guiões, e sem lambe-botismos militantes!!!!!
É verdade que as últimas entrevistas na BTV com Hélder Conduto também foram boas, mas o formato da 2.ª parte de hoje, com o Diamantino, o Pedro Ribeiro e o Domingos Amaral, tornou a conversa mais fluída...

Quanto ao conteúdo não houve grandes novidades, algumas 'revelações' sobre 'futuras' (potenciais) vendas, mas de resto, o Presidente reafirmou grande parte daquilo que tem dito... as palavras sobre os jogadores que não se adaptaram acabaram por ser algo 'surpreendentes', já que nestas ocasiões, em público, normalmente nada é dito...

A TVI 'esticou' a entrevista ao máximo, mas mesmo assim ficaram alguns assuntos de fora: a FPF e o estado esverdeado no CD, no CJ, no CA e na secção de Futsal...; o enquadramento da politica de comunicação do Benfica, no constante ataque difamatório (praticamente diário) da máquina do Anti-Benfica, nos jornais, nas rádios e nas televisões...

Conclusão, vamos com tudo atrás do Tetra... apesar desta onda de lesões estar a levar ao desespero a Nação!!!

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Futebol biológico

"No mundo global, as equipas transformaram-se em verdadeiras sociedades de nações, tal a origem dos atletas.
Cada vez é mais difícil memorizar os plantéis, sempre em acelerada rotação. Ao ler, com interesse e curiosidade, os Cadernos de A BOLA, deparei com alcunhas e nomes estrangeiros estrambólicos e impossíveis de reter.
Com os nomes portugueses, resolvi constituir 3 equipas biológicas: uma de nomenclatura animal e duas de botânica (árvores e herbáceas). Como havia mais do que 11, fiz a minha selecção destes 3 grandes. Assim:
De seres animais, o meu onze (treinado por Emílio Peixe) seria: Galo, na baliza (à falta de frango ou peru); defesas: Sapo, Carraça, Coelho e Bicho; médios: Toro (um hondurenho que naturalizei português) e Leão (emprestado pelos leões); nas alas, os artistas Pintassilgo e Grilo e no ataque, Falcão e Pinto (Pintos há muitos, oh Peixe!). Como suplente de luxo (excepto em relva artificial), Minhoca.
Das espécies arbóreas: guarda-redes, Chaparro (para melhores manchas); defesas: Castanheiro, Nogueira, Carvalho e Lenho (quarteto forte para as tacadas); médios, Macieira e Pereira (para dar fruta), nas alas, Oliveira e Palmeira e no ataque, Lima e um Pinheiro (para o jogo aéreo). O técnico seria Carlos Carvalhal.
Das herbáceas: na baliza, o jovem Batatinha; na defesa, Ervões, Silva (com muitos picos), Cravo e Ervões; no meio-campo, Rosa e Viveiros, com os irmãos Horta nas alas; no ataque, Pimenta e Silvestre, uma dupla selvagem. E com Leonardo Jardim a dirigir este grupo.
Os jogos entre estes grandes seriam arbitrados pelo polémico e resistente Manuel Oliveira."

Bagão Félix, in A Bola

Benfiquismo (CCXII)


Inauguração do Estádio das Amoreiras, 1925

terça-feira, 6 de setembro de 2016

O risco negro do «Garoupa»

"Em Novembro de 1977, num jogo frente ao Chaves, Vítor Martins lesionou-se num menisco. Durante a intervenção cirúrgica, uma embolia atirou-o violentamente para fora de uma carreira que estava no seu auge...

Houve um tempo em que os jogadores de futebol, em Portugal, faziam questão de usar bigode. Agora, assim à distância, pode parecer inestético. Tão inestético como as longas cabeleiras esfiapadas ou os penteados de bola. Eram tempos... Outros tempos.
Vítor Martins era desses tempos. Poucos benfiquistas terão sido vítimas do Destino como Vítor Martins. No dia 13 de Novembro de 1977, no Estádio da Luz, frente ao Chaves, para a Taça de Portugal, o Benfica venceu por 2-0, golos de Pereirinha e Pietra. Vítor Martins perdeu. lesionado no menisco, é obrigado a uma intervenção cirúrgica. Ainda não havia as facilidades das artroscopias de agora. Durante a operação, sofre uma embolia. Fica com diversas partes do corpo paralisadas. A sua carreira chegava ao fim.
E que carreira! Nascido no dia 27 de Março de 1950, Vítor Manuel Rosa Martins esteve nove épocas ao serviço dos encarnados e foi seis vezes campeão nacional. Coleccionava faixas. Era campeão por inteiro, mesmo no momento em que a vida o obrigou a vivê-la pela metade. Campeão, repito. Campeão continuou a ser sem intervalos.
Conquistando o lugar entre os maiores
Nascido em Alcobaça, dando os primeiros pontapés no Nazarenos, Vítor Martins chegou ao Benfica aos 18 anos. Aos 19 já se estreara na equipa principal. A partir daí lutou por um lugar entre os titulares e conquistou-o. Por lá ficou até à idade maldita de 27 anos. Rebelde e ao mesmo tempo compassado. O seu futebol obedecia à regra do rigor, mas tinha também consigo o movimento brusco da criatividade inata. Jogou entre os maiores, de Eusébio a Simões, de Humberto Coelho a Nené, de Toni a Vítor Baptista. Era um pêndulo. Marcava um ritmo e regia-se por ele, ao mesmo tempo que geria o jogo. Fazia mais do que uma posição num meio-campo que, à altura, tinha soluções para todos os problemas. O «Garoupa», como lhe chamavam, instalou-se. Até ao fatídico dia da sua morte como jogador de futebol, tornou-se indispensável, para todos os seus treinadores. Mas desilusão é o outro nome que a vida pode ter.
Recordo Vítor Martins porque a maior injustiça que se lhe pode cometer é esquecê-lo. Tornou-se tão natural a sua presença em equipas do Benfica durante quase dez anos que, muitas vezes, não se reconhece a qualidade que de facto tinha. O seu tempo foi, também, um tempo de exigência. Não apenas um tempo perdido em figuras semi-revolucionárias de longos cabelos e bigodes fora de moda. Era um Benfica capaz de ser campeão por nove vezes em onze anos. No qual só cabiam os melhores dos melhores, ainda que apenas portugueses, alguns vindos das colónias. Vítor Martins era, por isso mesmo, um caso raro. Discreto, trabalhador e artista, homem de passada mecânica sem medo de confrontos físicos, uma imaginação súbita que passava para além da realidade comezinha dos mortais.
Aos 27 anos, o futebol fugiu-lhe dos pés. Infame, a vida traiu-se quando estava, muito provavelmente, no auge da sua carreira. Ele o reconheceu, numa entrevista publicada mais tarde. Tinha ainda muito para dar a recusaram-lhe o que dava. Ficou à margem dos estádios, tal como continua hoje em dia, e existe no seu olhar, inequívoca, uma mancha de saudade, a mesmíssima mancha de saudade que envolve quem pôde usufruir do seu futebol único e irrepetível.
Em Novembro de 1977, Vítor Martins, o «Garoupa», cruzou o risco negro das carreiras interrompidas. Não foi o único, não será o único. Sobre o tempo que se foi, tempo vem. Muitos dos que pertencem às novas gerações não sabem quem foi, nem imaginam o seu futebol difícil de definir, regulado entre a verticalidade e a destreza, seguro no passe, sóbrio na finta, inimitavelmente correcto e positivo.
Vítor Martins foi um daqueles jogadores de todos os tempos e de todos os lugares. Escolham uma equipa, escolham uma época, e ele terá lugar. Desafiou as eras e pagou violentamente esse descaramento divino de estar sempre lá quando a sua presença era necessária. Não o esqueçam, aqueles que o viram jogar, suave e impasível. Não o esqueçam porque não é apenas eles que não merece a crueldade desse esquecimento. É o futebol na sua realidade mais intrínseca.
O mês de Novembro de 1977 foi injusto para muita gente, como são injustos todos os dias da vida, trazendo dádivas e desgraças na mesma mão e espalhando-as por quem menos de espera e tão-pouco as merece. O mês de Novembro de 1977 não foi apenas injusto para Vítor Martins, ao qual chamam o «Garoupa». Foi injusto para com todos aqueles que dividiam com ele o campo, como companheiros ou adversários. E foi mais injusto ainda para com todos nós que nos habituámos a vê-lo no seu posto, vestido de vermelho, com uma águia ao peito, símbolo de que, quando queria, também podia voar."

Afonso de Melo, in O Benfica

O dia em que Amália homenageou o Benfica

"Calado levou um repenicado beijo da fadista, e Costa Pereira envolveu-se num xaile e cantou à desgarrada.

Corria o ano de 1957 quando o Benfica partiu para Madrid para participar na última edição da Taça Latina, ainda com a vitória frente aos Girondinos de Bordéus, sete anos antes, bem fresca na memória.
A viagem foi atribulada. Saíram atrasados do Lar do Jogador e a meio do percurso uma avaria no motor do autocarro obrigou-os a trocar para outro mais pequeno que só andava a 65 Km/h. Chegaram a Madrid às 3h da manhã mas a comitiva esteve sempre animada graças aos cantores de serviço. Ângelo cantou fado castiço, as canções espanholas ficaram a cargo de Cavém, a voz mais desafinada de que há memória, 'que nem consegue acabar as cantigas', e Costa Pereira, o 'guarda-redes-cantor' com 'a sua voz bem timbrada', agitou o ambiente com sambas.
Quem também andava por terras madrilenas era Amália Rodrigues, que, assim que soube que os portugueses do Benfica iam participar na competição internacional, fez-lhe chegar uma mensagem de motivação: apesar de adepta do Belenenses, tinha muita confiança nos 'encarnados' e queria muito que ganhassem a Taça Latina. A equipa acabou por ficar em segundo lugar, mesmo tendo começado com o é direito. Venceu o primeiro jogo, frente ao Saint-Étienne, por 1-0, com golo de Calado que lhe valeu um repenicado beijo da fadista nessa noite. 'Ó meu malandro, dê cá um beijo!' Caiado tentou envergonhar o colega: 'Já não lavas a vara durante toda a vida!', mas Calado confessou: 'Realmente fiquei vaidoso...'
A classe e luta que os jogadores imprimiram nos jogos dignificaram, uma vez mais, o futebol nacional, e Amália, comovida com o desempenho dos 'encarnados', decidiu homenageá-los num almoço no restaurante da sua irmã, Celeste Rodrigues, em Lisboa. Nessa tarde, a fadista belenense catou de improviso um poema dedicado ao Benfica: 'Futebol e fadistagem unem-se neste momento. Dum lado a força, a coragem. Doutro o fado, o sentimento', e Costa Pereira, imbuído do espírito, envolveu-se num típico xaile e soltou o fadista que havia em si. Amália gostou e felicitou-o. Afinal o rapaz tinha talento! As desgarradas continuaram e, no início da noite, ainda se ouviam na rua os acordes das guitarras e as vozes desafinadas de alguns jogadores.
A inconfundível voz de Amália também está presente no Museu Benfica - Cosme Damião e pode ser ouvida na área 15. No caminho do tempo."

Marisa Furtado, in O Benfica

Benfiquismo (CCXI)

Mais um remate do King...

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O nosso futebol e o restante desporto

"A partir de amanhã Portugal passa a ser, oficialmente, um alvo a abater, porque todos vão querer bater o pé ao campeão da Europa.

Na última quinta-feira, no Bessa, o particular com Gibraltar marcou o fim das festividades pela conquista do Campeonato da Europa. Amanhã, em Basileia, frente à Suíça, tem início uma nova era, mais exigente, para a equipa de todos nós. Quando perguntado se os jogadores de Portugal iam sentir alguma pressão adicional por serem campeões europeus em título, Fernando Santos respondeu com uma negativa veemente. Provavelmente tem razão. Mas há outra verdade que não pode ser escamoteada, que se prende com a forma como passámos a ser vistos de 10 de Julho para cá. E disso não tenho dúvidas: os nossos adversários vão ter uma motivação especial quando defrontarem Portugal e, por isso, o grau de dificuldade, para a turma das quinas, vai aumentar, a começar já amanhã, na Suíça.
Estaremos preparados para a responsabilidade? Francamente, creio que sim. Ainda sem Cristiano Ronaldo, a alma mater, Portugal encontrou uma forma pragmática de jogar que deve manter, permanecendo aquela equipa vista ao longo do consulado de Fernando Santos, que muitas vezes não joga bonito mas joga quase sempre bem e, por isso, é muito difícil de derrotar. A esta matriz ganhadora podemos ir acrescentado novos valores, numa renovação em marcha que promete muito. João Cancelo, Bernardo Silva e André Silva espreitam a titularidade e a sua juventude juntar-se-á em breve a Renato Sanches, formando um núcleo fortíssimo.
Ao contrário do que acontece em quase todas as outras áreas do nosso desporto, o futebol tem meios e competência e por isso regenera-se com sucesso. É essa a diferença fundamental. E enquanto não houver, para o desporto em Portugal, uma visão de conjunto que altere o paradigma miserabilista existente, não passaremos da cepa torta, um bronze aqui, dois diplomas acolá, numa mediocridade confrangedora que não é culpa nem de dirigentes, muito menos de atletas, mas que radica na falta de política desportiva no nosso país. Francamente, não tenho grandes ilusões de ver alguém sugerir e avançar com reformas profundas, que nos dêem a esperança de, daqui a 20 anos, sermos um país desportivamente melhor.
Enquanto o desporto for visto como um custo e não como um investimento, valha-nos o futebol e os meios que tem...

Quando se apagam os holofotes da fama
«Vai às compras, ajuda a descascar batatas, a levar a louça, faz o que aparece... ele é o Isaías, o que fez no Benfica ninguém esquece»
Sílvio Ramos, restaurante 'O Pote', Pombal
A excelente reportagem da Elsa Bicho, na edição de ontem de A Bola, revelou ao mundo a situação de Isaías, um dos melhores estrangeiros que passaram pelo futebol português, figura de proa do Benfica de há duas décadas e meia. Fica a bola agora nas mãos de quem pode devolver Isaías ao meio do futebol. Porque, pese embora a solidariedade de Pombal, é aí que ele pertence...

Rafa Silva
Nasceu no Barreiro, como dois dos maiores extremos da história do Benfica, José Augusto e Fernando Chalana, e chegou à Luz para fazer esquecer o mago Nico Gaitán. Mas não é a fasquia alta que o ex-jogador do SC Braga vai encarar que aqui mais interessa. Relevante, neste momento, é sublinhar a forma personalizada como manteve a escolha que fez de jogar no Benfica, indiferente a pressões e outras ofertas aliciantes. Hoje em dia, entalados entre empresários, gurus e mental coaches, é cada vez mais raro encontrar jogadores assim...
(...)"

José Manuel Delgado, in A Bola

Benfiquismo (CCX)

Pé-canhão...

domingo, 4 de setembro de 2016

A queda de Isaías

"Isaías está de volta a Portugal para encetar nova vida. Habituado a muito, vivia já sem condições no Brasil. Ajuda agora no restaurante do amigo Sìlvio, em Pombal.

Já não usa a barba que o alcunhou de Profeta nos tempos do Rio Ave, seu primeiro clube em Portugal, mas o tempo parece não deixar marcas em Isaías. Pelo menos fisicamente.
«52 anos? 25 ao contrário! Eu sei cuidar-me!», diz, o Pontapé Canhão que voltou a Portugal dia 12 de Julho. E veio para ficar. Aliás, para recomeçar. Como só os campeões conseguem.
No Benfica, de 1990 a 1995, viveu anos de glória. Ganhou dois campeonatos, uma Taça de Portugal e milhares dos antigos contos. Mas a vida dá voltas e prega rasteiras.
A conta que dele fez um rei no Brasil - sobretudo após o vantajoso contrato com o Coventry City para onde se transferiu depois do Benfica -, esvaziou-se em investimentos e ofertas, em compras e imóveis, em fazendas e aquisições de que pouco desfrutou.
Mal aconselhado e rodeado de amigos que dele se aproveitaram, Isaías nem foi dando conta de que o mealheiro se esvaziava. Irmãos tentaram alertá-lo e fazer ver ao jogador com nome bíblico que a inveja e cobiça eram pecados mortais que o estavam a fragilizar. Passaram os anos e com eles a ostentação. A ponto de Isaías viver nos últimos tempos numa casa sem condições, bem diferente da majestosa vivenda onde fazia churrascadas, num bairro que pouco fazia lembrar os tempos áureos em que jurou nunca mais ser pobre. Foi-se a abundância, ficou a necessidade.
Há oito anos que Isaías não saía do Brasil onde se entretinha, a pescar e a rezar por melhores dias. Mas os filhos - Isaías, de 24 anos; Lucas, de 20 que se encontra à experiência na equipa B do Benfica, e agora também a pequenina Maria, de 4 - , precisavam que o pai tentasse novo remate. De longa e para bem longe, cheio de força, como antigamente. Um remate à Peito de Galo, como também o alcunharam. Por isso Isaías voltou e vive agora em Pombal. Deu-lhe a mão o amigo de há 30 anos, Sílvio Ramos, dono do restaurante O Pote, onde o leitão força a paragem obrigatória.
Isaías é humilde, sempre o foi, e ajuda agora na copa do restaurante enquanto a vida não lhe mostra nova baliza para acertar.
«Vai às compras, ajuda a descascar batatas, a lavar loiça, faz o que aparece. O problema deste homem é ter um coração maior do que alguma vez teve o pé. Todos o levam na certa, ele não sabe dizer que não a nada ou a ninguém e agora não quer pedir ajuda. Mas tem mais é que pedir. Não é vergonha nenhuma assumir que precisamos de um empurrão, assumir que estamos no fundo. Ele é o Isaías. O que fez no Benfica ninguém esquece. E tenho a certeza que o clube também não. Luís Filipe Vieira é presidente para ajudá-lo. E ele merece», assegura o empresário, cujo restaurante, onde Isaías é, por estes dias, relações públicas, está repleto de cachecóis, fotografias, camisolas de clubes e jogadores de futebol e um cartaz de Eusébio.
«Claro que ainda o reconhecem. Outra noite fomos aqui a uma aldeia próxima ver um concerto do Mickael Carreira e ouvíamos as pessoas cochicharem' É ele? Não é ele?' Claro que pensavam: mas que raio faz aqui o Isaías no meio da aldeia?», ria-se Sílvio, amigo do Pé Canhão desde da sua chegada a Portugal, com 24 anos.
«Os benfiquistas deliram ainda com ele mas tem graça que são os rivais que mais o confrontam. Lembram-no de golos que marcou a Sporting e FC Porto. Todos reconhecem que era jogador excepcional», prossegue Sílvio, vingando-se no leitão que cortava sem parar.
«É... esse aí o meu irmão. O futebol dá-nos coisas maravilhosas e amigos como o Sílvio. Sempre pude contar com ele e nesta altura tem sido... nem sei o que dizer!!»
O assunto é delicado.
Isaías franze o queixo, engole em seco e recusa-se a assumir que precisa de ajuda para voltar a ouvir um apito inicial.
«A vida às vezes não nos corre da melhor maneira. Tive decepções, tive coisas boas e coisas ruins, hoje as coisas não estão boas mas aprendi uma coisa em Portugal: velhos são os trapos e eu não me sinto um trapo!»

Amor ao Benfica
Ao perspectivar o que pode ser o seu amanhã apenas um nome assalta a mente do antigo avançado da Luz: Benfica.
«Sentir-me-ia muito honrado se pudesse continuar a representar o meu clube. Se o Benfica me convidasse para trabalhar ficaria muito orgulhoso. Para que funções não seu mas de futebol percebo eu e tenho a minha experiência. Faço parte da história do Benfica. Dei muito ao futebol português e ainda sinto ter condições de continuar a dar. Claro que não chutando, mas sim a partilhar o que aprendi. Até mesmo o trabalhar nas categorias inferiores», vinca Isaías, esboçando sorriso mais aberto ao ouvir novo elogio. Desta vez de Rogério Santos, o assador de leitões do restaurante: «Há anos que o Benfica não tem um avançado como ele, que faça aquelas arrancadas e pás, meta-a lá dentro!»

«Hoje valeria €50 milhões»
Ao falar-se de Isaías não há quem não recorde os fortíssimos remates de longe que lhe valeram a alcunha de Pé Canhão. Muitos elegem-no como um dos antigos jogadores que mais faziam vibrar os adeptos.
«E sinto-me orgulhoso por isso. Sobretudo porque cheguei um 'zé ninguém'. Fui uma peninha que caiu no oceano e que conquistou muito num cube como o Benfica», acentua o antigo atacante,de 52 anos, que no Brasil, até aos 19, ajudava o irmão Ismael, que era ladrilhador. «Não gostava do que fazia mas precisava, claro!», recorda Isaías cuja carreira terminou aos 39 anos.
«Vou dizer o que nunca contei a ninguém. Foi um sportinguista que me trouxe para o Benfica. Acabou sendo o meu padrinho de casamento!» Quem? Isaías não diz.
Há assuntos que apenas consegue comentar com um esconder de lábios. Ao invés, outros há que o fazem abrir, ainda mais, os olhos.
«Penso que cheguei um pouco tarde ao Benfica, já com 27 anos, saí com 33. Acredito que poderia ter escrito história ainda mais marcante», confidencia, com resposta célere quando confrontado sobre o que não voltaria a fazer se voltasse atrás: «Sair do Benfica em 1994».
«Na época havia uma lei que, se o clube nos mandasse uma carta, o jogador tinha direito a mais um ano de contrato. Na altura o novo treinador, Artur Jorge, não queria manter a espinha dorsal da equipa anterior, campeã. Eu vi logo que não ia funcionar. Fui o melhor marcador e nem joguei todos os jogos mas ele não queria que eu ficasse, eu e outros que éramos a mística do clube. Fiquei frustrado. Mandaram-me a carta, ainda tinha um ano mas um director disse-me que se não saísse ia ficar a treinar-me sozinho. Isso magoou-me tanto que saí. Poderia ter batido o pé e ficado porque tinha a certeza de que passados três meses iam mandar embora o treinador para a casa não cair. Sentei-me com o presidente Manuel Damásio e disse-lhe 'vou sair, mas você vai ter de mandar embora o treinador muito em breve'. Fui para o Coventry, fui o primeiro brasileiro a jogar na Premier League. Entretanto, tal como eu dissera, o Artur Jorge saiu e quando o Paulo Autuori assumiu e equipa liguei-lhe de Inglaterra e dizer que não estava satisfeito lá. Ele prometeu que quando chegasse a Lisboa ligava. Mas nunca contactou. É o meu único arrependimento. Não devia ter saído».
De temos idos para o futebol da actualidade, Isaías encurta a distância. «Hoje? Valia €50 milhões! O futebol agora está inflacionado. Se analisarmos, por tudo o que fiz, pelo patamar que atingi e que nunca pensei alcançar... esse número é um cálculo meu. Posso estar errado mas lemos os jornais e vemos jogadores medíocres com clausulas de rescisão absurdas», opina o Pé Canhão, negando que os disparos que o celebrizaram fossem talento natural.
«Trabalhava muito isso. Ainda no Boavista, a equipa treinava de tarde e os guarda-redes de manhã. Eu pedia para treinar-me com eles logo cedo. No Benfica a mesma coisa. Quando todos saíam eu pegava em 10 bolas, colocava à direita, outros 10 no meio, outras à esquerda e ficava ali a rematar. Sentia que precisava de render. A verdade é que o clube pagava 24 horas mas na prática trabalhávamos quatro e tinha de dar sempre o máximo no campo. Sempre tive essa consciência. Era colega de jogadores de selecção e eu um natural de Cabo Frio! Era dos primeiros a chegar e dos últimos a sair. Todos falavam dos remates de longe, da força do Isaías mas o Isaías trabalhava para isso. Se todas as bolas que eu chutasse fossem golo, imaginem quantas bolas de ouro eu não teria em 10 anos de profissional? Hoje então com essas bolas e botas diferentes eu era... jogador de 50 milhões! Tudo na vida é trabalho. O sinónimo de perfeição é a insistência», lembra o Profeta.

Comparado a Eusébio, elogiado por Beckenbauer; o enguiço da 8 e da 11
-Brinca ao dizer patentear as alcunhas que ganhou; emociona-se ao recordar jogos especiais
Isaías esteve longe tanto tempo que confessa estar já desabituado de sentir toda a gente a olhar para si.
«No meu tempo ia ao marcado, à lota comprar peixe, adorava o convívio com os benfiquistas. No estádio, no final do treino, chegavam autocarros e eu parava sempre para dar autógrafos, comer castanhas e beber uma cervejinha com os adeptos», ri-se Isaías, concordando que tal, hoje em dia, seria impossível.
A conversa flui solta, para trás e para diante, do passado para o presente. «Melhor elogio? Ser comparado a Eusébio. Ainda agora no jantar de recandidatura de Vieira, António Simões disse-me: quando o via jogar lembrava-se logo do nosso grande Eusébio. A sua forma de actuar, de encarar o adversário. Não é para qualquer um. E não foi a primeira vez que ouvi a comparação».

Grandes figuras
«Apanhávamos sempre o Barcelona na Champions e o Guardiola que jogava na frente do Centrais, apanha com o Isaías. Nos jogos vinha abraçar-me. Bobby Robson? Sempre quis tanto trabalhar comigo, tinha verdadeira paixão pelo futebol de Isaías. Beckenbauer? Foi ver um jogo com o Boavista porque queria observar o Schwartz. A imprensa do dia seguinte dizia 'Beckenbauer foi ver Stefan mas encantou-se com Isaías».

Dia especial na Luz
«Nas meias-finais da Taça de Portugal frente ao FC Porto, em 1992/93. Tínhamos jogado nas Antas e já tinha dito ao Toni que tinha de ir ao Brasil resolver uma situação. Queria embarcar logo desde o Porto. Ninguém esperava que o conseguíssemos trazer o segundo jogo para a Luz. Quando acabou o jogo disse ao mister: vou embarcar. Ele disse não, não, não podes. Insisti: não adianta ficar aqui com o problema lá. Não vou estar bem psicologicamente. Ok, vais mas voltas, concordou. Assim fiz. Resolvi a minha pendenga e segui para estágio. Mas estava preocupado porque tinha passado dias sem treinar. Os meus amigos do Brasil disseram-me: vais jogar, vais resolver, vai assinar a bola com toda a equipa e trazes-nos a bola nas férias. No jogo fiz um golo, sofri penalty e ganhámos 2-0!».

Magoado e esquecido?
«Não. As pessoas ainda se lembram do Isaías. Valorizei o futebol português. Se não me falha a memória ainda sou o brasileiro com mais golos marcados no Benfica: 71. Jonas está muito perto e quero que ele me ultrapasse. Significa que o Benfica vai atingir os seus objectivos. Eu faço parte da história mas não sou a história. O Benfica é que não pode parar. E não vai parar.»

Outro pé-canhão?
«Ainda não vi algum parecido. Eu jogava com os dois pés. O direito era o preferencial mas curiosamente foi com o esquerdo que fiz os golos mais importantes. Frente ao Arsenal lá (jogo de Champions 1991/92) que marcou a minha carreira, o do FC Porto do 2-0, da meia-final da Taça, frente ao Sporting no 6-3. Do pés esquerdo, quando saía era fatal! Se ainda está para nascer um pé-canhão assim? Pois, mas todos os dias nascem!»

Enguiço com a 8 e 11
«No Benfica só não joguei com a camisola 2, 3, 4... Da 6 para a frente, até à 11, usei todas. Nunca fui supersticioso mas a camisola 11... quando acontecia, acontecia mesmo, mas quando não acontecia não tinha jeito. Com as outras isso não acontecia. Por exemplo quando vestia a 6 marcava sempre. Com a 11 fiz jogos maravilhosos, coisas bestiais mas havia jogos em que não saía nada. Com a 7, a 8, a 10 fiz bons jogos mas a 8 e a 11... A 6 era sinónimo de golo!»

Alcunhas
«Colocaram-me tantas, vou até patenteá-las! No Rio Ave era o Profeta por causa da barba e do nome bíblico. A minha família é cristã. Meus irmãos têm nomes com i: Ismael, Irene, Iúsa e Itamar. Naquela época não havia televisão! Meu pai era Isaú. A minha mãe conta que o meu pai andou três horas num jumento para poder registar-me. Morávamos fora da aldeia. Pé-canhão apareceu no Benfica, tal como o Peito de Galo, devido ao modo como corria. Chamavam-me homem golo mas Pé-canhão foi sempre a de que mais gostei».

Rituais
«Havia duas coisas de que não abdicava: entrar com o pé direito e usar o meu escapilarzinho do senhor do Bonfim. Não uma pulseira mas um colar. Como não podia usá-lo ao pescoço prendia-o no elástico dos calções.»

Belenenses
«Antes de vir para o Rio Ave (1987) estive um mês em testes no Belenenses. Passei cá o mês de Novembro, faço anos a 17, passei o aniversário sozinho e depois mandaram-me embora. Disseram-me que era muito lento. Cheguei cá magrela, passando fome...»

Primeiro golo em Portugal
«Frente ao SC Braga pelo Rio Ave: foi um chapéu ao guarda-redes! Chovia tanto...»

Golaço
«Na Luz, frente ao Estrela da Amadora. Estávamos a perder, fiz o 1-1, chutei a uns bons 40 metros. Foi o jogo antes do 6-3, com o Sporting. O mister Toni ficou irado de empatarmos antes do jogo com o rival. Eu disse-lhe tranquilo, vamos ganhar ao Sporting!»

Campeonato
«Vai ser bera mas é bom assim. Bom que também V. Guimarães, o SC Braga e outros estivessem na luta. Depois da conquista do Europeu, é momento do futebol português deixar de ser o patinho feio e começar a acreditar que pode comparar-se aos outros. Chega de ser o menino pobre. Há aqui qualidade. Nos grandes da Europa há sempre portugueses».

Conselho
«Dediquem-se ao máximo. Hoje a juventude e a adolescência são muito difíceis. Muitas redes sociais, muitas aplicações que lhes roubam tempo. Deixem as redes sociais e vão trabalhar para o campo. Quando mais de trabalhar, mais se aprende. Hoje em dia, com tanta concorrência, há que sair na frente e correr atrás».

Jonas
«É jogador diferenciado. Vi-o a jogar frente ao Torino, é parecido ao Nené. Muita pluma, elegante, quando não tem a bola parece que ninguém dá por ele mas quando a apanha... já fez, já criou desequilíbrios. Faz leitura muito boa antes da bola chegar. No futebol de hoje, que é tão rápido, não há tempo de dominar a bola e ficar olhando. Há que antecipar e ele faz isso muito bem.»

Sonho
«Sempre tive o sonho de ver um filho meu jogar a nível profissional com o meu nome nas costas. Lucas está à experiência na equipa B do Benfica. Tem 20 anos, é médio ofensivo, mais criativo que o pai. Isaías está em Campo Maior. É mais defensivo, joga também pelas laterais, já tem mais a minha força. Está com 24 anos, a idade que tinha quando vim para Portugal e as coisas aconteceram para mim. Ficarei em Portugal se tudo resultar para eles.»

Museu
Já fui, tenho lá as minhas coisas. Adorei os telões e o elevador com vídeos de jogos e momentos importantes. É muito bom.»

Cara fechada
«Sempre fui assim. As pessoas falam que antes de me conhecerem têm outra impressão. Não sou muito de conversar. Sou mais de observar. Quem fala muito sabe pouco. Dentro de campo era diferente. Quando se trabalha com alegria e se é apaixonado pelo que se faz...»

Velha guarda
«Temos de resgatá-los. Os jogadores dos anos 90 onde andam? Paulo Madeira, Veloso, Schwartz... As pessoas procuram-nos, recordam-se de nós, lembram-nos de jogos e ocasiões. Devíamos criar o hábito de reunir o pessoal e fazer uns jogos. Estou precisando fazer alguma coisa e treinar-me. Voltar a fazer uma equipa com aquele grupo ia ser bom, até para os adeptos».


Vieira e o sonho da final da Champions
-Isaías acredita que o Benfica vai chegar à discussão da liga milionária num futuro bem próximo
Isaías conheceu Luís Filipe Vieira na inauguração da nova Luz (2003). «Do estádio anterior conhecia todos os cantos. Se me soltarem neste perco-me! Fiquei maravilhado. Estrutura de clube grande, com condições e capacidade para chegar a patamares acima a nível de competições europeias. O presidente tem pulso e tem o sonho de levar o clube a uma final da Champions e pode pensar nisso. Num futuro bem próximo isso vai acontecer. Vibrei com o 35 no Brasil, quem sabe vem aí o 36 e a concretização do sonho do presidente», acredita o brasileiro, identificando-se com o percurso do líder encarnado. «Também veio de baixo e chegou bem longe. Para tudo na vida é preciso trabalho. Todos os benfiquistas, e não só, reconhecem a sua obra», elogia.

Isaías Marques Soares
Data de Nascimento: 1963-11-17 (52 anos)
Naturalidade: Brasil
Nacionalidade: Brasileira e Portuguesa
Peso: 80 quilos
Altura: 1,80 metros
Posição: Avançado
Alcunhas: Pé-canhão, O Profeta e Peito de Galo
Clubes: Vitória, Cabofriense, Rio Ave, Boavista, Benfica (1990/95), Coventry City, Campomaiorense, Cabofriense e Friburguense
Jogos pelo Benfica: 178
Golos pelo Benfica: 71