Últimas indefectivações

sábado, 11 de janeiro de 2014

Alma

Boa entrada em 2014


Ac. Espinho 0 - 3 Benfica
20-25, 21-25, 14-25

Bom regresso ao Campeonato, com uma vitória esperada sem sobressaltos...
A notícia deste novo ano, foi a contratação do Marcel Gil, para precaver a ausência do Zelão. É um bom jogador, para o nível médio do Campeonato Português, mas para a Final do Campeonato vamos ver...!!! Vi os recentes jogos da Selecção, e o Marcel pareceu-me ter melhorado no Bloco, mas continua pouco móvel, algo natural devido à altura...

Desilusão


Oliveirense 4 - 3 Benfica

Péssima entrada na 2.ª parte, a equipa perdeu organização, começou a atacar sem cabeça, com muitas jogadas individuais, e muitos erros de passe... Juntando a isto, voltámos a falhar todas as oportunidades de bola parada...

A partir do momento que se soube qual seria a dupla de arbitragem, era óbvio que só um Benfica super-inspirado poderia ganhar, e não foi isso que se viu... Os jogadores e a equipa técnica já têm experiência suficiente para saber como é que isto funciona... Mais uma vez, o adversário do Benfica, não chegou à 10-ª falta, como acontece em quase todos os jogos, mesmo quando a principal arma defensiva contra o Benfica é o excesso de agressividade!!! Nada de novo... Agora espera-se é que a equipa do Benfica saiba reagir em campo, a isso...

Digam o que disserem, tanto nas bolas paradas, como na finalização, nota-se e muito a ausência do Luís Viana!!!
Ainda é muito cedo, mas com esta derrota (e os dois empates...) corremos o risco de ficar afastado do título ainda na 1.ª volta!!!

Má entrada em 2014


Leões de Porto Salvo 3 - 2 Benfica

Muito má primeira parte, 3-0 ao intervalo espelham bem a má exibição da equipa... E quando além de não se jogar bem, juntamos péssimas decisões na finalização, o resultado não pode ser bom...
A perder apostámos no 5x4 cedo (não fosse a absurda expulsão do Hemni, provavelmente a aposta teria sido ainda mais cedo!!!), chegámos ao golo de penalty (mas teve que ser o 2.º árbitro a marcar porque outro...), e ainda marcámos o 2.º, mas já não deu... Apesar destes dois golos, continuamos a ser muitos previsíveis a atacar o 5x4!!!
A já referida expulsão do Hemni, o amarelo ao Joel, e a capacidade do Leões em não fazer a 6.ª falta, são episódios ridículos (mesmo assim o banco do Leões passou o jogo todo a 'chorar'... pressionando os árbitros de forma nojenta), mas o Benfica tem que jogar melhor... É verdade que este Leões têm boa equipa... na semana passada estavam a vencer os Lagartos em Loures a 40 segundos do fim, e só perderam com um golo depois da buzina final... Mas repito, o Benfica tem que jogar melhor.
A paragem de Natal, parece que fez mal à equipa...

Ouviam-se em Toumba gritos contra os coronéis...

"Em 1973, o Benfica visitou pela primeira vez a Grácia. Dispoutou e venceu o Torneio de Salónica contra o Olympiakos e Aris, mas não se encontrou frente a frente com o seu adversário europeu de Fevereiro.

Quando eu era miúdo, dizia-se Tissalónica. Mas a verdade é quando eu era miúdo também se dizia Glásgua, Francoforte ou Mogúncia. Assim vão as glórias do Mundo...
Em Agosto de 1973, o Benfica chegava pela primeira vez à Grécia, depois de já ter calcorreado os sete cantos do planeta. Aceite-se. A Grécia estava ainda longe de ser um país do Futebol, embora, curiosamente, tenha sido à Grécia que os holandeses foram buscar muitos dos nomes dos seus clubes, como o Ajax ou o Heracles, por exemplo. Entusiasmo havia muito; qualidade rareava.
O Benfica foi convidado então para disputar o Torneio de Salónica, como agora se diz mais prosaicamente.
Capital da Macedónia, da outra Macedónia, não da agora independente que fez parte da antiga Jugoslávia, mas a Macedónia de Alexandre o Grande, aliás, meio irmão de uma tal de Tissalónica, casada com o rei Cassandro. E assim se explica o nome da cidade que o Benfica visitará outra vez em Fevereiro de 2014, quarenta anos e alguns meses após a tal visita inaugural.
Segunda cidade da Grécia, local onde se situa a famosa Torre Branca, também ela sinal de poder de um país a seu tempo reunificado, recebeu nesse Verão ao qual já fizemos referência o tal torneio em que o Benfica participou, defrontando primeiro o Olympiakos, no dia 31 de Agosto, e em seguida o Aris de Salónica, no dia 2 de Setembro.
Duas vitórias sem espinhas, como sói dizer-se. Contra o Olympiakos, houve o episódio meio célebre de ver Humberto Coelho jogar a avançado-centro, a par de Nelinho e Moinhos, de início, e depois com Nené no lugar de Moinhos. Humberto marcou um golo. Um dos três (3-1), cabendo os outros a Nelinho e Nené.

Paladinos da resistência
Diziam as crónicas da altura que o troféu para o vencedor do Torneio de Salónica era uma belíssima taça, mas de latão. Não sei, nunca a vi. Talvez esteja hoje em dia no Museu, prometo que se estiver lhe vou dar uma olhadela atenta. Ao que se consta, igualmente, cada jogador recebeu como prémio pela vitória no torneio a verba de 19 contos de reis, soma nada dispicienda para os tempos que se viviam.
Seja, adiantei-me. Antes de meterem ao bolso a maquia, os jogadores do Benfica tiveram de bater a outra equipa grega, o Aris de Salónica que viria mais tarde a causar amargos de boca aos 'encarnados', aí já a doer, numa eliminatória europeia.
Humberto Coelho, o «capitão» voltou a jogar no ataque, desta vez com Nelinho e Artur Jorge como companhia inicial, para depois entrarem para os lugares destes Moinhos e Nené.
Os golos (2-0) foram de Messias e de Pedroto, uma estria na primeira equipa, Bernardino Pedroto, como está bem de ver, e não José Maria, de quem sempre se disse ser filho, até o próprio o assumiu em entrevista à velha «A Bola» mas sem confirmações por aí além.
Pedroto não teve grande futuro no Benfica, não tardaria a rumar a Guimarães, viria a ter um futuro interessante, isso sim, como treinador, sobretudo em Angola. O Benfica, esse, tem um passado fantástico e terá sempre o futuro que os seus adeptos quiserem. Para já, no futuro futuro imediato, vem aí o Pan-Tessalonican Athletic Club Constantinopolitans, o PAOK, herdeiro do antigo Hermes, fundado pela comunidade grega de Pera, em Istambul, em 1877. Com o advento da guerra greco-turca, os gregos da Turquia viram-se obrigados a regressar a casa. Os que se instalaram em Salónica, fundaram o AEK, que não tardou a mudar de nome para PAOK. Os que preferiram Atenas fundaram o AEK, que não em deu PAOK e se manteve orgulhosamente AEK de Atenas.
Nesse ano de 1973, no qual o Benfica visitou Salónica, mas não defrontou o PAOK, este vivia a sua fase de afirmação no Futebol grego, pondo em causa o domínio dos clubes atenienses de uma forma como os seus conterrâneos Aris e Iraklis nunca foram capazes de fazer.
E mais ainda: no tempo da ditadura da junta militar, instalada na Grécia entre 1967 e 1974, mais conhecida pelo Regime dos Coronéis, o PAOK tornou-se um paladino da resistência. O Estádio de Toumba, um bairro do leste da cidade, foi testemunha de slogans anti-regime que fizeram dos adeptos do PAOK um exemplo de força e de coragem.
Por isso, por mais fanáticos que sejam, merecem todo o respeito."

Afonso de Melo, in O Benfica

O grande clássico

"Todos esperam com enorme expectativa o clássico de domingo. Conjugou-se tudo para preparar um grande desafio: as equipas têm vindo a melhorar, estão empatadas no topo da Liga e golearam os seus adversários no último jogo.
Mas há muito mais ingredientes a apimentar o clássico. Logo à partida, as dúvidas sobre os guarda-redes: no Porto jogará Helton ou Fabiano? E no Benfica jogará Oblak ou Artur? São decisões difíceis, até porque muitos portistas gostariam de ver Fabiano na baliza – e conhecem-se as reservas de Jesus em relação a Artur (que cometeu sempre erros nos jogos contra o FC Porto).
E depois há as dúvidas que pesam sobre os dois treinadores. Paulo Fonseca ainda não convenceu os portistas mais exigentes; e Jesus perdeu a confiança dos benfiquistas mais cépticos, que dizem que o seu prazo de validade acabou.
Assim, se o Porto perder, Paulo Fonseca ficará em maus lençóis. E Jesus está obrigado a ganhar, até para não se dizer que falha sempre nos momentos decisivos. O certo é que tem sido infeliz em ocasiões capitais, e este ano continua a não ter sorte: bastava o Benfica ter Cardozo e o Porto não ter Jackson para a música ser outra.
Como condimento suplementar, este clássico acontece 15 dias depois de um Sporting-Porto em que os lisboetas vulgarizaram a equipa nortenha. Há muito que não se via o FC Porto ser dominado com tanta clareza. Portanto, ainda há essa curiosidade: o Benfica conseguirá ou não fazer melhor do que o seu vizinho da Segunda Circular?
Com tantas dúvidas e interrogações, o clássico promete imenso. O que não significa que seja um grande jogo. O medo de falhar pode inibir as duas equipas – e assistirmos a um desafio sensaborão, com grande aglomeração de jogadores a meio campo e pouca emoção junto às balizas.
Há um ano previ uma vitória do Benfica e enganei-me. Agora não faço previsões, mas digo: ao Benfica só interessa ganhar. Para ser um candidato credível ao título, tem de mostrar que é capaz de bater o Porto na Luz. Até para dedicar a vitória a Eusébio – que, onde quer que esteja, está a torcer pela sua equipa do coração."

A força do Bruno

"O Sporting e Bruno de Carvalho (BdC) deram a novidade antes de fechar 2013: a elaboração de um documento para a revisão da legislação desportiva e dos regulamentos do futebol profissional, entregue aos partidos na Assembleia da República, ao ministro da Administração Interna, ao secretário de Estado do Desporto, à FPF, à Liga e aos seus clubes. A iniciativa é de louvar, tendo em conta que BdC chegou há muito pouco tempo ao contacto directo com as “nuances” jurídicas das competições e os regimes das contratações. É ainda de louvar quando BdC assume que o documento pode ser motor de uma discussão futura: não é um produto acabado, mas um ponto de partida para construir consensos com os outros clubes e dar uma importante achega nos empreendimentos agendados pelo Governo para o regime jurídico das federações desportivas, para a profissionalização da arbitragem, para a disciplina legal do treinador e para as apostas “on line”. “Ouço dizer que falo e não apresento soluções – já o fiz”, disse BdC, com o propósito subjacente de trazer liderança ao Sporting, como “grande”, nos processos de decisão do futebol português. 
Não tive acesso ao conteúdo, o que me impede de ir mais longe para além do que BdC revela. De todo o modo, parece-me inequívoca a actualidade dos temas e das propostas: 1) regulação da intervenção dos “fundos de investimento” (muito importante a lógica de uma parceria “win-loose” e da partilha pelos fundos dos custos salariais dos jogadores); 2) modificação das regras sobre os proveitos dos “empresários” de jogadores; 3) alteração da fiscalidade para aumento da competitividade com os demais campeonatos; 4) revisão dos princípios de tutela laboral dos clubes formadores e de seguros dos atletas; 5) combate à opacidade na nomeação e classificação dos árbitros. E, sendo actuais, por que não aproveita a Liga este balanço para desafiar os clubes a completar as ideias do Sporting e a marcar a “agenda”, em especial com aqueles clubes que sempre andam com as “reformas” na boca?
BdC não gosta do “sistema” que encontrou. Afirmou: “Não posso aceitar que há 30 anos se diga que campeonatos são decididos antes de começarem! É um sistema opaco, obscuro e andamos todos contentes. É o mesmo que ir jogar Football Manager, entrar com quatro treinadores, derrubar outros três e ser campeão – é assim que está o futebol português. As novas gerações deixarão passar? Não, garanto. Primeiro muda-se o regulamento, depois as pessoas e deixa de prevalecer a cultura do medo”. BdC está com força e testa a sua força. Conseguirá? A acompanhar em 2014..."

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Eusébio

"Passamos grande parte da nossa vida a desejar ser mais novos. Eu na passada segunda-feira, ao ouvir os relatos dos jogadores que jogaram com ou contra Eusébio, desejei ser mais velho. Como devia ser bom ir ao estádio e ver aquilo, ou talvez daquilo.
Percebi que para muitos era desporto, para outros era poesia, para outros era ballet mais para todos era arte. Eusébio já era imortal, mas nós comuns mortais gostávamos muito de com ele conviver, e por isso foi com tristeza que nos despedimos dele.
A decisão de trasladar o corpo de Eusébio para o Panteão Nacional foi recheada de polémica sem sentido. De facto, tal justifica-se numa tentativa de dar prestígio ao Panteão Nacional, que ganhará universalidade.
O arrepiante minuto silêncio de Old Trafford, com a bandeira das quinas a meia haste comoveu-me. A evocação em Santiago Bernabéu, mais esperada pela forte ligação dos dois clubes, e de Eusébio a Di Stéfano foi bonita.
Real e Man. United não são os maiores clubes do Mundo só porque ganham mais vezes, são também porque respeitam de forma singular aqueles que fizeram este desporto rei.
Muitos temos histórias, razões e sentimentos partilhados com Eusébio. Eu que não vi o monstro do futebol, deixo a minha sincera lembrança de homem afável e gentil, de como se pode ser tão grande e tão simples, de como se pode amar um clube, amar um País, e amar um desporto, sem odiar ninguém. O Benfica homenageou Eusébio com amor, tanto como ele tinha pelo clube.
Portugal viu partir Eusébio com irrepreensível respeito, tanto como ele tinha pelo País. O mundo do futebol despediu-se de Eusébio com paixão, tanta como ele tinha pelo seu desporto. Estaríamos empatados não fosse esta arreliadora e eterna saudade de ti Eusébio.
Este fim-de-semana há futebol mas morreu Eusébio..."

Sílvio Cervan, in A Bola

Quatro homens, uma paixão

"Quando tantos falam de Eusébio e alguns como se fossem os seus melhores amigos, recordo homens simples de tão simples amizades.

Eusébio morreu e como morreu, morreu também um bocadinho de todos nós, porque Eusébio foi o português do século XX que mais tocou transversalmente os portugueses, o que mais disse respeito a todos, como fica amplamente confirmado pela onda de consternação e admiração que a sua morte provocou. Nesse sentido, Eusébio foi e é um português culturalmente marcante. Eusébio era dos portugueses e ra como era, não era como alguém queria que fosse ou como alguém o queria fazer.
Eusébio não se deixou moldar nem seguiu estratégias; nunca se aproveitou da grandeza que teve e viveu com a intensidade com que jogou e viveu com a simplicidade com que jogou. Nunca foi mais nem menos do que ele próprio.
Às vezes duro e tantas vezes meigo, às vezes azedo e tantas vezes terno e gentil, às vezes com o rosto meio fechado de antipatia e quase sempre verdadeiro, amável e simples. Eusébio foi tão enorme que a Eusébio tudo se perdoava, mesmo quando não era fácil a relação com ele.
Como singelamente declarou esse brasileiro tão português que é Carlos Mozer, a única verdade que a maioria de nós pode testemunhar é que Eusébio sempre teve tudo o que esperamos de um ídolo. Foi tocante e admirável.
Mas nesta hora em que todos falam de Eusébio como se fossem os seus melhores amigos, sinto apenas vontade de recordar quatro homens, quatro homens simples que fizeram parte da vida simples de Eusébio.

Emílio Augusto Andrade Júnior é mais conhecido por Ti Emílio. Nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1921, é o proprietário dos restaurante Tia Matilde, na capital, e terá sido verdadeiramente o pai que Eusébio quase não teve.
Ti Emílio é um grande benfiquista no sentido da devoção mas sempre recusou fazer parte de qualquer direcção do clube. Foi sempre um benfiquista de ajudar e não de aparecer nas fotografias. Acompanhou a equipa encarnada anos e anos por todo o mundo e deu-lhe tantas vezes de comer que se tornou inseparável do emblema.
É de homem destes que se fazem os grandes clubes.
Ti Emílio vai fazer 93 anos, e desses anos todos muita da sua energia da sua generosidade e do saber foram dedicados a Eusébio.
Ti Emílio não precisa de dizer uma palavra sobre o seu filho negro. Todas as palavras do mundo seriam poucas para falar de tanta coisa.

É com o auxílio de um artigo do PORTUGUESE TIMES  de New Bedford, cidade próxima de Boston, no estado norte-americano do Massachusetts, região de muitos portugueses, que aqui recordo a figura de Vítor Baptista, o homem que ofereceu a Eusébio e ao Benfica a estátua que permanece no Estádio da Luz e que por estes dias se transformou no santuário à memória do 'pantera negra'.
Vítor Baptista é, pois, um emigrante português nos Estados Unidos, natural de Angra do Heroísmo, da açoriana ilha da Terceira, um emigrante de Boston, desde 1973, aonde chegou aos 18 anos, e foi ele o primeiro a lembrar-se de uma grande homenagem pública, e em vida, ao grande Eusébio. Não foi o Benfica, como por aí se ouviu.
O amor de Vítor Baptista pelo futebol, pelo Benfica e, em particular, a sua paixão por Eusébio, levou-o a tomar a iniciativa de mandar construir a estátua do maior jogador português do século XX, para deixar a figura às gerações seguintes.
«Recordo as grandes alegrias que Eusébio deu ao meu pai (precocemente falecido aos 40 anos), quando o Benfica na segunda Taça dos Clubes Campeões Europeus e de tantas outras tardes de glória nas décadas  de 60 e 70 tornou mais feliz a vida dos portugueses», disse, um dia, àquele jornal, Vítor Baptista, que explicou que a estátua que mandou erguer não deixou, também, de ser «uma homenagem a meu pai e a todos os portugueses que se identificam com os valores que Eusébio representava quando envergou a camisola do Benfica e da Selecção».
Dizia Vítor Baptista que Eusébio «era naquele tempo a única nota positiva do País, e o único que nos dava orgulho de sermos portugueses, com tantas e tantas alegrias que nos proporcionou atravás das vitórias que conseguia para Portugal no estrangeiro».
Confessou ainda que o facto de ser benfiquista teve pouca importância no projecto da estátua. «Admirava Eusébio pelas suas qualidades de atleta. Segui muito de perto a sua carreira. Vi-o jogar várias vezes e pelos contactos que tive com ele posse testemunhar que é um homem excepcional. Admiro-o pelas suas qualidades de carácter e pela sua honestidade como atleta. Eusébio mostrou sempre uma conduta irrepreensível dentro das quatro linhas, portando-se sempre correctamente com companheiros e adversários, raramente discutindo as decisões dos árbitros».
Foi este homem, que tão deliciosamente descrevia Eusébio, como se vê, que cumpriu em Janeiro de 1992 o sonho de oferecer ao 'pantera negra' e ao Benfica a estátua agora transformada em santuário. A 25 daquele mês daquele ano Eusébio fez 50 anos e Vítor Baptista quis apenas o que sempre quiseram muitos de nós: admirá-lo!

O nome de José Morais dirá menos aos portugueses do que os Ti Emílio ou Vítor Baptista, porque por uma ou outra razão, Ti Emílio e Vítor Baptista estão ligados a aspectos mais conhecidos da vida de Eusébio.
Amigo e confidente, companheiro, assessor e secretário, amparo e motorista, paciente e sempre presente, íntimo e permanente, quase da família e para sempre, José Morais é talvez o homem que, conhecendo há muito o 'pantera negra', mais de perto - tão perto, tão perto... - o acompanhou nos últimos dez ou quinze anos, se não estou em erro, para todos os cantinhos, mas mesmo todos os cantinhos do mundo.
Fosse Eusébio chamado a uma festa na África do Sul, ou convidado para homenagem na Polónia ou a uma palestra nos Estados Unidos ou a inauguração benfiquista no Canadá ou a um jogo de beneficência na Coreia do Sul, ia, sim, mas não ia sem José Morais.
E José Morais tudo fez para manter gigante a dignidade que o carácter, a figura e a dimensão de Eusébio mereciam.

Por último, lembro ainda o nome de Alcino António, provavelmente o maior e mais pessoal amigo que Eusébio teve nas direcções do Benfica desde o final da década de 80.
Como eu os admiro."

João Bonzinho, in A Bola

Está a ser difícil o adeus a Eusébio

"Eu sei que a vida continua e a actualidade pede que se virem, desde já, os holofotes para a Luz, palco do clássico entre Benfica e FC Porto no próximo domingo. Mas não me está a ser fácil deixar de falar de Eusébio da Silva Ferreira nem parar de reflectir sobre o seu legado.
A uma conclusão, nestes dias tão intensos emocionalmente, terei chegado: quem é celebrado pelos portugueses, que provoca consenso entre os que estão habitualmente desavindos e aproxima ricos e pobres, etnias e religiões, não é apenas o genial futebolista que encantou o Mundo. Se Eusébio tivesse somente como atributo uma extraordinária capacidade para o futebol não seria merecedor de um reconhecimento tão abrangente. Eusébio era mais do que isso, tinha a simplicidade daqueles que são verdadeiramente grandes.
Diz-se que o Estado Novo se aproveitou da imagem de Eusébio. É verdade. E o regime saído do 25 de Abril, também. Na medida em que a figura de Eusébio era indissociável da sociedade portuguesa. É curiosa a ideia feita de que a política nunca deve misturar-se com o desporto. E falaciosa. O desporto é o desporto, as causas é que diferem. Senão vejamos: acha-se mal que o ditador norte-coreano esteja a usar, neste momento, a figura de Dennis Rodman e vice-versa; mas toda a gente acha bem que Nelson Mandela tenha usado os Springboks como instrumento unificador da África do Sul na versão do País do Arco-Íris. Num caso e noutro é a política a utilizar o desporto como meio para atingir os seus fins. O que torna um dos casos odioso e o outro louvável é a natureza da causa, porque num e noutro as águas de política e desporto misturam-se
PS - Obviamente, silêncio durante o minuto de silêncio..."

José Manuel Delgado, in A Bola 

Eusébio e o poder

"O futebol tem sido objecto de um tratamento interesseiro, por parte do poder político, ao longo dos mais de cem anos da sua História em Portugal.
Não precisamos de recuar muito no tempo, basta analisarmos a segunda metade do século passado. A trilogia dos 3 F's - Fado, Futebol e Fátima - foi uma arma política de enorme importância na estratégia do anterior regime.
Mais recentemente, e porque não vivemos num regime ditatorial, a conduta tem sido mais de colagem aos grandes acontecimentos desportivos e às suas maiores referências.
Eusébio foi, e é, uma das maiores referências que Portugal tem no desporto, interna e externamente.
A sua dimensão levou a que se falasse de Portugal, e da situação portuguesa de então.
Por isso mesmo a sua imagem foi utilizada com objectivos políticos, sociais e económicos. Inclusivamente nestes últimos dias.
Todos os que tiveram a possibilidade de conhecer o King, sabem que a sua simplicidade era verdadeira. O seu talento reconhecido mundialmente. Nunca contabilizou em proveito próprio a rela dimensão que atingiu. Sempre disponível para colaborar com uma boa causa. Aliás, a sua postura em capo é bem demonstrativa da sua grandeza.
Mas a importância do futebol, e das suas referências, como Eusébio, teve grande influência na assimilação da língua portuguesa e na união criada entre povos com culturas distintas.
A rádio levava a palavra, fundamentalmente através dos relatos dos jogos de futebol, e nesse sentido fez mais que muitos institutos que consomem milhões de euros aos contribuintes portugueses.
A História será escrita e rescrita mas as grandes figuras nunca serão esquecidas."

José Couceiro, in A Bola

Obra indiscutível

"Como vejo Eusébio? Das inúmeras histórias que ouvi em casa, do que li e das imagens que fui vendo: Eusébio era um craque! Mesmo sem o conhecer pessoalmente admirava-o, não só por tudo o que foi como jogador, mas pela forma como ao longo dos anos serviu o país e o Benfica, como embaixador do futebol português e imagem de marca do seu clube do coração. A sua humildade, respeito, sentido de partilha, educação, paixão, entre muitas outras qualidades que decerto tinha, foram as que mais me ressaltaram.
A proximidade da Selecção Nacional nos jogos das grandes competições mostrou a importância da transversalidade de carisma dos grandes heróis, como ele é! Todos os jogadores precisam de conselhos, carinho, conhecimento e conforto quando estão sob stress competitivo, nomeadamente daqueles que mais admiram, reconhecem capacidade e talento fora do normal. Lembro-me da forma como no Euro-2004 acompanhou a equipa, do abraço que deu a Ricardo depois deste ter defendido sem luvas e marcado o penalti à Inglaterra, que permitiu o apuramento para a final.
Mas foi ontem ao ver a transmissão integral do Portugal x Coreia, superiormente comentada por três ex companheiros de Eusébio (Hilário, José Carlos e José Augusto) no Mundial de 66, que percebi a diferença que Eusébio fazia! Apoiado por uma geração de talento muito especial, que teve a grande vantagem de jogar regularmente as finais das competições europeias de clubes, o que lhes conferiu um à vontade e instinto para lidar com o stress competitivo, tomada de decisão, aproveitamento dos momentos chave dos jogos e que impulsionou indubitavelmente os resultados de excelência. Aquele jogo evidência muito do que as selecções precisam para funcionar eficazmente: um heróis bem secundado por jogadores experientes, habituados a jogar ao mais alto nível, com capacidade adaptativa para variar sistemas tácticos sem perderem a direcionalidade e estrutura colectiva. Virar um resultado de 3-0, num jogo de tudo ou nada, é obra indiscutível! A sua visualização é, com certeza, uma boa motivação externa à equipa que Paulo Bento está a trabalhar para levar ao mundial do Brasil!"

Tomaz Morais, in A Bola

Elesébio

"Hoje vou contar uma estória. Que começa como todas as outras. Era uma vez. Era uma vez um menino. Desse menino se dizia ter nascido pobre e de cor. Assim mesmo. Como se fossem dois defeitos juntos. Mas afinal o defeito era de quem tal dizia. Porque o menino era tanto de cor como branco, isto é, não era uma coisa nem outra. Era só um menino. E os meninos não têm cor.  São só meninos. Também não era pobre. Pertencia era a uma família com pouco dinheiro. O que é muito diferente. De resto, era rico, muito rico, até, absurda e incrivelmente rico no que mais importa.. E o que mais importa é aquilo que, de tão preciso, não se pode comprar. Por fortuna nenhuma. Porque não tem preço. Como é o caso de um dom. E este menino nascera com um talento ímpar. Alguns, vesgos de alma, diziam que era o de dar pontapés na bola. Coitados. Reféns da sua própria soberba, julgaram-se naturalmente superiores por falarem com desdém destas coisas. Pressupondo-as como menores, próprias do povo que no fundo desprezam e incompatíveis com o alto intelecto e superior cultura de que se presumem portadores. Certo é que à medida que o menino crescia aumentava também em todo o mundo o espanto e admiração pelos seus feitos. O maior dos quais foi o de conseguir unir na alegria e na dor as gentes a que pertencia. E foi tão forte o vinco feito no coração daqueles que gozaram da graça de o testemunhar que ele passou primeiro para o coração dos seus filhos e depois para os filhos destes. Foi por isso que, quando o menino se retirou de cena, muito, muito tempo depois de se fazer homem feito, mas antes ainda de se arrastar pelo terreno da vida, todo o povo, a maior parte do qual nunca o vira, venerou com lágrimas a sua partida. E agora recordá-lo-á para sempre apenas como Ele, o Eusébio."

Paulo Teixeira Pinto, in A Bola

Bola de Ouro Negra

"Um amigo meu espanhol, o jornalista Eduardo Torrico, dizia-me um dia: "Eusébio era único. Quando jogava com o Real Madrid metia medo. Nunca senti isto com outro jogador." Devo dizer que Eusébio foi o melhor jogador que vi jogar, ou melhor dito, o mais forte. Messi, Ronaldo, Figo, Maradona, Pelé, Cruijff eram ou são todos enormíssimos jogadores, mas nenhum tinha aquela força instintiva que distinguia o moçambicano. Era o talento mais puro e intratável e fisicamente era um portento de velocidade, força, capacidade de remate e, mais importante do que tudo para um futebolista, coordenação de movimentos.
Era a felicidade dos adeptos do seu clube ou da sua selecção, mas aos outros, aos adversários, metia medo. Era capaz de qualquer coisa, de marcar um golo de qualquer lado, porque tinha um tiro de canhão. E parecia indestrutível, apesar das seis operações que enfrentou ao longo da carreira. Eusébio apareceu num tempo de ditadura latina na Taça dos Campeões Europeus - Real Madrid, Benfica, Milan, Inter, 11 vitórias consecutivas até à vitória do Celtic, curiosamente em Lisboa, no Estádio Nacional. Eram anos do Portugal colonial, não deste Portugal aberto e europeu que produziu Figo e Ronaldo que são personagens globais beneficiando de uma máquina - televisão e redes sociais - que nem se imaginava nos anos 1960. Eusébio foi o primeiro negro a ganhar a Bola de Ouro (1965), mas a partir dali o domínio anglo-saxão tornou impossível regressar aos grandes êxitos, no clube e na selecção."

Humildade

O Rei

"Os grandes reis ficam na História pelo cognome. No entanto, há um que difere de todos os outros ao ponto de se lhe substituir o nome pelo cognome. Para nós, Rei é Eusébio e Eusébio é um outro nome de Benfica, cujo cognome é Glorioso. É assim que no nosso imaginário o Rei é o Glorioso. É assim que no Benfica se edifica História. Mas este Rei é único, na medida em que não é herdeiro da coroa que ostenta nem deixou herdeiros para a sua coroa. Ele é o Rei único e insubstituível numa corte de vários príncipes e milhões de súbditos. Este Rei não nasceu herói, construiu-se herói ao longo da sua vida e nessa construção ajudou determinantemente o Benfica a transformar-se num Clube de dimensão universal e intemporal. É assim com os que são enormes entre os grandes: edificam-se, edificando um edifício maior do que a dimensão do sonho.
Ao vivenciarmos Eusébio deveremos perceber que, muito esporadicamente, a História dá-nos o privilégio de assistir à metamorfose do homem que transcende da sua condição ao ponto de se tornar um mito. Um dia, o homem parte e fica o mito. Quando o que restava de humano partiu no domingo passado, ficou a herança e a responsabilidade dos seus súbditos perceberem que houve uma fase em que Eusébio jogou e ganhou para o Benfica. Fê-lo durante anos, golos, vitórias, lesões e sacrifícios a fio. Agora, é chegada a hora de o Benfica jogar e ganhar pelo Eusébio. Apenas assim os súbditos do Rei continuarão a construir o Glorioso."

Pedro F. Ferreira, in O Benfica

D’ Eusébio

"E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
(Luís Vaz de Camões; Os Lusíadas; Canto I – Estrofe 2)

O meu pai não gostava muito, mesmo nada de futebol. A primeira (segunda e terceira) vez que vi o Benfica a jogar num estádio foi a acompanhar o meu pai nas bancadas. Talvez fosse ao contrário por eu ser menor de idade. E foram as únicas em que vi Eusébio jogar num estádio. Estreei-me, em 1971, aos 10 anos na final da Taça em Portugal. Eusébio marcou o nosso golo mas não chegou. Qual Sporting e Futebol. Para o meu pai só contava Eusébio.
A segunda foi de Gala. Nem dormi. Ia ver o “Glorioso” na “Catedral” na meia-final da Taça dos Clubes Campeões Europeus, frente ao poderoso Ajax holandês, campeão europeu na época anterior, recheado de vedetas. Em 1972, com 11 anos, o zero-a-zero afastou o “Manto Sagrado” da final. Qual Suurbier, Krol, Neeskens, Keizer, Cruyff e Futebol. Para o meu pai só contava Eusébio.
Terceira presença (e última com o meu pai) nas bancadas, segunda na Luz, em 1973, eu com 12, o meu pai com 34 anos, num encontro de Gigantes, na “Festa de Homenagem” a Eusébio com o Benfica frente a uma selecção do “Resto do Mundo” da FIFA cheiinha de estrelas. Empate a dois golos. Qual Banks, Iribar, Jackie Charlton, Blankenburg, Netzer, Bobby Charlton, Paulo César, Best, Keita, Kaiser, Seeler, Dirceu, Gento e Futebol. Para o meu pai só contava Eusébio.
Eusébio tinha esse poder. Era adorado, reverenciado e honrado pelos miúdos como eu que na rua, enquanto “se futebolava”, gritávamos ser (querer ser) Eusébio. Era admirado, respeitado e honrado por quem nem se interessava pelo Futebol. Como o meu pai."

Alberto Miguéns, in O Benfica

Recordações de Eusébio

"Os últimos golos da sua carreira.
Toda a gente tem a sua história pessoal para contar sobre o grande Homem que agora nos deixou (até Sócrates, com as suas conversas delirantes e irresponsáveis, achou por bem fazê-lo), pelo que não surpreenderá que eu não fuja à regra e seja mais um a engrossar o pelotão dos seus fervorosos admiradores, com "estórias" e outros casos para partilhar. Porém, através de narrativas um pouco mais verídicas do que as do ex-governante, bem entendido.
Tendo acompanhado com toda a atenção a carreira de Eusébio pelos jornais, desde a sua vinda para Lisboa, em Dezembro de 60, e depois também pela rádio e televisão, nunca pensei, nessa altura, que um dia pudesse chegar à fala com o "fenómeno". Contudo, o facto de ter, mais tarde, enveredado pela carreira de jornalista facilitou bastante o contacto inicial (e os que se seguiram).
Isso aconteceu em Outubro de 73, já depois de o ter visto por inúmeras vezes "ao vivo", como jogador, e ter estado, inclusive, muito perto dele, no decorrer de um treino da selecção, quando, já jornalista do "Diário de Notícias", acompanhei os trabalhos da equipa na véspera do confronto com a Bulgária, de qualificação para o Mundial-74. Nessa altura, só tive ocasião de falar com o seleccionador José Augusto, que me possibilitou uma entrevista que o jornal daria à estampa, no dia seguinte. Mas, dias depois, cumprimentei-o mesmo, no final do Benfica-Ujpest, que os encarnados empataram a um golo para a Taça dos Campeões. 
Eusébio tinha marcado o golo da equipa (de cabeça, lembro-me) e era alvo de toda a atenção por parte de muita gente, jornalistas e não só, e, no meio de toda aquela balbúrdia, que os tempos eram outros, o enviado do DN ao jogo possibilitou-me a aproximação à "pantera", que denunciou, logo ali, a simplicidade e simpatia que se lhe apontava, mas que então testemunhei e que o futuro haveria de confirmar. Estávamos no dia 24 de Outubro de 73 e o golo marcado aos húngaros fora o último conseguido por Eusébio nas provas da UEFA, já que em Budapeste e nos quatro jogos da época seguinte em que participou, ficou em branco. 
Agora, nesta hora de puxar pelas recordações, lembrei-me de que o tal jogo da selecção com os búlgaros tinha sido a 13 do mesmo mês e constituíra o último encontro do "Rei" pela equipa nacional. Não tendo facturado nesse duelo (Simões e Quaresma é que foram os marcadores de serviço), o meu passo seguinte foi o de ir em busca do último golo de Eusébio pela selecção. E de novo me deparo com 1973. Pela televisão, assisti à marcação desse golo, de grande penalidade, frente à Irlanda do Norte, num jogo realizado na inglesa Coventry, em virtude de Belfast se encontrar a ferro e fogo.
Feita a ficha internacional, digamos assim, faltava identificar o último golo de sempre de Eusébio pela equipa da Luz. Aconteceu em Março de 75, em Setúbal, na última época em que esteve ao serviço do seu Benfica. Jogo importante, já que, a cinco jornadas do fim, a diferença pontual sobre o Sporting ainda nada garantia. Eusébio inaugurou o marcador, mas o Vitória deu a volta ao resultado e ganhou por 2-1, ainda os sadinos do mecenas Xavier de Lima davam cartas e o PREC ainda não tinha feito das suas.
Em resumo, estive em todos os golos de despedida de Eusébio, quer no Benfica, quer na selecção, embora o golo pela "equipa de todos nós" não tenha sido presenciado "in loco", mas pela TV. Não, não ia a caminho da escola. Vi o golo tranquilamente em casa e percebi que, com Eusébio já na fase descendente da sua fabulosa carreira, teríamos de esperar muito tempo para revivermos as alegrias de Julho de 1966."

Palavras...

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

E despedimo-nos todos, por fim, do nosso século XX

"Tinha belo sorrido, mas o mundo apaixonou-se por Eusébio quando o viu chorar. Se os homens soubessem das emoções que despertam quando choram em público, chorariam mais vezes.

FOI-SE embora no fim-de-semana passado, o cidadão Eusébio da Silva Ferreira que se notabilizou nas décadas de 60 e 70 do século passado como um futebolista de excepção. Tratou-se de um desportista de inquestionável fair-play, idolatrado no seu clube e no seu país e, não é exagero dizê-lo, em todos os cantos onde o futebol tem expressão.
Tinha um belíssimo sorriso mas o mundo apaixonou-se por Eusébio quando o viu chorar numa tarde de Julho de 1966, já lá vão muitos anos.
Aliás, se os homens soubessem das emoções que despertam quando choram em público, chorariam mais vezes.
A fama de Eusébio enquanto jogador de futebol transformou-o num fenómeno de popularidade à escala global e é justo dizer-se de Eusébio que foi, involuntariamente, o maior embaixador de Portugal no século XX.
O maior embaixador, o melhor embaixador de Portugal e «sem encargos para o erário público», como diz, e muito bem, a Maria Emília, uma amiga minha de há muitos anos.

PELOS primeiros dias de Junho passado recebi um telefonema de um velho amigo, António Loja Neves. Foi direito ao assunto o António.
Visitaria Lisboa nos próximos dias para participar numas jornadas coloquiais o pensador e eurodeputado franco-alemão Daniel Cohn-Bendit, que foi o rosto da revolta estudantil em Paris em Maio de 1968. 
António Loja Neves, se bem me recordo, era organizador desse encontro político-filosófico na nossa capital e recebera de Daniel Cohn-Bendit um pedido urgente, de última hora e que muito desejava satisfazer por delicadeza e não só.
Cohn-Bendit queria absolutamente aproveitar a sua passagem por Lisboa para conhecer o português vivo que mais admirava, Eusébio. Era o seu ídolo, ponto final.
Passei sem demora a António Loja Neves um número de telefone dos serviços de Comunicação do Benfica e, alguns dias passados, constatei através da imprensa que Daniel Cohn-Bendit concretizou o seu sonho. Esteve com Eusébio, almoçaram juntos na Adega da Tia Matilde e trocaram presentes. Os relatos dessa ocasião referem que ambos se comoveram.
O ex-anarquista porque, nas suas palavras, esteve junto de uma lenda, a lenda porque estava longe de esperar que um pensador, uma figura histórica dos movimentos políticos estrangeiros do século XX, de quem provavelmente nunca tinha ouvido falar, lhe aparecesse à mesa com um monte de velhos recortes de jornais e de fotografias suas antigas, do tempo em que jogava futebol.
Em boa verdade, cada um à sua maneira era uma lenda, com direito a antonomásia e tudo. Eusébio, a pantera negra, Daniel Cohn-Bendit, Danny, Le Rouge, Danny, o Vermelho e não Danny, o Tinto, como alguns, quiçá apressadamente, se disporiam a traduzir ou por blasfémia ou por inveja ou por mal querença política.
Futebol não é propriamente alta cultura, assentemos nisto. Sabendo que, por palavras simples, existe uma cultura erudita que não exclui os populares e que sempre existirá uma cultura popular que não exclui os eruditos. E, às vezes, cruzam-se e é magnífico.
Felizmente que é assim que as coisas se passam em todo o mundo. Haverá sempre poetas que escrevem sobre toureiros, romancistas que escrevem sobre futebolistas e artistas que pintam fadistas e outros vencidos da vida que venceram em toda a linha..
Os funerais destes heróis populares, frequentemente mal-nascidos, sempre se constituíram em altas catarses. Aconteceu assim, ao longo de todo o século XX, com toureiros em Córdoba, com cantadores de tango em Buenos Aires, com fadistas em Lisboa e com futebolistas em Moscovo, no caso de Lev Yashin, o fabuloso Aranha Negra.
O espanto, e até mesmo a indignação, face à comoção popular suscitada pela morte de Eusébio, que foi apenas um futebolista, é espectáculo triste de se assistir porque revela, lá no fundo, mesmo bem lá no fundo, um enorme desprezo pelo poder do homem da rua, um poder maravilhosamente anónimo que confere o estatuto de lenda só a quem lhe merece.
E nunca ninguém conseguiu impingir uma lenda às ruas.
Foi quando o funeral de Eusébio, apenas um futebolista, saiu do Estádio da Luz, ou seja, da sua casa onde foi justamente homenageado pelos seus, e avançou pela cidade ao encontro da multidão anónima que fazia alas para o deixar passar, é que se fez prova definitiva do estatuto que lhe foi e será conferido pelo homem da rua.
Lisboa despediu-se de uma lenda.
E despedimo-nos todos, por fim, do nosso século XX.

«BELLA GUTTMAN prepara-te, o King vai-te dar uns tabefes !», escreveu um amigo meu, Hugo Sá Nogueira, na sua página do Facebook na manhã do último sábado.
Foi, para mim, o melhor que li nesse dia e nos outros que se lhe seguiram a propósito da morte de Eusébio, no Facebook.
Pelo melhor do Twitter tive de esperar três dias mas valeu a pena a demora. Chegou assinado por Mike Tyson. O pugilista norte-americano capaz de arrancar orelhas à dentada, entre outras habilidades, mandou-nos um belo recado: «R.I.P. Eusebio Black Panther BENFICA forever». É assim mesmo, Tyson.
Em termos de redes sociais, concluindo: Hugo Sá Nogueira & Mike Tyson, o meu respeito.
Em termos de Panteão, não tenho nada a dizer. É uma honraria, certa e indiscutivelmente. Mas é uma honraria que, objectivamente, não acrescenta nada à lenda. Pode acrescentar ao Panteão, isso sim.

EM termos de cachecóis, também tenho pouco ou nada a dizer. Ditada pela emoção, o que é muito respeitável, a ideia de imortalizar a área circundante à estátua de Eusébio, tal como ficou, coberta de cachecóis, até à saída da Luz do funeral, não me parece de excelência.
Se vivêssemos numa utopia, sim, seria talvez uma boa ideia. Mas não vivemos. E engaiolando a área da estátua, o Benfica vai ter certamente aborrecimentos vários e frequentes se não entender como imperioso contratar segurança, e da boa, 24 horas por dia.
O Benfica até tem um Museu, espaço fechado, protegido, onde poderá recriar todo esse ambiente dando-se, se quiser, ao trabalho de encomendar uma réplica da estátua e de a rodear dos cachecóis de todos os clubes, tal como aconteceu, espontaneamente, na chamada vida real quando a multidão se começou a dirigir para o Estádio da Luz depois de conhecida a notícia da morte de Eusébio.

CRISTIANO RONALDO vai ser condecorado pelo presidente da nossa República. A cerimónia deveria ter ocorrido anteontem mas acabou por ser adiada por razões óbvias.
Cristiano Ronaldo é um futebolista excepcional e merece todas as medalhas e comendas que o seu país lhe queira outorgar. Embora não precise de nada disso para continuar a ser o futebolista portentoso que é.
O regime, seja ele qual for, nunca hesitou em condecorar os seus desportistas excepcionais. É uma necessidade. Uma necessidade do regime, qualquer que seja o regime, e não do desportista. É esta a vantagem do desportista nestas ocasiões. Na verdade, não precisa. Já o regime, precisa.
Acontece agora com Cristiano Ronaldo como aconteceu com Eusébio quando jogava. É normal que assim seja. Mas nunca lhes chamem, por favor, “futebolistas do regime” porque esse é o maior dos abusos. E para abusos, francamente, já basta.

VOLTANDO à vida real. No próximo domingo há um Benfica-FC Porto. Nas duas últimas edições do campeonato o título decidiu-se sempre nestes confrontos directos entre os dois grandes rivais.
Nada garante que este ano volte a acontecer a mesma coisa até porque, este ano, o Sporting renasceu para a luta e o que se discutia ferozmente a dois passou a ser discutido a três, o que altera muita coisa.
Pois que seja um bom jogo e que ganhe o Benfica, são os meus votos.
Homenagear Eusébio é, muito simplesmente, ganhar campeonatos, títulos nacionais, títulos internacionais. 
Por isso fico tão alheia a conversas de cachecóis e de panteões.
Viva o Rei!"

Leonor Pinhão, in A Bola

Eusébio, o joelho e o energúmeno...

"Corria o ano 68 do século passado e eu, que andava pela América do Sul, juntei-me ao saudoso Carlos Pinhão que acompanhava o Benfica na digressão e teve como primeira paragem Buenos Aires. A primeira notícia que me deu o Carlos ao ver-me foi: 'No Benfica vem um miúdo de 17 anos que vai ser uma sensação, chama-se Humberto Coelho'. O primeiro desafio foi no Bombonera e apesar de amigável o recinto estava cheio e o ruído dos barras bravas era ensurdecedor. Hoje seria impensável, mas a verdade é que vi o jogo sentado no banco ao lado de Otto Glória - e me apercebi pela primeira vez que ali, no banco, o papel do treinador, pelo menos nessa altura, era, após o desafio começar, pouco mais do que testemunhal, já que ao nível do relvado só se viam pernas e os jogadores não ouviam nada do que o técnico lhes ia dizendo.
Eusébio também lá estava, apesar de duas semanas antes ter sido submetido a ma das seis operações ao joelho esquerdo O contrato que o Benfica tinha assinado com o Boca a isso obrigava. Para cumprir o compromisso, Otto Glória fê-lo entrar em campo já com o jogo a decorrer, coxeava e a joelheira que levava era o que melhor indicava o sítio onde o bisturi entrara. O defesa argentino encarregado de o marcar não perdeu tempo a pô-lo fora de combate, bastou-lhe uma entrada suficientemente dura para que Eusébio saísse na relva e de lá saísse em maca.
O jogo terminou com empate: 1-1, os dois golos foram de penalty,o do Benfica transformado pelo defesa Jacinto. Mas o pior foi o que aconteceu no balneário. Aí se apresentou, como um energúmeno, o presidente do Boca Juniors, um tal Armando, que absolutamente fora de si, chamou de tudo e de ladrões para cima aos dirigentes do Benfica, queixando-se de lhe terem vendido gato por lebre, que o contrato era explícito: Eusébio tinha de jogar e chegara lá quase incapaz de correr, praguejava, exigindo, por isso, que lhe devolvessem o dinheiro que pagara.
O assunto resolveu-se mas a recordação agora, desse episódio, serve para mostrar como foi explorada a figura de Eusébio pelo próprio clube que, como ele ou sem ele, facturava cachets bem diferentes. É certo que depois de ter deixado o futebol, o Benfica soube reconhecer tudo o que Eusébio lhe dera, dando à figura a maior dignidade, mas nada mais justo poderia fazer depois dos êxitos desportivos em que ele foi determinante, e dos sacrifícios físicos que foi obrigado a fazer, aguentando dores impossíveis para que pudessem entrar alguns (muitos) dólares mais nos cofres do clube. Também nisso os benfiquistas lhe têm de estar profundamente agradecidos. E já agora é bom recordar que os colegas de então nunca o deixaram de fazer - e por isso é que diziam sempre que no Benfica o Eusébio não é só o Eusébio era o... «abono de família» de todos eles."

Pereira Ramos, in A Bola

Eusébio (II)

"Eusébio representou sublimemente uma expressão desportiva que deixou de ser norma. Onde o que contava era tão-só o futebol jogado. De paixão pura. Onde a iconografia  era a do exemplo no trabalho e não a da imagem no mercado. Num tempo em que o sucesso não era apenas uma forma de aumentar a retribuição, mas uma compensação de quem sentia devotadamente a camisola que envergava. No seu tempo não se falava de marca, de manager, de merchandising. Falava-se de amor, suor e vitórias.
Por vezes, imaginava-o a jogar no século XXI. Não que tivesse sido jogador no tempo errado, mas para sublinhar a sua magia e talentos quase insgotáveis. Imagino o que teria sido mais em Eusébio e com Eusébio se, então, houvesse cartões amarelos e vermelhos que impedissem o massacre de que ele foi tantas vezes alvo por adversários incapazes de se lhe opor. Ou haveria jogos em que o adversário terminaria com alguns jogadores expulsos e Eusébio poderia expressar ainda mais a sua atracção pura, genuína, quase romântica pelo golo. Aquela jogada contra a Coreia, desde o meio-campo com 17 toques e vários derrubes é exemplar: além do penalty marcado, quantas expulsões haveria?
Eusébio foi lusofonamente inteiro: sempre português sem deixar de ser moçambicano. Foi sempre menino sem deixar de crescer. Foi sempre apaixonado pelo Benfica sem deixar de reconhecer o valor dos adversários. Eternizou o Benfica e fundiu-se com Portugal.
Eusébio: un nome que poderia estar num qualquer Dicionário de Língua Universal porque é intemporal e universal. Ultrapassou a onomástica e a geografia. Pertence ao mundo e tem significado próprio."

Bagão Félix, in A Bola

O que eu devo a Eusébio

"Zangadíssimo em Lourenço Marques... E a viagem pesadelo no meu carro, com Nuno Ferrari, levando Eusébio ao... Beira-Mar.

Creio dever a Eusébio ter entrado para o quadro da redacção de A BOLA logo uma semana após regressar da guerra colonial em Moçambique. Os 'monstros sagrados' tinham-me aceitado, miúdo ainda estudante, como colaborador, mas a tropa afastara-me por longos 3 anos - e quem não aparece... esquece. Bambúrrio de sorte e... Eusébio terão sido os meus salvadores. Quando a guerra me deu uns dias de férias, decidi passá-los em Lourenço Marques (hoje Maputo). E foi aí, em Junho (ou Julho?) de 1970, que o já Rei Eusébio de rompante entrou na minha vida. Zangadíssimo por o presidente Borges Coutinho lhe fazer baixa proposta para novo contracto, voou até à sua terra natal garantindo. «assim, não voltarei a jogar». Que 'bomba'! Telefonei para A BOLA e, entre timidez e audácia, disse ao grande chefe Vítor Santos: «estou em Lourenço Marques; se puder ser útil...». Durante 2 semanas, colei-me a Eusébio, conheci a mãe (que personalidade de matriarca, Dona Elisa), irmãos, amigos. Contratado fotógrafo, fizemos manchetes de A BOLA. Querido Eusébio, escancaraste-me porta grande na lisboeta travessa da Queimada.

Seis anos decorridos, deu-me lição de coragem e de persistência (no amor a entidade que tão mal, com terrível ingratidão, estava a tratá-lo). Gigante Eusébio a caminho do... Beira-Mar! Para assinar contrato em que foi pago por jogo e, salvo erro, por golo! Lisboa-Aveiro, no meu carro e com o seu enorme amigo Nuno Ferrari, que pesadelo! partimos em sepulcral silêncio, mas depressa explodi: «Não podes sujeitar-te a isto!» Sussurrou: «tem de ser». Olhei para o banco de trás: olhos do Nuno Ferrari rasos de água. Em fúria, chamei tudo aos dirigentes do Benfica - e até aos da Federação. Eusébio ouviu, ouviu... e, quando, enfim, falou, fui para dizer: «Garanto que não jogarei contra o Benfica». Teve de jogar, semanas depois, mas recusando-se a marcar livres e nem um remate fazendo...

Tanto a dizer de tão excepcional futebolista! Fico-me pelo início de carreira, mostrando estar ali um... fenómeno. Benfica recém-campeão europeu foi a Paris defrontar o famosíssimo Santos de Pelé; Eusébio, 19 aninhos e só há 3 meses na Luz, no banco de suplentes. Ao intervalo, 4-0 para Pelé & Companhia; o miúdo Eusébio entrou e... tomem 3 golos! (não 4 porque lhe recusaram estatuto para marcar penalty...).
De seguida, Peñarol-Benfica, decidindo oficioso título mundial. Na Luz, 2-1 para o Benfica (Eusébio de fora). Em Montevideu, campão da Europa goleada com 5-0! Regulamento ditava; 3.º jogo, em Montevideu. Bela Guttmaan mandou ir de Lisboa dois meninos: Eusébio e o ainda júnior Simões. Foram titulares. O Benfica perdeu por 2-1, Eusébio marcou, um pontapé quase de meio campo! Nunca mais, por muitos anos, ele e Simões saíram do onze... Simões, extremo esquerdo, ainda hoje o mais jovem campeão europeu, aos 18 anos, quanto a mim o jogador que, no Benfica e na Selecção Nacional, melhor entendeu e explorou o fantástico futebol de Eusébio.
Nos últimos tempos, alguns (poucos) subvalorizaram Eusébio face a Cristiano Ronaldo. Irritante, vindo de quem não viu, ou quase não viu, jogar Eusébio... Raio da idade deu-me o privilégio de vê-lo em toda a sua carreira. Repito o que escrevi há dias: houve grandes jogadores que não o seriam hoje; mas Eusébio seria hoje ainda maior gigante. Técnica ao serviço de excepcionais mudanças de velocidade (que poder de aceleração, mantendo-a por ali fora!), raça e força, fabuloso remate, diabólico também na colocação. Com tais características em grande, vi o Ronaldo brasileiro e vejo o nosso. Mas Eusébio rasgou fronteiras, atingindo píncaros de admiração mundial (super-fenómeno, sem internet, profusão de vídeos, intensíssimo marketing), nunca lhe tendo sido permitido acréscimo de mediatismo por jogar num grande clube de Itália, Inglaterra, Espanha... E hoje, caramba, com meios clínicos muito mais requintados, não teria de sofrer 7 (!) operações a joelhos! Digam lá quem mais passou por tamanho calvário mantendo-se gigante?...
Há uns 5 anos, Simões disse-me: «com as bolas de hoje, muito mais golos Eusébio marcaria... de meio campo». Digo eu: com as bolas e também as botas de hoje, tão mais leves.
Eusébio, como Pelé e Maradona, foi rei de um Mundial (em dobro: melhor jogador e goleador n.º1). Cristiano Ronaldo e Messi ainda não atingiram tal galáxia. Grande Cristiano, que seja este ano!"

Santos Neves, in A Bola

Heróis de outros e de todos os tempos

"Há heróis distinguidos por extraordinários feitos, heróis de guerra, heróis nacionais, heróis da Pátria. São heróis distinguidos em parada militar, por decreto presidencial, por designação de altos comandos. Passei os 10 de Junho da minha juventude a ver entregar medalhas e heróis falecidos em combate. Vinham as viúvas, com os filhos num negro de corvos, receber a distinção, desfeitas em lágrimas, em parte vertidas pela memória, em outra aparte vertidas pela raiva de uma guerra onde nem os heróis encontravam razões de glória.  E passei também os 10 de Junho, depois do 25 de Abril, a ver desfilar a reprovável banalização dos louvores da Pátria oficial e cinzenta, que tudo confunde, desde os verdadeiros ilustres, a quem Portugal muito ficará a dever, até aos verdadeiramente banais, escolhidos por critérios inenarráveis.
Eusébio não é, certamente, confundível com um heróis de guerra, com um grande escritor, um grande cientista, um grande estadista. Pertence, apenas, e só, ao pequeno grupo dos heróis eleitos pelo povo. Não é verdade que o povo o tenha escolhido, apenas, por ter sido um genial futebolista. É preciso muito mais para merecer a escolha do povo. Às vezes, é mesmo preciso algo que só o povo sabe descobrir, mesmo quando não consegue definir.
Não me choca que Eusébio ganhe lugar no Panteão. Sinceramente, não me parece a melhor das ideias, mas admito que seja uma maneira de dar expressão nacional ao agradecimento pelo que Eusébio representou para Portugal e para os portugueses. E se outro mérito não tiver, será também uma forma dos portugueses conhecerem melhor a vida e a obra de quem lá está e de quem lá haverá de estar. Num dos casos, que eu cá estou a pensar, seria, aliás, uma deliciosa ironia."

Vítor Serpa, in A Bola

O meu Eusébio

"É o Eusébio do sangue
Dois dias depois, é ainda mais difícil escrever sobre Eusébio.
Escrever para elogiá-lo como jogador ou como homem soa redundante: já foi tudo dito, e quase tudo bem. Escrever para exigir a trasladação dos seus restos mortais para o Panteão também: toda a gente o fez já, ademais com justiça - e o precedente de Amália torna o desbloqueamento da operação numa formalidade burocrática.
Escrever para quê, então? Para lamentar as intervenções do dr. Soares, de Mozer, de tantos outros que, no meio da cacofonia em que talvez fosse inevitável a morte do Pantera Negra tornar-se, usaram o microfone para violentar o mito, mesmo que com a melhor das intenções? Escrever para repreender as vozes dissonantes que não se coibiram de aproveitar a morte de um grande para ajustar contas com recalcamentos históricos, para dirimir comparações estéreis, para sobrepor a espuma dos clubismos e a raiva dos resultados e a mágoa dos penáltis e a pequenez de tudo aquilo que nos separa uns dos outros à grandiosidade daquilo que nos une?
Confesso-me incapaz. Sou um cronista das pequenas coisas: das entrelinhas e dos desperdícios, dos equívocos e das partes gagas. Nenhuma crónica minha faria justiça a Eusébio. E talvez alguma crónica de outrem possa fazer justiça àquilo que Eusébio foi, mas até ao momento em que escrevo também ainda não li uma só que faça justiça àquilo que ele significa.
Aquilo que um homem significa é aquilo que ele será sempre. E aquilo que Eusébio será, se a proximidade efectivamente nos tolda a visão, fica aí expresso mundo fora: nas homenagens, nas manchetes, nos lutos e nas palavras (sim, nas palavras também) que lhe deixam personalidades, clubes, instituições, adeptos anónimos. 
O resto, que não aquilo que os homens significam, é fragilidade humana apenas: a saúde e a doença, os semblantes e os cheiros, as rotinas e os objectos, os fracassos, os sucessos e até as estatísticas. Todos nascemos, vivemos e morremos. Vimos do pó e ao pó regressamos. É o que se realiza nesse fugaz instante que só nós podemos tornar possível que faz a diferença.
Eusébio foi buscar a bola dentro da baliza e continuou a trazê-la de volta para o grande círculo, até que enfim se operasse a reviravolta. Já o haviam feito marinheiros, vice-reis, restauradores, até poetas. Mas nenhum deles aparecera na televisão.
Até nessa coincidência Eusébio foi um milagre. Nós reconhecemo-lo se quisermos. Os milagres não precisam de reconhecimento para continuarem milagres.
Afinal, sempre escrevi. E, como previsto, fica aquém do seu objeto. Bom sinal."

Três notas

"Nestes dias que se seguem ao desaparecimento físico de Eusébio, todos temos procurado rebuscar memórias nas gavetas onde há muito se encontravam recolhidas, aguardando o seu tempo para serem partilhadas com o grande público.
Nestes dias que se seguem ao desaparecimento físico de Eusébio, todos temos procurado rebuscar memórias nas gavetas onde há muito se encontravam recolhidas, aguardando o seu tempo para serem partilhadas com o grande público. Esse tempo, infelizmente, chegou.
As histórias têm assim surgido em catadupa, algumas vertidas em textos admiráveis e dignos de figurar num compêndio onde um dia alguém tenha a iniciativa de as colocar, também para memória futura.
E tem havido de tudo um pouco, desde a descrição de momentos empolgantes que ligaram os nomes de Eusébio e de Portugal ao Mundo, passando por pequenos episódios que alguns contam, empolgados, como se se tratasse da história das suas vidas. Mas não podem igualmente ser colocados de lado alguns ridículos pormenores, que bem poderiam e deveriam ter sido evitados.
Apenas três notas:
A primeira, para valorizar as declarações proferidas pela segunda figura do Estado porque da Presidente da Assembleia da República se trata, relativas à proposta que cada vez ganha mais corpo, de levar Eusébio para o Panteão Nacional. Assunção Esteves não fez os trabalhos de casa e acabou por ficar mal na fotografia.
Depois, Mário Soares, já muito causticado nas redes sociais devido à forma lamentável como procurou traçar o perfil do antigo jogador do Benfica e da selecção nacional.
Para quem exerceu os mais altos cargos e deveria ser figura permanente de referência, as palavras por si produzidas teriam sido bem substituídas por um prudente silêncio que as circunstâncias lhe recomendavam. 
E, finalmente, José Sócrates. Afirmou o ex-Primeiro Ministro, que deve a Eusébio a sua ligação afectiva ao Benfica, recordando ter sido a partir do relato do jogo Portugal-Coreia do Norte, relativo ao Mundial de 66, quando ia para a Escola, na Covilhã, que essa simpatia despontou.
Só que, esse desafio teve lugar a 23 de Julho, um sábado à tarde, em pleno período de férias de Verão e nesse dia e essa hora a escola estaria seguramente fechada.
Enfim, tem havido de tudo um pouco por estes dias. Só que a figura de Eusébio está muito para além de todas estas irrelevâncias."

Uma questão de valores

"Se faz sentido que exista um Panteão Nacional, faz sentido que Eusébio tenha lá lugar. O que não faz sentido nenhum é falar-se em custos.
A trasladação de Eusébio para o Panteão Nacional é um tema pacífico entre os únicos interessados no assunto: os portugueses. Se faz sentido a existência de um Panteão Nacional, faz sentido que Eusébio tenha lá lugar, por tudo e mais alguma coisa e, pelo menos nisso, pelo menos desta vez, estamos todos de acordo, incluindo Assunção Esteves. Infelizmente, a presidente da Assembleia da República fez questão de lembrar que o processo tem "custos". Ainda por cima, disse que são custos elevados "na ordem das centenas de milhares de euros". Quantas centenas? Afinal, há uma diferença significativa entre uma, duas ou nove centenas de milhares de euros, mas também é verdade que se os políticos fossem rigorosos as contas públicas não eram o que são. O JOGO foi saber e chegou à conclusão que as centenas de milhares de euros de Assunção Esteves serão, afinal, dezenas. Uma boa notícia para a presidente da Assembleia da República, naturalmente zelosa do orçamento parlamentar ao qual terá de ser subtraído o "custo" da trasladação. Claro que mesmo sem estas contas, alguém lhe podia ter dito que, apesar de terem custos, há alturas em que algumas coisas não têm preço. A memória é só uma delas."

O Rei em Alta Definição !!!


Alta Definição: Eusébio da Silva Ferreira por TVRips

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Eusébio (I)

"Eusébio morreu num domingo, o dia por excelência, do futebol. Foi sepultado no Dia de Reis, ele que foi um rei do Benfica e no mundo do desporto.
Sou de uma geração que teve o privilégio de o ter visto jogar, de ouvir os relatos com o calor dos seus golos e de ler a BOLA no rescaldo de tantos momentos gloriosos.
Faz, assim, parte do meu reduto memorial indestrutível. Eusébio não foi apenas o fabuloso jogador que está entre os melhores de sempre no mundo, mas também o desportista leal, exemplar, simples, solidário, sem tiques de vedetismo, acima e para além da efemeridade de cada momento.
Inigualável não apenas nos seus incontáveis golos e soberbas exibições, mas no exemplo de trabalho, de dever, de sacrifício, de abnegação, de entrega, de autenticidade, de companheirismo, até de utopia e de sonho. E que sempre soube adicionar à universalidade do consenso que foi capaz de gerar.
Para ele não havia inimigos ou mesmo adversários. Tão-só oponentes naqueles 90 minutos de jogo. Um espírito que bem precisaria de ser reerguido no futebol.
 Escrevo estas palavras e acabo de receber  uma mensagem de um bom amigo sportinguista reveladora deste consenso: «Morreu o jogador que me estragou mais tardes de futebol, mas que me deu também momentos memoráveis! Era um jogador único!»
Num tempo em que a globalização ainda não o era, Eusébio foi uma projecção de portugalidade no mundo global. Ultrapassou o mapa de Portugal e derrubou todos os muros. Os de cá e os de lá fora. Um herói num tempo em que a genialidade e a heroicidade profissional não estavam estupidamente banalizadas e inflacionadas como hoje."

Bagão Félix, in A Bola

O punho que levantou 120 mil na velha Luz

"Eusébio para o centro do relvado e pôs-se a dar socos no ar. 120 mil gritaram «Ben-fi-ca!, Ben-fi-ca!, Ben-fi-ca!» e bateram com os pés no cimento. A Luz estremeceu...

A despedida emocionada a Eusébio no estádio fez-me lembrar o ambiente do antigo inferno da Luz, onde tantas e tantas grandes equipas sucumbiram ao medo cénico e ao ruído impressionante da multidão a puxar pelos encarnados. Eu sou do tempo em que se dizia que o Benfica partia com meio golo de vantagem por conta do terceiro anel. Nas noites europeias o ambiente era ainda mais impressionante: havia electricidade pura no ar. Que ruído prodigioso produzia aquela arqui-bancada!...
Por falar nisso: uma das impressões mais marcantes que guardo de Eusébio ocorreu precisamente na valha Luz, no dia 18 Abril de 1990, tinha ele 48 anos - portanto, já só jogava por fora. E ainda jogava muito, como veremos. O Benfica de Eriksson e Toni (e Silvino; José Carlos, Samuel, Aldair e Veloso; Paneira, Thern, Hernâni e Valdo; Magnusson e Lima) recebia o Olympique Marselha para a 2.ª mão da meia-final da Taça dos Campeões e o estádio, que na altura tinha capacidade para 120 mil pessoas, estava cheio como um ovo. No Velódrome de Marselha, 15 dias antes, eu viria o Benfica sofrer uma derrota extremamente lisonjeira (apenas 1-2) para a dimensão do massacre perpetrado pelos senhores Jean_Pierre Papin, Chris Waddle, Didir Deschamps, Frank Sauzée e Mozer (é veradde, o Mozer). O golo do Benfica foi marcado por Lima, um latagão brasileiro bom de violão trazido pelo empresário Manuel Barbasa. Importa lembrar que esse Marselha era muito forte. E o presidente deles, Bernard Tapie, soube-se depois, tinha artes de o tornar ainda mais difícil de derrotar.
Bom. A vinte minutos do início do jogo, o ambiente na Luz estava morno. Estranhamente morno, tendo em conta a importância da noite. Fosse por que motivo fosse - ansiedade, impaciência, nervoso miudinho, alguma apreensão face ao desastre exibicional de Marselha - os adeptos benfiquistas estavam demasiado calados para o gosto de Eusébio, senhor de muitas e épicas batalhas europeias naquele estádio. Nessa altura Eusébio assistia aos jogos no relvado sentado numa cadeira; diz quem sabe que sofria imenso e prestava atenção a todos os pormenores. Talvez isso explique o que se passou. Subitamente, Eusébio levantou-se, caminhou sozinho para o centro do relvado e pôs-se a dar socos no ar, convocando o Inferno. Que respondeu. 120 mil pessoas começaram a gritar «Ben-fi-ca!, Ben-fi-ca!, Ben-fi-ca!» e a bater cadenciadamente com os pés no cimento, num crescendo operático. O estádio estremeceu de alto a baixo. Parecia um tremor de terra. Eu estava na tribuna de Imprensa a ver aquele espectáculo impressionante ao lado de um jornalista francês do Le Meridional. Nunca esqueci o pasmo dele, os olhos fixos na vidraça, a caneta que ele antes girava distraidamente nos dedos agora a rodopiar cada vez mais depressa. Até que o pobre bufou assim, entredentes: «estamos f...», num desabafo tão humano como a raiva de Eusébio perante o silêncio incompreensível do terceiro anel. O camarada do Le Meridional acertou em cheio: o Marselha lixou-se - pela mão de Vata Matanu, ao minuto 83 (num minuto que anos mais tarde Luisão tornaria a declarar mágico) e o mais engraçado é que o jogo, tirando aqueles minutos arrebatadores por culpa de Eusébio, não foi grande coisa.
Espero que a memória de Eusébio, Grande de Portugal, seja respeitada no jogo grande do próximo domingo. Bolas. Não é pedir muito.

(...)"

André Pipa, in A Bola

PS: O Pipa esqueceu-se do Enzo Francescoli !!! E não foi 20 minutos antes, foi mesmo antes das equipas subirem ao relvado, os jogadores do Marselha alinhados no túnel ouviram bem...!!! Outra imagem que tenho desse momento, era o coração a bater nos ecrãs gigantes...

Estádio ou Panteão?

"Duas questões fracturastes relativos à preservação da memória de Eusébio sobraram dos dias intensos que acabámos de viver, uma exclusiva dos benfiquistas e outra À dimensão da identidade nacional: dar o seu nome ao Estádio da Luz e promover a trasladação dos restos mortais para o Panteão Nacional.
São questões polémicas que não podem ser discutidas de ânimo leve e que recomendam um adiamento por um período de luto prolongado. São dois pontos de perspectiva histórica e, realmente, só deviam ser bordados depois de uma longa maturação, mas a emotividade que afecta todos os envolvidos garante-nos que haverá sempre quem queira alimentar as discussões. Parecem ser muitos os que, neste momento, estão certos de que ambas as decisões são as mais certas e absolutamente justificadas. Mas há diferenças: o estádio é povo, caloroso e feliz; o Panteão é política, fria e interesseira.
Eusébio é a maior figura da história do Benfica e um dos portugueses, mais populares de sempre, mas em ambos os campos de discussão existe um défice de informação e desequilíbrios mediáticos que aconselham prudência. Talvez o caso do universo benfiquista seja impossível relativizar melhor a sua carreira com a influência dos que marcaram o clube na primeira metade do século passado, concluindo-se a homenagem na recente inauguração de outro local perpétuo, o Museu Cosme Damião. Mas na questão do Panteão Nacional, é recomendável que não se repita o processo de Amália Rodrigues, medindo bem a dimensão dos outros portugueses que lá estão deixando a História seguir o seu curso, sem que isso em nada belisque a grandeza de Eusébio. Num caso e noutro, as decisões não deixam espaço a retorno.
Absurdo nesta questão é  factor económico, introduzido pela presidente da Assembleia da República. O custo da trasladação de um português com dimensão para o Panteão nunca poderia ser argumento. Da mesma forma, o Benfica não deveria colocar de lado um nome para o estádio pelo risco de colocar em perigo o eventual negócio do 'naming' comercial.
Segue-se o luto e muito tempo para as ideias se arrumarem. Contudo, a perpetuação através do nome do estádio faz mais sentido pela ligação permanente a um espaço vivo e popular, parecendo mais plausível e adequada, não só por carecer de menos tempo e burocracia, mas sobretudo pela correspondência directa da arte de um grande futebolista com o enorme prazer que proporcionava aos seus adeptos."

Nunca o vi jogar

"Com uma lucidez exacta, o poeta Ruy Belo, disse um dia que 'Fernando Pessoa nunca seria conhecido por tanta gente como Eusébio', para logo acrescentar que 'achava bem'. Numa curta resposta numa entrevista, Ruy Belo, que é juntamente com Pessoa o nome maior da poesia portuguesa do século 20, mas era, em igual medida, um benfiquista apaixonado, esclarecia o ponto: 'A poesia é por natureza difícil. Como o futebol (mas no futebol encontramos) o êxito.'
Faz sentido colocar lado a lado duas artes maiores: a poesia e o futebol. Nas duas, entrevemos a mesma capacidade de tornar simples o complexo. Há numa partida de futebol demasiadas variáveis e obstáculos que aparentam ser intransponíveis, e o segredo está em saber simplificar o jogo. Um grande jogador é isso que faz: encontra escapes fáceis, que nenhum outro foi capaz de vislumbrar. O  propósito da poesia não é diferente, através de palavras concretas, atentas ao pormenor, revelar-nos resquícios da verdade. Em poucos sítios como no futebol e na poesia podemos avistar uma glória absoluta.
Eu nunca vi Eusébio jogar, mas é como se tivesse visto. Sei bem o que uma jogada deslumbrante, uma cavalgada monumental, com uma força que parecia estranha a todos os outros, ou um remate explosivo, podem fazer pela revelação da verdade. Sei que há tanta verdade nos dribles serpenteantes do Maradona como nas palavras enigmáticas de Borges; na perfeição  clássica de Pelé como na afinação suprema da voz de João Gilberto; na altivez superior de Beckenbauer como no romantismo da poesia de Goethe. A diferença está, como bem notou Ruy Belo, que um poeta terá menos possibilidade de alcançar o êxito, revelar essa verdade a uma maior número de pessoas.
Eusébio aproximou-nos a todos nós, portugueses, por escassos instantes, com os seus golos, um pouco mais do absoluto. É essa a matéria de que são feitos os génios. Como é sabido, não se repetem, mas é também o que lhes oferece a eternidade."

A arte como expressão

"Felizmente que os meios audiovisuais de hoje permitem com que fiquemos com um conhecimento mais perto da realidade vivida no início dos anos 60 no futebol em Portugal. O maior legado de Eusébio é o que ele irá transmitir a futuras gerações. Aqueles que nunca o viram jogar ao vivo aperceberam-se da magia deste génio imortal através das repetidas imagens, fotografias, dos muitos golos e de momentos ímpares na sua carreira. Eusébio era a arte do futebol na sua máxima expressão. Há imagens que são verdadeiros documentos históricos - para lá da força do remate, capacidade de aceleração, Eusébio proporcionou fotos de rara beleza, por vezes em situações quase acrobáticas, solto no ar, destemido, provocador para os adversários e intelectualmente honesto na linguagem muito própria do futebol.
O Benfica e Eusébio estão equiparados na sua grandeza. Um fez crescer o outro e quando o Rei deixou de jogar continuar a ser grande. A maneira como ele não se deixou iludir pelo sucesso na dimensão planetária conquistada pelos quatro cantos do Mundo conferiu-lhe aquele estatuto ímpar. A agilidade, poder de arranque, drible, o remate poderoso faziam as delícias dos adeptos, principalmente os do Benfica, depois os da Selecção Nacional e, por fim, da comunidade futebolística internacional. Eusébio enchia os campos de futebol, as ruas e dava alegrais sem se pôr em bicos de pés. Não era actor para esse filme. Ele sabia, melhor do que ninguém, o que valia, o que representava e tinha tanta confiança em si próprio que pedia autorização para marcar as grandes penalidades em finais europeias.
Os campeões têm essa linguagem, por vezes difícil de compreender, que é tornarem as coisas difíceis em muito simples. Como se isso fosse fácil. Não estamos a falar de intuição, pois se isso fosse verdade só daria resultado meia dúzia de vezes. Aquele toque de classe ficou até ao fim. E só quando faleceu, tal foi o rosário de memórias, é que o povo português, dos mais novos aos mais velhos, compreendeu a verdadeira dimensão universal de quem nasceu para ser artista.
Ainda bem que, hoje, o mercado televisivo não se confina apenas a um canal. Eusébio entrou de rompante pelas nossas casas e tivemos oportunidade de rever como ele enganava os guarda-redes. E os amigos também."

Eusébio: não o vi jogar, mas causou-me arrepios

"Nunca vi Eusébio jogar ao vivo. Bom, ainda assisti a umas “peladinhas” em festas de homenagem quando já se tinha retirado e, claro, tive ocasião de o observar durante vários treinos do Benfica, numa altura em que para além de fazer parte da estrutura encarnada se entretinha em mostrar aos craques da época que, embora já de “chuteiras penduradas”, ainda conseguia fazer coisas com que alguns jamais sonharam. Muitos futebolistas de nomeada perderam apostas com Eusébio por duvidarem das suas aptidões ou por considerarem que eram capazes de fazer igual ou parecido...
Mas, no que se refere a jogos oficiais, não vi nenhum. Tenho pena. Quem gosta de futebol, independentemente da filiação clubística ou da nacionalidade, não poderia ficar indiferente à arte de Eusébio, como hoje em dia não pode fechar os olhos às coisas fantásticas que Ronaldo ou Messi fazem em qualquer relvado.
Eusébio, segundo ouvi da boca de muita gente (e confirmei através do visionamento de imagens dos anos 60), aliava uma capacidade técnica própria de um predestinado a uma força física simplesmente invulgar. Era por isso que tanto marcava golos dentro da grande área contrária, depois de driblar vários opositores, como disparava “misséis” indefensáveis a 30-40 metros da baliza. O seu vasto leque de soluções ofensivas dava basicamente para tudo.
Apesar de ter sido um grande, de ter atingido um patamar restrito, estou convicto de que Eusébio seria ainda mais lendário se, por mero acaso do destino, tivesse nascido uns anos depois. José Mourinho disse, poucas horas após o anúncio da morte do Pantera Negra, que Eusébio seria algo de assombrosso se jogasse por estes dias. Concordo em absoluto. Até onde poderia chegar um futebolista tão forte a todos os níveis se, por trás, tivesse um acompanhamento médico mais avançado; se tivesse sido operado ao joelho com as técnicas modernas; se fizesse o trabalho de recuperação que hoje é vulgar em qualquer clube mediano; se tivesse um agente que o soubesse defender/publicitar; se não se desgastasse tanto a disputar particulares sem qualquer interesse competitivo mas que valiam muito dinheiro como Toni hoje recordou a propósito de uma digressão encarnada à Argentina; se tivesse a internet e milhares de meios de comunicação social a difundir os seus feitos; se pudesse disputar mais jogos (e fases finais de Europeus e Mundiais) com a Selecção Nacional; se beneficiasse do acesso à principal prova europeia de clubes sem, antes, precisar de ser campeão nacional? Eusébio foi enorme, mas hoje em dia seria muito, muito maior ainda.
No desempenho da minha actividade profissional recordo um episódio que me ajudou a perceber o tal patamar a que Eusébio chegou. Em Dublin, capital da Irlanda, fiquei arrepiado em Lansdowne Road, pois jamais pensei ver, num estádio de futebol, adeptos a prestarem uma homenagem tão sentida a alguém que pertencia... ao adversário.
Foi a 26 de Abril de 1995, numa altura em que Portugal e Irlanda disputavam a qualificação para o Europeu de 96. Poucos minutos antes do arranque da partida, num estádio lotado de adeptos locais, ouviu-se através da instalação sonora que estava presente uma figura do futebol mundial, alguém que tinha brilhado no Mundial de 1966. Quando se escutou o nome de Eusébio, milhares de irlandeses levantaram-se de pronto e desataram a aplaudir. Fiquei incrédulo. Duvido que o público tivesse vitoriado de uma forma mais eloquente alguém da casa. O momento foi tão invulgar que os irlandeses fizeram questão de que Eusébio fosse ao centro do relvado e ele, embora contrariado, acedeu. O estádio não parava de aplaudir, enquanto os futebolistas locais, imóveis e com as mãos atrás das costas, mostravam o seu respeito com tão ilustre visitante. Os portugueses, jogadores e jornalistas, ficaram atónitos com a cena (que obrigou o encontro a começar atrasado), mas todos os que como eu não tiveram oportunidade de ver o King em acção perceberam, naquele dia, quem era Eusébio da Silva Ferreira."

Quem é histórico?

"A propósito da apaixonante edição que A BOLA publicou no dia seguinte à morte de Eusébio, dei por mim a participar em discussões nas redes sociais sobre a relevância histórica do pantera negra.
À ideia de que Eusébio é um figura histórica dificilmente repetível, foi-me contraposto que a sua relevância se cingia ao futebol.
Se fôssemos todos computadores e a nossa vida uma folha de cálculo - como muitos políticos e economistas parecem desejar - seríamos unânimes. Dados palpáveis: Eusébio não fez revoluções; não comandou tropas em guerras alguma; o único caminho marítimo que conhecia era para a Trafaria e nem foi ele a descobri-lo... Diríamos, pois: foi só um grande jogador de futebol.
Em todo o planeta a sua morte foi notícia de primeira página de jornais. E é por isso que, pegando numa ideia do António Simões para falar do Ronaldo, hoje digo que Eusébio está entre os portugueses mais conhecidos de sempre, numa lista com Ronaldo, José Saramago, Amália, Vasco da Gama e (a ser português) Cristóvão Colombo.
Se isto não faz de Eusébio uma figura histórica, então nada fará. A história não se faz só de guerra, economia e política.

PS: Assunção Esteves aproveitou o funeral de Eusébio para dizer que é muito caro trasladá-lo para o Panteão. Centenas de milhares de euros, diz. Ponto 1: nunca a vi preocupada com os 679 mil euros que a AR pagou em 2013 aos grupos parlamentares para despesas com assessorias; Ponto 2: custa a quem? Se o Panteão é do Estado, é como transferir dinheiro da minha conta A para a B, certo?"

Rogério Azevedo, in A Bola

O ídolo do ídolo

"Muito se escreveu sobre Eusébio nestes últimos dias. Conquistada a eternidade nos anos 60, o king foi ídolo de milhões. De Madrid a Londres, do Rio Janeiro a Tóquio - como as inúmeras homenagens internacionais comprovaram - ninguém ficou indiferente à pantera que levou tanta gente a apaixonar-se pelo melhor jogo do mundo.
Mas antes de navegar por esses mares nunca dantes navegados por um desportista Português, o Senhor Eusébio foi... o menino Eusébio. E como todas as crianças tinha um ídolo. Chamava-se Fernando Lage, maestro que nos anos 40/50 jogou no Desportivo de Lourenço Marques e despertou a cobiça de Benfica, Sporting e FC Porto. Mas que nunca quis deixar a terra mãe. Era para o ver jogar que Eusébio se esgueirava rumo ao campo da sua equipa do coração para, com a cara vincada pelo gradeamento, ficar hora e meia a deliciar-se com os toques mágicos que um simples ser humano conseguiu imprimir a uma bola de futebol.
Toda a gente tem uma história com Eusébio. A minha começa ali, na Mafalala, quando Eusébio tinha oito anos. Foi vislumbrando nele esse olhar maroto de criança que pela primeira vez vi ao vivo o Rei. Pronto, não foi bem na Mafalala: o restaurante chamava-se LM, que até é abreviatura de Lourenço Marques, mas fica no Cacém. Foi ali que, em 2002, Eusébio ajudou a promover uma homenagem a Lage, então com 75 anos. E foi impressionante o que vi nesse dia: a lenda sobre quem ouvira centenas de histórias do outro mundo era, afinal, simplesmente... humano. Eusébio estava em lágrimas. O seu herói estava ali, à sua frente. Venerou-o, abraçou-o, beijou-o, pedindo-lhe tantas e tantas vezes que contasse de novo as histórias do Desporto daquele tempo.
Naquelas três horas, Eusébio tinha outra vez oito anos e estava novamente na Mafalala. «Se viesse para Portugal, tinha sido maior do que eu. Falo sempre no Di Stéfano mas o meu querido Lage está ao mesmo nível», disse-me o king nesse dia. Jamais esqueci aquele olhar não terno e tão forte, do tamanho do mundo. O mundo que, nos últimos dias, soube curvar-se de novo ante a grandeza de Eusébio e, simplesmente, dizer-lhe: obrigado!"

João Pimpim, in A Bola