Últimas indefectivações

sábado, 1 de janeiro de 2011

Exercícios de memória

"No Verão passado Ricardo Quaresma foi recebido em delírio em Istambul pelos adeptos do Besiktas. Outros três portugueses estão na calha para serem recebidos em delírio em Istambul no Ano Novo: Manuel Fernandes, Simão Sabrosa e Hugo Almeida que se vão juntar a Ricardo Quaresma no tal Besiktas.
Quaresma, Fernandes, Sabrosa e Almeida não são propriamente estrelas de primeira grandeza no firmamento do futebol mundial. E nenhum deles vai para novo, o que também ajuda a baixar o volume dos respectivos negócios. De qualquer forma, o Besiktas investiu alguns bons milhões de euros nesta fornada portuguesa de alta qualidade e, assim sendo, não é de crer que sejam jogadores que tenham de provar a sua utilidade. Ou seja, pelos valores que custaram, não vão para Istambul à experiência, a ver no que aquilo dá. São jogadores para jogar imediatamente.
O que transforma o Besiktas num emblema a seguir com atenção. Porque não há muitos clubes portugueses que tenham quatro jogadores portugueses na condição de titulares indiscutíveis.
Assim, pelas mesmas razões que o FC Porto desperta a curiosidade dos adeptos colombianos e o Benfica tem já uma legião de seguidores na Argentina, o Besiktas começa a merecer o nosso carinho e a nossa preocupação.
É que já nem há memória de um clube com tantos portugueses a jogar à bola...
Fábio Coentrão faz parte do onze do ano do jornal L'Equipe. Os benfiquistas só podem ter ficado encantados com a distinção que coloca o seu lateral-esquerdo ao lado de superstars como Messi, Casillas, Lúcio, Scheinsteiger, Iniesta e Sneijder, entre outros da mesma dimensão supersónica.
E se os mesmos benfiquistas se derem ao trabalho de um pequeno exercício de memória, lembrar-se-ão certamente da indiferença, para não mencionar a desconfiança e o desdém, com que, no Verão de 2009, receberam, a notícia de que Fábio Coentrão, depois de meia época em Saragoça e de outra época invisível em Vila do Conde, ia regressar ao Benfica com grande vontade de se afirmar.
Foi uma risota, não foi?
E, depois, foi o que se viu. E viu-se tanto, que até os tipos do L'Equipe viram também...
Portanto, seria excelente política entre os benfiquistas dar um bocadinho de tempo e de paciência àqueles jovens jogadores que o Benfica contratou no Verão passado, como Jara e Gaitán, e mesmo a Kardec, que já por cá está há mais tempo e que teve a infelicidade de substituir Cardozo no período mais infeliz do futebol dos campeões nacionais.
Tenham lá calma.
José Couceiro vai assumir a direcção do futebol do Sporting, é um facto. Este ano o Sporting não tem sido, outra vez, muito feliz e até tem sido um bocadinho mais infeliz do que o Benfica, a nível interno, visto que na Europa a equipa de Paulo Sérgio já cumpriu um percurso inicial sem grandes sobressaltos, o que tem o seu valor.
Couceiro, como toda a gente se lembra, já cumpriu o mesmo papel no Sporting em 1998. E não foi especialmente feliz, o que em nada o diferencia de todos os directores desportivos que passaram por Alvalade depois dele.
É natural que os sportinguistas estejam em época de não se entusiasmar com nada nem com ninguém. É assim quando há míngua de sucessos.
E também é compreensível, entre os sportinguistas, que haja quem justifique o regresso de Couceiro a Alvalade muitíssimo mais pelos três meses, no ano de 2005, em que foi treinador do FC Porto, um clube de referência para a actual gerência de Alvalade, do que pelo seu passado, ainda que breve, na estrutura do futebol do Sporting.
São, naturalmente, opiniões.
Garante o Correio da Manhã que Costinha proibiu o uso de brincos aos profissionais do Sporting quando estiverem em representação do clube. A jogar, por exemplo. Ou em viagem da comitiva oficial.
E também quando usarem os bonés oficiais os jogadores estão proibidos de pôr a pala para trás, é sinal de desrespeito. As tatuagens também não são bem vistas mas, enfim, o que é que se há-de fazer em casos epidérmicos como esses?
Assumida que está pela SAD a dificuldade financeira em ir ao mercado de Inverno reforçar a equipa e as esperanças no comportamento desportivo da equipa, eis uma maneira respeitável de recuperar os 13 pontos de atraso que o Sporting tem em relação ao comandante do campeonato.
No Sporting, o lema é não queremos cá Diegos Armandos Maradonas!
Nolito diz que gostava mais de ir para o Real Madrid do que para o Benfica. Por um lado é compreensível. Mas Nolito que se lembre do caso de Di Maria. Chegou à Luz e não impressionou por aí além e mais ainda irritou o público da casa quando disse que o Benfica seria um trampolim para outros voos. E foi mesmo. Voou até ao Real Madrid e por lá está, feliz e contente da vida, aquele que, no princípio, os adeptos benfiquistas insistiam em chamar de brinca na areia. Lembram-se?
Pois Nolito devia fazer o que fez Di Maria. Primeiro jogava por cá e depois ia para lá.
Quanto a Funes Mori... continua preso por detalhes.
Oh, está-se mesmo a ver onde é que vai parar, não está?
É que basta fazer um pequeno exercício de memória...
A imprensa noticiou na semana passada a morte do sócio número 3 do Futebol Clube do Porto. Tinha 95 anos, nascera em 1915.
É curioso constatar como o FC Porto, que foi fundado em 1893 segundos os seus historiadores oficiais só terá tido dois sócios nos seus primeiros 22 anos de vida.
E isto se o sócio número 3, que morreu no final de 2010, tivesse sido filiado no ano em que nasceu.
Jorge Jesus respondeu bem e a tempo à bajulice com que Pinto da Costa o vinha tratando publicamente. Agora não deve responder a mais nada. Deve é ganhar o campeonato. Bora lá!"
Leonor Pinhão, in A Bola

Entrevista Ricardo Araújo Pereira: "Acredito no Benfica campeão mesmo quando é matematicamente impossível"

Deve ter sido uma das prendas mais repetidas junto dos benfiquistas que sabem ler. E até dos que não sabem. "A Chama Imensa", livro que reúne as crónicas de Ricardo Araújo Pereira sobre o Benfica no jornal "A Bola", é um retrato do amor (às vezes ódio) de um homem pelo seu clube. O Gato Fedorento, sócio número 17.411, fala-nos das origens do seu benfiquismo e de uma fé no seu clube de tal maneira inabalável que resiste à lógica, bom senso e matemática.
Esta não é daquelas entrevistas que começam com uma descrição do local onde decorreu a conversa. Não está ilustrada por um tique recorrente do entrevistado nem consta aqui qualquer referência à posição do sol aquando do encontro - até a frase "era de noite e, no entanto, chovia", faz ainda menos sentido. Ricardo Araújo Pereira, sócio número 17.411 do Sport Lisboa e Benfica, está em casa, ao computador, na véspera da véspera de Natal, a responder a perguntas enviadas dias antes por e-mail. Enquanto escreve - "não faço ideia de quanto tempo vou demorar porque tenho as miúdas, malditas férias escolares" - a compilação de crónicas "A Chama Imensa" torna-se num dos livros mais vendidos deste Natal.

É possível que a águia Vitória não volte a voar no Estádio da Luz. Vai fazer muita falta?

Sim, fará falta. E é pena. O Benfica era o único clube que conseguia organizar um espectáculo daqueles com o seu símbolo. Os leões não voam tão bem e os dragões padecem do mesmo mal que a maior parte dos penalties que se vão assinalando a favor do Porto: não existem. Ainda assim, S. Jorge matou um. Veja como deve tratar-se de um bicho irritante, para conseguir fazer com que um homem que era santo perdesse a paciência.

Qual é a sua memória mais antiga do estádio da Luz?

Talvez um Benfica-Porto de 1981. Cheguei ao terceiro anel antigo logo a seguir ao almoço, porque os jogos eram à tarde e não havia esta mariquice dos lugares marcados, como na ópera. A certa altura, Pietra deu uma soberba sarrafada ao Frasco, que ficou a contorcer-se no chão. Um consócio que estava ao meu lado gritou, com muita humanidade: "Se ele está a sofrer, o melhor é abatê-lo!" Ganhámos 1-0, golo de João Alves. Resultado magro mas, tendo em conta que o árbitro era António Garrido, foi goleada. Nesse ano, fomos campeões e ganhámos a taça, também ao Porto, 3-1 na final. Três golos de Nené. Veloso marcou um na própria baliza logo a abrir, para lhes dar um de avanço, a ver se o jogo ficava mais equilibrado. Não resultou.

Por que razão escolheu o Benfica?

Quando eu era pequeno, o meu primo António convenceu-me de que o Benfica era o melhor clube do mundo. Sem querer tirar mérito ao meu primo António, não é difícil convencer uma pessoa disso, uma vez que é verdade. Quanto ao meu primo António, é do Benfica por causa de um barbeiro que lhe cortava o cabelo no Areeiro. Portanto, em última análise, sou do Benfica por causa do barbeiro do meu primo António. Até agora, foi o máximo que consegui apurar acerca da minha genealogia benfiquista.

No seu livro fala do Shéu e do Rui Costa, de querer ser como eles. Há algum jogador da actual equipa que lhe mereça essa empatia e admiração?

Em princípio, invejo o destino de todos os rapazes que vestem aquela camisola. Hoje, gosto especialmente do Maxi [Pereira] e do Fábio [Coentrão], uma vez que só não mordem nos adversários porque as regras não permitem; do Ruben Amorim, porque é do Benfica desde os três meses - e isso nota-se no seu futebol; do Luisão e do David Luiz, porque são a melhor dupla de centrais desde Mozer e Ricardo Gomes; do Aimar, porque descobre jogadores isolados para surpresa de toda a gente - incluindo dos próprios, que se apanham sozinhos sem saber como à frente da baliza; do Carlos Martins, porque é um digno sucessor de Carlos Manuel, a locomotiva do Barreiro; e do Roberto, porque é do tamanho de um guarda-fatos que a minha avó tinha e cada vez defende melhor. E, enfim, dos outros todos.

Costuma ver os juvenis na Benfica TV e o futsal de veteranos?

Claro. Estou de olho num puto que parece o Valderrama (acho que lhe chamam mesmo Valderrama) e gosta de fintar várias vezes o mesmo adversário antes de avançar para a baliza. No futsal de veteranos, acompanho com especial interesse a carreira de um avançado que talvez tenha dois ou três quilos a mais. Isto para falar apenas nas modalidades que citou. Mas se um velhote vestir a camisola do Benfica e começar a jogar chinquilho, sou menino para ir apoiar.

A enumeração dos maiores flops do clube é uma ocupação frequente entre benfiquistas que se querem rir deles próprios. Qual é para si a mais fracassada de todas as contratações do glorioso?

Se calhar, é mais fácil fornecer-lhe o meu onze ideal de cepos: na baliza, Bossio. Moretto, Zach Thornton e Butt esperam oportunidade no banco. Lateral direito: Dudic, embora Ricardo Rojas e Gary Charles tenham valor para ocupar o lugar. Centrais: Jorge Soares e Paulão, o coice de mula. Jorge Bermúdez, Machairidis, Simanic e outros 10 ou 20 que não me ocorrem agora também eram exasperantes. No lado esquerdo da defesa, o meu coração balança entre Steve Harkness, Alessandro Escalona e Emmanuel Pesaresi. Mas se me der 5 minutos, talvez encontre pior. Trinco: Michael Thomas, com Marco Freitas, Jamir e Paulo Almeida no banco. Daqui para a frente, seria preciso escolher 5 entre Taument, Glenn Helder, Leónidas, Manduca, Luís Carlos, Luís Gustavo, Clóvis, Uribe, Hassan, Marcelo e Pringle. Uma tarefa difícil.

O que sente ao ver isto [link para o vídeo promocional da Operação Coração, no YouTube]?

Sinto alívio por já não estarmos nessa situação e incredulidade por ter sido possível convencer as pessoas a fazer essas doações. Depois lembro-me do título da Operação Coração que tenho emoldurado na minha secretária e percebo tudo um bocadinho melhor.

E isto [o golo e as lágrimas de Rui Costa depois de marcar ao Benfica enquanto jogador da Fiorentina]?

Eu estava no estádio nesse dia e na bancada também estávamos todos a chorar. Que quer que lhe diga?, os benfiquistas são pessoas sensíveis. Hoje, este episódio continua a emocionar-me, apesar de se ter tornado comum: quando o Inter marcou ao Sporting, Luís Figo também chorou. Chorou a rir, mas chorou.

Não estão em "A Chama Imensa" as crónicas todas. Como fez a selecção?

Excluí as que tinham ainda menos interesse do que as que ficaram. Só fiz ponto de honra em manter todas as que falavam de Rui Moreira. Um homem que é proprietário de um cão que ressuscita merece a distinção. Haja respeito pela Páscoa canina.

Como é ser um dos "dois rafeiros atiçados às canelas" de Miguel Sousa Tavares?

É surpreendente, porque sempre apontei para o lombo. Miguel Sousa Tavares tem uma relação um pouco conflituosa com os factos e uma grande capacidade para ignorar evidências, como certos documentos que temos vindo a ver, ler e ouvir. Ora, como disse a avó de um adepto do Benfica chamada Sophia de Mello Breyner, "vemos, ouvimos e lemos / não podemos ignorar". Palavras sábias.

Durante o período em que foi cronista de "A Bola", qual foi o melhor alvo?

Deve ter sido o Pinto da Costa. É quase inevitável, uma vez que se mantém no cargo há décadas e é um homem multifacetado, que ora declama poesia como João Villaret, ora dá indicações de trânsito como um GPS. O facto de estar a cumprir pena de suspensão por tentativa de corrupção activa enquanto se queixa das arbitragens também é divertido.

Qual é para si a equipa mais fácil de caricaturar do nosso campeonato?

É possível que seja o Sporting. Sempre que o Benfica está no fundo, o Sporting tem a gentileza de aparecer para demonstrar que é possível descer um pouco mais. Um dia depois de termos levado 5 do Porto, o Sporting jogou contra o Guimarães. Estava a ganhar 2-0. Nisto, o Vitória reduz. Depois, empata. A seguir, marca o golo da vitória. Até me passou um bocadinho da azia.

Acha que ainda vamos lá este ano?

Claro. Mas eu sou suspeito, uma vez que continuo a acreditar mesmo quando já é matematicamente impossível."

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz 2011 !

"Aí temos, pois, o Ano Novo a chegar. Cumprindo-se o ciclo dos tempos, a pouco e pouco tinham diminuído os dias e fora-se restringindo a luz, até ao momento ancestral e mágico do solstício de Dezembro. Mas, a partir daí, como sempre, inverte-se o curso da física. O que era ténue, resulta mais definido; o que definhava, matura e cresce; o que se reduzira, volta a progredir. Amplia-se agora o ritmo dos movimentos e dinamiza-se a frequência dos gestos outrora adormecidos. E como a actividade do Homem sempre se acerta pela cadência da Natureza, de tristes, os dias passam a tornar-se conviviais; noites tempestuosas fazem-se alvoradas serenas. Prescindimos do Fogo que tivémos de levantar nós próprios, para que o calor nos aquecesse, e agora é varrer as cinzas que iremos lançar à terra, receptiva a medrar as sementes e raízes. Preparamos roupa leve. Guardamos agasalhos e resguardos. A cerração do Inverno começará a dar espaço à claridade e as nuvens irão abrir-se ao esplendoroso Sol nascente. Os dias, antes feitos negativos, vão ser a partir de agora, dias tornados positivos.
O que até há pouco antes era desânimo e lassidão e frio, vai poderosamente transfigurar-se em acções de afecto, de alento e de paixão. No nosso caso, incontida paixão. Paixão feita dessa vibrante e mágica pulsão com que há quase 107 anos se impulsionam os nossos Campeões que, em todo o caso, apenas parecemos querer controlar durante um tristonho Outono e um Inverno menos fácil...
Mas o solstício que antecede o fim do ano traz a esperança da nova luz que o novo ano sempre traz à Luz.
Que essa luminosa claridade constitua agora a melhor e mais ajustada saída do tempo das trevas e que, definitivamente, possa tocar as vidas de todos os portugueses. Ou, pelo menos, da extensa maioria dos portugueses especiais que por afecto e com paixão única, comungam da nossa Mística indefectível.
Para eles, para todos nós, FELIZ 2011 !"
José Nuno Martins, in O Benfica

2010

"Nunca me entusiasmou a passagem do Ano. Não gosto de datas com obrigação convencional de boa disposição. E constato a rapidez com que um simples ano passa. Virgílio Ferreira escreveu que «o tempo que passa não passa depressa; o que passa depressa é o tempo que passou». Uma realidade certeira à medida que envelhecemos.
Também não sou apreciador dos balanços e escolhas dos eleitos do ano finado. Quase sempre são enviesados pela influência da parte final do calendário (e até das vésperas) e pelo esquecimento do que se passou no seu dealbar ou meados. Afinal, o resultado da memória cada vez mais curta e descartável, numa sociedade onde os acontecimentos se sucedem à velocidade das novas e poderosas tecnologias!
Neste pontapé-de-saída, porém, atrevo-me a fazer a minha eleição desportiva. Mas -confesso - como não sou capaz de ser imparcial, cinjo-me à vida do meu clube de coração. Assim, o dito coração não fica despedaçado por ter de designar intrusos.
Ora aí vai para 2010: melhor dirigente: Domingos Soares de Oliveira; melhor técnico: Jorge Jesus e Henrique Viana (ex-aequo); melhor jogador de futebol: Saviola; melhor atleta: Telma Monteiro; melhores atletas por modalidade: Carlos Carneiro (andebol), Ricardinho (futsal), Heshimu Evans (basquetebol), Rui Pinto (atletismo), Luís Viana (hóquei), Fábio Jardel (voleibol); profissional do ano: Nuno Gomes; revelação do ano: Fábio Coentrão; saudade do ano: José Torres; efeméride do ano: 50 anos de Eusébio no Benfica; jogo do ano: Marselha 1 - Benfica 2; título do ano: campeão europeu de futsal.
Peço indulgência por qualquer injustiça ou esquecimento de quem usou apenas a falível memória, bem como a não referência a modalidades que não acompanho tento."

Bagão Félix, in O Benfica

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Uma resposta oportuna

"1. Pinto da Costa quer guerras e não pára de atacar o Benfica. O melhor que há a fazer é deixá-lo a falar sozinho. Mas há alturas em que deve ter resposta. Jorge Jesus compreendeu-o retorquiu com clareza aos falsos elogios do presidente do FC Porto. Muito bem. E, já que estava com a 'mão na massa', não deixou de aproveitar a oportunidade para salientar as diferenças que vêm existindo entre Benfica e FC Porto nas arbitragens e nas grandes penalidades marcadas e não marcadas. Os penalties não justificam algumas exibições apagadas do início da época, bem longe do brilho da época passada. Mas foram determinantes nos 8 pontos de diferença e, também (e não menos importante), no estado de espírito de jogadores, responsáveis e adeptos que daí resulta. Não é por acaso que, ao longo dos anos 80 e 90 e, mais tarde, nos do mais recente 'Apito Dourado', os principais 'roubos de igreja' se tenham dado nas rondas iniciais...
2. Só na semana passada, e segundo as 'gordas' das capas dos dois jornais desportivos de Lisboa (faça-se, neste caso, justiça a 'O Jogo'), estivemos em risco de ficar, pelo menos, sem Aimar, Cardozo, Luisão, David Luíz, Nuno Gomes e Carlos Martins (se calhar ainda me esqueci de algum...). Este último até mereceu um comentário destacado (recordando o seu passado em Alvalade!) e um 'debate'. Nada de muito grave face às dezenas de jogadores que os mesmos jornais nos deram já como reforços desde Novembro e cujos nomes não fixei, pois notícias dessas passam-me por completo ao largo. Chega a ser caricato!
3. O que se passa com a Federação Portuguesa de Futebol já passa das marcas. As principais associações regionais, com a do Porto (e o seu presidente, Lourenço Pinto) à cabeça, continuam a desrespeitar uma norma governamental que todas as outras federações aceitaram, querendo manter todos os privilégios que serviram de suporte às 'jogadas' que envergonharam (ou deveriam ter envergonhado) o futebol português nas últimas décadas. E o (novo) presidente da Assembleia Geral 'ajuda à festa' marcando eleições com uma assembleia fora da lei. O Governo ainda não quis 'fazer sangue' mas, pelos vistos, não terá alternativa."

Arons de Carvalho, in O Benfica

Objectivamente (Mestre Pinto)

"Quando hoje (3.ª-feira) de manhã dei uma vista de olhos pelos jornais não pude deixar de ficar verdadeiramente siderado com uma - a 2.ª no espaço de 4 dias - longa entrevista de Pinto da Costa ao jornal oficial do FC porto, ' O Jogo', onde li que para PC 'a família é a base saudável e funcional. É fundamental para o bem-estar de cada um de nós, para nos sentirmos parte de algo maior e mais importante que nós próprios'. De facto, é preciso ter uma enorme 'Cara de Pau', como dirá a sua actual namorada brasileira, para vir filosofar sobre a família. Um indivíduo que publicamente casa e descasa à velocidade da luz. Que tem um diferendo com o filho Alexandre há largos anos e que tem processos em tribunal com a conhecida Carolina Salgado onde foi exposta a vida privada de cada um deles da forma mais ridícula e aviltante que alguém possa imaginar. E vem esta alma falar... da família que é a 'base de uma sociedade saudável e funcional'!
Deve ser por gente desta que a sociedade está como está! Quanto ao resto da 'definição' de PC, nem ele de certeza percebeu o que disse...
De resto, nessa entrevista de quatro páginas, a única coisa que salta à vista é o desejo incontido deste jornal em 'lavar constantemente' a imagem de um indivíduo que passa a vida a enxovalhar os adversários sem o mínimo respeito por eles.
Que quer vitórias sem olhar a meios. E que preza muito a provocação ao seu principal rival que é o Sport Lisboa e Benfica. Curiosamente, num dos destaques fala de uma final da Taça de Portugal disputada no estádio das Antas e que ele diz 'quiseram-na tirar daqui com o argumento de que o estádio Nacional era muito helénico...! (nem sabe o que diz), mas afinal acabámos por vencê-la'. Não devia estar a referir-se `que perdeu com um golo do Carlos Manuel. Aliás, por causa disso nunca mais fez questão de jogar a final da taça no estádio do FC Porto."

João Diogo, in O Benfica

Restos de coleção

"São, outra vez, as contratações “noves-fora” (ou seja: se de nove ficar uma, já não se terá falhado tudo) e as ácidas listas de dispensas, com “penas suspensas” para os que não provaram até agora, a dominar as atenções nesta despedida de 2010. Mais três técnicos não chegaram a ver a luz ao fundo do túnel, por causa das funções interrompidas, fosse a mando dos diretores e presidentes – casos do crónico Rogério Gonçalves e do também esperado Litos – ou por um insólito mas respeitável imperativo próprio – como aconteceu com Jorge Costa. A diferença do percurso estende-se à colocação dos dois primeiros naquele “balde de bombeiros”, sempre dispostos a marcar presença assim que há notícia – ou rumor, que chega para agitar os bandos em que não faltam aves predadores; quanto ao segundo, mesmo que cumpra agora o anunciado interregno de um par de anos que lhe permita a retoma plena da vida particular, será lembrado como um dos jovens técnicos que poderia ajudar a elevar o nível médio da classe profissional, um daqueles que parecia destinado a chegar a um “grande”. Talvez venha a consegui-lo na mesma, mas isso acontecerá inevitavelmente mais tarde.

Aos treinadores junta-se os ativos, em muitos casos ávidos de guias de marcha que lhes permitam um recomeço noutras paragens ou pelo menos a conquista de públicos com a mudança de fãs. É curioso perceber como a ambição dos mais-poderosos, por cá, colide com as limitações dos mais-pequenos – e estes teriam, se a lógica não estivesse cada vez mais dependente das finanças, com estas a estabelecerem os princípios em vez de serem apenas chamadas a avalizar os meios – e como, cada vez mais, os clubes nacionais funcionam de forma crescente como um entreposto que abre para a Europa as malas e maletas de matéria-prima, adquirida sobretudo pelas Américas Latinas. Já estivemos mais longe de fretar um charter para os trazermos todos de uma vez…

De resto, Cardozo vai chegar atrasado, agitando atestados médicos em sua defesa quando talvez tivesse sido mais prática a hipótese de vir expressamente a Portugal pedir dispensa. Vukcevic prepara-se para recuperar o protagonismo – sempre dividido com Izmailov – nas novelas que o Sporting mantém a Leste. E José Eduardo Bettencourt estuda a melhor forma de enfrentar uma manifestação de desagravo que lhe é diretamente dirigida. Se acrescentarmos aqui o intolerável tabu de Gilberto Madaíl quanto à recandidatura e a ameaça de a FIFA suspender clubes e seleções nacionais das competições internacionais, é fácil perceber que vivemos aquela época sem graça dos restos de coleção.

Bom Ano Novo para todos, sobretudo se ele puder ser realmente novo."

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Objectivamente (vergonhas)

"Cada vez me custa mais assistir semanalmente aos lamentos parvos do André Boas, esse miraculoso jovem treinador que caiu nas Antas como sopa no mel depois da corrida em osso dada ao seu antecessor Manuel Ferreira.
Quando alguém tem a distinta lata de se sentir prejudicado pelas arbitragens no FeCePe, dá logo vontade de abandonar tudo e desligar de vez do futebol! E esta falta de vergonha este menino tem-na!
Quem o ouve sempre a chorar e a reclamar - ao ponto de já ter sido expulso do banco algumas vezes - até parece que a sua equipa tem razões de queixa! Que coisa ridícula! Será que ele não percebe que está a gozar com as pessoas?
Igual ou pior que ele, só mesmo Guilherme Aguiar, fanático tontinho portista disfarçado de comentador na SIC. No último programa conseguiu irritar todo o mundo ao dizer que o penálti sobre Fábio Coentrão no jogo com o Rio Ave, não existiu, tal como não o foi - no seu entender - uma falta cometida sobre o mesmo Fábio e em que deveria ter sido assinalado em penálti a favor do Sport Lisboa e Benfica. Mas em contrapartida ele achou que o penálti que deu o segundo golo ao FC Porto já era castigo máximo quando a bola bate ostensivamente no pé de um defensor Pacense. É incrível como uma pessoas pode ter são descarada a anda por aí defendendo o que não tem defesa e sem se rir!...
O que vale é que as imagens são tão claras que não deixam dúvidas: quem passa vergonhas são estes comentadores 'isentos' que não conseguem cumprir o seu papel, quando às vezes tudo parece tão fácil!"
João Diogo, in O Benfica

Natal

"Eu poderia comemorar a quadra natalícia nesta coluna, escrevendo sobre a forma brilhante como o Benfica encheu 'o cabaz' de Natal no passado fim-de-semana de competição: goleadas no Futebol, no Hóquei em Patins, no Futsal, vitórias concludentes no Voleibol e no Andebol, assim como no Futebol nos escalões de Juniores e Iniciados, vitórias sofridas no Basquetebol e no Râguebi. Mas a dimensão do Benfica permite que se fale do Natal na perspectiva de um clube que é uma grande instituição solidária, que bem se casa com o chamado «espírito de Natal».
Enquanto outros constroem projectos de poder, máquinas de guerra e sistemas de trapaça, o Benfica é o único grande clube de futebol que desenvolve de forma organizada uma acção contínua de solidariedade. E foi assim que no passado sábado - bem como no dia anterior - no espaço grandioso da 'Catedral' da Luz, a Fundação Benfica, associada desta vez à EDP, promoveu uma recolha de roupas, artigos de higiene, brinquedos, artigos de bebé e livros para ajudar os que precisam. Não foi uma acção de caridadezinha para aparecer nos jornais. Foi uma forma concreta de praticar a solidariedade numa fase difícil da vida do País e do povo e num momento sensível de partilha, como é o Natal.
A Fundação, nascida no início de 2009, ultrapassou já as fronteiras do País, seguindo aliás a vocação e projecção universal do Benfica, com participação em projectos associados a programas das Nações Unidas. A educação, a saúde, a habitação, o apoio à infância e às crianças em risco, o combate à pobreza e à exclusão são alguns dos campos de intervenção da Fundação. E um motivo de orgulho tão grande, ou mesmo maior, que a conquista de um titulo desportivo por este enorme e tão diferente clube.
Um Feliz Natal para todos os benfiquistas."

João Paulo Guerra, in o Benfica

A falta que faz um jogador

"De parte deixo a apreciação aos adversários do SLB, parecendo-me no entanto evidente que o da zona das Antas está bem melhor do que o ano passado. De lado deixo também as análises às opções tácticas de Jorge Jesus e deixo igualmente fora desta crónica o sucesso das contratações feitas para a temporada 2010/2011. Para chegar onde pretendo, mantenho-me agarrado somente à falta de um jogador, apenas um: Di Maria. A ausência do argentino que brilha no Real Madrid faz com que o Benfica de hoje seja menos prolífico. O mesmo é dizer que Saviola e Cardozo marcam metade do que marcavam no ano passado. Com Di Maria em grande forma, os clubes que jogaram contra nós viram-se obrigados a orientar as suas linhas recuadas para estancar a corrente criativa por ele originada. Todo o ataque do SLB era temível, mas Angelito, imprevissível, obrigava a escolta redobrada. E o resultado imediato era uma maior liberdade para Saviola e o triplo de passes limpos para o ponta-de-lança. Mais, García, Ramires, David Luiz, Maxi, Coentrão e Aimar subiam de rendimento e criatividade com Angel em campo. Despreocupavam-se os centrais e o guarda-redes, os médios fechavam as portas logo no meio-campo contrário e o estrangulamento era evidente desde cedo. A partir de determinadas altura, os defesas já só pediam para não perder por muitos. Lembro que Di Maria, passado o primeiro ano, algo intermitente diga-se, foi o perigo constante que Gaitán ainda não consegue ser. Com tempo lá chegará. Paulo Futre, capaz de furar toda e qualquer barreira defensiva, imaginativo, empolgante, letal, veloz e apontado à baliza, quando abandonou o Atl. Madrid e mesmo o Benfica abriu um buraco difícil de tapar. Era só um mas fazia com que todos os outros jogassem melhor. Daí que a discussão à volta da saída de Di Maria não se possa limitar à saída de um elemento de um plantel de 25. Não é um Eusébio nem Maradona, mas que faz muita falta, lá isso faz."
Ricardo Palacin, in O Benfica

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Eusébio, mito vivo e sempre presente

"Nas actividades que conseguem mobilizar o interesse ou mesmo a paixão das multidões existem as vedetas, os ídolos e os mitos. As vedetas têm, quase sempre, prazo de validade limitado, os ídolos duram mais, mas acabam por revelar, em muitos casos, que têm pés de barro, e os mitos, mesmo em vida, conseguem conquistar o patamar da posteridade e eternizar-se na memória colectiva, por boas ou por más razões.
O Benfica tem no seu património imaterial o maior mito de sempre do futebol português. Chama-se Eusébio da Silva Ferreira e ingressou no clube no mês de Dezembro de 1960, com um contrato válido por três épocas. A exposição agora inaugurada no Estádio da Luz para comemorar esse meio século de ligação ao Benfica não só mostra o que foi o excepcional percurso desportivo de Eusébio, num tempo em que a 'bolsa de valores' neste domínio estava muito longe de ser o que é hoje, mas põe também em evidência a forma como o nome de Eusébio entrou no panteão dos maiores jogadores mundiais de todos os tempos, numa posição inquestionavelmente cimeira.
Dois dos atributos que reforçaram essa dimensão mítica foram a modéstia e o espírito de sacrifício, para além da genialidade do jogador e goleador nos relvados dos estádios. Vítima de frequentes agressões destinadas a travar a sua caminhada imparável para a baliza adversária, Eusébio pouco se queixava e nunca retaliava, facto revelador da sua dimensão humana, moral e profissional.
Numa época vazia de valores e talhada para o esquecimento e para a sistemática desvalorização da memória, Eusébio continua a ser um património vivo do Benfica, que sabe, como nenhum outro clube, enaltecer essa e outras memórias que fazem a grandeza da instituição.
E embora isso não tenha sido dito, acho que o resultado expressivo e a boa exibição do Benfica no jogo contra o Rio Ave foram uma forma de o Benfica de hoje dizer publicamente e com orgulho: 'Obrigado, Eusébio!'"
José Jorge Letria, in O Benfica

Eusébio

"1. Foi justamente festejado o 50.º aniversário da vinda de Eusébio para o Benfica. Foi a sorte grande que saiu ao Benfica e a Eusébio. O Benfica, que já fora campeão europeu sem Eusébio (é bom que as pessoas se recordem), subiu a patamares impensáveis com ele. Foi, sem dúvida, o melhor e mais útil jogador que o Benfica teve na sua história gloriosa. Se o Clube só pode estar satisfeito com o jogador, que continua a ser um seu símbolo e teve direito a uma estátua em lugar destacado nas nossas instalações, e, agora, a uma exposição alusiva, Eusébio não poderia ter escolhido melhor, já que o Benfica lhe tem sabido retribuir, ao longo da vida, tudo o que ele fez pelo Clube que tão bem serviu. Ao longo da sua carreira, Eusébio não ganhou (nem perto disso) aquilo que os jogadores da sua categoria que apareceram depois auferiram. Nessa época, os jogadores estavam presos aos clubes e o Benfica nunca prescindiu dele, tanto mais que as fronteiras italianas se fecharam então à importação de jogadores. Não foi preciso Salazar interferir como depois se fez constar e se tornou lenda, que continua a ser escrita...
Eusébio e Amália Rodrigues foram símbolos do Portugal de então, como seriam símbolos do Portugal de hoje.É óbvio que deram jeito ao regime que vigorava mas não tinham culpa de serem os melhores. De Eusébio continuo a recordar-me, sempre que o Benfica tem um livre a 30 ou 40 metros da baliza. Que saudades, era logo meio-golo! De Amália recordo-me que comecei a gostar de a ouvir (a ela ou ao Zeca Afonso, de quem nunca até então ouvira falar) quando o saudoso Padre Alberto Neto meu professor de Religião e Moral no Liceu Pedro Nunes, tocou discos deles numa aula, para mostrar que também havia boa música portuguesa. Mais tarde conhecido pela sua acção na célebre Capela do Rato (e, também, no futebol juvenil do Sporting, o seu clube), o Padre Alberto conseguia que até aqueles que, como eu, não eram católicos, gostássemos das suas aulas. E também ele admirava o Eusébio.
2. Não saí totalmente satisfeito do Benfica-Rio Ave de sábado, apesar da nossa exibição 'à época passada'. Fiquei preocupado com a ausência da nossa águia, para mim um dos momentos altos de cada jogo, a par do 'velho' Ser Benfiquista do Luís Piçarra. O voo da 'Vitória' entusiasma os mais pequenos (quantos não se tornaram benfiquistas, ou mais benfiquistas, ao vê-la?) e os mais velhos. Já não prescindimos dela... ou outra. O Benfica está acima de todos nós, benfiquistas, do Presidente ao mais anónimo sócio. Por isso, face aos factos divulgados pela Administração/Direcção, admito (com pena e preocupação) que haja que procurar alternativa, esperando que em breve voltemos a ter uma águia a sobrevoar o nosso Estádio e a entusiasmar-nos a todos."
Arons de Carvalho, in O Benfica

Eusébio. "Em 15 anos que joguei no Benfica, o FC Porto nunca ganhou"

"Em 1960, um menino aterrou em Lisboa para mudar o futebol português. 50 anos depois, continua o mesmo: humilde

Eusébio é um prato. E não dizemos isto só porque o entrevistámos na Tia Matilde, durante a hora (adiantada) de almoço. É a pura convicção do i. Eusébio é um prato, expressão que indicia divertimento e afabilidade. Vamos por partes: o i quer entrevistá-lo a propósito da sua chegada a Portugal, fez 50 anos no dia 15, e telefona-lhe. Assim, sem passar por ninguém. Do outro lado atende Eusébio, como um comum mortal. E toda a gente sabe que Eusébio não é um qualquer. É O Eusébio, com "o" maiúsculo. O Eusébio que ainda hoje suscita admiração e é reconhecido em qualquer parte do mundo, seja na Bósnia, na Venezuela ou no Vietname.

O Eusébio que foi eleito pela FIFA como o nono melhor jogador de todos os tempos no século XX. À sua frente, Pelé (que pede uma batelada de dólares por cada entrevista), Cruijff (é difícil falar com alguém que divide os seus dias entre o golfe e o... golfe), Beckenbauer (Munique é já ali, mas o Kaiser "só com marcação, se faz favor"), Di Stéfano (o presidente honorário do Real Madrid tem mais do que fazer do que dar entrevistas, a não ser que seja um evento-homenagem), Maradona (alguém tem aí o telefone do Fidel?), Puskas (só está entre nós no pensamento), Platini (é o presidente da UEFA e "três occupé") e Garrincha (é de outro mundo, e se não fosse fintava os jornalistas cá com uma pinta...). O que nos deixa no nono classificado do top da FIFA: Eusébio. Que atende o telefone na boa, como se fosse o Manel ou o Jaquim.

Aqui está o ponto de partida para a expressão "Eusébio é um prato": o assessor de Eusébio é o próprio Eusébio da Silva Ferreira. Atende o telefone, ouve e diz de sua justiça. O i quer entrevistá-lo na segunda-feira à noite, dia 13. Resposta dele: "Não, não pode ser. Daqui a 15 minutos, começa o Manchester United-Arsenal. Tenho de ver esse jogo. Liga-me amanhã." Muito bem, que seja na terça-feira, 14. "Hoje? Não, não dá. Então agora vou almoçar e depois tenho de ver [por momentos, ainda temi o pior e que fosse o Motherwell-Hearts, da Escócia] a meia-final do Mundial de clubes [Mazembe-Internacional]. A ver se amanhã nos entendemos, ok?" Okay, Eusébio. "Quando? Hoje? Ehhh, desculpa lá, mas não vai dar. Tenho de ver Rapid Viena-FC Porto [Liga Europa]." Mas desta vez lançamos um contra-ataque, que julgávamos ser venenoso. Qual quê! "Amanhã, quinta-feira? [a falar baixinho mas a pensar alto] às 18h, é o Levski-Sporting [com voz normal] O Sporting joga e tenho de ver. Isto está engatado. Amanhã ou depois, passa pela Tia Matilde à hora de almoço e estou lá, de certeza." Dito. E feito. É sábado, dia do Benfica-Rio Ave, e Eusébio lá está, como prometido, no balcão da Tia Matilde. Quando nos vê, não se deixa surpreender (pudera!) e diz com um sorriso: "Estava difícil, hein! Mas como vês, deu tudo certo."

O i senta-se ao lado dele. Eusébio está sentado, à espera do almoço. É cumprimentado por todos aqueles que lhe passam ao lado. Há quem o chame Eusébio ou king. Dá para tudo. Eusébio, como um rei, estica sempre o polegar em sinal de ok. Nós bem dizíamos, é um prato. E, durante uma hora, a conversa é deliciosa. Eusébio fala com calma. Avança como se fosse um extremo, às vezes recua, que é como quem diz rectifica, depois avança novamente e fala sem parar, ziguezagueando pelo vocabulário à procura da melhor palavra para qualificar este ou aquele ou para definir um ou outro momento, seja glorioso ou simplesmente anedótico. Eusébio é um prato. Já tínhamos dito? A sua memória tem não sei quantos megas de ram. Aí está outro dado que o enobrece: fala do que sabe, com pormenores incríveis. Com ele, não há cá reticências. Quando o seu almoço chega ao balcão, serve-se e tapa o copo de água com um guardanapo. Vai começar a falar... mas o seu raciocínio é interrompido pelo toque do telemóvel. É o Luís Piçarra. O toque do telemóvel, claro. "Sou do Benfica/E isso me envaidece/Tenho a genica/Que a qualquer engrandece/Sou de um clube lutador/Que na luta com fervor/Nunca encontrou rival/Neste nosso Portugal". Eusébio olha para o monitor, atende, fala de mansinho e adia a conversa para outra altura. Agora, é a hora do i. Finalmente.

Isso é o "Ser Benfiquista"...

Sim. Do Luís Piçarra! Nem imaginas o frisson que a música causava a nós, jogadores, antes dos jogos. Estávamos ali perfilados, com o adversário e os árbitros, de repente os altifalantes davam a música, nós ficávamos em pele de galinha e era como que entrássemos em campo já a ganhar. Fosse quem fosse. O Sporting ou o Real Madrid.

Pois, é curioso que fala nisso, porque vai ao encontro de uma das minhas perguntas: como é possível o Eusébio ter estado 15 anos no Benfica e só ter perdido seis jogos em 275 no Estádio da Luz? E como é que o Eusébio marcou em quatro dessas derrotas?

A sério? Seis? E já foram muitas [e ri-se com vontade]. Com quem foram?

Santos de Pelé (2-5) e FC Porto (1-2) em 1962, Sporting (0-2) em 1963, outra vez Sporting (2-4) em 1965, Manchester United (1-5) em 1966 e Ajax (1-3) em 1969.

[Eusébio olha para o ar e começa a falar só para si, mas alto] Desses seis, só dois foram para o campeonato nacional [FC Porto e Sporting-65]. O Santos, para a Taça Intercontinental. Manchester United e Ajax, para a Taça dos Campeões. E esse 2-0 com o Sporting para a Taça de Portugal. Ganhámos lá, em Alvalade, por 1-0, golo do Águas. Depois, perdemos 2-0. Dois do Figueiredo. Olha, foi essa vitória que nos tirou da final da Taça de Portugal mas permitiu ao Sporting ganhar 4-0 ao V. Guimarães e garantir o lugar na Taça das Taças, que haveria de levantar na época seguinte. Nada mal, ajudámos o Sporting, não foi?! [e ri-se mais ainda, entre dois toques do Luís Piçarra].

Porque é que disse "fosse quem fosse: o Sporting ou o Real Madrid"?

O Sporting, porque representei-os em Lourenço Marques, agora Maputo, e porque sempre foi o grande rival do Benfica. Nas 15 épocas de Benfica, fomos campeões nacionais 11 vezes e eles quatro. O FC Porto nunca foi campeão português no meu tempo. E também raramente me ganhou. Na Luz, já vimos, só uma vez. E lembro-me de uma outra vez, bem mais pesada: 4-0 nas Antas. Quatro golos do Lemos. Lembro-me perfeitamente do Rui, que era o guarda-redes do Porto, a dizer-me isso: ''Este ano é nosso'' [esse 4-0 foi em Janeiro de 1971 e estávamos na 18.ª jornada, pelo que faltavam oito para acabar o campeonato, aí liderado por Sporting, com três pontos de avanço sobre V. Setúbal, Benfica e FC Porto]. Eu disse-lhe: ''cuidado com isso, Rui. Ainda vamos ser nós os campeões.'' E fomos mesmo campeões [com três pontos de avanço sobre o Sporting, quatro sobre o FC Porto e sete sobre o V. Setúbal]. No dia em que nos sagrámos campeões, na última jornada, 5-1 à Académica [e faz o gesto de cinco com a mão direita, depois de pousar o garfo no prato], o Rui ligou-me para casa, porque naquela altura não havia nada de telemóveis: ''Tinhas razão. Vocês foram mesmo os campeões. Parabéns.'' Foi um gesto bonito, o dele.

E o Real Madrid?

O quê?

E o Real Madrid? Disse "fosse quem fosse...

Ah, está bem. Desde que me lembro da minha existência [Eusébio nasceu em Janeiro de 1942], o Real Madrid sempre foi a equipa. A máquina. E o Di Stéfano o meu grande ídolo. Eu estava em África e ouvia falar muito do Di Stéfano, do senhor que ele era, do futebol que ele jogava. Não o via a jogar, claro, mas os jornais que chegavam a Lourenço Marques, com dois ou três dias de atraso em relação à data da edição, noticiavam as façanhas do Real Madrid, a equipa que dominava o panorama europeu, como se viu com a conquista das cinco Taças dos Campeões seguidas [entre 1956 e 1960]. E o Di Stéfano era o meu ídolo.

E calhou logo encontrá-lo na sua primeira final europeia, em 1962!

Pois foi. Ganhámos 5-3, a perder 3-2 ao intervalo com três golos do Puskas. Na segunda parte, demos a volta e marquei dois golos, um deles de penálti. Antes do jogo, eu disse ao Coluna para pedir autorização ao Di Stéfano que me desse a sua camisola número 9 no final. Jogámos, ganhámos e, quando o árbitro apitou para o fim, lembrei ao Coluna o pedido da camisola. Lá fomos e o Di Stéfano, cabisbaixo mas afável, deu-me a camisola. Vê lá, tinha acabado de me sagrar campeão europeu e só queria a camisola do Di Stéfano. Está guardada, e é uma relíquia.

Já naquele tempo era costume trocar de camisola?

Não muito, mas eu era novo e o Di Stéfano era uma referência. Ainda hoje é! Aquele era o momento.

Trocou com mais quem?

Tanta gente. Hilário, do Sporting.

E voltámos ao Sporting. Por muitos defesas que o tenham marcado, foi um guarda-redes que ficou célebre por sua causa: o Damas!

Grande amigo. Havia uma rivalidade dentro de campo pelas equipas que representávamos mas a nossa amizade era superior a tudo isso. Quando nos encontrávamos por acaso em Lisboa, íamos almoçar ou jantar ou as duas coisas com as nossas famílias. Juntos, vivemos grandes tardes. Na Luz, em Alvalade, no Jamor. Grande homem, grande guarda-redes.

O Damas também ficou conhecido como o Eusébio do Sporting. Aliás, imagine Portugal sem Eusébio. Não havia estátua Eusébio no Estádio da Luz, não havia Damas como Eusébio do Sporting, não havia jogador português no top 10 dos melhores de sempre do século XX, provavelmente o Sporting tinha ganho mais campeonatos, o Benfica menos... Pergunta: se o Eusébio não tivesse vindo para Portugal, o que estava agora a fazer?

A jogar futebol. Acredita em mim. O meu futuro seria sempre futebolista. Há até uma história curiosa. A minha mãe nunca me quis deixar ir embora de Lourenço Marques. Aos 15 anos, a Juventus, a Juventus de Itália, ok?, queria contratar-me, porque um olheiro deles, que tinha sido um conhecido guarda-redes italiano da Juventus, viu-me e disse-lhes que havia ali um rapaz com potencial, que seria bom aproveitar enquanto eu estivesse incógnito. A Juventus chegou-se à frente mas a minha mãe não quis ouvir nada nem ninguém.

Como eram esses tempos em Lourenço Marques?

Grandiosos. Lembro-me dos jogos que fazíamos. Lembro-me de procurar meias, enrolá-las todas, misturá-las com papel de jornal e daí fazer uma bola. E lembro-me também dos nossos concursos. Quem ganhasse, comia dez castanhas!

Como é que era isso?

Eram concursos de habilidade. Tínhamos de fazer corridas com distâncias pré-definidas a dar toques naquelas bolas [e começa a explicar por gestos, com as duas mãos]. Primeira prova: 20 metros. O primeiro a dar chegar à linha da meta sem deixar a bola e trocá-la do pé direito para o esquerdo o maior número de vezes possível qualificava-se para a fase seguinte, que era a prova dos 50 metros, daí para os 100 e acabávamos nos 200 metros. Sempre na mesma coisa: pé direito, pé esquerdo, pá, pá, pá, pá [as mãos a bater uma na outra fazem eco na Tia Matilde] até cortar a meta. Aquilo eram tardes a fio, dias seguidos, meses, anos... O vencedor ganhava castanhas que assávamos ali na hora, mas nunca, nem por uma vez, o vencedor ficou com todas as castanhas. Qualquer que fosse o vencedor, dividia-as com todos os outros. Ehhh, grandes tempos [olha em frente, para uma parede vazia de conteúdo, mas os olhos transmitem emoção]. Cá em Portugal, o meu treino era outro, claro.

Então?

No final de cada treino, eu ficava no campo a treinar remates. Punha dez bolas ao longo da grande área e ia rematando à baliza. Pá, pá, pá [a Tia Matilde não estremece com o eco, mas pouco falta], pé direito, pé esquerdo, ao ângulo superior, rasteiro ao poste mais distante. Fazia este exercício dez vezes por dia, o que dava cem remates no total. Dez à vez, depois ia buscar as bolas, porque não havia cá apanha-bolas nem nada, não é? Distribuía as bolas outra vez pela área e pá, pá, pá, pá.

Um dia destes, vi uma fotografia sua à baliza. O Eusébio tinha estilo, hããã!

[sem mexer as pernas nem os pés, move o tronco para direita e para a esquerda] O treino de guarda-redes era o melhor para os rins, para os abdominais. Para ficar definitivamente em forma, ia à baliza na parte final dos treinos e dizia ao Simões para me atirar bolas para o lado esquerdo e para o lado direito. Com a mão, mas também em jogadas de um para um. E eu atirava-me aos pés dele.

Podia então ter defendido a baliza do Benfica naquela final da Taça dos Campeões com o Inter, em Milão, quando o Costa Pereira se lesionou?

Sim, podia.

Bem... se fosse, a sua lenda era maior ainda: ir à baliza numa final da Taça dos Campeões. E se não sofresse nenhum golo, como aconteceu com o Germano? Aí então...

Nessa final com o Inter, havia três hipóteses: eu, o Cavém e o Germano. Como estávamos a perder e precisávamos de dar a volta, eu fiquei na frente e lá foi o Germano para a baliza, que manteve o 1-0. Ele já estava a coxear e sem hipótese de acompanhar o arranque de algum adversário.

Sabe qual foi o guarda-redes a quem marcou mais golos?

Não.

Ao Américo, do FC Porto.

Quantos?

17.

Estivemos juntos no Mundial-66. Belo guarda-redes. Porto e Sporting sempre estiveram bem representados na baliza.

Tirando o Damas, quem se destacava mais? Carvalho, Octávio de Sá, Carlos Gomes...

O Carlos Gomes [e olha para a frente, como se o estivesse a ver naquele preciso momento]. Uma vez, quando ele defendia o Atlético, treinado pelo José Águas [1961-62], o intervalo de um jogo com o Benfica demorou mais tempo que o habitual. A PIDE estava na Tapadinha e ia levá-lo para interrogatório. Mas só depois do jogo. Ao intervalo, um amigo dele, que também era meu, alertou-o para isso, meteu-o na bagageira de um boca de sapo [Citröen] e lá foram para Badajoz. O Carlos Gomes foi parar a Marrocos, a jogar no Tânger. E o intervalo desse jogo demorou sei lá o quê. Quando o Atlético entrou em campo, o Carlos Gomes já estava a caminho de Badajoz. Sabes porque é que o Carlos Gomes está aqui? [e aponta para a cabeça]

Não faço ideia. Sei que ele sempre foi irreverente e que jogava de preto, em protesto com o amadorismo do futebol e dos seus dirigentes.

Não [e esboça um sorriso largo]. Lembro-me dele era eu um miúdo de oito anos e ia ver com o meu tio os particulares das equipas portuguesas em Lourenço Marques. Era um costume, e antes dessa equipas regressarem a Portugal, ainda iam à África do Sul para ganhar mais um cachet. Lá, os negros não podiam jogar. Lembro-me que o Sporting jogou em Lourenço Marques com o Jorge Mendonça e na África do Sul não o pôde fazer. Eles tinham um campeonato para brancos e outro para negros. Mas porquê? Se somos todos iguais: brancos, pretos, amarelos, azuis... Na África do Sul, era assim. E lembro-me que o Atlético Clube de Portugal [faz questão de repetir o nome do clube] chegou à África do Sul e voltou logo para Portugal, porque recusou as imposições dos sul-africanos, de jogar sem o Ben David, que era cá um jogador [quatro golos em seis internacionalizações por Portugal, entre 1950 e 1952]. Mas volto ao Carlos Gomes.

Ok. Carlos Gomes, então


Num jogo desses, ele foi expulso de campo. E eu lembro-me, tão bem, mas tão bem, da malandrice dele. [Eusébio faz o gesto do árbitro "para a rua", porque ainda não havia cartões, e traça uma grande área imaginária com talheres, pratos e copos, sem tirar o guardanapo de cima daquele que tem água] Ele foi da baliza até à bandeirola de canto e daí até ao meio-campo sempre pela linha, sem nunca sair do campo. Estavam todos a olhar para ele, a ver quando saía para recomeçar o jogo. Quando ele chegou ao meio-campo, desapareceu rumo ao balneário. Quando cheguei a Portugal, vi-o e disse para mim ''olha quem é ele''.

Quando chegou a Portugal... Ainda se lembra do primeiro jogo que viu do Benfica?

Claro. Cheguei numa quinta-feira [15 de Dezembro], depois da mais longa viagem de sempre. Acho que foram 30 ou 31 horas de avião. Tantas escalas... Só me lembro de uma: Dacar [Senegal].

E depois?

Bem, cheguei a Lisboa à noite e do aeroporto fui para o Lar do Jogador, onde conheci todos os jogadores e mais o treinador, o Bela Guttmann. Sabes que ele nunca me tratou por Eusébio? Nunca! Era sempre o menino. O menino tem de ir connosco, o menino tem de fazer isto, o menino tem aquilo... Do Lar do Jogador, viajei para a Covilhã. Apanhei o comboio aqui [e aponta lá para fora, para a Estação do Rego]. Fazia cá um frio lá em cima. Quis ir-me embora. De lá, da Covilhã, e até de Portugal. Foi o Coluna que me sossegou. Eu conhecia-o de Lourenço Marques e as nossas famílias davam-se bem. Eu até tratava a mãe dele por tia. E o meu irmão deu-me uma carta para lhe entregar no dia em que o visse em Lisboa. Nesse jogo na Covilhã, começámos a perder mas ganhámos 3-1.

Chegou em Dezembro de 1960 mas só se estreou em Junho de 1961.

Sim, houve muita burocracia pelo meio, entre Sporting, Benfica, federação... Em Junho, lá me estreei. A 1 de Junho, no dia seguinte ao Benfica ter ganho a primeira Taça dos Campeões [3-2 ao Barcelona, em Berna]. A Federação Portuguesa não quis adiar o jogo e o Benfica apresentou a equipa B. Perdemos 4-1, nos Arcos.

Mas o Eusébio marcou um golo [o 473.º e último golo oficial de Eusébio pelo Benfica, em Março de 1975, também foi com o V. Setúbal, mas já no Bonfim]

Sim, o 3-1.

E também falhou um penálti?

È verdade, defendido pelo Félix. O pai do Mourinho.

Falhou mais penáltis?

Um para o Maló, da Académica [na Luz, em Outubro de 1966: 2-1 para o Benfica]. E outro para o União de Almeirim.

Como é que é?

Para a Taça de Portugal, com o União de Almeirim [32 avos-de-final, a 9 de Fevereiro de 1969]. Ganhámos 8-0, eu já tinha marcado três ou quatro, não me lembro bem [foram três, e vale a pena dizer que Eusébio marcou 18 em nove jogos nessa edição da Taça, que o Benfica levantou, numa final com a Académica, que meteu prolongamento e só se evitou um segundo jogo por-culpa-vocês-sabem-de-quem]. E houve um penálti. Eu fui batê-lo e o guarda-redes disse-me que o pai dele estava no Estádio da Luz. Eu então disse-lhe que ia atirar para aquele lado [Eusébio aponta o seu lado direito] e ele foi lá buscá-la. Eu e ele tirámos fotografias, com o pai também, e, durante essa semana, ele virou herói nacional, com reportagens numa série de jornais. Foi engraçado [e sorri largamente, como se lhe estivessem a dar uma Bola de Ouro].

Seis derrotas na Luz, 11 títulos de campeão nacional em 15 épocas, três penáltis falhados, duas Botas de Ouro [melhor marcador europeu] e uma Bola de Ouro [melhor jogador da Europa para a France Football]. Que carreira. Falta-lhe alguma coisa?

Já que fala nisso... Podia ter ganho duas Bolas de Ouro.

Pois. Ganhou uma em 1965, com oito pontos de vantagem sobre Facchetti, lateral italiano do Inter. Mas perdeu a de 1966, para Bobby Charlton. Por um ponto, não foi?

Sim. Um ponto.

E o voto foi de um jornalista português, o Couto e Santos, do Mundo Desportivo. Ele votou no Bobby Charlton em primeiro lugar, eu em segundo [em 1966, Charlton foi campeão do mundo e eleito o melhor jogador pela FIFA numa prova em que Eusébio foi melhor marcador destacado, com nove golos em seis jogos]. O Charlton acabou com 81 pontos, eu com 80. Se ele votasse em mim, seria o contrário: eu 81, o Charlton 80.

E alguma vez falou com Couto e Santos sobre isso?

Siiim. Ele sempre me disse que votou no Charlton porque julgava que eu ia ganhar com avanço. Como é que alguém pode pensar isso numa votação secreta? E o que é que eu podia fazer-lhe? Nada, não é? Apenas perguntei-lhe e ele respondeu-me desta forma. Se ele votasse, eu seria o primeiro jogador a ganhar a Bola de Ouro duas vezes seguidas.

A Bola de Ouro perdida para o Bobby Charlton. Mais alguma coisa que lhe falta? Li algures que nunca jogou com o Matateu.

É verdade, o Matateu. Ele nunca jogou comig... Desculpa, eu nunca joguei com o Matateu. Assim é que é, assim é que se deve dizer: eu nunca joguei com ele. Só uns treinos na selecção portuguesa, com o Peyroteo a treinador. [E o Luís Piçarra entra novamente pelos nossos ouvidos dentro... Eusébio é ou não é um prato?]"

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Reforço Olímpico, no Triatlo


O desfile da mentira

"Há umas semanas líamos por aí, em letras garrafais, que o brasileiro Elias estava a um passo de ser contratado pelo Benfica. No dia seguinte o negócio complicara-se, e ao terceiro dia o jogador estava já a caminho do Atlético de Madrid. Era então o argentino Enzo Perez a encher as primeiras páginas com nova novela em torno da sua alegada contratação. Até que também ele saiu de cena para dar lugar a Jucilei. Seguiu-se Kléber, e depois Fernandez, e assim sucessivamente (com Danny, Funes Mori e Nuno Coelho pelo meio), num rol interminável de noticias desprovidas de qualquer aparente fundamento. O mercado ainda nem sequer abriu as suas portas, pelo que, até ao final do próximo mês de Janeiro, muitos serão os nomes a adicionar a este ridículo desfile, sem que, na maioria dos casos, a SAD Benfiquista seja tida ou achada no 'negócio'.
Esta narrativa jornalística cansa. Eu, pessoalmente, já não acredito num único nome que surja nas páginas dos diários desportivos por estas alturas, e tenho a mais firme convicção de que, de entre todos os mencionados, poucos foram sequer objecto de ponderação por parte dos responsáveis do clube. Muitas vezes, pasma-se, é o próprio conteúdo das páginas interiores a desmentir as manchetes luminosas com que se pretende impressionar os mais incautos - anuncia-se, com pompa, o interesse do Benfica em fulano, para, na mesmíssima edição, algumas páginas depois se perceber que o negócio é, afinal, quase impossível de concretizar, ou que esse interesse até nem é, por exemplo, partilhado pelo treinador e/ou pela Direcção, transformando a fulgurante notícia em... nada, desrespeitando a verdade e os leitores. Todo o folclore noticioso não passa assim, creio, de encomendas de empresários no sentido de acicatar eventuais ofertas sobre os jogadores que têm em carteira, interesses esses que encontram na necessidade de vender papel o terreno fértil para a sua expansão.
Se fizermos o histórico dos nomes publicados na imprensa como possíveis reforços do Benfica no últimos dez anos, verificamos que mais de 90% nunca chegaram a vestir a camisola do clube, nem estiveram perto disso. Seria também curioso verificar o número de dias que cada um deles preencheu as páginas dos jornais, a forma como apareceram, como se mantiveram, como saíram, e, sobretudo, quem lá os pôs.
O procedimento é sempre igual: desperta-se o interesse como quem lança um segredo de salão, fazem-se duas ou três primeiras páginas com o nome do craque, começam então a noticiar-se as inevitáveis dificuldades na negociação (sejam prazos, formas de pagamento, ou outro clube que se interpôs), para, finalmente, quando a margem se estreita de forma irreversível, ser revelado o destino efectivo do futebolista - clube que, entretanto, assustado com toda a onda de especulação, acaba assim por pagar um pouco mais do que aquilo que pensava no início do romance.
Se tudo isto se tolerava há uns anos atrás, parece-me difícil que um grande número de adeptos ainda se entusiasme hoje com este tipo de burla (é esta palavra certa). Por isso não a entendo senão à luz da indisfarçavel crise pela qual passa a Imprensa escrita, que, entalada entre uma maior profissionalização das entidades objecto de cobertura noticiosa (com menor acessibilidade aos seus assuntos internos), e uma crescente onda de mecanismos de comentários, análise e até informação gratuita e online, tem revelado uma total incapacidade de adaptação aos novos tempos. E os grandes jornalistas, que também por lá existem, acabam eles próprios submersos pelo manto de mediocridade e de chico-espertismo que inunda todo o espaço onde habitam.
Como maior clube português, o Benfica é, obviamente, a principal vítima deste processo. Dispondo de mais adeptos, preenchendo a maior fatia da quota de mercado dos afectos desportivos, é do Benfica que todos procuram servir-se para alcançar os respectivos intentos - por vezes de forma sórdida e nojenta, como ainda recentemente sucedeu em redor de aspectos da vida privada do nosso director-desportivo. A grandeza do clube obriga-nos a conviver com esta nuvem de poeira à nossa volta. Mas é imprescindível que não nos deixemos abalar por ela.
Felizmente o Sport Lisboa e Benfica tem hoje mecanismos de comunicação suficientes para estabelecer uma ligação forte, directa e eficaz com os seus sócios e simpatizantes. Dispomos de um canal de televisão, das páginas deste Jornal, de uma Revista, e de um Site oficial. São estes os instrumentos que procuram informar os benfiquistas salvaguardando os interesses do Clube. A maioria dos restantes órgãos de comunicação social apenas se serve do Benfica para ganhar dinheiro, quer à custa da sua grandiosidade quer explorando, como abutres, os seus momentos menos bons. Não os levemos a sério, pois eles não merecem."
Luís Fialho, in O Benfica

domingo, 26 de dezembro de 2010

O Pai Natal é vermelho?

"E que tal o Benfica que defrontou o Rio Ave? Deu ou não para recordar alguns dos melhores nacos de bola que a equipa exibiu na temporada passada? Houve momentos de esplendor, momentos de sedução. Houve excelentes movimentações ofensivas, houve mais desequilíbrios, mais soluções. Foi frente ao Rio Ave? E não se bateu com galhardia e competência a turma de Vila do Conde? A ultima exibição do ano transmitiu confiança. Fez aproximação ao verdadeiro Benfica, ao Benfica por que anseiam os adeptos. Hegemónico, luzidio, goleador. Será para continuar? Só pode ser para continuar. Mais do que isso, só pode ser para melhorar. Mais do que a técnica ou táctica, talvez que a crise que passou tenha sido sobretudo emocional.
Com a aproximação ao perfeito, com o apoio incondicional doa aficionados, com acréscimo de firmeza, com suplemento anímico, tudo reunido, algo que só boas vitórias podem trazer, o grande Benfica estará de volta, a tempo ainda de averbar conquistas importantes na época em curso.
Paradoxalmente, o Pai Natal, na presente edição da Liga nacional, apareceu muito antes de Dezembro, trajado de azul... e branco. Que dizer dos benefícios que o FC Porto tem tido? E dos prejuízos do nosso Benfica? Caso imperasse a justiça e a isenção, não estaria o Benfica praticamente ao líder na pauta classificativa? Devolva-se, então, o vermelho ao pai Natal, de resto a sua cor genuína. Com uma recomendação apenas, a de que não são precisos favores, não são precisas prendas, só se exige equilíbrio nas decisões."

João Malheiro, in O Benfica

O Cortejo

"No passado fim-de-semana, na Mata Real, lá vimos mais um. Desta vez foi o Artur Soares Dias, mas podia ter sido um dos outros, um daqueles que continuam a perpetuar um cortejo que já vai longo. Há quase trinta anos que os vemos: António Garrido, José Silvano, José Pratas, Martins dos Santos, Miranda de Sousa, Carlos Calheiros, Jacinto Paixão, José Guímaro, António Costa, Paulo Costa, Donato Ramos, Fortunato Azevedo, Augusto Duarte e tantos outros Coroados da vida. Coitados, o destino não lhes dá tréguas.
E nós, adeptos, lá vamos protestando num diálogo inútil com um poder bafiento, ultrapassado e que recentemente, ao enlamear o nome do juiz Ricardo Costa, fez o funeral ao último resquício de dignidade que por lá andou. E enquanto a dignidade não volta, apercebemo-nos de que já se vai preparando um qualquer Paulo Costa para se atirar aos destinos da arbitragem, quando esta passar a ter coutada e feudo na publicamente inútil Federação Portuguesa de Futebol. E tudo continuará como tem sido: com a fina ironia a manifestar-se nos intervalos da generosa missão de receber árbitros em casa nas antevésperas dos jogos.
E não, isto não é um lamento nem uma revolta – já lá vão esses tempos – é apenas a garantia de que só nos vencem no dia em que baixarmos os braços, no dia em que desistirmos. Até lá, é derrotado o futebol e são derrotadas as instituições que deveriam garantir a justiça; é derrotado Portugal e são derrotados os portugueses que aceitam servilmente este jugo hipócrita. Derrotados nunca serão os que não desistem, porque podemos andar de cabeça erguida e olhá-los nos olhos, enquanto vemos passar este cortejo de indecentes disfarçados de penitentes."
Pedro F. Ferreira, in O Benfica