Últimas indefectivações

sábado, 28 de março de 2020

No meu mundo corre tudo às mil maravilhas

"Enquanto durar esta coisa, podem contar, aqui neste cantinho, com resultados, entrevistas, escândalos de mais de três centímetros e um vasto noticiário sobre uma carrada de acontecimentos extraordinários que nunca acontecerem

No meu mundo não há aquela coisa. Em não havendo aquela coisa, está tudo como era suposto estar. E, por isso é urgente retomar, sem preconceitos, a discussão filosófica sobre os três centímetros que a linha do VAR considerou para anular um golo ao FC Porto no último jogo antes daquela coisa chegar. Contra quem foi o jogo? Já ninguém se lembra? É verdade. E é, pior ainda o desleixo. Não pode ser este abandono, este desalento esta apatia, esta rendição. Salutares e atentíssimos ao que se passa no futebol português é como nos devemos posicionar, por vício e consequente obrigação moral, ainda que nada se passe. No meu mundo, por exemplo, passa-se tudo como se nada de invulgar se passasse. Posso até adiantar que o Benfica está outra vez na liderança isolada do campeonato nacional. Foi canja. E muito graças ao Gabriel, que regressou em grande depois de uma paragem forçada de dois meses por causa de um vírus ocular. Um vírus ocular, puf... que brincadeira de crianças.
Era assim que os nossos jornais desportivos se deviam comportar perante a situação criada por aquela coisa. Inventando. Seguido escrupulosamente o calendário da Liga principal e inventando sem dó nem piedade os relatos, os resultados e as polémicas de todos os jogos, jornada a jornada. Só pode ser esta a receita. Eu, confesso, compraria o jornal que me garantisse numa primeira página pintada a vermelho que o meu clube já seguia na frente outra vez graças ao hat trick de Dyego Sousa no jogo de Portimão à extraordinária exibição de Odysseas Vlachodimos no jogo como Tondela e, muito principalmente, graças aos três penáltis falhados por Alex Telles nos três jogos do FC Porto vá lá saber-se contra quem. Sim, porque isto de falhar penáltis toda a todos.
Eu compro o jornal que me traga aquela grande entrevista com o Gabriel estampada em manchete. Gabriel celebrando a sua total recuperação e o seu extraordinário momento de forma. E também a sua proverbial humildade. 'Devo o hat trick ao nosso capitão', era o título em letras gordas. E, por baixo, em letras mais pequeninas, Gabriel explicava o porquê dessa divida: 'Foram três assistências milimétricas do André Almeida'. E,de novo por baixo, seguindo a mesma linha da paginação uma fotografiazinha no canto inferior direito da primeira página a ilustrar na perfeição a sintonia entre os dois jogadores André Almeida, ainda que estranhamente sem bigode, puxar de orelhas a um Dyego Sousa ainda estupefacto.
Resumidamente, enquanto houver aquela coisa podem contar comigo para o fornecimento semanal de resultados, de declarações sensacional, de escândalos de mais de três centímetros e de um vasto noticiário sobre uma carrada de acontecimentos extraordinários que nunca aconteceram. Tudo aqui, neste cantinho."

Semanada...

"O Desporto está parado dentro dos relvados e dos pavilhões. Mas tem existido algumas decisões importantes.
1. A FPF Cancelou as Provas de Formação. Uma decisão inofensiva à primeira vista mas que acaba por ser muito importante. O organismo que tutela a Liga NOS e a LedMan LigaPro não é o mesmo que tutela os campeonatos de formação, mas se um decide uma coisa, o outro deverá seguir as mesmas linhas de pensamento. Afinal, que sentido faria não haver Campeões na formação e haver na Primeira Liga? Se o Campeonato não retomar, não haverá Campeão em Portugal. Não havendo Campeão, a grande questão que fica quem é que se apura em que posição para as competições europeias.
2. Apuramento para Competições Europeias. Só vejo duas possibilidades. a) Apura-se conforme o Campeonato parou. Nesse caso FC Porto apurava-se directamente para Liga dos Campeões, Benfica ia às pré-eliminatórias da Liga dos Campeões. Braga apurava-se directamente para Liga Europa e, Rio Ave e Sporting iam às pré-eliminatórias da Liga Europa. b) Ou apura-se conforme a primeira volta terminou. Nesse caso, Benfica apurava-se directamente para Liga dos Campeões, FC Porto ia às pré-eliminatórias da Liga dos Campeões. Famalicão apurava-se directamente para Liga Europa e, Sporting e Braga iam às pré-eliminatórias da Liga Europa. Cada clube terá a sua preferência. De um lado estará o Benfica e o Famalicão. Do outro está o FC Porto, o Braga e o Rio Ave. Por um lado é verdade que não se jogaram os jogos todos e como tal o calendário que cada clube teve até agora influencia necessariamente a classificação. Por outro lado não podemos simplesmente ignorar o percurso brutal que o Braga fez na segunda volta ou os problemas todos que o Benfica teve em Fevereiro. Qualquer que seja a decisão, será sempre muito controversa. Pode ainda haver a terceira opção que é repetir os apuramentos do ano passado.
3. Corte Salarial. Um pouco por toda a Europa, os clubes estão a cortar os salários e eventualmente a questão vai chegar cá. A minha sensação é que os clubes que estão a decidir isto ou estão com problemas financeiros, ou têm a informação que os Campeonatos provavelmente não vão retomar e que terão que devolver parte do dinheiro que receberam em patrocínios/direitos televisivos a quem pagou por 17-19 jogos e só recebeu 13-14. No caso do Benfica é muito claro o que pode acontecer. Tínhamos mais de 90 milhões de euros no banco parados a 31 de Dezembro. Desde daí, pagámos 25 milhões de euros para amortizar um empréstimo obrigacionista, contratámos Pedrinho e Weigl, e vendemos o RDT (sendo que as transferências deverão ser pagas a prazo). A situação económica do clube é muito boa e tem uma almofada confortável para o que vier aí. O Benfica já recebeu o dinheiro da Champions e das transmissões da Liga NOS. Já tinha mais de 80% dos bilhetes vendidos até ao final do ano através dos redpasses. E os patrocínios que recebe da Adidas e da Emirates não são as maiores fontes de rendimento do clube. Como tal, só se tiver que indemnizar alguém é que fará sentido cortar salários. Porque de resto, o grosso do dinheiro (certamente mais de 90%) que o clube iria fazer esta temporada, já fez.
4. Reforços Suspensos. A Bola ontem lançou o nome de Leonardo Fernandez como potencial reforço do Benfica. O Benfica já negou e deixou no ar a hipótese de não ir ao mercado no próximo verão. É a decisão mais racional que se pode pedir nesta altura de muita incerteza quanto ao futuro, mas provavelmente também está a ser usada como desculpa para manter o plano inicial da estratégia da formação do clube. É um facto que reforços tiram espaço aos miúdos do Seixal. O Benfica com Mile Svilar, que fez uma época brutal na equipa B, tem uma competição à altura para Vlachodimos. Diogo Gonçalves pode ser um lateral direito muito interessante se conseguir acrescentar a parte defensiva da posição que não sabemos se tem ou não. Entre Pedro Álvaro, Morato e Branimir Kalaica, algum poderá subir. Até podem subir dois e tirar o lugar a Jardel. Se o Jota começar a ser devidamente utilizado, assim como eventuais promoções de Tiago Dantas, David Tavares, Nuno Santos e/ou Gonçalo Ramos, o Benfica consegue fortalecer as suas alas e meio campo, que foram o grande problema em Fevereiro quando os jogos começaram a acumular e o tivemos que utilizar os mesmos jogadores várias vezes num curto espaço de tempo. Há ainda a possibilidade de resgatar Filip Krovinovic que tem feito uma boa época em Inglaterra. Neste cenário, e sabendo que na próxima temporada já temos um reforço garantido - Pedrinho - acredito que seja possível minimizar uma ida ao mercado. Isto se não houver vendas. Continua a parecer-me que faz-nos falta um médio centro, um central e um ponta de lança, apesar de, tirando o ponta de lança, consigo ver soluções nos nossos quadros em todas as posições.
5. OPA Cancelada. Tem sido uma história varrida para debaixo do tapete. A CMVM não aprovou a OPA do Benfica (clube) à Benfica SAD porque desde do ano passado, o Benfica (clube) comprou o Estádio da Luz e a BTV à Benfica SAD por 100 milhões de euros a serem pagos em vinte e cinco anos. Desde daí a Benfica SAD ficou a pagar uma renda pela utilização do Estádio ao Benfica (clube). No relatório semestral da Benfica SAD é possível ver que se gastou 39 milhões de euros em "fornecimento de serviços externos" o que foi um aumento 12 milhões de euros em relação ao mesmo período do ano passado. Desses 12 milhões de aumento, 75% (9 milhões) foram gastos em “rendas e alugueres”. Ou seja, no primeiro semestre da época 18/19 o Benfica gastou um pouco menos que 6 milhões de euros em alugueres e agora, no primeiro semestre da época 19/20 gastou quase 15 milhões de euros em alugueres. O acordo entre a Benfica SAD e a Benfica Estádio (detida pelo Benfica (clube)) diz que a renda está dependente dos gastos incorridos pela Benfica Estádio. É verdade que no primeiro semestre de 19/20 o Benfica teve que mudar duas vezes o relvado e isso poderá ter aumentado o preço da renda. Mas para a CMVM foi o suficiente para não aprovar a OPA, que tinha muito por onde se pegar. Desde logo, um sócio do Presidente do Benfica poderia receber 15 milhões de euros, mais 10 milhões de lucro, nesta operação.
6. Primeiro Reforço do Futsal 20/21. Ainda não foi oficializado, mas já está um pouco por todo o lado. Nílson, fixo do Braga, vai reforçar a nossa equipa de Futsal. É um jogador de Selecção e num Campeonato que limita o número de estrangeiros, jogadores de Selecção são sempre mais valias. A meu ver, o Nílson vem substituir o Fernando Drasler e não o André Coelho, apesar de nesta altura apenas a saída do André Coelho estar garantida - vai para o Barcelona. Em relação ao Fernando Drasler, o Nílson parece-me até um upgrade. Vamos ver é que estrangeiro iremos contratar para o lugar do André Coelho. No Futsal - bem como nas outras modalidades - é importante procurar jogadores que sejam sobretudo mais valias contra os nossos adversários. O Sporting tem e vai continuar a ter pivots muito fortes por onde passa boa parte do seu jogo. Como tal, se tivermos fixos que consigam cobrir os pivots do Sporting limitamos uma boa parte do jogo ofensivo dos nossos rivais.
7. O Andebol É a Maior Modalidade de Pavilhão em Portugal. As maiores provas europeias de clubes que não são de Futebol são a Euroleague de Basquetebol e a Heineken Champions Cup de Rugby. Mas em nenhuma dessas modalidades Portugal está perto sequer das nações de topo. No entanto, no Andebol estamos. A partir do próximo ano, a Liga dos Campeões de Andebol vai começar a pagar 750 mil euros a cada equipa que se apurar para a Fase de Grupos. Ora, no caso do Benfica que no ano passado fez pouco mais de 5.5 milhões de euros de receita em modalidades e que tem tido prejuízos (receitas menos custos) na casa das dezenas de milhões de euros, estes 750 mil euros seriam um aumento de mais de 10% das receitas. Como tal, é importante que o Andebol deixe de ser a modalidade mais fraca do clube para ser a mais forte. Porque a partir de agora é a que tem maior probabilidade de ser sustentável."

Benfica de Quarentena #18 - Mariano Ortega

Cadomblé do Vata (Grande noite...)



"Taça UEFA 08/09 - 1a Ronda - 2a Mão- 02/10/2008 - Estádio da Luz
SL Benfica 2 - 0 SSC Napoli
1. Apetece-me dizer "chupa Nápoles "... mas isto é o Nápoles e eu tenho tíbias e família.
2. Primeiro jogo transmitido em directo pela Benfica TV... roubamos a transmissão do jogo contra a equipa da Máfia Italiana à televisão da Máfia Portuguesa.
3. Defrontar o Nápoles era difícil mas com Wolfgang Stark a arbitrar o nível de complicação subiu muitos degraus... a história diz-nos que quando italianos e alemães se juntam, é desastre quase certo. 
4. Não consigo ultrapassar o nojo de ver Jorge Ribeiro envergar o Manto Sagrado... e sentir que os assobiadores do Thomas e do Beto desperdiçaram excelentes apupos nos jogadores errados.
5. Di Maria é um prodígio técnico, mas é extremamente frágil fisicamente... desconfio que o Sidnei lhe anda a roubar o jantar."

[FR] Bistrot - Carnets de Voyages - de Berlin à Madrid - nos awaydays à travers l’europe

Um sonho

Chef Pimenta #3

O Brinco do Baptista #34 - Academia...

Benfiquismo (MCDLXXXV)

Bigodes...!!!

Piores tempos virão

"Não será preciso ser o génio da lâmpada para perceber que os campeonatos não vão terminar e não haverá futebol tão cedo

Na semana em que morreu Albert Uderzo, o genial autor dos irredutíveis gauleses e da sua aldeia, fica a ideia de que também nós precisamos de uma poção mágica e de um competente druida como Panoramix que nos ajude a manter as nossas aldeias.
Nesta fase de nenhumas certezas, aqui escrevi na última semana que não haveria Jogos Olímpicos nas datas marcadas. Cumpriu-se o óbvio, houve bom senso. Não será preciso ser o génio da lâmpada para perceber que os campeonatos também não vão terminar e não haverá futebol tão cedo. Por muito que nos custe, a quem gosta tanto do jogo e da sua adrenalina, essa é a única solução razoável e sensata face a realidade que vivemos. Os tempos são difíceis e vão ser ainda muito piores. A consciência da realidade ajuda a enfrentá-la, de nada serve cognitivos deslizantes criarem mundos alternativos que não existem. Para neles viverem em fantasia. Não  estamos em tempo de ficção e não haverá mais futebol esta época.
Pedro Martins, técnico do Olympiakos, disse, com sabedoria, mas foi pouco escutado, que mesmo depois de passar a pandemia as equipas precisam de algum tempo para regressar à competição. Este ano já não haverá condições para mais competições nacionais ou europeias. Não creio que haja condições sanitárias, nem grandes alterações de circunstâncias que permitam competições nas próximas 10 semanas.
A OPA do Benfica não foi por diante, as dúvidas levantadas pela CMVM e a alteração de circunstâncias justificam esta decisão. Embora, de acordo com a minha ideia de Benfica, seja sempre positivo sermos donos de nós próprios e termos o maior controlo possível sobre os nossos destinos, longe das negociatas de outros interesses e, por isso, quanto maior for o controlo sobre o nosso capital melhor. Reconheço que nestas condições foi a melhor situação. O Benfica fez bem em desistir da OPA. Acaba o ruído e isso é inestimável nesta fase. Não penso como Eça Queiroz n'A Correspondência de Fradique Mendes: «Todo o jornal destila intolerância (...) e cada manhã a multidão se envenena aos golos com esse veneno capcioso». Mas a verdade é que o ódio ao Benfica, as dúvidas legítimas ou a mera ignorância alimentavam diariamente ruído e histórias sem nexo que em nada beneficiavam o clube e o seu presidente. Nestas condições, assim é melhor para o Benfica.
Por fim, neste Portugal com muita gente a falar e menos gente a fazer, assistiu-se a críticas (de sportinguistas) a Frederico Varandas por este ser ter disponibilizado para servir o seu País, nas Forças Armadas como médico. Não sou do Sporting, mas, no seu critério,os anormais são os autores das críticas e não o presidente do rival que fez o que deve fazer um homem de bem nestas circunstâncias. Que fique com as críticas dos colegas de clube e com o elogio de um rival que aprecia gente decente."

Sílvio Cervan, in A Bola

Quarentena

"Levado à letra, Almada Negreiros estava enganado. Aos portugueses, tendo todos os defeitos, não é necessário a coragem por só lhes faltarem as qualidades para serem um 'povo completo'. A forma ordeira empenhada e quase massificada com que a recomendação de distanciamento social foi acolhida e respeitada contradiz esse pessimismo acerca de Portugal, não obstante o previsível bota-abaixismo que se seguirá, afinal uma das actividades predilectas dos nossos tempos livres.
Teremos, porventura, limitações de toda a espécie, mas compensamo-las com resiliência, voluntarismo e serenidade, entre outros, além da propensão para um certo fatalismo que, embora geralmente indutor de entropias várias, é agora, em tempos de crise extrema como a que vivemos, uma virtude. Aceitar a inevitabilidade de consequências nefastas será o primeiro passo para combatê-las e, pelo menos, mitigá-las. Haveremos de enveredar por um chorrilho de acusações, mas no final do dia interessarnos-á, sobretudo, que possamos juntar-nos à mesa para convivermos, comermos, bebermos e desdenharmos seja lá o que for.
E há o Sport Lisboa e Benfica, exemplo bastante para refutar a tal citação do Almada, pois foram portugueses que o criaram a desenvolveram, inspirados numa visão utópica, logo incumprida, mas continuamente perseguida e almejada.
Cada benfiquista tem uma visão para o Benfica, sabendo que o nosso querido clube estará sempre aquém do que projectamos para ele. Nesta catástrofe, a acção da Fundação Benfica e das Casas do Benfica, os planos de contingência e sua imediata implementação no Clube e avultada doação ao Serviço Nacional de Saúde aproximam o Benfica, indubitavelmente, da minha visão do Benfica."

João Tomaz, in O Benfica

sexta-feira, 27 de março de 2020

Juntos, somos mais fortes

"Nem sei bem explicar-vos o orgulho que tenho na Fundação Benfica. Não é só pelo 'Para ti Se não faltares', o projecto que combate o absentismo e o insucesso escolar. Nem se resume ao 'Benfica faz bem', quando os atletas do Clube interagem com crianças e jovens para fomentar a autoestima e a confiança. É por tudo. São as campanhas humanitárias, as preocupações sociais, os valores transmitidos, o desporto inclusivo e o estar sempre atento ao mundo em que vivemos. Ainda agora com a pandemia vimos bem o peso que o SL Benfica e a sua Fundação podem ter para fazer a diferença. Por um lado, a oferta de ventiladores e de apoio financeiro. Por outro, o trabalho de proximidade com a Guarda Nacional Republicana para acompanhar os idosos isolados em risco, principais alvos da covid-19. Serão cerca de três mil pessoas beneficiadas, neste caso.
É mais do que justo destacar aqui o trabalho das inúmeras pessoas que trabalham na e para a Fundação, heróis muitas vezes invisíveis, uns mais anónimos do que outros, que vestem a camisola, que se fazem voluntários, que fazem acontecer.
É também para isto que existe o Sport Lisboa e Benfica. Num momento como o que passamos, a nível mundial, é cada vez mais importante mantermo-nos juntos, unidos num objectivo comum. Há que derrotar a epidemia, mas também ajudar quem mais precisa agora e aqueles que vão precisar a seguir. Sim, o coronavírus não vai desaparecer. Até pode acontecer, clinicamente falando, mas os seus efeitos serão prolongados e duradouros na mente, no corpo, na sociedade, na comunicação social, na economia ou no desporto. Por isso, no próximo IRS (509259740, o número mágico) ou quando tiver tempo para partilhar, lembre-se da Fundação."

Ricardo Santos, in O Benfica

Saudades

"À medida que o tempo passa, as saudades crescem. Saudades de ir à Luz, de me sentar nas bancadas, da ansiedade antes e durante os jogos, da euforia dos golos, de comemorar as vitórias. Também das partidas fora de casa, muitas vezes diante da televisão a roer as unhas entre o sofá e os momentos em que deixo de conseguir ficar sentado. Saudades também das outras modalidades. Do básquete. Do hóquei. Das idas ao pavilhão. Da verificação atenta dos resultados e das classificações nas noites de domingo (os números agora são outros e chegam minuto a minuto: de contagiados, de mortes...).
Saudades também de outros jogos, de outras ligas. Da Premier League à hora do almoço nos sábados. Da Liga Espanhola à hora do jantar (agora são as conferências de imprensa da DGS...). Das provas europeias a meio da semana. Saudades da NBA, da Fórmula 1, do ciclismo. Do desporto. Da vida normal. Da vida. O tempo é da angústia.Também de ausência. Quem sabe de perda. Nunca atravessámos nada como isto. Ninguém estava preparado. Tentamos abstrair-nos. Pensar que tudo não passa de um susto. De um pesadelo. De um momento mau. Há que ver o lado positivo, se ele existe. Talvez Albert Camus tivesse razão quando dizia que nas horas de flagelo há mais cosias no homem para admirar do que para desprezar. Ou José Saramago, que afirmava que a alegria e a tristeza, ao contrário da água e do azeite, poderiam sempre andar unidas. Vale a pena tentar. Viver um dia de cada vez é a receita. Enquanto se espera. Para não desesperar. Para não ceder. Tudo isto há de passar. E tudo talvez volte a ser como antes. Um dia. Ai, esse dia..."

Luís Fialho, in O Benfica

Solidariedade

"Nestes tempos de crise e de profunda incerteza, o Sport Lisboa e Benfica revelou a sua dimensão humanista ao realizar a doação de 1 milhão de euros ao Serviço Nacional de Saúde.
Numa parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, a maior autarquia do país e com um orçamento de 948 milhões de euros, e com a Universidade de Lisboa, a maior a nível nacional, com um orçamento de 375 milhões de euros, o SL Benfica passou das palavras aos actos. Enquanto assistimos a discursos e promessas vãs, um clube, uma autarquia e uma universidade chegaram-se à frente.
No Benfica tem sido sempre assim, desde 2003, quando Luís Filipe Vieira assumiu o comando desta nau. Na sua tradição solidária, os dirigentes e gestores benfiquistas deram uma prova de acção e de pragmatismo. O milhão de euros será destinado à compra de equipamento médico para fazer face a este maldito vírus. O exemplo do Benfica devia ser seguido por todos aqueles que passam a vida a apregoar os valores da solidariedade e da ajuda humanitária. Em tempos de crise, o Benfica e os seus dirigentes nunca faltam à chamada. Todos conhecemos o papel da nossa Fundação como instituição particular de solidariedade social, ao longo dos 11 anos de vida. Agora, em parceria com a GNR, a Fundação Benfica faz chegar, diariamente, a 3000 idosos isolados, packs alimentares individuais. Além disso, a nossa Fundação forneceu três ventiladores para hospital de Lisboa, Porto e Coimbra. Todos estas iniciativas foram tomadas no curto espaço de quatro dias. Somos, de facto, um clube exemplar. Uma verdadeira instituição de utilidade pública."

Pedro Guerra, in O Benfica

Consignação fiscal: O músculo que nos ergue!

"Esta é a pior das alturas para falar em consignação fiscal. O IRS não é um tema simpático, e os portugueses estão de olhos e afectos postos nos valores da vida, da família e da solidariedade. Mas, se pensarmos bem, é daí, dos nossos impostos, que vem o músculo financeiro do Estado para alavancar a força colectiva da nação nesta verdadeira guerra que nos pôs a todos em estado de sítio, em estado de emergência, mas também, logo e cada vez mais, em estado de prontidão. Por isso, mais do que nunca, é um dever patriótico pagarmos os nossos impostos.
É também daí, através da consignação fiscal, que vem a capacidade da Fundação Benfica para responder à altura dos desafios, cada vez maiores, porque não basta a vontade, é preciso músculo! Desde a revolução de Abril que trouxe a democracia e acordou a consciência cidadã de todos os portugueses, não me lembro de nenhum outro momento em que o Estado se pusesse tão veementemente ao serviço dos cidadãos, com a classe política a mostrar prontidão e serviço da causa pública como nunca. Com os cidadãos e a sociedade civil e aplicarem uma velha e boa máxima, que bem podia ser portuguesa:
'Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti. Pergunta, antes, o que podes fazer pelo teu país'. E os portugueses perguntam, sugerem, partilham, telefonam, mobilizam-se, dão-se duma forma desinteressada e apaixonada como nunca antes. E as empresas concorrentes colaboram, e da cerveja se faz álcool, reconverte-se a fábrica para o que faz falta, criam-se listas de compras para a vizinhança do prédio onde antes se não falava aos vizinhos, nem se conheciam em muitos casos. E os clubes já não jogam, mas treinam, trabalham e incendeiam as paixões como nunca. Dizem aos seus que hoje 'somos todos do mesmo clube' apelando à união e trazendo à tona os valores do desporto.
E o Benfica sobressai! O mesmo de sempre, igual a si próprio desde o primeiro momento, popular, orgulhoso, atento às dores do povo e sempre pronto para lhes acudir, para levar a todos o calor da chama imensa que é a Alma Benfiquista. E mostra-se vencedor, nas papoilas da Vida como nas que saltitam nos campos, não receia o risco e afronta o medo e a incerteza com acção destemida e pronta, sem rodeios, directo ao assunto, com intensidade e em força! Cabe agora à Fundação um lugar de avançado, mas é esta imensa força de equipa que nos carrega neste 'onze' sem limites nem barreiras com todo o Benfica a contribuir, na escala dos grandes, mostrando, com 1 milhão, merecer a paixão de tantos milhões por esse mundo fora. A Fundação é a expressão diária deste Benfica sólido e solidário que é feito de adeptos e das suas contribuições, por isso, quando nós fazemos, quando damos a mão a alguém, somos todos que damos as mãos. Quando acudimos à Vida, somos todos que acudimos!"

Jorge Miranda, in O Benfica

Vírus

"Já é suficientemente claro para todos nós que estamos a experimentar formas de vida e modelos societais que não conhecíamos... 'Foi como se o dia escurecessse a meio', disse o Patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, e ainda hoje continuamos a viver submersos nessa espécie de sombra, sob esse eclipse, no mesmo transe que tão inesperadamente veio suspender as nossas vidas. Perante o magna de comunicação que diariamente nos é disponibilizado em todas as plataformas e sem outros dados objectivos que possamos tomar como fiáveis, não nos resta senão cumprir no que, a cada um de nós, nos é pedido e exigido, no sentido de tentar vencer o 'monstro' tão brevemente quanto for possível e de modo a conseguir reduzir-se, no que pudemos, a dureza dos factos e dos números. Ainda não conseguimos ver o fim do drama que nos aflige. E sem podermos conjecturar uma data firme para que a saúde colectiva volte a estabilizar e a consolidar-se, ainda menos podemos imaginar, sequer, o que no final da terrível pandemia se nos apresentará como resultados estruturais, nas pessoas, nas famílias, na comunidade e na sociedade em geral.
Há duas semanas confinados às nossas casas neste quotidiano congelado, claro que temos saudades do desporto. Saudades do Benfica... Nunca teremos tido, aliás, tantas saudades de tanta gente e de tanta coisa, ao mesmo tempo: a família, um filho distante, um neto, ou uma mãe no hospital... Os outros parentes, os nossos atletas, os companheiros de trabalho...
A nossa empresa, as nossas conversas, um cafezinho com amigos, uma boa discussão sobre futebol, um passeio a pé... Quando será possível retomar o que e como fazíamos, a nosso bel-prazer?
Uma coisa é certa: este tempo suspenso deixa-nos pensar mais. Nós, cada um e todos nós, estamos um pouco diferentes... Enquanto vamos batalhando contra uma peste implacável (neste momento da vaga, com resultados talvez um pouco mais encorajadores...), pelo menos já provámos uns aos outros que, no fim das contas, todos juntos, também poderemos dar cabo do 'vírus no individualismo' que, dantes, tanto nos prejudicava, até nas nossas melhores aventuras colectivas...

Nota final
Deixem-me assinalar, com orgulho, a breve homenagem que, por estes dias, é devida aos Jornalistas e a todos os bravos artífices que, cada um no seu posto - conjuntamente com as equipas exteriores de Tipografia e Distribuição, assim como de composição da versão Digital - estão a honrar a História do nosso Glorioso Clube e, em especial, do nosso Jornal O Benfica. Recebem todos o meu sentido 'Muito Obrigado'!"

José Nuno Martins, in O Benfica

Benfica de Quarentena #17 - Sérgio Ramos

BenficaEmCasa - Formação...

Cadomblé do Vata (agora de olhos fechados!!!)



"Taça de Portugal 96/97 - Meias Finais - 30/04/1997 - Estádio da Luz
SL Benfica 2-0 FC Porto
1. Valdir chegou ao SL Benfica no mercado de Janeiro e já fez história... desde o golo de Carlos Manuel na fina da Taça de Portugal 82/83 disputada nas Antas, que um bigodão do Glorioso não facturava ao FCP.
2. Amaral é um jogador indispensável no Benfica... uma equipa que joga com quarteto defensivo constituído por Marinho, Jorge Soares, Tahar e Pedro Henriques sabe que mais cedo ou mais tarde vai precisar de um coveiro.
3. Ver Silvino com a camisola do FCP é contra natura, mas não concordo com os que o apelidam de Judas... pela forma como não sujou as mãos nos dois golos encarnados, tem mais pinta de Pilatos.
4. Tiago rescindiu com o Marítimo alegando que tinha medo de voar... esteve bem Manuel José em retirá-lo de campo quando o FCP começou a insistir na exploração do jogo aéreo do Jardel.
5. Manuel José fez carreira no Boavista a jogar com 3 centrais, mas no SLB parece estar a abdicar desse dispositivo táctico... não há ideais que resistam a um plantel com Jorge Soares, Tahar e Bermudez como opções para o eixo defensivo."

Mensagem do capitão do basquetebol, Tomás Barroso

"Com o decorrer da história, o ser humano tem repetidamente encarado desafios e provações não só à sua sobrevivência como, acima de tudo, à sua moralidade e solidariedade.
Encontramo-nos, nos dias que correm, a vivenciar um destes desafios. E é-nos pedido que o encaremos. É-nos pedido que, enquanto sociedade, alteremos todos a nossa realidade quotidiana de uma forma nunca experienciada pela maioria de nós.
Eu não fujo à regra: desde o passado dia 12 de Março, o meu dia a dia mudou radicalmente. Estou em casa com indicação para não sair a não ser para o indispensável e a cumprir um plano de treino e de fisioterapia adaptado a esta nova realidade. Tenho feito da sala o meu novo ginásio e centro de recuperação, dos meus livros a minha principal distracção e as compras são sempre feitas online. É, sem dúvida, uma enorme mudança no que é o estilo de vida de um atleta profissional, muito difícil para quem está habituado ao movimento, ao gastar de energias através do desporto e a lutar cara a cara com o adversário. Infelizmente este é bastante diferente…
Por ora o que mais importa é sermos conscientes, e tentar contribuir, seja de que maneira for, para travar o mais rapidamente possível este surto. É sobretudo nesse sentido, e numa altura em que a informação é escassa e a desinformação muita, que temos de manter a calma e a serenidade, confiando plenamente nas entidades de saúde (são eles os nossos verdadeiros heróis).
Assim, apelo para quatro máximas que acho importantíssimas:
1) Evitar ao máximo sair de casa;
2) Não partilhar informação cuja origem não conheço ou que tenha carácter duvidoso;
3) Seguir as directrizes de entidades como a Direcção-Geral de Saúde ou a OMS;
4) Lavar regularmente as mãos com sabão ou com uma solução alcoólica.
Este é um período atribulado nas nossas vidas. Estamos conscientes da nossa vulnerabilidade e sei que muitos vão sentir-se isolados. A incerteza é enorme, não sabendo o que nos espera o futuro próximo. Contudo, e mesmo separados fisicamente, há muito a fazer, há quem precise da nossa força, do nosso apoio e do nosso contributo. Estamos neste momento dependentes uns dos outros e ninguém pode virar a face a esta batalha.
Mostremo-nos optimistas, sejamos prudentes, permaneçamos sempre vigilantes e, acima de tudo, que estejamos cada vez mais unidos e solidários, em espírito.

Tomás Barroso

P.S.1: É falsa e sem qualquer fundamento a notícia, que hoje faz manchete no jornal "A Bola", de que o Benfica avançaria para a contratação do jogador uruguaio Leonardo Fernández. Não existe esse interesse, nem agora, nem para o futuro. Aproveitamos para reafirmar que, nas actuais circunstâncias, toda a atenção e todo o foco da administração da SAD e dos órgãos sociais do Clube estão, única e exclusivamente, centrados neste combate de salvaguarda de vidas humanas, correta implementação das medidas de prevenção e contingência e na execução das diferentes iniciativas de solidariedade que são do conhecimento público. Só isso agora importa!

P.S.2: Hoje celebramos os aniversários das glórias Artur Santos (89 anos) e Vítor Martins (70 anos). Parabéns a estes dois símbolos do Sport Lisboa e Benfica!"

BenficaEmCasa no Feminino...

Carta aberta a Bruno Lage e ao plantel do SL Benfica

"Mister Bruno Lage,
Há já bastante tempo que pretendo falar consigo e esta é a forma que encontrei de o fazer.
Um “bicho” colocou em alerta todo o mundo, inclusive o do futebol, mas mesmo assim julgo ser possível retirar algo positivo de todo o mal que está a acontecer.
Nós não estamos bem. O Sport Lisboa e Benfica não está bem e alguma coisa tem de ser feita. Os tempos são de incerteza, contudo, o plantel tem de estar preparado para aquilo que se avizinha e contamos consigo para trazer de volta o Benfica, como já o fez outrora.
A temporada não podia ter começado melhor. Uma goleada aos nossos rivais na Supertaça foi a entrada que precisávamos para abrir (ainda mais) o nosso apetite, porque nós, adeptos, somos famintos por títulos.
A época prosseguiu e no campeonato tudo corria bem. Na Liga dos Campeões nem tanto, mas a Liga Europa poderia ser um bom corta-sabores. Acabámos eliminados na primeira eliminatória frente a um FK Shakhtar que em nada considero superior ao Benfica!
Em pouco mais de um mês, perdemos toda a margem de manobra que havíamos conquistado para o FC Porto e acabámos relegados para o segundo lugar e isto, mister, é inadmissível.
O campeonato não está, de todo, perdido, no entanto, já esteve bem mais fácil. Perder um jogo é normal, e não foi isso que me assustou, mas sim a reacção à mesma. O Benfica entrou numa espiral negativa e a força anímica da equipa desvaneceu-se. Foi um jogo, foram dois jogos, foi um mês negro, um dos piores de que tenho memória.
Relembro, nada está perdido, mas podia estar tudo muito mais fácil.
Os próximos meses não serão fáceis, ora por causa da pandemia que o mundo atravessa, ora pela falta que o futebol e em especial o Benfica nos faz. Assim, e como depois da tempestade vem a bonança, o Mister fica encarregue de nos voltar a fazer sorrir.
Acredito nas suas capacidades para nos guiar novamente ao topo da tabela classificativa, até porque se já o fez uma vez, porque não duas? O tempo de paragem que vivemos não deve ser de paragem total, mas sim de mudança. A mente de um treinador nunca para, nem pode parar.
Claro está que o plantel tem de fazer a sua parte e estar preparado fisicamente e psicologicamente para quando tiverem de entrar em acção. Quanto a nós, adeptos, estaremos sempre aqui para apoiar o glorioso. Se somos críticos? Sim, claro, mas só porque queremos o melhor de cada um de vocês. 
Peço-vos que joguem como nunca jogaram, que corram como nunca correram e que lutem como nunca lutaram. Peço-vos que coloquem o SL Benfica onde merece, no topo. Caros jogadores, isto não é só o vosso trabalho, é a vida de muito de nós.
Aquilo que vos pedimos é que recuperem aquilo que é nosso, aquilo que todos os benfiquistas mais desejam, o malfadado 38! E se não for pedir muito, conquistem também a Taça de Portugal, por favor."

Um raio de sol na água fria

"Severino Varela tinha um pacto com a honra. O Boina Fantasma dava-se ao luxo de recusar ofertas irrecusáveis

Como de costume, Severino chegou pontualmente à estação de ferries de Montevidéu depois de ter percorrido La Marseillaise a passo estugado. Já a bordo viu um raio de sol saltitar na ondulação irritada do Rio da Prata e convenceu-se por dentro de que o dia seria feliz se pudesse guardar nos olhos aquela luz fugidia.
Severino gostava particularmente daquela travessia. Quase todos os dias ia e vinha de Montevidéu a Buenos Aires, cerca de quatro horas e meia no total, mas desde que aceitara trocar o Peñarol pelo Boca Juniors nunca lhe passou pela cabeça ir morar para a margem sul do rio. Isto passou-se em 1943, já Severino Varela Puente tinha 29 anos. Começara a sua vida de marcador de golos do River Plate de Montevidéu e, agora, dedicava-se a espinafrar o juízo aos defesas do outro River Plate, grande rival do Boca.
Quando desembarcou na Avenida Antártida Argentina, no cruzamento com a Cecilia Grierson, o céu de Buenos Aires estava aberto como um sorriso e nem uma nuvem projectava a mais pequena das sombras. Em seguida entrou no automóvel do seu companheiro Lucho Sosa, que viera buscá-lo, e seguiram ambos à taramela para La Bombonera, no Barrio de la Boca.
Era Setembro. Dia 26. O estádio encheu-se a pouco e pouco para o Boca Juniors-River Plate, aquele jogo que ninguém tem o direito de ignorar. Numa parede ali perto alguém escreveu. «Hasta los muertos aman el Boca». E as bancadas estavam tão repletas de gente que não havia quem duvidasse que até os mortos caminhavam lado a lado com os adeptos que se orgulham do seu lema: ‘La mitad más uno’. Enquanto encaixava meticulosamente a sua boina branca na cabeça, Severino dizia para si próprio: «O mais um sou eu».
Tinha um gosto especial naquela boina. Usava-a para diminuir os efeitos do impacto da bola cada vez que cabeceava. Dava-lhe um aspecto rebelde, libertário. E assustava os adversários quando surgia, de supetão, na grande área contrária para tocar a bola para a baliza em movimentos tão rápidos que davam a sensação de serem invisíveis. No River, os defesas atemorizados chamavam-lhe ‘A Boina Fantasma’.
Até dentro do campo, Severino era um homem livre. os treinadores permitiam-lhe essa liberdade para bem da equipa e ele usava-a sem parcimónia, galgando metros de terreno com a sua passada larga e elegante que terminavam em pontapés letais.
«Ser libre. Ya en su vientre mi madre me decía
’ser libre no se compra ni es dádiva o favor’».
Ao contrário da vontade dos hinchas caseiros, o River Plate marcou cedo. Demasiado cedo, até. Golo de Félix Loustau que, com Juan Carlos Muñoz, José Manuel Moreno, Adolfo Pedernera e Ángel Labruna formou uma linha avançada que ficou para a história com o nome de ‘La Máquina’.
Nunca ninguém sobre porque é que Severino Varela se transformou no maior inferno da existência do River. A verdade é que mal entrava em campo, fervia porrada sobre o rapaz de Montevidéu. Valia tudo para pará-lo. E caçavam-no pelo campo fora a patadas como se fosse uma ratazana.
Nessa tarde, as canelas de Severino ficaram roxas de tanto apanhar. E ele tranquilo, sereno, sem replicar, sem queixas, sem lamentos, tal e qual um fantasma com a sua orgulhosa boina branca. Depois marcou encontro com a bola centrada pelo seu amigo Lucho Sosa à entrada da pequena área do River. Começou a correr mas sentiu uma angústia fina por dentro, Parecia que lhe espetavam no coração a agulha da desarmonia e ele era cumpridor dos seus deveres como poucos. Por isso atirou-se para a frente, voando baixinho, mergulhando como um peixe em águas que conhece de cor e salteado. Chegou precisamente à hora marcada. A bola entregou-se à vontade da boina branca do Fantasma e seguiu para o abraço das redes. Em seguida, Varela simplificou a tarde com um pontapé sem metafísica: 2-1. Era o seu quinto golo em seis jogos face ao River Plate. Tomou banho, penteou-se para trás com um pouco de brilhantina e Sosa foi deixá-lo junto ao porto para que apanhasse o ferry de regresso a Montevidéu.
Um dia, o Boca Juniors fez-lhe uma oferta irrecusável: pôs-lhe na frente um cheque em branco. Ele recusou. Era um homem de rotinas. Gostava do seu trabalho de escriturário e não pretendia demitir-se: «No quiero llevarme la plata que no puedo ganarme». Tinha um pacto inquebrável com a honra. Seis anos mais tarde voltou à Bombonera para ajudar do Boca Juniors que estava à beira de descer de divisão. A Boina Fantasma afastou todos os outros fantasmas. Atravessou o Rio da Prata de volta a casa. Não lava nem mais um tostão no bolso. Havia coisas que não tinham preço."

Crónica de um adiamento anunciado

"Há semanas que se sentia que aquele tsunami viral chegaria à Península Ibérica. Invisível, mas devastador. E assim foi. Primeiro na vizinha Espanha, com a força que se conhece. E depois em Portugal, com o impacto que ainda se desconhece.
Olhando para o mapa do mundo, também era uma questão de tempo até que a pandemia estendesse os seus tentáculos a todos os pontos do globo. Inevitável nesta era da globalização. E assim está a acontecer.
No meio de tanta notícia falsa, de tanto ruído, de tanta especulação, algo foi ficando cada vez mais claro. As consequências para a saúde humana. Gradualmente, mas a uma velocidade que nos esmaga dia após dia, vamo-nos dando conta de que é a vida humana que está em jogo. Se, no início, esta assunção parecia estar confinada à longínqua China, agora pode estar na porta ao lado ou mesmo dentro da nossa casa, no nosso corpo. Jovens ou não, saudáveis ou não, parece não haver critério, apenas probabilidades. E os relatos que nos vão entrando casa dentro revelam uma realidade que a todos afecta. Inclusivamente a atletas Olímpicos, supostamente das pessoas mais saudáveis do planeta.
De todos os organismos, instituições, empresas, celebridades, desportistas, cidadãos anónimos, países mesmo, reacções unânimes: a pandemia tem de ser controlada e está para durar. De todos, menos de um. O Comité Olímpico Internacional - COI. Que dia após dia, parecia manter uma posição intransigente relativamente à exequibilidade de organizar o maior evento desportivo à escala global no meio de todo este caos, igualmente global. Que informações possuiria para ter aquela segurança? Que cenários estariam ao seu dispor?
É certo que o COI sempre baseou esta convicção no parecer de um grupo de trabalho constituído para o efeito, grupo este que tinha na sua composição a Organização Mundial de Saúde. E o próprio Presidente do COI, atleta Olímpico, Thomas Bach, afirmava perentoriamente que a saúde dos atletas estaria sempre em primeiro lugar na hora da decisão. No entanto, o dia a dia, quase cada hora que passava, pareciam contradizer esta desconcertante posição.
Mas foi quando o COI anunciou que iria tomar uma posição sobre o assunto no espaço de um mês que outro tsunami ganhou forma.
Construir uma campanha Olímpica requer uma enorme dose de controlo emocional. Lidar com a pressão de tentar ganhar um lugar ao sol entre os melhores atletas do mundo é tarefa que exige muito de quem se lança em semelhante empreitada. E porque andam sempre no limite, é natural que qualquer evento que os sobrecarregue emocionalmente possa ter efeitos adversos, até para a própria saúde mental dos próprios. E de quem lida directamente com eles.
A situação a que foram sujeitos nas últimas semanas atingiu proporções incomportáveis, cuja gota de água foi precisamente aquele anúncio do COI. A partir desse momento, um pouco por todo o mundo, os atletas, os Comités Olímpicos, as Federações Internacionais fizeram ouvir a sua voz. E a mensagem foi muito clara. Os Jogos Olímpicos - JO - até podiam realizar-se nas datas previstas. Mas os actores principais, os atletas, não estariam lá. E o período de espera de um mês passou para menos de 72 horas.
Não se pense que esta foi uma derrota do COI. Dar um passo atrás foi antes um sinal de humildade perante a dimensão do problema. Mas foi também uma vitória do Movimento Olímpico como um todo. Pela primeira vez na história dos JO contemporâneos, os atletas uniram-se globalmente em torno de um ideal. E qual é esse ideal? A vida humana!
Os JO Tóquio 2020, agora em 2021, ficarão para sempre marcados por esta pandemia. Mas estes em particular, além de celebrarem os Ideais Olímpicos, celebrarão também um momento da história da humanidade, quando esta, para enfrentar uma ameaça global, deu as mãos... depois de as lavar bem!"

Benfiquismo (MCDLXXXIV)

Mais uma... na lama!!!

Benfica de Quarentena #16 - Toni

Benfica de Quarentena #15 - Carlitos

Cadomblé do Vata (final habitual...!!!)



"Campeonato Nacional da Primeira Divisão - 13° Jornada - 18/12/1993 - Estádio da Luz
SL Benfica 2-1 Sporting CP
1. Antes de mais, um sincero abraço para o Cherbakov... um estúpido acidente roubou-lhe a possibilidade de um dia jogar num clube que lute por títulos.
2. Neno enterrou como um rei no 0-1, mas fez uma defesa tremenda nos instantes finais a salvar a vitória... entrou à Nel Monteiro e saiu à Júlio Iglésias.
3. Pela enésima vez, com o SLB à rasca, entrou Isaías e resolveu... no Glorioso há o Plano A, o Plano B e o Plano Harry Truman "eu não queria, mas vocês obrigaram-me".
4. O Sporting deve ser o clube no Mundo com mais campeões mundiais de sub 20 por m2... como se fossem necessárias mais provas do quão difícil é a transição do escalão júnior para sénior.
5. Paulo Sousa e Pacheco foram protagonistas do inédito Verão Quente do SLB... agora são actores principais do habitual Natal Gelado do SCP."

quinta-feira, 26 de março de 2020

Cadomblé do Vata (...a um passo do Tri !!!)



"Taça dos Clubes Campeões Europeus 62/63 - Meias Finais - 2a Mão - 08/05/1963 - Estádio da Luz 
SL Benfica 3-1 Feyenoord Rotterdam
1. Costa Pereira, Coluna e Eusébio de Moçambique e Santana de Angola... não admira que os holandeses tenham andado séculos a tenta roubar-nos as nossas colónias ultramarinas.
2. Primeiro jogo transmitido em directo para a Eurovisão pela Rádio Televisão Portuguesa... o acto de partilhar com o Mundo o futebol do Glorioso é metade generosidade e metade gabarolice.
3. Terceira final da Taça dos Clubes Campeões Europeus em três anos... da memória do grande Real Madrid europeu, só restam os calções brancos do SL Benfica.
4. Os vermelhos de Roterdão vieram jogar ao Estádio da Luz... e como seria de esperar, perderam inapelavelmente contra os encarnados de Lisboa.
5. É um escândalo dizer que Eusébio é o Pelé da Europa... quanto muito, comparando com o Pantera Negra, Pelé é o Nartanga da América do Sul."

Que livros de desporto devo ler nesta Quarentena? Alex Ferguson – A Minha Autobiografia

"A mais completa colecção de memórias de Alexander Chapman Ferguson – Alex Ferguson – A Minha Autobiografia – é o livro lançado em 2014, edição final e completa da vida e carreira do mais titulado treinador de sempre.
Nascido nos subúrbios de Glasgow no último dia de 1941, Alex sempre se definiu orgulhoso das suas origens modestas no distrito de Govan, distrito operário onde fomentou as suas qualidades humanas. A honestidade e a força de carácter, características intrínsecas à sua personalidade e que demonstrou durante toda a sua carreira, foram a base de um talento inesquecível na gestão de egos e na sua capacidade em impor a autoridade nas mais diversas circunstâncias.
A descrição de todas as etapas enquanto homem, atleta amador e profissional e, finalmente, treinador, são-nos explicadas ao pormenor de forma articulada e fluída, na qual todos os detalhes vitais nos são transmitidos com uma precisão histórica infalível.
Desde os tempos de futebolista profissional no Dunfermline AFC e no Rangers FC, onde chegou a internacional escocês, até ao último jogo na liderança do Manchester United FC: o 5-5 frente ao West Bromwich Albion FC é apontado por ele como o resultado que melhor ilustra uma carreira ímpar e um estilo inconfundível, no qual a racionalidade muitas vezes se deixava subjugar pela força das emoções.
«If I needed a result to epitomise what Manchester United were about it came to me in game No. 1500: my last. West Bromwich Albion 5 Manchester United 5. Wonderful. Entertaining. Outrageous. If your were on your way to watch Manchester United you were in for goals and drama. Your hear was in for a test. I could have no complaints about us throwing a 5-2 lead agains West Brom within nine minutes. I still went through the motions of expressing my annoyance but the players could see right throught it. I told them: ‘Thanks boys. Bloody great send-off you’ve given me!» p. 11
Lê-se nas ‘Reflexões’ e é a introdução perfeita para a descrição de uma carreira e de uma personalidade que faz parte da história do jogo, por mérito próprio. Desde os 32 anos, quando começa no East Stirlingshire FC, que a sua faceta disciplinadora foi sentida. Um autêntico sargento. A imagem de pai carinhoso com temperamento instável foi o que possibilitou a transformação de grupos de jogadores em seguidores acérrimos da sua palavra: só assim se justifica a forma como pega no Aberdeen FC e os leva a intrometerem-se entre o poderio dos dois gigantes do costume, levando-os inclusive à glória europeia com a conquista da Taça das Taças.
Em Manchester, revolucionaria um clube, dar-lhe-ia identidade e seria a figura paternal de uma geração inesquecível de jogadores, a Class of ’92, assim chamada pela vitória na FA Youth Cup do mesmo ano: Gary e Phill Neville, Scholes, Giggs e Beckham, a estrela maior e a personalidade mais mediática até à consolidação de Cristiano Ronaldo na primeira equipa.
Ao português, dedica-lhe um capítulo completo – o oitavo de 25 -, o qual começa com a mais pertinente das afirmações: Cristiano Ronaldo was the most gifted player I managed.
A carreira é-nos apresentada em números no final da obra, onde se explica com todas as estatísticas, classificações e trajectórias europeias o percurso do jogador e do treinador Sir Alex Ferguson, pormenor que emprega ao livro o definitivo carimbo de ‘essencial’ na biblioteca de qualquer admirador."

Breve retrato histórico sobre artes marciais e desportos de combate em Portugal

"Se quisermos conhecer um pouco da história do surgimento de algumas artes marciais em Portugal, temos que recuar até ao início do século XX. O primeiro período, que podemos situar entre 1900 e 1945, caracteriza-se, sobretudo, pelo surgimento em território nacional das primeiras práticas orientais de luta, sobretudo japonesas, despertando a curiosidade das classes sociais urbanas e das forças militares e de segurança pelo seu exotismo e vertente de uso social (defesa pessoal).
As primeiras imagens e fotografias de que temos conhecimento sobre as modalidades orientais, sobretudo de jujutsu e de kendo, são reveladas pela revista Illustração Portugueza (n.º 79), de 26 de Agosto de 1907, quando da passagem por Lisboa de dois navios japoneses (Tsukuba e Chilone), sob o comando do almirante Goro Ijuin (1852-1921). Depois de 1907 outras publicações da época (as revistas Tiro e Sport, n.os 370 e 373, de 10 de Janeiro e Fevereiro de 1908; Illustração Portugueza, n.º 139, de 19 de Outubro de 1908; Sports Ilustrados, de 22 de Outubro, 3 e 10 de Dezembro de 1910), apresentam nas suas páginas imagens e referências sobre lutadores japoneses que por Lisboa e Porto foram passando. A Illustração Portugueza (n.º 139), de 19 de Outubro de 1908, por exemplo, dá conta de que o primeiro mestre japonês que lutou jujutsu em Portugal foi Sada Kasu Uyenishi, popularmente conhecido por “Raku” (actua em Barcelona a partir de 01 de Setembro de 1907, através do Circo Ecuestre, no Teatro Tivoli, surpreendendo, igualmente, os espanhóis.
Entre Novembro de 1907 e Julho de 1910, Raku terá visitado cerca de duas dezenas de países europeus, tendo realizado mais de duzentas demonstrações). Em Portugal, o Coliseu, de volta à cena, reabre com uma nova companhia de circo no dia 28 de Setembro de 1907. O lutador japonês Raku deu uma sessão pública de jujutsu, lutando com Diogo Conelli, lutador greco-romano. A sua estreia deu-se no dia 27 de dezembro, tendo lutado também com o brasileiro João Cardoso de Moura, com o inglês Dillon, o japonês Hidesuki Hano e os portugueses Manuel Loureiro Grilo e Rui Cunha. Infelizmente, não temos conhecimento de imagens do acontecimento.
Mas os repórteres da revista Illustração Portugueza (n.º 139) registaram o momento de forma escrita, mostrando um sentido emocional: “Raku entrou na arena do Colyseu e a sua figurita magra, encolhida, os seus óculos, o seu sorriso tímido para aquele público de médicos, de jornalistas, de homens de sport, era como uma desillusão. Aguardava-se uma créatura forte, musculosa, um homem com o ar triumphal de vencedor e d’ahí a surpreza que logo se manifestou n’uns risinhos e n’umas phrases ditas em segredo. Qualquer pessoa se sentia capaz de destruir o pygmeu que se propunha bater-se à face d’uma cidade inteira. Porém, quando elle começou fazendo as suas demonstrações com o seu auxiliar, os risos foram cessando, uma atenção enorme começou a prestar-se ao nipponico, que com a maior tranquillidade do mundo ía vencendo. Por fim, um dos assistentes, rapaz conhecido no sport, quiz experimentar as forças de Raku e saltou para a arena. Dentro de pouco estava por terra, sentia o golpe forte do japonez a estorcegar-lhe o braço e vinha-lhe uma dôr tão violenta que se debatia até que ele o largava com o ar sereno, o mesmo ar grave de sempre. Agora todos rodeavam o sportsman que fazia justiça às qualidades do adversário. N’essa tarde, sob a cúpula do Colyseu, o ju-jutsu começou a consagrar-se para os portuguezes”.
Raku exibe-se durante cinquenta e seis noites e matinées. Era na altura um homem novo (27 anos), de estatura baixa (1,65 m), magro (58 kg) e exibia um bigode preto, pequeno, cujas pontas terminavam na comissura dos lábios, dando-lhe um ar severo. Fazia-se acompanhar por um inglês de nome Nelson, que exercia as funções de seu secretário. Numa entrevista concedida à revista Tiro e Sport, de 10 de Janeiro de 1908, Raku dizia-se natural de Osaka e que o seu pai o tinha obrigado a praticar jujutsu como meio de revigorar a sua debilidade física. Pelas suas naturais aptidões, depressa foi notado pelos seus colegas e foi nomeado instrutor na Escola Militar de Educação Física (“Imperial”) e, posteriormente, na Escola dos Instrutores da Escola de Educação Física da Polícia e na Escola Militar para os Oficiais. O desejo de ser o introdutor do jujutsu no Ocidente levou-o a sair do Japão por volta de 1898 a caminho de Inglaterra, Alemanha, País de Gales, Irlanda, França, Bélgica, Espanha e Portugal. Nas demonstrações que fez com esta prática oriental de combate, acabaria por vencer o campeão dos médios e pesados de luta, Gruhn, do Reino Unido.
O reconhecimento deste método de combate pelos ocidentais, e a procura da “modernização” da formação militar e de segurança, levou-o a ser convidado para ser instrutor de jujutsu em vários locais: Escola Militar de Aldershot, em Shorncliff Camp; Escola Naval Militar; departamentos da polícia inglesa, etc. Considerado um dos maiores “embaixadores” do jujutsu na Europa no início do século XX, Raku era acompanhado nas suas digressões por vários compatriotas. As suas demonstrações enchiam as salas de espectáculo.
O segundo período, que situamos de 1946 a 1974, da implementação e evolução a nível nacional das práticas de luta orientais é marcado pela criação das primeiras organizações dedicadas ao ensino destas práticas desportivo-marciais em território nacional, pelo estabelecimento de residência de mestres oriundos da Ásia (Japão, China, Coreia, etc.), e, consequentemente, pelo surgimento e proliferação de artes marciais até então desconhecidas, pela criação de várias comunidades de praticantes, levando a uma popularização das várias modalidades, e pelo controlo e fiscalização do Estado português (através da Comissão Directiva das Artes Marciais, criada em 1972), procurando impor a disciplina dos praticantes, a sua obediência às leis e à ordem estabelecida, quer dizer, a sua tradicional submissão à autoridade, sob pena de… (ser punido segundo a lei).
Nos anos 1940, dominados pela Segunda Guerra Mundial, o regime totalitário de Salazar adoptava em Portugal uma posição neutra, mas as suas simpatias tinham uma inclinação pró-Nazi. É num contexto em que a censura e a impiedosa repressão às liberdades civis eram uma constante que surge a mais antiga academia do país dedicada ao treino, à prática e ao ensino regular do jujutsu/judo. Surgiu, em maio de 1946, em Lisboa.
O nome escolhido foi “Academia de Judo”. O então ministro do Japão em Portugal, Iotaro Koda, encarregou-se de oferecer os tatamis (tapetes) e os kimonos (vestimenta). Competia a esta Academia promover o espírito tradicional do judo, visando essencialmente a preparação para o combate real; adoptar as técnicas de treino do Kodokan de Tóquio, não relegando as técnicas das escolas congéneres, na medida em que o próprio Kodokan exortava à sua investigação; relegar a selecção dos praticantes por pesos, por ser contrário à vida real (não considerava nem cultivava o judo como prática desportiva). O fundador da Academia foi António Hilmar Schalck Corrêa Pereira (1906-1982). Os dados a que tivemos acesso, evidenciam que o contingente de praticantes cresceu. Dos 17 efectivos de 1956, passa para 89 em 1963. Corrêa Pereira escreve um trabalho de reflexão, intitulado “A Essência do Judo” (1950), veiculando a transmissão dos valores e comportamentos ditados por esta prática oriental. Adoptou o pseudónimo de Minuro. Nesta obra, o autor realça os aspectos fundamentais do judo marcial, aplicáveis, no seu entender, a todos os ramos da actividade humana (estudo, combate, negócios, diplomacia, amor, etc.). Estava convencido de que o judo que preconizava não era para todos. Com o aumento de “clientes”, a Academia tornou-se demasiado exígua. Apesar da renovação total deste centro de prática em 1957, foi preciso arranjar um espaço mais conveniente e com melhores condições para a prática.
Assim, e em plena época salazarista, abriu-se em 1958 o centro de prática de Entrecampos, na rua Visconde de Seabra, n.º 18, que passa a chamar-se Academia de Budo. É nesta academia, e com a vinda de mestres japoneses e de praticantes de diferentes nacionalidades, que vão surgir outras artes marciais, nomeadamente o karaté. À medida que os praticantes vão sendo credenciados, e com as várias cisões individuais (que passaram por questões de competição ou não competição das modalidades; opção de percursos profissionais, entre outras), vão também abrindo outros espaços de treino a nível nacional. Outras dinâmicas (criação de clubes, associações, etc.) foram registadas no Norte de Portugal. A Comissão Directiva de Artes Marciais viria a ser extinta em 1987. As artes marciais passaram para a tutela da então Direcção Geral de Desportos (DGS). Ao serem integradas neste organismo estatal foi-lhes negada essa denominação, englobando-as no domínio da prática desportiva. Convém não esquecer que o próprio Jigoro Kano teve muita relutância em considerar o judo como desporto, e acabou por ser o primeiro representante da Federação Internacional de Judo."

O basquetebol reinventa-se? - Parte 1

"O aparecimento de um surto epidémico que rapidamente se transformou numa pandemia, afecta o quotidiano de todos, colocando igualmente a comunidade do basquetebol português num estado de indefinição. Não temos dúvidas de que o mundo que aí vem será diferente, e o desporto, nomeadamente o basquetebol português, terá de se adaptar e de se organizar de outra forma. É fundamental que a Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB), em parceria com Associações e Clubes, encontre formas de gerir a modalidade demonstrando ser uma organização ágil e proactiva. 
Nesta fase, é natural que muitos se preocupem em encontrar soluções para as provas que estavam a decorrer e que foram suspensas. Antes, já tinha sido cancelada a Festa do Basquetebol Juvenil, prova que assume uma enorme importância no calendário da FPB, desde há muito tempo.
Os dados que temos do basquetebol português dizem-nos o seguinte:
Portugal está, actualmente, no 61.º lugar do ranking mundial da FIBA em homens e está mais perto da cauda da Europa (nº 34 do ranking) do que do seu topo. Isto, depois de ter participado nos Europeus de Espanha e da Lituânia com a sua seleção sénior – o topo da pirâmide, onde desagua e, finalmente, é avaliado (a métrica tão falada nestes tempos…) todo o trabalho de base. No que diz respeito ao ranking das selecções jovens masculinas, não fazemos parte nem do ranking mundial nem do europeu (estaremos colocados depois do nº 27 neste último).
No ranking feminino o panorama é melhor, 47.º do ranking mundial e 27.º lugar do europeu, enquanto nas jovens mulheres o ranking mundial coloca-nos no 27.º lugar no ranking mundial e no 15.º do ranking europeu. No que diz respeito ao Campeonato da Liga Placard, recentemente publiquei alguns estudos que incidiam em diversas áreas da competição.
Na análise feita ao “Estudo sobre o tempo de jogo dos jogadores Portugueses e Estrangeiros das equipas da Liga Placard ao fim da 1ª volta” os dados diziam-nos que os jogadores estrangeiros jogavam 64% dos minutos disponíveis num jogo e os jogadores portugueses 36%. Face à leitura dos dados, foi realizado um novo estudo com o foco nos “Jogadores Seleccionáveis Seniores e SUB 20 - Quanto Tempo jogam e sua Valorização”, por forma a perceber que tempo estes jogadores dispunham, sendo que esse estudo nos dá a seguinte informação: a maioria dos jogadores que compunha a equipa que venceu o Grupo B do Campeonato Europeu de sub20, joga maioritariamente na Proliga e só um jogador tem 15 minutos ou mais minutos de utilização na Liga Placard. Quanto aos atletas seniores, existem somente sete jogadores “portugueses” que jogam 20 minutos ou mais minutos por jogo, o que é um número escasso de atletas. Na Europa temos um jogador português a jogar na LEB Oro, Espanha (equivalente ao 2º nível de competição), e um jogador naturalizado em Itália. Já nos Estados Unidos temos alguns jovens no Campeonato Universitário e na competição das escolas secundárias. Das quatorze equipa que disputam o Campeonato da Liga Placard, só uma é que dá mais de 50% dos minutos disponíveis aos jogadores portugueses, sendo que no outro extremo existe uma equipa onde os jogadores portugueses jogam somente 19% do tempo total de jogo.
Este é o ponto de partida desta reflexão.
Sempre que alguém lançou o debate sobre algum aspecto da modalidade, apresentando algo de diferente ouvia-se, mais vezes do que o desejado, alguém dizer que não era a altura certa, que havia muita coisa em andamento, outras tantas planeadas, etc… Não se podia travar uma bola de neve em movimento!
Mas, agora, pode-se! Este é o momento certo! Atrevam-se! Este é o meu desejo para este período de isolamento social a que estamos votados: uma reflexão profunda. Enquanto observador e estudioso da modalidade em diferentes escalões e em várias perspectivas, debato-me com a fragilidade do basquetebol português da actualidade, não confundindo alguns (bons) exemplos com a média. Tapar o sol com a peneira é um erro crasso.
Não me agrada não poder ver jogadores portugueses a baterem-se com os jogadores estrangeiros de igual para igual. Também não gosto de ver equipas a darem “cabazadas” no campeonato principal do quadro competitivo da FPB, bem como não gosto de ver uma equipa sem nenhuma vitória na tabela classificativa da Liga Placard. Obviamente que um dos pilares como resposta para a crise do basquetebol português está na formação – sem uma forte aposta neste sector não se chegará a lado algum!
Em que ponto da formação, questiona-se. Técnica? Táctica? Físico? Psicológico? Motivacional? Pedagógico? Compromisso? Ensino do jogo? Exigência? Quadros competitivos? Os índices em causa são demasiado vastos para se encontrar um antídoto fácil.
Os problemas são de diversa índole. Cabe à FPB ter a capacidade de se afirmar como uma organização ágil, demonstrando ter flexibilidade e ser proactiva no que diz respeito ao futuro incerto que nos espreita. Os desafios que vai ter pela frente no decorrer da próxima época exige esse tipo de atitude, por forma a ser capaz de lidar com os múltiplos problemas que vai encontrar pela frente. Como diz o provérbio popular “colhe-se o que se semeia”, é tempo de os filhos do basquetebol lançarem boas sementes para que o basquetebol cresça, volte a ter boas colheitas e se torne relevante."

Prevenção e contingência

"O Sport Lisboa e Benfica, sabendo do impacto que a infecção por SARS-CoV-2 (COVID-19) estava a ter noutros países, decidiu espoletar um conjunto de acções mesmo antes de Portugal ter registado o primeiro caso de pessoa infectada. Desde o início que assumimos uma posição proactiva com o intuito de salvaguardar a saúde e o bem-estar dos nossos atletas e colaboradores e de proteger ao máximo toda a nossa actividade desportiva e empresarial.
Tem sido um enorme desafio, não só porque se trata de uma pandemia mundial e com repercussões gravíssimas na saúde e na economia, mas também porque o SL Benfica é composto por áreas de actividade distintas como desporto, televisão, saúde, retalho, comunicação, marketing, museologia, entre outras, e que carecem de respostas diferentes quando confrontadas com esta problemática. 
Importa referir que todo o tipo de acções adoptadas pelo SL Benfica têm em consideração as recomendações amplamente divulgadas pela Direcção-Geral de Saúde (DGS) e outros organismos de saúde internacionais, nomeadamente a Organização Mundial de Saúde (OMS).
Dentro de um conjunto de acções já adoptadas para a prevenção e contenção desta pandemia, destacamos as seguintes:
- Constituição de uma equipa de trabalho composta por elementos da área médica, de recursos humanos e de segurança e outras do SL Benfica, capaz de dar resposta aos desafios inerentes à COVID-19;
- Desenvolvimento de um plano de contingência. Ao abrigo desse plano foram criados diversos processos, bem como áreas de isolamento nas nossas instalações;
- Envolvimento de colaboradores com papel estratégico no combate à COVID-19 numa acção de formação organizada pela LPFP e pela DGS;
- Reforço da higienização das áreas de trabalho, zonas adjacentes e locais de passagem;
- Criação de uma linha interna de apoio aos colaboradores, gerida por técnicos de saúde do SL Benfica;
- Disponibilização da nossa equipa de psicólogos a colaboradores que necessitem dos seus serviços;
- Desenvolvimento de um manual de recomendações (saúde mental, actividade física e nutrição), elaborado pelo nosso departamento médico, para ajudar os colaboradores a enfrentar este período de isolamento preventivo de forma positiva e com o menor impacto possível;
- Combate contra a desinformação junto dos nossos colaboradores, através de e-mails institucionais, newsletter semanal e um site interno criados exclusivamente para divulgar informação relacionada com a COVID-19 e cujas fontes são a DGS, OMS e EstamosOn (site criado pelo Governo);
- Desde o início que nos preparámos para a possibilidade da deslocalização dos nossos serviços – via teletrabalho – pelo que antecipámos todas as necessidades técnicas daí decorrentes, algo que nos permitiu espoletar todo este processo de forma eficiente e eficaz, diminuindo assim qualquer impacto negativo na nossa actividade empresarial. Temos, actualmente, mais de 500 Colaboradores em teletrabalho e vários profissionais a acompanharem os nossos atletas.
Para além destas acções, temos trabalhado um conjunto de outras dinâmicas capazes de manter os colaboradores do SL Benfica motivados, conectados, unidos e acima de tudo informados, salvaguardando a sua protecção e a das suas famílias e a protecção do SL Benfica e respectiva actividade."

Benfica Poscast #359 – Loan List

Benfica de Quarentena #14 - Mozer

Benfica de Quarentena #13 - Vinhedo

Benfiquismo (MCDLXXXIII)

Prontos...

quarta-feira, 25 de março de 2020

Mensagem do lançador da equipa de Atletismo e finalista do curso de Medicina, Fernando Belo

"Adaptar... é o que os seres vivos fazem desde sempre e nós humanos não somos excepção. Para uns é mais fácil, para outros menos. Para nós, atletas, é condição normal da nossa vida, constantemente à procura de melhores adaptações físicas e mentais.
As rotinas mudaram, as dificuldades são agora outras. Temos sempre planos para o que fazer no caso de uma pequena lesão, alteração de treinos ou de competições, mas não para a crise actual. Mesmo assim, temos algo a nosso favor: o Benfica. Da mesma forma que nos ajuda com a sua equipa multidisciplinar, o Clube foi o primeiro a tomar medidas para nos proteger e encontra-se sempre à procura de melhores soluções para os seus atletas.
Mais do que estar longe de quem gostamos, acho que é a impossibilidade de ir que nos dói. Apenas ir, porque podemos. A "forma" física não se mantém. Até se obterem estratégias, a médio prazo, penso que apenas se atrasa, o máximo possível, o decréscimo.
Até a alimentação teve de ser adaptada face à corrida irracional das pessoas aos bens essenciais.
Mas nem tudo são más notícias. Gosto de ser positivo! E sabem que mais? É altura de aproveitar… aproveitar para fazer o que não foi feito até agora. Aqueles exercícios de alongamentos que sempre devemos fazer, mas nunca há tempo: é agora! Aqueles exercícios de estabilidade e coordenação que por vezes ficam para trás por causa daquele exercício mais importante: é agora!
A vida deu-nos tempo para nos tornarmos melhores. Para crescermos e fazermos dos nossos pontos mais fracos os mais fortes. Adaptar. Fazer o que fazemos de melhor, com convicção e confiança.
Os próximos meses serão difíceis. Sim, já está claro para todos! Resta-nos esperar pacientemente pela definição das datas de realização dos Jogos Olímpicos, em Tóquio, para que a preparação possa ser planeada. Necessitaremos da máxima capacidade de adaptação e resiliência.
Existem poucas certezas e torna-se difícil prever o futuro, visto que se trata de um novo vírus. Mas vamos conseguir. Vamos ser maiores e vamos ser melhores.
Muita força e esperança para todos!

Francisco Belo"

Pandemónio

"1. «A anulação dos Jogos Olímpicos destruiria os sonhos de 11 mil desportistas», disse o líder do COI. Vou ser meigo: este tipo é uma besta.
2. Li no outro dia: «Bruno Lage testa dupla Dyego Sousa e Vinícius.» Por Skype, WhatsApp ou Messenger?
3. O Benfica foi o único clube que não quis participar na jornada virtual da Liga. De facto, às vezes o clube parece ter o comando estragado.
4. Nos EUA um inspector de doping no ciclismo foi suspenso por... doping. Lá diz o povo: quem acompanha com coxo, ao terceiro dia coxeia.
5. O presidente da FIFA fala numa oportunidade para reformular o futebol: menos torneios, menos equipas, menos jogos. É o mesmo que passou o Mundial de selecções para 48 equipas e o Mundial de Clubes para 24?
6. «Eles fingem que me pagam e eu finjo que jogo», disse um dia Vampeta sobre os salários em atraso. Pena que isso não resolva o drama dos jogadores. O Aves é mais um triste caso.
7. Oxalá me engane, mas não vejo condições para os campeonatos serem retomados esta época. Para quê forçar e arriscar? O futebol é imortal, nós não.
8. Em Portugal será o pandemónio em tempo de pandemia. Só peço a FC Porto e Benfica que não gastem o papel higiénico todo a decidir quem é campeão.
9. E esqueçam lá essa história de esta crise poder mudar a vida e o futebol. Mudará apenas até haver condições para voltar a ser igual. Ou pior.
10. A quarentena ainda agora começou e Lindelof já anda a vestir a roupa da mulher. Vai acabar num varão... 
11. Rui Gomes da Silva reagiu com ironia à ajuda dada pelo Benfica na luta contra o Covid-19. À medida que aumenta o número de infectados, aumenta também o número de idiotas.
12. Na Nicarágua há luta renhida entre Diriangen, Managua e Real Esteli, no Burundi o Musongati vai lançado e na Bielorrússia o campeão Dínamo Brest tropeçou no arranque. É isto ou corridas de submarinos."