"SC Braga chegou ao intervalo a vencer por 2-0 e o Benfica, depois de 45 minutos de imenso miserabilismo, tentou fazer segunda parte como fizera na Pedreira. Não o conseguiu, porque os guerreiros não deixaram. Triunfo justíssimo e seguro de uma grande equipa frente a uma equipa com demasiados momentos pequenos
Há fotocópias perfeitas e fotocópias imperfeitas. O jogo de Leiria foi uma fotocópia quase perfeita do jogo de Braga, há apenas dez dias. O SC Braga partiu na frente, partiu ainda mais na frente, pois chegou ao intervalo com vantagem por dois golos, ao contrário do encontro na Pedreira. Mas não foi apenas neste importante detalhe que o jogo começou de forma semelhante. O Benfica, para ajudar à história, fez primeira parte de equipa pequenina, sem argumentos para contrariar o adversário e sem capacidade para ter bola e criar perigo. Que é, no fundo, o que se pede a uma equipa grande. Que o Benfica não foi até ao intervalo.
Porém, para a tal cópia ser o mais exata possível, era preciso que o Benfica crescesse na segunda parte e, de algum modo, encostasse o SC Braga às cordas. Ou seja, para junto de Hornicek. O que aconteceu. Mas a conta-gotas e, sejamos justos, sem a potência e a contundência de há apenas dez dias. O que é demérito do Benfica, mas muito mérito do SC Braga.
O SC Braga chega à final com merecimento máximo. Dominou o Benfica em 70 por cento do tempo de jogo e foi dominado, se assim poderemos dizer, em apenas 30 por cento. Frente a um adversário orientado por um dos melhores treinadores mundiais de todos os tempos e com um plantel insuflado por 100 milhões de euros, os bracarenses teriam, em teoria, tarefa hercúlea. Mas transformaram esta titânica missão, não num passeio como o 3-1 final pode, de algum modo, mostrar, mas numa vitória justíssima e histórica.
O primeiro tempo foi, como já escrevemos, brilhante fotocópia do jogo da Pedreira, há apenas dez dias: SC Braga a sufocar o Benfica lá atrás, não criando demasiadas ocasiões de golo, mas partindo sempre com muito perigo para cima da defesa encarnada. Os bracarenses dominaram quase de ponta a ponta a etapa inicial, excluindo o minuto 5, quando Pavlidis e Sudakov andaram perto do golo. Foi, porém, apenas um suspiro.
A seguir, como se não houvesse amanhã, os guerreiros pegaram na bola e passaram a construir sucessivos lances perigosos. Sobretudo, como no jogo da Liga, com Zalazar e Pau Víctor em enorme destaque. O uruguaio começou, aos 19’, por prender Otamendi no lado esquerdo da defesa, esperou pela chegada do espanhol, ofereceu-lhe a bola, Tomás Araújo teve abordagem displicente ao lance e Pau Víctor abriu, de forma fácil, o marcador: 0-1.
O Benfica era, então, uma sombra de si próprio. Não, claro, uma sombra do melhor Benfica desta temporada, mas uma sombra, bem negra, do pior Benfica que já se vira em 2025/2026: cinzento a tender para a negritude absoluta. Por culpa própria, sim, de forma evidente, mas também por culpa de um SC Braga sempre mais esclarecido, mais perigoso, mais talentoso, mais criativo. Enfim, acima de tudo, mais equipa.
O SC Braga chegava ao intervalo a ganhar por dois golos de diferença, melhor ainda do que no jogo de 28 de dezembro, quando chegou ao descanso a vencer pela margem mínima: 2-1. Há pouco mais de um ano que o Benfica não chegava ao intervalo a perder por dois de diferença e pouco mais de um ano que o SC Braga não ganhava ao Benfica, ao intervalo, por dois de diferença. O jogo, claro, foi o mesmo: 4 de janeiro de 2025, Estádio da Luz, jornada 17 da Liga.
Como seria, porém, o pós-intervalo? Em muitos dos últimos jogos com José Mourinho (V. Guimarães, Nacional, Sporting, Moreirense e SC Braga, por exemplo), o Benfica cresceu após o intervalo. Repetir-se-ia a saga ou o SC Braga, muito bem treinado por Carlos Vicens, conseguiria evitar o que aconteceu no jogo de há dez dias?
E assim foi, de facto. José Mourinho tirou Manu Silva, meteu Prestianni e colocou Aursnes ao lado de Ríos. E o Benfica cresceu. Não sem que, antes de criar verdadeiro perigo, tivesse sido Pau Víctor a obrigar Trubin a defesa apertada, logo ao minuto 52. Os encarnados não pareceram incomodar-se com este lance e continuaram a aumentar a agressividade e as aproximações à área bracarense.
Carlos Vicens apercebeu-se do perigo e dos sinais de alarme que iam surgindo perto de Hornicek e decidiu que, aos 58, era tempo de mudar. E não mudou por mudar. Trocou três unidades: Vítor Carvalho, Dorceles e Pau Víctor por Paulo Oliveira, Víctor Gómez e Fran Navarro. Azar para os bracarenses, pois, quatro minutos depois, Paulo Oliveira fez falta na área sobre Pavlidis e João Pinheiro apontou para a marca dos 11 metros. E o grego fez o que já tanta vez conseguiu desde que chegou ao Benfica: golo.
Mourinho não esperou e tirou o cinzentinho Sudakov para meter Sidney Cabral. A ideia era clara e óbvia: agitar, agitar, agitar. E o jogo começou a ficar partido. Fran Navarro falhou, na cara de Trubin, o 3-1. Um pouco mais tarde, vendo o Benfica por cima do jogo, mas sem conseguir criar verdadeiras oportunidades de golo, o treinador do Benfica retirou Aursnes e colocou Ivanovic em campo. Era a vez de Barreiro recuar para perto de Ríos. Mourinho apostava então numa espécie de 4x4x2.
Porém, instantes depois, apareceu o banho de água gelada. Livre lateral sobre a direita, bola a voar a defesa encarnada, desvio inesperado em Tomás Araújo, defesa de Trubin para a frente, aparecendo o sueco Lagerbielke a desviar para o 3-1 final. Era o consumar de duas exibições muito boas dos guerreiros de Carlos Vicens (Braga e Leiria) e agora com a final da Taça da Liga. Ainda bem, para os bracarenses, que António Salvador teve paciência para esperar pelos frutos do trabalho do treinador espanhol."