Últimas indefectivações
domingo, 25 de janeiro de 2026
Um péssimo princípio
"GRUPO DE ADEPTOS RECEBIDO
NO BENFICA CAMPUS
1. O Benfica não pode ter adeptos de primeira e adeptos de segunda. Se amanhã, e depois, e depois novamente, outros grupos de adeptos se dirigirem ao Benfica Campus serão também recebidos pela estrutura do futebol? Não faria esta outra coisa...
2. Não vejo mal que o presidente, ou lá quem ele quiser, possa pontualmente reunir com adeptos. Na forma como vive numa bolha, acho até que seria uma boa medida como forma de ouvir o povo Benfiquista. Mas sempre por sua iniciativa, nunca como resposta a uma "visita" de um grupo de adeptos.
3. Critiquei as explicações dadas por Bruno Lage a um grupo de adeptos no estacionamento do estádio. No estacionamento do estádio ou nos gabinetes do Benfica Campus, estas más práticas têm que ser banidas do clube. Os sócios têm que ser todos tratados por igual.
4. Deixo uma sugestão: o presidente que se disponha a dar uma entrevista coletiva a um grupo representativo de sócios na BTV. Desta forma todos assistiríamos às perguntas dos adeptos e às respostas do responsável maior por tudo o que de bom ou de mau se passa no clube."
Comunicado
"Um grupo de adeptos do Sport Lisboa e Benfica deslocou-se nesta manhã de sábado, 24 de janeiro, de forma espontânea e pacífica, ao Benfica Campus, no Seixal, tendo sido convidado e autorizado a entrar por parte do Diretor-Geral, Mário Branco, o qual promoveu um encontro no qual estiveram igualmente presentes o Diretor Técnico, Simão Sabrosa, o Treinador, José Mourinho, e os Capitães de equipa, Nico Otamendi, António Silva, Fredrik Aursnes e Tomás Araújo.
A conversa, na qual tomaram a palavra os representantes do grupo de adeptos e também Mário Branco, José Mourinho, Simão Sabrosa e Nico Otamendi, decorreu num ambiente de enorme respeito, cordialidade e espírito construtivo, terminando com a garantia de reforço do compromisso de união que, mais do que nunca, deve imperar nesta fase, perante os desafios que se colocam ao SL Benfica até final da época."
Chama a cavalaria
"Como o governo dos Estados Unidos não tinha capacidade de fazer chegar a lei aos mais recônditos pontos do Velho Oeste, nasceu a expressão call in the cavalry (chama a cavalaria), porque só os soldados a cavalo conseguiam resolver problemas em tempo hábil.
Daí, o chama a cavalaria migrou para os filmes de Hollywood, do clássico Heróis de Cordura, com Gary Cooper e Rita Hayworth, de 1959, ao mais recente O Senhor dos Anéis: o Regresso do Rei, com Elijah Wood, Ian McKellen e Liv Tyler, de 2003.
Passou por livros de banda desenhada, como os do herói Lucky Luke, por jogos de computador, como Dead Island 2, ou por músicas, como a da banda californiana The Shys.
E chegou agora ao futebol brasileiro.
O Flamengo, às tantas, sentiu-se no Cariocão de 2026 como uma diligência rodeada por cherokees, e chamou a cavalaria. Até à terceira jornada, o atual campeão sul-americano, brasileiro e carioca, por jogar com os miúdos sub-20 no desacreditado campeonato estadual, somava um mísero ponto e amargava a 12.ª e última posição na tabela.
Com isso, além de se expor à vergonha de descer de divisão, ainda arriscava a encrenca de disputar o quadrangular final contra a descida, que obrigaria a mais seis jogos no já de si apertado calendário do clube.
A direção do Fla — consta que contra a vontade do treinador Filipe Luís e do diretor desportivo José Boto — decidiu então chamar a cavalaria para evitar uma goleada aos pés do adversário seguinte, nada menos que o Vasco da Gama, o maior rival. Convocou, pela primeira vez no ano, o plantel principal, ainda a ganhar fôlego na meia dúzia de treinos de pré-época realizados, e venceu por 1-0, golo do consagrado colombiano Carrascal.
Não foi só o mengão. Hoje, sábado, o Palmeiras, o outro clube brasileiro candidato a ganhar tudo em que participa, vai defrontar o vizinho São Paulo com a cavalaria toda.
Porque, para manter a metáfora, em Novo Horizonte, cidade perdida no velho noroeste do estado de São Paulo, a diligência palmeirense, sob a condução de Abel Ferreira, foi atacada por setas disparadas por todos os lados pelos apaches do Novorizontino e saiu vergada a um 4-0 na casa do clube da Série B.
Com o tricolor, Abel entendeu que a infantaria, leia-se o grupo de talentosos sub-20 do verdão, não bastaria. Veremos se a cavalaria alviverde basta.
Nos estaduais no Brasil reina a desigualdade — mas neste caso quem sofre são os mais ricos. Flamengo ou Palmeiras, por chegarem às finais com mais frequência atrasam a preparação para os estaduais, para os quais os clubes pequenos já trabalham há meses.
A diferença é tão grande que às vezes nem as cavalarias chegam. É preciso chamar a artilharia pesada."
Senegal no melhor e no pior
"É notório o esforço que, ano após ano, a Confederação Africana de Futebol (CAF) protagoniza para melhorar a qualidade das suas organizações, seja a nível estrutural (estádios, vias de comunicação, condições de treino e alojamento), seja no quadro competitivo.
Há poucas semanas, aqui sublinhei a revolução Motsepe, o plano de reconversão que o presidente da entidade gestora do futebol africano quer implementar nos próximos anos, servindo as provas de seleções e os torneios de clubes, a nível continental.
Marrocos é um dos pouquíssimos países que, neste momento, garantem, à partida e sem reservas, condições próximas da excelência para albergar estas provas. Com a África do Sul e o Egito, falamos dos três únicos países africanos que podem suportar as elevadas exigências e o consequente padrão de qualidade pretendido.
Porém, África é um continente muito especial, e é dado praticamente adquirido que, ao país organizador de determinada grande competição internacional, é garantido um estatuto de proteção que pode, até, passar por arbitragens mais suaves ou convenientes, em determinados momentos do torneio em causa.
A CAN-2025, uma Taça de África das Nações com peso e com dimensão global (estima-se que a final de domingo passado tenha sido transmitida para 180 países), roçou o patamar mais alto, do ponto de vista das estruturas apresentadas, com estádios state-of-the-art, que muito prometem para a organização marroquina do Mundial-2030 (em conjunto com Espanha e Portugal), mas teve, na final, um dos mais rocambolescos momentos da história do futebol internacional. Pela minha parte, com milhares de jogos narrados e talvez centenas de finais observadas, ao longo de 40 anos de carreira profissional, não me consigo recordar de uma situação tão absurda e constrangedora para a imagem de uma seleção, como a assumida pela seleção do Senegal, nos últimos minutos da compensação, na segunda parte do desafio com Marrocos, e com o resultado em branco.
Depois de o árbitro congolês Jean-Jacques Ndala Ngambo ter revisto um lance de El Hadji Diouf (jovem lateral-esquerdo do West Ham e do Senegal), por solicitação da equipa VAR, assinalou — bem — grande penalidade para os senegaleses. O marroquino Brahim Díaz sofrera, de facto, falta para penálti.
A confusão estava lançada, e não era uma simples discussão mais ou menos controlada no relvado. Minutos antes, o Senegal havia introduzido a bola na baliza marroquina, mas o juiz apitara bem antes, sinalizando uma falta ofensiva. Portanto, nem se pode falar de golo anulado aos senegaleses, uma vez que o jogo já estava parado.
Porém, essa era a situação de ignição de um momento impensável no futebol profissional: na sequência da sinalização da grande penalidade, o selecionador do Senegal, Pape Thiaw, dá indicação de abandono de relvado (!) à sua equipa. Que, em grande parte, cumpriu e retirou para o balneário.
A imagem de uma final internacional não pode, jamais, ser manchada por uma atitude antidesportiva, lesiva da competição e indigna de um país. Valeu o bom senso de dois Senhores do futebol internacional: o capitão Idrissa Gueye (jogador do Everton) e o incontornável Sadio Mané, figura maior de uma inteira geração de futebolistas do seu país. Esses, ao permanecerem no retângulo, praticamente exigiram aos colegas que voltassem e ao treinador que revertesse a decisão tomada.
Ironia máxima, Brahim Díaz, chamado a tentar converter um lance que, seguramente, daria o título africano a Marrocos, falhou redondamente, entregando a bola ao guarda-redes contrário.
No prolongamento, o que se sabe: um grande golo de Pape Gueye e o Senegal a ser coroado como titular de África, em pleno estádio do adversário.
A situação criada pelo combinado senegalês radica, é verdade, num acumular de decisões arbitrais questionáveis, sempre em favor de Marrocos, tomadas ao longo dos jogos anteriores. Uma onda de contestação, sobretudo de países da África subsaariana, tomou de assalto as redes sociais e criou um ambiente pouco propício a uma grande final internacional, como a de Rabat.
Mas o respeito pelo jogo e pelas respetivas Leis tem de se sobrepor, em quaisquer circunstâncias. E, acima de tudo, o respeito pelos milhões de adeptos de Futebol que aguardaram por um dos jogos mais esperados do ano. A imagem do continente sai beliscada com as atitudes dos leões de Teranga, agora campeões africanos.
As consequências serão duras, quer por parte da CAF, quer pela FIFA, cujo presidente Gianni Infantino estava na tribuna, na capital marroquina, e participou na cerimónia de entrega de prémios.
É essencial que as conclusões dos inquéritos entretanto instaurados reflitam a indignação do planeta Futebol, mas é também muito importante que a CAF continue a pugnar por uma crescente valorização dos espetáculos e dos seus intérpretes. No que diz respeito ao órgão reitor do futebol em África, a arbitragem deverá estar no topo das atenções, com a necessária qualificação e blindagem dos seus agentes.
Mas há, acima disso, uma componente ética que terá de ser trabalhada. A imagem internacional do desporto-rei no continente jamais poderá voltar a ser beliscada pelo impulso do momento, por uma discordância de circunstância, ou pelo capricho de um treinador.
Cartão branco
Excecional semana para a arbitragem portuguesa de futebol no estrangeiro. João Pinheiro no Inter de Milão-Arsenal, da Liga dos Campeões, e Luís Godinho no Fenerbahçe-Aston Villa, da Liga Europa. Com as respetivas equipas, os árbitros de Braga e de Évora rubricaram atuações irrepreensíveis: excelente controlo dos jogos, distanciamento sem autoritarismo, diálogo tranquilo com os capitães, gestão do tempo e dos momentos de cada partida. Jogos de grande mediatização (o de Milão) e de imensa intensidade à chuva (o de Istambul). Pinheiro, Godinho e as suas equipas regressam a Portugal não apenas com a sensação de dever cumprido, mas com a certeza de que assinaram mais duas páginas brilhantes da arbitragem portuguesa na alta roda do futebol internacional.
Cartão branco
Jornalismo com equidistância, equilíbrio e dignidade. São três fatores indispensáveis para que cumpra o seu papel de procurador da opinião pública, na busca de factos, interpretações, opiniões e diversidade. O esforço dos jornalistas da revista Visão para continuarem a sua missão, para dignificarem um título de muito prestígio e responsabilidade na comunicação social portuguesa, e para prosseguirem junto dos leitores, semanalmente (ou, no digital, a qualquer momento), com matérias de interesse público, assinadas por profissionais de qualidade inquestionável, é louvável. O crowdfunding parece ter ultrapassado as expetativas e garantido a aquisição do título, objetivo essencial para que a aventura possa prosseguir mais segura e consistente. O jornalismo sério não vai morrer em Portugal, enquanto publicações e jornalistas se mantiverem de cabeça erguida e corpo ativo, na defesa dos valores essenciais da nossa profissão."
Suspensão da AG da Liga que deliberou sobre mecanismo de solidariedade: breves notas
"A Assembleia Geral da Liga Portugal realizada no passado dia 16 de janeiro de 2026 trouxe novamente para o centro do debate uma matéria estrutural para o futebol profissional português: a distribuição do mecanismo de solidariedade da UEFA.
Da ordem de trabalhos constava a apreciação, discussão e votação da proposta de revalidação da deliberação tomada em Assembleia Geral de 27 de setembro de 2024, relativa à distribuição dessas verbas. A reunião acabaria por ser suspensa por decisão do Presidente da Mesa, com fundamento na necessidade de esclarecimento de questões técnicas e interpretativas.
Importa, contudo, enquadrar juridicamente o tema.
O mecanismo de solidariedade é criado, regulado e financiado pela UEFA. E é a própria UEFA que impõe, para o que aqui importa, dois pressupostos essenciais para que a distribuição possa produzir efeitos: a aprovação tem de ser anual e a proposta tem de recolher uma maioria qualificada de 75 por cento dos clubes da principal liga nacional. Estes não são requisitos facultativos. São condições externas, vinculativas, impostas pela entidade que disponibiliza os fundos.
A Liga Portugal está, por isso, obrigada a conformar os seus processos decisórios a esses pressupostos. Só depois de respeitadas essas exigências têm aplicação as regras estatutárias e regulamentares internas: convocatória, quórum, universo de votantes e forma de contagem dos votos. É nesse segundo plano que se apura se uma proposta é, ou não, validamente aprovada no seio da organização.
E foi exatamente isso que ocorreu no passado dia 16 de janeiro. A Assembleia foi regularmente convocada, tendo comparecido praticamente todos os clubes da I Liga (com exceção do Nacional).
Nos termos do artigo 43.º, n.º 1 dos Estatutos da Liga Portugal, a Assembleia Geral pode funcionar quando estejam presentes a maioria absoluta dos associados com direito de voto, requisito que se encontrava manifestamente preenchido. A Assembleia estava, portanto, regularmente constituída e plenamente habilitada a deliberar.
Não houve maioria qualificada de 75 por cento a favor: e agora?
Ora, os clubes presentes exerceram o seu direito de voto e o resultado foi claro: 12 votos a favor, 4 contra e 1 abstenção. Feitas as contas, não foi alcançada a maioria qualificada de 75 por cento exigida pela UEFA e, como tal, a proposta não foi aprovada.
Este é o dado essencial. A vontade dos clubes exprimiu-se e exprimiu-se de forma válida, sendo que, à luz das regras externas e internas aplicáveis, o processo decisório ficou encerrado com a rejeição da proposta.
Neste contexto, não se vislumbra base normativa que permita suspender a Assembleia Geral, por alegadas dificuldades interpretativas, para, na verdade, «reponderar» um resultado que é juridicamente inequívoco. A intenção é clara: procurar, nos bastidores, criar as condições para que a mesma proposta venha a ser aprovada numa nova Assembleia Geral.
Ora, uma Assembleia Geral não é um fórum de auscultação informal: é um órgão deliberativo. Quando delibera validamente, produz efeitos. E, se assim é, não se pode suspender uma Assembleia, nem neutralizar uma deliberação, apenas porque não se concorda com o seu resultado.
Recorde-se, aliás, que a deliberação sujeita à agora proposta «revalidação», aprovada em 27 de dezembro de 2024, que previa uma distribuição para o triénio 2024-2027, já continha fragilidades relevantes: desde logo, por contrariar a exigência de aprovação anual imposta pela UEFA. E, além disso, por ter contado com a participação de clubes da II Liga numa matéria que, pela própria natureza do mecanismo, respeita exclusivamente aos clubes da I Liga.
Esses vícios explicam que a questão tenha regressado à Assembleia da semana passada. O que não legitimam é que, confrontado com um resultado que não atinge a maioria exigida, se procure contornar o modelo deliberativo que os Estatutos da própria Liga Portugal mandam respeitar.
O respeito pelas regras é particularmente relevante quando estão em causa fundos externos, cuja atribuição depende do cumprimento rigoroso de pressupostos definidos por uma entidade terceira. A autonomia associativa não é um espaço de livre conformação do resultado, mas um espaço de livre formação da vontade dentro das regras.
A aprovação ou rejeição de propostas integra naturalmente a pluralidade de posições que os clubes, de forma legítima, exprimem em sede associativa. Neste caso concreto, a proposta não reuniu os 75 por cento dos votos exigidos e, por isso, não foi aprovada. A partir desse momento, o plano jurídico fica encerrado. Tudo o que ultrapasse este limite pertence ao domínio da opção política e da estratégia desportiva - não ao do direito."
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