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domingo, 18 de janeiro de 2026

De Fafe a Torres Vedras


"Ainda bem que o sorteio desta semana ditou a possibilidade de Associação Desportiva de Fafe ou Sport Clube União Torreense estarem na final da Taça de Portugal.
Bem sei que, para as parangonas dos jornais (sobretudo os da área do desporto) e para o clickbite digital e das redes sociais, seria muito mais atrativa uma reedição de clássico, com Sporting e FC Porto podendo disputar entre si o segundo mais apetecido troféu do futebol português.
Mas, como se viu na recente final da Taça da Liga (com todas as limitações competitivas que, na minha opinião, contribuem para uma clara desvalorização do troféu), podemos ter grandes jogos e fantásticos ambientes sem a presença de qualquer dos três mais emblemáticos conjuntos portugueses.
Por isso, ainda bem que o clássico poderá ter lugar nas meias-finais (ainda por cima a dobrar), tendo a palavra o Aves SAD para evitar que tal suceda.
A Taça de Portugal não é mais nem menos do que uma prova de sonhos concretizados. Ao longo dos anos, equipas de divisões menos cotadas estiveram em foco e, no limite, conseguiram presenças muito interessantes e dignificantes no Estádio Nacional. A história fala de David contra Golias mas, na realidade, o que quer significar é a grande capacidade de abnegação, de luta, de conquista, de crença, de motivação que a competição permite e promove, levando ao limite circunstâncias do jogo que, numa prova de regularidade, dificilmente se manteriam por muito tempo e em jornadas sucessivas.
O trabalho que a AD Fafe e o SCU Torreense assinaram, na atual edição da Taça de Portugal, é absolutamente notável, justamente porque radica nos valores que sublinhei no parágrafo anterior. Atentemos no percurso minhoto: Moreirense, Arouca, Lusitano de Évora (uma das sensações da época passada) e, agora, SC Braga regressam a casa com a porta fechada e — pelo menos na ótica também minhota de Braga — com um dos objetivos da temporada caído por terra.
Em Fafe mora Mário Ferreira, nome que estaremos mais habituados a associar, de imediato, ao audiovisual ou à indústria marítima. Porém, este Mário Ferreira, aos 31 anos, está agora a colher os frutos do que foi plantando com o grupo de trabalho às suas ordens, e com o inefável e indispensável apoio (por ele, de resto, enfatizado e agradecido), de uma generosa massa de adeptos, consegue um percurso notável, que leva a equipa à antecâmara da final do Jamor, e (com a necessária pontinha de sorte) a um duplo confronto com o Torreense. Importa dizer que a AD Fafe milita na Liga 3, a competição em muito boa hora gizada e criada pela Federação Portuguesas de Futebol (com um dedo muito importante do então diretor-geral Luís Sobral), e que, na sua génese, visou dar campo, visibilidade mediática (através das regulares transmissões do Canal 11) e patamar competitivo de entry level no profissionalismo, para atenuar as imensas diferenças financeiras e estruturais encontradas pelos clubes que, provenientes do Campeonato de Portugal, se viam projetados no âmbito das provas da Liga Portugal.
Fafe, cidade e concelho de grande ebulição desportiva, chega às meias-finais da prova rainha com o dedo do treinador Mário Ferreira, mas a base de desenvolvimento de um projeto credível na identidade local, estável na componente financeira e determinado no âmbito desportivo.
Justamente o mesmo que Torres Vedras pretende do seu SCUT. Lembro-me de imensas deslocações ao Estádio Manuel Marques, enquanto jornalista de rádio, e de perceber nos torreenses o desejo de que o seu clube não mais tivesse abandonado o convívio dos maiores.
Pode, porém, um passado histórico servir agora de motivação e de resiliência para a recuperação desejada. Atuando no segundo escalão profissional, a equipa do Oeste mudou recentemente de comando técnico, e as ondas de choque parecem ter gerado combustível e vontade para duas vitórias, uma delas, justamente, nos quartos de final da Taça de Portugal, agora com Luís Tralhão promovido dos sub-23 ao degrau mais alto.
Cruza-se a história de Fafe e de Torres Vedras, cidades muito próximas, também, na tradição do ciclismo e, por isso, vibrantes com as proezas dos seus, qualquer que seja a modalidade. Serão dois jogos inesquecíveis, os das meias-finais da Taça de Portugal entre estes emblemas. E dois, pela última vez, porque o quadro mais lógico, até em face do restante modelo da prova, é que o caminho direto para a final seja disputado apenas a um jogo.
Mas até neste detalhe, ainda bem que estaremos perante a última temporada de meias-finais a duas mãos. Porque nenhuma destas cidades, depois dos percursos brilhantes das respetivas camisolas nesta Taça de Portugal, merecia ficar fora do roteiro. Provavelmente até teremos dois clássicos para apurar o outro finalista, com o natural e habitual impacto causado nos media. O que honestamente espero é equilíbrio, equidistância e equidade na importância, no impacto e nos espaços informativos concedidos aos quatro jogos das meias-finais, para que AD Fafe e SCU Torreense vejam feita justiça absoluta ao seu mérito desportivo e à proeza que constitui o apuramento de ambos para uma tão adiantada fase da competição.
Só assim se promoverá, verdadeiramente, o espírito de Taça que honra o talento, o arrojo, o desassombro. E que, claro, nos motiva a gostar cada vez mais de Futebol.

Cartão branco
Tanto se disse, tanto se escreveu. Os dois principais jornais da área do desporto, em Portugal, puxaram para primeira página, no dia do FC Porto-Benfica, a imagem de Fábio Veríssimo, como se se tratasse de uma consequência óbvia de uma onda de polémica e exacerbação em relação à nomeação do árbitro internacional de Leiria para o clássico dos quartos de final da Taça de Portugal. Fábio (que conheço bem, e que foi meu aluno no Curso de Formação de Dirigentes da Portugal Football School), manteve-se igual a si próprio, impávido, abstraído do ruído circundante, e concentrado. Fez um trabalho notável e, no final do jogo, ninguém falou dele. Depois, André Villas-Boas sublinhou a excelência da arbitragem. Era tão bom que a Team One não preenchesse primeiras páginas, sobretudo antes dos jogos. A brilhante resposta de Fábio Veríssimo e da sua equipa foi dada no relvado do Estádio do Dragão.

Cartão branco
Chama-se Marcos Antunes. É português de Resende, foi o selecionador nacional que levou Angola aos Mundiais de futsal em 2021, na Lituânia, e em 2024, no Uzbequistão. Quando tudo parecia ter pernas para andar com os Palancas da modalidade, a nova direção da Federação Angolana de Futebol decidiu dar outro sentido ao desenvolvimento da modalidade no país. Marcos Antunes aterrou agora em Windhoek, para assumir o cargo de selecionador nacional de futsal da Namíbia. E vai, pela sua dedicação e competência, ser feliz onde verdadeiramente o querem."

DAZN: Bundesliga - R17 - Golos

Gerson no zénite


"Gerson chegou ao Brasil do Zenit e no Brasil chegou ao zénite. Parece confuso mas não é: o internacional brasileiro foi contratado por Pedro Lourenço, milionário dono do Cruzeiro, ao clube de São Petersburgo por 27 milhões de euros e, dessa forma, atingiu o topo, ou seja o zénite, das transferências mais caras da história do país.
No Brasil anda a gastar-se muito — como nunca. O acordo pelo jogador, que visa voltar à lista de intocáveis de Carlo Ancelotti, superou as transferências de Vítor Roque, pelo Palmeiras ao Barcelona, de Samuel Lino, pelo Flamengo ao Atlético Madrid, e de Danilo, pelo Botafogo ao Nottingham Forest, todas no ano passado.
«Trata-se de um jogador de classe incontestável, capaz de elevar o nível de uma equipa que já apresentou bom futebol no ano passado», opinou Alexandre Alliatti, colunista do site GE, nos últimos dias. «Mas na minha opinião a questão é se Gerson, por mais inflacionado que esteja no mercado nacional, vale tudo isso. Na minha opinião, a resposta é não.»
Com efeito, Gerson tem 28 anos, terá 32 no final do contrato, e jogou apenas 12 partidas no último semestre na Rússia, só oito como titular e sendo substituído em sete delas.
Lourenço, o apaixonado investidor cruzeirense, quer a todo o custo tirar o gigante que comanda da sombra de Fla e Verdão e até do rival Atlético Mineiro, que investiu muito há uns anos, inclusive num estádio próprio, mas essa obsessão pode ser contraproducente. Já no ano passado contratou Gabigol e Dudu, não por acaso as maiores estrelas do passado recente de flamenguistas e palmeirenses, e o primeiro já foi cedido ao Santos e o segundo contratado, precisamente, pelo Galo.
Se Leonardo Jardim fez um ótimo trabalho em 2025 — terceiro lugar no Brasileirão — foi muito mais graças a Matheus Pereira, que já lá estava, e a contratações cirúrgicas menos mediáticas, como Fabrício Bruno ou Kaio Jorge.
Mas, enfim, a escalada de reais gastos não pára por aqui e Lucas Paquetá pode estar a caminho do Mengão.
Essa escalada reflete-se no top-10 de reforços mais caros: o quinto e o nono da lista são Pedro e Gabigol, que voltaram ao Brasil via Fla já na era milionária do clube carioca, o sétimo, Thiago Almada, chegou ao Botafogo em 2024 e pode estar de volta ao Palmeiras (com o Benfica atento), e o 10.º, Paulinho, é o único que transitou entre clubes brasileiros, do Atlético para o Verdão, no ano passado.
Ou seja, loucuras antigas só Tévez, em 2004, do Boca Juniors para o Corinthians, e Edmundo, contratado pelo Vasco à Fiorentina por 20 milhões de euros, em 1999, negócio que foi, por anos, o zénite das transferências no país."

Colocar Portugal no mapa do rugby mundial


"Nos últimos dias soube-se que Espanha formalizou a sua candidatura para organizar o Rugby World Cup 2035, um movimento que está a ganhar peso e legitimidade junto das estruturas internacionais. A notícia não é apenas relevante para o rugby espanhol é, acima de tudo, um alerta estratégico para Portugal. Enquanto o nosso rugby vive um momento histórico, com a segunda qualificação consecutiva para um Campeonato do Mundo, a vizinha Espanha tem-se vindo a posicionar para assumir um papel de liderança no panorama internacional. A pergunta impõe-se: poderá Portugal fazer o mesmo?

Espanha acelera e com um plano sólido
A estratégia espanhola para desenvolver o rugby é clara: crescer dentro de campo e fora dele. Além do investimento nas suas seleções, Espanha tem apostado fortemente na organização de grandes eventos. Nos últimos anos conseguiu impor-se como país organizador de provas de relevo, tais como etapas do HSBC World Sevens Series, finais do European Professional Club Rugby (EPCR) e Rugby Europe Championship.
A organização da Rugby World Cup 2035 seria o culminar de um processo que tem vindo a ser trabalhado nos últimos anos, imediatamente após o rugby espanhol ter passado por movimentos difíceis pela eliminação na secretaria da presença dos RCW 2019 e 2023, por culpa própria diga-se. Esta nova abordagem tem efeitos concretos: aumenta a visibilidade da modalidade, impulsiona o número de praticantes, mobiliza investimento público e privado e coloca o país no centro das decisões estratégicas do rugby mundial.
Não é um caso isolado, outros países seguem a mesma estratégia e procuram mostrar-se ao rugby mundial para garantir crescimento. Note-se que a World Rugby anunciou recentemente que vai investir cerca de €250 milhões no desenvolvimento do rugby nos Estados Unidos, numa estratégia que pretende transformar o mercado norte-americano antes da realização do Mundial de 2031.
Face a isso, é legítimo questionar porque Portugal continua a posicionar-se de forma tímida neste contexto global? Na minha opinião, Portugal tem condições reais para seguir este caminho, tendo mesmo condições para se afirmar como um Hub Internacional de Rugby. Portugal e o Rugby português têm vantagens objetivas que já não podem, nem devem ser ignoradas:
— Com temperaturas amenas durante grande parte do ano, Portugal reúne condições ideais para treinos, estágios e competições ao ar livre. A localização, acessível e bem conectada a partir de qualquer ponto da Europa, reforça ainda mais a atratividade.
— O turismo desportivo cresce em Portugal acima da média europeia. A realização de torneios, estágios e grandes competições tem impacto direto na hotelaria, restauração, serviços e mobilidade. O rugby pode tornar-se um dos principais motores deste segmento, com benefícios distribuídos por várias regiões do país.
— Portugal tem estádios, centros de treinos, equipamentos desportivos e uma cadeia logística preparada para eventos internacionais. Não são exclusivos de rugby é um facto, mas podem facilmente ser adaptados.
— A comunidade portuguesa residente em França é uma das maiores diásporas do mundo, com centenas de milhares de pessoas orgulhosamente ligadas às suas raízes. Nos Mundiais de 2007 e 2023, esta comunidade foi um verdadeiro 16.º jogador, enchendo estádios, criando ambiente, gerando impacto mediático e mostrando ao mundo uma paixão nacional difícil de ignorar. Esta força social deve ser vista como parte integrante da estratégia para captar eventos internacionais de rugby. É uma ferramenta de promoção, marketing, influência e identidade que distingue Portugal e que amplia qualquer candidatura.
Se Espanha está a posicionar-se com visão e ambição, Portugal não pode continuar a limitar-se à participação em torneios, deve ambicionar organizá-los. Reforço, a organização regular de grandes eventos internacionais teria efeitos imediatos, no aumento do número de praticantes, na criação de notoriedade e consequente atração de investimento e retorno financeiro e no aumento de prestígio internacional e influência institucional. Receber competições europeias e mundiais fortalece a posição de Portugal junto da World Rugby e da Rugby Europe, abrindo portas a programas de financiamento e parcerias estratégicas.
Mais, a equipa portuguesa dos Lusitanos disputará hoje a meia-final da Rugby Europe Super Cup contra os Brussels Devils, da Bélgica. Independentemente do resultado, que esperamos que seja uma vitória, Portugal jogará nos Países Baixos no próximo fim de semana, uma vez que tanto a final como o jogo de atribuição do 3.º e 4.º lugares serão disputados no evento Rugby Europe Super Cup Finals. Mais uma vez, trata-se de uma oportunidade perdida para o rugby português, que vê um momento decisivo do panorama europeu ser centralizado noutro país, e por um selecção com menor expressão histórica e competitiva que Portugal, mas que aproveitou esta ocasião para se mostrar no cenário internacional.

O que falta a Portugal? Vontade e uma estratégia clara
A evolução do rugby português tem sido extraordinária, fruto de talento, esforço e paixão, mas já não é possível sustentar o crescimento apenas com entusiasmo. É necessária uma estratégia nacional que coloque o rugby no radar das grandes decisões nacionais e internacionais. Portugal pode avançar facilmente com candidaturas para torneios europeus quer seja sub-18, sub-20 ou seniores, provas do Circuito Europeu e Mundial de Sevens, competições europeias de clubes, torneios internacionais de pré-época, estágios de seleções estrangeiras, entre outros. Isto não exige sonhos impossíveis, exige visão, coordenação institucional e ambição.
Espanha está a mover-se com rapidez e inteligência. Os Estados Unidos preparam um investimento histórico. O rugby global está em mudança profunda e os países que ficarem parados serão simplesmente ultrapassados. Portugal tem talento, tem clima, tem segurança, tem turismo, tem infraestruturas, tem paixão e tem, sobretudo, uma Seleção Nacional que mostrou ao mundo que merece estar entre os melhores.
O próximo passo é transformar esse capital desportivo num projeto estratégico para o futuro. Portugal pode e deve tornar-se um destino internacional de rugby. Oportunidades como esta não aparecem muitas vezes. E quando surgem, não podem ser ignoradas.
Por último, segue um grande abraço para o jogo de hoje aos Lusitanos. O sucesso em campo é o início de sucesso para todo do rugby nacional, reforçando a credibilidade e demonstrando que Portugal tem talento e ambição para competir ao mais alto nível."