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terça-feira, 31 de março de 2026
Jogadores a conta-gotas, 880 quilómetros de autocarro, viagens em separado: depois do pesadelo logístico, o Iraque acredita no Mundial
"O conflito no Médio Oriente deixou em dúvida a participação da equipa asiática no play-off de apuramento para o torneio, levando os iraquianos a pedir o adiamento do jogo. A FIFA não acedeu e, tomando caminhos diferentes, os vários elementos da seleção lá conseguiram chegar ao México, onde discutirão com a Bolívia um sonhado bilhete para o próximo verão
Seguir os últimos dias da seleção do Iraque foi, mais do que ver uma equipa de futebol, como acompanhar uma série sobre viagens, quase um desafio sobre as mil e uma maneiras de ir da Europa ou do Médio Oriente até ao México. E, no fim das peripécias, ver os protagonistas reunidos em Guadalupe, prontos para o jogo das suas vidas.
Vamos por partes. O ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, e subsequente retaliação, levou a que as autoridades do Iraque decretassem, a 28 de fevereiro, o fecho do espaço aéreo do país. Ora, isto gerou um problema para a seleção de futebol, que tinha de viajar para o México, onde disputaria o acesso ao primeiro Mundial da história iraquiana desde 1986.
As dificuldades logísticas foram-se ampliando. Sem vistos para entrar nos EUA, a equipa teve de cancelar um período de treinos prévio ao play-off em Houston. Sem embaixada mexicana em Bagdade, as autorizações administrativas também se apresentavam como um desafio.
A FIFA, segundo o “Guardian”, propôs que o Iraque, cuja maioria dos jogadores milita na liga do país, realizasse uma viagem de autocarro de 25 horas, até Istambul, para da Turquia voar para o México. O conjunto asiático rejeitou.
Para cúmulo, o selecionador também foi apanhado nos congestionamentos de trânsito. Graham Arnold, técnico que levou a Austrália aos oitavos de final do Catar 2022, ficou preso no Dubai, onde fora ver Mohanad Ali, estrela da equipa — e ex-Portimonense — que atua no Dibba, nos Emirados.
Perante este cenário, Arnold apelou a que o play-off fosse adiado. Na opinião do australiano, Bolívia e o Suriname deveriam disputar a partida que daria acesso ao embate contra os iraquianos, que ficaria em suspenso até haver mais certezas quanto ao futuro — e, eventualmente, haver uma saída do Irão do Mundial que poderia dar acesso direto ao Iraque. A FIFA rejeitou.
Da Jordânia, da Croácia, de Madrid, de Lisboa
Com vista ao embate no belo estádio do Monterrey, onde do outro lado estará a Bolívia, que eliminou o Suriname, foi, então, necessário seguir diferentes rotas, caminhos diversos, na tal odisseia rumo ao sonho do Mundial.
Jogadores a conta-gotas, 880 quilómetros de autocarro, viagens em separado: depois do pesadelo logístico, o Iraque acredita no Mundial que poderia dar acesso direto ao Iraque. A FIFA rejeitou.
O grosso da comitiva conseguiu uma deslocação terrestre menos distante do que a proposta de Istambul. Quando os bombardeamentos já chegavam a território iraquiano, um autocarro saiu de Bagdade rumo a Amã, a capital da Jordânia, cruzando cerca de 880 quilómetros. De lá voaram, via Lisboa, até ao México, numa viagem de três dias.
A diplomacia também entrou em campo, com as autoridades iraquianas a conseguirem obter vistos nas embaixadas do México em Doha, no Catar, e Riade, na Arábia Saudita.
Não obstante, faltavam ainda elementos em Guadalupe. Assim, os caminhos alternativos foram sendo seguidos através das contas nas redes sociais da Federação do Iraque, empenhadas em mostrar as dificuldades acrescidas da jornada.
O selecionador teve de esperar vários dias no Dubai até obter um voo para Zagreb, na Croácia. Zidane Iqbal, do Utrecht e uma das figuras da equipa, viajou por Madrid para se juntar aos colegas. E assim, a pouco e pouco, o plantel foi-se completando.
O Iraque não vai a um Mundial há 40 anos, quando, no México 1986, somaram derrotas diante Paraguai, Bélgica e os anfitriões. Quando for madrugada de quarta-feira em Lisboa (4h00), o sonho estará à distância de um desafio diante da Bolívia, ausente do grande palco desde 1994. Poucas vezes a exigência da viagem foi tão proporcional à importância do destino a que se pretende chegar."
Liverpool e a beleza de um adeus
"Além de todas as características que os distinguem das outras espécies, a incompatibilidade com despedidas é um requisito para se ser considerado humano. Ninguém consegue ensinar o maldito do coração a lidar com a partida daquilo que durante um tempo considerável o fez feliz. A saudade é filha dessa separação.
Mohamed Salah deixará de ser jogador do Liverpool no final da época. A antecedência do anúncio distribuirá a dor dos mais apegados por cada um dos jogos que ainda tem para realizar ao serviço dos reds. Mais do que isso, cada entrada em campo será uma celebração de um dos melhores de sempre da Premier League.
Salah fez todos acreditarem que os golos vêm de uma árvore que dá fruta o ano inteiro. Ultrapassou sempre os adversários pela direita, a sua via de trânsito preferida, construindo caminhos – a julgar pela velocidade, pareciam autoestradas – para as redondezas da baliza. No seu ritmo, sempre alucinante, o egípcio de 33 anos chegou ao quarto lugar da lista de melhores marcadores de sempre da Liga Inglesa (191). Só o 200 Club, composto por Wayne Rooney (208), Harry Kane (213) e Alan Shearer (260), o supera. Juntando a variável das assistências, nunca alguém na Premier League esteve envolvido em tantos golos (281) por um só clube.
Um jogador histórico numa era histórica. Antes de Salah empolgar Anfield, o Liverpool não ganhava a Premier League há quase 30 anos e a Liga dos Campeões há mais de 10. A saída do extremo dá-se após ter ajudado a renovar o espólio do museu com novos exemplares dessas taças, conquistas que ressuscitaram o ego do clube. Se tivesse que descrever as suas principais qualidades numa entrevista de emprego, o Liverpool desse tempo teria que elogiar o trio Mohamed Salah-Sadio Mané-Roberto Firmino, a vibrante fórmula de ataque desenvolvida por Jürgen Klopp.
O arranque de época do Liverpool acolheu ao engano um período de dez jogos na Premier League em que os reds saíram sem a vitória em oito. Nesse momento, Mohamed Salah amuou com a quantidade de vezes que Arne Slot o deixou no banco, algo que o fez sentir-se “muito dececionado”, tanto que desabafou em frente aos microfones. “Fiz muito por este clube ao longo dos anos. Parece que o clube me atirou para debaixo do autocarro. É assim que me sinto. Alguém queria que eu levasse com a culpa toda.” O anúncio da saída do atacante foi, de parte a parte, feito sem deixar o rancor estragar as nove épocas de ligação que não se sentem representadas por um instante de birra.
Os grandes clubes veem-se na maneira como se despedem das lendas. A elevação do Liverpool no momento da saída de Mohamed Salah dá esperança aos que ficam de também poderem deixar o clube como heróis e essa expectativa une, vincula e motiva. Pode até ser usada para convencer outros a conseguirem grandes feitos com a garantia de que não serão vistos como uns indivíduos quaisquer. Ninguém gosta de despedidas, mas no espectro de formas que estas podem assumir, o Liverpool tem queda para escolher as melhores.
A única maneira de imaginar o último jogo de Salah em Anfield é com um “You’ll Never Walk Alone” dedicado ao seu legado. Pelo menos, é o que os exemplos sugerem. Foi assim com Steven Gerrad, foi assim com Jürgen Klopp e foi assim com Diogo Jota, que não podê esperar para o ouvir a partir do relvado."
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