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sábado, 9 de maio de 2026

O rali voltou à minha aldeia e eu, cá longe, quase larguei uma lagriminha


"A primeira vez que fui ao Rali de Portugal devia ter uns 6 anos, meados dos anos 90. Era uma especial à noite, que descia a serra até à aldeia. A fauna era fabulosa. Havia, por exemplo, o “Cornos Luminosos”, tinha uma espécie de fita à volta da cabeça com umas pequenas lanternas e à conta disso ficou assim a alcunha

Há dois anos, o Rali de Portugal regressou à minha aldeia natal. Foram, pelas minhas contas, bem mais de 20 anos de ausência. Na quinta-feira voltou a passar na Ribeira de Fráguas, olho para a televisão, oiço os relatos que me vão chegando, dizem-me que está tudo muito diferente, moderno e tal. Há “zonas espectáculo”, com música, bandas, comes e bebes. Sinto uma pancada de nostalgia e, cá longe, quase larguei uma lagriminha. Quando eu era miúda, o rali era *o* acontecimento. Nem as festas do S. Tiago rivalizavam. Era o único dia do ano em que a minha mãe permitia que eu faltasse à escola, coisa que lhe custava horrores porque não era aquela educação que ela me dava. Mas eu esperava um ano inteiro por aquele dia.
A primeira vez que fui ao Rali de Portugal devia ter uns 6 anos, meados dos anos 90. Era uma especial à noite, que descia a serra até à aldeia. A fauna era fabulosa. Havia o “Cornos Luminosos”, tinha uma espécie de fita à volta da cabeça com umas pequenas lanternas e à conta disso ficou assim a alcunha. E os dois irmãos velhotes, que se apresentaram no rali de fato de treino, camisa e gravata. A ocasião era solene. Também havia os que se mandavam pelas escarpas abaixo para não serem atropelados. Gente muito destrambelhada. E lembro-me vivamente dos discos dos travões em fogo dos Toyota Celica.
Nos anos seguintes, antes do rali ir fazer piões para outras paragens, o espetáculo passou a ser à tarde e era por isso que eu e sensivelmente 90% das crianças das freguesias ali à volta não compareciamos aos nossos compromissos escolares. O meu pai nunca me levou ao futebol, era mais das quatro rodinhas e por isso ao rali não se falhava. A expetativa rebentava quando começavam a passar os carros com os números 000, depois o 00 e por fim o 0, antes dos artistas do pó meterem pé a fundo. E ficava-se até ao fim, que era quando aparecia a mítica Renault 4L de Pinto dos Santos.
Não havia cá food courts, DJs ou coisa que o valha. Cada um levava a sua bucha e cheguei a ver gente a alombar com mesas de cozinha de madeira pelas encostas acima. Lembro-me do ano em que o meu pai deu cabo do cano de escape do pequeno jipe da minha mãe a tentar chegar ao troço e de muita gente ter pensado, pelo barulho, que o rali tinha começado mais cedo. A minha mãe não ficou contente. Mais pelo cano de escape, também por ver as duas filhas e o marido cobertos de pó quando chegámos a casa.
Também houve um lendário ano em que vários carros se despistaram perto do sítio que tínhamos escolhido para ver a especial e de muita gente tentar levar souvenirs para casa. Era vê-los com faróis debaixo do braço, pedaços de portas, um limpa-pára-brisas já meio torto, ao som de um desesperado piloto (austríaco, creio) que só gritava “DON’T TOUCH THE CAR!”. Não resultou. Um rapaz lá da terra teve as suas duas semanas de fama porque conseguiu vender as imagens dos acidentes para um canal de televisão. Eram os tempos das primeiras camcorders, de cassetes, e não dos telemóveis com internet que tornaram tudo menos raro e de mais fácil partilha.
Sinto que tudo era mais apaixonante nesses anos, mas acabo de ver imagens dos ralis dessa época e não sei mesmo como não houve mais tragédias. Há milhares de pessoas empoleiradas mesmo junto aos troços, algumas efetivamente na estrada. Há tangentes milimétricas a pernas, multidões em curvas perigosas. Uma loucura. Talvez as tais “zonas espetáculo”, por muito anódinas que me pareçam agora, sejam mesmo necessárias."

Colômbia: Carlos Valderrama, El Pibe que recusou 2 milhões de dólares para cortar o cabelo


"Em campo, era impossível perder a carapinha de Carlos Valderrama de vista. Médio de poucos números, mas muita exuberância técnica e estilística, era estrela na seleção da Colômbia que colocou a Argentina a levar olés em pleno Estádio Monumental no apuramento para o Mundial de 1994. No seguinte, deu a última camisola que usou pela seleção cafetera a David Beckham

Carlos Valderrama estava num bar em Santa Marta, na Colômbia. Juntou-se com os amigos do futebol a pontuar a conversa com esse elixir da recuperação pós-treino chamado cerveja. Aproximou-se do boémio coletivo um camião da polícia, farejando grupos criminosos. O veículo estava cheio e as autoridades não tinham onde colocar mais candidatos à fiscalização. Inesperadamente, os jovens tiveram que deixar os copos para trás quando a polícia arranjou espaço para eles.
Na esquadra, os agentes pediram a identificação aos detidos. Quando chegou a sua vez, Valderrama deixou cair o cartão ao tirá-lo do bolso. Ao erguer-se, após o apanhar, a sua cara ficou a conhecer a mão de um polícia. O catraio de 19 anos não se sujeitou à humilhação e retribuiu antes de se pôr a fugir pelo meio de uma praia. O alvoroço terminou com El Pibe atrás das barras.
Esteve preso durante 50 dias e diz-se que a iminência de se tornar no grande craque do clube local, o Unión Magdalena, lhe terá aberto a porta da cela para se alojar na enfermaria. Por estar cansado de o ver à frente e perante a insistência do pai, o juiz libertou o jovem.
Foi lá que a alcunha foi forjada. Nessa equipa, jogava então um argentino. Chamava-se Turco Deibe. Carlos costumava visitar o balneário do Unión Magdalena com o pai, mas, certo dia, o progenitor chegou sem a sua cria de seis anos. O jogador perguntou: “Onde está El Pibe?” A partir daí, a expressão argentina para designar um garoto passou a ser sinónimo de Valderrama.
A impulsividade era pouco verbalizada. Naquela saudosa altura em que os jornalistas entravam pelo campo dentro assim que o jogo terminava, a airosa carapinha loira era de imediato posta à prova com perguntas sobre os frescos acontecimentos. Para despachar o assunto, dizia só “todo bien, todo bien”.
Jogador fácil de ver ao longe devido à exuberância capilar, Valderrama foi médio de muita técnica e poucos números. A geração de ouro da Colômbia chegou a qualificar-se para Mundiais em que era a principal candidata a ganhar. No caminho para o Campeonato do Mundo 1994, os cafeteros golearam a Argentina por 5-0 no Estádio Monumental e assumiram a responsabilidade de lutarem pelo título. “O mais incrível foi ouvir os olés do público argentino a cada toque nosso na bola. Inesquecível. Eles é que começaram a picar-nos”, contou em entrevista ao “Observador”.
Antes da fase final, realizada nos Estados Unidos, uma marca fez-lhe uma alucinante proposta: $2 milhões para cortar o cabelo. Fiel ao penteado assumido quando se rendeu ao efeito provocado por um pente com três dentes, rejeitou o dinheiro. Essa edição do torneio também se fez de infortúnios. A Colômbia não passou da fase de grupos, pois o defesa Andrés Escobar marcou um fatal autogolo. Fatal porque o mataram à porta de uma discoteca em Medellín por causa do erro. O trágico desfecho quase levou à reforma antecipada de Carlos Valderrama, aí jogador do Junior Barranquilla.
Anos antes, em 1987, foi considerado o melhor jogador da Copa América. No ano seguinte, estava a deixar o Deportivo Cali para ir conhecer a Europa. Pelo Montpellier, defrontou o Benfica na Taça UEFA. De França, seguiu para o Valladolid, treinado pelo guru do futebol colombiano Francisco Maturana.
Em Espanha, melhor do que perguntar por Carlos Valderrama é pedir informações sobre o tipo que teve os huevos sentidos por Míchel, craque do Real Madrid que exagerou nas táticas para ganhar espaço num canto. “Me emputé”, recordou o colombiano à revista “Líbero”. “Cada vez que vou a Espanha dizem-me: ‘Valderrama, o Míchel vai apanhar-te.’ É um cumprimento.”
Deixou a seleção colombiana após o Mundial 1998. No último jogo, trocou a camisola com David Beckham, manto que ainda usa de quando em vez. Intransigente, por mais dinheiro que lhe ofereçam, não a vende.
Hoje em dia, o cabelo deixou de ser loiro, mas ainda há Valderrama nas pulseiras e colares cheios de miçangas complementados por brincos com diamantes. Quando é para falar da Colômbia, adversária de Portugal no Mundial 2026, está sempre pronto. Num desses momentos, perguntaram-lhe se comprava bilhetes para ver a seleção. “Não compro boletas. Joguei 20 anos na seleção, vou comprar boleta? Olá!” A gargalhada contaminou toda a gente."