"Em campo, era impossível perder a carapinha de Carlos Valderrama de vista. Médio de poucos números, mas muita exuberância técnica e estilística, era estrela na seleção da Colômbia que colocou a Argentina a levar olés em pleno Estádio Monumental no apuramento para o Mundial de 1994. No seguinte, deu a última camisola que usou pela seleção cafetera a David Beckham
Carlos Valderrama estava num bar em Santa Marta, na Colômbia. Juntou-se com os amigos do futebol a pontuar a conversa com esse elixir da recuperação pós-treino chamado cerveja. Aproximou-se do boémio coletivo um camião da polícia, farejando grupos criminosos. O veículo estava cheio e as autoridades não tinham onde colocar mais candidatos à fiscalização. Inesperadamente, os jovens tiveram que deixar os copos para trás quando a polícia arranjou espaço para eles.
Na esquadra, os agentes pediram a identificação aos detidos. Quando chegou a sua vez, Valderrama deixou cair o cartão ao tirá-lo do bolso. Ao erguer-se, após o apanhar, a sua cara ficou a conhecer a mão de um polícia. O catraio de 19 anos não se sujeitou à humilhação e retribuiu antes de se pôr a fugir pelo meio de uma praia. O alvoroço terminou com El Pibe atrás das barras.
Esteve preso durante 50 dias e diz-se que a iminência de se tornar no grande craque do clube local, o Unión Magdalena, lhe terá aberto a porta da cela para se alojar na enfermaria. Por estar cansado de o ver à frente e perante a insistência do pai, o juiz libertou o jovem.
Foi lá que a alcunha foi forjada. Nessa equipa, jogava então um argentino. Chamava-se Turco Deibe. Carlos costumava visitar o balneário do Unión Magdalena com o pai, mas, certo dia, o progenitor chegou sem a sua cria de seis anos. O jogador perguntou: “Onde está El Pibe?” A partir daí, a expressão argentina para designar um garoto passou a ser sinónimo de Valderrama.
A impulsividade era pouco verbalizada. Naquela saudosa altura em que os jornalistas entravam pelo campo dentro assim que o jogo terminava, a airosa carapinha loira era de imediato posta à prova com perguntas sobre os frescos acontecimentos. Para despachar o assunto, dizia só “todo bien, todo bien”.
Jogador fácil de ver ao longe devido à exuberância capilar, Valderrama foi médio de muita técnica e poucos números. A geração de ouro da Colômbia chegou a qualificar-se para Mundiais em que era a principal candidata a ganhar. No caminho para o Campeonato do Mundo 1994, os cafeteros golearam a Argentina por 5-0 no Estádio Monumental e assumiram a responsabilidade de lutarem pelo título. “O mais incrível foi ouvir os olés do público argentino a cada toque nosso na bola. Inesquecível. Eles é que começaram a picar-nos”, contou em entrevista ao “Observador”.
Antes da fase final, realizada nos Estados Unidos, uma marca fez-lhe uma alucinante proposta: $2 milhões para cortar o cabelo. Fiel ao penteado assumido quando se rendeu ao efeito provocado por um pente com três dentes, rejeitou o dinheiro. Essa edição do torneio também se fez de infortúnios. A Colômbia não passou da fase de grupos, pois o defesa Andrés Escobar marcou um fatal autogolo. Fatal porque o mataram à porta de uma discoteca em Medellín por causa do erro. O trágico desfecho quase levou à reforma antecipada de Carlos Valderrama, aí jogador do Junior Barranquilla.
Anos antes, em 1987, foi considerado o melhor jogador da Copa América. No ano seguinte, estava a deixar o Deportivo Cali para ir conhecer a Europa. Pelo Montpellier, defrontou o Benfica na Taça UEFA. De França, seguiu para o Valladolid, treinado pelo guru do futebol colombiano Francisco Maturana.
Em Espanha, melhor do que perguntar por Carlos Valderrama é pedir informações sobre o tipo que teve os huevos sentidos por Míchel, craque do Real Madrid que exagerou nas táticas para ganhar espaço num canto. “Me emputé”, recordou o colombiano à revista “Líbero”. “Cada vez que vou a Espanha dizem-me: ‘Valderrama, o Míchel vai apanhar-te.’ É um cumprimento.”
Deixou a seleção colombiana após o Mundial 1998. No último jogo, trocou a camisola com David Beckham, manto que ainda usa de quando em vez. Intransigente, por mais dinheiro que lhe ofereçam, não a vende.
Hoje em dia, o cabelo deixou de ser loiro, mas ainda há Valderrama nas pulseiras e colares cheios de miçangas complementados por brincos com diamantes. Quando é para falar da Colômbia, adversária de Portugal no Mundial 2026, está sempre pronto. Num desses momentos, perguntaram-lhe se comprava bilhetes para ver a seleção. “Não compro boletas. Joguei 20 anos na seleção, vou comprar boleta? Olá!” A gargalhada contaminou toda a gente."

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