Últimas indefectivações

domingo, 10 de maio de 2026

Estou farto de gente estúpida


"O 'português da bola' é o cromo típico de uma coleção que tem no comportamento mais básico e quase animalesco um denominador comum sempre que o tema são as arbitragens.

Há uma abissal diferença comportamental entre o latino e o anglo-saxónico, e até entre este e o nórdico. O sul da Europa sempre foi mais acutilante nas discussões, determinado nas reações e, até, radical na expressão das opiniões. Acontece em Itália, na Turquia, na Grécia, em Espanha e, obviamente, em Portugal.
Neste extremo sudoeste da Europa continental, em parceria ibérica, há mesmo uma estranha tradição que prioriza o acessório ao essencial, o fait divers ao nuclear, o espetáculo circundante ao espetáculo consistente e verdadeiramente marcante.
Portugal é, de muito longe, o país da Europa em que mais se fala de árbitros e arbitragens no futebol. Em que rapidamente se esquecem os lances em que avançados falham de baliza aberta, em que médios não cobrem convenientemente, em que defesas não cortam no tempo certo, em que guarda-redes não cumprem os mínimos. E até se desculpam e olvidam rapidamente planos de jogo mal calculados ou substituições tardias e erradas por parte de treinadores e suas equipas multidisciplinares.
Neste particular, abro um parênteses para vos dizer que já lá vai o tempo de um treinador principal, um adjunto e um preparador físico. Admitamos um técnico de guarda-redes. Agora são múltiplas as especialidades, as especificidades, com gente para cada pormenor do treino e com áreas bem definidas de ação, por forma a conceder ao chefe de equipa todos os dados possíveis e imaginários com vista à tomada final de decisão.
Voltemos ao português comum: entre as imperiais e as sandes de couratos, no estádio, ou no remanso do sofá, à média luz e com o televisor a debitar loucos decibéis, fala de tudo e de nada, e, normalmente, escolhe a crítica fácil e básica para atacar os árbitros e as suas decisões. Protesta por tudo, e ainda mais por nada. Conhece de trás para a frente as Leis do Jogo, sabe quantas são, quais são, como se aplicam e quais as exceções de cada uma. E tem uma adenda de palavrões e más educações que não limita ao estádio ou a casa, e transpõe, qual erudito conhecedor, para as redes sociais, elemento diferenciador dos nossos dias, e que, pela globalidade e transversalidade, legitima a verborreia do entendido de sofá.
Há uma condição: a sua equipa perder. Aí abre-se, definitivamente, o livro da sabedoria e jorram os impropérios para os culpados do costume: o árbitro, os assistentes, os VAR, todos juntos ou apenas alguns, o tempo todo do jogo ou apenas em minutos e jogadas definidas.
O português da bola é o cromo típico de uma coleção que tem no comportamento mais básico e quase animalesco um denominador comum.
E uma variável muito curiosa, e de análise antropológica muito interessante: quando não são as equipas ou as seleções a atingirem patamares competitivos de excelência, e são os árbitros a conseguirem-no, é por cunha, por favor ou por compensação de comportamentos anteriores que lá estão. O mérito, essa coisa tão pouco essencial ao sucesso em tantas áreas do país, também nunca estará, evidentemente, em cima da mesa dos comentadores de pacotilha.
Sim, porque a comunicação social também tem amplas e recorrentes responsabilidades neste tipo de comportamento, pela generalização dos programas de opinião em que, invariavelmente, a arbitragem está no olho do furacão, ou pelo espaço dado nas redes a títulos enganadores e usurpadores da realidade, apenas para se conseguir mais um acesso, mais um clique para a estatística da notícia.
Se juntarmos tudo, temos os ingredientes ideais para que, por um lado, o papel dos media esteja subvertido e não seja cabalmente cumprido, e para uma influência nefasta junto do público. O das redes, então, é particularmente valente: uma foto de perfil com florzinhas, uma foto de capa de mural com o pôr do sol, um nome catita (falso, claro, que um pseudónimo é a melhor arma de um cobarde), e aleivosias e idiotices quanto-baste, chegando aos ataques pessoais e de caráter. Tudo, claro, temperado com um português de pacotilha, em que a cada frase correspondem, normalmente, dois erros crassos, de grafia ou de gramática.
Se teve a paciência de me ler desde as primeiras palavras deste texto, decerto conseguiu seguir o meu raciocínio e, na sua mente, imaginar a barriguinha de cerveja ou o cigarrito no canto da boca, os olhos esbugalhados pela perspetiva da valentia anónima de sucesso, e pela quantidade de reações quase imediatas ao ataque mais bem urdido à personalidade e à cidadania plena dos visados.
Se podemos perceber muitos alvos, os árbitros, os que são atletas de alto rendimento, os que tomam cerca de mil decisões em cada noventa minutos, os que são escrutinados ao frame e ao milímetro, os que são acusados de tudo e de tanto, os que são dos melhores da Europa e do Mundo na sua profissão, cada vez mais tecnológica e complexa, os árbitros são mesmo os que mais sofrem.
Visto assim, de longe, Portugal é o pior país para se ser árbitro de futebol, porque há dez milhões de entendidos que nem sequer sabem que, quando a bola vem de um companheiro de equipa e daí não resulta perigo emergente, não há grande penalidade, ou que não se pode dar cartão amarelo a um jogador por uma potencial infração cometida quando houve indicação de uma falta anterior.
Resumindo: estou farto de gente estúpida.

Cartão branco
Excelente presença do Sporting de Braga nas meias-finais da Liga Europa. A inexperiência paga-se caro, e foi justamente isso que sucedeu com Mario Dorgeles, que aprendeu como, no futebol, se passa de herói em Braga a vilão ante o Friburgo. Tivesse ele deixado Beste tentar o golo, e o SC Braga continuaria com onze homens em campo, ainda que eventualmente a perder por 1-0, mas com a eliminatória nivelada. Assim, condenando os minhotos a atuarem praticamente todo o jogo com menos um jogador, a coisa pendeu logo para a casa…
Mesmo assim, Carlos Vicens tem razão para estar orgulhoso: os derradeiros 20 minutos foram a melhor face de um SC Braga cada vez mais perto de um título, de cometimentos que consagrem o emblema como referência do futebol português no estrangeiro, e que continuem a merecer o apoio e a afeição de adeptos únicos, que não largam a equipa por um momento, em qualquer circunstância."

Higuita, o guarda-redes que mudou o futsal


"Há jogadores que defendem jogos. Outros que os decidem. E depois há Higuita, que não só defende e é decisivo, como sobretudo mudou a forma como o jogo é pensado.

Num fim de semana em que o futsal europeu decide o seu campeão de clubes, com o Sporting na final da Liga dos Campeões frente ao Palma Futsal, olhar para Léo Higuita é olhar para uma das maiores transformações de sempre na modalidade. Mais do que um guarda-redes, o brasileiro naturalizado cazaque tornou-se um princípio de jogo.
Durante décadas, o guarda-redes de futsal era visto como o último reduto defensivo. Higuita mudou essa lógica. Transformou a posição num espaço de criação, liderança e influência direta no jogo ofensivo.
Nascido no Rio de Janeiro, como Leonardo de Melo Vieira Leite, encontrou cedo no futsal o palco ideal para uma forma de jogar fora dos padrões tradicionais. O apelido Higuita surgiu pela semelhança com o irreverente guarda-redes colombiano, de futebol, René Higuita. Mas o tempo acabaria por mostrar que o futsal ganharia o seu próprio Higuita com uma identidade própria.
A sua afirmação acontece no Cazaquistão, primeiro no Tulpar e depois no Kairat Almaty. A partir daí, deixa de ser apenas um guarda-redes com participação ofensiva para se tornar uma verdadeira arma tática. A capacidade de jogar fora da área, de criar superioridade numérica e de participar ativamente na construção ofensiva alterou profundamente a forma de entender o jogo. O chamado guarda-redes avançado já existia, mas nunca com esta consistência, coragem e impacto competitivo. Higuita é uma versão 2.0.
Mais do que os golos, muitos deles decisivos, ou as defesas de alto nível, o que distingue Higuita é a influência coletiva. Ele obrigou as equipas a reagir. Obrigou o jogo a evoluir.
As conquistas acompanham essa inovação: múltiplos títulos nacionais, a UEFA Futsal Cup (atual Liga dos Campeões de futsal) e várias distinções individuais, incluindo cinco prémios de melhor guarda-redes do mundo. Pela seleção do Cazaquistão, ajudou a transformar uma equipa emergente numa presença constante entre as melhores da Europa.
Mas o seu verdadeiro legado não está nos troféus. Está na forma como mudou o jogo. Hoje, o futsal moderno já não se entende sem a influência do seu modelo. Os guarda-redes são mais completos, mais técnicos e mais participativos. Muitos cresceram a vê-lo assumir riscos, sair da baliza e decidir jogos com os pés.
Se Ricardinho marcou pela magia e Falcão pela arte, Higuita marcou pela estrutura. Talvez esse seja o maior elogio possível: depois dele, o jogo nunca mais foi o mesmo.
Entre aqueles que melhor o conheceram dentro de campo está Carlos Ortiz, uma das maiores referências da história do futsal mundial. Figura central do Inter Movistar e do Barcelona, onde conquistou quatro Ligas dos Campeões, e antigo capitão da seleção espanhola, com 215 internacionalizações e quatro títulos europeus, Ortiz cruzou-se inúmeras vezes com Higuita ao longo da sua carreira ao mais alto nível do futsal mundial. Sobre o impacto do guarda-redes do Kairat Almaty, não hesita em sublinhar o papel transformador que teve na modalidade: — Foi um verdadeiro pioneiro, juntamente com o Cacau enquanto treinador, na redefinição do papel do guarda-redes. Transformou-o num jogador ativo na construção e na finalização Durante muitos anos, a sua forma de jogar obrigou equipas e treinadores a adaptarem estratégias defensivas especificamente para enfrentar as suas equipas.
Ortiz recorda mesmo uma eliminatória da Liga dos Campeões frente ao Kairat:
— Obrigou-nos a treinar especificamente para o enfrentar. Tivemos que repensar profundamente muitos aspetos defensivos. Tivemos de nos adaptar ao seu estilo de jogo e encontrar novas soluções para o tentar controlar. Preparámos durante três meses uma estratégia de pressão alta pensada especificamente para anular a influência do Higuita no jogo. Curiosamente, sofremos um golo logo na primeira jogada, mas acabámos por vencer o jogo e conquistar o título europeu. A partir desse momento, começámos a utilizar essa abordagem sempre que enfrentávamos guarda-redes com características semelhantes e, mais tarde, acabámos até por adaptá-la à seleção espanhola, porque os resultados eram muito positivos.
Na síntese da sua avaliação, o antigo internacional espanhol deixa ainda uma apreciação clara sobre o legado do guarda-redes: — Uma das lendas do futsal mundial. Um grande guarda-redes que domina aspetos que outros não dominam. Brilhante no jogo com os pés e muito forte entre os postes. Talvez não valorizemos suficientemente o quão bom ele é enquanto guarda-redes por tudo aquilo que acrescenta ao jogo da sua equipa como mais um jogador. A sua forma de jogar obrigou-nos a todos a sermos melhores. Foi um orgulho competir tantas vezes contra ele.
O impacto de Higuita no futsal moderno não se limita às vozes da Europa. Também do outro lado do Atlântico, Marquinhos Xavier, selecionador do Brasil e atual campeão do mundo, destaca o impacto estrutural de Higuita no jogo moderno. Para o técnico brasileiro, enfrentar Higuita exige uma preparação muito específica, tanto no plano tático como mental:
— Enfrentá-lo exige um nível de concentração tática e mental muito elevado. O principal cuidado que a nossa equipa sempre teve era a gestão da ansiedade na marcação. Como ele joga praticamente como um quinto jogador de campo, criando superioridade numérica constante no ataque, a defesa não pode perder a organização nem se precipitar na pressão.
Marquinhos sublinha ainda a importância da leitura de jogo para lidar com a sua influência constante:
— É essencial termos uma leitura muito clara dos momentos: quando pressionar para o forçar ao erro e quando baixar linhas para fechar os espaços de passe e, sobretudo, de finalização, já que ele tem um remate muito potente de média distância. Outro ponto fundamental é a transição defensiva. Qualquer erro ofensivo ou perda de bola pode significar uma aceleração imediata do jogo por parte dele, quer com os pés quer com as mãos. Por isso, o equilíbrio da equipa e a disciplina são fundamentais.
E não tem dúvidas na definição:
— É um guarda-redes revolucionário. Não é apenas um excelente defensor da baliza, com reflexos rápidos e grande envergadura, é também um verdadeiro construtor de jogo. Ele quebrou por completo o paradigma tradicional da posição e obrigou o futsal mundial a adaptar-se a uma nova forma de jogar. A sua principal característica é a coragem aliada à enorme qualidade técnica. Tem uma visão de jogo de um fixo ou de um ala construtor, uma precisão de passe extraordinária e uma confiança inabalável para assumir riscos fora da sua área. Além disso, é um líder nato, que contagia tanto a seleção do Cazaquistão como os seus clubes com uma energia competitiva muito forte. O Higuita não se limita a defender a sua equipa, ele também ataca o adversário. É, sem dúvida, um dos nomes que ficará marcado para sempre na evolução tática do nosso desporto.
Luizinho Cruz, treinador de guarda-redes que trabalhou com Higuita durante cerca de uma década no Kairat e na seleção do Cazaquistão, reforça a mesma ideia. O primeiro contacto, ainda no Brasil, já revelava um perfil fora do comum: confiança, risco e participação ativa no jogo ofensivo. Mas a verdadeira transformação acontece na Europa, onde passa a ser decisivo em equipas de topo:
— Deixa de ser apenas um guarda-redes integrado para se tornar um jogador decisivo. Influencia o ritmo, a posse e a construção. Para o treinador, o segredo está no equilíbrio: — Ele defende e ataca com a mesma intenção competitiva. Com eficácia. Transforma cada intervenção numa vantagem coletiva.
Para o próprio Higuita, o futuro da posição já não é projeção, é realidade:
— O futuro é hoje.
A inclusão do guarda-redes na construção e nas transições tornou-se, segundo o brasileiro, uma exigência do futsal moderno. A participação ativa na criação de superioridade e na progressão ofensiva é já estrutural.
Ao mesmo tempo, reconhece a evolução física da posição:
— O jogo está mais rápido, mais vertical e mais físico. Exige mais velocidade e capacidade de decisão em transição.
Ainda assim, acredita que a evolução será inevitável:
— Dentro de alguns anos, todos os guarda-redes terão de dominar esta função.
No futsal contemporâneo, há quem defenda, quem marque e quem organize. Mas há também quem transforme tudo ao mesmo tempo. Higuita pertence a essa raríssima categoria.
Num jogo cada vez mais rápido, complexo e exigente, não acompanhou apenas a evolução da modalidade: empurrou-a para a frente. E quando um guarda-redes passa a ser também um princípio de jogo, deixa de pertencer apenas à sua posição. Passa a pertencer à história.
Para fechar, e olhando para o palco onde este fim-de-semana se decide mais um campeão europeu, fica também a referência a quem procura escrever a sua própria história: o Sporting CP, liderado por Nuno Dias, chega pela sexta vez consecutiva à final-four da Liga dos Campeões de futsal e já conquistou a prova por duas ocasiões. Num grupo onde se destacam nomes como Zicky, Merlim, João Matos, Tomás Paço e companhia, fica a ambição de voltar a erguer o troféu e trazê-lo novamente para Portugal, num símbolo de continuidade da excelência do futsal nacional ao mais alto nível europeu."

La ética según Mbappé

Estados Unidos: Alexi Lalas, o aspirante a músico tornado comentador populista


"Os longos cabelos e barba ruivas e a personalidade forte, mais do que as qualidades futebolísticas, tornaram o central norte-americano numa espécie de figura de culto após o Mundial 1994, onde fez o primeiros minutos como profissional, aos 24 anos. Antes disso teve uma banda de algum sucesso em Nova Jérsia, numa carreira na música que ainda continua. Mas Lalas é, por estes dias, mais conhecido pelas suas opiniões confrontativas na televisão, onde não recusa a sua afiliação a Trump

Alguns anos antes de surpreendentemente se tornar o primeiro futebolista dos Estados Unidos a jogar na Serie A italiana, então o campeonato mais forte da Europa, Alexi Lalas era, mais que tudo, um aspirante a rockeiro. Na Universidade de Rutgers dividia os estudos de Inglês com o futebol (chegou a ser considerado o melhor jogador universitário a nível nacional em 1991) e pelo meio ainda fundou uma banda, os Gypsies, que se fez grande, pelo menos nos bares e pequenas salas de espetáculo dentro das fronteiras do estado da Nova Jérsia.
Hoje é possível encontrar uma série de discos de Alexi Lalas no Spotify, gravados em nome próprio. O primeiro, de 1996, foge um pouco aos cânones em voga na época: embora esteja presente a imagem que o tornou conhecido, cabelo e barba longos, ruivos, olhar desafiador, há mais rock clássico do que grunge em “Far From Close”.
Mas, é claro, por muito que fosse essa a sua vontade inicial, não foi com a música que Alexi Lalas se tornou conhecido, ainda que o futebol não tenha sido um caminho óbvio. Depois de participar nos Jogos Olímpicos de 1992, um teste no Arsenal traria uma espécie de banho de realidade para o competitivo mas pouco fino central, rapidamente descartado pelo clube de Londres. De regresso a casa, no Michigan, Lalas, filho de um engenheiro e de uma poetisa premiada, Anne Harding Woodworth, viu-se sem música, sem futebol, sem um curso acabado.
Uma chamada de Bora Milutinović, responsável então por arregimentar um grupo de valorosos futebolistas norte-americanos para, dali a ano e meio, em 1994, representarem o país no Mundial por eles organizado, mudou tudo para Lalas. “Quando conheci o Bora era um punk de 22 anos que nunca tinha pensado no seu lugar no mundo”, disse Lalas, em 2015, à revista “FourFourTwo”.
O experientíssimo treinador sérvio conhecia bem as limitações de Lalas, que era lento e não tinha grande técnica, mas não lhe faltava “a personalidade”, como diria Bora ao “LA Times” a dias do arranque desse Campeonato do Mundo que tudo mudou para o soccer, então a viver num vazio entre o fim da NASL, nos anos 80, e uma MLS que ainda não tinha nascido. “É um jovem cheio de vida, gosta de música, de futebol, é muito inteligente. Aprende rápido”, apontou.
Por essa altura, Lalas era uma espécie de empregado a tempo inteiro da federação norte-americana, dedicando-se apenas aos treinos com os compatriotas. Durante o Mundial, mais pela sua figura e atitude do que pelas suas habilidades futebolísticas, tornou-se figura de culto numa equipa dos Estados Unidos bem compacta e que sofria poucos golos. Parecia incrível, mas com 24 anos jogava os primeiros encontros como profissional, e logo num Mundial.

Profissional só na Serie A
Alexi Lalas fez pela primeira vez um jogo enquanto profissional por um clube quando se mudou para o Padova, equipa modesta do fortíssimo campeonato italiano. Ali se manteve duas temporadas antes de virar uma das figuras de proa do arranque da MLS, jogando primeiro pelos New England Revolution e depois pelos MetroStars, Kansas City Wizards e, por fim, Los Angeles Galaxy, com uma passagem pelos equatorianos do Emelec pelo meio.
Depois de deixar o futebol foi general manager de um par de equipas da MLS, com destaque para o período passado nos Galaxy, em que levou David Beckham para Los Angeles. Começou aí também a sua aventura pelo comentariado desportivo, que nos traz até à atualidade. E a como Alexi Lalas, outrora herói do renascimento do soccer se transformou numa das figuras mais polarizadoras dos Estados Unidos.
Depois de emprestar os seus conhecimentos à ESPN, em 2014 Lalas chegou à “Fox“ , explicando de maneira bem ilustrativa o porquê da mudança: “They Godfathered me.” Ou seja, fizeram-lhe uma proposta que ele não podia recusar. Tornar o Padrinho num verbo não seria, no entanto, o maior malabarismo que o antigo central faria com as palavras ou até com as verdades. Nos últimos anos, Lalas tornou-se megafone de algumas das ideias mais absurdas da direita populista norte-americana, num estilo que o próprio assume ser uma construção: mais do que a verdade, Lalas procura o confronto, a divisão como forma de gerar atenção.
Quando a seleção nacional feminina dos Estados Unidos caiu cedo no Mundial de 2023, nos oitavos de final, Lalas acusou a equipa de ser “polarizadora” e de desagradar a uma parte do país à conta do seu posicionamento político, “causas, posições e comportamento”. E que, não ganhando, corria o risco de se tornar “irrelevante”. Terá faltado o essencial olhar para o espelho antes de falar, que também não lhe ocorreu quando sublinhou num dos seus comentários que “o melting pot” é uma “falácia”, argumentando que a diversidade norte-americana não tem sido fantástica para a seleção.
Logo ele, comentador de futebol, que terá seguramente reparado nos sucessos de seleções como França, Alemanha e até a Espanha, logo ele, nascido Panayotis Alexander Lalas, filho de pai grego e que passou parte da infância em Atenas.
Tudo isto terá sido bom currículo para ser convidado para participar na versão norte-americana do concurso A Máscara e também para fazer parte da task force formada pela Casa Branca para acompanhar assuntos do Mundial 2026, onde os Estados Unidos vão comparecer com uma equipa onde não faltarão jogadores das mais variadas origens que construíram o país."