"O 'português da bola' é o cromo típico de uma coleção que tem no comportamento mais básico e quase animalesco um denominador comum sempre que o tema são as arbitragens.
Há uma abissal diferença comportamental entre o latino e o anglo-saxónico, e até entre este e o nórdico. O sul da Europa sempre foi mais acutilante nas discussões, determinado nas reações e, até, radical na expressão das opiniões. Acontece em Itália, na Turquia, na Grécia, em Espanha e, obviamente, em Portugal.
Neste extremo sudoeste da Europa continental, em parceria ibérica, há mesmo uma estranha tradição que prioriza o acessório ao essencial, o fait divers ao nuclear, o espetáculo circundante ao espetáculo consistente e verdadeiramente marcante.
Portugal é, de muito longe, o país da Europa em que mais se fala de árbitros e arbitragens no futebol. Em que rapidamente se esquecem os lances em que avançados falham de baliza aberta, em que médios não cobrem convenientemente, em que defesas não cortam no tempo certo, em que guarda-redes não cumprem os mínimos. E até se desculpam e olvidam rapidamente planos de jogo mal calculados ou substituições tardias e erradas por parte de treinadores e suas equipas multidisciplinares.
Neste particular, abro um parênteses para vos dizer que já lá vai o tempo de um treinador principal, um adjunto e um preparador físico. Admitamos um técnico de guarda-redes. Agora são múltiplas as especialidades, as especificidades, com gente para cada pormenor do treino e com áreas bem definidas de ação, por forma a conceder ao chefe de equipa todos os dados possíveis e imaginários com vista à tomada final de decisão.
Voltemos ao português comum: entre as imperiais e as sandes de couratos, no estádio, ou no remanso do sofá, à média luz e com o televisor a debitar loucos decibéis, fala de tudo e de nada, e, normalmente, escolhe a crítica fácil e básica para atacar os árbitros e as suas decisões. Protesta por tudo, e ainda mais por nada. Conhece de trás para a frente as Leis do Jogo, sabe quantas são, quais são, como se aplicam e quais as exceções de cada uma. E tem uma adenda de palavrões e más educações que não limita ao estádio ou a casa, e transpõe, qual erudito conhecedor, para as redes sociais, elemento diferenciador dos nossos dias, e que, pela globalidade e transversalidade, legitima a verborreia do entendido de sofá.
Há uma condição: a sua equipa perder. Aí abre-se, definitivamente, o livro da sabedoria e jorram os impropérios para os culpados do costume: o árbitro, os assistentes, os VAR, todos juntos ou apenas alguns, o tempo todo do jogo ou apenas em minutos e jogadas definidas.
O português da bola é o cromo típico de uma coleção que tem no comportamento mais básico e quase animalesco um denominador comum.
E uma variável muito curiosa, e de análise antropológica muito interessante: quando não são as equipas ou as seleções a atingirem patamares competitivos de excelência, e são os árbitros a conseguirem-no, é por cunha, por favor ou por compensação de comportamentos anteriores que lá estão. O mérito, essa coisa tão pouco essencial ao sucesso em tantas áreas do país, também nunca estará, evidentemente, em cima da mesa dos comentadores de pacotilha.
Sim, porque a comunicação social também tem amplas e recorrentes responsabilidades neste tipo de comportamento, pela generalização dos programas de opinião em que, invariavelmente, a arbitragem está no olho do furacão, ou pelo espaço dado nas redes a títulos enganadores e usurpadores da realidade, apenas para se conseguir mais um acesso, mais um clique para a estatística da notícia.
Se juntarmos tudo, temos os ingredientes ideais para que, por um lado, o papel dos media esteja subvertido e não seja cabalmente cumprido, e para uma influência nefasta junto do público. O das redes, então, é particularmente valente: uma foto de perfil com florzinhas, uma foto de capa de mural com o pôr do sol, um nome catita (falso, claro, que um pseudónimo é a melhor arma de um cobarde), e aleivosias e idiotices quanto-baste, chegando aos ataques pessoais e de caráter. Tudo, claro, temperado com um português de pacotilha, em que a cada frase correspondem, normalmente, dois erros crassos, de grafia ou de gramática.
Se teve a paciência de me ler desde as primeiras palavras deste texto, decerto conseguiu seguir o meu raciocínio e, na sua mente, imaginar a barriguinha de cerveja ou o cigarrito no canto da boca, os olhos esbugalhados pela perspetiva da valentia anónima de sucesso, e pela quantidade de reações quase imediatas ao ataque mais bem urdido à personalidade e à cidadania plena dos visados.
Se podemos perceber muitos alvos, os árbitros, os que são atletas de alto rendimento, os que tomam cerca de mil decisões em cada noventa minutos, os que são escrutinados ao frame e ao milímetro, os que são acusados de tudo e de tanto, os que são dos melhores da Europa e do Mundo na sua profissão, cada vez mais tecnológica e complexa, os árbitros são mesmo os que mais sofrem.
Visto assim, de longe, Portugal é o pior país para se ser árbitro de futebol, porque há dez milhões de entendidos que nem sequer sabem que, quando a bola vem de um companheiro de equipa e daí não resulta perigo emergente, não há grande penalidade, ou que não se pode dar cartão amarelo a um jogador por uma potencial infração cometida quando houve indicação de uma falta anterior.
Resumindo: estou farto de gente estúpida.
Cartão branco
Excelente presença do Sporting de Braga nas meias-finais da Liga Europa. A inexperiência paga-se caro, e foi justamente isso que sucedeu com Mario Dorgeles, que aprendeu como, no futebol, se passa de herói em Braga a vilão ante o Friburgo.
Tivesse ele deixado Beste tentar o golo, e o SC Braga continuaria com onze homens em campo, ainda que eventualmente a perder por 1-0, mas com a eliminatória nivelada. Assim, condenando os minhotos a atuarem praticamente todo o jogo com menos um jogador, a coisa pendeu logo para a casa…
Mesmo assim, Carlos Vicens tem razão para estar orgulhoso: os derradeiros 20 minutos foram a melhor face de um SC Braga cada vez mais perto de um título, de cometimentos que consagrem o emblema como referência do futebol português no estrangeiro, e que continuem a merecer o apoio e a afeição de adeptos únicos, que não largam a equipa por um momento, em qualquer circunstância."


