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domingo, 26 de abril de 2026

Mundial de 2030 e o legado que Portugal não pode desperdiçar


"Em 2030, Portugal co-organiza pela primeira vez na história um Campeonato do Mundo de Futebol a dois continentes em simultâneo, ao lado de Espanha e Marrocos. Um momento singular, irrepetível na geração dos actuais decisores públicos. Mas a verdadeira questão não é o que vai acontecer durante o torneio. A questão que se impõe é: o que vai ficar?

Muito além do futebol
Johan Cruyff disse: «Je gaat het pas zien als je het doorhebt», só conseguimos ver quando compreendemos verdadeiramente o que está a acontecer. E o que está a acontecer é que Portugal tem nas mãos uma janela histórica de legitimação e aceleração de investimento estrutural de que o país precisa há décadas.
Os grandes eventos desportivos não são apenas espectáculo. São plataformas globais de reputação, catalisadores de investimento e, quando bem aproveitados, instrumentos de transformação urbana e económica com impacto que dura gerações. A imagem que fica depois do evento é o activo mais valioso que um país pode construir.

O que Espanha compreendeu e Portugal ainda não
O contraste com o nosso parceiro ibérico é revelador. Em Espanha, o Mundial de 2030 desencadeou um ciclo de investimento sem precedentes no desporto profissional: o Barcelona comprometeu 1.450 milhões de euros no Espai Barça, o Real Madrid 1.347 milhões na renovação do Estádio Santiago Bernabéu, o Atlético de Madrid 310 milhões no Metropolitano.
Mais de metade dos clubes profissionais espanhóis estão envolvidos em processos de modernização ou construção de novos recintos. O investimento total no parque de estádios espanhóis ultrapassa facilmente os 3.000 a 4.000 milhões de euros.
Isto não foi feito como exercício de vaidade, foi uma decisão estratégica. Um estádio que abre apenas a cada quinze dias é um activo subutilizado. O negócio do futebol moderno exige recintos que funcionem 365 dias por ano: como espaços de lazer, cultura, restauração e comunidade. O estádio tornou-se uma das poucas alavancas reais de geração de receita que é independente dos resultados desportivos.
Esta tendência não se limita à Europa. Nos Estados Unidos, o projecto dos Chicago Bears para Arlington Heights representa uma mudança de paradigma no conceito de recinto desportivo americano. Com cerca de 132 hectares de área total, o plano prevê um estádio de cobertura fixa rodeado por um campus de uso misto com espaços verdes, zonas residenciais, hotelaria, retalho e áreas de lazer que funcionam todos os dias do ano e não apenas nos dias de jogo.
Uma ruptura deliberada com o modelo tradicional norte-americano do estádio isolado no centro de um mar de estacionamentos, inacessível e sem vida fora do calendário desportivo. O objectivo declarado é acolher cerca de 370 eventos anuais, de concertos a jogos universitários, de eventos comunitários a partidas de futebol internacional. É exactamente este o paradigma que Portugal precisa de adoptar. 
Em Portugal, o guião repete-se com previsível regularidade: ausência de planeamento estratégico, disputas mediáticas entre dirigentes, reuniões formais com a tutela sem capacidade real de decisão, e egos que inviabilizam qualquer agenda comum. Podemos continuar assim, ou podemos decidir fazer diferente.

A região de Lisboa: transformação em curso que não podemos ignorar
A região de Lisboa vai passar, nos próximos anos, por uma das maiores transformações estruturais da sua história recente. O Novo Aeroporto de Lisboa (NAL), a Terceira Travessia do Tejo (TTT), o Túnel da Trafaria (TT) e a futura reconversão do Aeroporto Humberto Delgado (AHD) não são apenas siglas nos rodapés dos jornais, são peças de uma reorganização territorial que vai redesenhar os fluxos de mobilidade, as zonas de valorização urbana e as oportunidades de desenvolvimento desportivo e económico das próximas décadas.
O problema que se coloca não é a ausência de projectos mas, em vez disso, a ausência de visão integrada. O problema assenta no facto de cada peça estar a ser pensada em separado, por entidades diferentes, em timings diferentes.
O Mundial de 2030 é a oportunidade, talvez a última com esta dimensão de pressão e legitimidade pública, para criar uma arquitectura de planeamento que una estas peças numa narrativa coerente de futuro para Lisboa e para Portugal.

A proposta concreta: Reimaginar a Região de Lisboa
A iniciativa Reimagina a Região de Lisboa parte de uma convicção simples: os desafios da região não respeitam fronteiras municipais, e as soluções também não podem fazê-lo. É preciso planear à escala metropolitana, com antecipação, envolvendo as comunidades, os investidores privados e os decisores públicos numa lógica de parceria real, não apenas de protocolo formal.
O que esta abordagem defende:
— Planeamento com horizonte temporal: aproveitar o prazo do Mundial para criar compromissos vinculativos de desenvolvimento urbano e desportivo;
— Reabilitações de excelência nos recintos desportivos existentes, transformando-os em activos económicos permanentes, não apenas em palcos ocasionais;
— Criação de um novo ecossistema que ligue infraestrutura desportiva, mobilidade, turismo e desenvolvimento económico local (afinal de contas representam áreas grandes das zonas metropolitanas);
— Envolvimento das comunidades como parte do processo, não como destinatários passivos das decisões;
— Transparência e sustentabilidade como condições não negociáveis de credibilidade internacional.

A janela fecha-se em 2030. O planeamento tem de começar agora
Há algo que os grandes eventos ensinam de forma inequívoca: os países que deles beneficiam a longo prazo não são os que melhor organizam o torneio, são aqueles que melhor se prepararam antes do torneio. Aqueles que não improvisam o legado, e que em vez disso o constroem com visão, com método e com a coragem de colocar o interesse colectivo acima das agendas individuais.
Portugal tem a matéria-prima: talento, território, criatividade e uma marca país que nunca esteve tão forte no mundo. O que nos falta é activar um planeamento à altura desta oportunidade. E esse trabalho começa hoje."

O brilho de Carlos, Alexandre e Miguel


"Muitas vezes, nas mais diversas áreas, é no estrangeiro que profissionais portugueses vêem reconhecidas as suas capacidades e retribuídas com majoração as suas funções. Ou porque os níveis salariais são efetivamente mais elevados (o que não é difícil suceder, tão baixo é, e tantas vezes, o pagamento em Portugal…), ou porque apenas conseguem verdadeiramente exponenciar os seus skills, as suas vocações, quando as exercitam fora de portas, fazendo de outras paragens a sua casa e de empresas internacionais o seu mundo.
Isso, evidentemente, confere-lhes uma visão alargada, urbi et orbi, necessariamente distinta e muito mais ampla em comparação com a concorrência nacional. Mas aumenta-lhes, quase em direta proporção, o síndrome de inveja, tão típico e tão amplo num país geograficamente tão pequeno, e que tantas vezes não tem mesmo noção dos seus limites físicos e das suas limitações estruturais.
No treino desportivo e, em particular, no do futebol, Portugal dá cartas no talento e na belíssima imagem além-fronteiras que foi construindo ao longo dos anos, alicerçada em competência, mérito, ciência e capacidade inolvidável de adaptação a novas tendências e novas exigências.
Trago-vos hoje três nomes que bem ajudam a dar forma ao que escrevi, e que, cada um a seu modo, muito têm honrado a sua profissão e o país que representam, embora um deles tenha nascido em Moçambique, e também transporte, sempre, a Princesa do Índico na sua fantástica bagagem. Carlos Queiroz (é dele que falo), é um dos principais responsáveis pela revolução no treino de futebol em Portugal, e pela exportação de um talento único e indiscutível, o do treinador-professor, baseado numa componente de conhecimento científico adaptado à modalidade, e num padrão de evolução permanente que não o deixou, em quatro décadas de carreira.
Conheci o Carlos em 1988, já ele assumia as funções de selecionador nacional nas camadas jovens, ao serviço da Federação Portuguesa de Futebol, na final do Europeu de sub-18, na Checoslováquia (que Portugal viria a perder, por 3-1, com a URSS, numa prova que serviu de lançamento a Igor Salenko, um dos melhores avançados russos da sua geração).
No percurso para dois títulos mundiais consecutivos de sub-20 (Riade 1989 e Lisboa 1991), Queiroz deixava claro, aos jovens com quem convivia e que ajudava, a cada treino e a cada jogo, a melhorar as suas qualidades humanas, técnicas, táticas e física, que o futebol devia ser visto e vivido numa perspetiva de 360 graus, e que o talento, quando bem despistado, seguido e orientado, era o primeiro (gigante e insubstituível) passo para uma carreira de sucesso.
Foi essa visão global que fez de Queiroz um dos mais requeridos e viajados técnicos da sua geração, e faz dele, agora, um dos selecionadores com maior número de presenças em fases finais de Campeonatos do Mundo, já com 260 partidas orientadas ao leme de seleções A.
Depois de Portugal na África do Sul, em 2010, e do Irão em três Mundiais consecutivos (Brasil 2014, Rússia 2018 e Qatar 2022), eis que o luso-moçambicano é a primeiríssima escolha da seleção do Gana. As estrelas negras, equipa de escola, com futebol que alia a magia da filigrana africana a uma pujança física notável, encontraram em Queiroz a alternativa óbvia para as levar às Américas, depois de um período complexo, que as afastou, por exemplo, da fase final da CAN 2025, em Marrocos.
O Carlos aí vai, com mais de 70 e com 40 de futebol na bagagem. Chegou esta semana a Accra e foi recebido como deve ser: como um Senhor do futebol mundial, como um verdadeiro Professor da modalidade e, em última instância, como uma Embaixador de Portugal. É o exemplo acabado de alguém que orgulha o país e de quem o país se deve orgulhar.
Como o deve fazer de Alexandre Santos e de Miguel Cardoso. Sem as mesmas décadas de banco, mas com muitas horas acumuladas de futebol pelo mundo, são dois portugueses com sucesso e ambições no continente africano. Talvez os media portugueses, no seu afã habitual de procura de polémicas com soundbites, contratações semi-falhadas e arbitragens, se esqueçam de valorizar o trabalho destes dois profissionais de topo, que também dão cartas fora de portas.
Santos, depois de três anos de grande sucesso no Petro de Luanda (hoje por hoje o único emblema angolano de verdadeira projeção para as competições internacionais), rumou ao norte do continente e chega à final da Liga dos Campeões da CAF (a homóloga africana da UEFA Champions League). Com o Petro tinha conseguido uma meia-final, agora, com o FAR de Rabat, chega aos jogos decisivos. Tem condições superlativas de trabalho na capital marroquina, com o emblema que representa as Forças Armadas Reais, e transpõe o seu conhecimento do jogo para o grupo de trabalho que orienta.
O lisboeta de 49 anos vai encontrar na final da CAF Champions League (a duas mãos), o compatriota Miguel Cardoso, que depois da Ucrânia, de França, da Grécia e de Espanha, encontrou em África um dos apogeus da sua carreira. Nascido na Trofa há 53 anos, fará (imagine-se!) a sua terceira final consecutiva, depois de ter chegado aos encontros decisivos com o Espérance de Tunis (Tunísia), e, o ano passado, já com o Mamelodi Sundowns, equipa sul-africana de Pretória que tem marcado os últimos anos no domínio do futebol da África do Sul.
Miguel e Alexandre, tal como Carlos, são profissionais de topo no treino de futebol, e dão cartas fora do país. A milhares de quilómetros de Portugal, o talento sobressai e encontra o seu palco natural: o do sucesso. Legítimos Embaixadores, brilhantes Treinadores, antecipadamente Vencedores.

CARTÃO VERMELHO
Não há, no futebol de alto rendimento atual, jogador mais mal educado em campo do que Vinícius Júnior. Fruto de um feitio impetuoso e aflitivamente irreverente, o jogador brasileiro refila, barafusta, protesta e insulta. A linguagem labial é tão clara como os seus desabafos gestuais, seja na LaLiga, seja em competições europeias com a camisola do Real Madrid. Dito isto, o castigo de seis jogos de suspensão da UEFA a Prestianni é um insulto ao futebol. Porque o organismo que gere o futebol europeu não conseguiu provar quaisquer insultos racistas do argentino ao brasileiro (a existirem, aí sim, puníveis com rigor), mas, para não «fechar o processo», descobriu um «maricón» pelo meio das palavras de Prestianni dirigidas a Vini Jr., certamente depois de escutar um chorrilho de impropérios vociferados pelo internacional brasileiro. A UEFA quis dar o exemplo, e escorregou na sua própria armadilha. Certamente que, depois desta sentença, Vinícius se vai continuar a rir e, em cada jogo, a largar uns «cabrón, hijo de puta, coño e puta madre». O tradutor que a UEFA escolheu para o aludido caso de racismo não será, decerto, o mesmo que analisa os cumprimentos de Vinicius aos seus companheiros de profissão e aos árbitros, assim que os jogos começam."

Torreense de Primeira no Jamor, 70 anos depois


"O Sport Clube União Torreense (“SCUT”; Torreense), o “Orgulho do Oeste”, voltará ao Jamor, 70 anos após a final de 56.
É um feito histórico e a demonstração de que apesar da transformação do futebol prazer para dever e da forçosa mudança de um futebol puro e de amor à camisola para um futebol indústria, como lamentaram os enormes escritores e apaixonados por futebol Eduardo Galeano e António Lobo Antunes, ainda é possível vivermos momentos em que a lógica é contestada pela imprevisibilidade neste que continua a ser o desporto mais seguido e amado no mundo.
Mas é também o corolário de uma profunda transformação operada desde 2019 no Torreense. Nestes sete anos muito mudou. Em 2022 o Torreense foi campeão da Liga 3, assegurando o regresso, 24 anos depois, à 2ª Liga. Há um ano, a equipa sub23 foi campeã nacional. O futsal masculino disputa a 1ª Divisão. Nos séniores masculinos de futebol, para além do apuramento para a Final da Taça de Portugal, estamos na luta para regressar, 35 anos depois, ao 1ª escalão do futebol nacional. E no futebol feminino, a equipa sénior venceu as últimas três taças nacionais (de Portugal, no Jamor, a Supertaça, no Estoril, e mais recentemente em Viseu a Taça da Liga) e equipa de futsal feminino encontra-se em 1.º lugar da 2ª Divisão, com a subida ao 1.º escalão como meta. É obra!
Estas vitórias não são fruto do acaso, antes resultam de um trabalho consistente e programado, com estratégia e profissionalismo, desenvolvido pelos dirigentes do clube e da SAD, a quem são devidos, assim como a todos os colaboradores nas variadas funções, um agradecimento e reconhecimento públicos. Em particular, porque é justo fazê-lo, uma palavra particular é devida ao dr Nuno Carvalho, Presidente da SAD.
O apuramento para a Final da Taça de Portugal transporta-nos inevitavelmente para os grandes momentos da história centenária do Torreense. Na década de 50, além da final de 76 já referida, os à época denominados “milionários do oeste” militaram durante quatro épocas na 1ª Divisão. Na década seguinte, com jogadores maioritariamente formados no clube, o “ouro da casa, tivemos mais uma época na 1ª Divisão.
A última vez que o SCUT disputou a 1ª Divisão foi em 1991/1992. Absolutamente marcante para mim e para a minha geração. Nessa época assisti a todos os jogos em casa, no Campo Manuel Marques, com exceção precisamente de um: contra o nosso adversário da Final, o Sporting. Recordei-me desse jogo, que perdemos já próximo do final por 2-1, e que acompanhei colado à rádio, numa época em que nem um dos 34 jogos do Torreense foi transmitido pela televisão.
Lembrei-me ainda da vitória na Maia, já nos descontos, que nos levou em 91 a subir à 1ª Divisão. Como me veio à memória o jogo na Madeira, em 92, que nos fez voltar à 2ª Divisão. Não terei muito mais memórias exatas, em momento e espaço, com 8 anos de idade, como aquelas que o Torreense me proporcionou. E por isso estou para sempre grato.
Na final de 24 de maio, conscientes da diferença de orçamento dos plantéis, mas também de que, como disse Johan Cruyff "nunca vi um saco de dinheiro marcar um golo”, o Torreense contará com milhares a apoiar no Estádio e milhões a torcer em casa. A missão é quase impossível, mas no futebol não há vitórias antecipadas nem derrotas inevitáveis. E acreditamos que o SCUT pode fazer ainda mais história, confirmando que o Clube, Torres Vedras e o Oeste são, e merecem assim ser reconhecidos, de Primeira!"

Egito: Mido, o semideus do descontrolo


"Fenómeno adolescente, foco de polémicas constantes, expulso da seleção antes de uma final em casa, homem que atirou uma tesoura contra Ibrahimovic. Ahmed Hossam Hussein Abdel Hamid Wasfi foi um rebelde, um caso de talento desperdiçado e, durante algum tempo, o egipcío mais famoso do planeta.

“Mido é aquilo em que a rua árabe pensa. Mido é a palavra nos lábios dos homens e mulheres árabes. Mido, a alcunha dada desde pequeno a Ahmed Hossam, um futebolista que ainda não cumpriu 20 anos, é objeto de fascínio para o mundo árabe. Mais do que Beckham para os ingleses (ou até para os japoneses), ele é, para os árabens em geral — e para os egípcios em particular —, o que Maradona foi para os argentinos. Ou talvez mais.“
Em 2003, um perfil no The Guardian apresentava ao mundo um talento que brotava no Ajax. Saído do Zamalek ainda menor de idade, Ahmed Hossam Hussein Abdel Hamid Wasfi, ou simplesmente Mido, um menino nascido numa família rica do Cairo, aterrou na Bélgica com o peso das expetativas nos ombros. O começo na Europa foi duro, recheado de saudades de casa. Fez as malas para o Egito rapidamente, mas o pai, um homem de negócios que lhe financiara uma boa educação em colégios privados, convenceu-o a voltar.
Durante algum tempo, Mido rimava com o futuro do futebol europeu. Era um ponta de lança alto, quase 1,90 metros, canhoto, forte. Goleador. Onze golos em 24 encontros pelo Genk, ainda adolescente, mais 23 na primeira época e meia em Amsterdão. Estava ali um diamante.
Mas o talento que Deus, ou Alá, ou a genética, lhe deram vinha com asterisco. Talvez tenha sido Ronald Koeman, seu técnico em Amsterdão, o primeiro a esbarrar com aquele lado lunar. “Ele é tratado quase como um deus no Egito e isso, por vezes, traz problemas“, chegou a notar o técnico.
Recém-chegado às duas décadas de vida, os casos de Mido com Koeman acumularam-se. Antes de um clássico com o Feyenoord, uma discussão entre ambos acabou com o atacante de fora da convocatória. Na sequência do desentendimento, o egípcio foi para o Cairo, sem autorização. Seria multado e, no regresso ao Ajax, apontou 13 golos nos 11 últimos desafios da época, incluindo um na final da Taça. Luz e sombra, talento e descontrolo.
Seria este o paradigma de uma carreira nómada. Meses depois, acusado por Koeman de “falta de esforço nos treinos“, seria relegado para a equipa B do Ajax. O ponto final nos Países Baixos chegaria quando, após um jogo, se envolveu numa briga perante outro jovem rebelde e talentoso no balneário. Zlatan Ibrahimovic queixou-se do individualismo de Mido, este não gostou e atirou uma tesoura na direção do sueco. Foi a gota de água para os responsáveis no clube.
Emprestado ao Celta de Vigo, estava dado o mote para uma vida de pouca permanência em clubes. Nunca esteve duas épocas completas, consecutivamente, na mesma equipa. Do Zamalek para o Gent, da Bélgica para o Ajax, de Amesterdão para Vigo, de Espanha para o Marselha, de França para a Roma, da Serie A para o Tottenham, de Londres para o Middeslbrough, o Wigan, o West Ham, breve retorno ao Zamalek, breve retorno ao Ajax, fim no Barnsley.
Foi havendo, de tempos a tempos, piscares de talento. Na verdade, o esquerdino tinha o hábito de grandes arranques em cada pequena etapa. Zamalek: bis à segunda partida; Celta: golo na estreia; Marselha: marca na estreia no Vélodrome; Tottenham: bis ao segundo jogo: Middlesbrough: dois golos nos dois primeiros encontros (os únicos que faria naquela época pelo clube); Wigan: golo na estreia (só faria mais um pelo clube); Egito: golo na estreia; Ajax: cinco minutos depois de assinar contrato, tinha um Ferrari comprado.

Expulso da CAN, o fim triste e perigoso
Já sem a aura de esperança dos meses de Genk e Ajax, foi no Tottenham onde Mido pareceu poder vir a ser o que prometera. No entanto, o seu rendimento caiu a pique na sequência da mais famosa das suas inúmeras indisciplinas.
Mido era, em vários textos do início do século, descrito como “o egípcio mais famoso do mundo“. O seu casamento foi transmitido em direto pela televisão do país, uma nação de 107 milhões de pessoas com uma rara devoção ao futebol. No pico da notoriedade do jogador, a CAN foi disputada em casa, em 2006. Era o momento de Mido.
Ou, pelo menos, era isso que Mido achava.
Afetado por uma lesão, seria substituído na primeira parte diante da Costa do Marfim, na fase de grupos, falhando os quartos de final contra o Congo. Na ronda seguinte, perante o Senegal, atuou de início, mas a sua contribuição discreta levou-o a ser substituído aos 79'. A revolta foi visível, notória, chegando a parecer que a estrela entraria em confronto físico contra Hassan Shehata, o selecionador. Amr Zaki, entrado para o lugar de Mido, marcou na primeira vez que tocou na bola. O semideus seria expulso da seleção, impedido de participar na final que veria a equipa da casa erguer o título africano.
O descontrolo foi parte de Mido. No Marselha foi a tribunal por excesso de velocidade. No Middlesbrough, após a descida à segunda liga, apresentou-se duas semanas mais tarde na pré-época. Em Inglaterra, o egípcio não foi só vilão, sendo também, recorrentemente, vítima de insultos racistas, atraindo a islamofobia que percorria na sociedade britância nos primeiros anos dos 2000.
Retirou-se jovem, aos 30 anos, mas era quase um jogador em part-time desde mais cedo. A última partida completa que completou deu-se com 26 voltas ao sol. Foram temporadas de caos, de mudanças, de golos, de polémicas, tudo começando cedo e terminando cedo.
Em maio de 2002, com 19 anos, Mido, já cheio de problemas com Koeman, convenceu o treinador a deixar Ibrahimovic no banco, sendo o canhoto o preferido para a final da Taça dos Países Baixos. Após aquele título, o egípcio partiria para uma carreira de inconstâncias, o sueco explodiria para ser um dos melhores do mundo.
Uma década mais tarde, Zlatan era a grande estrela do PSG, tendo já vencido os campeonatos de Itália e Espanha. Mido, mais novo, já não jogava futebol. Engordou rapidamente, chegando aos 150 quilos. Com 30 e poucos anos, caminhar 100 metros sem parar para descansar era um problema. Os médicos avisaram-lhe que, se continuasse assim, morreria antes dos 40, a idade com que Ibra ganhou o seu último campeonato italiano. Ahmed Hossam percebeu a gravidade da questão e emagreceu bastante. Mido ficaria para sempre como um caso do que poderia ter sucedido se a luz do talento não viesse com sombras a ele pegadas."