"Em 2030, Portugal co-organiza pela primeira vez na história um Campeonato do Mundo de Futebol a dois continentes em simultâneo, ao lado de Espanha e Marrocos. Um momento singular, irrepetível na geração dos actuais decisores públicos. Mas a verdadeira questão não é o que vai acontecer durante o torneio. A questão que se impõe é: o que vai ficar?
Muito além do futebol
Johan Cruyff disse: «Je gaat het pas zien als je het doorhebt», só conseguimos ver quando compreendemos verdadeiramente o que está a acontecer. E o que está a acontecer é que Portugal tem nas mãos uma janela histórica de legitimação e aceleração de investimento estrutural de que o país precisa há décadas.
Os grandes eventos desportivos não são apenas espectáculo. São plataformas globais de reputação, catalisadores de investimento e, quando bem aproveitados, instrumentos de transformação urbana e económica com impacto que dura gerações. A imagem que fica depois do evento é o activo mais valioso que um país pode construir.
O que Espanha compreendeu e Portugal ainda não
O contraste com o nosso parceiro ibérico é revelador. Em Espanha, o Mundial de 2030 desencadeou um ciclo de investimento sem precedentes no desporto profissional: o Barcelona comprometeu 1.450 milhões de euros no Espai Barça, o Real Madrid 1.347 milhões na renovação do Estádio Santiago Bernabéu, o Atlético de Madrid 310 milhões no Metropolitano.
Mais de metade dos clubes profissionais espanhóis estão envolvidos em processos de modernização ou construção de novos recintos. O investimento total no parque de estádios espanhóis ultrapassa facilmente os 3.000 a 4.000 milhões de euros.
Isto não foi feito como exercício de vaidade, foi uma decisão estratégica. Um estádio que abre apenas a cada quinze dias é um activo subutilizado. O negócio do futebol moderno exige recintos que funcionem 365 dias por ano: como espaços de lazer, cultura, restauração e comunidade. O estádio tornou-se uma das poucas alavancas reais de geração de receita que é independente dos resultados desportivos.
Esta tendência não se limita à Europa. Nos Estados Unidos, o projecto dos Chicago Bears para Arlington Heights representa uma mudança de paradigma no conceito de recinto desportivo americano. Com cerca de 132 hectares de área total, o plano prevê um estádio de cobertura fixa rodeado por um campus de uso misto com espaços verdes, zonas residenciais, hotelaria, retalho e áreas de lazer que funcionam todos os dias do ano e não apenas nos dias de jogo.
Uma ruptura deliberada com o modelo tradicional norte-americano do estádio isolado no centro de um mar de estacionamentos, inacessível e sem vida fora do calendário desportivo. O objectivo declarado é acolher cerca de 370 eventos anuais, de concertos a jogos universitários, de eventos comunitários a partidas de futebol internacional. É exactamente este o paradigma que Portugal precisa de adoptar.
Em Portugal, o guião repete-se com previsível regularidade: ausência de planeamento estratégico, disputas mediáticas entre dirigentes, reuniões formais com a tutela sem capacidade real de decisão, e egos que inviabilizam qualquer agenda comum. Podemos continuar assim, ou podemos decidir fazer diferente.
A região de Lisboa: transformação em curso que não podemos ignorar
A região de Lisboa vai passar, nos próximos anos, por uma das maiores transformações estruturais da sua história recente. O Novo Aeroporto de Lisboa (NAL), a Terceira Travessia do Tejo (TTT), o Túnel da Trafaria (TT) e a futura reconversão do Aeroporto Humberto Delgado (AHD) não são apenas siglas nos rodapés dos jornais, são peças de uma reorganização territorial que vai redesenhar os fluxos de mobilidade, as zonas de valorização urbana e as oportunidades de desenvolvimento desportivo e económico das próximas décadas.
O problema que se coloca não é a ausência de projectos mas, em vez disso, a ausência de visão integrada. O problema assenta no facto de cada peça estar a ser pensada em separado, por entidades diferentes, em timings diferentes.
O Mundial de 2030 é a oportunidade, talvez a última com esta dimensão de pressão e legitimidade pública, para criar uma arquitectura de planeamento que una estas peças numa narrativa coerente de futuro para Lisboa e para Portugal.
A proposta concreta: Reimaginar a Região de Lisboa
A iniciativa Reimagina a Região de Lisboa parte de uma convicção simples: os desafios da região não respeitam fronteiras municipais, e as soluções também não podem fazê-lo. É preciso planear à escala metropolitana, com antecipação, envolvendo as comunidades, os investidores privados e os decisores públicos numa lógica de parceria real, não apenas de protocolo formal.
O que esta abordagem defende:
— Planeamento com horizonte temporal: aproveitar o prazo do Mundial para criar compromissos vinculativos de desenvolvimento urbano e desportivo;
— Reabilitações de excelência nos recintos desportivos existentes, transformando-os em activos económicos permanentes, não apenas em palcos ocasionais;
— Criação de um novo ecossistema que ligue infraestrutura desportiva, mobilidade, turismo e desenvolvimento económico local (afinal de contas representam áreas grandes das zonas metropolitanas);
— Envolvimento das comunidades como parte do processo, não como destinatários passivos das decisões;
— Transparência e sustentabilidade como condições não negociáveis de credibilidade internacional.
A janela fecha-se em 2030. O planeamento tem de começar agora
Há algo que os grandes eventos ensinam de forma inequívoca: os países que deles beneficiam a longo prazo não são os que melhor organizam o torneio, são aqueles que melhor se prepararam antes do torneio. Aqueles que não improvisam o legado, e que em vez disso o constroem com visão, com método e com a coragem de colocar o interesse colectivo acima das agendas individuais.
Portugal tem a matéria-prima: talento, território, criatividade e uma marca país que nunca esteve tão forte no mundo. O que nos falta é activar um planeamento à altura desta oportunidade. E esse trabalho começa hoje."



