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domingo, 26 de abril de 2026

O brilho de Carlos, Alexandre e Miguel


"Muitas vezes, nas mais diversas áreas, é no estrangeiro que profissionais portugueses vêem reconhecidas as suas capacidades e retribuídas com majoração as suas funções. Ou porque os níveis salariais são efetivamente mais elevados (o que não é difícil suceder, tão baixo é, e tantas vezes, o pagamento em Portugal…), ou porque apenas conseguem verdadeiramente exponenciar os seus skills, as suas vocações, quando as exercitam fora de portas, fazendo de outras paragens a sua casa e de empresas internacionais o seu mundo.
Isso, evidentemente, confere-lhes uma visão alargada, urbi et orbi, necessariamente distinta e muito mais ampla em comparação com a concorrência nacional. Mas aumenta-lhes, quase em direta proporção, o síndrome de inveja, tão típico e tão amplo num país geograficamente tão pequeno, e que tantas vezes não tem mesmo noção dos seus limites físicos e das suas limitações estruturais.
No treino desportivo e, em particular, no do futebol, Portugal dá cartas no talento e na belíssima imagem além-fronteiras que foi construindo ao longo dos anos, alicerçada em competência, mérito, ciência e capacidade inolvidável de adaptação a novas tendências e novas exigências.
Trago-vos hoje três nomes que bem ajudam a dar forma ao que escrevi, e que, cada um a seu modo, muito têm honrado a sua profissão e o país que representam, embora um deles tenha nascido em Moçambique, e também transporte, sempre, a Princesa do Índico na sua fantástica bagagem. Carlos Queiroz (é dele que falo), é um dos principais responsáveis pela revolução no treino de futebol em Portugal, e pela exportação de um talento único e indiscutível, o do treinador-professor, baseado numa componente de conhecimento científico adaptado à modalidade, e num padrão de evolução permanente que não o deixou, em quatro décadas de carreira.
Conheci o Carlos em 1988, já ele assumia as funções de selecionador nacional nas camadas jovens, ao serviço da Federação Portuguesa de Futebol, na final do Europeu de sub-18, na Checoslováquia (que Portugal viria a perder, por 3-1, com a URSS, numa prova que serviu de lançamento a Igor Salenko, um dos melhores avançados russos da sua geração).
No percurso para dois títulos mundiais consecutivos de sub-20 (Riade 1989 e Lisboa 1991), Queiroz deixava claro, aos jovens com quem convivia e que ajudava, a cada treino e a cada jogo, a melhorar as suas qualidades humanas, técnicas, táticas e física, que o futebol devia ser visto e vivido numa perspetiva de 360 graus, e que o talento, quando bem despistado, seguido e orientado, era o primeiro (gigante e insubstituível) passo para uma carreira de sucesso.
Foi essa visão global que fez de Queiroz um dos mais requeridos e viajados técnicos da sua geração, e faz dele, agora, um dos selecionadores com maior número de presenças em fases finais de Campeonatos do Mundo, já com 260 partidas orientadas ao leme de seleções A.
Depois de Portugal na África do Sul, em 2010, e do Irão em três Mundiais consecutivos (Brasil 2014, Rússia 2018 e Qatar 2022), eis que o luso-moçambicano é a primeiríssima escolha da seleção do Gana. As estrelas negras, equipa de escola, com futebol que alia a magia da filigrana africana a uma pujança física notável, encontraram em Queiroz a alternativa óbvia para as levar às Américas, depois de um período complexo, que as afastou, por exemplo, da fase final da CAN 2025, em Marrocos.
O Carlos aí vai, com mais de 70 e com 40 de futebol na bagagem. Chegou esta semana a Accra e foi recebido como deve ser: como um Senhor do futebol mundial, como um verdadeiro Professor da modalidade e, em última instância, como uma Embaixador de Portugal. É o exemplo acabado de alguém que orgulha o país e de quem o país se deve orgulhar.
Como o deve fazer de Alexandre Santos e de Miguel Cardoso. Sem as mesmas décadas de banco, mas com muitas horas acumuladas de futebol pelo mundo, são dois portugueses com sucesso e ambições no continente africano. Talvez os media portugueses, no seu afã habitual de procura de polémicas com soundbites, contratações semi-falhadas e arbitragens, se esqueçam de valorizar o trabalho destes dois profissionais de topo, que também dão cartas fora de portas.
Santos, depois de três anos de grande sucesso no Petro de Luanda (hoje por hoje o único emblema angolano de verdadeira projeção para as competições internacionais), rumou ao norte do continente e chega à final da Liga dos Campeões da CAF (a homóloga africana da UEFA Champions League). Com o Petro tinha conseguido uma meia-final, agora, com o FAR de Rabat, chega aos jogos decisivos. Tem condições superlativas de trabalho na capital marroquina, com o emblema que representa as Forças Armadas Reais, e transpõe o seu conhecimento do jogo para o grupo de trabalho que orienta.
O lisboeta de 49 anos vai encontrar na final da CAF Champions League (a duas mãos), o compatriota Miguel Cardoso, que depois da Ucrânia, de França, da Grécia e de Espanha, encontrou em África um dos apogeus da sua carreira. Nascido na Trofa há 53 anos, fará (imagine-se!) a sua terceira final consecutiva, depois de ter chegado aos encontros decisivos com o Espérance de Tunis (Tunísia), e, o ano passado, já com o Mamelodi Sundowns, equipa sul-africana de Pretória que tem marcado os últimos anos no domínio do futebol da África do Sul.
Miguel e Alexandre, tal como Carlos, são profissionais de topo no treino de futebol, e dão cartas fora do país. A milhares de quilómetros de Portugal, o talento sobressai e encontra o seu palco natural: o do sucesso. Legítimos Embaixadores, brilhantes Treinadores, antecipadamente Vencedores.

CARTÃO VERMELHO
Não há, no futebol de alto rendimento atual, jogador mais mal educado em campo do que Vinícius Júnior. Fruto de um feitio impetuoso e aflitivamente irreverente, o jogador brasileiro refila, barafusta, protesta e insulta. A linguagem labial é tão clara como os seus desabafos gestuais, seja na LaLiga, seja em competições europeias com a camisola do Real Madrid. Dito isto, o castigo de seis jogos de suspensão da UEFA a Prestianni é um insulto ao futebol. Porque o organismo que gere o futebol europeu não conseguiu provar quaisquer insultos racistas do argentino ao brasileiro (a existirem, aí sim, puníveis com rigor), mas, para não «fechar o processo», descobriu um «maricón» pelo meio das palavras de Prestianni dirigidas a Vini Jr., certamente depois de escutar um chorrilho de impropérios vociferados pelo internacional brasileiro. A UEFA quis dar o exemplo, e escorregou na sua própria armadilha. Certamente que, depois desta sentença, Vinícius se vai continuar a rir e, em cada jogo, a largar uns «cabrón, hijo de puta, coño e puta madre». O tradutor que a UEFA escolheu para o aludido caso de racismo não será, decerto, o mesmo que analisa os cumprimentos de Vinicius aos seus companheiros de profissão e aos árbitros, assim que os jogos começam."

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