"O escritor espanhol Javier Marías, adepto confesso do Real Madrid, escreveu em Selvagens e Sentimentais que o futebol é a recuperação semanal da infância. E talvez seja essa a definição mais bonita do jogo. Porque não há nada mais raro do que ver homens adultos regressarem, por instantes, à pureza dos seus primeiros encantos. Sem cinismo, sem ruído, sem contas antigas por ajustar. Apenas a alegria simples de jogar e de sentir. O último dérbi de Alvalade foi tudo isso para quem ainda consegue ver o futebol com olhos limpos. Um regresso breve a um tempo em que o jogo bastava.
Sporting e Benfica entraram em campo com urgências diferentes, mas com a mesma obrigação. Ganhar. O Sporting agarrado ao último fio de esperança pelo título. O Benfica a perseguir a dignidade competitiva, e um possível acesso à Champions, de um segundo lugar. E quando duas equipas sabem que o empate não lhes serve, o jogo ganha uma honestidade rara. Foi isso que vimos. Um duelo sem rede, de parada e resposta, onde cada ataque parecia uma promessa e cada defesa uma resistência.
Antes do apito inicial, falava-se de João Pinheiro. Não pelas melhores razões. Uma época irregular, erros acumulados, desconfiança instalada. Um árbitro que vai representar Portugal num Mundial, algo que não acontece desde 2014, mas que chegava a este jogo a realizar uma das suas piores épocas tanto no plano interno como a nível internacional. E, no entanto, talvez por ironia ou justiça, fez aquilo que tantas vezes esquecemos de mencionar. Uma arbitragem normal. Segura. Sem interferir na narrativa. Sem protagonismo indevido. E sendo o mínimo exigível, tornou-se quase surpreendente.
O lance do penálti resume bem o nosso tempo. Luis Suárez bate, Trubin defende, Schjelderup entra na área antes do remate. Há uns anos, repetia-se. Hoje, a regra é outra. João Pinheiro aplicou-a. Decisão correta. E mesmo assim, para muitos, esse momento sobrepôs-se a tudo o resto. Como se estivéssemos condenados a discutir o detalhe mesmo quando o essencial está correto. Já não se critica apenas o erro. Critica-se a fidelidade à regra. Confunde-se opinião com realidade.
E é aqui que o dérbi se torna mais do que um jogo. Torna-se um espelho. Um retrato de uma cultura desportiva que se habituou a procurar sombras mesmo quando a luz é evidente. Porque o que aconteceu em Alvalade foi um hino ao futebol. Um jogo vibrante, com golos, falhanços, decisões corajosas dos treinadores, intensidade emocional do primeiro ao último segundo. Um daqueles encontros que, noutras geografias, seriam celebrados como espetáculo puro.
Mas em Portugal, muitas vezes, preferimos ser críticos de bastidores em vez de espectadores apaixonados. É como ir a um grande concerto e sair de lá a falar do café que estava frio. A metáfora pode parecer exagerada, mas descreve com precisão a forma como reduzimos o extraordinário ao irrelevante.
E, no entanto, tudo esteve lá. O Sporting a acreditar até ao limite, o Benfica a resistir até ao impossível. O golo de Rafael Nel, aos 90+1', a explosão de Alvalade, a ilusão de vitória. O fora de jogo, bem assinalado, a devolver o jogo à sua incerteza natural. E depois, como num guião que nem o mais criativo dos argumentistas ousaria escrever, o golo de Rafa aos 90+3'. Silêncio de um lado, êxtase do outro. Futebol em toda a sua essência.
Curiosamente, ninguém que realmente importava quis estragar o momento. Treinadores serenos. Presidentes em silêncio. Sem comunicados, sem acusações, sem a habitual espuma dos dias. Um raro exercício de maturidade num campeonato demasiadas vezes refém da suspeita e do comportamento incendiário. E talvez por isso tenha custado tanto a alguns adeptos, e até a alguns comentadores, aceitar o que viram. Porque quando o futebol se apresenta assim, sem desculpas, sem álibis, resta apenas uma verdade difícil de digerir. O jogo decide.
Há uma ironia delicada em tudo isto. Muitos dos que desvalorizam este dérbi são os mesmos que, perante jogos semelhantes em Inglaterra ou Espanha, se desfazem em elogios. Dizem que lá se joga mais, que lá se protesta menos, que lá o futebol é mais intenso e mais disputado. E têm razão.
Mas quando esse futebol aparece aqui, diante dos seus olhos, não o reconhecem. Procuram defeitos nas virtudes. Talvez porque desaprendemos a sentir o jogo. Talvez porque nos habituámos a olhar para o futebol com desconfiança em vez de curiosidade. Talvez porque a emoção genuína já não chega.
O dérbi de Alvalade foi uma exceção. E isso devia preocupar-nos. Porque jogos assim não deviam ser raros. Deviam ser o padrão. O nosso futebol precisa de melhorar, a arbitragem também. Mas precisa, sobretudo, de recuperar a capacidade de se emocionar consigo próprio.
Quando isso acontece, como aconteceu neste jogo, o melhor que podemos fazer é simples: deixar a música tocar até ao fim. Saborear. Mesmo que tenha um sabor amargo para os que perdem. Mesmo que doa. Porque perder assim ou ganhar assim, sem casos e casinhos, num jogo que deu para um lado como poderia dar para outro, é futebol na sua melhor versão. É a forma mais honesta, e talvez a única que interesse, de viver este jogo.
E, no fundo, foi isso que vimos. Mas, ao contrário do que escreveu Javier Marías, para quem o futebol era essa tal recuperação semanal da infância, vivemos tempos tão poluídos que muitos parecem escolher exatamente o oposto.
Mesmo perante jogos desta carga poética, desta entrega sem reservas, desta verdade quase inocente, há quem prefira agarrar-se ao ruído, à suspeita, ao detalhe irrelevante. Como se o futebol, em vez de nos devolver à infância, nos afastasse dela. Como se, em vez de nos limpar, nos contaminasse ainda mais. E talvez esse seja o maior dos paradoxos modernos. Num jogo que nos ofereceu tudo o que nos fez apaixonar pelo futebol, muitos optam por ficar com a sua pior parte. A perda semanal da infância."

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