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sábado, 9 de maio de 2026

De quantos Zalazares precisa o Benfica?


"Portugal agradece o talento, mas o Benfica já tem Ríos. Trinta milhões são um luxo e a redundância do erro. Mourinho faz as malas, enquanto Rui Costa habita o silêncio

Ao contrário do país, que está bem melhor sem o homónimo, ainda mais quando este acabou exponenciado ao cubo como aconteceu há uns meses, o futebol português e o SC Braga agradecem claramente ter pelo menos um Zalazar, o Rodrigo, a confirmar talento.
É um ótimo médio. Agressivo, bom tecnicamente e impositivo no transporte de bola até ao último terço, onde se destaca pelo perigoso e forte remate. Sinalizou isso perante o clube que mostra interesse na sua contratação e não podemos dizer que não encaixa no que mais José Mourinho procura nos jogos grandes, a transição ofensiva veloz e letal.
Ainda que não haja jogadores iguais e o uruguaio possa ser um pouco mais associativo e até providenciar uma maior ligação, diria que no atual plantel dos encarnados encontra-se pelo menos alguém próximo desse perfil: chama-se Richard Ríos, custou 27 milhões. O SC Braga pede 30M por Zalazar, sensivelmente um ano mais velho.
No 4x2x3x1 de Mourinho, o seu espaço estará ali na posição 10, onde Rafa não tem brilhado e Barreiro serve para questões mais pragmáticas, seja a defender ou a atacar, independentemente do que os números digam depois. Eventualmente, Zalazar poderá explorar um flanco, tal como já lhe aconteceu na Pedreira e até com Ríos na Luz.
Volto aí: fará sentido apostar nele quando tanto se esperou que o colombiano quebrasse as barreiras de uma adaptação que para ele seriam sempre mais altas do que para os demais, tal a falta de escola? Dificilmente. Parece um luxo desnecessário ou até a redundância de um erro.
Trinta milhões parece ser um número gigantesco para o negócio, ainda mais porque, na verdade, não é a peça que falta ao puzzle encarnado. Eventualmente, poderá sê-lo na concepção de José Mourinho, porém mesmo na perspetiva de alguém que afina o seu modelo pelo mesmo diapasão que o Special One haverá posições mais emergentes a reforçar.
O Benfica, que andará a mexer-se no mercado, tantos os nomes que já choveram sem a época ainda ter terminado, vai dando passinhos curtos enquanto um oferecido Mou, que faz passar a mensagem que está pronto para voltar a Madrid — regresso em que parece ter agora começado a acreditar —, não lhe resolve o problema de sempre: tome a decisão por ele, seja esta qual for. Porque, acredito, Rui Costa já não sabe se quer que o treinador fique ou, pelo contrário, saia. A sala de troféus no Museu da Luz parece reduzida a sala de espera para o Bernabéu.
As escolhas no mercado serão fundamentais, seja para o reforço da nova identidade, enquanto conjunto de contra-ataque, ou para a rotura com o paradigma, atrás de uma cultura de equipa grande, com mentalidade ofensiva. O dinheiro da Champions será decisivo. Haverá poucos no grupo que se vendam bem para poder reinvestir.
Mesmo que José Mourinho quisesse, não poderia dar melhor exemplo daquilo que é hoje do que a forma como abordou o jogo em Famalicão após a expulsão de Otamendi — de quem na Luz, de forma inconcebível e até irresponsável, se continua à espera que se decida, enquanto pisca o olho a outro central em pré-reforma, De Vrij, de 34 anos. As substituições e o recuar de linhas tiveram exatamente o efeito esperado. Não por si. As águias ficaram sem a bola e permitiram finalizações aos minhotos. E, com isso, as queixas de arbitragem, legítimas ou não, não servem mais do que cortina de fumo.
Com a tendência do clube em reagir mais por impulso do que planear, de se mexer de forma pesada, quase arrastada, e até conservadora, aceitando quem ninguém quer quando não encontra solução, o tempo que for perdendo com alvos errados pode custar-lhe mais uma vez bem caro. Para já, e percebe-se pelos nomes, Rui Costa segue o plano de Mourinho: um médio de transporte, um ponta de lança de área, um extremo… Nada de centrocampistas de associação, de centrais capazes de romper linhas, de uma construção e fase de criação imunes à pressão. Nada de criatividade, fantasia e génio.
Mourinho vai continuar a querer mais ou menos o mesmo que tem querido nos últimos anos. Controlar os jogos com a bola no pé não é para ele. Dominar em absoluto também. Continua a lutar contra o mundo, que há algum tempo chegou a outras conclusões sobre qual o melhor caminho, reforçadas por um PSG decidido a fazer história. De um Luis Enrique a mostrar que a força de uma ideia, quando se escolhe os jogadores certos e há uma forte coesão coletiva, acaba por dificilmente ter rival. E ainda que na história do jogo andemos muitas vezes em ciclos e círculos, este será o fim da história mais real que provavelmente iremos ver.
Com Sudakov a ser uma incógnita do ponto de vista mental, o Benfica arrisca-se a arrancar a próxima temporada ainda mais longe de se tornar uma equipa dominadora, o que se pode agravar se o Benfica não resistir ao assédio ao brilhantismo de Schjelderup, que viu Mourinho aproximar-se bem mais dele do que ele se aproximou do treinador, ganhando moral depois da bela exibição diante do Real Madrid.
O Benfica não precisa de três Zalazares. Ou de um. Mas talvez desespere por jogadores do mesmo nível com um perfil diferente. Que liguem as pontas soltas da equipa e do grupo, e os façam subir um patamar. Que queiram conquistar e não fazer guerrilha. Talvez até os tenha no Seixal e é preciso não ter medo de olhar para lá, mas se não existirem, que saiba encontrá-los e encaixá-los.
Não terá Mourinho já dado indicações a Rui Costa de que a sua cabeça também já está em Madrid e que o Benfica já só é prémio de consolação? Talvez o técnico já não esperasse um Real na sua vida, mas quando começou a acreditar que havia mesmo hipóteses fez o seu charme. E até está defendido pela falta de convicção do presidente em dizer inequivocamente que o lugar é seu, pelo tempo que quiser. E em dar-lhe o que quer. O pior é que se ficar, além de tudo o resto, também já se percebe que a união não será total. E se sair, ninguém sabe bem quem irá chegar. Para ocupar uma cadeira, no meio do vazio, numa Luz que faz eco. Porque tudo está interligado."

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