"A Federação Portuguesa de Futebol apresentou ao Governo nove medidas para combater a violência no desporto. Sete são dirigidas aos adeptos. E os dirigentes? É um documento. Mas é também um espelho. E a FPF não se vê nele. Na verdade, vários espelhos em que a FPF não se vê.
Primeiro espelho: o dirigente não existe
Desde 2004, cada vez que alguém mexeu na legislação do combate à violência no desporto, foi sempre na mesma direcção: apertar os adeptos. A Lei 39/2009. O Cartão do Adepto em 2021, que a Iniciativa Liberal revogou no Parlamento. A Lei 40/2023, contra a qual voltámos a votar. Vinte anos. Sempre no mesmo sentido. Sempre o mesmo alvo.
O dirigente que inflamou a semana toda em conferências de imprensa, que tratou o árbitro como inimigo público, que transformou a rivalidade desportiva em guerra declarada, esse não aparece de forma explícita em nenhuma medida. Nem nesta, nem nas anteriores. A lei até o obriga a "usar de correcção e moderação". Não se aplica. Nunca se aplicou. Ninguém é realmente punido.
Isto não é esquecimento. É método.
Segundo espelho: a violência não mora apenas nos grandes estádios
As medidas mais concretas da FPF neste pacote, os bilhetes nominativos, Fan ID, plataformas de controlo de acessos, aplicam-se, na prática, às competições profissionais. Que não são organizadas pela Federação, mas pela Liga Portugal. A FPF propõe medidas sobre aquilo que não gere. E esquece aquilo que é sua responsabilidade mais directa: as outras competições nacionais, mas também as das associações distritais e o futebol de formação. É precisamente aí que ocorre o maior número de incidentes graves. É aí que um árbitro jovem de 20 anos é agredido num campo de terra batida. É aí que muitos pais nas bancadas são o principal foco de violência.
A FPF tem competências, mas abdica delas. Não tem medidas. Não tem vontade.
Terceiro espelho: o presidente é um ex-árbitro
Esta semana, a Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol foi ouvida no Parlamento. Forneceu dados: 400 agressões em dez anos, dez só no último mês, a maioria sobre jovens com menos de 25 anos. Adiantou propostas: estatuto do árbitro não profissional e equiparação a agente de autoridade para efeitos sancionatórios, entre outras.
A Federação Portuguesa de Futebol, presidida por um ex-árbitro, respondeu com nove medidas sem uma única linha sobre árbitros. Nem sobre a sua protecção. Nem sobre quem os agride. Nem sobre quem cria o clima para que sejam agredidos, como responsável moral da violência.
Há ironias que são apenas cómicas. Esta é estrutural.
Vinte anos. Sempre a mesma direcção. Sempre o mesmo resultado. A violência persiste. Os dirigentes escapam. E a FPF continua incapaz de se ver ao espelho."

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