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quinta-feira, 21 de maio de 2026
Um conto de fadas chamado Vardy
"O que é mais provável acontecer? Um futebolista que está na oitava divisão inglesa com 20 anos ainda conseguir conquistar a Premier League ao serviço do Leicester ou então alguém subir até ao topo do Monte Evereste sem a ajuda de oxigénio suplementar?
Subir ao topo do Monte Evereste sem oxigénio suplementar é uma coisa raríssima e brutalmente difícil, mas que já aconteceu algumas vezes na história. Por outro lado, um atleta sair tão tarde do desporto amador, chegar ao topo do futebol inglês e ainda vencer a Premier League num clube que (quase) todos achavam que iria descer de divisão nessa época é, definitivamente, um conto de fadas. Mas que aconteceu mesmo.
E depois de ter visto o seu mais recente documentário decidi que tinha realmente de escrever sobre este futebolista inglês. Porque a história de Jamie Vardy é fabulosa, sobretudo porque é real. Porque cheira a relva molhada dos campos pequenos, a fábricas no norte de Inglaterra, a noites frias jogadas longe das câmaras e dos milhões.
Vardy não nasceu prodígio. Não cresceu dentro das academias de luxo nem foi apontado como «o próximo grande craque». Foi dispensado em jovem, trabalhou numa fábrica com vários turnos, jogou na oitava divisão inglesa depois de sair do trabalho, cheio de dores nas costas, e percorreu quilómetros e quilómetros num futebol quase invisível para o grande público. Enquanto outros apareciam nas capas dos jornais aos 18 anos, ele lutava simplesmente para poder continuar a jogar.
E talvez seja precisamente isso que torna a sua história tão poderosa. Quando Vardy chegou ao Leicester, muitos pensavam que seria apenas mais um avançado esforçado. Mas Vardy carregava algo que não se ensina: fome. A fome de quem sabe o que custa chegar ali. Cada sprint dele parecia uma resposta aos anos em que ninguém acreditou. Cada golo tinha a força de uma vingança silenciosa contra todas as portas fechadas.
Pelo caminho, ainda quebrou um recorde extraordinário. Van Nistelrooy tinha marcado em 10 jogos consecutivos pelo Manchester United, em 2003. Em novembro de 2015, Vardy igualou esse registo. E uma semana depois ultrapassou-o ao marcar no 11.º jogo seguido, precisamente contra o Manchester United.
E há algo quase poético nisso. Um avançado vindo do futebol amador, da oitava divisão inglesa, a ultrapassar um dos pontas-de-lança mais letais da era moderna. Não foi apenas um recorde estatístico, foi o futebol a gritar que «tudo é possível». E o mais incrível é que o recorde continua de pé até hoje. 11 jogos consecutivos a marcar na Premier League. Absolutamente brutal.
Depois veio o impossível. De novo. A temporada do título da Premier League ao serviço do Leicester não foi apenas uma surpresa desportiva. Foi um milagre moderno. Um grupo desacreditado a desafiar milionários, superestrelas e probabilidades absurdas. Que por pouco não foi despromovido ao Championship na temporada anterior. E no centro desse milagre futebolístico estava Vardy. Muito rápido, faminto, agressivo, emocional e humano. Um jogador que parecia jogar sempre como se ainda estivesse nos campos da oitava divisão, como se tivesse constantemente algo a provar ao mundo.
Porém, há ainda outro detalhe muito bonito nesta caminhada. A estabilidade fora do campo. Vardy teve muitos problemas com o álcool ao longo da sua carreira, mas a relação com Rebekah Vardy trouxe-lhe uma base emocional que muitas vezes é ignorada quando se fala de futebolistas. O talento conta. O treino conta. Mas a paz mental, o apoio em casa, alguém que acredita em ti quando tudo ainda é incerto, isso também constrói carreiras. Há jogadores com mais técnica que se perdem pelo caminho porque lhes falta equilíbrio. No caso de Vardy, sente-se que encontrou um porto seguro precisamente quando a vida começou a acelerar.
O documentário mostra isso muito bem. Por trás do avançado explosivo existe um homem imperfeito, intenso, leal às suas raízes e profundamente marcado pelo passado. E talvez seja por isso que tanta gente gosta dele, mesmo fora do Leicester.
A história de Jamie Vardy lembra-nos que o sucesso não pertence apenas aos escolhidos e aos predestinados. Às vezes, pertence aos teimosos. Aos que continuam quando ninguém está a ver. Aos que caem, trabalham, insistem e chegam lá mais tarde.
E quando finalmente chegam... chegam com uma força impossível de ignorar. Porque, tanto no futebol como na vida, nunca é tarde."
De trincos ao banco. Quanto tempo demora a ganhar?
"Comecemos onde poucos começam. Nos trincos. Pep Guardiola, Xavi, Xabi Alonso, Mikel Arteta. Não é coincidência que tantos dos treinadores mais influentes do futebol contemporâneo tenham sido médios-centro; jogadores que pensavam o jogo antes de o jogar. E talvez seja precisamente aí que reside uma pista essencial para responder à pergunta que domina o futebol moderno: quanto tempo demora um treinador a implementar um modelo de jogo ganhador?
A resposta curta é simples e desconfortável: demora tempo, muito mais do que o futebol atual está disposto a aceitar.
O modelo de jogo, tantas vezes reduzido a um sistema tático no discurso público, é na verdade algo muito mais profundo. Corresponde a uma organização de comportamentos coletivos. Trata-se de posicionamento, de decisão e de como os jogadores pensam e se associam em cada momento do jogo. E isso não é automático. Para funcionar por reflexo cognitivo é preciso tempo.
Porque envolve a articulação das dimensões técnicas, táticas, físicas e psicológicas, cada comportamento coletivo exige repetição estruturada até se tornar automático. A adaptação faz-se por ciclos. Em termos realistas, a implementação de um modelo de jogo com uma identidade plenamente consolidada não ocorre antes de, pelo menos, uma época completa. Os grandes clubes, que mantêm os treinadores ao longo de várias épocas, demonstram isso.
Depois, o fator mais importante: os jogadores. Em termos simples, as equipas que pensam juntas jogam melhor. Isto ajuda a perceber o que leva os treinadores de topo a insistir tanto nos «perfis certos». Não basta saber jogar; é preciso saber pensar o jogo dentro de um sistema coletivo.
A grande contradição do futebol: exige resultados imediatos num processo que é lento
E aqui regressamos aos trincos. É lógico e muito intuitivo que os jogadores que exercem papéis centrais desenvolvam uma compreensão mais profunda das dinâmicas individuais e coletivas.
Guardiola pensava o jogo no Barcelona antes de o reinventar no banco. Xavi foi o cérebro de uma geração antes de assumir o comando técnico. Xabi Alonso é hoje um dos treinadores mais promissores da Europa depois de uma carreira marcada pela leitura do jogo. Mikel Arteta, menos posicional, mas igualmente central, dava nas vistas pela precisão de passe e pela capacidade de entender o jogo taticamente.
Talvez não exista prova científica direta de que os melhores treinadores foram trincos, mas há evidência suficiente para sustentar esta ideia lógica.
Ainda assim, na atualidade, mesmo os melhores intérpretes enfrentam um obstáculo maior do que o treino: a cultura do clube. É neste ponto que o futebol contemporâneo se confronta com a sua maior contradição: exige resultados imediatos num processo que, por natureza, é lento.
Os argumentos são claros. As evidências confirmam. Ganhar de forma sustentada leva, no mínimo, uma época, frequentemente duas ou três. O resto são exceções em contextos excecionalmente favoráveis.
Talvez devêssemos voltar onde começámos. Aos trincos. Aos que garantem equilíbrio. Aos jogadores que sempre souberam que o jogo não se resolve com pressa, mas com associação entre setores e posições em campo. E isso requer ponderação e... tempo."
Canadá: Dwayne de Rosario, o breakdancer que abriu caminho antes de haver caminho
"Chamam‑lhe “o padrinho do futebol canadiano” porque chegou antes do tempo e abriu portas que não existiam. Mostrou que era possível ser protagonista num país que ainda não sabia que podia tê‑los no futebol. Mas antes de ser profissional, DeRo foi b-boy, dançava break-dance e era conhecido como 'Timex'.
Dwayne De Rosario cresceu em Scarborough, num Canadá que ainda estava a aprender o que podia ser no futebol. Os pais tinham chegado da Guiana, nos anos 70, trazendo consigo a herança caribenha que moldou a casa: música alta, comunidade forte, futebol de bairro. O pai, Tony, jogava em ligas comunitárias guianenses em Toronto; a mãe, Yvonne, segurava a disciplina e a estrutura familiar. Dwayne começou a jogar aos 3 anos no Scarborough Blizzard, passou pelos Malvern Majors, e cresceu entre parques e ligas comunitárias onde o talento era visto mais como teimosia do que como promessa.
Antes de ser jogador profissional foi outra coisa: b‑boy. Dançava breakdance em festas, em centros comunitários, em competições improvisadas. Na comunidade, chamavam‑lhe Timex . Há quem diga que a forma como recebia a bola, aquele primeiro toque que parecia coreografado, vinha mais daí do que de qualquer treino formal.
Aos 14 anos recusou treinar no AC Milan porque não se sentia pronto para viver em Itália. O mundo ainda não fazia sentido à escala dele. O Canadá também não. A carreira começou por caminhos que não prometiam nada: Toronto Lynx, uma passagem pela Alemanha, regressos, tentativas. Mas quando entrou na MLS, primeiro em San Jose e depois em Houston, percebeu‑se que havia ali um jogador que não precisava de contexto para ser protagonista. Era agressivo, criativo, imprevisível, daqueles que mudam o ritmo de um jogo sem pedir licença.
O episódio mais caricato aconteceu em 2010, quando decidiu viajar para a Escócia para fazer testes no Celtic sem autorização do Toronto FC. Desapareceu durante dias, reapareceu em Glasgow, treinou, tentou a sorte. O clube não gostou, a relação azedou, e o episódio acabou por precipitar a sua saída.
Quando chegou ao Toronto FC, em 2009, já vinha com estatuto, mas o que encontrou foi um clube ainda à procura de identidade. Tornou‑se o rosto da equipa quase por osmose: era o jogador mais decisivo, o mais reconhecível, o mais capaz de transformar um jogo que não pedia para ser transformado. E talvez por isso a troca que o levou para os New York Red Bulls, em 2011, tenha ficado como uma espécie de trauma coletivo. Não era só perder um jogador importante; era perder alguém que parecia feito para aquele clube e aquela cidade. O regresso, em 2014, não trouxe o mesmo brilho, já não era o DeRo que resolvia jogos sozinho, mas era o DeRo que fechava ciclos.
Na seleção, foi durante anos o rosto de um projeto que raramente acompanhou o seu nível. Entre 1998 e 2015 tornou‑se o melhor marcador da história da equipa masculina canadiana, com 22 golos, e campeão da Gold Cup, em 2000. Jogava com uma confiança que parecia deslocada num país habituado a não incomodar.
O fim da carreira chegou em 2015, anunciado com a simplicidade de quem nunca precisou de grandes gestos para ser ouvido. Na despedida, escreveu um post no Instagram: “Foi sempre um sonho representar a minha família e a minha comunidade #Scarborough #Toronto #Canada da melhor forma possível em todos os sítios onde joguei. Saibam que os sonhos se tornam realidade.”
Como acontece com tantos jogadores a vida depois do futebol manteve-se ligada a ele. Tornou-se embaixador do Toronto FC, foi entrando cada vez mais no trabalho de base e criou a DeRo United, uma fundação e programa de desenvolvimento que oferece treino, acompanhamento e atividades a jovens que, de outra forma, dificilmente teriam acesso a esse tipo de estrutura.
Um dos momentos mais marcante da vida de DeRo foi, no mínimo, agridoce. Aconteceu em 2020, no dia em que recebeu a Ordem de Ontário , que foi também o dia da morte do seu pai. Aceitou a medalha num silêncio que não era de cerimónia, mas de luto. Chamou‑lhe “um dos dias mais emocionais da [sua] vida” e disse que a honra pertencia mais ao pai do que a ele.
Entretanto, a família tornou‑se quase uma extensão natural da carreira. O filho mais velho, Osaze, é avançado e está a construir caminho na MLS NEXT Pro, liga das equipas secundárias do principal campeonato norte-americano, enquanto o mais novo, Adisa, é guarda‑redes e assinou contrato com o Toronto FC, depois de passar pela DeRo United Academy. A filha, Asha, está envolvida nos programas comunitários ligados à fundação da família.
Hoje, quando lhe chamam “o padrinho do futebol canadiano”, é por tudo isto: pelo talento, pela teimosia, pelas portas que abriu, pelas que arrombou, pelas que inventou. Pelo jogador que foi e pelo país que ajudou a empurrar para o futuro."
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