"Comecemos onde poucos começam. Nos trincos. Pep Guardiola, Xavi, Xabi Alonso, Mikel Arteta. Não é coincidência que tantos dos treinadores mais influentes do futebol contemporâneo tenham sido médios-centro; jogadores que pensavam o jogo antes de o jogar. E talvez seja precisamente aí que reside uma pista essencial para responder à pergunta que domina o futebol moderno: quanto tempo demora um treinador a implementar um modelo de jogo ganhador?
A resposta curta é simples e desconfortável: demora tempo, muito mais do que o futebol atual está disposto a aceitar.
O modelo de jogo, tantas vezes reduzido a um sistema tático no discurso público, é na verdade algo muito mais profundo. Corresponde a uma organização de comportamentos coletivos. Trata-se de posicionamento, de decisão e de como os jogadores pensam e se associam em cada momento do jogo. E isso não é automático. Para funcionar por reflexo cognitivo é preciso tempo.
Porque envolve a articulação das dimensões técnicas, táticas, físicas e psicológicas, cada comportamento coletivo exige repetição estruturada até se tornar automático. A adaptação faz-se por ciclos. Em termos realistas, a implementação de um modelo de jogo com uma identidade plenamente consolidada não ocorre antes de, pelo menos, uma época completa. Os grandes clubes, que mantêm os treinadores ao longo de várias épocas, demonstram isso.
Depois, o fator mais importante: os jogadores. Em termos simples, as equipas que pensam juntas jogam melhor. Isto ajuda a perceber o que leva os treinadores de topo a insistir tanto nos «perfis certos». Não basta saber jogar; é preciso saber pensar o jogo dentro de um sistema coletivo.
A grande contradição do futebol: exige resultados imediatos num processo que é lento
E aqui regressamos aos trincos. É lógico e muito intuitivo que os jogadores que exercem papéis centrais desenvolvam uma compreensão mais profunda das dinâmicas individuais e coletivas.
Guardiola pensava o jogo no Barcelona antes de o reinventar no banco. Xavi foi o cérebro de uma geração antes de assumir o comando técnico. Xabi Alonso é hoje um dos treinadores mais promissores da Europa depois de uma carreira marcada pela leitura do jogo. Mikel Arteta, menos posicional, mas igualmente central, dava nas vistas pela precisão de passe e pela capacidade de entender o jogo taticamente.
Talvez não exista prova científica direta de que os melhores treinadores foram trincos, mas há evidência suficiente para sustentar esta ideia lógica.
Ainda assim, na atualidade, mesmo os melhores intérpretes enfrentam um obstáculo maior do que o treino: a cultura do clube. É neste ponto que o futebol contemporâneo se confronta com a sua maior contradição: exige resultados imediatos num processo que, por natureza, é lento.
Os argumentos são claros. As evidências confirmam. Ganhar de forma sustentada leva, no mínimo, uma época, frequentemente duas ou três. O resto são exceções em contextos excecionalmente favoráveis.
Talvez devêssemos voltar onde começámos. Aos trincos. Aos que garantem equilíbrio. Aos jogadores que sempre souberam que o jogo não se resolve com pressa, mas com associação entre setores e posições em campo. E isso requer ponderação e... tempo."

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