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sexta-feira, 5 de junho de 2026

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Integridade no Desporto: o Valor da Confiança


"O Campeonato do Mundo da FIFA é muito mais do que uma competição entre seleções. É o maior palco do futebol global, o momento em que o planeta suspende fronteiras, diferenças e conflitos para se reconhecer numa paixão comum. Durante algumas semanas, o futebol mostra a sua força mais pura: unir povos, inspirar gerações e transformar noventa minutos numa memória coletiva.
Mas o brilho do Mundial não pode ocultar a realidade. O futebol atravessa uma encruzilhada histórica. Nunca foi tão poderoso, tão rico, tão global e tão influente. Mas também nunca esteve tão exposto a riscos que ameaçam o seu ativo mais precioso: a confiança.
Corrupção, conflitos de interesse, opacidade financeira, manipulação de competições, apostas ilegais, abuso de poder, défices de boa governação e resistência ao escrutínio independente continuam a desafiar a credibilidade do jogo. E quando a credibilidade vacila, todo o ecossistema fica em risco: atletas, adeptos, clubes, ligas, federações, patrocinadores, investidores e instituições públicas.
O FIFAGate foi o momento de rutura. Expôs ao mundo aquilo que muitos suspeitavam e poucos enfrentavam: que a paixão popular podia ser capturada por sistemas fechados, sem transparência, sem controlo efetivo e sem verdadeira prestação de contas. Não foi apenas um escândalo judicial. Foi um abalo moral. Um aviso brutal de que nenhum poder no desporto é grande demais para cair quando perde a confiança daqueles que deve servir.
Foi nesse contexto que a SIGA nasceu. Não como mais uma voz no coro das boas intenções, mas como uma resposta reformista, independente e global à maior crise de integridade da história do desporto. A nossa missão foi clara desde o primeiro dia: transformar a indignação em ação, os princípios em padrões e a confiança em responsabilidade verificável.
Hoje, a SIGA é a principal coligação mundial para a integridade no desporto. A sua pegada é verdadeiramente global. Reúne organizações desportivas, governos, empresas, universidades, especialistas, juventude e sociedade civil em torno de uma agenda comum: boa governação, integridade financeira, transparência, proteção dos direitos humanos, igualdade, sustentabilidade e avaliação independente.
O progresso alcançado é real. A integridade deixou de ser um tema periférico para ocupar o centro da agenda internacional. A governação deixou de ser linguagem técnica para se tornar exigência pública. A transparência deixou de ser promessa para se tornar critério. E o escrutínio independente deixou de ser incómodo para se tornar indispensável.
Mas não confundamos progresso com missão cumprida.
O futebol continua a enfrentar forças poderosas que preferem a opacidade à verdade, o privilégio à responsabilidade e o silêncio à reforma. Há ainda demasiadas decisões tomadas longe do escrutínio público. Demasiados interesses cruzados. Demasiada resistência à fiscalização independente. Demasiada tentação de tratar a integridade como comunicação, quando ela tem de ser cultura, sistema e compromisso.
A posição da SIGA é clara e inegociável: a integridade não se proclama, prova-se. A independência não se declara, exerce-se. A reforma não se adia, cumpre-se.
O futebol não precisa de menos paixão. Precisa de mais confiança. Não precisa de menos ambição. Precisa de melhor governação. Não precisa de proteger instituições a qualquer custo. Precisa de proteger o jogo, os atletas, os adeptos e as gerações que nele acreditam.
O futuro do futebol não será decidido apenas nos estádios, nas finais ou nos gabinetes de poder. Será decidido pela coragem das suas instituições em serem transparentes, responsáveis e dignas da confiança que milhões nelas depositam.
Porque, no fim, há uma verdade simples: sem integridade, o futebol pode continuar a ser espetáculo, negócio e indústria. Mas deixará de ser aquilo que o tornou universal.
A confiança é o capital mais valioso do desporto. Perdê-la é fácil. Reconquistá-la exige liderança, coragem e reforma. É essa a missão da SIGA. E é esse o desafio maior do futebol."

Bósnia: Miralem Pjanić, o médio que fugiu da guerra e passava 17 horas num autocarro para ver a sua seleção jogar


"Cresceu no Luxemburgo, fez-se jogador em França e Itália, mas nunca esqueceu as origens: o jogador que liderava o meio-campo com a suavidade de um pianista escapou da guerra sempre quis representar a seleção do país onde nasceu, que ajudou a qualificar para um inédito Mundial, em 2014.

Não fosse um ataque de choro, ato absolutamente normal em bebés, e a vida de Miralem Pjanić talvez não fosse a mesma. Talvez não se tivesse tornado futebolista, maestro de meio-campos tão diversos como os de Metz, Lyon, Roma, Juventus ou Bósnia. Talvez não tivesse feito parte da primeira equipa a levar a seleção bósnia a um Mundial. Mais que isso, sabe-se lá até se estaria vivo.
O pai de Pjanić, Fahrudin, era futebolista nas divisões secundárias da Jugoslávia e, percorrendo os estádios do país naquele trágico dealbar dos anos 90, sentia o borbulhar das tensões e do ódio entre as diferentes etnias e nações. A Croácia estava prestes a entrar em guerra pela sua independência, a Bósnia não demoraria muito mais. Com um filho recém-nascido, Fahrudin percebeu que tinha de proteger a sua jovem família. Encontrou uma oportunidade no Luxemburgo, um contrato semi-profissional com o Schifflange, que o ajudaria também a encontrar um trabalho.
Mas sair da Bósnia só seria possível com um documento assinado pelo Drina Zvornik, clube de Fahrudin, que se recusou uma e duas vezes a fazê-lo. Até que a mulher, Fatima, decidiu ela própria tentar. Com o bebé Miralem, de poucos meses, nos braços, apresentou-se nos escritórios do clube, que mais uma vez negou à família o papel que lhes daria a passagem para uma vida nova, mais segura.
Até que, sentindo o desespero da mãe, já em lágrimas, o pequeno Miralem começou a chorar desalmadamente. “Quando comecei a chorar isso teve um efeito tal na secretária do clube que ela finalmente disse ‘OK, dou-vos o documento, mas estou a fazê-lo apenas pela criança'”, contou Pjanić em entrevista ao “The Guardian” em 2018, quando era jogador da Juventus.
No Luxemburgo, os pais revezavam-se nos empregos para que Miralem não estivesse sozinho. Não havia dinheiro para contratar quem cuidasse dele. O pai trabalhava de manhã e à tarde e a mãe fazia limpezas até à noite. “Quando estava com o meu pai e ele tinha de ir para os treinos, levava-me. Foi assim que me tornei fã de futebol”, revelou numa conversa com os meios da FIFA, em março. Enquanto isso, da terra natal, Zvornik, chegavam notícias de massacres, de pessoas obrigadas a deixar as suas casas. Mais de 100 mil bósnios perderam a vida na guerra de independência do país, a maioria muçulmanos como os Pjanić.

A escolha pela Bósnia
Não demorou até Miralem Pjanić deixar de ser um simples pequeno acompanhante do pai nos treinos do Schifflange. Aos 7 anos começou a jogar nas camadas jovens do clube e aos 14 mudou-se para a academia do Metz, de França, a apenas 40 minutos de casa. Estreou-se pelos Grenats aos 17 anos e pouco depois já estava no Lyon, como sucessor natural de Juninho Pernambucano, até no jeito para marcar livres. Seguiram-se cinco temporadas na AS Roma. A meio da sua primeira experiência italiana, foi fulcral a levar a Bósnia a qualificar-se para uma inédita presença num Campeonato do Mundo, no Brasil 2014.
Jogar pela Bósnia não era um dado adquirido. Pjanić cresceu no Luxemburgo e fez-se futebolista em França. Foi internacional jovem nas seleções do grão-ducado e, em 2008, teve uma sondagem por parte de Raymond Domenech, que o queria na seleção francesa. Só que o coração há muito tinha decidido. Desde os tempos em que Miralem apanhava um autocarro e percorria meia Europa para ver a Bósnia jogar.
“Passava 17 horas num autocarro com o meu pai para irmos apoiar a nossa seleção. E, ao viver essa euforia no estádio, o sonho de jogar ali cresceu. Eu tinha uns 11 ou 12 anos na altura e nunca me vou esquecer desses momentos”, narrou à FIFA. Quando foi chamado à seleção principal do Luxemburgo, Pjanić declinou educadamente. “As minhas raízes eram bósnias e em casa sempre seguimos as tradições e costumes do país. Por isso mesmo escolhi a Bósnia. Eu sei de onde venho e onde nasci.”
Apesar de alguns problemas em obter o passaporte bósnio, que obrigou até à intervenção da presidência do país, Pjanić jogou pela primeira vez pela seleção balcânica em 2008. A estreia em Mundiais aconteceu em pleno Maracanã, frente à Argentina.

O problema russo
Em Roma, chamavam-no de Pequeno Príncipe. Juntou-lhe outra alcunha, adotada em Turim: “Pianista”, uma brincadeira entre o som do seu nome e a forma suave e artística como marcava livres e geria o meio-campo. Do clube da capital seguiu para a Juventus, que ajudou a conquistar quatro títulos italianos, numa altura em que era uma das referências da Serie A. A ida para o Barcelona, em 2020, significou um inesperado volte-face: o talento e criatividade de Pjanić, a sua visão e capacidade de drible, não encaixaram no meio-campo blaugrana, contra todas as expectativas.
Seria emprestado ao Beşiktaş, jogou depois no Sharjah, dos Emirados Árabes Unidos e, por fim, em 2024, assinou com o CSKA Moscovo. Não sem polémica.
Em 2022, Pjanić criticou fortemente a federação bósnia por ter aceitado jogar um encontro de preparação em São Petersburgo com a Rússia. O jogo acabaria por não se realizar. Nas suas redes sociais, mensagens emotivas sobre os sons de sirenes que a sua família ouvia na Bósnia surgiam como um implícito apoio ao fim dos ataques russos na Ucrânia. E, dois anos depois, aceitou assinar por um clube russo. Foi acusado de hipocrisia.
De acordo com o portal russo Meduza, ligado à oposição, chegado ao país Pjanić terá dado um passo atrás quando confrontado com declarações antigas. “Nunca disse nada contra a Rússia ou o futebol russo e lamento se as minhas palavras ofenderam alguém. Estou pronto para pedir desculpas”, disse, sublinhando também a vontade de que o futebol russo voltasse a estar presente em competições internacionais.
Talvez por isto Pjanić tenha anonimamente deixado o futebol no fim da época passada. Aos 36 anos, vive discretamente no Dubai, onde está ligado a academias locais e se tem iniciado como empresário. Ajuda falar sete línguas: bósnio, luxemburguês, francês, inglês, alemão, italiano e espanhol.
Mas, essencialmente, diz que ali é apenas “um pai” para o seu filho, chamado Edin, como Džeko, seu amigo e companheiro de sempre na seleção bósnia e que ainda estará no Mundial 2026, no regresso do país a maior cimeira do futebol."