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segunda-feira, 11 de maio de 2026

De Mourinho a Zalazar, o Benfica é um castelo de cartas ao vento


"Da hesitação fatal que 'entrega' o 'Special One' ao Real Madrid à ultrapassagem do Sporting pelo talentoso jogador do SC Braga, a Luz vive mergulhada numa perigosa crise de autoridade e gestão

Há um silêncio pesado na Luz, o tipo de silêncio que precede não a bonança, mas o desmoronamento. O Benfica de Rui Costa, que prometia ser «o Benfica dos adeptos», assemelha-se hoje a um castelo de cartas exposto a uma nortada impiedosa.
E a carta que ameaça levar tudo consigo tem o nome de José Mourinho. No futebol de alta rotação, a indecisão é o pecado capital que não conhece perdão e a estrutura encarnada parece ter-se esquecido de que os comboios de elite não esperam por quem não sabe o que quer.
Diz o povo que quem hesita, perde. Na Luz, hesitou-se 15 dias. Quando o Special One — que nunca escondeu o coração encarnado, mas que nunca esqueceu o profissionalismo frio — bateu à porta para discutir o futuro e a renovação, encontrou uma direção em modo pausa. Rui Costa e os seus pares ficaram a ponderar, a medir custos, a avaliar ventos e, talvez, a tentar decifrar se o peso do passado ainda servia de lastro para o futuro.
O problema é que, no xadrez de Florentino Pérez, o tempo não é uma variável; é uma arma. E enquanto em Lisboa se faziam reuniões de debriefing, em Madrid preparava-se o assalto final. O Real Madrid atacou com a voracidade de quem não admite um «não». E sejamos honestos: quem consegue dizer «não» ao maior clube do mundo quando o trono do Bernabéu está quase vago?
Mourinho poderá ser do Benfica pela raiz, mas pertence ao Olimpo pela obra. Ver o treinador português escapar por entre os dedos devido à inércia de quem devia decidir no momento é o retrato fiel de uma estrutura que parece ter perdido o instinto matador e a capacidade de segurar os seus próprios símbolos.
Mas um mal, como as tempestades de outono, nunca vem só. Enquanto o Benfica se perde em renovações penosas e decisões adiadas — veja-se a gestão de expectativas em torno de Otamendi ou a falta de definição sobre alguns miúdos da casa —, a concorrência não dorme. E o golpe deste sábado dói especialmente por ser desferido por quem, do outro lado da 2.ª Circular, parece ter aprendido a lição da agilidade tática e negocial.
Rodrigo Zalazar, o uruguaio que era a prioridade absoluta na Luz para o novo meio-campo, o homem que deveria trazer músculo e inteligência ao setor intermédio, pode estar a caminho de Alvalade. Frederico Varandas não esperou por pareceres nem por janelas de oportunidade incertas; sentou-se com António Salvador e, num ápice de pragmatismo, fechou o cerco. É uma ultrapassagem pela direita, na curva, que deixa a SAD encarnada a verter fumo pela falta de pulso.
O Benfica está a ser ultrapassado não por falta de meios financeiros, mas por uma gritante falta de agilidade política. Entre a saída iminente de um treinador de elite e a perda de alvos de mercado prioritário para os rivais diretos, a pergunta impõe-se com uma crueza inevitável: o que resta, afinal, do projeto de Rui Costa?
Resta um clube que, no papel e na paixão dos adeptos, reclama para si a grandeza mundial, mas que na prática da gestão diária se comporta como um gigante adormecido, assistindo, de braços cruzados, aos outros erguerem as pontes que ele próprio deixou por construir.
O castelo está ao vento; resta saber se alguém terá a coragem de segurar as cartas antes que a última caia."

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