Últimas indefectivações

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Quatro casos especiais no Benfica


"O Benfica venceu o Villarreal no último teste antes do primeiro jogo oficial da temporada, marcado para quinta-feira frente ao St. Gallen, na Liga Europa. Mais do que o resultado, o encontro com os espanhóis deixou vários sinais: a convicção de que Marco Silva ainda tem muito trabalho pela frente na construção da equipa e a ideia de que já foram dados alguns passos positivos.
Numa primeira análise a alguns dos jogadores disponíveis do Benfica, ainda sem os jogadores que estiveram no Mundial e reforços por contratar, identifico quatro casos específicos que exigem decisões ponderadas por parte da estrutura do futebol profissional encarnado. O primeiro é Prestianni. O jovem argentino já soma mais de duas épocas no Benfica, sem ainda se afirmar plenamente. São evidentes as suas dificuldades na tomada de decisão no momento da definição, mas importa não esquecer que tem apenas 20 anos e apresenta características diferenciadoras. Frente ao Villarreal, Prestianni entrou e mudou o jogo do Benfica. Deu velocidade à transição ofensiva, trouxe desequilíbrio e encontrou a linha de passe que resultou no golo de Pavlidis — algo que a equipa não tinha conseguido até esse momento, já na segunda parte.
O interesse do Trabzonspor e de outros clubes é compreensível, mas 20 milhões de euros podem ser insuficientes tendo em conta a idade, o potencial e a irreverência do extremo. Na minha opinião, Prestianni ainda pode ser muito útil ao Benfica. Pode não ser titular indiscutível nem cumprir todas as promessas, mas parece um desperdício não explorar melhor o seu talento. Creio que nesta altura fará falta a Marco Silva. Basta recordar o caso de Schjelderup, que passou de dispensável a uma das maiores certezas em poucos meses.

!Prestianni ainda pode ser muito útil ao Benfica."
Os outros três casos que merecem atenção são os jovens Banjaqui, José Neto e Miguel Figueiredo. Banjaqui e José Neto, laterais-direito e esquerdo, respetivamente, mostram qualidade e personalidade para integrar a equipa principal do Benfica. Ambos têm 18 anos e não devem passar a época como terceiras opções — algo que pode ser particularmente evidente no caso de Banjaqui, caso Bah e Dedic se mantenham no plantel. Já José Neto parece ter argumentos suficientes para disputar um lugar com Samuel Dahl.

"Um jogador com o perfil e qualidade de Miguel Figueiredo precisa de competir regularmente."
Por fim, Miguel Figueiredo surge como um caso que, apesar de ainda precoce, merece acompanhamento atento. O médio-centro de apenas 17 anos, observado por Marco Silva na pré-época, demonstrou nos minutos que teve frente ao Villarreal uma qualidade técnica e visão de jogo impressionantes. Um jogador com este perfil precisa de competir regularmente. Dificilmente terá espaço imediato no onze principal do Benfica, mas o cenário ideal passa por ganhar minutos num contexto competitivo mais exigente do que os escalões de formação. Estes quatro jogadores não serão, seguramente, as decisões mais urgentes para Marco Silva, mas podem representar uma parte importante do futuro próximo do Benfica. E, por isso, merecem ser analisados com especial atenção."

A comunicação da pré-temporada


"O FC Porto entra nesta pré-temporada com uma realidade diferente: é campeão nacional. Essa condição permite ao clube partir para a nova época com uma mensagem de confiança e ambição.
A política de comunicação tem seguido precisamente essa linha. O FC Porto abriu as portas da preparação para transmitir uma ideia clara: o campeão está confortável com a sua identidade e quer partilhar essa confiança com quem está fora do campo.
Mais do que mostrar trabalho, o FC Porto está a trabalhar a perceção. Está a criar proximidade, a alimentar o sentimento de pertença e a transformar a pré-temporada num espaço de afirmação.
Há, no entanto, uma dimensão desta estratégia que merece atenção: a exposição pública do presidente. André Villas-Boas tem assumido uma presença muito forte na comunicação do clube. Esteve no centro das imagens do primeiro dia de trabalho, surge com frequência nos conteúdos de bastidores e teve já três intervenções públicas de relevo num espaço de mês e meio.
A presença presidencial faz parte da identidade do FC Porto e pode reforçar uma ideia de liderança e proximidade. Mas, numa estratégia de comunicação, existe sempre uma linha que exige equilíbrio: a mensagem do clube deve continuar a ser maior do que a mensagem da sua principal figura.

Sporting: a mudança sem perder a identidade
O Sporting parte para uma época diferente. Não porque tenha de reconstruir uma identidade, mas porque tem de renovar uma equipa que lhe deu dois títulos nacionais nos últimos três anos.
A pré-temporada surge, por isso, como um momento de transição. Há novos jogadores a integrar, novos equilíbrios a criar e uma necessidade clara: mostrar que a mudança não significa rutura.
A comunicação do clube tem seguido uma linha de equilíbrio, mantendo abertura, mas sem excessos. Os jogadores têm assumido espaço nos meios oficiais, com declarações e interação nas redes sociais, transmitindo uma ideia de normalidade num período de transformação.
Ao mesmo tempo, o silêncio público do presidente e do treinador parece ser uma decisão consciente. A principal atenção mediática está concentrada no mercado e qualquer aparição pública correria o risco de ser reduzida a perguntas sobre vendas, possíveis saídas e reforços. E no mercado, nenhum clube consegue controlar totalmente a narrativa, optando por não alimentar um espaço onde dificilmente conseguiria impor a sua própria mensagem.
O desafio passa agora por garantir que a discussão sobre quem sai e quem chega não ultrapassa a discussão sobre aquilo que permanece. Porque o maior desafio do Sporting não é substituir os jogadores que saíram. É demonstrar que a identidade que os levou a ganhar continua intacta.

Benfica: fechar-se no castelo
O Benfica vive um momento diferente. Os resultados da última época, todo o envolvimento em torno da mudança de treinador, a contestação ao presidente e a necessidade de disputar uma pré-eliminatória de acesso à Liga Europa criam um contexto onde a margem para erro é mínima.
Por isso, o clube optou por uma estratégia de contenção, tendo Marco Silva assumido o principal protagonismo comunicacional de uma pré-temporada marcada por imagens de treinos e bastidores divulgadas nos meios oficiais do clube. E o treinador foi assertivo. Falou da necessidade de reforços e de jogar melhor, deixando ainda um desafio público: estancar as fugas de informação, um ponto onde, defendeu, o Benfica tem de voltar a ser Benfica.
O Benfica fechou-se no castelo. Num momento em que a equipa vai realizar uma pré-temporada em competição, com uma eliminatória europeia pelo meio, o clube escolheu proteger o grupo, reduzir ruído e concentrar a mensagem no essencial. E, no clube, assumem e aceitam esse risco. Porque acreditam que, neste momento, a comunicação mais importante não será feita fora, mas sim dentro do campo.
E isso não é ausência de política de comunicação. É uma decisão de comunicação. No Seixal (e, principalmente, na Luz), sabem que só as vitórias trarão serenidade — e que esse é o único caminho para o Benfica voltar a ser Benfica."

Porque é que já não vemos futebol?


"À medida que o Campeonato do Mundo se aproxima do fim, dei por mim a pensar numa ideia aparentemente contraditória: nunca tivemos tanto futebol à nossa frente. E, paradoxalmente, talvez nunca o tenhamos visto tão pouco.
Há dias fiz a mim próprio uma pergunta estranha. Passei noventa minutos em frente a um jogo de futebol. Mas quantos desses noventa minutos passei verdadeiramente a vê-lo? À primeira vista, a pergunta parece absurda. Claro que vi o jogo. Vi os golos. As oportunidades. As substituições. As decisões do árbitro. Até a publicidade das pausas para hidratação. No final, até sabia as estatísticas. A posse de bola. Os remates. As defesas dos guarda-redes. Os cantos das duas equipas. Os quilómetros percorridos. Os mapas de calor. Mas, quanto mais pensava nisso, mais percebia que talvez tivesse visto apenas aquilo que todos viram. E quase nada daquilo que realmente aconteceu.
Hoje já não vemos apenas futebol. Comentamos futebol. Publicamos futebol. Discutimos futebol. Recortamos futebol. Apostamos futebol. Transformamo-lo em vídeos de quinze segundos — às vezes, menos. Vivemos o jogo em direto, mas muitas vezes deixamos de o observar. Há quem esteja no estádio e olhe mais para o telemóvel do que para o relvado. Há quem publique uma opinião antes de compreender o lance. Há quem critique uma substituição antes de perceber o seu efeito. E há até quem deixe de ver o jogo quando o seu ídolo sai de campo. O caso de Cristiano Ronaldo é particularmente revelador. Segundo um estudo, quando foi substituído no Portugal-Croácia, quase metade dos telespectadores deixaram de acompanhar a partida.
Talvez esse dado diga muito sobre o tempo em que vivemos. Para muitos, o jogo já não é o jogo. É o protagonista. É o momento. É o recorte. É aquilo que cabe no ecrã do telemóvel. Nunca tivemos tanto acesso ao futebol.
Nunca tivemos tanta dificuldade em contemplá-lo. Um jogo continua a durar noventa minutos, mas para milhões de pessoas resume-se ao momento que o algoritmo escolhe. O golo. O erro. A polémica. O meme. O resto desaparece.
Talvez seja por isso que tantos saíram deste Mundial convencidos de que viram tudo, quando, na verdade, viram sobretudo aquilo que as redes sociais decidiram mostrar-lhes.
Ver futebol nunca foi apenas olhar para a bola. É olhar para quem não a tem. Para o lateral que dá largura. Para o médio que fecha uma linha de passe. Para o central que corrige uma cobertura. Para o avançado que arrasta um defesa sem tocar na bola. Para o guarda-redes que orienta a equipa inteira antes de fazer uma defesa. O futebol vive tanto do que acontece como daquilo que está prestes a acontecer. E isso exige tempo. Atenção. Paciência. Tudo aquilo que o mundo moderno parece ter dificuldade em oferecer.
Talvez o exemplo mais evidente desta transformação tenha acontecido neste Campeonato do Mundo. Pela primeira vez, assistimos à introdução de duas pausas obrigatórias para hidratação em todos os jogos. Oficialmente, a medida foi justificada pelas elevadas temperaturas. Mas estas interrupções acabaram também por criar novos momentos de exposição televisiva e comercial, aproximando ainda mais o futebol do modelo dos grandes desportos norte-americanos, onde cada pausa representa uma oportunidade. Dentro das quatro linhas, o efeito também foi evidente. Muitos treinadores passaram a usar esses minutos como autênticas pausas técnicas. Reorganizam posicionamentos, corrigem comportamentos, ajustam a pressão, mudam a estratégia.
É um sinal dos tempos. O futebol continua a ser o mesmo jogo. Mas a forma como o consumimos, interrompemos, analisamos e vendemos está a mudar rapidamente. Durante décadas, o futebol foi uma experiência coletiva. Hoje, tornou-se também uma sucessão de estímulos individuais. Cada adepto vê o seu próprio jogo. Um segue as estatísticas. Outro acompanha os comentários no X. Outro espera pelo vídeo viral. Outro vê apenas o lance polémico. No fim, todos dizem que viram o mesmo jogo. Mas talvez já quase ninguém tenha visto exatamente a mesma coisa.
O futebol habituou-nos a discutir resultados. Mas deveríamos discutir também a nossa forma de olhar. Porque há beleza que não cabe num resumo. Há inteligência que não aparece num clip. Há movimentos que não se tornam virais. Há jogadores que fazem grandes jogos sem protagonizarem um único momento viral. Estamos a ganhar acesso. Estamos a ganhar informação.
Estamos a ganhar velocidade. Mas estamos a perder profundidade. O futebol não precisa apenas de melhores jogadores, melhores treinadores ou melhores árbitros. Precisa também de melhores observadores. Gente capaz de ver para lá do golo. Para lá do erro. Para lá do escândalo. Para lá do ruído.
Enquanto continuarmos apenas à espera do próximo momento viral, estaremos sempre a ver muito pouco do jogo mais bonito do mundo."

Génios dos negócios!!!

Fácil...

É o que acontece, quando a Final não é disputada pelas duas melhores equipas da competição...!!!

Zero: Mercado - Tem quase dois metros e vai reforçar o ataque do FC Porto

BF: Central...

5 Minutos: Diário...

Terceiro Anel: Diário...

Observador: E o Campeão é... - Espanha consegue contornar a garra da Argentina?

Duas maneiras de ganhar um Mundial


"Há finais que simplesmente identificam um campeão para a História. Outras, mais raras, acabam por marcar uma época, não pelo resultado, mas pelo que revelam sobre o caminho que o futebol decidiu seguir. A de domingo, em Nova Jérsia, tem esse aroma. Não sei se ficará na memória pela qualidade do jogo. Sei que ficará pelo que representa.
Espanha e Argentina não são apenas duas grandes seleções que se encontraram no último jogo do torneio. São duas respostas diferentes à mesma pergunta: como se constrói um campeão? Uma responde com a paciência de um arquiteto. A outra, com a obstinação de quem ganhou tanto que deixou de acreditar em derrotas definitivas.
Comecemos pela Espanha, que chega a esta final sem precisar de pedir desculpa a ninguém. Já não é aquela seleção que vivia à sombra de 2010, recitando de cor os nomes de Xavi e Iniesta como quem reza um terço. É outra coisa. Luis de la Fuente construiu uma equipa capaz de mudar de protagonistas sem perder a identidade, e isso, mais do que qualquer nome próprio, é o que deve preocupar os adversários. Fabián Ruiz assumiu o comando do meio-campo e foi decisivo frente à Bélgica; Mikel Merino saiu do banco para marcar a Portugal e voltou a ser determinante mais tarde. Um selecionador capaz de deixar Pedri no banco numa meia-final de um Campeonato do Mundo sem que isso provoque um debate nacional possui algo que muito poucos treinadores conseguem alcançar: autoridade tranquila.
A vitória sobre a França foi muito mais do que uma qualificação para a final. Confirmou que esta Espanha defende tão bem como ataca. Ter sofrido apenas um golo até às meias-finais resume a solidez de uma equipa que, desde o Europeu de 2024, deixou de ser uma promessa para se transformar numa candidata permanente aos grandes títulos. Chegar a esta final com possibilidades reais de conquistar o segundo Mundial da sua história, dezasseis anos depois de Joanesburgo, não é fruto do acaso. É a consequência lógica de um trabalho que ninguém interrompeu a meio do caminho.
E é precisamente aqui que a reflexão começa a incomodar um pouco outros países.
Do outro lado aparece uma Argentina que talvez não jogue melhor do que ninguém, mas que continua determinada a não perder quando realmente importa. Sofreu contra Cabo Verde, contra o Egito, contra a Suíça e sofreu de forma quase indecente frente a uma Inglaterra que esteve a um remate de escrever a sua própria história de redenção. Esteve em desvantagem na meia-final, deu a volta ao resultado, sempre com a assinatura de Messi nas duas assistências da reviravolta. Aos 39 anos, o argentino disputa a terceira final de um Campeonato do Mundo, um feito que, até agora, apenas o mítico Cafu tinha conseguido. Há qualquer coisa de comovente e, ao mesmo tempo, desesperadamente eficaz nesta Argentina de Scaloni: a convicção de que competir bem vale tanto como jogar bonito e de que um título conquistado com sofrimento ocupa exatamente o mesmo espaço na vitrina. Se vencer, será a primeira seleção a revalidar um Campeonato do Mundo desde o Brasil de 1958 e 1962. Não é um pormenor. Demonstra a dificuldade de uma competição que, infelizmente para os amantes do futebol, obriga a esperar quatro anos por uma nova oportunidade.
E Portugal, onde fica no meio de tudo isto?
Cabe-lhe olhar de fora, o que já não é pouco depois do que aconteceu este mês. Há treze meses, em Munique, derrotou esta mesma Espanha na final da Liga das Nações, numa noite resolvida nos penáltis que ainda hoje é recordada com orgulho. Foi a demonstração de que Portugal tem qualidade suficiente para discutir qualquer jogo de igual para igual. Isso continua a ser verdade e ninguém o deve pôr em causa. Mas o futebol tem uma crueldade elegante: não perdoa distrações e os ciclos mudam muito mais depressa do que gostaríamos de admitir. Há poucos dias, nos oitavos de final deste Mundial, foi essa mesma Espanha quem eliminou Portugal, graças a um golo tardio de Mikel Merino, um lance que muito provavelmente colocou um ponto final na carreira internacional de Cristiano Ronaldo. Entre Munique e Dallas passaram apenas treze meses. Tempo suficiente para que tudo mudasse de lado.
A resposta portuguesa a essa eliminação talvez diga mais sobre o país do que a própria derrota. Em vez de dar continuidade a um projeto para que amadurecesse, a Federação mudou de selecionador em poucos dias e apostou em Jorge Jesus, aos 71 anos, para a sua primeira experiência à frente de uma seleção nacional. Pode revelar-se uma boa decisão; o seu currículo fala por si. Mas convém não confundir essa escolha com continuidade. Trata-se de uma rutura motivada pela urgência, exatamente o contrário do que fez a Espanha depois de perder finais ou meias-finais importantes. A Roja manteve o rumo, protegeu o projeto e teve paciência. A Espanha que hoje disputa o título é a mesma que Portugal derrotou na Alemanha e a mesma que, mais tarde, eliminou a equipa portuguesa no Texas. A diferença nunca esteve na qualidade dos jogadores. Esteve na paciência de quem liderou o projeto.
Do talento português já ninguém duvida. A questão continua a ser outra: saber se o país está disposto a esperar o tempo necessário para que um projeto dê frutos ou se continuará a procurar sempre a solução que promete resultados imediatos. É uma pergunta incómoda, mas talvez seja precisamente esta final que nos obrigue a fazê-la.
Para além do resultado, este jogo representa também o confronto entre dois símbolos do futebol contemporâneo: a Europa contra a América do Sul, o campeão do Mundo frente ao campeão da Europa, a capacidade argentina para resistir contra a ambição espanhola de dominar os jogos. É Messi, provavelmente numa das últimas grandes noites da sua carreira, frente a uma geração espanhola que mal tinha começado a ver futebol quando ele já conquistava títulos. Poucas finais reúnem com tanta clareza o fim de uma era e o nascimento de outra em noventa minutos.
Não sei quem vai levantar a Taça do Mundo, nem me atrevo a fazer um prognóstico. O que sei é que há finais que não se limitam a entregar um troféu. Também ajudam a explicar o momento que o futebol atravessa. E esta, estou convencido, será uma delas. Nós, do lado de fora, faríamos bem em olhar menos para o resultado de domingo e muito mais para o processo que, no fim, permite a uma equipa ou a uma seleção alcançar um grande objetivo."

A segunda final em castelhano


"O dia da final do Campeonato do Mundo de Futebol é sempre especial. Mesmo que o ambiente desiluda ou o jogo fique aquém do expectável. E isso, por vezes, acontece. Em relação à festa nas bancadas, devo desde já dizer que, em quatro das cinco finais que vi ao vivo, esta foi muito pobrezinha. O espetáculo envolvente é produzido a pensar nas plateias televisivas e não em quem está no estádio, e, pior ainda, como muitos milhares de ingressos são comprados com grande antecedência, sem que haja ideia de quem vai defrontar-se, já vi, em estádios com capacidade para 80 mil espetadores, haver dez mil apoiantes de cada equipa e 60 mil turistas do futebol que, por muitas fotografias que tirem, tornam o ambiente morno. A única final que vi com vida própria foi o França-Brasil de 1998, porque se disputou em… Paris; às restantes, Alemanha-Argentina (1990), França-Itália (2006), Espanha-Países Baixos (2010) e Argentina-Alemanha (2014) faltou a força de fora para dentro que se esperaria numa final do Campeonato do Mundo.
Quanto ao futebol, e tenho memória de todas as finais a partir de 1966, houve de tudo: polémica que subsiste até aos dias de hoje no Inglaterra-Alemanha (1966); vitória do futebol-arte, no Brasil-Itália (1970); duelo de titãs, Beckenbauer contra Cruyff, (1974); Argentina levada ao colo (1978); Itália sublime depois de Sarriá (1982); Diego Armando ‘Maravilha’ Maradona (1986); futebol resultadista (1990, 1994 e 2006); as cores unidas da França (1998); bom Brasil, vergonha na arbitragem (2002); y viva España (2010); o susto da Alemanha (2014); confirmação gaulesa (2018); e a final nivelada por cima mais equilibrada de sempre (2022).
E hoje? A arte de Messi ou o rigor de Rodri? A generosidade de Alvarez ou a afirmação de Yamal? Sclanoni na história, igualando Pozzo, ou De la Fuente como Vicente del Bosque?
Querem argumentos cabalísticos? Em 2010, antes da vitória de ‘La Roja’ em Joanesburgo, José Mourinho assinou pelo Real Madrid; em 2026, também. Em 2010, a Espanha eliminou Portugal, por 1-0, nos oitavos-de-final; em 2026, também.
‘Fait-divers’ à parte, a verdade é que, em estilos diversos, os (justos) finalistas se equivalem, nesta segunda final em castelhano (a primeira foi o Uruguai,2-Argentina,1, de 1930). Um desejo: o Mundial da América do Norte, que foi tão bem disputado, em palcos de luxo, merece uma final inolvidável.

* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minutemen, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…"

O Mundial da exaustão


"Um mês e meio de olhos postos na América. Com o aproximar da época desportiva e a precoce eliminação portuguesa, parece que o tempo distendeu em algum momento. Não se deixem enganar, é mesmo o campeonato do mundo mais longo de sempre.
É o Mundial da exaustão. Exaustão da maratona de jogos, mas também exaustão de jogadores. Numa altura em que se debate o congestionamento dos calendários, este Mundial é business as usual: mais jogos dos melhores jogadores, das melhores equipas. Joga-se de julho a julho.
Falei em business? Este é o Mundial das receitas recorde. Bilhetes a preço de ouro, receitas record de direitos televisivos e patrocínios. Nos Estados Unidos tudo existe em proporções desmedidas. Começa no número de jogos, passa pelas receitas e acaba, claro, na influência política. Balogun e o Irão fizeram correr muita tinta. Talvez não a suficiente.
Este foi o Mundial em que o dinheiro calçou chuteiras. As pausas para hidratação, por entre jogos com tórridos 15 graus, travestiram de futebol uma medida metida a martelo para gerar mais dinheiro. Fez-nos perceber como o jogo e o momento das equipas é volátil: a ideia da pausa ser benéfica para quem estava pior no jogo foi repetida e com fundo de verdade.
Foi o Mundial das histórias de encantar. Vozinha foi o protagonista de um conjunto de selecções que se estrearam na prova. Talvez os jogadores de Haiti, Curaçau e Uzbequistão nunca sonhassem jogá-la. Este foi um dos méritos do alargamento. Embora nem sempre competitivas, foram selecções que trouxeram histórias e sonhos novos ao mundo. Num outro patamar, também a Noruega, nos ombros de Haaland, fez sonhar uma geração de noruegueses com feitos inéditos.
Também foi o Mundial do alargamento da intervenção do VAR. O fora-de-jogo automático é bem-vindo — alguém sente a falta do suplício da introdução de linhas? —, bem como o cronómetro para reposições de bola e substituições. Há números que comprovam o aumento do tempo útil. A lei Prestianni, a possibilidade de reversão de cantos ou de segundos amarelos servem a decência e a verdade desportiva.
Por fim, foi o Mundial do adeus. Pode ser o Mundial, mais um, que reforça a coroa na cabeça de Messi — mais uma Bola de Ouro a caminho? —, mas é o Mundial do provável adeus a Modric, Neuer, Neymar, De Bruyne, James e Van Djik. E claro, Ronaldo. O adeus de Portugal, numa participação muito enublada, deixa uma triste fotografia do melhor futebolista português de sempre. Para desilusão de todos, mas para surpresa de ninguém."

Argentina-Espanha: emoção 'versus' racionalidade


"Afinal de hoje coloca frente a frente aquelas que provaram ser as duas melhores seleções do Mundial 2026. Há algo que une Lionel Scaloni e Luís de la Fuente: ambos tornaram as suas seleções em presenças constantes nas decisões. O que os distingue é a forma como as suas equipas vivem o futebol. De um lado, uma Argentina movida pela emoção. Do outro, uma Espanha que faz da racionalidade a sua principal força.

Argentina: Uma equipa emocional
A Argentina é uma equipa emocional. A paixão que os jogadores demonstram sempre que vestem a camisola albiceleste é incrível. Esta seleção tem tudo aquilo que distingue as grandes equipas: garra, crença, união, qualidade e genialidade.
O mérito de Scaloni está em ter conseguido juntar a estes ingredientes uma boa organização coletiva, agressividade e uma enorme capacidade para ler os jogos. As alterações que promove, durante as competições ou nos próprios jogos, acrescentam quase sempre algo à equipa. Esta é uma seleção que nunca deixa de competir. Mesmo nos momentos de maior dificuldade, continua a acreditar e a lutar. Os jogos frente ao Egipto e à Inglaterra demonstram bem essa identidade. A forma como joga torna-a extremamente difícil de defrontar. A intensidade e a agressividade que coloca em cada lance condicionam qualquer adversário.
Defensivamente, apresenta processos simples, mas muito eficazes. Há entreajuda, compromisso coletivo e uma enorme capacidade para disputar cada bola. Ofensivamente, os argumentos são muitos.
No meio-campo, Enzo Fernández e Mac Allister formam uma dupla extraordinária. Têm visão de jogo, qualidade no passe, remate e capacidade para chegar à área adversária. Defensivamente, são agressivos, inteligentes no posicionamento e muito competentes na recuperação.
Na frente, Julián Álvarez é um avançado muito acima da média. Muitas vezes parece desligado do jogo e, de repente, marca um golo extraordinário ou oferece um passe decisivo que ninguém antecipava.
Depois há um jogador que faz crescer todos os que jogam à sua volta. Um jogador que torna o coletivo mais forte e potencia as qualidades dos colegas. Esse jogador chama-se Lionel Messi.

Espanha: uma equipa racional
A Espanha de De la Fuente chegou à final em todas as competições que disputou: Euro 2024, Liga das Nações 2025 e agora Mundial 2026.
Este percurso diz muito da qualidade do treinador espanhol, que já tinha conquistado um Europeu de sub-19 e um Europeu de sub-21. A liderança de De la Fuente é bem visível. O grupo está sempre acima dos estatutos e as individualidades crescem através do coletivo.
O sistema tático está perfeitamente consolidado, o ADN da equipa é evidente e as variantes surgem naturalmente em função das características dos jogadores que estão em campo. Esta é uma seleção que procura controlar todos os momentos do jogo. Demonstra coragem, organização e maturidade competitiva.
A reação à perda de bola é muito forte porque as linhas estão sempre compactas. Com bola, controla o ritmo do jogo e condiciona os adversários através da posse. Os laterais são competitivos nos dois momentos do jogo. O guarda-redes controla as costas da defesa e os centrais garantem qualidade na construção. No meio-campo, Fabián Ruiz e Pedri oferecem características diferentes.
Fabián acrescenta maior raio de ação, agressividade e capacidade nos duelos. Pedri oferece criatividade, visão de jogo e qualidade na definição. Dani Olmo completa o setor com inteligência na ocupação de espaços, compromisso defensivo e qualidade técnica.
Na frente, Oyarzabal é muito mais do que um avançado. Baixa muitas vezes para criar superioridade no meio-campo, ligar o jogo e abrir espaços para os colegas. É uma peça fundamental desta Espanha. Nas alas, o destaque vai para Lamine Yamal. Mágico, imprevisível e fortíssimo no um para um, decide jogos a qualquer momento.
Mais uma vez, percebe-se o mérito de De la Fuente. O coletivo cria constantemente as condições para que o talento individual apareça. Para o fim fica aquele que melhor representa a identidade desta seleção.
Rodri é o equilíbrio da equipa. Inteligente no posicionamento, criterioso com bola e sempre preparado para interpretar cada momento do jogo. Representa melhor do que ninguém aquilo que é esta Espanha: qualidade, organização, inteligência, compromisso e racionalidade.
O treinador espanhol sabe a importância que tem na equipa e nunca prescindiu dele. Os méritos de De la Fuente estão à vista de todos. Hoje pode acrescentar mais um capítulo a um percurso extraordinário.

A VALORIZAR: LIONEL MESSI
Não seria justo escrever sobre o Mundial de 2026 sem dedicar algumas linhas a Lionel Messi. Aos 39 anos, continua a ser, para mim, o melhor jogador da competição. Já não precisa de estar constantemente em contacto com a bola para dominar um jogo. Gere os ritmos da Argentina como poucos. Sabe quando acelerar, quando pausar, quando aparecer e quando deixar que o coletivo cresça. Continua a ler o jogo antes dos outros e a surgir nos momentos em que a equipa mais precisa. A qualidade técnica continua intacta. Marca golos, oferece assistências e decide jogos com uma naturalidade impressionante. Hoje, interpreta o jogo de uma forma ainda mais inteligente. O posicionamento e a tomada de decisão permitem-lhe continuar a fazer a diferença. Messi lidera de uma forma muito própria. Não precisa de grandes discursos. Lidera pelo exemplo e pela confiança que transmite aos colegas. O coletivo torna-o ainda mais forte e ele torna o coletivo melhor. Representa na perfeição a identidade da Argentina. Joga com a mesma paixão de menino, vibra com cada vitória e assume a responsabilidade nos momentos em que a equipa mais precisa. Independentemente do resultado da final, para mim o melhor jogador deste Mundial está encontrado. Nenhum jogador foi tão decisivo em tantos momentos da competição como o capitão argentino. Como apaixonado pelo futebol, sei que vou sentir saudades da genialidade de Messi.

A DESVALORIZAR: THOMAS TUCHEL
Foi receoso, leu mal o jogo e não ajudou os seus jogadores dentro do relvado. Inglaterra perdeu uma grande oportunidade de voltar a lutar pelo título mundial 60 anos depois."

A melhor final para um Mundial insosso


"Foram 39 dias, e os primeiros 18 só serviram para eliminar Uruguai e Coreia do Sul... Espanha e Argentina entraram como as melhores seleções e, sem surpresas, saem a discutir o título

38 dias longos depois do arranque da prova, chega hoje ao fim o Mundial 2026 com a final Espanha-Argentina, que pouco ou nada tem de inesperado — no início da competição, eram as duas primeiras seleções do ranking da FIFA e, se vencessem os seus grupos, como aconteceu, sabiam que só poderiam encontrar-se na final. Só a França, finalista vencida em 2022, se aproximava, em pontuação e em força da candidatura, atendendo à qualidade dos seus jogadores.
E esse foi precisamente o principal problema, dando-nos um Mundial insosso, pouco emocionante. As melhores seleções, com mais ou menos dificuldade, foram ganhando os seus jogos. Pela primeira vez na História, as quatro primeiras equipas do ranking da FIFA chegaram às meias-finais.
E aquela fase de grupos, a apurar 32 de 48 seleções, com muitas equipas (como Portugal) a garantirem o apuramento logo à segunda jornada mas sem terem vencido os dois jogos, quase só serviu para definir quem jogava contra quem quando começasse o verdadeiro Mundial (como Portugal deveria ter percebido, de forma a poder defrontar a Suíça em vez da Espanha nos oitavos...). Ah, e para Gianni Infantino garantir a reeleição como presidente da FIFA, por ter aberto a porta da fase final a seleções que de outra forma nunca poderiam sonhar estar lá... Das 16 seleções eliminadas, só Uruguai e Coreia do Sul caíram com alguma surpresa.
Houve campanhas entusiasmantes, claro. A de Cabo Verde acima de todas as outras — o campeão mundial moral, a única seleção que defrontou os dois finalistas de hoje e não perdeu com nenhum deles nos 90 minutos (0-0 com a Espanha e, nos 16 avos, 2-3 com a Argentina mas no prolongamento, e por causa dum autogolo) —, mas também as de Noruega e Marrocos.
Mas o Espanha-Argentina é mesmo a final ideal para este Mundial sem sal: o duelo entre a maior estrela do futebol, Messi, tão insosso fora de campo como picante dentro dele, e Lamine Yamal, quase seguramente o seu sucessor; o duelo entre a melhor defesa do Mundo, a da Espanha, e a maior alma do Mundo, a da Argentina.
Mas vendo como os sul-americanos sofreram golos de Cabo Verde, Egito, Suíça e Inglaterra na fase a eliminar, não percebo como podem aguentar o melhor ataque que já defrontaram; e mesmo com o génio de Messi e o coração de todos, custa-me a crer que encontrem espaço para marcarem pelo menos tantos golos quanto os que sofrerem..."

O elemento Rice na fórmula Tuchel


"Não há treinador que não procure a equipa perfeita, entre balões, tubos de ensaio, bicos de Bunsen, pipetas e constantes ameaças de explosão. Thomas Tuchel ficou muito mal visto (com razão) quando despiu a bata do experimentalismo para colocar quatro centrais numa linha de 5 para defender o 1-0 diante da Argentina nas meias-finais.
No entanto, já sou capaz de entender quando fez alinhar, na maior parte dos jogos, Elliot Anderson e Declan Rice atrás de Jude Bellingham, aquele que mais se assemelhou a um líder, mesmo com Harry Kane sempre presente e em todo o lado. O técnico alemão acreditou que a soma dos três formava um meio-campo inglês imbatível, com dimensão física e inteligência tática superlativas e ainda capacidade de chegada e criatividade. E, na verdade, as primeiras conclusões foram precisamente essas: era um meio-campo poderoso e o principal alicerce da candidatura britânica a levar o troféu novamente para casa, 60 anos depois.
Só que o agora reforço do Manchester City e o médio do Real Madrid foram dos melhores da seleção dos Três Leões no Mundial das Américas, o campeão inglês pelo Arsenal esteve uns furos bem abaixo. O que contrariou a teoria de Tuchel. Porque talvez Rice e Anderson não se tenham conseguido distinguir entre o 6 e o 8, e a divisão de funções prejudicou aquele que se assume como primeiro grande organizador na sua equipa e nos últimos anos na equipa nacional. Na verdade, foram pouco complementares e talvez devesse ter optado por um e juntado um elemento mais criativo ao seu 11. Como sempre, é mais fácil falar depois.
Fosse ou não coincidência, o jogo de ontem com a França, de atribuição do terceiro e quarto lugares, arrancou com um 'statement'. Aos três minutos, Rice adivinhou que Doué ia fazer um passe a cruzar todo o meio-campo. Recuperou a bola e assumiu a transição. À entrada da área, foi novamente o velho Declan. O remate forte e colocado deixou Maignan sem hipótese de reação. Talvez Tuchel tenha mesmo de reconstruir a fórmula."

BolaTV: Dias de Mundial...

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