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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O Benfica teve pressa a enterrar, à goleada, o seu trauma com Rio Maior


"Nas duas épocas anteriores os encarnados não tinham ganhado em Rio Maior, no dérbi (supostamente) de Lisboa, mas, desta vez, cedo começaram a desmontar o frágil Casa Pia, sem piedade: o Benfica marcou dois golos na primeira parte e cinco após o intervalo, vencendo (0-7) com uma farta goleada. Pavlidis fez um hat-trick em sete minutos, o seu quinto ao serviço do clube

Mais uma época, mais um dérbi de Lisboa que deixou de ser lisboeta. É só um jogo, já que transladado foi para a região oeste e assim continuamos, o Casa Pia com a casa em obras sem que as obras comecem, tendo uma casa postiça a 90 quilómetros do seu estádio. Equivale a uma viagem a rondar uma hora, lá teve o Benfica de se fazer à auto-estrada em vez de arrepiar caminho até Pina Manique, pela 2ª Circular, num espirro de minutos.
Ir a Rio Maior equivalia a carga pesada, Marco Silva ainda era londrino quando os encarnados não ganharam nas últimas duas visitas. O passado não calça chuteira, jogam os jogadores que têm mini-traumas, mas desta feita não pareceu: também num rápido atchim o Benfica marcou apressado, aos 3’, graças a um serpenteio de Gianluca Prestianni da esquerda para o centro, rematando a bola que fez ricochete em David Sousa, desviando para a baliza.
O Benfica cedo se calcetava na partida. O golo tricotou-o na esquerda com a sintonia entre Georgiy Sudakov, um 10 deambulante com o novo treinador, de preferência nos espaços centrais mais virados para a esquerda, e Prestianni, o endiabrado rente-à-relva que acelera, encara o adversário e reativo é a evadir-se de corpos. A equipa procurou sempre um dos dois, em qualquer bola, sem se fazer de rogada.
Esta versão do Benfica é vertical, quer a bola para a jogar adiante, de preferência em gente a espreitar a profundidade - ajuda ter os defesas centrais que tem, de bom pé -, não precisa de ir devagarinho, de passe curto em toque curto, para se refastelar no meio-campo adversário. E monta armadilhas. Num lançamento lateral do Casa Pia, à direita, Rafa fez-se lesto a roubar Rochinha, olhou para a frente, tocou em Pavlidis, recebeu a bola de volta e picou-a (14’) sobre o corpo de André Gomes, guardião formado nos encarnados.
Voltaria à caça depois, emulando o roubo num arremesso com as mãos do lado oposto. Prestianni ficou com a sobra, correu para a entrada da área e serviu Sudakov, demasiado gentil a denunciar o jeito que ia dar à bola no pontapé. Era macio o Casa Pia nesses momentos, como entupido se mostrava a progredir no campo: pelo centro, ‘Seba’ Pérez tinhas as vias tapadas para filtrar passes e os poucos que ligava sucumbiam a Henrique Araújo, errático a jogar em apoio, incapaz de dar continuidade à jogada.
Os anfitriões apenas se aproximavam da área por fora, com cruzamentos. Um deles, com um ressalto pelo meio, deixou Gabi a bater de pé canhoto a bola que tocou no poste esquerdo da baliza de Samuel Soares, homem que encara os próprios postes, levanta as mãos ao céu, fecha os olhos e se dedica à oração antes de cada parte do jogo. Eram dois os guarda-redes com escola de Seixal em campo.
De novo o Benfica se adiantou à pressa, mal a segunda parte conheceu apitos, quando Sudakov, no meio de corpos vestidos de preto, virou-se por duas vezes entre linhas e, na segunda, deixado à vontade pelos adversários, serviu Pavlidis para o grego rematar com intento, aos 47’. Foi o desatar das grilhetas do avançado rico em pólvora esta época, marcando pelo quarto jogo consecutivo.
O primeiro do goleador leve nos pés brotou de uma perda de bola do Casa Pia pouco após a recuperar, desorganizado e suave a contestar as intenções do Benfica. Um par de minutos volvidos, outra perda culminou com Vangelis e os seus pézinhos a sapatearem na área que nem bailarina a desviar-se de mobília: o segundo golo foi de cetim, dois adversários fintados antes do remate em jeito. E aos 54’, tão gritante a cratera entre defesas e médios dos anfitriões, que Tomás Araújo encontrou Rafa e o português lançou Pavlidis.
Em três passes se completou o hat-trick de sete minutos do providenciador-mor do Benfica. São já nove golos esta temporada para o grego que Marco Silva, terraplanado o Casa Pia, inofensivo o adversário, pôs a descansar no banco. Entrou Jhón Durán, bruto colombiano, dador do seu corpanzil à área onde deu uma referência à equipa para trocar passes dentro do retângulo em torno da baliza com farto à-vontade.
Seria o avançado a marcar a sétima bofetada dada a um frágil adversário (61’), quase inerte com as suas pretensões de gerir a bola, construir apoiado de trás e ter calma a avançar no campo, mas traída pelo desfasamento entre jogadores, a falta de coesão e a gritante passividade a reagir ao que o jogo oferecia. Com uma chapada na bola, Durán festejou após os encarnados reclamarem uma segunda bola, mais outra; e fê-lo depois do sexto golo, este vindo de um cruzamento de Samuel Dahl desviado na esquerda (58’) por Lawrence Ofori para a sua baliza. O Casa Pia era trucidado.
Não haveria um Benfica tão molesto na meia-hora final, mas nem por isso menos capaz de tal. Sem piedade pelo adversário, Marco Silva lançou Scheljderup e as suas mudanças de direção para a esquerda, deixou Prestianni para se aproximar do norueguês e pôs Dodi Lukebakio na direita, para frustração própria do treinador - gesticulou com desagrado quando o belga, numa jogada ao ralenti, perfilado com a última linha do Casa Pia, se deixou ficar em posição de fora-de-jogo antes de receber um passe longo de Richard Ríos. Já estava 0-7, mas o técnico não amainou na exigência.
Vimo-lo a instruir, pedir coisas, chamar este e corrigir aquele até ao fim, cirandando à frente do banco de suplentes para afinar a equipa que refrescou ao longo da segunda parte, acautelando a partida de quinta-feira, na Luz, contra o Aarhus da Noruega para o play-off da Liga Europa. Para lá chegar a equipa terá de regressar do dérbi supostamente de Lisboa pela auto-estrada rumo a Lisboa, uma ironia que já vai na quarta época de vida. Desta vez, o Benfica voltou de Rio Maior sem traumas. Ganhou um o Casa Pia, destroçado sem dó."

Águia insaciável trucidou um anémico ganso


"Dois golos ao intervalo e mais cinco entre os 47 e 61 minutos. O Casa Pia nunca teve oxigénio para tentar equilibrar o que tão desequilibrado estava e em cima da mesa chegou a estar a hipótese de o Benfica reeditar o 10-0 ao Nacional de 10 de fevereiro de 2019...

Imagine-se um elefante a pisar uma formiga. O pequenino inseto não tem hipótese de sobreviver sob a pata pesada do mamífero, pois não? Aconteceu mais ou menos isto em Rio Maior. O Benfica entrou sem piedade no jogo e sem piedade continuou na maior parte do tempo. O Casa Pia, esse, tentou sobreviver face aos ataques mortíferos que foi sofrendo, mas nunca o conseguiu, acabando esgotadíssimo, sem oxigénio e impotente para evitar que o resultado se fosse transformando de uma derrota aceitável numa goleada impressionante: 7-0.
O Benfica, porém, não teve culpa da fragilidade do Casa Pia. Defesas e médios pareciam de porcelana e o ataque, se existiu, não se viu. O primeiro ar de graça dos encarnados surgiu logo em cima dos 150 segundos de jogo. Prestianni recebeu a bola, fez uma curta simulação e rematou cruzado. A bola, a dar início à noite amarga dos gansos, embateu em David Sousa, enganando por completo o guarda-redes André Gomes.
Era um excelente ponto de partida para as águias. Desbloquear tão cedo o jogo quando, dentro de três dias, receberiam o Aarhus não era bom: era ótimo. Mas, claro, havia 87 minutos pela frente e era preciso que o Benfica não descansasse em cima da vantagem e, por outro lado, que o Casa Pia não se descontrolasse.
Mas descontrolou-se. Ou foi obrigado a descontrolar-se pelo ímpeto do Benfica. Dez minutos depois, aos 14', Rochinha perdeu a bola perante a maior impetuosidade de Rafa. Este cedeu-a a Pavlidis, que a recolocou na frente do camisola 27. Rafa correu, correu, correu e, quando se aproximou de André Gomes, picou-lhe a bola, que ainda tocou na cabeça do guarda-redes antes de entrar.
Um minuto depois do 2-0, o Benfica passou pelo seu único susto, quando Gabi Pereira, num remate meio enrolado, acertou no poste direito de Samuel Soares. Seria o início de uma potencial reviravolta?
Não, não seria. O jogo entrou, então, numa fase de rame-rame. O Benfica, pensava-se, passaria a controlar as incidências, deixando o tempo correr. Só aos 36' voltou a haver perigo junto de André Gomes: Sudakov rematou fortíssimo e o guarda-redes, esticando-se quase até aos limites, evitou o 3-0.
O intervalo chegou e acreditou-se que a segunda parte bem poderia ser mais do mesmo daquilo que se passara no pós-2-0: jogo controlado pelo Benfica, bola a rodar entre a maioria dos seus jogadores, sempre à espera que chegasse o último apito de João Pinheiro para que Marco Silva começasse, de vez, a pensar no Aarhus.
Quem acreditou nessa teoria depressa percebeu que se equivocara. A reentrada em cena do Benfica foi trucidante: aos 47', 3-0 por Pavlidis; aos 49', 4-0 por Pavlidis; aos 53', 5-0 por Pavlidis; aos 58', 6-0 por Ofori (autogolo ao tentar intercetar um cruzamento de Dahl); aos 61', 7-0 por Jhon Durán. O hat-trick do grego do Benfica, então, foi fulminante: seis minutos e 33 segundos para o atingir. Impressionante!
Era o tal elefante a pisar a formiga e a torcer a robusta pata quando sentia o corpo do inseto. Com sete golos marcados até à hora de jogo, começaram a estar em cima da mesa as recordações de 10 de fevereiro de 2019: Benfica 10-0 Nacional. Havia em campo um homem que se lembrava muito bem desse jogo de há mais de sete anos: Rafa, que apontou, nessa noite histórica na Luz, o 9-0.
O Benfica estava muito modificado relativamente ao início do jogo (Manu, Ríos, Lukebakio, Durán e Schjelderup nos lugares de Tomás Araújo, Barrenechea, Pavlidis, Sudakov e Rafa), mas continuava a excitar-se com o cheiro a medo e a ineficácia que via nos corpos e nos olhos dos adversários.
E assim continuou por mais meia dúzia de minutos: insaciável, voraz, devorador. Até que, ao sétimo golo, tendo o Benfica terminado a sua obra, descansou — como vem na Bíblia. Nem chegou a ultrapassar os 7-0 à B SAD em novembro de 2021, os 7-2 ao Farense em março de 1984 e os 7-1 ao Olhanense em maio de 1974, as últimas vezes em que, para a Liga, os encarnados tinham marcado mais de seis golos fora de casa."

Pavlidis em noite escaldante, Rafa e Prestianni 'calientes'


"Três golos e uma assistência para o avançado grego que esteve endiabrado em... 59 minutos. Avançado português foi mais 'modesto': golo e assistência. Ala/extremo argentino está num bom momento de forma

O MELHOR EM CAMPO
8 PAVLIDIS O avançado grego de 27 anos voltou a demonstrar que é um caso sério no que a golos diz respeito. Mas não só, como se viu ao minuto 14', quando assistiu Rafa para o então segundo golo dos encarnados. Sempre ativo e à procura de espaços, aos 44' encontrou-os e obrigou André Gomes a sensacional defesa, mas estava fora de jogo. Em jogo (e de que maneira) esteve na fase inicial da segunda parte: aos 47' recebeu passe de Rafa e no coração da área não perdoou, tal como aconteceu dois minutos depois, bis após fantástico trabalho individual. Aos 54' aproveitou cruzamento de Barreiro para, de pé direito, encostar para o quinto golos das águias e terceiro da conta pessoal. Com a vitória no bolso e encontro para a Liga Europa na quinta-feira, foi substituído aos 59' pelo colombiano Jhon Durán.

5 SAMUEL SOARES O guarda-redes português de 24 anos voltou a ser opção inicial (relegando Trubin para o banco) e aos 15' sofreu enorme susto ao ver a bola rematada por Gabi Pereira acertar no poste direito. E se a primeira parte foi tranquila, a segunda foi ainda mais tranquila.

5 BAH Com Dedic transferido para o Newcastle, o dinamarquês de 28 anos foi aposta no onze e por certo não imaginaria uma noite tão tranquila. Defensivamente sem problemas, procurou, nem sempre com sucesso, combinar com os companheiros.

5 TOMÁS ARAÚJOO internacional português de 24 anos e capitão dos encarnados não foi sujeito a muito trabalho, já que o Casa Pia foi quase inexistente a nível ofensivo. E com a vitória no bolso, deu, ao minuto 59, o lugar a Manu.

5 LENGLET O experiente central francês de 31 anos tem bom toque de bola e aos 13' fez sensacional passe para Prestianni. Praticamente de folga a nível defensivo, apareceu aos 59' para receber a braçadeira de capitão.

6 DAHL O back esquerdo de 23 anos deu nas vistas aos 11' com um corte providencial no interior da área. Também de folga a nível defensivo, tem uma nota superior aos restantes companheiros de setor porque esteve no sexto golo, ao cruzar da esquerda para o desvio decisivo de... Ofori, que marcou na baliza errada.

5 BARRENECHEA O médio defensivo argentino de 25 anos fechou bem os espaços na sua área de ação e beneficiou da falta de comparência do Casa Pia a nível ofensivo. Noite, pois, descansada.

6 LEANDRO BARREIRO O luxemburguês de 26 anos tentou a sorte aos 7', mas o remate, à entrada da área, saiu fraco e à figura de André Gomes. Estava dado o mote para exibição de bom nível.

7 RAFA O velocista português de 33 anos começou por ameaçar com um remate à entrada da área e aos 14' fez mesmo o segundo golo. Recuperou a bola e voltou a recebê-la de Pavlidis para, na cara de André Gomes, picá-la sobre o keeper. Nem sempre decidiu bem, mas acertou aos 47', quando descobriu Pavlidis para o 3-0. Saiu, aos 5-0, aos 59'. Quinta-feira há jogo europeu...

6 SUDAKOV O médio criativo ucraniano de 23 anos revelou... criatividade aos 20', passe sensacional para Rafa (que tentou assistir Pavlidis). Já aos 36' podia e devia ter feito (muito) melhor, remate no coração da área para defesa de André Gomes. Tem belos pormenores, mas falta-lhe consistência para voar mais alto.

7 PRESTIANNI O extremo/ala argentino de 20 anos atravessa belo momento de forma e logo ao terceiro minuto deixou marca no jogo, remate à entrada da área com David Sousa a trair André Gomes com um desvio de cabeça. Aos 12' entrou na área pela esquerda, rematou, mas o tiro saiu muito por cima. Já aos 49' o remate à entrada da área não passou nada longe do poste esquerdo da baliza de André Gomes. É um perigo quando embala, mas não embalou para exibição como as já vistas esta temporada.

6 JHON DURÁN Entrou aos 59' e não demorou muito a festejar, já que aos 61' recebeu a bola de pé esquerdo à entrada da área e disparou para o fundo da baliza de André Gomes.

5 MANU Entrou aos 59' e foi para o lugar de Tomás Araújo, ou seja, para central. E não foi sujeito a muito trabalho.

5 SCHJELDERUP Também foi lançado aos 59' (para o lugar de Rafa) e deu água pela barba à defesa (já dizimada e desmotivada, diga-se) dos anfitriões. Algumas incursões perigosas pela esquerda.

5 RICHARD RÍOS Foi aposta a partir dos 67' e ganhou um pouco mais de ritmo.

4 LUKEBAKIO Foi o último jogador a sair do banco. Fê-lo ao minuto 78, a tempo de um ou outro raide."