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domingo, 23 de agosto de 2026

Abel com toda a razão!


"Treinador tem toda a legitimidade para desabafar do modo como o fez esta semana. Dizendo que «o futebol está doente», o português soltou a alma e juntou-a à razão.

Em oitenta segundos Abel Ferreira fez parar o mundo do futebol. Parar para pensar, parar para refletir, parar para compreender as diferenças, os estímulos, as obrigações do alto rendimento, as desmesuradas pressões da competição, ela própria diretamente influenciada pelos ritmos alucinantes da sociedade moderna, e pelas desesperantes cobranças do lucro, da vitória, da supremacia.
Contextualizemos: o treinador português havia ganho por 1-0 o encontro da segunda mão da Taça dos Libertadores, no Paraguai, e com essa vitória conquistado o apuramento para os quartos de final da maior competição sul-americana para clubes, depois de um empate a um golo em São Paulo, no primeiro jogo.
Passou, com este triunfo, a ser um dos mais vitoriosos técnicos da história do Verdão, com 237 jogos ganhos, igualando Luiz Felipe Scolari. Aliás, se há palavra que pode definir os cinco anos e meio de Abel Ferreira no comando da equipa do norte da capital paulista é sucesso, e não apenas em número de jogos, mas em toda a formulação mais ampla do termo, tornando-se uma referência na história do emblema e do futebol brasileiro.
Ora isto quer mesmo dizer que Abel tem toda a legitimidade para desabafar do modo como o fez esta semana. Dizendo que «o futebol está doente», o português soltou a alma e juntou-a à razão, falando de treinadores, jogadores, presidentes e jornalistas, da pressão tremenda criada, sobretudo utilizando a comunicação social tradicional, mas também os novos media, para a necessidade emergente de ganhar, no sentido mais estrito do termo: vencer jogos, ultrapassar adversários e conseguir primeiros lugares.
As palavras de Abel, o português mais bem inserido na intrincada e complexa teia do futebol brasileiro, ecoaram como ele próprio pensara, e com as consequências daí advenientes.
Ganhar não pode ser apenas marcar mais golos e somar mais pontos. O processo de preparação de uma equipa profissional estimula a competição como primeiro patamar. Desde logo, a competição interna, entre os elementos de um mesmo grupo de trabalho, pela capacidade de convencer a equipa técnica de que constituem a melhor solução para determinado jogo. Depois, a competição inter pares, sabendo-se como se sabe que ela é encarada de modo muito distinto, assim sejam identificadas diversas zonas do globo.
Falar de rivalidade, em Portugal, é deitar abaixo os principais competidores do nosso emblema. Uma espécie de quanto pior, melhor, não percebendo, a maioria dos adeptos mais fanáticos, que só com adversários de qualidade é que as vitórias ficam valorizadas.
Depois, fora do campo, a perceção estrutural de que a indústria necessita de todos, em cooperação e com idênticos objetivos, parece também não colher, uma vez que os principais dirigentes são os primeiros a virar costas a soluções de fundo, a conversas profícuas e que, em primeira instância, deveriam visar a melhoria do produto final apresentado (que, de resto, é particularmente valioso).
Quer dizer: em Portugal vale a máxima latina do salve-se quem puder, pressionando treinadores e jogadores, culpando jornalistas e visando opositores.
Mas não se pense que a comunicação social fica incólume nesta equação. Bem pelo contrário. A proliferação de programas de debate, nos diversos canais televisivos e até em prestigiadas frequências radiofónicas, sob o pretexto da consolidação de audiências, é o pior caminho, o mais fácil, aliás, para acicatar rivalidades e desinformação.
E a contribuição dada pelos media surge, portanto, como também decisiva para um panorama muito pouco agradável ou, parafraseando Abel Ferreira, «doentio».
O treinador luso procurou, muito claramente, distinguir entre o que compete, lutando, trabalhando, melhorando, ativando novas propostas e alternativas, e o que ganha, suscitando a ideia de que ganhar não é um verbo redutor, antes abraça todos aqueles que competem e tentam fazer o seu melhor.
No Brasil, sobretudo, são diversos os episódios de uma imensa pressão sobre clubes e comissões técnicas para a obtenção da vitória. O próprio Palmeiras vinha de um ciclo de quatro jogos sem vencer (quebrado, justamente, no Paraguai), e o som dos contestatários havia subido inopidamente de intensidade.
Influencers de frigideira, opinion makers de quintal, todos tentavam empurrar fora de borda Abel e os seus companheiros, na certeza de que este jogo paralelo não era jogado pela primeira vez, e não é exclusivo do maior país da América do Sul.
A reação, forte e marcante, de Abel Ferreira na coletiva que se seguiu ao encontro com o Cerro Porteño bem pode ser plasmada para o futebol português, onde todos parecem formatados e treinados para a voragem do triunfo, da maledicência, da crítica fácil, da sugestão imediata. Mimetizando para as redes sociais, com o auxílio importantíssimo da cobardia do anonimato e dos perfis falsos, todos se parecem sentir à vontade com estes princípios de funcionamento e de comportamento.
Falta-nos reduzir o ritmo, equidistanciar, equilibrar e pensar. Pensar na nossa vida, pensar no modo como nos relacionamos com os que nos rodeiam (e mesmo com os que não conhecemos se não dos ecrãs de televisão ou das viagens pela internet). Falta paciência para compreender os processos, que variam muito de profissional para profissional, de estrutura para estrutura. Falta tolerância, para entendermos que o futebol é apenas a coisa mais importante de todas as coisas menos importantes da nossa vida, embora salvaguardando que é a vida de muitas famílias pelo mundo.
Falta cumprir a capacidade de perceber que quem trabalha e persegue objetivos, mesmo que os não consiga, é tão digno como os mais dourados pelos resultados e pelos troféus.
Falta curar o futebol, começando por nos curarmos a nós próprios.

Cartão branco
Estamos entre presenças importantes de representações portuguesas em provas internacionais.
Depois dos Campeonatos Europeus de atletismo e dos seus homólogos de natação, são os Jogos do Mediterrâneo, na italiana cidade de Taranto, que chamam a atenção.
Antes dos resultados, a participação. Em qualquer das três provas, chegar para competir é o primeiro grande objetivo, porque qualquer atleta sabe o quão difícil é fechar um ano de trabalho, conciliando tantas vezes o percurso no Ensino Superior com a presença no alto rendimento desportivo, prescindindo de tantos momentos entre família e amigos, para conseguir representar o seu país entre os eleitos.
A dois anos dos próximos Jogos Olímpicos (Los Angeles-2028), Portugal tem, nos seus atletas e na sua determinação, o melhor exemplo para o país. Que o saiba aproveitar."

À procura de Ronaldinho


"Ronaldinho tem 46 anos e um problema com o número 299. Podia deixá-lo assim. Não vai. Vai vestir a camisola do Ravenna e voltar a um campo de futebol. Falta um golo. O golo 300. Há contas que um homem faz com números. Outras faz com o tempo.
Uma pequena dívida com a estatística.
Haverá marketing. Claro. Haverá câmaras, fotografias, vídeos, camisolas, nostalgia vendida em pequenas doses. Ronaldinho continua a ser uma marca extraordinária. Um sorriso seu ainda atravessa gerações. Uma bola nos pés ainda desperta qualquer coisa em milhões de pessoas.
Mas esta história fala de outra coisa.
De algo muito mais humano.
Ronaldinho vai procurar um jogador que já não existe. Ele próprio. É essa a condenação dos futebolistas. Nenhum jogador deixa o futebol. É o futebol que deixa o jogador.
Primeiro, quase sem avisar. Um metro que desaparece numa corrida. Uma recuperação que fica congelada. Um adversário que antes chegava depois e agora chega primeiro. Uma bola que a cabeça manda para um lado e o corpo entrega noutro. Pequenas traições. 
Até que chega o dia em que o jogador percebe.
O futebol continua dentro dele. O jogador é que já não consegue estar dentro do futebol.
Por isso, é tão difícil o adeus.
Quem trabalhou uma vida inteira num escritório pode passar pela porta do antigo emprego e sentir alguma nostalgia. Quem jogou futebol passa por um relvado e encontra uma parte de si. Porque um futebolista não deixa apenas uma profissão.
Deixa um corpo. Deixa o rapaz que conseguia correr sem pensar nas pernas. Deixa o jovem que acordava no dia seguinte e não sentia dor. Deixa aquele instante maravilhoso em que tudo aquilo que imaginava podia ser executado.
Com Ronaldinho tudo isso deve ser ainda mais cruel. Poucos jogadores tiveram uma relação tão íntima entre imaginação e corpo. Pensava e acontecia. Via um espaço e a bola aparecia.
Imaginava uma finta e os pés obedeciam.
Decidia humilhar a geometria e a geometria agradecia.
Ronaldinho fez desaparecer a distância entre aquilo que um homem sonha e aquilo que um homem consegue fazer. Depois chegou o tempo.
O único defesa que nunca perdeu um duelo.
Agora, aos 46 anos, o Bruxo vai voltar a calçar as chuteiras. Vai entrar num campo. Vai receber a bola. E durante alguns segundos acontecerá algo estranho. A cabeça saberá exatamente o que fazer. A visão permanece. A memória também. O jogador continua a reconhecer os espaços. Continua a antecipar movimentos. Continua a saber onde deve colocar o pé.
Só que o pé chega mais tarde.
E é aí que mora a tristeza. Mesmo no jogador mais sorridente do mundo.
Ronaldinho procura o golo 300. Mas procura também uma tarde em Barcelona. Uma noite em Paris. Um treino em Porto Alegre. Um corredor no Camp Nou. Um defesa do Real Madrid diante dele. Procura o rapaz de tranças ao vento. Não vai encontrá-lo. Nenhum de nós encontra. Essa é a verdadeira história deste jogo. Não o regresso. A procura.
Passamos grande parte da vida a tentar regressar a lugares que continuam a existir apenas dentro de nós. A rua da infância ainda lá está. Mas já não é a nossa rua. A escola continua no mesmo sítio. Mas já não é a nossa escola. O estádio permanece. A baliza mede o mesmo. A bola continua redonda. Mas o jogador desapareceu.
É por isso que os antigos futebolistas aceitam jogos de homenagem, partidas de veteranos, desafios improváveis. Muitos não precisam do dinheiro. Muitas vezes nem precisam do aplauso. Precisam de tocar outra vez naquele mundo. Por alguns minutos. Só alguns. Querem enganar o relógio. E às vezes conseguem.
A bola chega. O primeiro toque sai perfeito. O adversário aproxima-se. O corpo esquece a idade durante dois segundos. Surge um passe que ninguém viu. Então aparece o sorriso. Não porque fizeram uma grande jogada. Porque reconheceram alguém. Durante dois segundos voltaram a encontrar-se. Depois o jogo continua.
E o tempo também.
Ronaldinho marcou 299 golos. Quer mais um. Mas o verdadeiro golo que procura não pode ser marcado. Não está no campo. Está algures entre aquilo que foi e aquilo que ainda sente ser.
Essa é a tragédia silenciosa de todos os grandes jogadores.
O mundo vê homens envelhecerem.
Eles continuam a ver o rapaz. O rapaz corre. Dribla. Acelera. Faz coisas impossíveis. Nunca se cansa. Nunca sente dores. Nunca pensa que haverá um último jogo.
Ronaldinho vai procurá-lo outra vez. Pode encontrá-lo num toque. Num passe. Num sorriso.
Até num golo. Depois acabará o jogo. As luzes vão apagar-se. E Ronaldinho perceberá aquilo que, no fundo, já sabia. Nunca deixou o futebol.
Foi o futebol que, há muito tempo, começou a deixá-lo."

El balón tenía rázon