Últimas indefectivações

sexta-feira, 1 de maio de 2015

À memória do meu pai, a quem devo o ser do Benfica

"Entrei pela primeira vez com o meu pai no antigo Estádio da Luz. O Benfica ia jogar contra a CUF e a minha emoção era imensa. Em minha casa, desde cedo, ouvia falar do Benfica e do tempo em que os sócios tinham contribuído com trabalho ou com dinheiro para a construção do seu estádio. O meu pai tinha sido um desses sócios, e isso dava-lhe um imenso orgulho sempre que falava do clube, o seu clube. A paixão e o fervor que por ele sentia faziam-no considerar-se parte integrante de um todo, um grande todo, em que a soma correspondia a cada uma das partes e em que cada parte nunca se via como um simples número de uma qualquer estatística. Eram tempos em que a dúvida sobre a vitória não existia e em que a entrega de cada jogador, do primeiro ao último minuto, era total. Eram tempos que sucediam a outros tempos em que o êxito e a glória se transmitiam aos futuros adeptos, para que estes, com brio e justificada vaidade, pudessem falar do passado mas sempre na perspectiva de o projectarem no presente e quererem ver repetido no futuro.
Foi desse modo e com esse espírito que fiquei adepto do Benfica. Um adepto que não possui, nem pretende possuir, qualquer conhecimento particular que o habilite a falar de tácticas, de estratégias ou de formas de jogar, mas um adepto para quem o Benfica significa mais, muito mais, do que as competentes e eloquentes análises e comentários a este ou àquele jogo. Transmiti isto mesmo ao Dr. Sílvio Cervan quando amavelmente me convidou para escrever na Mística e lhe expliquei que outros com competências que não tenho neste domínio, poderiam melhor corresponder ao desafio que me fazia. Ainda assim, e diante da sua insistência, aceitei o seu convite, quer como forma de homenagear o meu pai, que teve o emblema de ouro do clube, quer como forma de testemunhar o permanente contacto de gerações que o Benfica proporciona a milhares de famílias portuguesas. São disso exemplo os meus sobrinhos Baltasar, Luís Roque, Ana, Afonso, Salvador, Luís e Pedro, que com idades compreendidas entre os 16 e os seis vibram com o Benfica e vivem o Benfica de um modo entusiasmante e profundamente contagiante. Uns são sócios e outros não o são, porém em nada se diferenciam quando se trata de apoiar e de defender o clube. A sua chama, sendo idêntica à das gerações mais antigas, é uma chama intemporal, não dependente de épocas ou de fases e não sujeita a conjunturas ou a momentos melhores ou piores do mundo desportivo. E essa é, sem dúvida, uma das grandes características de um clube que é mais do que um clube, de um grupo desportivo que é mais do que um grupo desportivo. Um clube que, indiferente ao tempo, continua a atrair e a marcar quantos a ele aderem, nos mesmos termos em que nesse jogo contra a CUF me senti empolgado, não apenas com o que se passava dentro de campo, não apenas a vitória do Benfica, mas com a grandeza de um ambiente sempre plural, que une o que tantas outras circunstâncias da vida divide. Viva o Benfica!"

Manuel Monteiro, in Mística

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O abraço de Quaresma a Jesus (ou como em Portugal as homenagens são sempre contra alguém)

"O treinador do Porto foi empurrado para o túnel por gente tranquila do staff portista, gente que devia estar com uma vontade danada de lhe chamar Lopotegui ou Lotopegui ou pior ainda.

«Que coisa é um nome?»
William Shakespeare, 'Romeu e Julieta', Acto II, Cena 2

DIZ a sabedoria popular que as homenagens em Portugal são sempre contra alguém.
E são. Como ainda se viu no domingo passado.
Ou como explicar a correria de Ricardo Quaresma para os braços de Jorge Jesus depois de tudo o que se passou?
O jogo chegara ao fim com um resultado não pior do que apenas pouco satisfatório para as contas do Porto. Nada está ganho, nada está perdido.
Mas chegou o jogo ao fim com o treinador do Porto, don Julen Lopetegui Argote, de seu nome completo, observado de cabeça perdida à entrada do túnel, todo ele a crescer em bravatas para o treinador do Benfica.
Mas que ego tem o basco! Não troca o reino por um cavalo, como Ricardo III, mas já que o hipotecou quer, efusivamente, o seu nome bem pronunciado para a posteridade: Rulén Ló Pê Teggy, é assim, aprendam.
Revendo as imagens fica-se com a ideia de que Jorge Jesus demorou a entender o sentido das palavras de don Julen. Tudo se inicia em ambiente de aparente bom-tom, até de elogiável cordialidade entre rivais.
Puro engano de Jorge Jesus. E é só quando o treinador do Porto se repuxa todo num frenesim até lhe encostar a franja, que é a sua imagem de marca, que o treinador do Benfica dá conta da má disposição do colega.
Ficaram, naturalmente, as actuações dos dois protagonistas à mercê do crivo da crítica profissional e dos desmandos da opinião pública com larga vantagem para Jorge Jesus por não ter sido o causador do incidente, por não se ter encolhido e também por não se ter esticado mas, muito principalmente, por não se ter deixado arrastar no engodo de prosseguir com a conversa pelo túnel dentro.
Don Julen bem tentou.
Já internado no túnel, o basco ainda se virou mais umas quantas vezes para o treinador do Benfica a citá-lo de longe para a discussão onomástica a coberto da escuridão. Mas não teve sorte.
Imperou o bom senso e o treinador do Porto foi sendo empurrado para o urgente recato por gente tranquila do staff portista, gente que, cá para mim, devia estar com uma vontade danada de lhe chamar, no mínimo dos mínimos, Lopotegui ou Lotopegui ou pior ainda.
Foi feio? Foi.
Bonito, bonito mesmo, foi o que se passou no relvado assim que Jorge Sousa apitou para o fim. Os jogadores das duas equipas cumprimentando-se como que a provar que o futebol pode ser um lugar cortês. Os dois guarda-redes abraçando-se e trocando de camisolas como que a vincar que o futebol pode ser um lugar bem frequentado.
E, finalmente, Ricardo Quaresma que depois de abraçar Júlio César se dirigiu a Jorge Jesus com quem trocou beijos e, se calhar, até uma confidência:
- Não faça caso, mister, aquilo é só fumaça, eu também lhe chamo Tototegui e ainda aqui estou para as curvas…
Quaresma começou o jogo sentado no banco de suplentes. Entrou em campo só a meio da segunda parte. Deveria ter entrado de início? Nunca se saberá. Mas que saiu de campo em grande estilo, lá isso saiu.

FALANDO de golos. No último domingo, 2206 dias depois da última vez que ficou em branco no Estádio da Luz, o Benfica voltou a ficar em branco num jogo disputado em casa.
Falando de contas. Os adeptos não se mostraram muito desagradados porque o resultado com que o jogo terminou – 0-0 – permitiu ao Benfica manter sobre o Porto o avanço de 3 pontos que terá agora de defender nas quatro jornadas que faltam até ao fim do campeonato.
Falando do futuro. Três pontos a mais. Não é uma vantagem sobrenatural. É, muito simplesmente, um avanço vulgar, corriqueiro, uma vantagem concreta mas que não consente desleixos. E bem sabe o Benfica como, por negligência ou por delírios de optimismo, se podem perder títulos que estiveram à mão de semear.
Falando do Gil Vicente. É o próximo adversário. Ocupa os últimos lugares da tabela e luta afincadamente para não descer de divisão. No sábado, o Benfica só somará 3 pontos se for a Barcelos predisposto a lutar afincadamente para ser campeão.
Falando do nome do treinador adversário. José Mota. Não haverá enganos. José Albano Ferreira Mota. Ninguém lhe vai trocar o nome. Trata-se de um treinador português, bem conhecido, com uma honrada folha de serviço. Fez-se a si próprio sem benesses nem padrinhos.
Todos a Barcelos. Carrega, Benfica.

COM o clássico do último domingo terminou o mini-campeonato entre os três grandes que, obviamente, nada decide mas que sempre alimenta a retórica de que o país se alimenta nestes fervores.
Abundaram os empates. Mas o melhor dos três grandes nos jogos entre eles disputados foi o Benfica porque ganhou um jogo ao Porto e empatou os demais. O Porto ganhou um jogo ao Sporting, perdeu um jogo com o Benfica e empatou os restantes. Quanto ao Sporting, somou duas derrotas e dois empates.
Lá mais para o fim de Maio, e se o Benfica cometer a difícil proeza de revalidar o título, talvez os estudiosos da matéria apontem para os dois golos de Lima no Dragão como os momentos fulcrais da Liga de 2014/2015.
Permitam-me discordar. Os dois golos de Lima têm grande importância. Mas, aconteça o que acontecer nas quatro jornadas que faltam disputar, o momento mágico que permitiu ao Benfica perseguir o sonho da revalidação do título terá sido aquele do golo de Jardel ao cair do pano em Alvalade.
Jardel Nivaldo Vieira, o nosso inconfundível Jardel, um portento de oportunidade.

UM jogo sem golos não é obrigatoriamente um mau jogo de futebol. O Benfica-Porto não teve golos mas foi, em termos atléticos, o melhor jogo do campeonato em curso.
Pela intensidade posta em campo, pela altíssima rotação com que foi disputado do princípio ao fim, pela entrega de todos, pelo fair-play e também pela excelente arbitragem, o Benfica-Porto de domingo mais pareceu um jogo estrangeiro do que um jogo da nossa Liga que é bastante pindérica de tal monta são as diferenças entre os dois emblemas que disputam o título e as demais 16 equipas.
Poderão contrapor os benfiquistas dizendo que bom jogo do Benfica foi o dos 6-0 ao Estoril. Mas como se não houve Estoril? Poderão também ripostar os portistas clamando que bom jogo do Porto foi o dos 3-0 ao Sporting. Mas como se não houve Sporting?
No domingo, houve Benfica e houve Porto. Anularam-se, é certo, porque são equipas do mesmo campeonato. Não houve golos, é verdade. Mas o combate foi formidável.
Em função das circunstâncias da classificação e do resultado do jogo da primeira volta entre ambos, este Benfica-Porto teve muito mais características de uma eliminatória a duas mãos de uma prova internacional, de uma Liga Europa (também não chegou aos calcanhares de uma Liga dos Campeões…) do que de um jogo do nosso campeonato de trazer por casa.
E é caso para dizer que o Benfica, jogando manco do lado direito na ausência de Eduardo António Salvio, defendeu muitíssimo melhor (e a coxear) a sua posição de privilégio e o seu bom resultado no Dragão do que o Porto fez, objectivamente, para o reverter em seu favor na Luz.

E agora, don Julen Lopetegui Argote?
Em Setúbal, joga o Helton da Silva Arruda ou joga o Fabiano Ribeiro de Freitas? O Helton deve estar muito mal visto pelos filósofos do trogloditismo porque foi abraçar o Júlio César no fim do jogo. Bem chamou a atenção para este pormenor Jaime Pacheco, em rescaldo televisivo, garantindo que estas gentilezas não têm cabimento no histórico da casa. E Pacheco sabe do que está a falar.
Jogue Helton ou jogue Fabiano, na verdade, tanto faz. São dois bons guarda-redes.
É pena é não haver um émulo do portero que foi don Julen Lopetegui entre os guarda-redes do Porto.
- Um Lopetegui para a baliza, já! Mas não, não há. Também era pedir muito."

Leonor Pinhão, in A Bola

Domingo à tarde

"O título desta crónica bem poderia sugerir um dos mais conhecidos romances de Fernando Namora ou do filme homónimo dos anos sessenta de António de Macedo. No entanto, é das tardes de domingo de futebol que escrevo.
No domingo à tarde, a Luz tem mais luz. No domingo à tarde, o vermelho é mais encarnado. No domingo à tarde, a águia não fica encadeada pelas luzes de não ser domingo à tarde. No domingo à tarde, o cheiro da relva é mais vegetal. No domingo à tarde, há lá mais famílias e gerações. No domingo à tarde, as papoilas são mais saltitantes. No domingo à tarde, os rostos são mais abertos. No domingo à tarde, o fim-de-semana ainda o é e tem hífens. No domingo à tarde, ainda não mergulhámos na antecâmara de segunda-feira. No domingo à tarde, não há a medida do cronómetro, ainda que no relvado e cronómetro conte. No domingo à tarde, há sol e há sombra lá em baixo para os artistas escolherem. No domingo à tarde, a chuva parece mais acolhedora e o vento mais harmonioso, ainda que iguais aos da noite. No domingo à tarde, o suor do esforço dos atletas pressente-se mais. No domingo à tarde, joga-se a bola como que fosse mais ao ar livre. No domingo à tarde, a 'chama imensa que nos conquista' é mais intensa. No domingo à tarde, o futebol é competição, mas também desporto. No domingo à tarde, vemos não apenas olhando e escutamos, não apenas ouvindo. No domingo à tarde, há ainda domingo depois. No domingo à tarde, o jantar é a horas.
Por isso tudo, gosto de ver o meu Benfica jogar na Luz no domingo à tarde. O futebol é mais conforme a sua natureza e o Benfica ainda acontece mais em mim."

Bagão Félix, in A Bola

O pragmatismo de Jorge Jesus

"A semana tem sido fértil em comentários desprimorosos sobre a exibição do Benfica no último jogo com o FC Porto. Dizem alguns comentadores e, inclusive, alguns benfiquistas que Jorge Jesus foi demasiado pragmático ao desvalorizar o espectáculo, procurando apenas olhar para o resultado conveniente.
Percebe-se o fundamento das críticas. O nome e a tradição histórica do Benfica deveria implicar responsabilidade, não apenas no domínio do resultado, mas da combinação ideal entre o resultado e a exibição.
A questão de fundo é que Jorge Jesus terá consideração incompatível essa relação e impossível essa combinação. Para o treinador do Benfica, havia apenas que escolher entre o resultado e a exibição. Decidiu-se pelo resultado. Sem hesitações, sem constrangimento e sem ambiguidades.
Curiosamente - ou talvez não - o mesmo têm dito e escrito alguns analistas ingleses sobre o Chelsea e José Mourinho. Dizem que o português só se interessa, mesmo, por ganhar mais um título em Inglaterra.
O problema é que esse só, não é tudo, mas quase tudo. O desporto de alta competição é, essencialmente, resultado e só depois exibição ou, como diria Jorge Jesus, nota artística.
Claro que há o exemplo do Barcelona ou do Bayern, onde, para felicidade dos seus adeptos, a qualidade das equipas admite o ideal: grandes resultados e grandes exibições.
Não é essa, como se deve reconhecer, a situação do Benfica que nem sequer terá a melhor equipa do futebol português e muito menos o melhor plantel. Daí a razão do pragmatismo de Jesus. Alguém o poderá levar a mal?"

Vítor Serpa, in A Bola

Jogar para o Ó-Ó

" «Atacámos como tínhamos de atacar. Infelizmente não marcámos nas oportunidades que criámos, algumas muito claras».
Lopetegui, treinador do FC Porto, a seguir ao 0-0 na Luz

Marca-se um golo a cada quatro oportunidades no futebol. É uma conta subjectiva, porque não há objectividade na definição do que é uma oportunidade de golo ou um remate perigoso, mas parece-me ter correspondência na realidade do futebol português, até nas provas europeias, onde a qualidade dos jogadores poderia, admita-se, aumentar o aproveitamento de 25 por cento para uns 30 ou 35...
Seja como for, tenho esse número como bom. Diria que um jogo com sete ou oito oportunidades de golo para uma equipa a três ou quatro para a outra tem uma forte possibilidade de acabar 2-0 ou 2-1. Qualquer jogo em que ambas as equipas andem perto do golo menos que quatro vezes pode bem acabar 0-0 (ou no caso do Benfica-FC Porto de domingo, Ó-Ó).
Foi, claro, o que aconteceu na Luz. E não importa quem teve mais oportunidades (eu só via duas, curiosamente quase iguais, por Jackson e Fejsa). Ter duas ocasiões de golo contra uma é ter o dobro das oportunidades mas a probabilidade disso se traduzir no resultado é bem diferente de quando se tem oito contra quatro. A história não difere muito do Sporting-Benfica desta segunda volta da Liga - Marco Silva, como Lopetegui agora, achou erradamente que o Sporting fez muito mais que os encarnados. Por acaso o jogo acabou 1-1, mas com o que se jogou devia ter acabado 0-0 (Ó-Ó).
O Benfica pôde, pela vantagem acumulada, jogar para o 0-0 (Ó-Ó) perante os dois grandes rivais. Na Luz acertou em cheio. Em Alvalade falhou nos números mas foi exemplar no sono que provocou."

Hugo Vasconcelos, in A Bola

A importância de ter Jonas

"Demorou a chegar mas é hoje um dos reforços que ninguém questiona. Aliás, se era visto com desconfiança ao início, dado o estatuto pouco querido em Valência, os golos silenciaram rapidamente todas as dúvidas. Jonas tem sido um às de trunfo para Jesus, vital na corrida a um título cada vez mais próximo e senhor de um queda para o golo que nem o próprio esperava. É a todos os títulos brilhante o que o avançado do Benfica fez desde que chegou a Portugal. Não é qualquer um que luta com Jackson pela conquista da Bota de Ouro. O colombiano continua a ser o melhor e mais completo ponta-de-lança a jogar em Portugal, mas o brasileiro tem números impressionantes e tornou-se tão importante nas águias como Cha Cha Cha nos dragões. Poucos podem dizer o mesmo.
São devidos parabéns a Vieira e Jesus pela contratação de Jonas. Um por se ter batido pelo jogador até ao fim, o outro por ter dado a concordância ao negócio. São pormenores como este que fazem toda a diferença na corrida às conquistas. Sem os golos que chegaram de Espanha dificilmente o Benfica estaria onde está hoje. Derley tinha mostrado algumas qualidades no Marítimo mas parecia curto para brilhar na Luz, como se viu esta época. Recorrer aos serviços de Jonas minorou o erro.
Para tê-lo o Benfica tem de pagar um bom ordenado, pois o brasileiro estava em final de contrato. Uma solução interessante para os encarnados, caso queiram reduzir os investimentos no mercado. Salários altos são custos fixos, mas outra forma de chegar aos craques. Uma espécie de compra a prestações que pode ajudar muito a equipa no futuro.
Depois há o perfume do futebol de Jonas É um dos que vale a pena ir ver aos estádios. E também por isso o dinheiro é bem gasto."

O diálogo entre Jorge Jesus e Lopetegui...



Sem comentários...!


quarta-feira, 29 de abril de 2015

Ainda o clássico

"O clássico de domingo foi um jogo de tensão, mas sem intenção. De emoções, mas sem ocasiões. De temores, mas sem tremores. De tácticas, mas com matemáticas. Um clássico sem classe. Com luz ao fim do túnel, mas sem túneis. Irrepreensivelmente precedido de (bons) silêncios dos dirigentes dos dois clubes e sem remoques sobre o árbitro. Para o Benfica, fica um resultado razoável (0,5-0), ainda que se pudesse esperar mais. Para o Porto, um resultado medíocre face ao que lhe seria necessário. O jogo em Barcelos será agora o decisivo.
Mas, perante um jogo de xadrez sem xeque-mate, eis que, no fim, o técnico do Porto estava exaltadíssimo. Já sabemos que não sabe perder. A culpa é sempre dos árbitros, a sua equipa joga sempre melhor, os jornalistas querem que o FCP perca, ou, agora em versão geométrica, 'não acertámos na baliza'. Desta vez, porém, a querela foi onomástica! É que depois de, no início do jogo, ter abraçado Jesus em jeito de união ibérica, no fim berrou-lhe aos ouvidos para não se voltar a enganar ao pronunciar o seu tão comum apelido: LO-PE-TE-GUI.
Jorge Jesus deve ter ficado preocupado. Não no momento, porque a situação foi controlada, mas com alguns jogadores nesta fase crucial. Fejsa, por exemplo que, por vezes, é o Fesja. Ou Ola John promovido a Ola Jonas. E os Manéis que reacção poderão ter? Nada de gritar aos ouvidos do treinador, ok?
O tão exigente Julen Lopetegui Argote, do seu nome completo, também já poderia arranhar melhoro português. Mas como o Real Madrid o espera ansiosamente...
Saliento, pela positiva, o abraço de são desportivismo de Júlio César e Helton, grandes profissionais."

Bagão Félix, in A Bola

Lopetegui esku hutsik?* (*do basco: Lopetegui de mãos vazias?)

"O basco de sangue quente pode tornar-se o primeiro treinador portista em 25 épocas a falhar e todas as frentes (eram quatro). FCP arrisca 'zerotitoli' o os jogos em Lisboa voltam a ser 'tabu'...

Julen Lopetegui perdeu um bocadinho as estribeiras no final do chatíssimo Benfica-FC Porto, mas Jesus desvalorizou a picardia. Compreender-se. O treinador do Benfica sabe muito bem o que é (estar na iminência de) perder tudo, que é precisamente o risco que correr o treinador basco que Pinto da Costa escolheu e quer «ver muitos anos» no Dragão. Pouco importa o motivo que levou Lopetegui a embirrar com Jesus no final da aborrecidíssimo Benfica-FC Porto. O que fica para a posteridade é que o Basco se comportou de acordo com o velho guião portista que manda ter más maneiras e fazer cara feia em Lisboa, sobretudo no Estádio da Luz. Nesse particular, Lopetegui parecia mesmo um portista da velha guarda. Logo após o arrufo com Jesus, as câmaras televisivas ainda o apanharam à entrada do túnel numa pose desafiante, provocadora, peito feito para Jorge e para a multidão encarnada - quantos são?, quantos são? Ainda com as imagens de Helton abraçado a Júlio César e Quaresma abraçado a Jesus (que sacrilégio!) a passarem nos ecrãs, todos ouvimos Julen dizer que o FCP teve «várias ocasiões» (?!?) e que foi a única equipa que jogou para ganhar. Um discurso à Porto de um treinador com lábia, desplante e nervo; e a quem só falta começar a ganhar títulos para poder ser levado a sério pelos próprios adeptos.
O problema é que Lopetegui dificilmente conseguirá ganhar qualquer coisa nesta época, uma vez que as hipóteses do FCP no campeonato passavam muito pela vitória na Luz. Assim, só um milagre - ou uma grande trapalhice do Benfica - impedirá Julen Lopetegui Argote de terminar a campanha de mãos a abanar. Não é detalhe de somenos se nos lembrarmos que o FC Porto é a única equipa europeia que ganha títulos há 25 épocas consecutivas (última campanha em branco: 1988-89, com Quinito de início e Artur Jorge a fechar), um registo absolutamente fabuloso cuja muito provável interrupção vai certamente penalizar Lopetegui aos olhos dos adeptos. Que tem uma mania lá muito deles: não gostam de perder - e gostam ainda menos de perder tudo. Não será Julen o único penalizado, caso o FCP termine de mãos vazias. Também o homem que o escolheu, Jorge Nuno Pinto da Costa, responde pelos resultados... quer esteja para aí virado ou não. Foi o presidente ad eternum da nação portista quem apostou forte no inexperiente Basco nascido em Asteasu, província de Guipúzcoa, para conduzir uma equipa recheada de reforços - excelentes e dispendiosos reforços! - e impedir o Benfica de alcançar o primeiro bicampeonato em 30 anos. Estava Pinto da Costa longe de imaginar o desfecho que se avizinha... ele que terminou vitorioso (quer dizer: com algum título) 30 das 32 épocas do brilhante consulado. Prepara-se então o quase octogenário líder portista para um terceiro exercício de jejum e penitência depois das brancas de 1982-83 (com José Maria Pedroto) e 1988-89 (Quinito e Artur Jorge). Acontece a todos. Tem acontecido imenso aos presidentes do Sporting. E aconteceu muitas vezes ao presidente Luís Filipe Vieira... nomeadamente há dois anos, de forma particularmente dolorosa (Campeonato, Liga Europa e Taça de Portugal, tudo para o galheiro no espaço de 15 dias!). Lembre-se a resposta de LVF aos que lhe exigiam - e foram muitos - a cabeça de Jorge Jesus numa bandeja. O resultado dessa teimosia está à vista.
Pinto da Costa vai reforçar a confiança no treinador - o contrário seria ilógico. Mas o treinador tem de perceber de uma vez por todas que só há um grande na equação FCP-Lopetegui: o clube. Não sei se Julen Lopetegui Argote tem consciência disso, mas a tirada mais célebre do grande poeta romano Virgílio aplica-se-lhe na perfeição - «Felix qui potuit rerum cognoscere causas» (felizes aqueles que conhecem a causa das coisas). É uma frase bonita e faz um vistão numa conferência de Imprensa. Como convém a um treinador portista com trejeitos da velha guarda, menos naquele aspecto acima citado.

Volta a 'bruxa' lisboeta
Nulo na Luz com sabor a desaire, décimo jogo consecutivo do FC Porto sem ganhar em Lisboa (seis empates, quatro derrotas). Contas feitas, o FCP não ganha na capital desde 2 de Março de 1012 (3-2 na Luz com o tal golo decisivo de Maicon em fora-de-jogo), e ainda tem uma visita para fazer: ao Restelo, onde empatou na época passada (1-1). Eu sou do tempo em que o FCP perdia a maior parte dos jogos em Lisboa, mas também sou do tempo - este - em que o FCP ganhar frequentemente na capital, especialmente no Estádio da Luz. Não sei se a descaracterização progressiva do plantel portista e a falta de jogadores-referência com forte ideário anti-capital têm alguma coisa a ver com isto; se calhar, sim. A verdade é que este FC Porto estrangeirado, de valores amolecidos, deixou de vir à capital com espírito de cruzada. E logo reapareceu a malvada bruxa que começava a atacar logo à saída da ponte D. Luís.

(...)"

André Pipa, in A Bola

Todos os nomes

"Quem seguiu a transmissão do Benfica-FC Porto sabe bem duas coisas: que a equipa de arbitragem foi a melhor em campo e que o incidente entre Jesus e Lopetegui o mais excitante da tarde.
Há ali de tudo: humor nonsense - Jesus recebe o espanhol de braços abertos e a rir-se, como se esperasse que o adversário partilhasse a sua alegria; paralelismo bíblico - em vez dos beijos com que Judas entrega a Jesus (o verdadeiro) aos romanos, o espanhol abraça (o benfiquista) duas vezes - uma antes do jogo, outra no final - encenando afecto que na verdade é inexistente; drama - Jesus percebe que afinal não vive conto de fadas, e, macho, rechaça a ideia de um puñetazo do espanhol; apoteose - os dois são separados por uma multidão que tudo faz para evitar a briga.
Educação à parte, há duas questões que me saltam à vista. Antes de mais, Lopetegui deu ares de ser homem sem capacidade para treinar uma grande equipa. Não por saber pouco de futebol; nada disso, que ele sabe, mas porque foi fraco psicologicamente e quem é fraco está sempre mais perto de perder que de ganhar.
Se o espanhol não percebeu que Jesus troca os nomes a toda a gente (Ola John é, para ele, Alan Jonas) devido a alguma não diagnosticada dislexia, então não deu importância devida ao estudo do adversário. Se, percebendo ou não as limitações de comunicação do rival, deixou que estas o afectassem, então foi mais líder: colocou-se acima do grupo e centrou no seu pelos vistos enorme ego um jogo que poderia decidir a época.
Parece mais ou menos pacífico que com o plantel do FC Porto e com a evolução no modelo de jogo do dragão, o próximo ano tem tudo para ser de ouro. Assim saiba Lopetegui arrepiar caminho e resistir à ideia de esmurrar todos os que - até adeptos do seu clube - injustamente o baptizaram nas redes sociais como Flopetegui."

Nuno Perestrelo, in A Bola

Falhar duas vezes no mesmo clássico

"Bem sei que no final de um jogo de tamanha importância, como no de domingo, não é fácil conseguir que depois fale mais a razão do que o coração, mas Julen Lopetegui poderia, e deveria, ter evitado aquele episódio com Jesus à entrada do túnel do Estádio da Luz. Este clássico aconteceu, todo ele, num clima de respeito e tranquilidade que não é frequente observamos nos jogos entre Benfica e FC Porto, principalmente nestes mais próximos do final da época e decisivos para a conquista de títulos ou troféus. Os dirigentes não se atacaram antes do jogo, mas conferências os treinadores também se esforçaram por contornar temas polémicos, no campo os jogadores foram agressivos mas leais, e acabaram, muitos deles, abraçados no final do desafio e a trocar camisolas; nem sequer surgiram os incontornáveis casos de arbitragem a estragar o ambiente saudável entre dois grandes clubes e duas grandes equipas.
Surgiu, sim, um Lopetegui a tentar conter a fúria de não ter conseguido vencer o Benfica e provavelmente ter perdido ali o campeonato, com um sorriso amarelo, a fazer das tripas coração para não ser ainda mais deselegante do que foi com Jorge Jesus. E olhem que se há treinador que no saber estar não pode servir de modelo é mesmo o de Benfica, que, por exemplo, já empurrou um polícia em campo num jogo em Guimarães, que em Londres provocou tanto o treinador do Tottenham que por pouco não houve estalada.
Mas, no domingo, Jesus foi provocado e o provocador foi mesmo o mesmo basco que em Munique, depois de esmagado pelo Bayern, colocou em causa os profissionais presentes na conferência de imprensa, insinuando que muitos deles desejavam que o FC Porto não se levantasse. A meu ver o FC Porto abana mas não cai, porque tem qualidade e uma alma tremenda. E que ainda não vi em Lopetegui."

Nélson Feiteirona, in A Bola

Tensão máxima

"No fim do clássico, Jesus disse que o jogo tivera uma intensidade só ao alcance das grandes equipas e Lopetegui elogiou os seus jogadores. Os comentadores riram-se: o jogo fora uma chatice! Julgo que não perceberam o que se passou.
Para Lopetegui, perder aquele jogo seria o fim da linha - e, talvez, o fim da carreira no Porto; para Jesus, seria voltar a morrer ingloriamente na praia. Para os dois treinadores, raros jogos tinham tido uma importância tão grande.
Depois dos 6-1 de Munique, o Porto só podia fazer uma coisa: estancar a esperada avalancha encarnada e depois tentar marcar. A estratégia só não resultou porque Jackson falhou estrondosamente um golo fácil. Quanto a Jesus, tinha de evitar a todo o custo sofrer golos, que podiam deitar a perder o trabalho de um ano inteiro.
Com isto na cabeça, as duas equipas disputaram a relva palmo a palmo - donde resultou um jogo chato mas sempre no fio da navalha. Cada movimento de uma equipa tinha de ter resposta por parte da outra. As substituições, pensadas ao pormenor, implicaram sempre alterações tácticas.
Os treinadores estudaram-se, espremeram os miolos, esgotaram-se - e no fim sentiam-se de consciência tranquila. O Porto conseguiu não deixar o Benfica fazer golos na Luz, ao fim de 92 jogos sempre a facturar, e só faltou marcar para tudo ser perfeito. O Benfica conseguiu não perder, num jogo só, o trabalho de uma época, como sucedera em duas ocasiões recentes.
A tensão máxima com que viveram o clássico explica as declarações dos treinadores no fim. E também a carga explosiva contida num abraço que parecia amistoso e acabou quase à estalada."

Campeonato de muitos medos

"Façamos uma pausa no incidente provocado por Lopetegui no final do clássico e entreguemo-nos à análise mais fria de um campeonato feito de muitos receios. Desde o arranque da época que se projectou esta Liga como essencial no percurso de Benfica e FC Porto. Para o clube da Luz, o título significa o dobrar da esquina que supostamente lhe pode abrir o caminho para a hegemonia do futebol português. O bicampeonato, algo inédito para o Benfica nos últimos 30 anos, cimentará o poder do clube e encerrará um longo capítulo pintado de azul e branco. Para o FC Porto, voltar a cortar à nascença um eventual ciclo virtuoso das águias não apenas simbolizaria um golpe duro nas ilusões dos rivais mas também renovaria a própria convicção interna de 'quem manda ainda somos nós'.
Nos pratos da balança havia que pesar também o menor investimento do Benfica face a um FC Porto que, ao contrário da época anterior, voltou em força ao mercado. Em aquisições e altos salários, abriu os cordões à bolsa. Jesus ficou com menos qualidade mas pela frente teve o 'novato' Lopetegui a liderar um conjunto de grandes jogadores sem identificação com o nosso futebol. Por tudo isto, Benfica e FC Porto partiram com um sentimento de enorme pavor à perda do qual resultou, na maior parte do tempo, em campanhas que em poucos momentos galvanizaram adeptos e conquistaram críticos.
O clássico de domingo foi o espelho desta marcação cerrada e, no caso de quem ficou mais longe do objectivo, foi também imagem da tensão acumulada. A verdade é que até ao fim, o campeonato vai jogar-se assim. A curta vantagem continuará a ser gerida com pinças. Ganhe quem ganhar, a liga ficará na história por todas as razões menos pelo deslumbrante futebol do campeão."

Chulos...

O protesto que o Benfica apresentou na EHF, requerendo a repetição do jogo, na sequência do inacreditável erro que ocorreu na 2.ª mão das Meias-finais da Taça Challenge, no jogo disputado na Luz, contra os Romenos do Oderhei, acabou por ser negado... como já era expectável.
Não interessa qual a modalidade, as Federações (nacionais ou internacionais), servem essencialmente para atribuir .'tachos'. A defesa da modalidade, ou da verdade desportiva, é completamente irrelevante para esta gente.
A justificação da EHF, para a não repetição da partida é ridícula. Reconhecem o erro. Um erro com claro impacto no resultado final do jogo e da eliminatória. Mas acham que os árbitros só seguiram as indicações da Mesa, e na altura não havia condições para a Mesa ou os árbitros terem acesso a mais elementos!!!!!

Basicamente, confundiram os dois jogadores de ascendência Africana do Benfica, diga-se uma atitude um bocadinho racista!!! Além disso, parece que só sabem contar até 5...!!! O Benfica tinha um jogador excluído, portanto só podia ter 6 jogadores em campo, o Benfica fez exactamente isso, mas a Mesa e os árbitros acharam que o Benfica tinha um jogador a mais...!!! Portanto, além de racistas, não têm conhecimentos básicos de matemática... Com tudo isto provado, com imagens esclarecedoras, a EHF, para não atrapalhar os seus calendários, resolveu não repetir o jogo.
Premiando uma equipa, o Oderhei, que por acaso contribuiu para toda esta confusão, com os jogadores e treinadores, a 'ajudarem' ao engano da Mesa, com protestos visíveis e audíveis!!!

PS: Já agora, no meio de toda esta confusão, não ouvi, nem li, qualquer posição oficial ou oficiosa da FPA (Federação Portuguesa de Andebol). Tenho a impressão, se uma situação idêntica tivesse acontecido a outro clube português, o comportamento teria sido diferente... mas é só uma impressão!!!

Zezefe

Parabéns a quem no Benfica, acabou por dar seguimento a esta 'ideia' que surgiu através das redes sociais. Nos dias de hoje, não se pode desprezar este tipo de iniciativas, são coisas simples, mas têm impacto, e fazem jus aos propósitos dos nossos fundadores...

Tudo normal...

Fernando Mendes Ex Futebolista Confessa Ter Recebido Dinheiro Para Ganhar ao Benfica from Luisao Capitao on Vimeo.

Adrenalina... e Bingo !!!


A verdadeira conversa entre JJ e Lotopegui por bitaites-a-la-benfica

terça-feira, 28 de abril de 2015

O ponta-de-lança da infância sem ternura

"A propósito de uma música de Vitorino (letra de José Jorge Letria) e das lembranças de uma conversa no cemitério de Setúbal pouco tempo da sua morte, escrevo sobre Vítor Baptista e sobre o seu golo ao Sporting - o «golo do brinco», o último marcado com a camisola do Benfica.

No Benfica, o seu último golo foi o do brinco. 12 de Fevereiro de 1978: ao Sporting, a passe de Cavungi - matou a bola no peito em frente de Inácio e disparou. Inácio terá visto bem o golo (é perguntar-lhe...), Botelho nem por isso.
Depois Vítor Baptista mergulhou na relva e na busca impossível: o brilhante perdido para sempre.
O seu brilho de 'encarnado' também desapareceu.
No final dessa época regressaria a Setúbal recusando um ordenado de 550 contos (exigia 650) e passando a ganhar apenas 100.
Ele era assim.
Na canção de Vitorino com letra de José Jorge Letria:
«Eras a festa do jogo
Com o resultado incerto
Entre a água e o fogo
- Adeus Vítor, até logo
Que a vitória andou perto.»
Encontrei-o uma vez no Cemitério da Paz e era cantoneiro. Acabara de ser preso por molestar umas meninas de escola. Em seguida soltaram-no. Reduzira a sua vida ao mínimo denominador comum da miséria. Queria dinheiro para dar entrevistas. Depois contentava-se com um almoço. Perguntei-lhe:
- Lembras-te Vítor de quando era O Maior?
E ele respondia encolhendo os ombros:
- Tive tudo e perdi tudo. Não me arrependo de nada.
E ficávamos horas à conversa, na companhia do João Lúcio. Tão distante já do brinco que caiu na relva da Luz para nunca mais ser encontrado.
«Eras o brinco perdido
Na parcela do relvado
Onde em sonhos tinhas lido
As promessas sem sentido
De um contrato renovado».
- Melhor do que eu só o Eusébio. Esse era um monstro! Impressionante! A seguir a ele fui o melhor jogador português de sempre.
Falava sem vaidade porque deixara de a ter. Era um escombro. Escanzelado, barba esparsa, olhos encovados, lábios secos.
Sobrava-lhe um pingo de orgulho. Ser reconhecido. Falarem-lhe do passado.
18 de Outubro de 1948 / 1 de Janeiro de 1999.
Também como Eusébio, foi Janeiro que o levou.
Sete épocas de Benfica. Chegou em 1971. Preço astronómico! 3000 contos para o Vitória de Setúbal e ainda José Torres, Matine e Praia.
Ah! Mas o Vítor Baptista prometia tudo: espectáculos, golos, visões únicas do Futebol e da vida. Foi-se perdendo na vontade de se encontrar. De ser O Maior.
Perdido como o brinco...
«Eras o rapaz do brinco
Eras o herói da tarde
Driblador cheio de afinco
Médio seguro ou trinco
De alegria dessa idade».
«Meu Deus! Por que me fizeste tão belo?»
No dia 12 de Fevereiro de 1978, o Benfica já não tinha aquela quantidade impressionante de avançados que marcara a chegada de Vítor Baptista à Luz: além dele, Eusébio, Simões, Artur Jorge, Nené, Jordão...
Algo de absolutamente único!
Mas, o Vítor Baptista nunca foi propriamente modesto. Olhava-se ao espelho e suspirava: «Meu Deus! Por que me fizeste tão belo?»
E a malta gostava do Vítor porque ele era mesmo assim: por inteiro.
No dia 12 de Fevereiro de 1978, depois de ter menorizado Inácio e Botelho e de ter assinado o seu golo mais famoso e igualmente belíssimo, queixou-se:
- O prémio da vitória frente ao Sporting foi de oito contos. O brinco custou-me mais de dez. Enfim. Hoje perdi dinheiro a trabalhar.
Depois entrou no seu Jaguar e guiou até um restaurante chique da Linha. Pediu Lagosta e vinho. Farto do olhar curioso dos outros clientes, bebeu o vinho e foi-se embora sem comer.
Nessa altura já não tinha o chofer dos primeiros tempos que o trazia de Setúbal a Lisboa.
Conduzia para o fim. Para a tristeza infinita no meio da qual morreu. Cada vez mais longe dos golos acrobáticos, dos lances indefiníveis de só seus.
«Eras o ponta-de-lança
Da infância sem ternura
O campeão que foi esperança
E essa eterna criança
Sempre às portas da loucura».
Ouvi-o desfiar lembranças por entre o marulhar das folhas dos ciprestes e o piar dos melros. Havia uma espécie de paz, daquela paz inquietante dos cemitérios.
Depois ele queria beber numa aflição de álcool. E também de drogas que o levou até a prostituir-se.
A vida a bater no fundo.
Mostrei-lhe a fotografia do Nuno Ferrari: frente ao Estádio da Luz, encostado ao seu carro moderno, tempo de ter tudo o que desejava. E ele repetiu:
- Não me arrependo. Vivi como quis. Foi bom.
E depois pediu-me boleia para Lisboa, para o Estádio. Talvez encontrasse o Toni ou o Shéu: davam-lhe bilhetes para os jogos, de quando em vez um fato de treino do Benfica. E ele regressava de camioneta para Setúbal, exibindo  emblema, recuperando um bocadinho de dignidade até ao momento de vender tudo na voragem dos vícios.
«Foste a sombra do que eras
A carreia interrompida
Gazela no meio das feras
A ruína das quimeras
Destroço de um fim de vida».
Hoje, ao sentar-me cara a cara com o computador, lembrei-me do Vítor Baptista. E dessas conversas em Setúbal. Já não muitas, como poderiam ter sido, porque a sua memória se esboroava e lhe faltava a paciência para reviver os dias que lá vão. Descreveu golos e jogadas, mas sem o entusiasmo das saudades. Mecanicamente. Um Vítor que deixara de ser ele. E deixara, numa outra vida distante, de ser O Maior.
«Foste esse brinco perdido
Em grande tarde de glória
E podias ter vencido
Mesmo vergado e rendido
Pelas traições da memória».
Não haveria mais cães amarrados a um poste de uma baliza da Luz. Nem roupas excêntricas e brincos na orelha antes do tempo de serem moda. Nem treinos dados no Montijo, sentado na garupa de um cavalo, acompanhando a corrida dos jogadores em redor do campo.
Meu Deus! Por que o fizeste tão diferente?
Vítor Baptista foi O Maior! Na sua convicção segura. Na sua certeza que não admitia contradita. Foi aquilo que quis. Sem arrependimento na derrocada.
E o Vitorino canta:
«Foste o brinco jóia rara
Desse tempo de conquista
A loucura sai tão cara
E se a grandeza é tão rara
Que viva o Vítor Baptista!»"

Afonso de Melo, in O Benfica

Um nome: soberba

"«O que há num simples nome?», questionava-se Julieta, no drama de Shakespeare. A pergunta é-nos devolvida todos os dias e regressou em força na ressaca do Benfica-Porto. Custa a crer, mas, de acordo com os relatos, é mesmo verdade: a altercação entre Jesus e, vamos lá ter cuidado a grafar, Lo-pe-te-gui não se deveu ao calor da luta, mas ao basco ter ficado enxofrado com as constantes trocas do seu apelido pelo treinador do Benfica.
A coisa parece ter contornos de drama de shakespeariano, e pode bem ter. Diria que estamos perante o derradeiro sinal da soberba com que o técnico do Porto encarou a sua passagem por Portugal, e que o faz acumular falhanços atrás de falhanços, aproximando-se da queda.
Podia encher esta coluna com 'variações Jesus' de nomes e apelidos. A tarefa era fácil. Das últimas semanas e fazendo um exercício de memória, recordo-me do 'Wiliams' do 'Ola Jonas', do Jonathan rebaptizado de 'Xavier' e, claro está, do magnífico 'Lotopegui' (a coisa é de tal forma, que hoje tenho dificuldade em acertar com o nome do basco).
Jorge Jesus pode ter muitos defeitos, mas qualquer pessoas com um módico de sensatez percebe que as trocas de nomes, se nos dizem alguma coisa sobre o técnico do Benfica, é que estamos perante alguém autêntico, que não procura ser quem não é. Não por acaso, numa atitude tão pouco comum em Portugal, Jesus não perde uma oportunidade de nos recordar as suas origens e fá-lo com honra. Só lhe fica bem.
Que Lopetegui não tenha percebido isso e tenha tomado por gozo o que está, aliás, mais próximo da auto-ironia, é um sintoma da mesma atitude que o levou a ficar convencido que teria uma tarefa fácil no Porto e a desvalorizar o nosso campeonato, as competências tácticas dos treinadores portugueses e a organização defensiva a que se agarram os clubes pequenos. Os resultados da soberba estão à vista."