"Um narcisista é incapaz de reconhecer erros, assumir culpas, sentir empatia. Possui um ego desmesurado, embora frágil.
Na Casa Branca ou na Seleção Nacional, o diagnóstico é semelhante.
Tudo isto é fado, tudo isto é triste.
Os mundos de Cristiano, Jesus e Proença são semelhantes na escassa destreza emocional e na abundante altivez. Não excluo nenhum deles da síndrome narcísica.
Nesta endogamia, porém, não podemos perder de vista a função objetiva de cada um. O papel que lhes cabe representar, principalmente por estar em causa o futebol de Portugal.
Qual é o debate que verdadeiramente importa? Fujamos das investidas histéricas dos partidários da ‘eterna gratidão’, pois o passado não é uma garantia de sinecura, seja qual for a dimensão da personagem.
Se Cristiano foi um gigante desportivo, a exigência deve ser-lhe proporcional.
O que pretende viver o avançado ao serviço da Seleção? Um casamento de conveniência, uma relação que lhe sirva de meio para agigantar a lenda?
Aos 41 anos - 42 em fevereiro -, Ronaldo deveria trajar as vestes de sábio ancião, conselheiro ponderado dos mais imberbes, ombro amigo nos frágeis e desamparados.
Num outro mundo, num mundo em que Cristiano tivesse transitado para um estado de maturidade e grandiloquência, eu perceberia a sua presença e bons auspícios dentro da comitiva nacional.
Sucede que Cristiano Ronaldo, lamentavelmente, é o causador, o instigador-mor, de tudo o que deveria ajudar a serenar. Castiga-se quando não marca, amua se não joga os minutos por si idealizados, foge dos holofotes se corroído pela azia.
«Tenho a certeza que sim. Jorge Jesus foi uma escolha perfeita.»
«Tudo o que mister precisar, para jogar, para sair, entrar, ou não jogar, o orgulho que tenho de representar Portugal é igual.»
«Espero que corra tudo bem com o Jorge Jesus. Se lhe correr bem, corre a todos nós.»
A 23 de setembro, numa conferência de imprensa que mais parecia um espetáculo de variedades, Cristiano deixou estas e outras frases aos portugueses.
Quatro dias depois, em Oslo, não foi utilizado e amuou. Não se juntou aos colegas de equipa e recusou cumprimentar os adeptos portugueses.
Um capitão, um bom capitão, não faz isto. Aguenta, respira fundo. Se tem algum incómodo a resolver, resolve-o na discrição da intimidade.
As notícias chegadas do norte da Europa resumem assim o conflito:
1. Jesus terá combinado com Cristiano a titularidade nos dois jogos em casa: Gales e Noruega
2. Jesus terá dito a Cristiano que jogaria 30 minutos em Oslo
3. Cristiano aqueceu para entrar na Noruega e não entrou
4. JJ justificou-se e disse que o jogo se tornou difícil para um avançado com as características de Ronaldo
5. Ronaldo sentiu-se desrespeitado e o ambiente ficou irrespirável
6. O sinal de emergência chegou a Lisboa, Pedro Proença meteu-se no avião e percebeu a dimensão da confusão.
Cristiano tem sido isto há mais de quatro anos. No mínimo. Um embaraço tático, uma nulidade em campo, um vazio em termos comportamentais. A nossa referência mundial é uma preocupação para quem a gere, quando devia ser um descanso, um conforto, um aliado.
As culpas não são só dele. Se Jesus lhe prometeu meia-hora na Noruega, errou – nenhum treinador de elite sabe o que um jogo vai ditar, tamanhas são as variáveis.
E se Jesus ceder à pressão e adaptar as suas ideias às manias de Ronaldo, voltará a errar.
A melhor forma de homenagear o legado insuperável de Cristiano é tratá-lo como um homem, com maiúsculas, exigindo-lhe sabedoria, comprometimento e respeito pelas hierarquias.
A permanente desculpabilização e o medo de perder o ativo milionário - e os sponsors associados -, são a pior traição a esse legado.
PS 1: o cachimbo da paz fumado a três a altas horas da madrugada sueca (Malmo é o local do quartel-general) não torna este deplorável momento menos deplorável. A ferida foi aberta, é feia e deixará marcas na epiderme da seleção.
PS 2: já depois de publicado este Campo Pelado, Cristiano Ronaldo achou boa ideia abandonar o treino, o estádio e afastar-se do grupo da Seleção. Mais um capricho de um futebolista incapaz de perceber e aceitar a lei da vida. E do futebol."

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