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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Trump já ligou a Jesus


"Depois da intervenção de Luís Montenegro, só falta mesmo o presidente dos EUA para resolver a 'guerra' na Seleção, mas continua difícil imaginar um acordo de paz verdadeiro

As redes sociais são perversas. Por estes dias apareceu-me um artigo sobre um apelo de Donald Trump a Cristiano Ronaldo: «Precisamos de ti». Por momentos pensei que a polémica na Seleção Nacional já tivesse chegado à Casa Branca, onde o capitão de Portugal esteve em novembro de 2025. Afinal o apelo de Trump a Ronaldo era de fevereiro (deste ano), mas não me pareceu assim tão descabido que, depois da intervenção do primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, Jorge Jesus já tivesse recebido um telefonema do presidente dos Estados Unidos da América, vencedor do prémio de paz da FIFA.
Talvez a escala global que a polémica adquiriu seja prova derradeira da dimensão futebolística que CR7 alcançou, mas também reflexo direto da proporção do comportamento do próprio. 
Para já apenas Jorge Jesus teve de explicar o que sucedeu. Falta ouvir Ronaldo, acima de tudo, e também o presidente da FPF, mas até ao momento não surgiu nenhuma versão que justifique a renúncia do capitão quando devia estar em pleno exercício das suas funções. A frustração por ser suplente não utilizado — de um jogo que até nem era para jogar — não justifica virar costas a colegas e adeptos, mesmo que tenha recebido indicação posterior de que afinal jogava 30 minutos, e mesmo que tenha passado muito tempo a aquecer. Isto ao segundo jogo do novo selecionador, que é Jesus mas podia ser Mourinho, Amorim ou Conceição.
Ronaldo não parou para pensar que muitos colegas já passaram pelo mesmo, alguns até porque os treinadores tinham receio de o substituir a ele, incontornável cabeça de cartaz.
Naquele momento ninguém se coloca nos sapatos do outro, muito menos Cristiano, pouco habituado a ser prescindível. Errou, mas é aí que vale o estatuto. Se há alguém com margem para errar é ele, mas depois seria preciso que o capitão, que tantas vezes deu força ao país, soubesse dar parte fraca. Ronaldo insistiu no erro depois de ouvir a conferência do selecionador. Tinha toda a legitimidade para sair, mas foi ele que optou pela porta dos fundos. Ao abandonar o estádio naquela carrinha preta, e não no autocarro, ao lado dos colegas, seguiu uma via de aparente sentido único.
Ninguém ganha com esta guerra, mas é difícil imaginar um acordo que traga verdadeiramente paz à Seleção.
Encontrar solução para uma outra despedida é o mínimo, mas já nem isso terá a dignidade que devia."

O futebol feminino já não está à espera


"Durante muito tempo, falar de futebol feminino significava falar sobretudo dos mercados onde a modalidade já tinha uma história, uma estrutura e um caminho percorrido. Hoje, esse mapa está a mudar.
Cada vez mais jogadoras portuguesas estão a procurar oportunidades fora de Portugal e, mais importante do que isso, estão a encontrá-las em mercados que, até há pouco tempo, tinham uma presença muito mais discreta no futebol feminino.
É uma mudança que tenho acompanhado de perto enquanto agente e que me parece revelar algo maior do que o simples aumento do número de transferências internacionais: o futebol feminino está a ganhar espaço em geografias onde a aposta na modalidade é relativamente recente, mas onde existe uma clara vontade de acelerar o seu desenvolvimento.
A Arábia Saudita é um dos exemplos mais evidentes. Um país que entrou recentemente numa nova fase de investimento no futebol masculino não demorou a perceber que o crescimento da modalidade não podia ficar limitado aos homens. O futebol feminino começou também a ganhar estruturas, competição e investimento, criando novas oportunidades para jogadoras e treinadores.
É particularmente interessante observar este processo porque estamos perante um mercado que está, de certa forma, a construir o seu caminho enquanto outros já têm décadas de história. E isso cria uma dinâmica diferente: existe vontade de aprender, de criar estruturas e de atrair talento e experiência internacional.
A Turquia é outro exemplo. Clubes com enorme tradição no futebol, habituados a grandes investimentos e a uma forte cultura desportiva, estão agora a reforçar a aposta no futebol feminino. Mais investimento significa melhores condições, maior competitividade e, naturalmente, maior capacidade para atrair jogadoras.
E esta tendência não se limita a estes dois mercados. O futebol feminino está a tornar-se progressivamente mais internacional, mais competitivo e mais diversificado. Para as jogadoras, isso significa que o número de caminhos possíveis está a aumentar.
Portugal tem também aqui um papel importante. Temos jogadoras com qualidade, formação e experiência competitiva que podem acrescentar valor a projetos internacionais. E quando uma jogadora portuguesa parte para um novo mercado, não leva apenas o seu talento: leva consigo uma escola, uma experiência e uma forma de entender o jogo.
Tenho acompanhado algumas destas mudanças de perto e há algo que considero particularmente relevante: a internacionalização não deve ser vista apenas como uma consequência do crescimento do futebol feminino. É também uma das suas forças. Quanto mais mercados investirem, mais competição existe. Quanto mais competição existir, maiores serão as exigências. E quanto maiores forem as exigências, maior será também a necessidade de profissionalizar estruturas, melhorar condições e criar projetos sustentáveis.
Ainda há muito caminho a percorrer. Mas talvez uma das mudanças mais importantes dos últimos anos seja precisamente esta: já não estamos a falar apenas de fazer crescer o futebol feminino nos mercados onde ele sempre esteve. Estamos a assistir à entrada de novos protagonistas. E quando novos mercados entram no jogo, o mapa também muda.
Para as jogadoras portuguesas, isso pode significar uma coisa muito importante: mais portas abertas. E, sobretudo, mais possibilidades para escolher onde e como querem construir as suas carreiras."

Cada segundo conta — como eventos desportivos podem ajudar a salvar vidas



"Os grandes eventos desportivos são uma oportunidade para implementar iniciativas de promoção da saúde pública, devido à sua elevada capacidade de mobilização e alcance internacional.
Em Portugal, porém, este potencial continua claramente subaproveitado. Organizamos, recebemos e celebramos grandes acontecimentos desportivos, mobilizamos milhares de pessoas e geramos uma enorme atenção mediática, mas raramente transformamos essa capacidade de mobilização numa verdadeira oportunidade de educação para a saúde e de capacitação da população.
Falta-nos, muitas vezes, uma visão que ultrapasse o resultado desportivo e compreenda que estes eventos podem ser plataformas privilegiadas para promover comportamentos de saúde, prevenir situações de emergência e preparar os cidadãos para intervir quando a vida de alguém está em risco. É precisamente neste ponto que importa olhar para exemplos concretos de outros países e perceber como esta oportunidade pode ser aproveitada.
A campanha Get Trained Save Lives, desenvolvida pelo European Resuscitation Council (ERC) e pela UEFA durante o torneio Euro 2024, demonstra de forma particularmente clara como um grande evento desportivo pode deixar uma marca que vai muito além do campo de futebol. A campanha decorreu durante 2 meses e meio, tendo a sua principal atividade ocorrido durante o campeonato, entre 14 de junho e 14 de julho. O objetivo foi aumentar a sensibilização para a paragem cardiorrespiratória e promover a aquisição de competências básicas de reanimação cardiopulmonar junto de adeptos de futebol, profissionais e equipas envolvidas na competição.
A iniciativa baseou-se em quatro componentes principais: formação interativa autónoma online, formação em reanimação cardiopulmonar dirigida a equipas de futebol, utilização dos meios de comunicação social e experiências presenciais de reanimação cardiopulmonar.
A campanha chegou a quase 200 mil pessoas através das diferentes atividades. A componente online consistia numa experiência interativa de aproximadamente quatro minutos, destinada a pessoas com idade igual ou superior a 12 anos e disponibilizada em 38 idiomas.
Os participantes acompanhavam um cenário de emergência conduzido por jogadores de futebol e respondiam a questões interativas relacionadas com a atuação perante uma paragem cardiorrespiratória. O sistema fornecia comentários e reações às respostas apresentadas. A plataforma tinha também como objetivo incentivar os participantes a procurar formação presencial em Suporte Básico de Vida, disponibilizando uma ferramenta para localizar cursos certificados na sua área de residência.
Contudo, é importante salientar que esta componente não incluía uma avaliação formal. A experiência online deve ser entendida sobretudo como uma ferramenta de educação e sensibilização, e não como substituto de uma formação completa em reanimação cardiopulmonar.
Por outro lado, jogadores profissionais, treinadores, árbitros e outros elementos das equipas participantes no Euro 2024 realizaram sessões interativas de reanimação cardiopulmonar com duração de 45 minutos, denominadas GOAL – GO and Save A Life.
A formação de profissionais do futebol foi considerada particularmente relevante, tendo em conta a ocorrência de paragem cardiorrespiratória súbita em atletas e a necessidade de aumentar a preparação das pessoas que se encontram próximas dos atletas durante treinos e competições.
A campanha também utilizou intensivamente os meios de comunicação social. Um dos principais elementos foi um anúncio televisivo de 30 segundos, no qual jogadores de futebol conhecidos demonstravam ações básicas de reanimação e transmitiam a mensagem de que qualquer pessoa pode salvar uma vida.
O anúncio foi transmitido através das redes de televisão associadas à UEFA, nomeadamente antes e depois dos jogos e durante os intervalos. Também foi apresentado nas Fan Zones, nos ecrãs dos estádios e nas redes sociais.
Também esteve montada uma formação com duração muito reduzida, de aproximadamente cinco minutos, que estava dividida em três fases.
Na primeira fase, denominada Check, Call, Compress, os participantes aprendiam a reconhecer uma paragem cardiorrespiratória, pedir ajuda e iniciar compressões torácicas num manequim. Na segunda fase, era realizada uma competição. Os participantes utilizavam manequins de treino equipados com um sistema de avaliação da qualidade da reanimação, ligado a tablets através de uma aplicação específica. Durante um desafio de 60 segundos, a qualidade das compressões torácicas, nomeadamente a frequência, a profundidade e a descompressão, determinava o movimento de um avatar num jogo com temática futebolística. Quanto melhor fosse o desempenho na reanimação, mais rapidamente o jogador virtual avançava em direção à baliza. Os resultados eram apresentados num quadro classificativo visível aos participantes, criando um ambiente competitivo e simultaneamente educativo.
A preparação para responder a uma paragem cardiorrespiratória não depende exclusivamente do conhecimento técnico. A disponibilidade para intervir e a capacidade de reconhecer uma emergência são igualmente importantes. Obviamente que as sessões breves não substituem uma formação completa. A profundidade da aprendizagem deve ser adaptada ao contexto, ao público-alvo e aos objetivos educativos.
Este tipo de campanha demonstrou que um grande evento desportivo pode constituir uma plataforma para promover a educação em reanimação e aumentar a sensibilização para a paragem cardiorrespiratória. Para além da necessidade de aumentar a formação em reanimação na população em geral, também tem sido proposto a obrigatoriedade de uma espécie de vídeo-árbitro médico, com acesso a várias câmaras para ver o que aconteceu ao jogador e para orientar o procedimento médico.
Grande parte das doenças cardiovasculares pode ser identificada através de uma avaliação médico-desportiva adequada, que pode incluir exames médicos como eletrocardiograma e, quando indicado, ecocardiograma ou prova de esforço. No entanto, existem patologias que podem permanecer silenciosas e cuja primeira manifestação pode ser uma paragem cardiorrespiratória. Por isso, a prevenção não pode limitar-se à realização de exames de rotina. É fundamental valorizar a avaliação clínica especializada e garantir uma maior participação da especialidade médica de Cardiologia no acompanhamento dos atletas. Os cardiologistas devem ser mais procurados e, sobretudo, mais valorizados no contexto da prevenção e estratificação do risco cardiovascular."