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domingo, 25 de outubro de 2026

Pelé: a eternidade não se escreve sozinha


"Pelé fez anos ontem. Teria feito 86. Os mortos obrigam a estes cuidados com os verbos. Com o resto somos menos cuidadosos. Dizemos que são eternos e seguimos para a notícia seguinte. Um treinador levantou a sobrancelha. Um avançado apagou uma fotografia. Há uma polémica, há sempre uma polémica. Pelé pode esperar. E espera.
Nasceu a 23 de outubro de 1940, em Três Corações. O calendário fez o seu trabalho. Houve homenagens, notícias, quem lhe devolvesse o nome e o rosto. Não houve silêncio absoluto. Mas há uma enorme distância entre recordar uma data e guardar um lugar. A memória também exige tempo. E o tempo está todo vendido ao próximo assunto.
Pelé é eterno, dizemos. A frase sai limpa, pronta, sem esforço. Serve numa legenda, numa cerimónia, numa despedida. Depois fechamos a gaveta. A eternidade fica lá dentro, arrumada, a não incomodar a atualidade. Até ao próximo aniversário. Até que alguém se lembre de que é preciso lembrar. Estranha forma de tratar um imortal. Dar-lhe uma palavra tão grande e um espaço tão pequeno.
Não interessa saber se foi o melhor de sempre. Essa discussão transforma o futebol numa repartição onde se conferem números para atribuir uma licença de grandeza. Há sempre alguém com mais um argumento, mais uma estatística, mais um vídeo escolhido para encerrar a conversa. O debate nunca acaba. Mais importante é o que Pelé tornou possível imaginar.
Antes dele, existiram grandes jogadores. houve gigantes. ídolos. Mas Pelé foi o primeiro herói que atingiu uma dimensão capaz de ultrapassar o futebol. O seu nome chegava onde não se ouviam os relatos. Uma palavra. Só uma palavra. Pelé. Era o que bastava. Nunca precisou de tradução, de explicação, de uma lista de títulos. O mundo inteiro cabia num só nome de quatro letras.
Em 1958, um rapaz de 17 anos ajudou o Brasil a conquistar o seu primeiro Mundial. Voltou a ser campeão em 1962. Em 1970, depois de tantas pancadas de adversários incapazes de o travar de outra maneira, continuava a inventar futebol e conquistou o terceiro. Mas os títulos contam apenas a parte da história.
O resto (e o resto é tanto) está num gesto. Em todos os gestos. A bola levantada sobre um defesa antes do remate na final de 1958. O cabeceamento, em 1970, que obrigou Banks a fazer uma das defesas mais memoráveis da história. A bola deixada passar diante de um guarda-redes, o corpo a ir pelo outro lado, a possibilidade de um golo nascida de não tocar na bola. Essa que não entrou. E até o falhanço ganhou direito a ficar exibido em galeria. É preciso ser muito grande para deixar saudades de golos que não marcou.
Não havia uma câmara em cada bolso. Não havia a obrigação de produzir uma eternidade por semana. Havia um jogador a encontrar soluções que os outros ainda não tinham formulado como problema. O espanto vinha antes da repetição. Hoje repetimos tanto que, às vezes, já nem conseguimos espantar-nos.
Também houve o homem. Com contradições, escolhas discutíveis, silêncios. Cobraram-lhe não se ter levantado contra a ditadura brasileira. A pergunta é legítima. A utilização política das suas vitórias também faz parte da história. A grandeza de um jogador não deve servir para apagar o que nos desagrada no cidadão.
Mas convém não transformar a coragem numa tarefa simples, prescrita à distância por quem não arrisca nada. É fácil escolher as palavras que outro deveria ter dito quando não somos nós a enfrentar as consequências. O medo não desaparece porque alguém sabe jogar à bola. Uma camisola 10 não protege um homem de um regime. Podemos julgar um silêncio sem fingir que teria sido fácil quebrá-lo.
Recordar Pelé não exige que se desculpe tudo. Exige que se conheça a sua história antes de lançar a acusação. Também é para isso que serve a memória. Para impedir que uma vida inteira fique reduzida ao que dá mais jeito dizer sobre ela.
O presente habituou-nos a essa pressa. Mastigar. Engolir. Deitar fora. O grande jogo de ontem já estorva a antevisão de amanhã. Um talento é anunciado como geracional antes de ter uma geração para o medir. Uma semana chega para o promover. Outra chega para o descartar. Queremos história, desde que acabe de acontecer.
Aos jogadores que hoje se imaginam instalados num lugar divino, imune ao calendário, talvez convenha olhar para aqui. Como medida. Os seguidores não são uma garantia de memória. O ruído à volta de um nome pode acabar sem que esse nome tenha deixado de merecer ser ouvido. Se até Pelé precisa que alguém lhe abra espaço, nenhum aplauso de hoje garante que amanhã se lembrem de nós.
Não se exige que cada aniversário interrompa o mundo. Exige-se alguma coerência entre a eternidade que proclamamos e a atenção que concedemos. Uma página. Uma conversa. Um pai a mostrar um lance a um filho. Alguém que conte por que razão aquele nome importa, em vez de presumir que o nome se explica sozinho.
As pessoas morrem. Pelé também morreu. Mas o que fez não tem de morrer por falta de quem o conte. Ontem fez anos. Hoje ainda vamos a tempo."

E se a Bola for mesmo dourada?…


"Todos os anos a mesma coisa: a comunidade do futebol internacional escolhe os seus favoritos, especula, lança palpites, por vezes acerta, muitas outras passa ao lado da vontade e da perceção de quem, efetivamente, tem a possibilidade de votar para eleger o melhor futebolista do mundo.
Desde logo, esta expressão: parece-me muito arrojado tentar encontrar, num planeta de talentos e de eleitos para o belo jogo, apenas um representante, apenas um vencedor, embora saibamos que a carreira a nível de clubes e seleções, no período de avaliação, é um elemento quase determinante para ficar bem posicionado.
Nesse sentido, a Liga dos Campeões da UEFA e, em ano de Mundial, o desempenho da respetiva seleção nacional, é muito significativo, e Lamine Yamal, absolutamente dececionado o ano passado com a conquista de Ousmane Dembélé, surge hoje num patamar de maior luta pelo cobiçado prémio.
O jovem do Barcelona é um génio do futebol, mas tem ainda um longo percurso profissional para trilhar, alicerçado no seu clube e em quem o orienta. O seu pai não foi feliz na reação à vitória do francês na última eleição, e esse, definitivamente, não foi um bom exemplo de quem deveria representar a família, um alicerce essencial para a formação do Homem, mais do que do futebolista.
A determinada altura, percebeu-se que Lamine tinha arrepiado caminho e ganho concentração e foco para exponenciar a sua inegável qualidade. O jovem espanhol lucrou muito com a consistência competitiva e as mais-valias da sua seleção, entretanto sagrada campeã do Mundo, sendo também campeão espanhol pelos culés, embora a competição europeia de clubes não tenha corrido de feição aos blaugrana.
Mas temos, obviamente, um fortíssimo candidato à Bola de Ouro.
Acompanhado por Harry Kane. Mais do que uma grande época, a celebração de uma notável carreira para o ponta de lança inglês é fundamental para que o futebol, como um todo, celebre para a posteridade um nome incontornável de resiliência e competência. Tem estado em todas as últimas demonstrações de alto nível da sua seleção: duas vezes vice-campeão europeu, bandeira inglesa no Mundial das Américas, e conquistador de títulos (finalmente a deixar para trás a malapata que o acompanhava desde o Tottenham…), no Bayern de Munique, estrutura que deu outro peso e consolidou as capacidades do avançado de Leytonstone. Resta saber se a ausência de vitórias globais (Liga dos Campeões e Mundial, uma vez que não há Europeu em equação para este período) acabará por deixar Kane em situação de desvantagem perante tão forte e musculada concorrência.
E eis que surgem dois franceses, cada qual com razões para pensar que este poderá ser o seu ano. Se a Kylian Mbappé falta a grande consagração mundial, apesar do título mundial ganho com a França há oito anos (alguma similitude com Lamine Yamal), quando se tornou, depois de Pelé, o segundo mais jovem jogador a participar numa final de Campeonato do Mundo (com 19 anos e 207 dias), Michael Olise trouxe alguma confusão para as previsões, sendo uma pérola do Bayern de Munique e do combinado gaulês nos últimos meses, e catapultando-se para o primeiro plano por força de uma época em crescendo, na qualidade e na eficácia das suas exibições.
Mbappé tem, por si, a força motriz da diplomacia do Real Madrid, que sempre procura encontrar alguém capaz de ser projetado ao mais alto nível. Não são despiciendas as declarações de José Mourinho, ao sublinhar que a Bola de Ouro não terá, necessariamente, de contemplar alguém que tenha ganho uma grande competição internacional. No caso de Kylian, nem doméstica, uma vez que a La Liga merengue deixou imenso a desejar aos seus adeptos e seguidores, por todo o mundo.
Mas há uma aura especial no parisiense que, aos 27 anos, o pode fazer chegar ao topo, até porque foi das peças mais influentes da seleção orientada por Didier Deschamps, do outro lado do Atlântico norte.
É impossível olhar para um eventual lote de candidatos sem perceber que, este ano, três clubes chamam a si a maioria dos nomes de quem se fala: Barcelona, Bayern de Munique e Real Madrid. Sem esquecer que o bicampeão europeu e pentacampeão francês tem sempre uma palavra a dizer nos meandros deste tipo de decisões, surgindo — talvez menos exuberante do que o ano passado — Vitinha como um dos nomes mais sólidos do conjunto de Luis Enrique, sendo quase certo que Ousmane Dembélé não repetirá a proeza de 2025.
Falta um nome. Para todos os que seguem o futebol internacional, um dos maiores da História. Para muitos, mesmo o maior. Ninguém poderá olvidar que Lionel Messi foi o carregador de piano da seleção argentina até à final do Mundial das Américas, e que a sua temporada nos norte-americanos do Inter de Miami, individual e coletivamente, tem sido de valia superlativa, independentemente da geografia em que agora se move o astro argentino.
Por outro lado, a atribuição de uma última Bola de Ouro a Messi pode ser entendida como uma homenagem final do belo jogo a quem, nos últimos vinte anos, o tornou ainda mais belo, mais artístico, mais sonhador, preenchendo o imaginário dos adeptos, com o alicerce na cidade de Rosário e no seu Newell’s Old Boys, mas expandido pelo planeta de forma, quase, a eclipsar a memória de outro génio, Diego Armando Maradona, que decerto, onde estiver, estará a aplaudir de pé o percurso de exceção que talvez não tenha réplica no nosso tempo de vida.
E é aqui que entra a doçura e a magnanimidade do desporto-rei. Se Messi ganhar a Bola de Ouro, tenho a certeza absoluta de que Lamine Yamal, Harry Kane, Kylian Mbappé, Michael Olise e todos os outros astros dos relvados que ambicionam, um dia, receber este troféu, também (tal como Pelé e Maradona do outro lado da vida) estarão de pé a aplaudir.
E assim o futebol encerraria uma das histórias e um dos ciclos mais brilhantes e notáveis da sua história.

Patrick e o Belenenses
Conheci Patrick Morais de Carvalho há alguns anos, no Estádio do Restelo, a dar os primeiros passos na tentativa da recuperação desportiva e patrimonial do Clube de Futebol "Os Belenenses".
Dirigente de fino trato, de saber receber, e de falar, entusiasmado com a tarefa gigante que se lhe apresentava, de um modo muito assertivo a propósito da revitalização do parque desportivo do Restelo.
Hoje, "Os Belenenses" é um clube cheio de vida, alicerçado numa zona privilegiada da capital portuguesa e a pretender recuperar a identidade própria de um grande, com contas pagas e com projetos concretizados ou em via de conclusão. Há um selo de alguém em tudo isto. Patrick Morais de Carvalho surgiu na vida d’"Os Belenenses" na hora certa e no local exato."