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segunda-feira, 1 de julho de 2019

O nosso Mágico...

"Valdo iniciou em 2019 uma nova aventura: é seleccionador do Congo Brazzaville. Pretexto para falar da carreira de treinador, das referências na profissão e, claro dos inesquecíveis tempos passados ao serviço do Benfica, ao lado de «tantos, tantos amigos», com os quais mantém contacto num animado grupo de WhatsApp.

Porto Alegre - Como é que o Valdo, nascido no estado de Santa Catarina, com forte ligação a Porto Alegre, a Paris e, claro, a Lisboa, foi parar ao Congo?
- O convite para vir para o Congo surgiu de um amigo francês que trabalha na Nike que, em conversa, me perguntou se eu tinha interesse em trabalhar em África. Eu respondi que não só tinha como era o meu sonho levar uma equipa africana a um Mundial. Ele disse-me que tinha influência no Congo Brazzaville [também chamado de República do Congo], apresentou-me a algumas pessoas, fui convidado a ir à Festa da República, um torneio de futebol, as coisas ficaram alinhavadas logo ali e quatro meses depois eu desembarcava em Brazzaville.

- Mora em Brazaville ou consegue estar em Lisboa com a família e ir ao Congo só quando necessário?
- Resido no Congo. Já há cinco meses que não vou a casa, em Lisboa, é a parte mais difícil, ficar longe da minha esposa Marta e da minha filha Yara. - Quais são as referências como treinador? Em Portugal especificamente? - Em Portugal, Toni foi o melhor que tive em todos os sentidos, sem dúvida nenhuma. Artur Jorge, entretanto, foi o que conseguiu tirar de mim coisas que eu nem sabia que era capaz de fazer no Paris Saint-Germain, esses dois, com duas maneiras diferentes de trabalhar, são muito importantes na minha carreira, duas pessoas com quem aprendi muito. Depois tive um treinador emblemático, carismático, o nosso paizão e amigo, que Deus o tenha, mestre Mário Wilson. De facto, Deus foi generoso comigo. Essas pessoas ajudaram a ser o que eu sou hoje e ajudaram-me a ser um bom jogador de futebol, não digo um fora de série...

- A sua última experiência foi na Argélia, como adjunto de Artur Jorge no Mouloudia Clube d'Alger, em 2014/15?
- Eu tive o privilégio e o prazer de trabalhar com o professor Artur Jorge na Argélia, como seu adjunto, e depois, com a subida do professor para general manager, eu fiquei mais designado para a função do campo. Éramos quatro portugueses ou, se você quiser, três portugueses e um brasileiro, eu, o Artur Jorge, o Raul Águas e o (Luís) Matos, treinador de guarda-redes

- E o Benfica, continua uma paixão?
- Quando se fala de Benfica comigo, eu tenho de me pôr de pé, porque tive um privilégio, uma bênção realmente de jogar nesse grande, grande, grande clube chamado Sport Lisboa e Benfica. O telefone que não para de apitar.

- Correu bem?
- Foi uma experiência muito gratificante, estreitei ainda mais amizade, o respeito e consideração pelo professor Artur Jorge e foi ali, por outro lado, que tive a certeza absoluta de que queria seguir essa vida de treinador. Uma vida que não é nada fácil mas é apaixonante.

- Falou em Artur Jorge, está a começar definitivamente uma nova carreira como treinador. Qual a sua maior referência na profissão?
- É complicado, é como eleger o melhor mundo, sempre tem alguém que fica para trás, que merecia.

- Arrisque um ou dois.
- O que posso dizer é que nessas andanças de 20 anos de profissional eu tive grandes treinadores e que de acda um guardo uma aprendizagem. Joel Passos, no Figueirense, quando eu era júnior, em 1981, e que me colocou logo aos 15 no plantel profissional, com quem aprendi bastante. Depois apanhei o Paulo Lunununha, ainda na base do Grêmio, que ensinou muito também...

- E nos seniores?
- Muita coisa... Tive Luiz Filipe Scolari, tive Leôncio Abel Vieira, tive Carlos Alberto Silva, tive Sebastião Lazaroni, tive Carlos Alberto Parreira, tive Mário Zagalho, tive grandes, grandes treinadores. Mas quem marcou a minha carreira e a minha vida, o primeiro a dar-me uma oportunidade e de quem recebi muitos conselhos foi o tricampeão brasileiro pelo Internacional, por acaso rival do Grêmio, o mestre Rubens Francisco Minelli. Aprendi muito, mas muito mesmo. Otacílio Gonçalves da Silva Junior, conhecido por Chapinha, também me ensinou tanto... esses dois marcaram-me muito.

-...
- Espere... O Levir Culpi também. Não sei se posso dizer que foi o melhor mas, se não foi, andou perto, juntamente com esse lote. Aprendi muita, mas muita coisa, já tinha jogado contra ele, ele em final de carreira, mas depois tive o privilégio de ser treinado por ele no Cruzeiro, um grande Cruzeiro de 1998, e depois no Botafogo, onde conseguimos resgatar o clube da segunda divisão para a primeira. A todos esses mestres o mau mais profundo respeito, o meu mais profundo agradecimento.

- E em Portugal especificamente?
- Em Portugal, Toni foi o melhor que tive em todos os sentidos, sem dúvida nenhuma. Artur Jorge, entretanto, foi o que conseguiu tirar de mim coisas que eu nem sabia que era capaz de fazer no Paris Saint-Germain, esses dois, com duas maneiras diferentes de trabalhar, são muito importantes na minha carreira, duas pessoas com quem aprendi muito. Depois tive um treinador emblemático, caristmático, o nosso paizão e amigo, que Deus o tenha, mestre Mário Wilson. De facto, Deus foi generoso comigo. Essas pessoas ajudaram-me a ser o que eu sou hoje e ajudaram-me a ser um bom jogador de futebol, não digo um fora da série...

- Mas quem o viu jogar sabe perfeitamente que isso não é verdade: era sim um fora de série.
- (faz uma pausa)... Um bom jogador, um bom profissional. Esses que citei e outros que em esqueci formaram-me como homem e isso não tem preço, por isso, sempre que precisarem eu estarei presente não importa a situação, o meu muito obrigado por esses ensinamentos a eles e ao meu bom Deus por me ter dado esses pequeno dom de ter sido bom jogador de futebol.

- E o Benfica, continua uma paixão?
- Quando se fala de Benfica comigo, eu tenho de me pôr de pé, porque tive um privilégio, uma bênção realmente de jogar nesse grande, grande, grande clube chamado Sport Lisboa e Benfica.

- Tinha uma grande equipa logo que chegou, os brasileiros, os suecos, os portugueses...
- Foi um privilégio chegar ao clube em 1988/99, com jogadores extraordinários, como Jonas Thern, Mats Magnusson e Stefan Schwarz, os suecos, o Manuel Bento, o Vítor Paneira, o Pacheco, o Mozer. E o Ricardo Gomes, o Aldair, o Elzo, depois chegou o Ademir Alcântara, havia os angolanos, o Vata e o Abel Campos. Ah, e havia o Neno, para não falar em Veloso, em Álvaro, em Chalana. E o Diamantino, o César Brito, era um lote de jogadores e pessoas extraordinárias.

- Passado tanto tempo guarda sobretudo boas recordações desse tempos?
-Guardo, claro! De eles todos! Independentemente do nome ou de ter havido uma diferença ou outra enquanto jogadores, mantenho contacto com todos eles e temos até um grupo de WhatsApp de ex-atletas do Benfica, que tem um problema.

- Qual é o problema?
- É que o telefone apita a toda a hora porque os jogadores andam espalhados aí pelo mundo inteiro, cada um com o seu fuso horário!

- Gostou tanto que voltou à Luz anos depois.
- Para a segunda passagem voltei, em primeiro lugar, porque sou benfiquista e, em segundo, porque que sempre me chamou a atenção, com o qual tive o privilégio, e prazer de jogar, o pequeno génio João Vieira Pinto. Esse, realmente, foi um jogador extraordinário e por isso não me arrependo nada de ter voltado pela segunda vez porque tive o privilégio de jogar com o João Vieira Pinto e de voltar para o meu Benfica!

- Foi uma altura, a sua na Luz, em que o Benfica estava, de facto, repleto de craques.
- Por isso fui e sou muito feliz.

- O futebol português mantém a mesma qualidade?
- Eu às vezes fico triste porque escuto críticas sobre o futebol português, incluindo sobre o Benfica, porque as pessoas desconhecem a grandeza do clube, desconhecem o quanto é difícil vencer um campeonato português, o quanto é difícil bater as equipas consideradas pequenas, que de pequenas não têm nada, só têm o nome.

- Sente-se quase tão português como brasileiro já?
- Considero-me mais português do que brasileiro e as pessoas também me consideram assim porque já faz 31 anos que estou em Portugal. E; aproveitando a oportunidade de A Bola, queria mandar uma mensagem para Portugal: estou chegando e morrendo de saudade do país, da minha família. Quanto ao Brasil, bem, apesar de todos os problemas continua a ser um país lindo.

Há 30 anos ganhou a Copa América
Porto Alegre - Estamos a meio de uma competição, a Copa América, que Valdo jogou e ganhou em 1989, numa edição muito conturbada: «Tive o privilégio de disputar a Copa América e tive ainda a graça divina de ser campeão da Copa América logo no meu país. Realmente é único, gratificante». Mas o início dessa Copa América não foi fácil: «Não, houve bastante turbulência, mas, como o piloto era bom, o avião chegou e todos chegaram com ele, são e salvos. Houve vários porque os adeptos, quando se trata do Brasil, querem espectáculo a toda a hora, a todo o minuto, e todo o segundo e isso nem sempre é possível. Mas o povo brasileiro é assim, apaixonado pelo futebol, exigente para com os atletas e por vezes passa os limites. Nos jogos em Salvador o caso teve de tudo, até (...) no Renato Gaucho, vaias, xingamento (a torcida não se conformou com o veto a Charles, craque do Bahia) mas no final deu tudo certo».

Aconselhou Rui Costa como sucessor
O Paris Saint-Germain não queria perder um dos melhores jogadores da sua história. Então pediu a Valdo a gentileza de, pelo menos, aconselhar um herdeiro no futebol brasileiro antes de voltar ao Benfica, em 1995: «Queriam alguém que me substituísse, pediam-me conselhos sobre algum jogador
brasileiro que se assemelhasse a mim no estilo». A resposta do brasileiro surpreendeu os parisienses: «Eu disse que não era preciso ir tão longe. Disse-lhes que havia um puto, como nós dizemos em Portugal, com todas as condições, com todo o potencial para pegar o camisola 10 e com certeza ter muito sucesso e ser um dos grandes nomes do futebol português e mundial. E acertei em cheio, chamava-se Rui Costa».

Vata, o pior condutor do mundo
Porto Alegre - «O jogador mais engraçado daquela equipa do Benfica era o Vata, era com ele que tudo o mundo fazia piada, que todo o mundo xingava, que despertava muito carinho, uma maravilha», lembra Valdo. E se marcar golos era o forte do angolano, guiar automóveis, pelo contrário, era o seu ponto fraco. Para alegria dos colegas: «O querido Vata, com o seu sotaque angolano, era mau condutor, péssimo, o pior do mundo, aliás. Nós deixávamos que ele chegasse primeiro e depois estacionávamos um à frente e outro atrás dele. Como ele não sabia fazer marcha atrás correctamente, ficava sempre ali numa dificuldade (risos). Às vezes nós estávamos a treinar ainda no campo e ele tinha que nos chamar para tirar o carro, pois não conseguia sair...»"

Megan Rapinoe existe, tem voz e não tem medo

"Confesso o meu desinteresse por futebol feminino, extensível a muitas outras modalidades, independentemente do género dos praticantes. Sei que os nossos canais de televisão, provavelmente guiados pelo farol das audiências, gostam muito de transmitir jogos de futsal e mundialitos de futebol de praia, mas a mim esses desportos enchem-me de um inultrapassável tédio. Não contesto a excelência dos desportistas, nem critico os aficionados dessas modalidades exóticas, como jamais me passaria pela cabeça atacar os praticantes de petanca que, neste fim de semana, disputaram o campeonato na Gafanha da Nazaré.
O golfe, por exemplo, é outro desporto que me desperta tanto interesse como a sueca ou o chinquilho. Por vezes tropeço numa transmissão de golfe na televisão e pergunto-me como é que um espectáculo tão soporífero como a Baby Tv atinge audiências gigantescas em certos países. Sei que os zelotas do golfe, bem como das outras modalidades, consideram isto uma blasfémia e um sinal de irremediável ignorância porque cada um julga o desporto da sua preferência de acordo com as razões do coração e a capacidade para nos sentirmos ofendidos por quem não as entende tem alcançado máximos históricos.
Dito isto, gostaria que algum dos canais portugueses tivesse tido a visão de comprar os direitos de transmissão do campeonato do mundo de futebol feminino. Em primeiro lugar, não acho que as minhas preferências pessoais possam servir de critério geral. A televisão está cheia de programas que não me interessam ou que, quando por acaso ou masoquismo os vejo, torturam a minha sensibilidade, e não vejo que essa seja uma razão válida para sugerir a sua proibição. Em segundo lugar, o campeonato do mundo que decorre em França é o primeiro, tanto quanto me parece, a suscitar um genuíno interesse global. Basta ler a imprensa internacional generalista e ver o espaço dedicado à competição.
Haverá várias razões extra-desportivas a contribuir para isso, mas que não invalidam o essencial: sem Jogos Olímpicos, sem Mundial nem Europeu masculinos, o campeonato do mundo de futebol feminino tornou-se num dos maiores eventos desportivos do ano. Sei que a nossa selecção não está presente, que o futebol feminino ainda não é uma força avassaladora em Portugal, mas canais que transmitem semanalmente corridas de Nascar, “combates” de Wrestling e jogos de Futsal espanhol que opõem o El Pozo ao Unidos de la Desgracia certamente não perderiam muito em mostrar vinte e duas mulheres aos pontapés numa bola.
Teriam pelo menos um espectador: eu. Não garanto que visse todos os jogos, como também não vejo todos os jogos de um Mundial ou de um Europeu, mas há três razões principais que me levariam a ligar o televisor. A primeira é a curiosidade. Ver com os meus próprios olhos o nível de uma competição de elite. A segunda é o interesse por boas histórias e, neste momento, (os adeptos das telenovelas do mercado de transferências que me perdoem) não há melhor história no desporto do que o desempenho de Megan Rapinoe, capitã da selecção norte-americana, dentro e fora dos relvados. É certo que as suas declarações polémicas, como ter dito que, em caso de vitória, não iria à “fucking White House”, a catapultaram para o centro do palco mediático, mas convém não esquecer que foi Megan quem marcou os quatro golos da sua equipa nos oitavos e nos quartos-de-final.
Quando os jornais e televisões dedicam horas infindáveis à exegese de declarações banais e inofensivas de jogadores e até há um mercado específico onde competem as mulheres destes, geralmente apresentadas em bikini à beira de uma piscina, não será muito pedir à imprensa que dedique alguma da sua atenção a mulheres que se destacam por méritos próprios e que parecem ter coisas importantes a dizer sobre igualdade de direitos, discriminação, homofobia e presidentes, concordemos ou não com tudo o que dizem. Bem sei que, para a generalidade da nossa comunicação social, o rabo da mulher de Eder pode ser mais apetecível (mediaticamente falando) do que o cabelo cor de alfazema de Megan, mas convinha, por uma vez, dar mais importância ao que é mais importante.
Como se pode ler num artigo publicado esta semana no New York Times, Megan Rapinoe “talvez se tenha tornado a atleta representativa dos nossos tempos - envergando a camisola de uma nação que está dividida, jogando por uma equipa que não está, destemida e directa a exigir excelência de si mesma e um tratamento justo e equitativo por parte dos outros.” Ora, isto é muito mais do que faz a maioria das estrelas masculinas da modalidade, caladinhos que nem ratos para não afugentar patrocinadores, especialistas em gestão de imagem e de danos a essa imagem, grandes divulgadores de iates luxuosos, carros curvilíneos e mulheres de alta cilindrada.
Jogadoras de futebol como Megan ou a brasileira Marta gozam de uma liberdade, fruto da desigualdade do estatuto, que hoje é negada aos seus congéneres masculinos e que eles aceitam com um sorriso milionário nos lábios. Pode-se argumentar que a opinião de Cristiano Ronaldo, ou a de qualquer outro grande jogador, sobre temas complexos da actualidade não interessa para nada, mas não há como negar que o seu silêncio é revelador. Diz muito sobre o que se espera deles, o que eles esperam de si mesmos e a bolha em que vivem. O barulho de Megan torna ensurdecedor o silêncio das grandes marcas em que se tornaram os rapazes mais famosos do planeta.
A terceira razão pela qual eu ligaria o televisor para assistir a um jogo do campeonato do mundo é ainda mais pessoal. Na semana passada, vi com a minha filha de seis anos, num canal pago (a RTP, que envia uma equipa inteira ao Festival da Eurovisão, não destacou um único jornalista para os jogos europeus), a magnífica exibição das ginastas portuguesas em Minsk. Ela ficou deslumbrada. Gostaria também de lhe mostrar um bocadinho dos jogos das melhores jogadoras de futebol do mundo. Não que eu espere que a minha filha algum dia venha a conquistar medalhas em competições internacionais ou que venha a ser uma das melhores jogadoras do mundo, mas gostava que ela tivesse oportunidade de se deslumbrar, de admirar aquelas desportistas ou até de se aborrecer, como o pai se aborrece com futebol de praia. Gostava que ela visse para saber que aquelas mulheres existem, para saber que Megan Rapinoe existe, tem voz e não tem medo."

A estranha eternidade dos génios

"24 de Junho de 1987, um dia normal na Terra. Uma quimera no planeta do futebol.
Ainda todos rejubilavam ao pensar em Maradona e no Mundial conquistado pela Argentina no ano anterior quando, em Rosário, nascia Lionel Messi.
E mérito a quem o tem. A principal responsável por Messi ter começado a jogar futebol foi a sua avó, uma vez que sempre o incentivou e sempre acreditou na sua capacidade. «Tu vais ser o melhor do mundo», disse-lhe a avó, quando Leo tinha apenas cinco anos e jogava no bairro. O que posso eu dizer a esta senhora? Simplesmente agradecer. E tudo começou no Grandoli, um clube local. Certo dia, o seu pai estava, como mandava a rotina, a filmar um jogo do irmão mais velho de Lionel com a sua câmara. Contudo, faltava um jogador para que a bola pudesse começar a rolar. Messi estava na bancada e pediu para ir jogar… Assim nasceu um dos mais belos poemas entre uma bola e um jogador de futebol.
Já na altura Messi guardava a bola no seu pé esquerdo e fintava todos, inclusive a sua doença de crescimento. Estávamos perante algo muito (mesmo muito!) especial.
Ainda assim, a ordem natural das coisas leva-nos para um contexto onde Messi deixará de ter a mesma energia, a mesma velocidade… Deixará, pois, de criar tantos desequilíbrios e de fazer tanta diferença. E aí tudo mudará. Para o Barcelona. Para a selecção argentina de futebol. E, no fundo, para o desporto em geral. É que Lionel Messi carrega nos ombros o peso de um país que não conquista um grande troféu desde 1993, não contando com o ouro olímpico (2004 e 2008). E o percurso da albiceleste na presente edição da Copa América está longe de ser categórico. A fase de grupos foi suficiente, com experiências todas distintas. Uma vitória frente ao Qatar, um empate diante do Paraguai e uma derrota contra a Colômbia. Seguiu-se a Venezuela nos quartos de final. Novo triunfo, por 2-0, mas sem brilhar. Desta feita o próximo adversário é o mais temido. O Brasil, a jogar em casa, vai medir forças com a Argentina na madrugada de terça para quarta-feira. Em jogo está um lugar na grande final da Copa América.
E se é verdade que a comunicação social é um dos grandes pilares de uma democracia e que quem não perceber isto «tem o mundo ao contrário», também não é menos verdade que algum do jornalismo que se faz em terras argentinas assenta numa grande injustiça perante aquilo que Messi representa (ou devia representar).
Por sua vez, Leo tem plena consciência de que se vivem tempos de mudança e de que não será eterno. Pelo menos dentro das quatro linhas. Porque na memória dos verdadeiros apaixonados pelo futebol está bem seguro. «Sabemos que não vai ser fácil. Estamos à procura de uma equipa, é um momento de mudança. Não é fácil jogar a Copa América. Agora não se ganha só com a camisola, está cada vez mais equilibrado», destacou o capitão argentino.
Não posso terminar sem antes realçar a magnífica prestação de Portugal nos Jogos Europeus de Minsk, inclusive a brilhante medalha de ouro da nossa selecção de futebol de praia."

Benfiquismo (MCCXXIII)

85/86

domingo, 30 de junho de 2019

Viseu como pontapé de saída

"Algumas vozes, poucas, não entenderam a homenagem a João Félix. Se fosse numa qualquer junta de freguesia de Lisboa era um momento.

1. No mesmo berço se nasce e se morre. Nasci em Viseu, cresci entre Viseu e Lisboa, vibrei com Viseu e Benfica e o Académico de Visei, acompanhei o Lusitano de Vildemoinhos e os Repesenses. O nosso berço é a nossa alma e a nossa âncora, o nosso refúgio e a nossa esperança, o nosso reencontro e a nossa memória. Nesta semana o nosso João Félix foi justamente homenagem pelo Município de Viseu e pela mão e voz do seu Presidente, Almeida Henriques, outorgado como Embaixador de Viseu. Algumas vozes, poucas, não entenderam a cerimónia. Se fosse numa qualquer Junta de Freguesia de Lisboa era um momento. Em Viseu, nessa pátria do interior que sofre, era uma perplexidade. O certo é que, no Rossio que tanto frequentei, estavam jovens e menos jovens que partilhavam a alegria que se sentia e que expressava o reconhecimento de Viseu a um jovem que está a pôr a nossa cidade no mapa da visibilidade contemporânea. E João Félix e a sua Família ao aceitarem esta homenagem e este reconhecimento mostraram que sabem e sentem que «no mesmo berço se nasce e se morre». Nós que conhecemos a Cava de Viriato e sabemos que Viseu viu nascer o nosso Rei D: Duarte, nós que percorremos o Fontelo e a Sé monumental, nós que estudámos o Senhorio de Viseu - em particular D. Constança Manuel - e que temos orgulho no percurso do Bispo Alves Martins gostamos que milhares de espanhóis e outros amantes do futebol conheçam, a partir de João Félix, a nossa cidade e a secular nosso identidade, a nossa história e as nossas gentes, os nossos heróis e as nossas referências. E nestas estão nomes grandes do nosso desporto e da nossa literatura, da Monarquia e da República, da nossa vida cívica e da nossa vida religiosa. E é este orgulho do que fomos e a certeza do que somos que se sentiu esta semana em Viseu. A homenagem a João Félix foi, também ela, um duplo pontapé de saída. Antecipou a oferta que o Atlético Madrid fez chegar ao Benfica - em rigor à Benfica SAD - e antecipou o arranque da pré-época do futebol europeu. E numa semana em que se disputou a primeira pré-eliminatória da Liga Europa. Com clubes de Andorra e San Marino, do Luxemburgo e do País de Gales, entre outros. E com o clube de Andorra, o Engondany, a ser treinado por um português, Filipe Busto! É mesmo o pontapé de saída da época 2019/2020!

2. Para além do pontapé de saída nos relvados vivemos tempos de saídas nos diferentes plantéis da Europa. Num momento em que o Mundial feminino que decorre em França conhece os semi-finalistas, o CAN fica a saber, a partir de hoje, as qualificados na fase de grupos e na Copa América também já temos nota das selecções que marcam presença nas meias-finais. E com os clubes titulares dos jogadores a saberem que eles só lhes chegarão no princípio de Agosto. Ou seja, em muitos casos, nas vésperas do arranque das respectivas Ligas ou, até, na antevéspera do primeiro jogo de acesso à atractiva fase de grupos da Liga dos Campeões. E se na Europa, e com a excepção masculina do Europeu de sub-21, é tempo de arranque, no Brasil e no Egipto é tempo de decisivos encontros para a conquista das duas principais Taças continentais. Com o Brasil com lugar garantido nas meias finais e o Egipto disputando hoje com o Uganda o primeiro lugar do grupo A do CAN. Uns dão o pontapé de saída da nova época e outros estão a dar os derradeiros pontapés da época 2018/2019. Mas é tempo de desfrutarmos com o futebol que se joga. Com estádios cheios - no Mundial feminino de França - e com outros meio vazios como no Brasil e no Egipto! Singularidades e especificidades destes tempos!

3. A pré-época do Benfica - onde a palavra de ordem tem de ser humildade já que faltam mais de cinquenta jogos para a confirmação da reconquista nacional e para a afirmação da reconquista europeia, desígnio estratégico, na minha opinião, na época que amanhã arranca! - vai receber cinco jovens que a Academia do Seixal desenvolveu, potenciou e acarinhou. Pedro Álvaro (defesa-central), Nuno Tavares (defesa esquerdo), David Tavares, Tiago Dantas e Nuno Santos (todos médios) estarão sob directa observação de Bruno Lage que, aliás, bem os conhece. Acredito que o Benfica, este Benfica cujas acções atingiram esta semana um novo máximo, terá nestes jovens, para além de efectivas promessas, indiscutíveis talentos na linha dos outros seis - Rúben Dias e Ferro, Zlobin e Jota, Florentino e Gedson  - que ajudaram o Benfica à reconquista. E esta mistura de talento e disponibilidade, de sagacidade e humildade, de vontade e de fé, de convicção e de paixão, terá de ser, uma vez mais, o factor para um vitorioso pontapé de saída da nova época. Derrubando e eliminado a palavra euforia e proclamando que cada jogo um final e que depois de cada jogo o que se programa é o jogo que se segue. E sabendo que mesmo quando se vence há erros que se cometem e quando não se ganha há momentos que devem ser reconhecidos e, até, enaltecidos. Desta forma se consolida o colectivo, se afirma o espírito de grupo e se fortalece o balneário. Que é, afinal, o ponto de encontro e, sempre, o porto seguro!

4. No domingo passado o Casa Pia, os gansos pretos, conquistaram o Campeonato de Portugal. Cândido de Oliveira foi uma dos grandes impulsionadores dos gansos e o Casa Pia era, nas décadas de 30 e 40 do século passado, um dos grandes de Lisboa, a par do Benfica, do Sporting e dos Belenenses. O outro finalista foi a União Desportiva Vilafranquense. E, aqui, e acompanhando as lúcidas e sempre sagazes análises históricas do Professor Alcino Pedrosa - vale a pena conhecer! - direi que a biblioteca da União foi, num determinado período, dirigida por Alves Redol, um do grandes escritores do século XX. E a biblioteca que acolhia livros proibidos chegou a ser dividida, para efectiva segurança e salvaguarda, pelas casas de diferentes dirigentes e os livros, estes livros, eram lidos e conhecidos. E este sinal de resistência, que se multiplicava em outras instituições desportivas, tem de ser conhecido e reconhecido. Nestes tempos em que só se fala em intromissões ilegais - e que intromissões Deus meu! - e em comissões legais. E que comissões! Mas o que reafirmo é que «no mesmo berço se nasce e se morre». Sou viseense e com orgulho. Como também disse, numa humildade que registo, o meu conterrâneo João Félix. Boa sorte! Muitas felicidades!

5. A chegada do antigo internacional português Tiago à Cidade do Futebol e, em concreto, à estrutura técnica das Selecções Nacionais de formação é uma boa notícia. Diria, mesmo, uma grande notícia. Conheceu o futebol português e o grande futebol europeu. Sentiu o dinamismo em grandes clubes - Braga e Benfica, Chelsea e Juventus, Lyon e Atlético Madrid - e envergou por 66 vezes a camisola da nossa selecção. Sabe o que é o futebol de hoje e conheceu o futebol por dentro e um tempos de mudanças. É um bom momento federativo. É um instante de reconhecimento e com a consciência que Tiago vem acrescentar valor. Um dos vectores estratégicos da Federação Portuguesa de Futebol: acrescentar valor! Boa sorte! Muitas felicidades!"

Fernando Seara, in A Bola

O futuro do Félix

"No futebol poucas coisas há que me irritem mais do que as algarviadas dos idiotas da objectividade, aqueles idiotas de objectividade do Nélson Rodrigues que nunca se deixam levar para além dos factos concretos ou das ideias fechadas - e que não percebem que o encanto do futebol se faz do mistério que é ele não ter de viver de obviedades ou de certas verdades (que às vezes são mentiras a embuçarem-se).
E sim: alguns desses idiotas da objectividade têm andado em frenesim por causa do João Félix. Ou melhor: do futuro do João Félix - insinuando (ou pior) que a sua decisão de ir para o Atlético Madrid lhe pode amachucar esse futuro, porque outro deveria ser o seu destino (o City de Guardiola, por exemplo). Ouvindo-os nos seus clamores, não largo de pensar no que o Hemingway descobriu (ao tentar escapar dos alçapões que o atormentavam)
- Um homem nunca se deve pôr em posição de perder o que não se pode dar ao luxo de perder.
E, não: não acho que no Atlético Madrid, o Félix se vá dar ao luxo de perder o que não pode perder: a sua imortalidade. E quando acho que não a vai perder, acho-o por não ter grandes dúvidas de que nele o futebol nunca deixará de nascer na cabeça (sem pressão) que põe nos pés com que joga qualquer jogo dentro do jogo (mesmo tendo jogá-lo dentro da ideia que o Simenoe gosta de dar ao seu jogo). De que nunca deixará que lhe roubem as virtudes de poeta que o seu futebol tem: criatividade, fantasia e coração (tudo em fogo de artifício). De que nele entre a luz e a sombra, ganhará sempre a luz - e entre o laço solto e o nó cego, a alma nunca se enganchará no nó cego. É isso o ser craque - e é isso que o Félix é. E sendo-o, sê-lo-á em Madrid, como o seria em Manchester (ou, para onde mais o levassem - flor em botão).

PS: Sim, também é minha convicção que foi através de um desses idiotas da objectividade (de  um ou mais que um) que o João Félix escapou do FC Porto para a imortalidade que o espera (airosa)."

António Simões, in A Bola

Sobre a beleza e outros assuntos feios

"Não há nenhum vencedor feio, é uma regra. A vitória embeleza ou torna a beleza menos urgente.

Beleza e iniciais
1. A beleza dos atletas e do movimento físico sempre foi alvo do olhar de cineastas, pintores e outros artistas, além do interesse da publicidade, claro. Há exemplos evidentes de beleza como o do ex-futebolista DB ou da tenista MS, entre outros.
E diga-se, se há alguma coisa que caracteriza a beleza é ela não ser incógnita. Mas é simpático manter os nomes das pessoas belas assim, com iniciais. DB, MS, etc. Tenho a certeza de que sem dificuldade as iniciais se transformam para os leitores em nomes. Fica a proposta.

Os feios
2. Mas sim, disse Jonathan - um amigo cínico - podemos pensar na beleza incógnita, na beleza muito bem disfarçada. No limite, a fealdade é isso: uma beleza que está muito bem escondida. Tu não és feio, tens é uma beleza escondidissima, poderíamos dizer. Quanto mais feio é alguém mais bem escondido tem a sua beleza. Um possível elogio alternativo é, portanto, diante do rosto terrivelmente desinteressante, dizer: há que elogiar a forma profunda como foste, ao longo dos anos, capaz de esconder no rosto o mais breve e mínimo indício de beleza.

A fórmula
3. Seria interessante, aliás, ver a relação entre patrocínios, beleza e vitória em competições. Provavelmente, não há uma relação assim tão directa e objectiva, por exemplo, entre um atleta estar mais acima no ranking de ténis e os apoios que recebe de publicidade. Diríamos que, no referente a valor de patrocínios, a beleza individual provavelmente é equivalente a dois ou três triunfos no Grand Slam, pelo menos.
Poderíamos até - disse Jonathan, o amigo cínico - tentar encontrar uma fórmula que permitisse calcular  valor previsível dos patrocínios, para cada atleta. Seria algo, provavelmente, deste tipo:
SD x B/2
Ou seja: Sucesso Desportivo vezes Beleza a dividir por dois.
Uma fórmula possível, disse Jonathan.

Outra fórmula
4. Jonathan, o amigo cínico, disse ainda o seguinte:
- Claro que a vitória transforma a fealdade em beleza inequívoca. Não há nenhum vencedor feio, é uma regra. A vitória embeleza ou torna a beleza menos urgente, digamos. E a derrota, por seu turno, torna a beleza ligeiramente menos atractiva.
- Também podemos pensar, acrescentou Jonathan, numa fórmula quem no desporto fizesse a equivalência, ainda mais detalhada, entre a beleza de uma pessoa bela e a beleza negativa de uma pessoa feia e os seus sucessos ou insucessos atléticos. Seria algo do tipo, por exemplo, e é só um exemplo:
PB + 5D = PF + 5V
Ou seja, disse Jonathan: uma Pessoa Bela (PB) com Cinco Derrotas (5D) seria tão bela como uma Pessoa Feia (PF) com Cinco Vitórias (5V). Um empate, portanto, diz Jonathan, o cínico.

A pergunta
5. A poesia serve para quê, perguntaram uma vez ao escritor Jorge Luís Borges. Ele respondeu com outra pergunta: para que serve a beleza do pôr do sol?

Adília Lopes
6. Ainda sobre o mesmo assunto. Olhemos para a escritora portuguesa Adília Lopes. Há uma história dela chamada a Sereia das pernas tortas, que, num tom de narrativa de princesa e príncipes, mas de cariz politicamente bem incorrecto, começa assim:
«Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia como era bonita.
Quando era bonita, as pessoas diziam-lhe:
- Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
- Não gosto de ti.
E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para sempre.
Então Deus fê-la feia».
E a história continua depois neste extraordinário tom, politicamente incorrectíssimo. Quem estiver interessado leia, vale a pena."

Gonçalo M. Tavares, in A Bola

O 'fair play' financeiro (II)

"Em Novembro de 2018, demos conta da decisão do CAS, proferida no caso do Milan contra a UEFA.
Recorde-se que a UEFA excluiu, num primeiro momento, o clube da participação da próxima competição de clubes da UEFA, para a qual, de outra forma, se qualificaria nas próximas duas temporadas (ou seja, em 2018/19 ou 2019/20) por incumprimento das regras do fair play financeiro, decisão que foi revertida pelo CAS.
Então, o Colégio Arbitral do CAS entendeu que o caso devia baixar à UEFA para que fosse proferida uma nova decisão de acordo com as regras da proporcionalidade, porquanto alguns elementos relevantes não foram devidamente avaliados pela UEFA, ou não puderam ser devidamente avaliados no momento em que a decisão foi proferida, em 19 de Junho, em particular que a actual situação financeira do clubes estava melhor.
Assim, a UEFA reanalisou o caso e emitiu uma decisão excluindo o Milan se não conseguisse cumprir os critérios de equilíbrio até 30 de Junho de 2012. O clube recorreu, também, desta decisão para o CAS.
Em 2019 o clube registou novamente problemas relativos ao cumprimento das regras para o ano de 2018. A UEFA solicitou, então, que o Milan fosse excluído das competições europeias em 2019/2020, e o clube aceitou esta sanção.
Deste modo, em 28 de Junho de 2019, e a pedido das partes, o CAS ratificou o acordo a que as mesmas chegaram, no sentido de pôr termo aos processos pendentes naquela instância arbitral e de impedir participação do Milan nas competições europeias em 2019/2020.
Face a esta decisão, outros clubes participantes da Série A, poderão, eventualmente, ter a oportunidade de aceder a competições europeias."

Marta Vieira da Cruz, in A Bola

Ninguém vai apenas ver um jogo...

"Aqui vai uma frase sem qualquer impacte na opinião pública: “ninguém vai apenas ver um jogo, mas “torcer” (perdoam-me o brasileirismo?) pelo clube da sua simpatia”. O fenómeno acontece até com pessoas da elite intelectual e portanto habituadas, noutras situações, a um admirável rigor hermenêutico. Conheci, em tempos idos, alguns belenenses de certa relevância social que, durante os jogos, sobravam-lhes pretextos, para descobrir um “penalty” (ou dois, ou três), a favor do Clube da Cruz de Cristo. Num domingo da década de cinquenta (se bem me lembro), que perdemos, no Restelo, por 0-1, com o Caldas, regressei a minha casa, com “boleia” de um destes “doentes”. Logo no parque de estacionamento do Estádio do Restelo esporeou o carro com uma tal violência que o fez bater noutro carro, também estacionado, como o cavalo a quem a dor enfurece. Voltou-se para mim e decretou sem apelação: “Sabe quem é o culpado disto tudo? O árbitro que, na segunda-parte, não marcou aquele “penalty” sobre o Matateu”. E profundamente desgostoso: “Deixou-me possesso”. Nos dias de hoje, os comentaristas desportivos, em certas estações televisivas, agridem-se com palavras que talvez estejam incursas no Código Penal, principalmente pelas mesmas razões daquele meu consócio – as exibições dos árbitros, que agradam quase sempre a quem ganha, que desagradam sempre a quem perde. Até as lucidíssimas prosas de alguns entendidos, nestas coisas do futebol, não deixam de aguçar arestas, para que se faça do árbitro o “bode expiatório”! Só que alguns árbitros parecem indestrutíveis. Ou, então, indiferentes. Aquela obstinação na raiva, no rancor, aquelas frases despropositadas de espectadores e de críticos profissionais – nada daquilo pode dizer-lhes respeito. E enfrentam os desafios, os ardis, o clubismo faccioso, com uma aparente apatia que, para mim, se confunde com a coragem. Os árbitros, principalmente os árbitros do futebol, são meus mestres na arte de superar qualquer forte sensação de incomodidade. Daqui lhes agradeço a lição!
Um ponto que me interessa salientar, também: a análise estatística. E sem qualquer ressalto de espanto. De facto, já o Sr. José Maria Pedroto, nas nossas habituais conversas, me referia a necessidade da análise estatística, no estudo do futebol. O Prof. José Neto era o seu adjunto que desta área se ocupava. Até na análise estatística José Maria Pedroto foi um pioneiro. Sem os contributos maravilhosos da Quarta Revolução Industrial – mas foi um pioneiro, sem dúvida. Luís Cristóvão, sobre este assunto, escreve na revista do Expresso, (2019/6/22): “O futebol é cada vez mais um jogo de números. Uma dimensão que, é certo, sempre lhe foi próxima. Da contagem das superioridades à contagem dos golos, o futebol poderá ser o desporto onde o “mais um ou menos um” é mais fundamental, tendo em conta a possibilidade de um só golo decidir campeonatos inteiros”. Daí, a necessidade de “analistas que potenciam o conhecimento do jogo e transformam os mais pequenos pormenores em grandes vantagens competitivas (…). É uma linha constante na forma como a estatística entrou no mundo do futebol. A aliança entre tecnologia, o conhecimento científico e a paixão e a experiência pelo jogo permitiram modificar comportamentos que se notam, à vista desarmada, na forma como abordamos as apostas desportivas, os jogos de computador ou o entendimento daquilo que se passa no campo”. Quero dizer que o artigo do Luís Cristóvão me parece oportuno e bem fundamentado. Na Sociedade do Conhecimento, com o conceito de complexidade, ressoa a frase do Hegel: “A Verdade é o Todo”. Mas, na Sociedade do Conhecimento, não interessa tão-só conhecer mais, interessa também conhecer melhor. Atravessamos a Quarta Revolução Industrial e 17% da população mundial ainda não viveu a Segunda Revolução Industrial! Ou seja, 1,3 mil milhões de pessoas ainda não têm acesso à electricidade. Também uma observação deverá fazer-se, em relação à Terceira Revolução Industrial: 4 mil milhões de pessoas ainda não têm acesso à internet. Enfim, a diferença entre países ricos e países pobres não deixa de acentuar-se…
Voltemos ao artigo de Luís Cristóvão: “Existem posições em campo que saíram muito beneficiadas, pelo advento da análise estatística”. O caso do N’Golo Kanté, atualmente no Chelsea, é um exemplo. “Formado em clubes de escalões secundários franceses, passou, em anos consecutivos, da terceira divisão francesa, para o título de campeão da Premier League, com o Leicester. A base do seu recrutamento foi a análise estatística”. No entanto, “os dados não mataram a estrelinha no futebol. A bola que bate no poste, o craque que tem um dia mau, o adversário que se adapta de forma mais rápida a uma mudança, no contexto do jogo, continuarão a ter uma presença forte no resultado final”. Quando o desporto moderno (e o futebol, portanto) surgiu, concebido e publicitado pelas universidades britânicas, constava da lista dos seus incontáveis benefícios a prática do “fair-play”, da generosidade, do companheirismo, da coragem. Resumindo: o futebol era sinal de progresso físico, cívico e moral. E os desempenhos dos atletas, nos estádios, eram tudo isso, a um só tempo. Com o correr dos anos, o desporto (e o futebol, mais do que nenhuma outra modalidade desportiva) vem reproduzindo e multiplicando as taras da sociedade capitalista, como a mania do rendimento, da medida, da competição, do recorde, do mais antipático individualismo e dos mais alienantes imperativos do mercado e onde, inevitavelmente, a quantidade predomina sobre a qualidade, onde há triunfadores e perdedores, onde o espírito lúdico mal se divisa num “jogo de futebol”. Em Portugal, futebolisticamente falando, ninguém vai apenas ver um jogo, mas “torcer” pelo clube da sua simpatia. E, neste futebol, já se diz por aí que somos os melhores. Com efeito, o melhor jogador do mundo é português, treinadores portugueses já são inumeráveis os melhores do mundo, somos campeões europeus e conquistámos o primeiro lugar, na Taça das Nações. E de árbitros só não é nosso o melhor do mundo porque a FIFA não quer. Temos que deixar algum troféu, para os outros. É uma questão de “caridadezinha”. Mas também, no mundo da arbitragem, já caprichámos. O actual presidente da Liga, Dr. Pedro Proença, quando árbitro internacional, houve quem lhe reconhecesse qualidades incomparáveis.
Venho de ler uma separata da Revista Filosófica de Coimbra, com um texto maravilhoso do Doutor Luís Umbelino, professor do departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. O seu autor teve a bondade de mo oferecer. E assim o resume: “O problema do membro-fantasma formula-se de modo simples: trata-se de saber como se faz a experiência, no presente e como real, de uma parte do corpo fisicamente ausente”. E da neurofisiologia e da filosofia, após a leitura do Doutor Umbelino, transitei para a história do desporto português. E senti, como uma dor que me tomasse, a ausência de alguns dos pioneiros do desporto em Portugal, que eu conheci pessoalmente e cheguei a fazer amizade. O triunfo imperial de um certo espectáculo desportivo, ou não conheceram, ou conheceram mal. Digamos mesmo: não podiam conhecer. Um espectáculo a beneficiar de uma superinformação e do advento da mais sofisticada tecnologia, rodeado de sábios especialistas e de certas peculiaridades do “pensamento único”, que já regulam também o desporto – a tanto não podiam eles chegar. Mas continuo a encontra-los a cada passo, pelo seu exemplo, por algumas das suas ideias (não de todas evidentemente, pois reflectiam um tempo que não é o nosso) e, acima de tudo, pelo seu testemunho de vida. As personalidades carismáticas agora são outras: jogadores, dirigentes, empresários, com Imprensa favorável e um crédito financeiro espantoso. Pensar é problematizar e, para problematizar o futebol de hoje, são outras as variáveis e outras os condicionalismos. E, porque os problemas persistem nas soluções (de facto, uma solução não tem sentido independentemente da problemática que a fez nascer) problematizar o futebol conduz a uma determinada cultura – a cultura da sociedade de mercado! Mas não só: quando a selecção nacional joga, Portugal deixa de ser uma “sociedade de classes”, todos nos sentimos iguais – portugueses apenas. Um milagre do futebol! E isto num país onde ninguém vai apenas ver um jogo, mas “torcer” pelo clube da sua simpatia."

Benfiquismo (MCCXXII)

As Marias...

Almeida 2023



Renovação mais do que merecida... Um dos jogadores mais úteis da recente história do Benfica! Goste-se ou não, ninguém discute a sua dedicação, a sua garra e sua vontade de vencer!

E apesar de todas as limitações, tem sido consistentemente um dos nossos melhores 'assistentes' para golo das últimas épocas!!!

Oh, que raio, até o hacker lhes correu mal

"Contou-nos este jornal a meio da semana que o Sporting teme ver um seu jogador de 18 anos, Félix Correia, passar-se para o Benfica. O jovem em causa não terá ainda chegado a acordo para a renovação do seu contrato e pode assinar pelo rival, trocando Alcochete pelo Seixal. Os acontecimentos dos últimos anos, no que diz respeito às saídas para o estrangeiro de jogadores formados pelo Benfica, devem ter o seu impacto em todos os aprendizes de futebolistas do país. O sonho, para todos eles, é jogar lá fora, envergando a camisola de um qualquer gigante europeu em termos de historial e de poderio de orçamento. ou não é?
Do Manchester City ao Bayern de Munique, da Juventus ao Atlético de Madrid, do Manchester United ao renascido Ajax, não faltam nomes de grandes clubes que têm vindo pescar à formação do Benfica e com os seus anzóis dourados. Mais do que os hipotéticos vencimentos "pornográficos" - alegados como desculpa para a deserção do "Viriato de Ouro" do FC Porto para o Benfica -, o que incendiará a ambição de qualquer jovem futebolista tentado pelo Seixal será sempre a hipótese de, um dia, pôr-se na alheta, rumando a um daqueles clubes monstros que lutam todos os anos pela Liga dos Campeões. Félix Correia, o jovem futebolista do Sporting que parece estar inclinado a assinar pelo Benfica, não escapará a esta realidade. Para o Sporting seria um contratempo. Para o Benfica seria apenas fazer chegar outro Félix, na esperança de que aquele apelido, só por si, voltasse a dar resultados. E isto é que é sonhar alto. Lê-se esta semana na revista "Sábado" que "mais do que atacar clubes de futebol e empresários de jogadores, Rui Pinto é agora suspeito de piratear o Estado Português". A Policia Judiciária e o Ministério Público terão encontrado indícios de que o "hacker" entrou nos emails do antigo director do DCIAP, Amadeu Guerra, e da ex-procuradora - geral distrital de Lisboa, Maria José Morgado. Se, no nome honrado do combate ao crime, foi aprovada por muita boa gente a actividade e a legitimidade de Rui Pinto no assalto aos dados dos clubes, empresários e dirigentes, como justificar agora esta intrusão na correspondência electrónica de Guerra e Morgado? serão estas duas últimas vítimas do "hacker" Pinto gente que merece ser espiolhada à má-fila com o beneplácito de umas quantas organizações bem pensantes e sedentas de justiça? Oh, que raio, até o "hacker" lhes correu mal.
Não custou nada a António Salvador manter Abel Ferreira no posto de treinador do Sporting de Braga. "Não suscitou dúvidas nenhumas, foi fácil", disse o presidente do clube. Abel Ferreira não ganhou nenhum título referente à época de 2018/19, é verdade. Mas também nunca foi líder do campeonato com sete pontos de avanço sobre o 2º classificado. Deve ter sido facílimo para Salvador decidir como decidiu."

Caio Lucas – O reforço do SL Benfica

"Aos vinte e cinco anos a primeira experiência europeia de Caio Lucas, depois de ter crescido no futebol asiático, onde ao serviço do Al-Ain conquistou elevada reputação pela notoriedade dos seus golos e assistências.
Últimos 20 jogos

Cresceu a ter sucesso nas suas acções no no continente asiático, e é portanto um jogador que procura sucessivamente enfrentar situações de 1×1 (mais do que resolver os problemas com apoio dos colegas), situações essas onde é forte pelo drible curto e rápido. Também na passada é veloz, e tem gesto técnico capaz de ser bem sucedido mesmo em espaços curtos. Nos tempos mais recentes foi o jogador mais adiantado da equipa, onde também ai mostrou argumentos jogando de costas para a baliza a servir de apoio.


Muito para melhor na reacção à perda, e na capacidade para descobrir os colegas para poder ser um jogador completo, mas torna-se uma opção bastante válida para poder jogar numa das posições dos quatro da frente no SL Benfica."

sábado, 29 de junho de 2019

Cadomblé do Vata (especial defeso...)

"1. Com a transferência do João Félix, o SL Benfica vai ficar com um saldo altamente positivo de "impor/expor" nas transacções com o Atlético de Madrid... não só nos levam o craque, como nos roubam o argumento "somos sempre comidos nos negócios com o Atlético".
2. Os Benfiquistas estão tristes com a saída do jovem prodígio e ontem ficaram furiosos com a contratação do Cádiz... vamos lá a ver malta, qual é o stress? Se o Lage tornou o Seferovic melhor marcador do campeonato, qualquer Cádiz pode piscar o olho à Bota de Ouro nas mãos do técnico setubalense.
3. Há uma semana o Porto Canal dizia que as noticias que ligavam Nakajima ao SLB eram produto da cartilha, para que o japonês fosse visto como roubo ao FCP, quando assinasse pelo Glorioso que era o real interessado no jogador... esta semana anunciaram um pré-acordo entre FC Porto e Nakajima... clap... clap...clap...clap...
4. A eurodeputada amiga do advogado do ex. Presidente da UEFA detido por corrupção, diz não ver problema algum no facto de Rui Pinto ter acedido ao email de Joana Marques Vidal, Maria José Morgado e outros para se inteirar do ponto de situação de processo que pendem sobre ele, porque segundo ela "ele não fez nada com a informação"... e assim Ana Gomes mandou arquivar o processo E-Toupeira.
5. Bruno de Carvalho queixou-se numa entrevista de estar na "lista de terroristas dos Estados Unidos da América"... e ainda dizem que os americanos não ligam nada a futebol."

Casos do SL Benfica por definir na pré-época

"A poucos dias de iniciar os trabalhos de pré-temporada, existem vários jogadores no plantel que ainda têm a sua situação indefinida. Neste artigo, irei falar de vários desses jogadores e o que eu acho que deve ser feito de todos eles.

Guarda-redes:
Começando pela baliza, acho que há três nomes que devem ser mencionados: Mile Svilar, André Ferreira e Ivan Zlobin. O guarda-redes belga, na minha opinião, deveria rodar no estrangeiro, de preferência, no país onde nasceu. Quanto a Ivan Zlobin, tudo indica que será o segundo guarda-redes na equipa principal, mas o cenário pode mudar caso se vá buscar alguém para a posição: se se for buscar um guarda-redes de topo, a saída de Vlachodimos é mais plausível. Mas no caso da contratação de uma jovem promessa, é possível que Zlobin acabe por rodar, podendo ser emprestado a um clube da Primeira Liga. André Ferreira, acabou se assinar a título definitivo pelo CD Santa Clara.

Defesas-laterais:
Na lateral-direita, começo por falar de um jogador que tem passado por entre os pingos da chuva: Pedro Pereira. O lateral que esteve emprestado ao Génova no último ano e meio, merecia a meu entender, uma oportunidade na pré-temporada para disputar uma vaga na posição com Ebuehi, de modo a avaliar se algum deles merece uma oportunidade ou se será necessário ir ao mercado.
Para a lateral-esquerda, Nuno Tavares fará a pré-temporada na equipa principal, existindo a possibilidade de vir ser a alternativa a Grimaldo, visto que tudo indica que Yuri Ribeiro irá sair a título definitivo (e bem). Se vier a ser essa alternativa, poderá alternar entre a equipa principal e a equipa B, de modo a ter uma utilização contínua de modo a não estagnar. Quanto a Pedro Amaral, que esteve a rodar na Grécia na segunda metade da última época, considero um jogador sem qualidade para a equipa principal. Como tal, acho que deve sair a título definitivo.

Defesas-centrais:
A integração de Pedro Álvaro na equipa principal para a pré-temporada leva a crer que Kalaica deverá ser emprestado. O central croata é um jogador no qual acho que tem muito potencial e que acredito que pode singrar na equipa principal. Como tal, acho que ele deve ocupar uma das restantes vagas de empréstimo a um clube da Primeira Liga.
Quanto a Christian Lema, é um defesa-central que está no ponto alto da sua condição física. Como tal, acho que pode ter algo a dar ao clube caso tenha uma oportunidade. No entanto, tendo em conta a forte concorrência e o facto dele ter mercado na América do Sul, creio que o Benfica deveria aproveitar a oportunidade de negócio. Já em relação a Gérman Conti, tendo em conta o seu perfil, acho que Bruno Lage irá querer dar-lhe uma nova oportunidade (e bem).

Médios:
No miolo começo com um jogador do qual gosto bastante: Pedro Rodrigues, mais conhecido por Pêpê. O médio formado no Seixal pode jogar tanto a 6 como a 8, destacando-se pela visão de jogo e qualidade de passe (curto e longo). Apesar disso, Pedro Rodrigues ainda não se conseguiu afirmar definitivamente na Primeira Liga, após dois empréstimos com utilização inconstante. A meu entender, o cenário ideal para ele seria ser novamente cedido ao Vitória SC, onde desta vez iria trabalhar com um treinador que bem conhece e com o qual obteve melhor desempenho na Primeira Liga.
Passando agora para outro médio que chegou a ser campeão nacional: Alfa Semedo. O médio guineense é outro jogador que tem características que eu aprecio, mas acho que ainda precisa de crescer muito a nível táctico para conseguir afirmar-se no Benfica. Como tal, creio que deveria voltar a rodar no estrangeiro, de modo a ter continuidade e evoluir.
Falando agora de outro médio, desta feita estrangeiro e que esteve emprestado a um clube da Primeira Liga: Martin Chrien. Na minha opinião, acho que ele dificilmente irá evoluir ao ponto de ter qualidade para a equipa principal. Como tal, acho que deve rodar no estrangeiro para valorizar e conseguir uma boa venda no futuro.
Tiago Dantas e David Tavares irão cumprir a pré-temporada com a equipa principal, mas é possível que passem grande parte da época na equipa B. Já Krovinovic, fala-se que pode ser emprestado a um clube inglês.

Extremos/Avançados:
É provavelmente, a posição onde há mais opções e consequentemente, mais indefinição. Salvio é dado como certo no Boca Juniores. Cervi e Zivkovic também são possíveis saídas. Há ainda o caso bicudo de Jota com a sua proposta de renovação. Chris Willock tem qualidade para a equipa principal, mas tendo em conta a forte concorrência, pode nem fazer a pré-temporada. Como tal, acho que é um jogador que deve rodar no estrangeiro de modo a ganhar calo e evoluir.
Há ainda outros casos a analisar: primeiro o de Nuno Santos, que irá integrar os trabalhos de pré-temporada, mas pela concorrência, creio que deveria rodar na Primeira Liga quando começar a época oficial. Creio que o Moreirense FC seria um bom clube para ele, onde trabalharia com um treinador que já tem experiência a potenciar jovens valores; o segundo caso é o de Heriberto Tavares, que após ter feito uma grande temporada no Moreirense FC, creio que tem qualidade para integrar a equipa principal, tanto a extremo como a avançado.
Na posição se ponta-de-lança, não há muito que se possa dizer. Há apenas o caso de Facundo Ferreyra por definir. O empréstimo ao Espanyol é válido por mais uma temporada, mas a imprensa tem avançado que o clube catalão não conta com o avançado argentino. Isto poderá significar que Ferreyra possa ter uma nova oportunidade para trabalhar com Bruno Lage, mas tudo dependerá do seu futuro quando o Espanyol iniciar os trabalhos de pré-temporada."

Bruno Lage, por Luís Filipe Vieira

"Como tive oportunidade de afirmar após a reconquista do título, Bruno Lage personifica melhor do que ninguém a afirmação e consolidação do projecto de aposta na formação que construímos na já famosa escola do Seixal.
Pelas suas elevadas competências técnicas, pelo rigor e exigência que coloca na sua filosofia do treino a treino, jogo a jogo e pela ambição, conhecimento e coragem com que não teve dúvidas em apostar nos jovens talentos que bem conhecia, conciliando-os de forma notável com os mais experientes e consagrados. Bruno Lage
Face às circunstâncias em que pegou na equipa, o seu trabalho foi absolutamente extraordinário nas várias dimensões, revelando-se um técnico de enorme qualidade nas vertentes tácticas, humanas e comunicacionais.
No Benfica há muito que as qualidades do Bruno eram conhecidas, por isso, rapidamente o acolhemos quando se colocou a hipótese do seu regresso a Portugal, após a sua muito enriquecedora experiência internacional.
Por isso, foi sem surpresa que, quando decidimos pela saída de Rui Vitória, Bruno Lage surgisse logo naturalmente como primeira hipótese, além da excepção de todos conhecida.
Inclusive, como há dias revelei numa entrevista, existe um presidente de um clube, o António Silva Campos, do Rio Ave, que me abordou sobre a eventual cedência de Bruno Lage, ao qual eu disse que não, porque poderia vir a ser treinador do Benfica.
Obviamente foi pelo reconhecimento do seu trabalho junto da equipa B, pela identificação que ele tinha com toda a estratégia e rumo que há muito definimos para o futuro do Benfica, com a aposta na formação e nos nossos jovens talentos, e também pelo conhecimento minucioso que tinha de todos eles, que, em boa hora, optámos por esta escolha interna e de enorme ambição para o futuro.
Desde o primeiro momento em que assumiu a liderança, algo que muito nos impressionou a todos (sejam dirigentes, jogadores ou funcionários) foi a enorme naturalidade com que aceitou o desafio, a sensibilidade e o bom senso que demonstrou diariamente na forma como enfrentou a pressão e motivou todo o grupo, sem excepção, numa caminhada e numa segunda volta que ficará para sempre nas nossas memórias.
Lage é um bom exemplo da qualidade que distingue os treinadores portugueses, hoje mais do que nunca reconhecidos internacionalmente. Um técnico de enorme coragem que não teve receio de lançar os jovens e de assumir, sem bloqueios pelos riscos, a aposta naquilo em que acreditava. 
Também aprecio particularmente a forma como gosta de falar abertamente sobre as suas opções técnicas e tácticas, de falar afinal sobre o futebol e o que de mais fascinante tem, o jogo jogado nas quatro linhas.
Sempre com uma enorme elevação, assumindo erros, evitando desculpas e enaltecendo o valor e os méritos dos seus adversários. Rapidamente se identificou e representa a cultura e ADN Benfica.
Há em Bruno Lage uma simplicidade e um humanismo que gera uma natural empatia com os Benfiquistas e com os adeptos do futebol.
Como presidente, acredito e é meu desejo que continue connosco por muitos e bons anos, que seja companheiro de percurso neste momento de forte aposta do clube na manutenção e reforço da hegemonia do futebol português, mas sobretudo de dar um salto qualitativo de maior afirmação e ambição em termos europeus.
Aproveitar todo este talento jovem que está a surgir, conciliá-lo com a experiência e mais-valia de jogadores claramente identificados com a nossa cultura e poder contar com alguém com as características do nosso também ele jovem técnico são factores de enorme alegria e motivação para todos os Benfiquistas.
Os fantásticos números e resultados obtidos nesta segunda volta, com vitórias em todos os campos dos principais adversários, o recorde em número de golos obtidos, a forma como recuperou jogadores e rapidamente conquistou os adeptos e todos os amantes do futebol em apenas cerca de seis meses foi um feito inédito e que proporcionou um refrescamento do futebol português.
Lage contribuiu para recentrar o ambiente no jogo, nas suas dinâmicas e no que melhor ele tem como fenómeno de massas e de grande impacto socioeconómico.
Sim, é possível trabalhar de forma estruturada, sustentada e a pensar muito além do momento. É nessa linha de consolidação do Benfica que contamos com Bruno Lage e a sua equipa.
Sabemos de onde viemos e para onde queremos ir, Bruno Lage é parte desse caminho de futuro em linha com o trabalho e os resultados de mais de uma década que concretizámos.
Quando, antes de cada jogo, o vemos sozinho no centro do campo, passada a surpresa inicial, hoje o que nos logo ocorre, a quem com ele lida de perto, é afirma 'lá esta a força tranquila'."

Félix e Rennie

"A mais que certa transferência de João Félix para o Atlético de Madrid confirma dois factos muito poderosos acerca do futebol português: por um lado, somos capazes dos feitos mais extraordinários, com um miúdo que entrou a meio da época a concretizar a quarta transferência mais cara de sempre; por outro, somos também os reis da inveja, porque foi sofrível ver o melão e a decepção com que os comentadores portistas e sportinguistas insistiram em olhar para esta transferência. Ter de dar a mão à palmatória foi bastante duro... e só muitos Rennie poderá ajudar!
Já que estamos nesta onda, há que dizê-lo frontalmente: talvez o Benfica deva reter o valor do mecanismo de solidariedade a pagar ao FC Porto para cobrir uma parte da indemnização referente ao caso do emails. Mais vale prevenir do que remediar!"

Vamos lá trocar por miúdos

"Este texto é feito com base num pressuposto, aquele que nos diz que o negócio do Benfica com o Atlético de Madrid ficará concluído e na garagem da Luz vai entrar uma camioneta carregada de dinheiro. São, então, nunca menos de 120 milhões de euros, o valor da cláusula de rescisão, Nem um cêntimo a menos. Para o Benfica é, a todos os níveis, um negócio estratosférico. Também representa uma pressão acrescida para os rivais, agora obrigados a não poderem vacilar quando se sentirem tentados a aceitar qualquer proposta apresentada abaixo do valor da cláusula. Mesmo em condições vantajosas, contra si vão estar os próprios adeptos, sempre com o argumento da venda milionária dos encarnados na ponta da língua. Está criado um novo paradigma.
Entrado o dinheiro nas contas da Luz, resta saber alguns 'pormaiores'. Para já, descortinar qual o valor real que o Benfica vai apresentar nas contas finais apresentadas aos sócios. Depois, quando vai para aos bolsos dos agentes? E porquê, já que o Benfica dizia não querer vender o jogador. E o que vai ser feito a todo esse dinheiro? Quanto é o valor a ser canalizado para abater o passivo, esse que é um ponto de honra de Luís Filipe Vieira?
Os benfiquistas, e não só, aguardam com curiosidade os desenvolvimentos do meganegócio."

Paulo Fonte, in Correio da Manhã

O FC Porto está bem?

"O FC Porto não anda bem... Anda esquisito. A perda do título para o Benfica deixou mossas na estrutura, no discurso e na imagem externa. Mas internamente não há problema. A administração da SAD é composta por craques com longos anos de experiência no negócio que só deixaram escapar Bruma para o PSV para não ferir sensibilidades entre aliados visto que o jogador foi formado em Alvalade de onde saiu a mal já há alguns anos. Ao nível da comunicação vive-se um período áureo sabendo-se que a guerra patrocinada contra o Benfica, no que diz respeito a caso dos emails, teve uma decisão favorável no Tribunal tal como nos foi muito bem explicado pelos analistas e pelos comentadores da casa. Dizem que ficou provado que 'os emails existem' e isto bastou-lhes para celebrar rijamente a condenação de que foram alvo a SAD e o director de comunicação. O que o Tribunal os obriga a pagar ao Benfica, a título de indemnização, são 'peanuts' porque se trata de uma organização riquíssima que, de propósito, deixou escapulir João Félix para o Benfica só para provar que os de Lisboa andam por aí a desviar criancinhas com propostas 'pornográficas'.
Quanto ao presidente nunca foi tão firme a sua cotação interna. Pinto da Costa chegou ao ponto de pregar moral a Platini mal o viu a ser arrastado pelas autoridades francesas para uma esquadra da polícia onde prestou declarações sobre o seu envolvimento na atribuição do Mundial de 2022 ao Qatar. 'É caso para dizer que a verdadeira natureza das pessoas e das suas acções acaba sempre por revelar-se', explanou Pinto da Costa. É assim o FC Porto visto de dentro. Um prodígio de competências e de razão. No entanto, o FC Porto visto de fora é uma coisa diferente. A fuga de Bruma para o PSV soa a incapacidade ou, até mesmo, a grossa incompetência. Já as tranquilas saídas à borla de Herrera e de Brahimi soam a incompetência ou, se calhar, a grossa incapacidade de seduzir por um cêntimo que fosse o 'capitão' da equipa e a sua maior estrela. Quanto à decisão do Tribunal que condenou com palavras azedas e mão pesada o director de comunicação e a SAD do FC Porto na questão do correio electrónico roubado ao Benfica é o maior achincalho público que o FC Porto alguma vez sofreu às mãos do poder judicial. E até a eminente contratação de um guarda-redes, Koubek, tem servido para deitar abaixo o mito da infalibilidade científica do futebol portista porque, de acordo com a estatística, sendo´o checo um exímio defensor de grandes penalidades interrogam-se os infiéis sobre a conveniência da contratação de um guardião que defende muitos penáltis por um clube, o FC Porto, contra o qual raramente são assinalados.
Desperdício atrás de desperdício.

Um verdadeiro coração de manteiga
Coentrão anda a fazer pouco destas gentes tacanhas do futebol
É já tradição fazer pouco de Fábio Coentrão sempre que muda de clube. O mote é invariavelmente fornecido pelo jogador. A cada novo emblema confessa o seu amor desde o berço. Como o público é cruel e sabe estas coisas todas de cor e salteado - é a cultura geral -, o pobre do Coentrão acaba sempre por ser alvo de gozo no inevitável confronto entre o novo amor e o amor anterior. Foi assim quando chegou ao Benfica 'benfiquista desde pequenino', quando arribou ao Sporting, 'o clube do meu coração', quando voltou ao Rio Ave, 'o clube que amo desde que nasci' e, finalmente, agora que a imprensa brasileira fala da vontade que Jorge Jesus terá de levar o lateral-esquerdo para o Mengão, surgiu-nos um Coentrão a anunciar que 'quando era criança chorava porque queria ver os jogos do Flamengo'. O pessoal riu-se a ler isto, claro. E Coentrão riu-se mais ainda porque, na realidade, é ele quem anda a fazer pouco destas gentes tacanhas dos futebóis que são contra o amor livre.

Líder dos empresários
Jorge Mendes
O empresário volta a estar associado a um negócio estratosférico. A transferência de Félix para Madrid recoloca Mendes no topo do campeonato dos empresários.

Negociar até ao fim
Luís Filipe Vieira
O presidente do Benfica não faltou à sua palavra e não cedeu Félix até aos 'colchoneros' desembolsarem o total da cláusula de rescisão e ainda mais uns trocos.

Objecto do desejo
João Félix
Aos 19 anos protagoniza o 4.º maior negócio de sempre do futebol. Só Neymar, Coutinho e Mbappé estão à frente do viseense na liga mundial das transferências.

Pérola
«Melhor treinador do Brasil? Não, do Mundo»
Jorge Jesus, treinador do Flamengo."

A Norte nada de novo

"A dois dias do regresso ao trabalho, o plantel do FC Porto parece debilitado mas, simultaneamente, protegido por um manto de silêncio um pouco diferente do que antigamente se considerava uma extraordinária capacidade de gestão de informação. Há três dias que o Porto Canal não diz uma palavra sobre o plantel de Sérgio Conceição e os meios tradicionais agem como se a ausência de notícias não fosse, neste caso, uma grande notícia.
O FC Porto perdeu Militão, Maxi Pereira, Felipe, Herrera, Brahimi e, provavelmente, Casillas, pode ter de abrir mão de Alex Telles, Soares e Marega e vai enfrentar o dificílimo começo de temporada sem Pepe. Da equipa titular da final da Taça de Portugal, último jogo disputado, restariam apenas três jogadores, Vaná, Danilo e Otávio.
Até agora, apenas foi encontrado no argentino Saravia o substituto do lateral direito uruguaio e promovidos os regressos de jogadores dispensados na última época, como Sérgio Oliveira ou Osório. Todos os outros postos estão em aberto.
Um panorama assim num clube de Lisboa seria caótico e abriria uma crise mediática sem precedentes.
O lema “a Norte nada de novo” está a ser cumprido pelos media nacionais com todo o rigor e respeito. Nos últimos dois programas “Mercado” do Porto Canal, os temas em análise foram João Félix, Diego Souza, Vietto (na 5.ª feira) e reforços do Famalicão, Rafael Camacho e Jhonder Cádiz (na 6.ª feira), assuntos que imagino tirarem o sono aos adeptos portistas.
As últimas informações na televisão do FC Porto sobre a própria equipa foram dadas no dia 26 com o mesmo entusiasmo da aquisição de Eduardo pelo Sporting e de Ruben Semedo pelo Olympiakos de Atenas: a fuga de Bruma e do seu empresário, homens sem palavra, e a promessa de aquisição de Nakajima, realçando que consideram o japonês muito melhor que o guineense, mas sem notar que o asiático custa o dobro do africano!
Do que se sabe, o FC Porto já perdeu neste defeso o guarda-redes Koubek, o lateral-esquerdo Iago, o médio Léa-Siliki, o extremo Bruma e o avançado Roger Guedes e está à beira de não conseguir contratar o avançado Zé Luís, motivo de um insólito bate-boca entre presidente e treinador no mesmo canal televisivo. E sem esquecer as movimentações por Mangala ou Buffon, cujas contratações não tinham pés nem cabeça.
A incapacidade de a SAD portista enfrentar o mercado e de revalidar os contratos das suas principais figuras, perante as limitações impostas pelo Fair Play financeiro, foram disfarçadas nos últimos dois anos com a negociação de jogadores de terceira categoria, alguns aceites humildemente por Conceição, mas o fim dos contratos das principais estrelas veio por a nu uma situação realmente preocupante, num cenário de cinco campeonatos perdidos em seis anos. Talvez nos próximos dias se comece a falar disto…"

Senorise Perry

"Senorise Perry, 27 anos, era só outro jogador de futebol americano até ter chegado este ano aos Bufallo Bills e escolhido a camisola 32, assim reanimando uma assombração, qual filme de terror no qual o monstro não morre garantidamente no final, empurrando as incertezas para a sequela de menor qualidade. Aquele 32 não era usado nos Bills, desde OJ Simpson, um dos mais celebrados atletas da América.
O número desaparecera entre más memórias em 1994 no início do julgamento do século, como lhe chamaram, quando OJ foi acusado de assassinar a ex-mulher, Nicole Brown, e um amigo dele, Ronald Goldman, talvez amante de Nicole. Houve um circo jurídico em directo na televisão durante ano e meio, com discussão de provas sangrentas e comportamentos suspeitos. E os Bills nunca souberam o que fazer à camisola. Não a retiraram em homenagem, porque não o tinham feito antes; e não o ousaram no decurso sensível do julgamento. Um 32 morto-vivo - não retirado, logo não morto; não usado, logo não vivo.
OJ seria inocentado dos homicídios de forma controversa, porém mais tarde preso por roubo e rapto, até à libertação em Outubro de 2017. Entrevistado há dias disse que «a vida está boa» e achou «compreensível» que Senorise queira o 32. Aquele número dá que pensar: se lembra o famoso passado desportivo, não esquece o infame passado forense.
No que toca a terrores que voltam elejo invariavelmente a história de it, de Stephen King, como a preferida, na qual o palhaço Pennywise volta a cada 27 anos para se saciar de medos e memórias assustadoras. Entre o ano do início do julgamento de OJ e a escolha porventura amaldiçoada de Senorise passaram-se não 27 mas 25 anos. Dois anos, portanto, impedem o acaso, uma coisa nada tem a ver com a outra. É só uma camisola 32. Mesmo a sonoridade dos nomes é trivial coincidência, é tudo devaneio, claro: Perry, Senorise, Pennywise."

Miguel Cardoso Pereira, in A Bola

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