"Uma crise raramente começa no momento em que se torna pública. Começa antes. E é precisamente nesse intervalo que se percebe se uma organização estava, ou não, preparada para a gerir. Claramente, a FPF não estava.
Não discuto aqui a razão do conflito ou quem tem razão. Essa é outra discussão. Cristiano é tão intenso, obsessivo e competitivo como Jesus e talvez isso ajude a explicar a rutura. Aconteceu agora, mas provavelmente seria sempre uma questão de tempo.
As crises não se gerem quando as câmaras se ligam. Gerem-se antes. A Federação foi surpreendida pela crise e pela velocidade com que evoluiu, mas em crise há quem consiga estabelecer estratégias de contenção. A Federação optou apenas pelo silencio. O problema é que cada rumor tem o seu público e o silêncio federativo deixa o espaço livre para todas as versões, todas as interpretações e todas as especulações.
Gerir uma crise não é encontrar um culpado, mas impedir que o problema cresça. Neste caso havia, e continua a haver, três patrimónios para proteger: a autoridade do selecionador, a história e o estatuto de Cristiano Ronaldo e, acima de tudo, a Seleção Nacional. Era possível proteger os três. E acredito que ainda é.
Numa crise, o tempo conta. Exige decisões rápidas, uma mensagem clara e um porta-voz com autoridade. Neste caso, esse porta-voz só podia ser o Presidente da Federação. O silêncio de Pedro Proença até hoje podia ser compreendido. Havia um jogo para disputar. A partir de amanhã, esse silêncio será um erro.
A Federação tem agora de trabalhar para construir pontes que evitem que este episódio se transforme no capítulo final de Cristiano Ronaldo na Seleção.
Proença não tem de escolher entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus. Tem de proteger a Seleção, preservar a autoridade de Jesus e reconhecer aquilo que Cristiano representa para o futebol português. É precisamente para momentos como este que existe a liderança institucional.
Quanto mais tempo durar o silêncio de Pedro Proença, maior será o fosso entre a Federação e Cristiano Ronaldo. E quanto maior for esse fosso, mais difícil será construir a ponte."

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