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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A construção de um curriculum

"Considerações ontológicas sobre o que vale e não vale num currículo a apresentar numa faculdade de Desporto.
Eis-me perante os outros com aquilo que fui e sou. Para a avaliação do que construí como homem plural de um desporto plural será suficiente a explanação metódica, fria e normalizada das consecuções desportivas, académicas e profissionais?
Preocupar-se-ão os analistas de um currículo com dimensões outras que não estejam directamente relacionadas com o fim específico de avaliar o somatório de investimentos e realizações que caracterizam o avaliado?
Não sei, nem me importa. O que sei é que para lá da relação factual das minhas realizações desportivas, académicas e profissionais existe um percurso de vida, quase sempre eivado de escolhos que determinaram opções, desvios, tergiversações. No essencial, não fui o que quis ser, mas o que a vida fez de mim. Isso também deve ser colocado nos pratos da balança avaliativa do que realizei.
Eu sou eu e a minha circunstância já dizia Ortega y Gasset, e no meu caso pessoal, as circunstâncias moldaram muito do que fui ou fiz, muito mais que os anseios pessoais de ser ou fazer naquilo em que me pretendia.
Até na feitura deste currículo as circunstâncias ditaram a sua estrutura e concepção. Era suposto este documento não ter qualquer tipo de introdução. Se tivesse tido tempo, paralelamente ao currículo formal exigido por lei, pretendia fazer uma síntese da minha existência, a que chamaria de anti currículo, e que poderia dar uma dimensão mais aproximada do que sou pelo que fui. Não tive tempo porque a pressa dos outros condicionou este meu anseio de me expor para lá do exigido pela norma. Ao contrário de muitos que estão sempre com pressa de chegar a outro sítio, eu, suportado pelo saber, quiçá sabedoria, que me chega do acervo das minhas muitas experiências de vida, sei que o que conta é a viagem. Só a viagem vale a pena e, os que com pressa pensam que chegaram a bom porto, enganam-se a eles próprios, porque o bom porto também é fustigado pelas tempestades que criamos com os ventos que semeamos. Não tenho pressa em chegar a lado nenhum. Esta é uma posição filosófica que, refletindo-se num modus operandi global que me caracteriza, me levou a ser ultrapassado na vida por muitos medíocres. Mas isso são contas de outro rosário que para aqui não são chamadas e que, em princípio, nada interessam. Ou talvez sim, vá-se lá saber. Eu queria ter tido tempo para dizer o que está por detrás de todas as minhas realizações.
Eu queria definir o pano de fundo das minhas opções e prioridades e, ao dizê-lo fazer a catarse dos esqueletos que criei e escondi nestes 70 anos de vida e 43 anos de professor.
O relato curricular, despido da humanidade que lhe deu corpo e alma, de nada serve. Ou só serve para dar uma imagem superficial e por vezes errada do que se é, de quem se é. Tiramos o retrato que nos deforma o rosto e a alma, mas com as técnicas depuradoras do fotógrafo, aparecemos limpos e lindos, com as mazelas e cicatrizes escondidas e uma imagem falsa que não tem correspondência com o que na realidade somos.
O que fui, o que sou, é difícil de desvendar pela simples leitura factual de um currículo. Tentando-me localizar nesta aventura perigosa de me dizer, para lá das linhas frias de um currículo, tenho de me apoiar em algumas muletas. Deixem-me recorrer ao meu filósofo de cabeceira, aquele que com Bertrand Russel, nos tempos conturbados da minha pós-adolescência, me abriram as portas imensas dum mundo pressentido, mas incapaz na altura de saborear em pleno – o mundo do pensamento e reflexão. Estou a falar de Friedrich Nietzsche.
Para Nietzsche, o homem no seu percurso de devir sofre três profundas transformações ontológicas. Primeiro é camelo, depois leão e por último criança. Na fase de camelo, o homem tem de suportar a canga dos valores estabelecidos, tem de saber obedecer, tem de assumir os mestres como faróis da sua minguada existência. É um recetáculo acrítico de todas as axiologias. É um omnívoro cultural, comendo até ao vómito. É forçoso que esta fase seja dura e que deixe marcas no corpo e no espírito. Segue-se a fase de leão. Aqui o homem revolta-se contra tudo e contra todos, destruindo todos os valores e ícones que elegeu como referências existenciais, tentando vislumbrar caminhos novos que ele tem forçosamente de construir com as mãos em sangue e o espírito em festa. Esta é a fase da coragem e assunção do risco, à qual muitos perecem ou que provoca o recuo para a fase precedente dos que não conseguem viver em instabilidade. Aqui o homem é solitário. É uma solidão dolorosa porque forçada, pois, na consecução de novos valores o homem normalmente colide com a axiologia estabelecida e, constituindo-se refratário à regra, à norma normalizadora, cria em volta de si um vácuo relacional que o catapulta para a suprema solidão. Depois de muito sofrimento, de muitas lutas ganhas e perdidas, o homem ganha a guerra suprema – vence-se a si próprio e atinge o estádio de criança. Aí já nada o incomoda. Está de bem consigo e com os deuses e já os barulhos da polis são um longínquo sussurro de mil vozes afinadas pelo mesmo diapasão.
A minha angústia radica no facto de que, embora queira chegar rapidamente a criança, a minha interioridade combativa e disjuntora faz-me permanecer irredutível na fase de leão.
Mas vamos devagar.
Tal como na investigação científica, em que a exposição dos dados nada nos diz acerca da realidade interior que esses dados comportam, também a mera exposição sequencial dos seres e aconteceres que justificam o meu trajecto profissional e académico nada dizem acerca do que sou e valho.
A ciência, para progredir, assume o jogo dialéctico ou dialógico entre consenso e conflito, evoluindo apoiada na racionalidade, empirismo, verificação e imaginação. Já Popper avisava Einstein de que nada conseguiria descobrir pela indução. Nem uma só descoberta de valia foi conseguida através da lógica. Muito do que melhor conseguimos como humanidade derivou de fogachos e imaginação, de reverberações e entusiasmos, de iluminações e erros ultrapassados. Porque razão digo isto? Porque não acredito que nenhum ser, por mais ilustrado e sábio que seja, possui os argumentos heurísticos e hermenêuticos para descobrir a essencialidade valorativa de um professor universitário de desporto, através da mera leitura do seu currículo. Avalia-se o quê? Que critérios conseguem discernir o que é essencial ou acessório num currículo deste quilate? Quem é o supremo juiz no tribunal da dignidade académica, científica e profissional duma faculdade de desporto? Quem? Quem nunca fez desporto ou fê-lo na minguada condição de catarse psicológica ou depuração higiénica? Quem analisa ou outros através da lupa dos seus interesses ou motivações? Consegue o juiz sair da sua dimensão específica e validar, na sua integralidade, as opções alheias? Gostaria de acreditar que sim, mas as dúvidas são muitas, até porque o juiz também é humano, carregando em si o estigma da incompletude. Discernir da validade dos outros é tarefa ciclópica que devemos assumir com cuidado religioso. Sempre tive dúvidas na avaliação dos meus alunos porque nunca soube, com certeza, o que estava a avaliar. Cientes da impossibilidade da certeza devemos porfiar para errar o menos possível. Para isso é forçoso ter elevação de alma.
Como homem do desporto gostaria de ser avaliado por homens de desporto.
Gostaria de acreditar que um indivíduo que nunca entrou no desporto ou que dele saiu pela porta pequena, refugiando-se na ciência ou na filosofia, conseguirá validar o feito profissional e desportivo único, como o consubstanciado no facto de eu ter feito parte de duas selecções nacionais de futebol, com significativos resultados em ambas. Gostaria que os meus avaliadores tivessem consciência plena do que isso representa.
Tenho o melhor e mais conseguido currículo desportivo desta faculdade. O que me valeu em termos de promoção académica? Nada. Porquê? Porque, numa faculdade de desporto como a nossa, cuja missão fundamental, até agora pelo menos, foi formar quadros competentes para o professorado e treino, valoriza-se mais as competências científicas (às vezes nem isso) que as de índole pedagógica ou as conotadas com a metodologia do treino. Numa escola de pedagogias e metodologias a ascensão aos patamares superiores da hierarquia académica é obtida pelos trânsfugas da coisa desportiva. Daí a minha revolta, porque vejo o desporto, puro, cru, duro e real, ser relegado para o plano dos acrescentos quando ele é a essência genésica desta faculdade. Muitos peroram acerca da dimensão axiológica do desporto. Todos lhe são subsidiários. Poucos permanecem nele porque nele acreditam. Uma faculdade de desporto não pode colocar a ênfase em nenhuma ciência auxiliadora. A categoria disciplinar primária desta faculdade deve ser, no meu entender, o Treino Desportivo. O treino desportivo estende os seus pseudópodes para a sociologia, fisiologia, bioquímica, pedagogia, etc., recolhendo destas as migalhas que lhe interessam e expressa-se, mais conseguido e robusto, nas várias expressões sociais do desporto – na escola, alta competição, crianças e jovens, idosos, deficientes, doentes, etc. As categorias conceptuais, metodológicas e funcionais do treino desportivo de alta competição, que é a cereja do bolo desportivo, assistem a todas as expressões particulares deste polissémico fenómeno social. Querer inverter a lógica valorativa dum curso de desporto, recentrando-o nas ciências parcelares de apoio, diz bem da incongruência entre o discurso e a prática que tenta fazer lei nesta faculdade.
Mas eu tenho de regressar à justificação desta introdução no meu currículo. Um currículo nada diz ou diz pouco do que é realmente essencial. O meu currículo não diz que cheguei ao desporto de alta competição por baixo, pelo caminho do trabalho árduo, do vencer etapas, do desbravar caminhos. Cheguei ao topo porque demonstrei capacidade, empenho, excelência. Outros, sem provar nada, chegaram ao topo porque souberam explorar bem as benesses das circunstâncias e do poder que possuíam num dado momento.
O meu currículo não diz que durante seis anos fui treinador de um clube, sem receber um tostão, por simples amor à canoagem, e que todos os fins-de-semana fazia 200 km, pagando a gasolina do meu próprio bolso, para poder estar aos sábados e domingos no controlo directo dos meus atletas. O meu currículo não diz que quando cheguei ao Náutico de Prado, ao fazer os testes iniciais da época (antropométricos, motores e performativos), ao verificar que o corpo de um cadete era mais reduzido em peso e estatura que a maioria dos infantis avaliados, pretendi mandá-lo embora. Ficou porque o diretor me afirmou que nunca faltava aos treinos. Deixei-o ficar por compaixão e oito anos depois era vice-campeão do mundo. O meu currículo nada diz dos estigmas de dor, sofrimento, raiva, rancor, ódio e amor com que o desporto me marcou. O meu currículo nada diz da forma como cresci no desporto e do meu contributo essencial para que o desporto português crescesse. O meu currículo não diz que fui o principal impulsionador da maioria dos clubes genésicos da canoagem portuguesa. O meu currículo nada diz sobre o facto de, não faltando às aulas, ter conseguido levar a bom porto a minha missão de docente e treinador.
O meu currículo nada diz sobre as fronteiras da minha dimensão humana.
Como pano de fundo de todas as minhas realizações sobressai, incontornável, a dimensão humana da minha existencialidade. Poderão muitos arguir que essa dimensão não é para aqui chamada. Eu digo que essa é a única dimensão que conta, pois consubstancia em comportamentos visíveis, avaliáveis, reais, o que na realidade somos.
Em muitos momentos clamamos aos ventos a excelência de que nos julgamos possuídos. Podemos dizer o que quisermos de nós, mas isso tem o reduzido valor das palavras ditas ao vento ou escritas na areia. O que conta são os ecos de nós. Os ecos que recebo dos montes e vales que ajudo a construir, com as lógicas excepções emergentes da chã humanidade que me faz errar e falhar muitas vezes, têm sido lisonjeiros. Têm permitido justificar todo o empenho e investimento que tenho posto na minha profissão. Poucos dos meus pares sabem o que valho. Uns não estão interessados em saber a real valia dos meus investimentos e consecuções; outros não têm capacidade para discernir entre o trigo e o joio; outros ainda porque têm interesse em minimizar o que vou construindo. Como é dramático vivermos rodeados de indiferença, com cada um somente olhando para o seu umbigo e não acompanhando o que vamos construindo como corpo mais ou menos coeso. Sei o que valem os meus colegas e rejubilo com os seus êxitos. Leio-os a quase todos e com quase todos dialogo no sentido de os tornar melhores. Tenho a coragem de os criticar para evoluírem na procura de melhores soluções para os seus problemas. Mas estar, compreender e evoluir com os meus colegas obriga-me a grande esforço; esforço gratificante, no entanto. Sou um ser solidário que tem recebido muito pouca solidariedade de quem a isso mais estaria obrigado. Mas, a gratidão é uma virtude escassamente distribuída pela humanidade.
Sinto-me numa encruzilhada dramática. Poderei, neste momento derradeiro de avaliação, fazer emergir em toda a sua dimensão a expressão da minha valia pessoal, pedagógica, científica, ou seja, profissional? Como avaliar o docente, o cientista, o pedagogo, sem dar atenção ao homem. Não se podem desligar as várias expressões da minha existencialidade, pois umas implicam-se nas outras formando um plexo unificado sem hierarquias internas. Sou uno e total em todas as circunstâncias, o que me tem trazido imensos dissabores no decurso da vida. Não me sei expressar em divisões redutoras de conveniência. Não sei ser táctico ou estratégico. Essa pulsão para a totalidade, embora por vezes me reduza a margem de manobra e acção, é a força vital que me permite a paz interior. E depois, ela é a génese do meu valor e autenticidade.
Poderei dizer o professor sem dizer o homem? Não. Permitam-me uma deambulação muito íntima e pessoal que pode justificar algumas coisas.
Lembro-me dos últimos tempos do meu pai. Doente, acabado, só e sem soluções. Não o posso ter na minha pequena casa que só tem um quarto. Não tenho ninguém para o tratar e cuidar durante o dia. Arranjo um lar com a máxima dignidade possível. Ganho 46 contos na faculdade, pago 45 contos pelo lar do meu pai.
O que me salvou a alma e permitiu a morte com dignidade do homem a quem devo a vida? O estar no futebol.
Só que o meu engajamento profissional no futebol teve custos. Começaram pelos remoques sarcásticos dos que invejaram a minha entrada no futebol (quantas vezes eu quis sair, mas não pude porque necessitava do dinheiro que o futebol me dava) e pretendiam o meu abandono da condição de exclusividade. Afrontava-os eu ganhar mais algum dinheiro, dinheiro de sobrevivência em dignidade, quando nada faziam para denunciar e punir alguns que chegaram a catedrático com as exclusividades todas e que organizavam e dirigiam cursos iguais ao nosso nas privadas do mercantilismo e da mediocridade científica e pedagógica.
Este é um só exemplo amargo das minhas acontecências. Porque as expresso? Porque reputo ser fundamental relatar as dimensões de humanidade de uma pessoa para poder discernir o que vale ou não vale no seu currículo, seja professor ou pedreiro.
Fiz as provas de APCC no limite do tempo; fiz o doutoramento no limite do tempo. Porquê? As respostas não emergem do currículo; algumas respostas podem ser entrevistas a partir do relato anterior. Só tenuemente vislumbradas porque a minha realidade pessoal é mais dura e sincrética do que o que estas linhas deixam transparecer.
O meu currículo diz que fui professor efectivo do ensino secundário. Isto não diz nada, e atrás desta simples menção está um drama que me calhou viver. Acabo a licenciatura com a melhor nota. Embora sabendo-se da minha apetência para seguir a carreira universitária, ninguém me convida porque, como é bom de ver por esta introdução, não alinho pelo diapasão da normalidade institucional. Sou daquele tipo de sujeitos que só são bons longe ou passam a bons depois de mortos. Pois bem, poderia ter sido convidado para leccionar fisiologia (fui o melhor aluno do meu curso com 20, 18, 20 no 1º, 2º e 3º anos, respectivamente) ou basquetebol (fui atleta internacional), mas nada, tive de concorrer a uma vaga de atletismo. Como o meu currículo também era o melhor nesta área fui seleccionado. Mas a que custo? Lembremo-nos que eu era professor efectivo no ensino secundário. Passei a ganhar muito menos como assistente-estagiário, continuei a ganhar menos como assistente e somente, após 13 anos, quando passei a professor auxiliar com o doutoramento, é que passei a ganhar mais do que se estivesse no ensino secundário. Porquê? Porque os responsáveis da altura não me quiseram contratar como assistente-convidado e, pensando que eu desistia, só me deixaram aquela alternativa que eu assumi porque era o realizar de um sonho já longínquo. Tempos difíceis que um currículo não diz. E houve alguém que estava muito preocupado com a minha exclusividade.
Mas perguntarão os aferidores deste currículo: - Qual o interesse dos desabafos deste sujeito? Interessam muito, pelo menos a mim, pois dão um certo sentido de ordem, na desordem que tem sido a minha vida.
Se eu tivesse podido fazer o anti currículo teria dito, mais clara e profundamente, as vicissitudes da vida e as incompreensões dos homens. Mas não tive tempo. Nunca me deram tempo. Nunca respeitaram os meus tempos de ser e fazer. Eu pretendia fazer um doutoramento na área da morfologia muscular, estudando os tipos de alterações macroestruturais induzidas por diferentes protocolos de treino de força. Tinha comprado a máquina de musculação, tinha conseguido os alunos para a parte experimental, tinha servido de cobaia para um colega treinar os procedimentos experimentais (fui o primeiro sujeito em Portugal a sofrer uma biopsia para estudo no desporto). Estava tudo arranjado e, à última da hora, o meu orientador, afirmando que eu não respeitava os timings que me propunha, demite-se da função e obriga-me a recomeçar esforços noutra direcção passados dois anos de estudo e tentativas de consecução da parte experimental. Nunca me deram tempo, nem cuidaram de saber se o meu tempo era meu. Depois, alguns, incorporando as vestiduras da santidade, vendo os meus prazos legais esgotarem-se, acenaram-me com os votos piedosos de me passar a assistente-convidado. Saía da carreira pela porta pequena, pela porta dos medíocres, pela porta do estigma com que sempre me quiseram marcar. Estive dias sem dormir, pois, as máquinas do Centro de Medicina Desportiva, onde fiz o meu doutoramento, estavam sempre a avariar. Os atrasos nas reparações (só de uma vez o oxímetro esteve 8 meses avariado) levaram o meu amigo Nelson Puga (dos poucos que esteve sempre ao meu lado e que nunca me deixou esmorecer), a ameaçar os técnicos em Lisboa se não resolvessem, em tempo útil, os problemas das máquinas. Os infantes piedosos pensavam que eu não trabalhava. O problema era outro, mais prosaico e não dependente de mim. Entretanto, debaixo da pressão a que estava sujeito, ainda consegui escrever um livro “Dietética do Desportista”, editado no mesmo ano em que fiz o doutoramento (1995). Afinal o relapso tinha trabalhado.
Isto não diz o currículo, e é isto que importa quando se fazem sínteses de vida.
Nasci num Portugal imerso num nevoeiro de cabotinismo que não tinha nada a ver com o pendor autoritário do regime político, mas mais com a idiossincrasia profunda do povo que somos. Com a revolução de Abril as coisas pioraram, porque o cabotinismo ganhou campo livre de acção, fazendo emergir o que de pior somos. O problema é mais grave porque livres, hoje em dia, não temos o cimento da revolta para nos estruturar o sentir colectivo. Pasmamo-nos em disjunção e depois ficamos admirados por sermos os últimos da europa em quase tudo. A sociedade portuguesa (digo a sociedade portuguesa para não ser mais explícito e pontual) transformou-se numa selva de predadores que atacam embiocados nas enfrestaduras do anonimato como dizia a poetisa Natália Correia. Perdeu-se o sentido de decência; perdeu-se o sentido de tolerância.
Quando se tem medo do escuro proíbe-se a noite. Estabelece-se a norma, deifica-se a regra castradora. Desde o berço venerador da ordem e hierarquia, nunca tive medo de assumir a luta na defesa dos meus valores, mesmo contra a força do estabelecido. Isso trouxe-me dissabores. Sou contra a norma quando ela consubstancia a demissão e a mediocridade. Sou contra a norma quando ela, manuseada por títeres de ocasião, molda a ambiência social aos interesses pessoais dos condottieri e seus epígonos. Quando o poder se reflecte num homem ou dimana dum homem, e esse homem tem no sangue os genes do autoritarismo que recebeu no seu imprinting, a norma transforma-se em liturgia duma religião de demissão ou nepotismo que faz emergir os epígonos como herdeiros doutrinários desses homens iluminados. Temos muitos desses na política, conheço alguns desses na vida universitária.
Mas onde quero chegar com todo este arrazoado repleto de efervescência emocional? Talvez a lado nenhum, ou somente dizer que um currículo deixa no escuro o essencial da vida duma pessoa. Não se consegue ler nas entrelinhas de um currículo o pulsar de vida que o construiu. E por isso fui mais longe. Fui talvez inconveniente, incorrecto. Foi premeditado. Não tenho a desculpa da cabeça fria. Isto já me andava a roer a alma há muito tempo. Denunciem e reprovem a ousadia. Não me interessa, porque o essencial está dito e feito e representa a força do afrontamento, betão estruturante com que também se edificam as instituições. Estou a ver os bem-comportados, os funcionários públicos da existência a condenar-me a originalidade. Foi um risco que assumi consciente.
Do meu currículo dimana a pulsão irresistível de cientificação do ato desportivo vivido e construído dia-a-dia e, num esforço de retorno tentar dar-lhe um sentido de unidade, um sentido de integração unificadora. Tarefa árdua pela sua complexidade. Penso que sou um epistemólogo do desporto. A tudo o que faço tento dar um sentido de unidade. Já Goethe nos avisava para o drama genésico das ciências: ou se perdem na lógica do aprofundamento ou se perdem na lógica da sua expressão horizontal. Fazer ciência desemboca no risco de perder de vista o sentido de unidade complexa que assiste toda a realidade. Por isso o reducionismo que me assistiu na realização de muitos dos meus trabalhos, foi um preço a pagar para aprofundar a realidade que me calhou estudar – o desporto. Mas esse esforço heurístico só vale se depois o fizermos regressar a uma matriz integradora, que é sempre complexa, mas que nos dá a liberdade da abordagem inovadora. Por isso a ciência é somente uma muleta na perscrutação do real e que nos deixa longe das verdades absolutas. A verdade científica está impregnada de incerteza e releva da autoconsciência dos limites da indagação. A forma de a ciência afastar o erro e a incerteza radica na assunção do diálogo intersubjetivo, que é feito de concordâncias e oposições, estas muito pouco aceites na comunidade científica de que eu faço parte. Não temos o hábito de discutir o que fazemos. Quando alguém critica alguém é logo considerado inimigo, porque a crítica é assumida no plano do respeito pessoal e não no dirimir de ideias. Elaboramos as nossas teorias e tentamos transformá-las em doutrinas. Os acólitos são acolhidos sob a asa protectora do guru doutrinário. Os refractários à verdade doutrinal são relegados para o limbo do olvido.
Estamos no desporto vivo e operante e tentamos cientificá-lo no e através do homem. Só sabemos trabalhar in vivo. E foi in vivo que construí a obra que me deu a carta de alforria como investigador. Com o coração em festa e a alegria pela ultrapassagem duma etapa fundamental da minha vida, meti-me ao caminho do castelo dos cientistas. Mais um caminho de desilusão.
Do meu doutoramento, obra que eu julgava merecedora de prémio Nobel, retirei um artigo que estruturei em inglês perfeito e enviei para uma revista de nível A. Veredicto: o artigo é recusado porque nada acrescenta ao estado de arte sobre a matéria. Que fazer? Desistir? Não, enviar para revistas de menor nível até publicação. Assim foi. Que estultícia a tua José Augusto Rodrigues dos Santos, um simples professor que também é treinador, que tenta cada dia mais cientificar o seu múnus profissional, querer emparceirar ao lado das luminárias científicas da tua área. Não tens lugar ao lado dos cientistas. Esses, os que publicam nas revistas de nível A, não te dão o direito de parceria. Paciência.
Não sou especialista. Não quero ser especialista. Não penso que a nossa faculdade possa justificar especializações científicas. Somos subsidiários da generalidade e, como não existe na nossa faculdade a carreira de investigador, temos de ser sempre e antes do mais professor, algumas vezes treinador e sempre que possível investigador. Só que com esta disjunção operativa característica do nosso múnus profissional não poderemos ter a veleidade de fazer ciência de ponta. Uns fazem-no, mas às custas do apoucamento de outras expressões profissionais ou sobrecarregando colegas com as suas deambulações científicas.
Estava a dizer que não temos o hábito da crítica. E devemos assumir esta como pulsão destruidora. Não existem críticas construtivas; isso é um eufemismo para evitar que o receptor da crítica fique muito zangado connosco. Devemos assumir que as nossas teorias podem estar erradas. Como diz Popper morrem as teorias, não morremos nós. Mas, na esfera do poder, qualquer que ele seja, a tensão do diálogo crítico é malquista e tendencialmente substituída por liturgias de aquiescência. Quem afronta o poder é relegado para as margens da convivialidade, tomada esta no sentido de partilha de responsabilidades e coparticipação nas esferas de decisão.
Quando me doutorei fui nomeado como representante da faculdade ao senado da universidade. Como sou incapaz de assistir impávido e acéfalo ao evoluir dos debates, várias vezes tomei opinião, afirmando abertamente o que pensava, mesmo que fosse contra o poder do momento. Nunca mais lá pus os pés. A melhor forma de lidar com pessoas incómodas é limitar-lhes a acção. Devido ao meu feitio (truculento, virulento dizem uns, frontal e vero digo eu) nunca os meus pares me deram qualquer cargo directivo. Parece que tenho uma espécie rara de doença que me torna incompatível com cargos de direcção. No entanto, existem alguns que procuram esses lugares como pão para a boca e, ao arrepio das suas responsabilidades lectivas, manobram o poder que possuem, aplanando o caminho do futuro, em esforços de autopromoção que têm dado para o emergir e cimentar de algumas injustiças.
Mas eu estava a falar do meu currículo e desvio-me sempre para coisas que não interessam a quem deve dar o veredicto se tenho ou não valia para chegar a Agregado.
Tentei sempre avançar cientificamente na procura da redundância. Repito o que faço para dar consistência às elucubrações que elaboro. Já que a minha prática científica está condicionada pelos meios escassos de que disponho, tento dar-lhe um sentido de unidade na dispersão que a caracteriza. Sou o investigador português que no campo da nutrição no desporto tem mais trabalhos feitos e publicados. Valer-me-á isto de algo para o futuro? Não sei, vamos a ver. Terei de pagar um preço exorbitante por ser um especialista da generalidade? Nunca abandonei o treino. Estarei sempre no treino porque me deu o objecto fundamental da minha realização pessoal e científica. O treino permitiu dar livre aso ao meu gosto de vagabundagem gnosiológica que perversamente cultivo como que tocado por estranha maldição. Esta deambulação por vários campos do saber retira-me do areópago dos especialistas e relega-me para o monturo dos generalistas. Para o patamar desvalorizado daqueles que tentam absorver a realidade com a máxima capacidade integrativa possível. Consciente da impossibilidade de um modelo integrador absoluto não me converto à religião unívoca da especialização. Sou panteísta científico e, embora os meus deuses estejam tocados pela incerteza e incompletude, tento dar-lhes um sentido epistemológico e social. Social principalmente, pois é na sociedade que permanece a ultima ratio da validação ou recusa dos meus investimentos técnicos e científicos.
Tenho o dom da dissensão, sei-o bem, mas não o cultivo como panache de personalidade. Só que me custa ter muitas vezes razão antes do tempo. Como tenho uma certa costela visionária, alicerçada numa já longa experiência de vida, consigo inteligir, ás vezes acertando, alguns fluxos do devir. Antecipo no tempo as reacções dos outros. Vejo com clareza os contornos das suas tergiversações. Porque, como no eterno retorno Nietzschiano, os homens repetem-se. Estou a lembrar-me do convite que me fizeram para proferir a aula inaugural do ano lectivo de 1995-1996. Resolvi pronunciar uma lição subordinada ao tema “A dimensão de Nietzsche como educador” que me empenhou em quase uma semana de trabalho. Foi um somatório de esgares recriminadores pela ousadia de trazer à colação um filósofo erroneamente conotado com o social-nacionalismo. Hoje esse mesmo filósofo é viático cultural para algumas viagens de intelectualidade de alguns que o descobriram tardiamente, e que chegaram à conclusão que Nietzsche foi, antes do tempo asado, um visionário que desejava uma Europa unida, como último reduto e defesa, aggiornamento e expansão, do legado cultural que nos chegou da antiguidade clássica.
Para terminar apresento um excerto do meu diário (lá continuo eu com as minhas agressões à norma) que dá uma ténue ideia da razão de eu não poder ser especialista. Em 26 de Julho de 2007 desabafava assim: Depois de um interregno por outras leituras, regressei ao Labirinto da Saudade de Eduardo Lourenço. Tenho tanto para ler e estudar em termos profissionais que não tenho tempo sobejante suficiente para fazer leituras alargadas fora do âmbito dos meus investimentos científicos. Quando revisito Morin, Philip Roth, Saramago, Eduardo Lourenço, Vargas Llosa, Garcia Marquez, Kundera, Joyce, Kafka, Vergílio Ferreira, e tutti quanti, fico sempre com a sensação de desleixo em relação às matérias científicas que são a base das minhas principais produções académicas. Eu sei que tenho de continuar a investir no meu aggiornamento nas várias áreas conotadas com a minha expressão profissional, mas também preciso de viáticos outros para a minha viagem de vida. Sou um omnívoro cultural que gosta de lançar os seus pseudópodes aos mais diversos campos de expressão cultural. A riqueza que ganho em diversidade pago-a com a redução, em aprofundamento, das coisas ditas científicas. A ciência, como especialização, é ditatorial. Exige uma entrega absoluta do investigador que o torna, por vezes, num bicho deslocado da realidade social que o enforma. Recuso isso, embora gostasse de ser um especialista em profundidade e diversidade. É esse o Santo Graal inatingível de todo o professor universitário e a razão fundamental das suas angústias quando se deseja ser um sintetizador de conhecimentos diversos os mais aprofundados possível. A máxima de Abel Salazar dá-me algum alento. Quem só sabe uma coisa, nem essa coisa sabe.
Só lamento ter perdido tanto tempo em apostas pseudo ou anti culturais. Mas estou a ser estúpido. A cultura que tenho hoje, muita ou pouca, as apetências mais profundas para “ler com melhores olhos o livro da vida”, resultaram dos investimentos à boa e má literatura, às boas e más vivências, até mesmo aos tempos perdidos em marasmo e irreflexão. Talvez tivesse podido aproveitar melhor os tempos livres que a vida me permitiu. O jogo da lerpa, o tabaco e o uísque, meus companheiros prediletos nas longas noites da Guiné, poderiam ter sido substituídos por momentos de investimento no meu aprofundamento cultural. Mas qual era o meu horizonte imediato? Estourar numa mina ou levar com um tiro nos c….s. Que perspetivas de cultivo cultural nessa vida sem perspectiva? A minha estadia no futebol, completamente absorvente e redutora, atrasou-me a ascensão académica; como poderia ter sido direccionada para o meu enriquecimento cultural quando a lógica imperante radica na superficialidade? Quando eu levava um livro para os estágios riam-se de mim. O treinador não me queria no quarto a ler, mas sim a fazer-lhe companhia, na conversa ou no jogo de cartas. Ao futebol tenho de agradecer as benesses materiais que me outorgou; ao futebol não posso agradecer o ter-me somente dado benesses materiais. Não é no futebol que um homem eleva o seu nível cultural. Aprende o pior das relações humanas em ambiente de verdadeira selva darwinista. Se me aculturei nos meus tempos de futebol, foi porque lutei contra o ambiente redutor que o caracteriza. O Artur Jorge fez uns poemas de m…a. Outros escrevem uns livretos de m…a. Do futebol só sai cultura quando é feita pelos que o analisam de fora. Os de dentro, com raras excepções, ficam cristalizados em acefalia.
Estou em crer que a minha sanidade mental actual tem algo a ver com o estado de euforia anestesiada com que vivi o futebol. Não o deixei tocar muito as minhas fímbrias da inteligência emocional. Vivi-o como um sonho que não fazia realmente parte de mim. Evoluo, determinado por anseios recorrentes de uma autognose que me liberte da força castradora dos fogos-fátuos do envolvimento. Estou melhor, mais profundo, mais reflectido, mais inteligente, mas à custa dum mais forte pendor para a solidão. Convivo agora melhor com a solidão porque convivo melhor comigo próprio. Tenho em mim uma força autotransformadora que me evita os momentos de abulia ou desistência. Quero sempre mais da vida porque quero sempre mais de mim. Invisto no porvir em sagas transformadoras de autognose que me levam a despir as roupas de algum comodismo que ainda mantenho como animal de estimação. Knox te ipsum já dizia, traduzido para latim, o velho e sábio Sócrates que é maltratado por Nietzsche que vê nele o ponto de diversão em relação a uma filosofia telúrica rica em aberturas de reflexão e que teve o seu ponto alto na Escola de Mileto. Mas, neste particular, dou razão a Sócrates quando localiza no homem a razão de todas as coisas. E recuso qualquer apodo de positivista. Aceito que existe realidade para além do ser, mas essa realidade só interessa quando inteligida pelo ser. Sem o ser, a realidade objetal, material, fractal, caótica, cai no poço sem fundo das inutilidades. Isto é ser homocêntrico, é verdade. Mas o homem é a medida de todas as coisas, já dizia Protágoras de Abdera.
Depois destas deambulações catárticas que penso terão fraco acolhimento por quem me ler (mas isso também já pouco me interessa), finalizo com uma adaptação de um conto clássico indiano que espelha bem a idiossincrasia nacional que tem alguma correspondência com algum ambiente relacional que caracteriza a minha faculdade, e no qual tive de sobreviver construindo com muito esforço, entrega e devoção aquilo que agora relato neste documento.
Um pescador nunca tapa o balde em que vai colocando os caranguejos que apanha. Isto admira toda a gente à sua volta. Alguém lhe pergunta um dia:
- “Porque não tapas o balde em que tens os caranguejos? Não tens medo que fujam?”
Responde o pescador calmamente:
- “Não é preciso …são caranguejos portugueses; quando um tenta subir, os outros imediatamente o puxam para baixo”."

Gonçalo M. Tavares e Frederico Nietzsche

"Tenho profundamente arraigada no meu espírito a convicção de que há, de modo sublime, no escritor Gonçalo M. Tavares, o ficcionista e o filósofo, como hoje em raros dos seus pares. Por isso, nele, parece tanto mais fácil desvendar a realidade quanto mais compósita e complexa ela se apresenta. Ocorre-me, neste momento, a velha questão: são tantas as filosofias quantos os filósofos? Que em cada época a filosofia e o modo de filosofar são diferentes, não duvido. E que são polémicos também, por que duvidar?
Não é verdade que tudo o que emerge, na Filosofia e nas Ciências, nasce fatalmente entre o fervilhar de críticas aceradas dos mais diversos sectores e após lutas (normalmente, sem efusão de sangue) entre velhas e novas doutrinas e orientações? Não são um problema científico, ou um conceito filosófico, mais um problema do que uma solução? Demais, com mais ou menos aparato científico, o conhecimento e as próprias sociedades modernas anseiam pelo futuro, cultuam a mudança, enquanto o conhecimento e as sociedades primitivas recordam em demasia o Passado e têm um culto, duro e firme, da permanência. Gonçalo M. Tavares é um jovem: ainda não dobrou os 50 anos de idade. Dele, José Saramago, sempre altivo e frontal, na análise dos problemas e das pessoas, disse: “Há um antes e um depois de Gonçalo M. Tavares”. E há! Como um antes e um depois de Frederico Nietzsche! E Gonçalo M. Tavares é o mais nietzscheano dos nossos escritores! Todos nos lembramos daquele texto célebre (que não é um exemplo de modéstia, acrescente-se) em que Freud evoca as três grandes revoluções que salpicaram de muitas dúvidas o afã narcisista do humanismo. A primeira revolução, dita cosmológica, é a de Copérnico (1473-1543). Nela, apresenta-se um novo sistema do mundo, onde o sol é o centro. Recordemos a sua obra mais célebre, De revolutionibus orbium caelestium. A segunda revolução é da autoria de Charles Darwin (1809-1882) e diz-nos, com alguma meticulosidade (cfr. Origem das Espécies) que a evolução animal-homem se completa, sem qualquer finalismo divino ou natural. O papel essencial do acaso é de referir-se, no estudo do darwinismo. A terceira revolução é a do próprio Sigmund Freud (1856-1939), que defende a tese da existência de um inconsciente condicionando, em boa parte, a vida consciente de cada um de nós. Darwin foi médico mas, deverá acentuar-se, as suas convicções epistemológicas e filosóficas eram empiristas e positivistas (cfr. Essais de psychanalyse, Payot, Paris, 1981 e Mal-estar na civilização, Imago, Rio de Janeiro, 1973).
Friedrich Nietzsche (1844-1900), concluídos os estudos em filologia clássica e a leitura atenta de Arthur Schopenhauer, publicou A Origem da Tragédia, em 1872. Os encontros, as amizades e o convívio com artistas e escritores, onde se chocavam e referviam as ideologias mais diversas; uma psicopatologia que paulatinamente lhe provocava lapsos, cada vez mais frequentes, de lucidez e de memória; a ausência de talento conciliador e de justiça no procedimento com as pessoas – fizeram de Nietzsche, nomeadamente a partir de 1889, um doente em plena decadência das suas faculdades. Aliás, faleceu sem ter recuperado a razão. As suas principais obras, no meu modesto entender: A Origem da Tragédia e Humano, demasiado humano e A gaia ciência e Assim falava Zaratustra e Para além do bem e do mal e A genealogia da moral. Quem se aproximar da obra de Nietzsche, com ponderação e estudo, depressa concluirá que Nietzsche nada tem de filósofo universitário, nem versando uma terminologia rigorosa, nem adiantando fórmulas lapidares na classificação dos principais filósofos. Parece, se bem penso, um poeta e um ensaísta, implacável na luta contra o platonismo e o cristianismo e proclamando, sem cansaço, a “morte de Deus”, que o mesmo é dizer: a morte da cultura europeia de que é principal fundamento a mensagem judaico-cristã. E porque, em Nietzsche, são tão inflamadas, tão violentas as críticas a Platão e a Jesus Cristo? Porque o corpo, o sentimento, o desejo são desprezados e vilipendiados por Sócrates e Jesus; porque Jesus afirma: “o meu Reino não é deste mundo”, não manifestando assim uma imparável vontade de mais poder (não é a filosofia de Nietzsche uma ontologia da vontade de poder?); porque o cristianismo, tirante uma ou outra excepção, se caracteriza pela timidez, pela fuga à competição, por ser de facto a moral dos fracos. Das suas virulentas catilinárias ao platonismo e ao cristianismo, Nietzsche faz sua, com estrépito, a moral dos fortes – que é individualista e conquistadora; não aceita valores estabelecidos; encontra-se intimamente associada à ideia do “super-homem”; assume, sem ambages, a “luta pela vida” e o triunfo do mais forte, duas ideias colhidas em Darwin. Para mim, portanto, a Copérnico, Darwin e Freud, deverá juntar-se Friedrich Nietzsche, na subversão do humanismo, na recusa do dualismo que informa a vida toda da cultura ocidental. Logo no alvorecer da Filosofia, em Parménides, a filosofia europeia é dualista, metafísica, idealista e rigidamente hierarquizada. Não era por mero acaso que a Europa se encontrava devastada, empobrecida, dividida, corroída pelo desânimo, a braços com uma perigosa desorientação mental.
Sem criticar desapiedadamente a cultura ocidental, como Nietzsche o faz, Gonçalo M. Tavares, no seu livro (que é indispensável ler, para verdadeiramente compreendermos o seu autor), Atlas do Corpo e da Imaginação (Caminho, Lisboa, 2013) argumenta: “No prólogo em verso de A Gaia Ciência, Nietzsche escreve dois versos (que intitula “Subir”): Como é que se deve atacar a encosta? Sobe e não penses nisso. Há, na simplicidade desta resposta, uma evidência: agir pressupõe a expressão de uma novidade, de uma certa surpresa. Se não considerarmos as repetições de um gesto. Estamos, nas acções, face a um mundo que está a acontecer naquele momento, um corpo que se está a libertar da posição anterior. O movimento pode ser visto, assim, como uma novidade, por um lado, e uma libertação do passado, por outro. Em cada movimento o corpo diz: eu já não sou o corpo que fui” (p. 243). E Gonçalo M. Tavares, continuando a versar o tema mobilidade-imobilidade, observa, sabendo que a vida não é um sistema, nem cabe em qualquer sistema: “A imobilidade é não sair da posição anterior, trata-se de uma ligação fixa, não desejada, ligação ao passado. Diríamos mesmo que, em termos de movimento, a imobilidade é a manifestação de um excesso de memória corporal; de uma memória que não permite que o corpo avance, que o corpo se torne presente, novidade”. Por isso, “a imobilidade é ainda, e voltando à análise dos versos aforísticos de Nietzsche, um excesso de pensamento sobre o que fazer a seguir. A imobilidade face a uma encosta existe, quando corpo está centrado na pergunta: Como é que se deve atacar a encosta? Eis pois que a compreensão do que se vai fazer se torna um obstáculo. Compreender é não subir. Subir é compreender durante o movimento” (pp. 244/245). Como em Nietzsche, afigura-se-me que em Gonçalo M. Tavares quando a lógica prevalece, consciente e perseverante, sobre a vida, a imobilidade acontece. Foi Sócrates quem descobriu o “conceito”. A “maiêutica socrática” faz gorar a força do instinto, para que ela se enquadre, inteira, na lógica idealista do conceito.
Voltemos a Gonçalo M. Tavares: “Deixar de pensar nunca matou ninguém. Ninguém morre por falta de pensamento. No entanto, morre-se por falta de oxigénio, de alimentação, de água, etc. Estamos face a uma separação perturbante entre coisas, diríamos essenciais: coisas que são indispensáveis à sobrevivência individual e coisas acessórias que a sobrevivência individual pode dispensar (como o pensamento racional e organizado). Qualquer animal morrerá, não por falta de racionalidade intelectual, mas por outros motivos bem mais prosaicos e materiais. O pensamento é um acessório da existência; é para um Homem uma espécie de luxo: já que estou vivo, por que não pensar?” (pp. 245/246). Píndaro (a quem se atribui a frase: “Homem, torna-te no que és”) na nona Ode Olímpica, canta a celebrar a vitória olímpica, no Pancrácio, de Efarmosto de Opunte, em 466 a. C.:
“O que vem com o nascimento é o mais poderoso que há.
Mas muitos homens procuram obter a glória
com excelências que são aprendidas.
Mas, sem um deus,
uma situação não piora por ser silenciada.
Há, sem dúvida, muitos caminhos
que levam mais longe do que outros,
e um único cuidado não nos há-de alimentar a todos.
Íngremes são os caminhos da perícia.
Mas, ao ofereceres uma canção por este prémio,
ousa gritar bem alto,
que este homem nasceu por acção divina
com mão hábil, membros rápidos e poder no olhar.”
(Píndaro, Odes Olímpicas, tradução de António de Castro Caeiro, abysmo, Lisboa, 2017, p. 42).
O melhor atleta, o melhor bailarino “nascem” e, competindo, desenvolvem o instinto, o natural, digamos em linguagem moderna: o biológico. De facto, a pedagogia grega não deixa de defender tenazmente que o talento, a vocação não percam a polémica inclemente, a combatividade, o agôn… para desenvolver-se! E como? Pela vontade de poder! A vida, toda ela, é uma expressão da vontade de poder. Mas Nietzsche, se não é um homem de contumélias, de galanteios, de suave cultivador de elegâncias, a besta esplêndida também não cabe na sua ideal vontade de poder mas, sim, a capacidade de criar novas perspectivas, já que a verdade resulta da perspectiva, dos novos possíveis que se escolhem, entre inflamados polemistas.
Daí, dado o pluralismo agonístico das perspectivas a necessidade de “pensar em movimento”. E o facto de, na vida, toparmos “dois tipos de homens, portanto (quase que se poderia criar uma nova divisão): os que pensam melhor imóveis e os que pensam melhor, estando em movimento. Também as categorias silêncio-ruído são significativas e claramente poderemos também conceber dois tipos de pensadores: aqueles que necessitam do ruído e os que necessitam de silêncio. E seria interessante estabelecer uma categoria de pensamentos e ideias, de acordo com as condições em que surgem. Se assim fosse, teríamos pensadores e pensamentos ruidosos e pensadores e pensamentos silenciosos; teríamos ainda pensadores e pensamentos imóveis e pensadores e pensamentos móveis. E etc.” (Gonçalo M. Tavares, op. cit., pp. 474/475). Se conheço o autor do Atlas do Corpo e da Imaginação, pensadores móveis (e apetece-me abrir ao acaso tantas páginas da sua obra) julgo divisá-los, entre outros, em Nietzsche, em Wittgenstein, em Bachelard, todos eles gente que via o horizonte de nuvens densas e arroxeadas, sopradas por um silêncio sem esperança, isto é, imóveis como um mostrengo. Enfim, um mundo (tinha-o dito Nietzsche, em tom marcial e decisivo) que morrera, com a “morte de Deus” e era preciso transformar e superar. O Gonçalo M. Tavares não é de uma beligerância ruidosa, mas faz suas as palavras do Nietzsche de A Gaia Ciência: “A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por consequência também é aquilo que há de menos acabado e de menos forte, neste sistema”. Por isso, os instintos pensam melhor do que a consciência. “Há, deste modo, nos movimentos instintivos uma sabedoria milenar, o resultado de uma aprendizagem longuíssima (…). Os instintos corporais, a que poderíamos chamar movimentos estúpidos – porque não racionais, não intelectualizados – são afinal a base de sustento, no limite, da política dos homens” (p. 249). Nietzsche, Merleau-Ponty, Gonçalo M. Tavares actualizam o “esse est percipi” de Berkeley. Gonçalo M. Tavares, fazendo romance, um pensador complexo, ágil e subtil da pós-modernidade…
Adquiri, em Santiago do Chile, em tradução castelhana, o livro de Gianni Vattimo, Le aventure della differenza (em castelhano: Las aventuras de la diferencia - pensar después de Nietzsche y Heidegger, Ediciones Península, Barcelona, 2002) onde retive o seguinte: “Los artistas no deben ver nada como es, sino más pleno, más simple, más fuerte; a tal fin es necessário que una de sus características sea una espécie de juventud y de primavera, una espécie de ebriedad habitual” (p. 150). Esta “ebriedad habitual” não significa, em Gonçalo M. Tavares, uma capitulação diante dos jogos de opiniões, dos debates nos “media”, do fascínio pelo marketing das ideias, mas significa, verdadeiramente, o insólito, o impensado, o inatual nas exigências do vedetismo mediático. Kant formula assim quatro questões básicas da Filosofia: Que posso saber? (metafísica); que devo fazer? (moral); que me é lícito esperar (religião)? E, por fim, uma questão que engloba todas as restantes: o que é o Homem? (antropologia). Em toda a sua obra, também Gonçalo M. Tavares pergunta: o que é o Homem? Mas não uma ideia do Homem que aí está, mesmo que largamente podada pela crítica, antes um Homem nascituro, que se desenha e se pensa no âmbito da transcendência, num “atletismo da alma” ou, na dança, pois que, como Nietzsche o diz em A Origem da Tragédia: “É cantando e dançando que o homem se manifesta como pertencendo a uma comunidade superior: desaprendeu de andar e de falar, mas prepara-se para se elevar, dançando”. O Gonçalo M. Tavares é um mestre de um novo humanismo que se expressa no romance, no teatro, na poesia e no desporto e na dança; é sem favor um dos maiores ficcionistas do nosso tempo, com dinamismos improcedentes de escolas, ou de quaisquer outros reconhecidos critérios e que não objectará a funda influência que, nele, vêm tendo os filósofos, principalmente, Bachelard, Nietzsche e Wittgenstein – numa palavra só: a Filosofia! O futebol português carece de ideias e abunda em feridas por cicatrizar, em gestos desrazoados e onde não se consegue dominar o constante azedume. Hans-Georg Gadamer afirmou que “a palavra não existe senão no diálogo” (Langage et vérité, Gallimard, Paris, 1995, p. 165). A palavra é diálogo, como não há desporto sem competição, como ninguém é sem o outro. Esta a grande mensagem da obra de Gonçalo M. Tavares – certamente, um dos maiores ficcionistas da história da nossa literatura. Um dos escritores portugueses (e não só) que melhor sabe dialogar com as grandes sombras vivas da história da filosofia."

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Cadomblé do Vata

"1. João Félix foi muito massacrado com faltas, mas tem que aprender a não reagir aos agressores... com um árbitro a sério, aquela bolada que mandou no pé esquerdo do Ilori aos 64 minutos, podia-lhe ter custado a expulsão.
2. O resultado é curto mas de qualquer forma, vamos para a segunda mão em vantagem... para os sportinguistas fica é a esperança de ainda poderem ser o tomba gigante da Taça de Portugal 18/19.
3. Entendo que haja Benfiquistas altamente desiludidos com o golo verde e branco, mas pensem bem... se depois dos 2-4, hoje ficassem a zeros, os lagartos eram bem capazes de ir contratar um treinador a sério.
4. Gosto muito do Sálvio, mas no actual Benfica parece um peixe fora de água... já me começo a mentalizar que no final da época nos vamos despedir da Maga... do Toto.
5. Em 2 jogos, entre Raphinha e Luiz Phellype somaram-se 1 remate e zero golos... é o chamado "ataque de ph neutro"."

Benfiquismo (MLXXXVIII)

Ex-Seixal !!!
Antigo Lar dos Jogadores...

Vermelhão: Quando a alegria 'sabe a pouco'!!!

Benfica 2 - 1 Sporting


Ganhámos o jogo, mas perdemos a oportunidade de 'matar' definitivamente a eliminatória! Não estava à espera de um jogo parecido, com o 'banho' de bola do último domingo, estava à espera de um jogo mais equilibrado, com a Lagartada na retranca, e foi mesmo isso que aconteceu...
Mas tenho que começar por um factor aparentemente pouco importante: a alegria!!! Nas bancadas, e dentro do campo! A confiança está de volta... na bancada, e lá dentro; o espírito de união (que sempre foi forte) está ainda mais forte. Nota-se que os jogadores estão felizes, e comprometidos solidariamente uns com os outros... Aquilo que o Bruno Lage designou pela reconquista dos adeptos, está conseguido... Agora, temos que manter a 'onda'!!!
O Keizer acabou por usar uma estratégia de 'pré-época', acabou por fazer maior rotação no onze titular, meteu uma equipa mais posicional de marcha atrás de início, praticamente sem qualquer plano ofensivo; e depois nos últimos minutos, acabou por colocar em campo os 'mais' titulares (e rápidos), quando o jogo estava 'partido' e o Benfica, estava mais desgastado... Com a agravante do Benfica ter 'queimado' uma substituição com a lesão do Jardel...!!!
O Benfica fez pouca rotação, e por isso mesmo, voltámos a ter problemas em controlar o jogo nos últimos minutos! Na minha opinião a entrada do Salvio, foi mal conseguida, principalmente, porque obrigou o Pizzi a mudar de flanco... O Rafa não me parece a 100%, recordo que foi substituído, no jogo com o Boavista... mas havia outras soluções: se o Zivko mostrou pouca atitude com o Boavista, mas ainda havia o Krovi ou mesmo o Cervi... e o Pizzi jogaria sempre na Direita.
Outra variável importante é o facto deste jogo ser a '1.ª parte' de uma eliminatória de dois jogos (um aborto competitivo na minha opinião, esta opção das Meias-Finais a duas mãos, só para a FPF ganhar mais uns trocos com as transmissões televisivas... ainda por cima com 55 dias entre os dois jogos, é um absurdo!!!), e se o jogo do passado domingo, era uma 'Final' para as duas equipas, tendo em conta as ambições de ambos os Clubes em serem Campeões, hoje não era... a decisão seria sempre em Abril... E por isso mesmo, ambas as equipas tiveram uma atitude menos agressiva!!!
Sendo que os Lagartos 'exageraram' jogando claramente para o nulo... apresentando um plano de jogo tão pouco ofensivo, fazendo inveja à maioria das 'pequenas' equipas do Tugão quando jogam na Luz!!!
Mas de todas as variáveis, aquela que acabou por condicionar ainda mais o jogo do Benfica, foi o Godinho!!! Absolutamente vergonhosa arbitragem... Completamente premeditada...!!! O Amarelo inicial ao Ilori foi somente para disfarçar, a partir daquele momento, valeu tudo... O Félix levou porrada de cima abaixo, foi pisado várias vezes e ainda levou Amarelo por protestos... quanto aos Lagartos, fartaram-se de protestar e o cartão ficou sempre no bolso!
Além das agressões, e faltas perto da área dos Lagartos que ficaram por marcar... foi no meio-campo, onde o Godinho conseguiu 'travar' o Benfica. Os jogadores do Benfica sentiram que não podiam 'ganhar' duelos... praticamente todos os duelos ganhos pelo Benfica, davam falta... Então na 1.ª parte, foi quase a 100%!!!
Se já havia algum cansaço acumulado, se já havia alguma intenção em não arriscar tanto... com este critério, o Benfica acabou por desistir de pressionar alto, em vários momentos do jogo, dando oportunidade aos Lagartos para respirar... De longe o melhor 'trinco' do Sporting, foi o apitadeiro!!! Fartou-se de 'recuperar' bolas!!!
No meio disto tudo, voltámos a sair do jogo, com a sensação que podiamos ter goleado... Mais uma vitória que acaba por 'saber a pouco'!!!
Primeira parte totalmente nossa, mesmo com ritmo mais baixo do que tem sido habitual... Nos primeiros minutos do 2.º tempo, notou-se que o Sporting 'subiu' um pouco, mas respondemos muito bem com 30 minutos muito bons, onde podíamos ter marcado vários... os Lagartos nos minutos a seguir ao golo do Félix ficaram desorientados!!! Mas não marcámos... e acabámos por sofrer! E até terminámos com algumas dificuldades lá atrás...!!!
O Félix, voltou a ser uma das figuras do jogo... tecnicamente já está a nível diferente de todos os outros!!! E ainda destacou-se pelas agressões que sofreu, a do Acuña era para Vermelho directo!!! E também assustou com aquela 'aterragem' falhada após salto aparatoso!!!
Mas para mim o melhor em campo foi o Gabriel... grande jogo, e mesmo nos últimos minutos, ainda tinha carga na bateria... Essencial na forma rápida como mudamos de flanco, os passes tensos, marcam a diferença... E defensivamente está muito bem nos duelos!
O Lage no final 'apontou' com razão, que toda a equipa, incluindo o Samaris e o Gabriel, acabaram por 'entusiasmar-se' demasiado na parte final... e em vez de baixarem um pouco, continuamos a tentar subir linhas, e no golo dos Lagartos abrimos um 'buraco' muito grande entre-linhas!!!
Outro bom jogo do Pizzi... até que ficou de rastos!!! Outro enorme jogo do Seferovic, só faltou o golo desta vez... mas esteve muito bem... Está a melhorar enormidades nos combinações 'longe' da área!!!
Mas o grande 'destaque' da noite tem que ir para a estreia do Ferro!!! Com o Conti lesionado, e agora com os problemas do Jardel, a dupla que tantos anos jogou na Formação junta, voltou: Dias, Ferro!!! Entrou com alguma 'vergonha' mas foi ganhando confiança, e na 2.ª parte já jogou na antecipação... Se o problema do Jardel for grave, o sucesso próximo do Benfica, vai muito depender da adaptação do Ferro à titularidade!!!
Mais um grande jogo do Rúben... O Grimaldo ficou 'coxo' com o Pizzi pela frente, demorou algum tempo a saírem as combinações...
Voltando ao apitadeiro: Acuña e Bruno Gaspar tiveram entradas para Vermelho directo, agressões ao Félix e ao Salvio respectivamente; para mim o Diaby também deveria levar Vermelho no final, a joelhada na cara do Svilar foi propositada e extremamente perigosa; Gudelj e Bruno Fernandes continuam a saga de faltas consecutivas sem cartões...
Os penalty's pedidos pelos lagartos não existem: no lance com o Almeida é o Acuña que promove o contacto... até o Godinho acertou nesta!!! No lance do Diaby o Cervi toca na bola e o Belga deixa-se cair...; na falta sobre o Svilar, o Bas Dost não joga a bola e salta para cima do Svilar, falta em qualquer lado do campo...; no penalty sobre o Grimaldo, em condições normais, diria que não houve 'tomates' tanto por parte do Godinho, como do VAR Sousa, mas infelizmente o caso é mais grave: foi de propósito!!! A forma como o Godinho correu para o local, onde o Coates começa a agarrar o Grimaldo (fora da área), prova a premeditação, ele sabe como toda a gente sabe, que os agarrões são assinalados onde terminam e não onde começam...!!!
Mas mesmo assim o lance mais 'decisivo' do jogo (na eliminatória), foi a falta do Cervi sobre o piscineiro Fernandes: para mim não houve falta, existe uma 'travagem' uma mudança de direcção, e um jogador que se deixou cair, e 'sacou' uma falta... Mas mesmo assumindo que houve falta, em nome da equidade comparem com as 5 ou 6 faltas não assinaladas sobre jogadores do Benfica perto da área dos Lagartos, principalmente sobre o Félix?!!!
Agora, só em Abril a Taça de Portugal voltará! Até lá temos o Campeonato (o mais importante) e a Liga Europa. Vamos de 4 dias de preparação para o jogo com o Nacional, sem viagens pelo meio: um luxo!!! Já o tinha dito no final do jogo de domingo: é fundamental o regresso do Jonas e do Fejsa, a equipa tem que 'rodar' os titulares... A incapacidade de controlar as partidas nos últimos minutos, deve-se muito à falta de opções, em algumas posições... Em relação aos 'extremos', é obrigatório alguns jogadores subirem de forma. A começar pelo Salvio, mas também o Cervi... Teoricamente, o melhor substituto do Pizzi (falso ala...) é o Krovi... mas precisa de minutos! O Zivko, se ficou chateado quando perdeu a titularidade, e agora ficou amuado, só tem que acordar para a vida...!!! O plantel é curto, todos têm dar tudo, em todos os momentos, nos jogos e nos treinos...!!!
Nos últimos foi tornado público a situação grave de saúde o nosso Chalana! Bruno Lage, dedicou a vitória de hoje, ao nosso mágico... muito provavelmente, o segundo maior de sempre, atrás do King!!! Com uma carreira atribulada, e com tantas lesões, 'só' faltava uma doença terrível nos últimos anos de vida...!!! Força Chalana...

Só...!!!

Torrense 0 - 7 Benfica
Rebelo, Evy, Vitória(2), Yasmim, Geyse(2)


O estranho foi mesmo a Darlene não ter marcado golos!!!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

O jogo das emoções

"Um Benfica-Sporting (ou um Sporting-Benfica) continua a ser o duelo que gera mais emoções, que mais faz acelerar os corações dos adeptos e o que mais histórias tem para contar. O dérbi eterno irá hoje conhecer mais um capítulo, num jogo onde nunca existe favorito e cujo desfecho tem sempre a capacidade de deitar por terra os prognósticos que parecem mais óbvios. É esta a magia de qualquer confronto entre os velhos rivais.
É também por isso que um jogo entre Benfica e Sporting tem igualmente a responsabilidade de ser um exemplo para o desporto nacional, em geral, e para o futebol, em particular. A grande festa que é este dérbi merece ter lugar num clima saudável, com total fair play e desportivismo.
Estamos certos de que será isso, uma vez mais, que irá acontecer. O Benfica já marcou presença na final do Jamor por 38 vezes (26 vitórias), enquanto o Sporting chegou lá em 28 ocasiões (16 vitórias). 
Em 2019, só um deles vai lá estar, mas isso apenas iremos saber a 2 de Abril, dia em que se disputa a 2.ª mão da meia-final que hoje arranca. Vão ser 55 dias até que regresse a emoção do dérbi dos dérbis. É muito tempo, sim, mas há jogos pelos quais vale sempre a pena esperar.

PS: Jorge Andrade, ex-jogador do Estrela da Amadora, do FC Porto, do Deportivo da Corunha e da Juventus (e que, infelizmente, terminou a sua carreira demasiado cedo em virtude de graves lesões sofridas), fez um comentário na RTP3, onde colabora há vários anos, que merece o mais veemente repúdio. O antigo internacional português disse ‘apenas’ isto: “Eu, se ainda jogasse, dava só um pisão no João Félix e não havia mais João Félix durante o jogo. E aí tinham que recorrer a outro estilo de jogo.” Uma declaração lamentável e que merece ser melhor explicada pela Direcção de Informação da RTP."

«Se ganhar o Sporting ninguém fica chateado»

"Para quem já havia 'enterrado' o Benfica e glorificado o Porto, esta segunda volta promete...

1. O futebol é a soma (nem sempre aritmética) de momentos bons e maus. Como diz Bruno Lage, o futebol é presente. Passa-se de um estado de euforia à depressão e desta à exaltação (e vice-versa) num abrir e fechar de olhos. Por isso, nem excessos a mais (passe o aparente pleonasmo) num momento positivo, nem defeitos a mais num momento negativo. É sempre uma atitude de sensatez refrear entusiasmos face ao céu limpo e brilhante, como saber relativizar nuvens que, tarde ou cedo, anunciam desalento.
O certo é que há presentes mais (des)iguais do que outros. Escrevo depois da saborosa, justa e escassa vitória do Benfica contra o seu histórico rival lisboeta e nacional e do percalço do Porto em Guimarães. Falo de um presente que hoje já é passado, ainda que de boa memória e espero por um futuro que amanhã será presente (novo jogo, agora para a Taça). Quanto ao passado, importa registar que, em Alvalade, o Benfica igualou o número de vitórias da equipa leonina (32), enquanto, jogando em casa, a diferença é avassaladora (46 contra 15). Aliás, nos últimos dez anos, o SLB só uma vez foi derrotado em Alvalade (em 2012).
O sempre ungido Sérgio Conceição, na antevisão do Vitória - Porto, resolveu falar do dérbi lisboeta. E disse: «Dérbi? Se ganhar o Sporting ninguém fica chateado». Pois é, a amizade entre dragões e leões está acima de tudo, mesmo depois dos amuos na final da Taça da Liga. Eu que não passei procuração a Conceição e pertenço ao grupo dos ninguém agradeço, enternecidamente, a petite provocation do mister. Afinal no fim do dia, como agora sói dizer-se em estilo anglo-elitista, foi o técnico portista que ficou chateado, assim reduzindo a pó o ninguém que, afinal, é alguém.

2. Categórica exibição do Benfica, que até me fez lembrar a que há 25 anos resultou num mágico e inesquecível 6-3, agora com João Félix a emular o então encarnado João Pinto.
Um clássico com 6 golos (escassos os do Benfica face à superioridade incontestada) já não se via há muito. Pelo contrário, andávamos a ter que gramar os 0-0, 1-0, 0-1, ou, mais esparsamente, uma goleada de 2 golos. Que belo jogo em Alvalade, sem calculismos paralisantes, sem tacticismos cinzentos, sem quezílias despropositadas, sem o monopólio anestesiante e entediante do futebol só jogado a meio-campo! Basta compará-lo com os jogos de amizade SCP - FCP onde para ninguém perder, ninguém ousa ganhar.
E, desta vez, não há sequer o pretexto ou desculpa da arbitragem. Isso apesar de - no que seria o segundo golo do SLB e primeiro de J. Félix - até se poder perguntar como é que Artur Soares Dias, a um metro da vista, achou que não havia falta (até esbracejou para a jogada seguir) e, a mais metros no nonitor, mudou de opinião. Mesmo admitindo que foi falta, pergunto: por que razão aqui se anula o golo e em duas faltas bem mais notórias no Porto - Benfica da Taça da Liga, o VAR e o árbitro decidiram por uns miminhos portistas. Onde está a equidade do critério?

3. Jogaram ou sentaram-se nos bancos das duas equipas 14 jogadores portugueses: o Benfica com 8, o Sporting com 6. E, no Benfica, houve 5 atletas recente e directamente vindos da formação.
Há coisas que para um leigo embora atento, como eu, custam a compreender. Ver Samaris como suplente de suplentes no consulado anterior, observar Gabriel antes inconsequente centro-campista, agora consistente médio e, sobretudo, durante semanas a fio, ver jogar João Félix fora de posição nuns esparsos e esmolares minutinhos.
Bruno Lage tem sido uma boa surpresa, até nas conferências de imprensa. Alguns dos jornalistas sempre presentes nessas liturgias mediáticas ficam ser o brinquedo com os que adornam perguntas lapassianas, tontas, deslocadas ou armadilhadas. E porquê? Porque Lage responde de um modo enxuto: 10, 15 segundos, sem adiposidades, sem redemoinhos palavrosos, em suma e em inglês, em estilo shot. Fala de futebol e não do que não é para lá chamado, explica opções técnicas, não perde tempo com elogios hipócritas à outra equipa ou críticas mordazes às arbitragens (mesmo que, como na Taça da Liga, fosse quase irreprimível). Como ele tem repetido, em futebol não lhe interessa o se, que é o refúgio dos indecisos ou medrosos. «O jogo com o Sporting vai ser uma final» disse na antevisão do dérbi, assim arriscando e se esquivando à treta de «é apenas mais um jogo, só vale 3 pontos», etc., etc. «Jonas e Fejsa estão convocados?» Resposta com um só vocábulo: «Não». Outros diriam blá, blá, blá, amanhã saberão, etc., etc. «Castillo e Ferreyra fazem falta?». Responde: «Não foi o senhor que a semana passada me perguntou sobre o Jonas e nada disse sobre os que agora refere?». De um visionário jornalista: «Como é que jogando em 4-4-2 os dois sul-americanos foram dispensados?», a que B. lage respondeu ensinando: «4-4-2 quer dizer 4 na defesa, 4 no meio -campo e 2 avançados. Ouviu? Falei em avançados e não de pontas-de-lança. E tenho 5 avançados» (o jogo em Alvalade ilustrou bem esta ideia=.
Temos treinador. Não se deslumbra com cada dia presente, nem esmorece com momentos negativos. Não está à frente da equipa por «ter mau perder». Prefere sempre a serenidade, ganhando ou não, sem tiques vedetistas, vozeirões exaltados ou afirmações subliminares.

4. Antes desta última jornada, o Benfica estava na iminência do intervalo de (-8 pontos, -2 pontos) atrás do FCP e (+2 pontos, +8 pontos) à frente do SCP. No fim dos jogos, ficou a 3 do Porto e com 8 (em bom rigor 9) de avanço sobre os leões. Jornada muito positiva que tem três consequências:
a) o Benfica volta a depender de si próprio para se sagrar campeão;
b) a luta para o título e 2.º lugar de acesso às eliminatórias da Champions está limitada ao Porto, Benfica e - é bom não esquecer - Sp. Braga que, por acaso, até recebe os seus directos concorrentes;
c) considerando os jogos teoricamente mais difíceis, o Benfica já jogou com o Vitória e o Sporting (faltam FCP e Sp. Braga), o Porto apenas com o Vitória (faltam Sp. Braga, Benfica e SCP) e o Braga ainda não enfrentou nenhum destes adversários. Vale o que vale, até porque nem sempre é nesses jogos que se perdem pontos decisivos. Foi ocaso da primeira volta do Benfica, com 11 pontos (!) perdidos com Chaves, Belenenses, Moreirense e Portimonense. Enfim, para quem já havia enterrado o Benfica e glorificado o Porto, esta segunda volta ainda promete...

5. Não havia necessidade... refiro-me à oportunidade da entrevista do presidente do Sporting na televisão pública. Pelo menos, no que diz respeito às suas declarações sobre o Benfica e seu presidente, em vésperas do grande débi. Felizmente, do lado do SLB, imperou o silêncio, antes e depois do jogo. Admito que, numa fase menos boa do clube - que, apesar de tudo, emergiu de uma gravíssima crise com os menores danos possíveis - despender parte significativa da entrevista falando do rival é fácil, é barato (embora não dê milhões), a turba aprecia, o (seu) povo aplaude e os problemas internos ficam a marinar. Esta pan-obsessão pelo Benfica é patológica. Do lado dos rivais, fala-se mais do Benfica do que dos próprios clubes! E sempre com o moralismo de como se tudo neles fosse imaculado, sem processos, sem pressões e de uma respeitabilidade à prova de bala...

6. Encerrou mais um mercado de Inverno. Menos entusiástico e chorudo do que em anteriores épocas. Por cá, esta janela mercantil foi aproveitada de diferentes maneiras: o Benfica a despachar monos ou decepções e a promover jovens; o Sporting surpreendentemente endinheirado ou avançado em receitas futuras a comprar hipóteses de maravilhas e diamantes por lapidar; o Porto, num misto de entradas, saídas e regressos, tentando não repetir os erros do Inverno passado em que se craques vieram, dispensados saíram.
É bom chamar jogadores da equipa B que têm dado boas provas e podem ser muito úteis na equipa principal: Ferro, Jota, Florentino e Zlobin. Assim se dá seguimento a uma política de formação sustentada. Poupou-se na folha salarial e dá-se oportunidade a jogadores promissores e conhecedores da grandeza do clube. É assim que entendo a razão de ser da equipa B: a de haver uma intercomunicabilidade não apenas ocasional, mas sistemática entre ela e o plantel da equipa principal.

Contraluz
- Espectáculo:
Agora que a Liga Espanhola anda mais arredia da televisão, pude voltar a Espanha por via da Taça do Rei. E logo para assistir a esse formidável Barcelona, 6 - Sevilha, 1. Um regalo para quem gosta de futebol e um hino à sua beleza que nos faz esquecer as diatribes e parvoíces do nosso caseiro futebol.
- VAR:
Como é possível o árbitro (e sobretudo o VAR) ignorarem um penálti descarado a favor do Feirense contra o Vitória de Guimarães! Uma bola cortada com o braço que até um cego veria, é ignorada e, pior do que isso, justificada gestualmente pelo árbitro como tendo batido na barriga (!) do infractor! Uma coisa é a inevitabilidade do erro, outra bem diferente é o atropelo completo à verdade, ao bom senso e à justeza numa situação que não oferece um milésimo que seja de dúvida."

Bagão Félix, in A Bola

De Alvalade à Luz e os 298 do Bonfim

"A propósito do dérbi de hoje, a história ensina-nos que os 4-2 do Benfica ao Sporting em Alvalade pouco importam para logo à noite. Recuemos à época de 1985/86 e aprendamos alguma coisa sobre a especialidade dos jogos entre os eternos rivais. Nessa temporada, a 12 de Março, o Sporting foi à Luz perder por 5-0, para a Taça de Portugal (e se não fosse a inspiração do divino Damas nessa tarde chuvosa...); um mês depois, a 13 de Abril, os leões, já fora da corrida pelo título, voltaram ao anfiteatro das águias, para a partida da penúltima jornada do Campeonato. E triunfaram por 2-1 (ao Benfica o empate chegava para ser campeão), entregando o título ao FC Porto, que assim se classificou para a Taça dos Campeões de 1986/87, que viria a vencer.
A dinâmica do dérbi tem vida própria, os jogadores sentem de forma particular estes momentos e o Sporting apresentar-se-á hoje na Luz, apesar das limitações de uma época que devia ser vista apenas como ano zero, qual leão ferido e por isso muito mais perigoso. O Sporting joga pela honra e mal do Benfica se pensar que hoje é o prolongamento do último domingo...

PS - Estiveram no estádio do Bonfim, na noite da última segunda-feira, a assistir ao Belenenses SAD - Moreirense (sétimo contra quinto da I Liga), 298 espectadores. Estará tudo a fazer de conta (especialmente a Liga de Clubes, que devia corar de vergonha por tão triste imagem do futebol profissional que tutela!) que não percebe que estamos a assistir a uma das maiores trapalhadas do desporto português, uma deriva em forma de fuga para a frente que já provocou danos irreparáveis e tem tudo para acabar mal?"

José Manuel Delgado, in A Bola

Travesti

"1. No Sporting bem podem mudar os protagonistas (presidente, treinador, jogadores...) que o clube continua a parecer aqueles automobilistas que num engarrafamento estão sempre a mudar para a faixa que parece fluir melhor, num efeito placebo de mobilidade.
2. Com timing despropositado e conteúdo requentado, o ataque de Frederico Varandas ao Benfica e a Vieira transformou-o num zombie daquilo que prometeu ser. Querer afirmar-se pelos ataques ao rival faz tanto sentido como um aluno querer ter boa nota por denunciar o colega com cábulas.
3. No campo, a equipa tem sido, nos últimos tempos, um travesti futebolístico em relação à génese Keizer, que prometeu o romantismo de Nicholas Sparks e oferece o terror de Stephen King.
4. Já o Benfica de Lage (até agora agradável surpresa, até no discurso) mostrou em Alvalade a simbiose perfeita entre uma colónia de formigas (a defender) e uma manda de elefantes (a atacar).
5. «O Benfica tem dado suficientes provas da sua preocupação com os interesses da indústria», podia ler-se numa newsletter do Benfica, no intervalo dos tweets incendiários e afins. Quando Valdimir Putin diz que o rap contribui para a degradação da sociedade russa, pelo menos não o faz vestido de Eminem.
6. A julgar pela lucidez, bom senso e visão na entrevista que li, algumas pessoas do Benfica devem tomar dois Domingos Soares de Oliveira por dia, de 12 em 12 horas, após as refeições.
7. O português de Ristovski não chega para dar conferências de imprensa, mas é suficiente para cantar Ena Pá 2000.
8. Pinto da Costa a falar em «regresso às tristes figuras de quem não tem a dignidade de reconhecer que o adversário foi mais forte» é como Iron Maiden a cantar música de coro de igreja.
9. João Félix tem 19 anos, mas cara de 9 e maturidade de 29. Tem a velocidade dos Super Wings, o faro da Patrulha Pata e a fantasia dos PJ Masks, mas o que impressiona mais é não ser um desenho animado."

Gonçalo Guimarães, in A Bola

Os directores de comunicação dos mais titulados - Um modo de actuar


"Confessamos que, apenas, gostamos de falar de futebol e dos seus aspectos positivo.
Porém, também, sabemos que almejamos um papel que temos de denunciar e brandir as injustiças que vamos percepcionando, por esse futebol fora.
A história conta-se em poucas palavras.
No passado Domingo, numa bola dividida com Herrera a meio campo, o avançado do Vitória SC, Alexandre Guedes caiu.
Imediatamente assistido, toda a gente que assistia ao desafio percebeu que a situação era melindrosa, com o jogador a necessitar de imediata assistência.
Por essa razão, foi dada, no momento, ordem de substituição do atleta, que saiu do estádio de ambulância para o hospital.
Viria mais tarde a saber-se que existia uma suspeita de traumatismo crânio-encefálico e que o jogador, por essa razão, não poderia continuar em campo.
Porém, apesar de todas as pessoas saberem que um atleta nestas condições não está capacitado para competir, há uma nova figura do futebol português, que parece capaz de subverter todos os protocolos médicos, demonstrando uma sapiência acima da média.
Falamos dos directores de comunicação dos clubes mais titulados que tudo sabem, que tudo opinam e que, em duas palavras três incendeiam o futebol português.
Depois da situação que ocorreu no estádio, Francisco J Marques, director de comunicação de FC Porto, teve o desplante de dizer que "uma coisa é recorrer a todos os meios legítimos para tentar parar o adversário, outra coisa é ultrapassar os limites e contar com a benevolência das equipas de arbitragem. Em Guimarães temos dois lances para mostrar que ilustram isso muito bem, o primeiro do Guedes, que choca com as costas do Herrera, fica a queixar-se do lábio e é assistido na cabeça, tendo de sair de maca. O FC Porto é uma equipa de intensidade elevada e isso causa desgaste. Esta paragem serviu para parar o jogo. Mais de três minutos de paragem a meio da segunda parte é impensável. Quebrou o ritmo e deu oportunidade de recuperar o fôlego numa altura de pressão do FC Porto. Não se tratava de nenhuma lesão grave. Este tipo de coisas, juntamente com as faltas sucessivas, demorar a marcar o pontapé de baliza, são sempre situações em que os árbitros têm de estar atentos. Isto está a ser utilizado como estratégia."
Ora, vejamos o que passa para a opinião pública e para os adeptos que não viram o jogo. Imediatamente que houve uma estratégia para estragar o desafio, com um jogador fiteiro.
Porém, num acesso de má fé, esqueceu-se de passar o resto da informação e que sabia: que o jogador foi levado para o hospital.
Quanto às perdas de tempo, mais uma vez, esta nova figura do futebol português demonstra outra característica: habilidade em seleccionar factos. A assistência a Guedes é um acto de perda de tempo... e a de Marega que demorou um tempo similar, não foi perda de tempo? E não terá sido esse momento em que o ritmo de jogo se esvaiu?
Infelizmente, o futebol português, na sua espiral regressiva, deu guarida a este tipo de figuras, a que poderíamos chamar de bonecos de ventríloquo. Tudo sabem, tudo dizem, mas raramente com opinião própria...simplesmente, são usados porque se forem castigados em nada afectam os clubes dos quais são assalariados.
E, enquanto, tiverem tempo de antena assim continuarão a degladiar-se entre eles, numa curiosa pugna de quem berra mais alto e quem mais conhecimentos tem das diversas ciências, para além da futebolística...neste momento, J Marques tomou a dianteira na da medicina, pois conseguiu ver a "olho nu" o que os médicos do Hospital precisaram de descobrir através de uma tomografia axial computadorizada...
Sinais dos tempos!"

Pobreza de espírito, pobreza de mentalidade!

"Após o Vitória- FC Porto de ontem à noite, Wakaso foi o vitoriano escolhido para as declarações na flash interview. O médio ganês do Vitória ainda sente dificuldades para se exprimir em português, todavia fez um notável esforço para se exprimir na língua de Camões em frente às câmaras de televisão. Certamente um momento stressante para alguém que não está habituado a fazê-lo, ainda por cima num idioma que não é o seu. Wakaso teve uma atitude de coragem e de se lhe tirar o chapéu. Contudo nem toda a gente partilha desta opinião. No final da entrevista, os locutores da TSF afirmaram que é inadmissível o jogador ainda não falar português após tantos anos em Portugal. Para colocar a cereja no topo do bolo, um dos locutores disse que falta saber se Wakaso sabe falar a própria língua.
São declarações tristes, ainda por cima num órgão de comunicação social que deveria ser de referência. Vivemos em pleno século XXI num mundo cada vez mais global e que exige capacidade de adaptação, mas também capacidade de compreensão.
Compreensão essa que nem toda a gente é capaz de ter. Ou porque têm palas nos olhos, ou porque nunca sairam do conforto do lar ou porque nunca alargaram os horizontes. Ou simplesmente todos estes factores.
Por isso pedimos a todos os Wakasos desta vida que falem, que se exprimam e que não se escondam. E que nunca tenham medo de errar, porque após cada erro há sempre uma lição e uma aprendizagem. E assim, os pobres de espírito e de mentalidade reduzida serão sempre derrotados.

ADENDA:
Em meu nome pessoal, mas principalmente como editor de Desporto da TSF, quero pedir desculpa ao Wakaso e a todos os sócios e adeptos do Vitória Sport Clube. Foi um momento infeliz da nossa parte e que, definitivamente, não deveria ter acontecido. Tratarei de, eu próprio, ir ter com o Wakaso para lhe pedir desculpa. Este pedido de desculpa não é só meu. É de toda a equipa de Desporto da TSF. Deixo ficar um grande e forte abraço para todos os Vitorianos. Um abraço que espelha a estima, consideração e admiração que tenho pela enorme instituição que é o Vitória Sport Clube. 
Comunicação, em adenda, enviada pelo director da TSF, João Ricardo Pateiro."

Tudo o que influenciou o dérbi da Liga e o que deverá decidir o dérbi da Taça (a análise tática do Sporting-Benfica)

"Sporting: O que corrigir para ser mais forte?
Controlo de cruzamentos
Este tem sido uns dos principais problemas defensivos do Sporting de Marcel Keizer. No domingo, em Alvalade, o primeiro golo do Benfica demonstrou isso mesmo: linha defensiva do Sporting totalmente desalinhada e pouca protecção da baliza aquando do cruzamento de Grimaldo.
De outro ângulo, é possível perceber também que a distância (em largura) entre os dois centrais é muito grande, o que acaba por facilitar muito a finalização de Seferovic. André Pinto encontrava-se muito longe do avançado do Benfica, e nem sequer o conseguiu incomodar no momento do cabeceamento.
No jogo de logo à noite, é de prever que a equipa de Bruno Lage volte a procurar tirar partido dessa debilidade defensiva do Sporting, através de combinações nos corredores laterais, para posterior cruzamento para zonas de finalização.

Desarticulação da linha média
Se o Sporting quiser sair da Luz com um bom resultado, é fundamental que não volte a conceder tanto espaço dentro do seu bloco defensivo. Foram vários os momentos em que o mau posicionamento da linha média permitiu ao Benfica chegar com facilidade ao espaço à frente da linha defensiva.
No segundo golo do Benfica, um exemplo disso mesmo.
Os posicionamentos interiores dos extremos benfiquistas e, principalmente, de João Félix, certamente voltarão a ser uma constante no processo ofensivo encarnado, com o Benfica a tentar explorar o espaço que o Sporting possa conceder nessa zona do campo.

Fase de construção
No momento ofensivo, os problemas na fase de construção voltaram a ser bem visíveis e, se se mantiverem na Luz, dificilmente o Sporting chegará muitas vezes com qualidade às zonas de finalização.
A falta de paciência em zonas recuadas e a pouca capacidade para entrar com a bola controlada no bloco do Benfica resultaram em muitos passes longos para a frente, com pouco ou nenhum critério. 
Nos momentos em que o Sporting tentou jogar apoiado, nem sempre os posicionamentos foram os mais correctos e, por isso, as dificuldades em dar seguimento aos lances foram enormes.
A excessiva distância entre elementos e a pouca ocupação do espaço entre a linha média e a linha defensiva do Benfica foram alguns dos “pecados” do Sporting no dérbi passado, que em muito contribuíram para uma prestação tão fraca a nível ofensivo.

Benfica: O que evitar para voltar a dominar?
O Benfica - que praticamente não passou por dificuldades nenhumas em organização defensiva no jogo de domingo - terá de reduzir ao máximo as perdas de bola que possam originar transições rápidas do Sporting.
A equipa de Bruno Lage tem de evitar que Samaris receba a bola de costas para os médios do Sporting - que são muito rápidos a pressionar pelo lado cego –, porque será fundamental que o Benfica não perca a bola em zonas comprometedoras.
Se o Benfica condicionar a primeira fase de construção do Sporting, estará certamente muito mais confortável em organização defensiva, uma vez que o Sporting tem demonstrado uma grande incapacidade para sair a jogar quando sofre uma pressão mais alta.
No seu meio-campo defensivo, as marcações individuais dos laterais do Benfica aos extremos do Sporting poderão ser um factor de desequilíbrio defensivo. Apesar do Sporting não ter tirado proveito disso no último jogo, André Almeida apareceu várias vezes no corredor central, atraído por Nani. 
Tendo em conta o último jogo e o momento actual das duas equipas, é de esperar um Benfica com mais bola, e a pressionar em zonas mais altas, de modo a condicionar a primeira fase de construção leonina.
O Sporting, por sua vez, deverá posicionar-se num bloco médio, com o objectivo de estar sempre compacto, e esperar pelo momento da recuperação da bola para sair rápido para o ataque."

(...) e o dérbi de há 17 anos que o deixou sem dormir: "Há sempre alguém que me fala no Jardel. Errei forte e feio. É a minha cruz"

"15 de Dezembro de 2001. 21 horas.
Noite fria. Emoções ao rubro. Jogava-se mais um dérbi entre os grandes de Lisboa.
A pouco mais de uma semana do Natal, todos os caminhos iam dar ao (velhinho) Estádio da Luz. 
Setenta e cinco mil almas enchiam as bancadas com cor, alegria e muito entusiasmo. Verde e branco de um lado, muito vermelho do outro.
Mas já lá vamos. Antes de recuperar essas memórias, recuemos dez anos.
Tirei o curso em 1991. Um acaso levou a outro e lá fui parar, a uma sala da AFL e que ainda hoje existe, na Rua dos Fanqueiros. Caprichos da vida: um madeirense de gema, que chegara ao continente dois anos antes, acabou por tornar-se num árbitro lisboeta.
A acção demorou cerca de um mês, mais coisa menos coisa. Lá aprendi a teoria toda, pela voz, saber e experiência de nomes históricos da arbitragem nacional.
Apesar do empolgamento das aulas, a verdade é que nunca me passou pela cabeça arbitrar jogos de futebol. O que eu queria mesmo era conhecer as regras, perceber os porquês e os comos. Queria ter legitimidade para criticar. Queria poder opinar de forma avalizada.
Como adepto, nunca fui doente, irracional ou desvairado. Nunca sofri, nunca me desgastei ou chateei. Em minha casa, éramos todos assim. Saudáveis.
O que eu gostava mesmo era de jogar à bola. Cada garagem, cada portão, cada cantinho servia de baliza. Depois era só enrolar umas quantas folhas de papel, chamar a malta e pronto. Começava o jogo. O mesmo que acabava mal chegava a histérica da vizinha aos gritos, a refilar com tudo e com todos. Desmancha prazeres.
Aos domingos à tarde ia para o quintal e fechava para obras. Colava os ouvidos no rádio e devorava aquelas tardes desportivas bem ritmadas, à espera daquele momento em que a voz potente e sem rosto gritava "Gooooooooloooo"!
Dez, quinze segundos de suspense e incógnita! De expectativa, de pura adrenalina: "De quem foi, de quem será?", perguntava-me. Era qualquer coisa de fantástico...
À noite, não ia para a cama sem ver o resumo de todos os jogos, até mesmo daquele que vinha de Chaves e chegava quase sempre de madrugada. Caía de sono, pois claro... mas esperava. Esperava sempre.
Terminei o curso de árbitro e convenceram-me a experimentar. A fazer um jogo. Só um.
E lá fiz. Fiz um. Depois mais um. Depois outro. E depois... mais dois mil.
O medo deu lugar ao gozo. A timidez abriu portas à vontade. Passei a gostar daquilo. A gostar muito. 
Era paixão, pura paixão. A mesma que tem o jogador que joga com um sorriso genuíno ou o adepto que vibra com o clube do coração.
Nos anos seguintes, dediquei-me de corpo e alma e fiz o meu caminho. Jogos após jogo, aqui e ali, em todos os cantinhos do distrito. Foi uma escola dura mas fundamental no meu crescimento.
A subida à primeira categoria foi rápida. Demasiado rápida para o que era suposto.
Pelos intervalos da chuva, fui bafejado pela sorte e por um contexto em que prevalecia a necessidade de haver "sangue novo". Em apenas seis épocas, cheguei ao escalão maior do futebol português. 
Tinha vinte e quatro anos. Vinte e quatro anitos. Um pequeno peixinho num aquário cheio de tubarões.
Percebi que estava completamente fora dela quando, no primeiro curso de abertura de época, preparava-me para entrar na sala onde estavam os árbitros principais e o (então) presidente mandou-me para a dos árbitros assistentes. Não me conhecia...
De volta à noite memorável de 2001.
O grande jogo da Luz, o meu primeiro grande teste, surgiu por capricho do sorteio. Era assim, na altura. As bolinhas é que escolhiam porque os homens não confiavam nos homens (psssiiuuu... os árbitros eram os mesmos, sorteados ou nomeados, mas não lhes digam nada).
A nível desportivo, a fase era boa, muito boa. Tinha acabado de ser indicado à FIFA e sentia-me feliz. Aos vinte e oito anos e em vésperas de receber as insígnias de internacional, preparava-me para arbitrar aquela que seria a partida mais mediática e sonante da carreira. Nem eu sonhava quanto. 
Lembro-me que quase não dormi nos dias anteriores. Estava expectante, ansioso, nervoso até. Nunca na minha vida arbitrara um jogaço daqueles, com tanta gente a assistir, com tanto impacto e mediatismo.
Estava deslumbrado.
Foi o jogo mais longo da minha vida e hoje, mais de 17 anos depois, sinto que ainda não acabou. 
Aqui e ali, há sempre alguém que me fala no Jardel. No famoso Jardel.
Cada um tem a sua cruz e essa é a minha.
Essa enorme infelicidade faz emergir uma verdade inabalável: a memória do adepto pode ser muito apurada e selectiva. É incapaz de se lembrar do que comeu ao pequeno-almoço mas jamais se esquecerá do erro cometido ao minuto oitenta e quatro de um jogo realizado há tantos, tantos anos. 
Quanto ao lance em si, não tem história. Errei. Errei forte e feio.
O enganador diz que fez o seu trabalho, logo o enganado é corrupto. Dizem que faz parte. Está bem então.
Em boa verdade, bem antes desse minuto fatal, já eu estava perdido em campo.
Amarelos atrás de amarelos, um vermelho directo, péssima gestão de emoções e dois lances nas áreas que decidi na dúvida e que ainda hoje vejo como (muito) suspeitos: um, na área encarnada, a envolver Argel... e o penálti assinalado por alegada mão deliberada do Beto. Humm...
Certo, certo é que foi demasiado jogo para tão pouco árbitro. Estava verde. Não estava preparado para um espectáculo com aquela dimensão, com protagonistas de luxo e fiz, de facto, um péssimo trabalho.
VAR, VAR... onde andavas tu?
Uma das poucas memórias positivas que guardo dessa noite foi a da postura, educação e respeito que recebi de Robert Enke. Um senhor, antes, durante e depois das incidências.
Há pessoas tão superiores à vida que só o Céu as sabe entender.
Depois desse, outros vieram, por cá e lá fora. A carreira fez-se, mas sempre com essa pedra no sapato.
Mas o futebol evoluiu e hoje há outras condições, mais preparação e muitos mais meios. Os árbitros chegam mais tarde ao topo, com outra experiência na base e estão cada vez mais bem apetrechados, física e teoricamente. Estão também habituados a este frenesim mediático. Este é o seu métier. 
Espero, sinceramente, que mais logo possamos todos assistir a um verdadeiro espectáculo dentro de campo e fora dele. Os ingredientes são de luxo e as atitudes dependem de cada um.
Uma certeza: o Jardel não estará por lá. Graças a Deus!!"

Ainda vamos ter muitas saudades de Rui Vitória

"Luís Filipe Vieira sugeriu, na entrevista a Cristina Ferreira do início de Janeiro, que “as pessoas ainda vão ter muitas saudades” de Rui Vitória. Tem razão. Os rivais todos os dias rezam pelo seu regresso.

Rui Vitória abandonou o comando do Benfica no início do ano e já se sente a falta do mister de Alverca do Ribatejo. Há um legado que não se apaga de um dia para o outro, mas convenhamos que o seu sucessor tem feito por rapidamente destruir toda uma herança ruivitoriana que tinha vindo a tornar-se na imagem de marca dos confrontos do Benfica com os adversários directos.
O Benfica venceu o Sporting, é certo. Contudo, é-me difícil entender estas ideias de futebol revolucionárias do treinador que veio a substituir o saudoso Rui Vitória, Bruno Lage (Ou Laje, segundo oráculos de diversos noticiários televisivos). Quer dizer, agora, de repente, é possível estabelecer um claro domínio em casa dos rivais ao ponto destes não encaixarem seis ou sete por mero acaso? Onde ficou o respeito pelas grandes equipas? Por que razão não fez entrar o segundo trinco aos 60 minutos de jogo? O que é feito da confiança cega nas garrafas de água mineral? A facilidade com que se derruba toda uma ideologia é, no mínimo, desconcertante.
Como benfiquista, não posso deixar de notar que Bruno Lage torna a minha vida bastante mais complicada. Os últimos meses de Rui Vitória forçaram-me a desligar da actualidade futebolística, a recusar-me a comentar o desporto, a ceder facilmente a compromissos que me impediriam de ver os jogos do Benfica (sem qualquer tipo de culpa ou mesmo sem aquela ansiedade galopante que se instala habitualmente quando estamos longe de uma televisão à hora do apito inicial). Bruno Lage veio acabar com essa paz espiritual.
Agora, que o meu clube infelizmente começa a apresentar um futebol irresponsavelmente atraente, sou obrigado a acompanhar o Benfica a par e passo. Lage faz com que perca preciosas horas de sono a rever lances, a visionar programas de comentário na televisão, a ler blogues e fóruns. Fica anotado que desperdicei toda uma segunda-feira nesse registo, pelo que suplico a Bruno Lage que se coíba de apresentar um futebol rendilhado na quarta-feira e que o Benfica, se possível, se exiba de forma apenas ligeiramente satisfatória. Afinal, quinta-feira é dia de trabalho e eu não tenho vida para continuar embevecido com um treinador.

Nota: esta crónica é um claro exercício de fanfarronice. O leitor terá todo o direito de me desprezar pela excitação desmedida que se infere que estou a sentir por causa de uma excelente exibição. Mas, se nos escusássemos de exibir descabida fanfarronice quando as coisas correm bem e de revelar luto, depressão e melancolia quando correm mal, o futebol talvez perdesse a sua razão de ser."