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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A construção de um curriculum

"Considerações ontológicas sobre o que vale e não vale num currículo a apresentar numa faculdade de Desporto.
Eis-me perante os outros com aquilo que fui e sou. Para a avaliação do que construí como homem plural de um desporto plural será suficiente a explanação metódica, fria e normalizada das consecuções desportivas, académicas e profissionais?
Preocupar-se-ão os analistas de um currículo com dimensões outras que não estejam directamente relacionadas com o fim específico de avaliar o somatório de investimentos e realizações que caracterizam o avaliado?
Não sei, nem me importa. O que sei é que para lá da relação factual das minhas realizações desportivas, académicas e profissionais existe um percurso de vida, quase sempre eivado de escolhos que determinaram opções, desvios, tergiversações. No essencial, não fui o que quis ser, mas o que a vida fez de mim. Isso também deve ser colocado nos pratos da balança avaliativa do que realizei.
Eu sou eu e a minha circunstância já dizia Ortega y Gasset, e no meu caso pessoal, as circunstâncias moldaram muito do que fui ou fiz, muito mais que os anseios pessoais de ser ou fazer naquilo em que me pretendia.
Até na feitura deste currículo as circunstâncias ditaram a sua estrutura e concepção. Era suposto este documento não ter qualquer tipo de introdução. Se tivesse tido tempo, paralelamente ao currículo formal exigido por lei, pretendia fazer uma síntese da minha existência, a que chamaria de anti currículo, e que poderia dar uma dimensão mais aproximada do que sou pelo que fui. Não tive tempo porque a pressa dos outros condicionou este meu anseio de me expor para lá do exigido pela norma. Ao contrário de muitos que estão sempre com pressa de chegar a outro sítio, eu, suportado pelo saber, quiçá sabedoria, que me chega do acervo das minhas muitas experiências de vida, sei que o que conta é a viagem. Só a viagem vale a pena e, os que com pressa pensam que chegaram a bom porto, enganam-se a eles próprios, porque o bom porto também é fustigado pelas tempestades que criamos com os ventos que semeamos. Não tenho pressa em chegar a lado nenhum. Esta é uma posição filosófica que, refletindo-se num modus operandi global que me caracteriza, me levou a ser ultrapassado na vida por muitos medíocres. Mas isso são contas de outro rosário que para aqui não são chamadas e que, em princípio, nada interessam. Ou talvez sim, vá-se lá saber. Eu queria ter tido tempo para dizer o que está por detrás de todas as minhas realizações.
Eu queria definir o pano de fundo das minhas opções e prioridades e, ao dizê-lo fazer a catarse dos esqueletos que criei e escondi nestes 70 anos de vida e 43 anos de professor.
O relato curricular, despido da humanidade que lhe deu corpo e alma, de nada serve. Ou só serve para dar uma imagem superficial e por vezes errada do que se é, de quem se é. Tiramos o retrato que nos deforma o rosto e a alma, mas com as técnicas depuradoras do fotógrafo, aparecemos limpos e lindos, com as mazelas e cicatrizes escondidas e uma imagem falsa que não tem correspondência com o que na realidade somos.
O que fui, o que sou, é difícil de desvendar pela simples leitura factual de um currículo. Tentando-me localizar nesta aventura perigosa de me dizer, para lá das linhas frias de um currículo, tenho de me apoiar em algumas muletas. Deixem-me recorrer ao meu filósofo de cabeceira, aquele que com Bertrand Russel, nos tempos conturbados da minha pós-adolescência, me abriram as portas imensas dum mundo pressentido, mas incapaz na altura de saborear em pleno – o mundo do pensamento e reflexão. Estou a falar de Friedrich Nietzsche.
Para Nietzsche, o homem no seu percurso de devir sofre três profundas transformações ontológicas. Primeiro é camelo, depois leão e por último criança. Na fase de camelo, o homem tem de suportar a canga dos valores estabelecidos, tem de saber obedecer, tem de assumir os mestres como faróis da sua minguada existência. É um recetáculo acrítico de todas as axiologias. É um omnívoro cultural, comendo até ao vómito. É forçoso que esta fase seja dura e que deixe marcas no corpo e no espírito. Segue-se a fase de leão. Aqui o homem revolta-se contra tudo e contra todos, destruindo todos os valores e ícones que elegeu como referências existenciais, tentando vislumbrar caminhos novos que ele tem forçosamente de construir com as mãos em sangue e o espírito em festa. Esta é a fase da coragem e assunção do risco, à qual muitos perecem ou que provoca o recuo para a fase precedente dos que não conseguem viver em instabilidade. Aqui o homem é solitário. É uma solidão dolorosa porque forçada, pois, na consecução de novos valores o homem normalmente colide com a axiologia estabelecida e, constituindo-se refratário à regra, à norma normalizadora, cria em volta de si um vácuo relacional que o catapulta para a suprema solidão. Depois de muito sofrimento, de muitas lutas ganhas e perdidas, o homem ganha a guerra suprema – vence-se a si próprio e atinge o estádio de criança. Aí já nada o incomoda. Está de bem consigo e com os deuses e já os barulhos da polis são um longínquo sussurro de mil vozes afinadas pelo mesmo diapasão.
A minha angústia radica no facto de que, embora queira chegar rapidamente a criança, a minha interioridade combativa e disjuntora faz-me permanecer irredutível na fase de leão.
Mas vamos devagar.
Tal como na investigação científica, em que a exposição dos dados nada nos diz acerca da realidade interior que esses dados comportam, também a mera exposição sequencial dos seres e aconteceres que justificam o meu trajecto profissional e académico nada dizem acerca do que sou e valho.
A ciência, para progredir, assume o jogo dialéctico ou dialógico entre consenso e conflito, evoluindo apoiada na racionalidade, empirismo, verificação e imaginação. Já Popper avisava Einstein de que nada conseguiria descobrir pela indução. Nem uma só descoberta de valia foi conseguida através da lógica. Muito do que melhor conseguimos como humanidade derivou de fogachos e imaginação, de reverberações e entusiasmos, de iluminações e erros ultrapassados. Porque razão digo isto? Porque não acredito que nenhum ser, por mais ilustrado e sábio que seja, possui os argumentos heurísticos e hermenêuticos para descobrir a essencialidade valorativa de um professor universitário de desporto, através da mera leitura do seu currículo. Avalia-se o quê? Que critérios conseguem discernir o que é essencial ou acessório num currículo deste quilate? Quem é o supremo juiz no tribunal da dignidade académica, científica e profissional duma faculdade de desporto? Quem? Quem nunca fez desporto ou fê-lo na minguada condição de catarse psicológica ou depuração higiénica? Quem analisa ou outros através da lupa dos seus interesses ou motivações? Consegue o juiz sair da sua dimensão específica e validar, na sua integralidade, as opções alheias? Gostaria de acreditar que sim, mas as dúvidas são muitas, até porque o juiz também é humano, carregando em si o estigma da incompletude. Discernir da validade dos outros é tarefa ciclópica que devemos assumir com cuidado religioso. Sempre tive dúvidas na avaliação dos meus alunos porque nunca soube, com certeza, o que estava a avaliar. Cientes da impossibilidade da certeza devemos porfiar para errar o menos possível. Para isso é forçoso ter elevação de alma.
Como homem do desporto gostaria de ser avaliado por homens de desporto.
Gostaria de acreditar que um indivíduo que nunca entrou no desporto ou que dele saiu pela porta pequena, refugiando-se na ciência ou na filosofia, conseguirá validar o feito profissional e desportivo único, como o consubstanciado no facto de eu ter feito parte de duas selecções nacionais de futebol, com significativos resultados em ambas. Gostaria que os meus avaliadores tivessem consciência plena do que isso representa.
Tenho o melhor e mais conseguido currículo desportivo desta faculdade. O que me valeu em termos de promoção académica? Nada. Porquê? Porque, numa faculdade de desporto como a nossa, cuja missão fundamental, até agora pelo menos, foi formar quadros competentes para o professorado e treino, valoriza-se mais as competências científicas (às vezes nem isso) que as de índole pedagógica ou as conotadas com a metodologia do treino. Numa escola de pedagogias e metodologias a ascensão aos patamares superiores da hierarquia académica é obtida pelos trânsfugas da coisa desportiva. Daí a minha revolta, porque vejo o desporto, puro, cru, duro e real, ser relegado para o plano dos acrescentos quando ele é a essência genésica desta faculdade. Muitos peroram acerca da dimensão axiológica do desporto. Todos lhe são subsidiários. Poucos permanecem nele porque nele acreditam. Uma faculdade de desporto não pode colocar a ênfase em nenhuma ciência auxiliadora. A categoria disciplinar primária desta faculdade deve ser, no meu entender, o Treino Desportivo. O treino desportivo estende os seus pseudópodes para a sociologia, fisiologia, bioquímica, pedagogia, etc., recolhendo destas as migalhas que lhe interessam e expressa-se, mais conseguido e robusto, nas várias expressões sociais do desporto – na escola, alta competição, crianças e jovens, idosos, deficientes, doentes, etc. As categorias conceptuais, metodológicas e funcionais do treino desportivo de alta competição, que é a cereja do bolo desportivo, assistem a todas as expressões particulares deste polissémico fenómeno social. Querer inverter a lógica valorativa dum curso de desporto, recentrando-o nas ciências parcelares de apoio, diz bem da incongruência entre o discurso e a prática que tenta fazer lei nesta faculdade.
Mas eu tenho de regressar à justificação desta introdução no meu currículo. Um currículo nada diz ou diz pouco do que é realmente essencial. O meu currículo não diz que cheguei ao desporto de alta competição por baixo, pelo caminho do trabalho árduo, do vencer etapas, do desbravar caminhos. Cheguei ao topo porque demonstrei capacidade, empenho, excelência. Outros, sem provar nada, chegaram ao topo porque souberam explorar bem as benesses das circunstâncias e do poder que possuíam num dado momento.
O meu currículo não diz que durante seis anos fui treinador de um clube, sem receber um tostão, por simples amor à canoagem, e que todos os fins-de-semana fazia 200 km, pagando a gasolina do meu próprio bolso, para poder estar aos sábados e domingos no controlo directo dos meus atletas. O meu currículo não diz que quando cheguei ao Náutico de Prado, ao fazer os testes iniciais da época (antropométricos, motores e performativos), ao verificar que o corpo de um cadete era mais reduzido em peso e estatura que a maioria dos infantis avaliados, pretendi mandá-lo embora. Ficou porque o diretor me afirmou que nunca faltava aos treinos. Deixei-o ficar por compaixão e oito anos depois era vice-campeão do mundo. O meu currículo nada diz dos estigmas de dor, sofrimento, raiva, rancor, ódio e amor com que o desporto me marcou. O meu currículo nada diz da forma como cresci no desporto e do meu contributo essencial para que o desporto português crescesse. O meu currículo não diz que fui o principal impulsionador da maioria dos clubes genésicos da canoagem portuguesa. O meu currículo nada diz sobre o facto de, não faltando às aulas, ter conseguido levar a bom porto a minha missão de docente e treinador.
O meu currículo nada diz sobre as fronteiras da minha dimensão humana.
Como pano de fundo de todas as minhas realizações sobressai, incontornável, a dimensão humana da minha existencialidade. Poderão muitos arguir que essa dimensão não é para aqui chamada. Eu digo que essa é a única dimensão que conta, pois consubstancia em comportamentos visíveis, avaliáveis, reais, o que na realidade somos.
Em muitos momentos clamamos aos ventos a excelência de que nos julgamos possuídos. Podemos dizer o que quisermos de nós, mas isso tem o reduzido valor das palavras ditas ao vento ou escritas na areia. O que conta são os ecos de nós. Os ecos que recebo dos montes e vales que ajudo a construir, com as lógicas excepções emergentes da chã humanidade que me faz errar e falhar muitas vezes, têm sido lisonjeiros. Têm permitido justificar todo o empenho e investimento que tenho posto na minha profissão. Poucos dos meus pares sabem o que valho. Uns não estão interessados em saber a real valia dos meus investimentos e consecuções; outros não têm capacidade para discernir entre o trigo e o joio; outros ainda porque têm interesse em minimizar o que vou construindo. Como é dramático vivermos rodeados de indiferença, com cada um somente olhando para o seu umbigo e não acompanhando o que vamos construindo como corpo mais ou menos coeso. Sei o que valem os meus colegas e rejubilo com os seus êxitos. Leio-os a quase todos e com quase todos dialogo no sentido de os tornar melhores. Tenho a coragem de os criticar para evoluírem na procura de melhores soluções para os seus problemas. Mas estar, compreender e evoluir com os meus colegas obriga-me a grande esforço; esforço gratificante, no entanto. Sou um ser solidário que tem recebido muito pouca solidariedade de quem a isso mais estaria obrigado. Mas, a gratidão é uma virtude escassamente distribuída pela humanidade.
Sinto-me numa encruzilhada dramática. Poderei, neste momento derradeiro de avaliação, fazer emergir em toda a sua dimensão a expressão da minha valia pessoal, pedagógica, científica, ou seja, profissional? Como avaliar o docente, o cientista, o pedagogo, sem dar atenção ao homem. Não se podem desligar as várias expressões da minha existencialidade, pois umas implicam-se nas outras formando um plexo unificado sem hierarquias internas. Sou uno e total em todas as circunstâncias, o que me tem trazido imensos dissabores no decurso da vida. Não me sei expressar em divisões redutoras de conveniência. Não sei ser táctico ou estratégico. Essa pulsão para a totalidade, embora por vezes me reduza a margem de manobra e acção, é a força vital que me permite a paz interior. E depois, ela é a génese do meu valor e autenticidade.
Poderei dizer o professor sem dizer o homem? Não. Permitam-me uma deambulação muito íntima e pessoal que pode justificar algumas coisas.
Lembro-me dos últimos tempos do meu pai. Doente, acabado, só e sem soluções. Não o posso ter na minha pequena casa que só tem um quarto. Não tenho ninguém para o tratar e cuidar durante o dia. Arranjo um lar com a máxima dignidade possível. Ganho 46 contos na faculdade, pago 45 contos pelo lar do meu pai.
O que me salvou a alma e permitiu a morte com dignidade do homem a quem devo a vida? O estar no futebol.
Só que o meu engajamento profissional no futebol teve custos. Começaram pelos remoques sarcásticos dos que invejaram a minha entrada no futebol (quantas vezes eu quis sair, mas não pude porque necessitava do dinheiro que o futebol me dava) e pretendiam o meu abandono da condição de exclusividade. Afrontava-os eu ganhar mais algum dinheiro, dinheiro de sobrevivência em dignidade, quando nada faziam para denunciar e punir alguns que chegaram a catedrático com as exclusividades todas e que organizavam e dirigiam cursos iguais ao nosso nas privadas do mercantilismo e da mediocridade científica e pedagógica.
Este é um só exemplo amargo das minhas acontecências. Porque as expresso? Porque reputo ser fundamental relatar as dimensões de humanidade de uma pessoa para poder discernir o que vale ou não vale no seu currículo, seja professor ou pedreiro.
Fiz as provas de APCC no limite do tempo; fiz o doutoramento no limite do tempo. Porquê? As respostas não emergem do currículo; algumas respostas podem ser entrevistas a partir do relato anterior. Só tenuemente vislumbradas porque a minha realidade pessoal é mais dura e sincrética do que o que estas linhas deixam transparecer.
O meu currículo diz que fui professor efectivo do ensino secundário. Isto não diz nada, e atrás desta simples menção está um drama que me calhou viver. Acabo a licenciatura com a melhor nota. Embora sabendo-se da minha apetência para seguir a carreira universitária, ninguém me convida porque, como é bom de ver por esta introdução, não alinho pelo diapasão da normalidade institucional. Sou daquele tipo de sujeitos que só são bons longe ou passam a bons depois de mortos. Pois bem, poderia ter sido convidado para leccionar fisiologia (fui o melhor aluno do meu curso com 20, 18, 20 no 1º, 2º e 3º anos, respectivamente) ou basquetebol (fui atleta internacional), mas nada, tive de concorrer a uma vaga de atletismo. Como o meu currículo também era o melhor nesta área fui seleccionado. Mas a que custo? Lembremo-nos que eu era professor efectivo no ensino secundário. Passei a ganhar muito menos como assistente-estagiário, continuei a ganhar menos como assistente e somente, após 13 anos, quando passei a professor auxiliar com o doutoramento, é que passei a ganhar mais do que se estivesse no ensino secundário. Porquê? Porque os responsáveis da altura não me quiseram contratar como assistente-convidado e, pensando que eu desistia, só me deixaram aquela alternativa que eu assumi porque era o realizar de um sonho já longínquo. Tempos difíceis que um currículo não diz. E houve alguém que estava muito preocupado com a minha exclusividade.
Mas perguntarão os aferidores deste currículo: - Qual o interesse dos desabafos deste sujeito? Interessam muito, pelo menos a mim, pois dão um certo sentido de ordem, na desordem que tem sido a minha vida.
Se eu tivesse podido fazer o anti currículo teria dito, mais clara e profundamente, as vicissitudes da vida e as incompreensões dos homens. Mas não tive tempo. Nunca me deram tempo. Nunca respeitaram os meus tempos de ser e fazer. Eu pretendia fazer um doutoramento na área da morfologia muscular, estudando os tipos de alterações macroestruturais induzidas por diferentes protocolos de treino de força. Tinha comprado a máquina de musculação, tinha conseguido os alunos para a parte experimental, tinha servido de cobaia para um colega treinar os procedimentos experimentais (fui o primeiro sujeito em Portugal a sofrer uma biopsia para estudo no desporto). Estava tudo arranjado e, à última da hora, o meu orientador, afirmando que eu não respeitava os timings que me propunha, demite-se da função e obriga-me a recomeçar esforços noutra direcção passados dois anos de estudo e tentativas de consecução da parte experimental. Nunca me deram tempo, nem cuidaram de saber se o meu tempo era meu. Depois, alguns, incorporando as vestiduras da santidade, vendo os meus prazos legais esgotarem-se, acenaram-me com os votos piedosos de me passar a assistente-convidado. Saía da carreira pela porta pequena, pela porta dos medíocres, pela porta do estigma com que sempre me quiseram marcar. Estive dias sem dormir, pois, as máquinas do Centro de Medicina Desportiva, onde fiz o meu doutoramento, estavam sempre a avariar. Os atrasos nas reparações (só de uma vez o oxímetro esteve 8 meses avariado) levaram o meu amigo Nelson Puga (dos poucos que esteve sempre ao meu lado e que nunca me deixou esmorecer), a ameaçar os técnicos em Lisboa se não resolvessem, em tempo útil, os problemas das máquinas. Os infantes piedosos pensavam que eu não trabalhava. O problema era outro, mais prosaico e não dependente de mim. Entretanto, debaixo da pressão a que estava sujeito, ainda consegui escrever um livro “Dietética do Desportista”, editado no mesmo ano em que fiz o doutoramento (1995). Afinal o relapso tinha trabalhado.
Isto não diz o currículo, e é isto que importa quando se fazem sínteses de vida.
Nasci num Portugal imerso num nevoeiro de cabotinismo que não tinha nada a ver com o pendor autoritário do regime político, mas mais com a idiossincrasia profunda do povo que somos. Com a revolução de Abril as coisas pioraram, porque o cabotinismo ganhou campo livre de acção, fazendo emergir o que de pior somos. O problema é mais grave porque livres, hoje em dia, não temos o cimento da revolta para nos estruturar o sentir colectivo. Pasmamo-nos em disjunção e depois ficamos admirados por sermos os últimos da europa em quase tudo. A sociedade portuguesa (digo a sociedade portuguesa para não ser mais explícito e pontual) transformou-se numa selva de predadores que atacam embiocados nas enfrestaduras do anonimato como dizia a poetisa Natália Correia. Perdeu-se o sentido de decência; perdeu-se o sentido de tolerância.
Quando se tem medo do escuro proíbe-se a noite. Estabelece-se a norma, deifica-se a regra castradora. Desde o berço venerador da ordem e hierarquia, nunca tive medo de assumir a luta na defesa dos meus valores, mesmo contra a força do estabelecido. Isso trouxe-me dissabores. Sou contra a norma quando ela consubstancia a demissão e a mediocridade. Sou contra a norma quando ela, manuseada por títeres de ocasião, molda a ambiência social aos interesses pessoais dos condottieri e seus epígonos. Quando o poder se reflecte num homem ou dimana dum homem, e esse homem tem no sangue os genes do autoritarismo que recebeu no seu imprinting, a norma transforma-se em liturgia duma religião de demissão ou nepotismo que faz emergir os epígonos como herdeiros doutrinários desses homens iluminados. Temos muitos desses na política, conheço alguns desses na vida universitária.
Mas onde quero chegar com todo este arrazoado repleto de efervescência emocional? Talvez a lado nenhum, ou somente dizer que um currículo deixa no escuro o essencial da vida duma pessoa. Não se consegue ler nas entrelinhas de um currículo o pulsar de vida que o construiu. E por isso fui mais longe. Fui talvez inconveniente, incorrecto. Foi premeditado. Não tenho a desculpa da cabeça fria. Isto já me andava a roer a alma há muito tempo. Denunciem e reprovem a ousadia. Não me interessa, porque o essencial está dito e feito e representa a força do afrontamento, betão estruturante com que também se edificam as instituições. Estou a ver os bem-comportados, os funcionários públicos da existência a condenar-me a originalidade. Foi um risco que assumi consciente.
Do meu currículo dimana a pulsão irresistível de cientificação do ato desportivo vivido e construído dia-a-dia e, num esforço de retorno tentar dar-lhe um sentido de unidade, um sentido de integração unificadora. Tarefa árdua pela sua complexidade. Penso que sou um epistemólogo do desporto. A tudo o que faço tento dar um sentido de unidade. Já Goethe nos avisava para o drama genésico das ciências: ou se perdem na lógica do aprofundamento ou se perdem na lógica da sua expressão horizontal. Fazer ciência desemboca no risco de perder de vista o sentido de unidade complexa que assiste toda a realidade. Por isso o reducionismo que me assistiu na realização de muitos dos meus trabalhos, foi um preço a pagar para aprofundar a realidade que me calhou estudar – o desporto. Mas esse esforço heurístico só vale se depois o fizermos regressar a uma matriz integradora, que é sempre complexa, mas que nos dá a liberdade da abordagem inovadora. Por isso a ciência é somente uma muleta na perscrutação do real e que nos deixa longe das verdades absolutas. A verdade científica está impregnada de incerteza e releva da autoconsciência dos limites da indagação. A forma de a ciência afastar o erro e a incerteza radica na assunção do diálogo intersubjetivo, que é feito de concordâncias e oposições, estas muito pouco aceites na comunidade científica de que eu faço parte. Não temos o hábito de discutir o que fazemos. Quando alguém critica alguém é logo considerado inimigo, porque a crítica é assumida no plano do respeito pessoal e não no dirimir de ideias. Elaboramos as nossas teorias e tentamos transformá-las em doutrinas. Os acólitos são acolhidos sob a asa protectora do guru doutrinário. Os refractários à verdade doutrinal são relegados para o limbo do olvido.
Estamos no desporto vivo e operante e tentamos cientificá-lo no e através do homem. Só sabemos trabalhar in vivo. E foi in vivo que construí a obra que me deu a carta de alforria como investigador. Com o coração em festa e a alegria pela ultrapassagem duma etapa fundamental da minha vida, meti-me ao caminho do castelo dos cientistas. Mais um caminho de desilusão.
Do meu doutoramento, obra que eu julgava merecedora de prémio Nobel, retirei um artigo que estruturei em inglês perfeito e enviei para uma revista de nível A. Veredicto: o artigo é recusado porque nada acrescenta ao estado de arte sobre a matéria. Que fazer? Desistir? Não, enviar para revistas de menor nível até publicação. Assim foi. Que estultícia a tua José Augusto Rodrigues dos Santos, um simples professor que também é treinador, que tenta cada dia mais cientificar o seu múnus profissional, querer emparceirar ao lado das luminárias científicas da tua área. Não tens lugar ao lado dos cientistas. Esses, os que publicam nas revistas de nível A, não te dão o direito de parceria. Paciência.
Não sou especialista. Não quero ser especialista. Não penso que a nossa faculdade possa justificar especializações científicas. Somos subsidiários da generalidade e, como não existe na nossa faculdade a carreira de investigador, temos de ser sempre e antes do mais professor, algumas vezes treinador e sempre que possível investigador. Só que com esta disjunção operativa característica do nosso múnus profissional não poderemos ter a veleidade de fazer ciência de ponta. Uns fazem-no, mas às custas do apoucamento de outras expressões profissionais ou sobrecarregando colegas com as suas deambulações científicas.
Estava a dizer que não temos o hábito da crítica. E devemos assumir esta como pulsão destruidora. Não existem críticas construtivas; isso é um eufemismo para evitar que o receptor da crítica fique muito zangado connosco. Devemos assumir que as nossas teorias podem estar erradas. Como diz Popper morrem as teorias, não morremos nós. Mas, na esfera do poder, qualquer que ele seja, a tensão do diálogo crítico é malquista e tendencialmente substituída por liturgias de aquiescência. Quem afronta o poder é relegado para as margens da convivialidade, tomada esta no sentido de partilha de responsabilidades e coparticipação nas esferas de decisão.
Quando me doutorei fui nomeado como representante da faculdade ao senado da universidade. Como sou incapaz de assistir impávido e acéfalo ao evoluir dos debates, várias vezes tomei opinião, afirmando abertamente o que pensava, mesmo que fosse contra o poder do momento. Nunca mais lá pus os pés. A melhor forma de lidar com pessoas incómodas é limitar-lhes a acção. Devido ao meu feitio (truculento, virulento dizem uns, frontal e vero digo eu) nunca os meus pares me deram qualquer cargo directivo. Parece que tenho uma espécie rara de doença que me torna incompatível com cargos de direcção. No entanto, existem alguns que procuram esses lugares como pão para a boca e, ao arrepio das suas responsabilidades lectivas, manobram o poder que possuem, aplanando o caminho do futuro, em esforços de autopromoção que têm dado para o emergir e cimentar de algumas injustiças.
Mas eu estava a falar do meu currículo e desvio-me sempre para coisas que não interessam a quem deve dar o veredicto se tenho ou não valia para chegar a Agregado.
Tentei sempre avançar cientificamente na procura da redundância. Repito o que faço para dar consistência às elucubrações que elaboro. Já que a minha prática científica está condicionada pelos meios escassos de que disponho, tento dar-lhe um sentido de unidade na dispersão que a caracteriza. Sou o investigador português que no campo da nutrição no desporto tem mais trabalhos feitos e publicados. Valer-me-á isto de algo para o futuro? Não sei, vamos a ver. Terei de pagar um preço exorbitante por ser um especialista da generalidade? Nunca abandonei o treino. Estarei sempre no treino porque me deu o objecto fundamental da minha realização pessoal e científica. O treino permitiu dar livre aso ao meu gosto de vagabundagem gnosiológica que perversamente cultivo como que tocado por estranha maldição. Esta deambulação por vários campos do saber retira-me do areópago dos especialistas e relega-me para o monturo dos generalistas. Para o patamar desvalorizado daqueles que tentam absorver a realidade com a máxima capacidade integrativa possível. Consciente da impossibilidade de um modelo integrador absoluto não me converto à religião unívoca da especialização. Sou panteísta científico e, embora os meus deuses estejam tocados pela incerteza e incompletude, tento dar-lhes um sentido epistemológico e social. Social principalmente, pois é na sociedade que permanece a ultima ratio da validação ou recusa dos meus investimentos técnicos e científicos.
Tenho o dom da dissensão, sei-o bem, mas não o cultivo como panache de personalidade. Só que me custa ter muitas vezes razão antes do tempo. Como tenho uma certa costela visionária, alicerçada numa já longa experiência de vida, consigo inteligir, ás vezes acertando, alguns fluxos do devir. Antecipo no tempo as reacções dos outros. Vejo com clareza os contornos das suas tergiversações. Porque, como no eterno retorno Nietzschiano, os homens repetem-se. Estou a lembrar-me do convite que me fizeram para proferir a aula inaugural do ano lectivo de 1995-1996. Resolvi pronunciar uma lição subordinada ao tema “A dimensão de Nietzsche como educador” que me empenhou em quase uma semana de trabalho. Foi um somatório de esgares recriminadores pela ousadia de trazer à colação um filósofo erroneamente conotado com o social-nacionalismo. Hoje esse mesmo filósofo é viático cultural para algumas viagens de intelectualidade de alguns que o descobriram tardiamente, e que chegaram à conclusão que Nietzsche foi, antes do tempo asado, um visionário que desejava uma Europa unida, como último reduto e defesa, aggiornamento e expansão, do legado cultural que nos chegou da antiguidade clássica.
Para terminar apresento um excerto do meu diário (lá continuo eu com as minhas agressões à norma) que dá uma ténue ideia da razão de eu não poder ser especialista. Em 26 de Julho de 2007 desabafava assim: Depois de um interregno por outras leituras, regressei ao Labirinto da Saudade de Eduardo Lourenço. Tenho tanto para ler e estudar em termos profissionais que não tenho tempo sobejante suficiente para fazer leituras alargadas fora do âmbito dos meus investimentos científicos. Quando revisito Morin, Philip Roth, Saramago, Eduardo Lourenço, Vargas Llosa, Garcia Marquez, Kundera, Joyce, Kafka, Vergílio Ferreira, e tutti quanti, fico sempre com a sensação de desleixo em relação às matérias científicas que são a base das minhas principais produções académicas. Eu sei que tenho de continuar a investir no meu aggiornamento nas várias áreas conotadas com a minha expressão profissional, mas também preciso de viáticos outros para a minha viagem de vida. Sou um omnívoro cultural que gosta de lançar os seus pseudópodes aos mais diversos campos de expressão cultural. A riqueza que ganho em diversidade pago-a com a redução, em aprofundamento, das coisas ditas científicas. A ciência, como especialização, é ditatorial. Exige uma entrega absoluta do investigador que o torna, por vezes, num bicho deslocado da realidade social que o enforma. Recuso isso, embora gostasse de ser um especialista em profundidade e diversidade. É esse o Santo Graal inatingível de todo o professor universitário e a razão fundamental das suas angústias quando se deseja ser um sintetizador de conhecimentos diversos os mais aprofundados possível. A máxima de Abel Salazar dá-me algum alento. Quem só sabe uma coisa, nem essa coisa sabe.
Só lamento ter perdido tanto tempo em apostas pseudo ou anti culturais. Mas estou a ser estúpido. A cultura que tenho hoje, muita ou pouca, as apetências mais profundas para “ler com melhores olhos o livro da vida”, resultaram dos investimentos à boa e má literatura, às boas e más vivências, até mesmo aos tempos perdidos em marasmo e irreflexão. Talvez tivesse podido aproveitar melhor os tempos livres que a vida me permitiu. O jogo da lerpa, o tabaco e o uísque, meus companheiros prediletos nas longas noites da Guiné, poderiam ter sido substituídos por momentos de investimento no meu aprofundamento cultural. Mas qual era o meu horizonte imediato? Estourar numa mina ou levar com um tiro nos c….s. Que perspetivas de cultivo cultural nessa vida sem perspectiva? A minha estadia no futebol, completamente absorvente e redutora, atrasou-me a ascensão académica; como poderia ter sido direccionada para o meu enriquecimento cultural quando a lógica imperante radica na superficialidade? Quando eu levava um livro para os estágios riam-se de mim. O treinador não me queria no quarto a ler, mas sim a fazer-lhe companhia, na conversa ou no jogo de cartas. Ao futebol tenho de agradecer as benesses materiais que me outorgou; ao futebol não posso agradecer o ter-me somente dado benesses materiais. Não é no futebol que um homem eleva o seu nível cultural. Aprende o pior das relações humanas em ambiente de verdadeira selva darwinista. Se me aculturei nos meus tempos de futebol, foi porque lutei contra o ambiente redutor que o caracteriza. O Artur Jorge fez uns poemas de m…a. Outros escrevem uns livretos de m…a. Do futebol só sai cultura quando é feita pelos que o analisam de fora. Os de dentro, com raras excepções, ficam cristalizados em acefalia.
Estou em crer que a minha sanidade mental actual tem algo a ver com o estado de euforia anestesiada com que vivi o futebol. Não o deixei tocar muito as minhas fímbrias da inteligência emocional. Vivi-o como um sonho que não fazia realmente parte de mim. Evoluo, determinado por anseios recorrentes de uma autognose que me liberte da força castradora dos fogos-fátuos do envolvimento. Estou melhor, mais profundo, mais reflectido, mais inteligente, mas à custa dum mais forte pendor para a solidão. Convivo agora melhor com a solidão porque convivo melhor comigo próprio. Tenho em mim uma força autotransformadora que me evita os momentos de abulia ou desistência. Quero sempre mais da vida porque quero sempre mais de mim. Invisto no porvir em sagas transformadoras de autognose que me levam a despir as roupas de algum comodismo que ainda mantenho como animal de estimação. Knox te ipsum já dizia, traduzido para latim, o velho e sábio Sócrates que é maltratado por Nietzsche que vê nele o ponto de diversão em relação a uma filosofia telúrica rica em aberturas de reflexão e que teve o seu ponto alto na Escola de Mileto. Mas, neste particular, dou razão a Sócrates quando localiza no homem a razão de todas as coisas. E recuso qualquer apodo de positivista. Aceito que existe realidade para além do ser, mas essa realidade só interessa quando inteligida pelo ser. Sem o ser, a realidade objetal, material, fractal, caótica, cai no poço sem fundo das inutilidades. Isto é ser homocêntrico, é verdade. Mas o homem é a medida de todas as coisas, já dizia Protágoras de Abdera.
Depois destas deambulações catárticas que penso terão fraco acolhimento por quem me ler (mas isso também já pouco me interessa), finalizo com uma adaptação de um conto clássico indiano que espelha bem a idiossincrasia nacional que tem alguma correspondência com algum ambiente relacional que caracteriza a minha faculdade, e no qual tive de sobreviver construindo com muito esforço, entrega e devoção aquilo que agora relato neste documento.
Um pescador nunca tapa o balde em que vai colocando os caranguejos que apanha. Isto admira toda a gente à sua volta. Alguém lhe pergunta um dia:
- “Porque não tapas o balde em que tens os caranguejos? Não tens medo que fujam?”
Responde o pescador calmamente:
- “Não é preciso …são caranguejos portugueses; quando um tenta subir, os outros imediatamente o puxam para baixo”."

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