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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O Unum e a tentação dos diagnósticos sem responsabilidade


"Num Clube com a dimensão, a história e a exigência do Benfica, é natural que surjam movimentos, grupos de reflexão e correntes de opinião que pretendam influenciar o seu futuro. A pluralidade de pensamento não é apenas legítima. É desejável. Eu próprio tenho sido incisivo na análise, na crítica, mas também nas soluções.
Invulgar que os mentores do movimento, portadores, acham, de uma visão diferenciada, não se tenham pronunciado, por exemplo, sobre o erro de palmatória do Benfica District, que comprometerá a visão do Benfica para as suas infraestruturas nas próximas décadas, sobre a posição pública tomada por Nuno Lobo da retirada do apoio institucional a Pedro Proença, que restabeleceria a posição do Benfica em relação à crescente e evidente perda do poder institucional no futebol ou sobre a estratégia acionista da Benfica SAD que necessita urgentemente de clareza e de execução.
O problema surge, para além do timing, quando o exercício da crítica transforma-se num fim em si mesmo. Nos últimos anos, o Benfica assistiu ao aparecimento de diversos movimentos que se apresentam como espaços de pensamento estratégico para o clube. O UNUM insere-se nessa realidade. Reúne sócios, promove debates e procura produzir reflexão sobre temas estruturantes. Nada disso é censurável. Pelo contrário. Mas existe uma diferença fundamental entre analisar o Benfica e governar o Benfica.
Com todo o respeito pelos seus membros, permanece uma diferença relevante entre refletir sobre o Benfica e assumir a responsabilidade da sua governação, sobretudo em momentos de maior complexidade e dificuldade. E mesmo entre aqueles que tiveram a oportunidade de integrar as estruturas do Clube, os seus contributos para processos de transformação estrutural, foram no mínimo, limitados. Isto com duas exceções, como foram os casos de João Gabriel e de Rodrigo Magalhães, considero da maior justiça afirmar, à luz de duas décadas de vivência como dirigente, que tiveram contribuições extraordinárias nas suas áreas de responsabilidade.
Pensar o Clube a partir do conforto da bancada intelectual é um exercício relativamente simples. Governar uma instituição com centenas de milhares de sócios, dezenas de modalidades, responsabilidades sociais crescentes, exigências financeiras permanentes e uma exposição mediática diária é uma realidade substancialmente diferente. 
Muitas das propostas apresentadas por estes movimentos padecem de um problema recorrente. A ausência de confronto com a realidade da execução.
É relativamente fácil identificar problemas. É muito mais difícil assumir a responsabilidade das consequências das soluções propostas.
Por vezes, o discurso destes grupos assenta numa visão quase académica do Clube, onde tudo parece resolúvel através de melhores princípios de governance, mais transparência ou novas estruturas de participação. São objetivos meritórios. No entanto, a história das organizações demonstra que os desafios mais complexos raramente resultam da falta de teoria. Resultam da dificuldade da sua aplicação prática.
Existe igualmente um risco de elitização do debate benfiquista. Quando um grupo se apresenta como espaço privilegiado para "pensar o Benfica", pode transmitir, ainda que involuntariamente, a ideia de que apenas alguns possuem a capacidade intelectual ou moral para definir o futuro do clube. Tal como surpreendentemente referido no passado que a maioria dos sócios não entendem as contas do Benfica. O Clube nunca foi das elites.
Ora, o Benfica nunca foi construído por círculos restritos de pensamento.
Foi construído por sucessivas gerações de sócios, adeptos, atletas e dirigentes, muitas vezes com visões diferentes, mas unidos por uma identidade comum e por uma cultura de exigência popular que continua a ser uma das maiores riquezas do Benfica.
Mais do que produzir diagnósticos sofisticados, o verdadeiro desafio consiste em apresentar projetos sustentáveis, financeiramente robustos, competitivamente ambiciosos e politicamente executáveis.
A questão central não é saber quem pensa melhor o Benfica. A questão é saber quem consegue transformar pensamento em resultado, visão em execução e ambição em realização.
Num contexto em que o futebol europeu se torna cada vez mais concentrado, mais exigente e mais competitivo, o Benfica precisa de crítica séria, mas também de sentido de responsabilidade. Precisa de debate, mas igualmente de capacidade de decisão. Precisa de ideias, mas sobretudo de quem esteja disposto a responder pelas consequências dessas ideias.
Porque, no final, a diferença entre um grupo de reflexão e uma direção não está na qualidade das intenções.
Está no peso da responsabilidade.
Para além disso este movimento tem um registo aparentemente oposicionista e com uma liderança identificada e presidenciável. Uma oposição coletiva a três anos das eleições e com uma direção em funções e democraticamente legitimada, pouco contribui para a estabilidade institucional do Benfica.
Dito isto, seria igualmente um erro ignorar que o aparecimento destes movimentos revela uma necessidade que a própria direção do Benfica deve saber interpretar. A criação de canais institucionais estáveis onde os sócios possam apresentar propostas, participar na reflexão estratégica e contribuir para o futuro do Benfica, sem que a divergência se transforme inevitavelmente em oposição.
Entretanto uma nota curiosa. Direção e UNUM parecem ter viajado a reboque um do outro. O movimento criou expetativas em torno de uma reflexão sobre arbitragem que o clube já tinha entregue à FPF, aparentemente uma proposta que já tinha sido discutida na federação, enquanto a direção deixou três semanas passar sem dar visibilidade a propostas que agora surgem embaladas pelo protagonismo de terceiros."

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