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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Futebol, marketing e a natureza humana


"Como qualquer pessoa que compita comigo numa mini-liga da fantasy sabe, não percebo nada de futebol. Com a companhia certa, ainda vou desfrutando os jogos da seleção. Vejo um jogo do Benfica por ano com o mesmo ímpeto com que um senhor de 90 anos folheia a revista Gina à procura de sentir algo que já não está lá há muito tempo. E com o mesmo sucesso.

Não sei, por isso, dizer quem foi o melhor jogador do mundo de sempre. Sei que Pelé, Maradona, Ronaldo e Messi foram melhores do que eu. Mas para saber qual deles é o melhor teria de seguir o método científico de os colocar a jogar no mesmo tempo, nos mesmos clubes, com os mesmos treinadores e adversários.
Percebo, no entanto, qualquer coisa de marketing e não tenho dúvidas de que a maior marca que o futebol alguma vez criou foi a marca Cristiano Ronaldo. Acima de qualquer clube, nação ou mesmo do próprio futebol. A marca Cristiano Ronaldo chega até a países onde mal sabem o que é essa coisa de futebol.
Exemplo 1: Este verão passei pelo Quirguistão. Se não sabem onde é, posso dizer que é longe, embora mais perto do que o nome parece indicar. Procurei em várias lojas desportivas e bazares, mas não encontrei camisolas da seleção de futebol local. Até achavam estranho este meu desejo pela camisola da seleção local, como se fosse uma estranha perversão sexual. No entanto, havia por todo o lado camisolas de Cristiano Ronaldo. Camisolas do Real Madrid, do Al Nassr, da Juventus, do Manchester United, do Sporting e até umas que juntavam todos estes clubes numa só (horrível) camisola. Naquele sítio onde o futebol não chega, onde não se consegue encontrar uma camisola da seleção ou clube local, havia camisolas de Cristiano Ronaldo por todo o lado.
Exemplo 2: O meu barbeiro paquistanês não gosta de futebol e não distingue um lançamento de um pontapé de baliza. No entanto, passou meia hora em julho a dar-me na cabeça por os jogadores portugueses não passarem a bola ao Cristiano Ronaldo durante o Mundial. Tenho a certeza que não viu um único jogo. Formou essa opinião baseado no que leu nas redes sociais do seu país e estava verdadeiramente indignado. Aparentemente, por um motivo que me escapa, a culpa também era minha. Também eu era ingrato, apesar de nunca ter dito uma única palavra sobre o tema. Não me defendi. O seu nível de indignação (representativo do sentimento da população paquistanesa em relação ao tema) estava tão elevado que senti que se me tentasse defender poderia contribuir para o aumento da criminalidade entre imigrantes, e não me apeteceu dar esse gostinho ao Chega.
Tenho a certeza de que um dia se descobrirá uma tribo na Amazónia isolada do mundo que ainda usa ferramentas rudimentares, mas na qual um dos adolescentes tem um 7 tatuado nas costas e faz um Siuuuu de cada vez que caça um tracambuí (ou lá o que comem as tribos isoladas na Amazónia).
Cristiano Ronaldo é uma marca, a maior de sempre do futebol. Tão grande que nos esquecemos que também é um ser humano, com todas as fragilidades de um, incluindo as fragilidades de carácter que a sua situação agrava e expõe ao limite, num ciclo imparável.
Imagine o leitor que é um adolescente pobre numa ilha do Atlântico sem grandes perspetivas de vida e no espaço de 10 anos atinge este estrelato. Centenas de milhões de pessoas sentem-se inspiradas por si. Os homens mais poderosos e as mulheres mais bonitas do mundo disputam a sua atenção. Das profundezas da nossa irrelevância, é fácil acusar Ronaldo de ser um narcisista egocêntrico (que é). Mas qual de nós seria muito diferente nas mesmas circunstâncias? Qual de nós manteria a mesma personalidade, o mesmo carácter, que tem hoje se fosse exposto às mesmas circunstâncias de Ronaldo? Se tantas vezes cometemos erros de avaliação por nos deixarmos derreter pelos elogios de uma só pessoa, o que seria da nossa personalidade se fôssemos adorados por centenas ou milhares de milhões de pessoas?
Tenho uma aversão epidérmica a cultos de personalidade precisamente por procurar entender a fragilidade da natureza humana. Assentar um projeto desportivo, empresarial ou político na infalibilidade de uma só pessoa é uma jogada de risco. Mas é acima de tudo uma injustiça para a própria pessoa porque o culto a transforma e depois julga-a severamente por essa transformação. Uma transformação de personalidade a que quase nenhum de nós resistiria nas mesmas circunstâncias. O mesmo culto que coloca a pessoa no pedestal, empurra-a de lá de cima aos trambolhões quando deixa de servir os objetivos da seita, deixando-a no fim só com as marcas da queda e os defeitos de carácter que, fora do pedestal, se tornam menos toleráveis.
Há 40 anos eu jogava tão bem como o Ronaldo. Daqui a 40 anos voltarei a jogar tão bem como ele. Por muito que lhe custe a aceitar, iniciamos este caminho de convergência há uns anos. Para mim é fácil de ver e aceitar este declínio porque jogar futebol não é a minha identidade, nem nunca fui tão bom em nada do que faço como o Ronaldo já foi a jogar futebol. Mesmo assim, no dia em que deixar de ser bom nas coisas em que dizem que sou, vai-me custar a aceitar. Vou negar até ao fim estar em declínio. E não sou o Ronaldo. Imaginem se fosse."

1 comentário:

  1. Que se pode dizer desta ridicularia?
    Que escreve no sapo, e está tudo dito!
    Ou, talvez não...

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