Últimas indefectivações

terça-feira, 22 de junho de 2021

Guendouzi, o geómetra


"Quem é o médio que Jesus pretende no Benfica 2021.
Francês – selecção pela qual jogou dois Europeus Sub 21 – formado entre o Paris SG e o Lorient, foi recrutado pelo Arsenal no seu segundo ano de sénior, e pese embora a utilização não escassa, não conseguiu tornar-se prioritário para o clube Londrino.

Porque não se impôs no Arsenal?
Guendouzi demonstra mais qualidade com bola do que sem esta, e numa Liga tão competitiva e veloz quanto a Premier League acabou por não se impor. Tem dificuldades no 1×1 defensivo e não tem passada suficientemente veloz para se impor num clube de grande nível.
É com bola, na ligação com o jogo ofensivo que se destaca. A qualidade do seu passe é excepcional, e não se coíbe de conduzir a bola à procura do passe que rompe linhas. Decide rápido e liga com muita qualidade no início de cada ataque ou transição.
Se quer uma comparação com elemento do plantel encarnado: Guendouzi seria Taarabt. Contudo, menos centrado em fazer sempre o passe mirabolante e mais capaz de colocar critério no seu jogo. E embora seja o ponto menos notório do seu jogo e que não lhe permitiu impor-se no topo, defensivamente tem um raio de acção bastante mais largo que o marroquino. Curiosamente, Guendouzi também também ele nacionalidade marroquina, embora tenha nascido em França.
No Benfica seria obviamente o oito dono de um lugar à frente de um seis de maior capacidade defensiva. Porque não, Florentino?"

Valada, duas vezes nascido no Cartaxo


"Um insólito da Volta a Portugal de 1966, no Cartaxo, levou ao nascimento de uma estrela, natural da mesma vila

No Portugal de Agosto de 196, os telespectadores assistiam aos primeiros ensaios das transmissões do ciclismo português na RTP, com a Volta a Portugal. O Benfica colocou dez ciclistas na prova, contando com elementos de topo como Peixoto Alves, vencedor da edição anterior, Pedro Moreira e Fernandes Mendes.
Entre eles ia ainda Francisco Valada, que poucos dias antes se tinha destacado na frente de um 'compacto pelotão'. Nascido na vila do Cartaxo, em 15 de Maio de 1941, representaria Portugal nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960.
A 29.ª Volta a Portugal iniciou-se no Estádio das Antas. Tinha um traçado considerado 'demasiado duro nos primeiros dias', prejudicial ao desempenho dos velocipedistas, tendo em conta que fora uma época atípica, com poucas provas.
A camisola amarela foi sendo disputada entre Mário Silva, do FC Porto e Peixoto Alves nas primeiras etapas. Entre os dias 13 e 15 de Agosto, sucedeu uma 'caleidoscópica sucessão de acontecimentos' surpreendente e insólita. Para além de uma quebra física e psicológica de Mário Silva e da equipa do FC Porto, Peixoto Alves foi confrontado com aproximação dos ciclistas belgas que lhe iam apertando o caminho. Fernando Mendes foi obrigado a 'escapar-se aos seus companheiros de fuga', cortando a meta em lugar de Peixoto Alves. Falou-se num 'fratricídio' insólito, porém necessário à equipa 'encarnada', impedindo que a camisola amarela 'conhecesse outro corpo que não fosse o de um ciclista do Benfica'.
Na etapa seguinte, que arrancou do Cartaxo até Lisboa, passando por Óbidos, Francisco Valada tomou parte das novas hostilidades que se abriram no pelotão. Desde então, mostrando-se 'cada vez mais firme', o ciclista ribatejano envergou a camisola amarela, 'não mais a largando até (ao) final', no dia 21. Com o apoio da equipa, que nunca faltou, foi o vencedor individual da prova mesmo sem ter sido dos mais destacados corredores. Foi, no entanto, o mais regular e o que em menos tempo 'cobriu os 2342 quilómetros', somando 64h 38m e 36s, menos 72 segundos que o segundo classificado, Peixoto Alves.
A chegada dos dez elementos da equipa benfiquista, sem nenhuma desistência, até à última meta foi um facto único na história da prova até então. O Benfica conquistou a 'Volta-66' em equipas e individualmente pela bicicleta de Valada, que nasceu como pessoa e como vencedor na terra de José Maria Nicolau.
Descubra esta e outras histórias do ciclismo 'encarnado' na área 4 - Momentos Únicos, n Museu Benfica - Cosme Damião."

Pedro S. Amorim, in O Benfica

Euro2020: Rússia 1 - 4 Dinamarca

Euro2020: Finlândia 0 - 2 Bélgica

Euro2020: Macedónia 0 - 3 Holanda

Euro2020: Ucrânia 0 - 1 Áustria

Rony Lopes | O regresso do primeiro filho pródigo?


"O rol de jogadores apontados ao SL Benfica volta a ser de uma extensão assinalável. Ainda que com menos fulgor nos dias mais recentes, um dos nomes badalados foi o de Marcos “Rony” Lopes.
O extremo de 25 anos constituiria um regresso a casa, tendo feito parte da sua formação futebolística nas águias, formação essa que completou no Manchester City FC, clube que lhe permitiu estrear-se como sénior aos 17 anos (e até marcou) e que fez dele a primeira grande venda de jogadores “made in Seixal”.
A carreira de Rony Lopes não seguiria o trajeto mais previsível, mas ainda assim o tecnicista luso-brasileiro já teve a oportunidade de jogar no campeonato francês (por Lille OSC, AS Monaco e OGC Nice) e no campeonato espanhol, pelo Sevilla FC. Como tal, foi granjeando experiências importantes em ligas do “top 5”, podendo isso haver-lhe aportado a experiência necessária para, em conluio com a sua capacidade intrínseca, singrar num clube da dimensão do SL Benfica.
A sua capacidade de desequilíbrio em drible, em velocidade e em um para um são atributos que devem interessar a Jorge Jesus, que pretenderá substituir (de forma mais ou menos direta) Pedrinho. No entanto, a contratação de Rony Lopes fará mais sentido num sistema de 3-4-3, um dos mais utilizados pelos encarnados na ponta final da época transata.
No “antigo” 4-4-2 de JJ, Rony Lopes perderia espaço para jogadores do estilo de Pizzi. Sendo canhoto, Lopes procura muitos movimentos interiores, é verdade, mas em zonas mais avançadas do terreno e mais com o intuito de desequilibrar num lance individual do que auxiliar os médios, como Jorge Jesus pede ao ala direito habitualmente no seu 4-4-2.
Todavia, caso seja necessário jogar mais por dentro, Rony Lopes cumprirá os mínimos, fazendo uso da sua visão de jogo e segurança (com risco) no passe. Também o remate do jogador de 1,74m e 70Kg funciona como uma das suas armas. De resto, na época 20/21, que realizou ao serviço do OGC Nice por empréstimo do Sevilla FC, o extremo apontou cinco golos (dois na Taça de França e três na liga Francesa).
Posto isto, a sua contratação teria tudo para resultar, sobretudo se for para manter a aposta no 3-4-3. Sobeja conhecer os moldes do negócio, mas a realizar-se na modalidade que tem sido noticiada – empréstimo com opção de compra a rondar os oito milhões de euros -, seria uma aposta de grande potencial de rentabilização e muito baixo risco. No fundo, seria uma aquisição em sentido contrário às mais recentes…"

Euro


"Escrevo esta crónica enquanto se aproxima o início da participação portuguesa no Euro 2020. Perguntar-me-ão alguns benfiquistas o que terão a ver com isso, mas à falta de melhor argumento relembro o Rafa, o Vertonghen e o Seferovic ao serviço das suas selecções, além dos vários atletas formados no Benfica presentes na prova. E esse argumento é, a par da paixão por futebol, o que realmente me motiva neste certame.
Já há muitos anos que deixei de sofrer pela selecção (em 2004 já não senti a derrota na final por aí além). Não me move qualquer antipatia, muito menos o desejo de que Portugal não vença. Sou realmente indiferente, tenho testemunhas que ainda se surpreendem por isso. Torço pelo sucesso de jogadores do Benfica e daqueles que serviram condignadamente o clube. E vibro com o bom futebol. Nos primeiros dias apreciei a Itália, fiquei chocado e depois aliviado com a situação do Eriksen, contentei-me com o triunfo da Holanda ao cair do pano por ser mais que merecido e agradeci estar vivo ao ver o segundo golo da República Checa. E lamento profundamente a insipidez da maior parte dos jogos. É o tipo de futebol que está instalado, o da procura constante, em posse, dos equilíbrios, para mal de quem sonha com chicuelinas e reviengas, passes de morte e golos extraordinários. Espero que não passe de uma moda.
A indiferença relativamente ao destino da selecção portuguesa não me desqualifica enquanto português, e era só o que faltaria. Apesar de cada vez mais desvalorizar fronteiras geográficas, políticas e culturais, talvez em reacção ao recrudescimento de nacionalismos bacocos, considero-me patriota e adoro Portugal. Não troco o cozido à portuguesa por qualquer iguaria internacional. Mas, no desporto, a minha nação é o Benfica, o qual me preenche plenamente."

João Tomaz, in O Benfica

O bom Jardel


"O guerreiro vai-se embora, mas dificilmente sairá da história recente do Sport Lisboa e Benfica. Foram 10 épocas e meia de entrega, de profissionalismo, de respeito pelo clube e pelos adeptos. Sempre que foi chamado deu o máximo em campo, sempre que ficou de fora (por opção ou por lesão) nunca deixou de trabalhar e, acima de tudo, mostrou uma postura exemplar.
Jardel Nivaldo Vieira, 35 anos, soube vestir muito bem o manto sagrado. Desde que foi contratado ao Olhanense em 2010/11, conquistou 14 títulos e troféus, sendo uma figura fundamental para a conquista do bi, do tri e do tetra. Aliás, é um dos cinco magníficos a conquistar quatro campeonatos consecutivos, com André Almeida, Fejsa, Salvio e o seu companheiro do lado no relvado, Luisão. Ao todo, Jardel foi cinco vezes campeão nacional, ganhou duas Taças de Portugal, cinco Taças da Liga e duas Supertaças.
Foi autor de golos decisivos e de cortes fulcrais, mas a imagem que vai ficar na memória é a de Jardel com uma touca de natação que protegia os 20 pontos de sutura que necessitou depois de sofrer um golpe profundo na cara. Acham que isso o afectou? Se sim, não se notou nada. Jardel deixou tudo em campo. Nesse dia e em todos os outros, nos jogos, nos treinos, como homem e como profissional.
Não era a estrela mais querida dos adeptos, sócios e simpatizantes? Não, mas isso é perfeitamente normal num clube da dimensão do SL Benfica. Há quem goste mais do fogo-de-artifício, dos cortes de cabelo, das bombas que conduzem, das namoradas vistosas e das declarações polémicas. Eu prefiro os homens sérios, simples, bons, que fazem o seu trabalho.
Obrigado, capitão."

Ricardo Santos, in O Benfica

Não sei se é a ganhar que vamos longe


"Estou completamente perdido. O leitor sabe qual é a conta que devemos fazer na máquina de calcular quando se começa com uma vitória? Eu tive 20 no Exame Nacional de Matemática do 12.º ano, mas infelizmente já não tenho o contacto da colega por quem copiei a prova.
Os primeiros 80 minutos do jogo com a Hungria até correram de feição. Fomos conseguindo manter de feição. Fomos conseguindo manter o nulo, mas de repente entrou o Rafa e marcámos 3 golos. Provavelmente, a contar que a Hungria também marcasse três vezes, como em 2016, mas os húngaros não caíram na armadilha de empatar o jogo e embalar Portugal rumo à conquista do troféu. Percebemos cedo que eles não estavam ali para os fazer favor nenhum pela forma como apuraram o Ronaldo. E o Cristiano, conforme é tradição quando alguém o assobia, lá espetou duas batatas. Mais uma vez, o CR7 a colocar os interesses pessoais à frente dos interesses colectivos, empurrando Portugal para a vitória e deitando por terra a possibilidade de o jogo terminar emparado. Maldito egoísmo. Agora, ele que pegue na calculadora e faça as contas.
Amanhã voltamos a enfrentar a Alemanha, que tantas dores de cabeça nos tem causado nos últimos confrontos. Perdemos os últimos quatro duelos com os alemães e temos de recuar até 2000 para encontrar uma vitória portuguesa, estrondosa, por 3-0. Um hattrick do Sérgio Conceição, o que me ajuda a relembrar que o treinador do FC Porto já fez de mim um homem feliz para além do Clássico em que deixou o Éder Militão no banco. Desta vez estarei precavido. Se algum português marcar três golos vou celebrar em euforia, mas consciente da possibilidade de lá para 2040 ter perdido quase todo o apreço por ele."

Pedro Soares, in O Benfica

Muito para melhorar


"A derrota na final do campeonato de Futsal pôs termo à época desportiva do Benfica no que dez respeito às principais modalidades seniores masculinas.
Se no sector feminino as nossas equipas lograram vários êxitos (nomeadamente no Futebol, no Basquetebol e no Futsal, faltando terminar o Hóquei em Patins), nos homens a temporada deixou muito a desejar.
Apenas um campeonato nacional (Voleibol) e nenhuma taça de Portugal, constitui registo demasiado pobre face às excectativas, e que não está na linha daquilo que tinha sido o ecletismo do Benfica, sobretudo ao longo da década anterior.
De facto, se até sensivelmente 2016/2017 o Benfica parecia imparável, dominando, em crescendo, praticamente todas as modalidades de pavilhão (de resto, à semelhança do que acontecia com o Futebol), desde então fomos perdendo força competitiva face aos rivais.
Pelo contrário, o Sporting emergiu como grande potência na maioria das modalidades, fruto de um investimento fortíssimo, que na altura a todos parecia irresponsável, mas que, na verdade, se vai mantendo vigente, com inúmeros sucessos nacionais e internacionais. O facto é que hoje, excepção feita ao Voleibol, o nosso rival lisboeta tem genericamente melhores plantéis do que nós, sendo que o FC Porto, apostando apenas em três das cinco principais vertentes, consegue, nelas, manter-se bastante competitivo. Resultado em Hóquei, Basquete e Andebol os títulos foram discutidos entre leões e dragões, e em Futsal, sem FC Porto, acabámos goleados em casa pelo Sporting, conjunto de resultados que merece profunda reflexão, e terá de ser rapidamente revertido."

Luís Fialho, in O Benfica

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Neno, sempre!


"Esta semana queria destacar o grande feito da nossa fantástica equipa de polo aquático feminino, que voltou a fazer a dobradinha, conquistando a Taça de Portugal. Também queria destacar a medalha de bronze de Anri Egutidze, nos mundiais de judo. E ainda o 16.º título consecutivo de esperanças da nossa equipa masculina de atletismo. Mas a notícia da morte de Neno, confesso, deixou-me prostado. Sobretudo porque o conhecia bem e tinha por ele uma admiração enorme. Não só pelos seus atributos enquanto grande futebolista, mas também pela sua forma de estar.
Neno amava a vida e era um exemplo para todos nós. Num mundo onde impera, cada vez mais, a intriga, a mentira, o ódio, a violência e o vale tudo, Neno destacava-se pela sua postura. Se já admirava os seus feitos enquanto grande guarda-redes, sobretudo pelas conquistas de três campeonatos e outras tantas taças de Portugal para o Benfica, mais seus admirador fiquei quando tive o privilégio de o conhecer, pessoalmente, já como director do V. Guimarães.
Recordo os nossos encontros, no Estádio da Luz, sempre que a equipa vitoriana nos visitava. Neno irradiava simpatia e, sobretudo, alegria de viver. Sempre com uma piada e um sorriso no rosto, Neno era o verdadeiro embaixador da harmonia e do fair play, destacando-se como o campeão de amizade.
Serviu o V. Guimarães com total dedicação e profissionalismo, mas todos sabiam que o seu clube do coração era o Benfica. Nunca o escondeu e várias vezes me confidenciou: 'O Benfica é o Benfica!'
A todos os seus familiares e amigos e ao V. Guimarães, apresento as minhas sentidas condolências."

Pedro Guerra, in O Benfica

A bola já rola


"Já rola a bola de novo no Community Champions com os jovens dos bairros de Lisboa e driblar e chutar para golo. Não é ainda o que todos queremos, mas é um princípio de retoma que cheira a normalidade, ainda que os condicionalismos e as restrições sejam tantas que nos têm obrigado a trocar por segurança muita da espontaneidade que o futebol oferece.
De qualquer modo, as equipas que têm mantido identidade e contacto online e treinado competências individuais, investindo no apuramento da condição física e da técnica individual dos jogadores, retomam alguma interação em contexto competitivo, amigável, o que lhe permite reiniciar de alguma forma o trabalho colectivo e reacender o sonho de viajar para Roterdão para disputar o torneio final em 2022. Um sonho adiado pelo Covid, mas que colectivamente conquistaremos com o nosso comportamento responsável em comunidade!"

Jorge Miranda, in O Benfica

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"5
Só há 5 tetracampeões na história do Benfica, Jardel é um deles, com André Almeida, Fejsa, Luisão e Salvio;

7
Jardel é também um exemplo para os mais jovens. Na 3.ª e 4.ª temporadas no Benfica um total de 7 vezes pela equipa B, sem qualquer inflexão no elevado compromisso com o clube;

11
Épocas ao serviço do Benfica. Houve apenas 50 futebolistas, em cerca de 1200, que jogaram pela equipa de honra em 11 ou mais temporadas (critério: participação em pelo menos um jogo em cada época, incluindo particulares);

14
Títulos e troféus conquistados por Jardel de águia ao peito. Campeão nacional 5 vezes, venceu 2 Taças de Portugal, 5 Taças da Liga e 2 Supertaças (fez parte de plantéis que venceram mais duas);

19
Golos marcados pelo Benfica (16 em competições oficiais, 12 no Campeonato), dois deles decisivos na caminhada para o tri em 2016 (golos das vitórias na 30.ª e 32.ª jornadas);

21
Jardel demorou a conquistar os benfiquistas. Há duas formas de consegui-lo, assim seja inequívoco o compromisso com o clube e pelo menos aceitável, segundo padrões benfiquistas, o talento para o futebol: personificar um adepto aguerrido em campo e/ou qualidades futebolísticas excepcionais. Jardel tornou-se consensual pela primeira via num jogo com o V. Guimarães, em que fez quase toda a partida com uma protecção na cabeça. Soube-se depois que necessitou de 21 pontos para fechar um golpe profundo. Fez o sacrifício que qualquer adepto juga que faria naquelas circunstâncias;

320
Jogos de Jardel, incluindo particulares, pela equipa de honra do Benfica. É o 44.º mais utilizado de sempre. Em competições oficiais participou em 288 desafios (34.º). No Campeonato representou o clube em 165 ocasiões."

João Tomaz, in O Benfica

Editorial


"Assumo com indisfarçável honra a responsabilidade de dirigir a partir desta edição o Jornal O Benfica, a publicação periódica desportiva em actividade mais antiga de Portugal. A dimensão que assume na vivência do Sport Lisboa e Benfica, a sua importância histórica enquanto espaço de liberdade, de discussão e debate, mesmo nos tempos mais sombrios da ditadura, comprometem-me muito mais do que qualquer laivo de orgulho. Procurarei seguir humildemente os ensinamentos deixados por José Magalhães Godinho, conhecido opositor ao Estado Novo e primeiro director deste jornal - onde também José Saramago escreveu - ou Paulino Júnior, autor da letra do 'Ser Benfiquista', outra das grandes referências entre as muitas que marcaram o trajecto de excelência deste jornal. Não escondo a angústia de, em algum momento, não estar à altura de tão distintos pergaminhos.
O nosso compromisso é o de sempre informar e dignificar o universo do Sport Lisboa e Benfica numa relação de confiança com todos os seus adeptos através de uma comunicação cada vez mais próxima e que envolva ainda mais quem ama o Benfica. As novas realidades de comunicação impõem-nos desafios que implicam explorar novos conteúdos e diferentes linguagens na comunicação. A chegada da nova época vai corporizar uma outra dimensão de análise e de opinião, com novos e diversificados cronistas, a par de exclusivos que, em paralelo com uma ambição digital, procurarão das reposta ao anseio de públicos mais jovens e todos os outros que nos acompanham desde sempre. Mas com uma premissa sagrada: em nenhum momento ousaremos beliscar a essência do Jornal O Benfica.
Uma última palavra de especial apreço e enorme gratidão para o José Nuno Martins. Ao longo dos últimos treze anos liderou o Jornal O Benfica com imensa sabedoria e um benfiquistmo inigualável. A sua prosa será sempre uma referência para nós. Obrigado."

Pedro Pinto, in O Benfica

Steven Nzonzi | O trinco para fechar o miolo encarnado?


"Mais uma semana e mais um nome apontado ao meio-campo do SL Benfica. Desta vez, a imprensa portuguesa e francesa avançam que é Steven Nzonzi quem poderá ser reforço de Jorge Jesus para a próxima temporada.
Nomes como Al Musrati, Basic, Gérson, Ugarte e agora Nzonzi já foram ou são ainda possibilidades em cima da mesa para reforçar o setor mais débil dos encarnados, as posições ‘6’ e ‘8’.
O médio da AS Roma esteve emprestado ao Stade Rennais FC desde janeiro de 2020 e disputou 46 jogos pelo emblema francês. Prestes a regressar à capital italiana e ainda com um ano de contrato por cumprir, José Mourinho já fez saber que não conta com o médio para os seus planos.
Nzonzi tem 32 anos, 1,96m e um valor de mercado a rondar os oito milhões de euros, segundo o transfermarkt.pt. A sua posição mais capaz é a de médio-defensivo, mas atua também mais à frente na posição de ‘8’.
Com uma estatura física invejável, uma experiência como poucos – passou por clubes como Sevilla FC, AS Roma e Galatasaray SK – e uma capacidade de “choque” em falta no plantel da Luz, é inegável que o francês seria uma mais valia no plantel encarnado. A questão dos adeptos do SL Benfica prende-se nos valores que o seu clube está disposto a dar por um jogador que festeja o 33º aniversário em dezembro e que aufere um salário na ordem dos três milhões de euros líquidos por ano.
Com Julian Weigl no plantel, Nzonzi não teria muito espaço de manobra no onze de Jorge Jesus, mas caso o alemão se transfira para outro clube, o francês assumiria de imediato a posição deixada em aberto. Reforçar ainda que Florentino regressa do seu empréstimo ao AS Monaco e vai entrar nos planos do técnico português, pelo menos na pré-temporada.
Mas quais são as principais diferenças entre Nzonzi e Weigl? Para começar, o alemão é um jogador relativamente novo, mais “apetecível” no mercado e com evolução desportiva e financeira. Além disso, o ex-Borussia Dortmund traz mais presença e ajuda ao setor defensivo, algo que Nzonzi não apresenta.
Ainda, Weigl tem um timing de antecipação e desarme muito mais apurado do que o francês. Em sentido contrário, o jogador da AS Roma é dono e senhor do jogo aéreo e faz valer o seu 1,96m para “limpar” tudo o que for lances pelo ar na zona do meio-campo ou em bolas paradas. Acrescentar que Nzonzi é mais ofensivo do que Weigl e por isso maior parte dos seus passes são destinados para o meio-campo ofensivo.
Nos últimos dias tinha sido noticiado o possível interesse do Stade Rennais FC em assegurar o médio francês a título definitivo, mas a qualificação para a Conference League e o elevado encargo salarial “deitaram por terra” esse interesse.
O SL Benfica tem agora uma boa oportunidade para avançar para a sua contratação até pelo bom relacionamento que os dirigentes encarnados têm com José Mourinho e com Tiago Pinto, atual diretor desportivo do emblema giallorossi."

Bastidores!!!


"Nem no Euro nos livramos do jogo de bastidores lagarto: a Suíça jogou hoje e Seferovic marcou 1 golo: Portugal só vai jogar quarta feira e o Pote já sabe quantos golos tem de marcar para ultrapassar o Benfiquista na corrida a melhor marcador da competição.
(Entretanto, o Palhinha ainda não viu nenhum amarelo no Euro2020)"

Euro2020: Suíça 3 - 1 Turquia

Euro2020: Itália 1 - 0 País de Gales

A metamorfose


"A poesia pretende, à força de palavras conhecidas, dar ao leitor esse ser humano desconhecido que as ciências tidas por exatas não conseguem vislumbrar. Por isso, porque considero genial este poema de Herberto Helder, começo precisamente com um poema: “Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro. A partir – digamos – de dentro. Era um nó negro, por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora. Alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos factos e punham-se por uma ordem, a saber: 1º - peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor; 2º - peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar acerca das razões porque o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá de dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo” (Do Mundo, Livraria Aleph, De Google).
A crise que atravessa a racionalidade galilaico-cartesiana e os novos paradigmas emergentes são prova evidente de que o real está em permanente metamorfose. Demais, com a hermenêutica, “o ser que pode ser compreendido é linguagem” (H.G. Gadamer, Verdad y Metodo, Ediciones Sígueme, Salamanca, 1988). De facto, se “a linguagem é a casa do ser”, como Heidegger o repetia, é a linguagem a dizer-nos o que pensava o saber aristotélico-tomista da Idade Média e o que a modernidade, com Galileu, Descartes, Newton e Kant, julgava eterno e o que a pós-modernidade entende como Verdade. Ora, a pós-modernidade desvela-se, revela-se, como “idade hermenêutica da razão” e portanto onde se “labora na pressuposição de que, rigorosamente, não há conhecimento (perfeitamente) objetivo. Apenas há interpretação de linguagens e compreensão do mundo” (Jorge Coutinho, Filosofia do Conhecimento, Universidade Católica Editora, 2003, pp. 169-170). Uma mulher, até à década de 50 do século XX, quase nada podia esperar da vida, depois de ter cumprido o seu destino “inalienável”(?) de parir e educar os filhos e ser um modelo obediente aos apetites do seu marido (nada mais!) que, entretanto, cevava os dentes todos na maçã pecadora. A própria religião cristã, com uma hierarquia masculina e uma fé institucionalizada em sociedades patriarcais, chegava às mulheres idealizada na Virgem Maria que, por ser Virgem, impossibilitava um modelo feminino de acesso generalizado às restantes mulheres. Acompanho pela televisão o mundial de voleibol das equipas brasileiras (feminina e masculina) e delicio-me com as suas exibições, designadamente as da equipa feminina. As qualidades físicas e intelectuais daquelas moças é sinal certo e seguro de uma igualdade radical de género, que já se pratica no Brasil e afinal em toda a América Latina. E, no Brasil que eu conheço, o facto de a própria teologia não deixar de pôr a nu o que de reacionário e fascizante se infiltrou na mensagem dalgumas igrejas. A Literatura Ocidental cunhou, muito justamente, o provérbio: “Vérité au deçà, mensonge ai dela des Pyrénnées”. Quando comecei a trabalhar na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-Brasil), pude dialogar, inúmeras vezes, com o Rubem Alves, uma das figuras maiores da “teologia da libertação” e um escritor e pedagogo brasileiro de indiscutível mérito. Relembro o que, um dia, me disse; “Junto à cruz de Jesus Cristo, nos momentos derradeiros da sua crucifixão e morte, só mulheres se encontravam junto d’Ele. Terá sido por acaso?”.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira, professora catedrática aposentada da Faculdade de Letras de Lisboa, apresenta, por contraste, a morte de Sócrates, onde as mulheres foram compulsivamente expulsas de assistir à agonia do mestre (cfr. Maria Luísa Ribeiro Ferreira. “A subversão de uma mundividência”, in Manuela Silva e Fernanda Henriques, Teologia e Género, ariadne editora, Coimbra, 2006, pp. 193 ss.). Enfim, Jesus Cristo, a grande “Boa Nova”, na história da humanidade! Mas, na sociedade e portanto no desporto, que todos porfiamos em construir, o economicismo da alta competição deve ser diagnosticado e o hegemonismo e o dirigismo e as tentações elitistas devem ser desmascarados. Vivemos um momento propício de relembrar o pensamento de Maurice Druon, no livro, de que é autor, La parole et le pouvoir: “A grandeza reconhecida da Democracia está em deixar em liberdade os seus eventuais assassinos. A estupidez começa quando ela, ainda por cima, lhes paga o punhal” (p. 369). O futuro do desporto nacional menos se decreta do que se merece e se constrói solidariamente. Prepara-se, com muita pedagogia e persuasão na Família, na Escola, na Comunicação Social, nos Clubes, no Comité Olímpico, na Universidade, nas Associações e Federações. As grandes prioridades são conhecidas. Mas uma guerrilha verbal alienante, onde as palavras são verdadeiras armas de arremesso e ao serviço do radicalismo saloio de certas pessoas, pode escondê-las ou mudar-lhes a cor, como acontece com o peixe do poema de Herberto Helder. Efetivamente, a opinião pública portuguesa, tendo sido contemplada com uma “explosão de informação”, depois da Revolução dos Cravos, no que ao desporto diz respeito são poucos os que o pensam e dele sabem fazer um problema nacional que se põe hoje ao nosso país”. O Desporto é um caso de Cultura e de Educação e de Saúde (e mais itens poderia acrescentar). Mas por problemas técnico e táticos? Acima do mais, porque não é possível falar-se em Desporto, sem recorrer a uma axiologia dos valores. Não há ciência humana que não comporte uma relação iniludível com a ética e a moral. Mesmo ao nível do conhecimento…"