Últimas indefectivações

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Carrega, PPPP!


"PPPP são as iniciais da nova estrela do desporto português - Pedro Pablo Pichardo Peralta. Após quatro anos a trabalhar no duro, no Benfica, pôs uma nação inteira a seus pés, depois da brilhante prestação, na final do triplo salto, em Tóquio. Totalmente focado na medalha de ouro, Pichardo não deu qualquer hipótese aos adversários. O nosso atleta partiu para a capital japonesa convicto de que iria vencer a prova. Um sentimento de há muitos anos. Recordo várias conversas com ele e nas quais me garantiu que estava a preparar-se para o ouro nos Jogos de 2020. O que mais me impressionou neste percurso com a camisola do Benfica é que o Pedro nunca desistiu. Garantiu-me sempre que ele e o seu pai e treinador, Jorge Fundora, iriam levar bem alto o nome do clube que apostou neles e que o presidente Luís Filipe Vieira nunca se iria arrepender do investimento feito. Decisivos neste percurso foram Ana Oliveira coordenadora do Benfica Olímpico, e Fernando Tavares, vice-presidente do Glorioso, que liderou o processo da sua naturalização. Uma palavra muito especial à Câmara Municipal de Setúbal por ter dado tudo em prol dos Pichardos. Não é habitual uma autarquia disponibilizar o seu melhor equipamento desportivo para um atleta poder treinar quando quer. Pedro e Jorge têm as chaves do Complexo Municipal de Atletismo de Setúbal, que, como sublinhou a presidente da Câmara Municipal, é 'a sua casa e o seu porto seguro'. A justa homenagem que a autarquia setubalense fez, nesta terça-feira, aos Pichardos foi um momento sublime, sobretudo quando a presidente Maria das Dores Meira sintetizou tudo numa frase: 'Não basta talento, e o Pedro tem muito, é preciso também trabalhar muito, não desistir perante as adversidades e procurar sempre mais'."

Pedro Guerra, in O Benfica

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"3
Levamos 3 vitórias nos 3 primeiros jogos oficiais na temporada. É apenas a 3.ª vez que tal acontece desde 1991;

10
O PSV é o próximo adversário na Liga dos Campeões, um clube que já defrontámos 10 vezes, 7 delas em competições oficiais. Todos nos recordamos da final fatídica de Estugarda, em 1988, em que não ganhámos a Taça dos Clubes Campeões Europeus no desempate por pontapés da marca de grandes penalidades, sendo, por isso, preferível recuarmos somente a 2010/11, temporada em que encontrámos, pela última vez, o clube do sul dos Países Baixos em competições europeias. Foi nos quartos-de-final da Liga Europa, vencemos, por 4-1, na Luz, e empatámos 2-2 em Eindhoven;

17,98
Triplo Salto de Pichardo para o ouro. O nosso atleta dominou a prova, e bastaria a primeira tentativa na final (17,61) para se sagrar campeão olímpico. Brilhante!

25
Números de confrontos com clubes dos Países Baixos nas competições europeias. Vencemos 10 (40%), empatámos 8 (32%) e perdemos 7 (28%), incluindo a derrota 'nos penáltis' com o PSV. Neste século ganhámos 5 das 9 partidas realizadas, empatámos 3 e perdemos apenas 1;

50
Everton atingiu, em Moreira de Cónegos, a meia centena de jogos em competições oficiais pelo Benfica;

54
Pizzi usou a braçadeira em 54 jogos do Benfica, incluindo particulares, o que o coloca na liderança deste item estatístico entre os atletas que compõem o actual plantel;

100
Jogos, incluindo particulares, de Grimaldo pelo Benfica no Estádio da Luz, tantos quanto Aimar e Quim. O trio ocupa a 10.ª posição dos jogadores com mais jogos no actual Estádio do Sport Lisboa e Benfica.

185
Jogos de Rafa pelo Benfica em competições oficiais, uma marca que o coloca no top 70."

João Tomaz, in O Benfica

Um dia especial


"Depois de um ano de trabalho intenso nas difíceis condições que todos atravessamos, os jovens do projecto Para ti Se não faltares! que alcançaram o melhor desempenho tiveram o merecido reconhecimento. Na verdade, voltar ao Campo Jovem para um dia de actividades inesquecíveis e exclusivas pode não substituir por inteiro a tradicional semana em colónia de férias, mas tem um valor inestimável nos tempos que correm. É que às experiências outdoor juntou-se o reencontro de colegas doutras equipas e escolas, e materializaram-se as vozes e os rostos dos amigos distantes que por uma vez saíram dos ecrãs e povoaram o espaço de humanidade e alegria. Tudo com responsabilidades e regras, é claro, mas comportar-se com responsabilidades e saber respeitar regras é precisamente a aprendizagem maior do projecto que estes jovens abraçaram com a Fundação Benfica. E porque o fizeram e fazem bem, foram contemplados com este prémio de eleição e demonstrados como modelos aos seus colegas.
É, pois, uma alegria vê-los desfrutar das suas conquistas e, sobretudo, que o façam pela mão do nosso querido e imenso Benfica!"

Jorge Miranda, in O Benfica

Editorial


"1 - Ambiente fantástico na Luz. Que saudades de ver futebol assim! Os nossos adeptos fazem toda a diferença em cada jogada, em cada corte, em cada aproximação à baliza. O Benfica venceu com qualidade e consistência o Spartak de Moscovo. Foi uma exibição segura de uma equipa que está a crescer em confiança e vai ganhando vertigem o voragem pelo golo. Vem aí o PSV, mas estamos prontos. Sábado contra o FC Arouca é mais um teste que, com a força de quem vibra e apoia durante toda a partida, tudo vamos fazer para ultrapassar. Preparar a época com os reforços e os ajustes certos na equipa era um dos desígnios desta Direcção. Passo a passo, trilhamos o caminho que os benfiquistas merecem e mais desejam: o das vitórias a cada desafio que se afigura.

2 - Já tinha acontecido país fora no fim de semana, precisamente na primeira jornada da Liga, e voltou a acontecer em jogo europeu. Uma estranha ausência de público nas zonas reservadas a quem é obrigado a registar-se a ter um Cartão de Adepto. São sócios, têm Red Pass ou oura garantia de acesso privilegiado, mas as entidades públicas pugnam por mais e exigem uma discriminação. O resultado está à vista: bancadas vazias quando os clubes mais precisam das receitas de bilheteira e o número de espectadores encontra-se limitado devido às restrições da pandemia. Não faz sentido. È preciso olhar para este e outros exemplos internacionais que redundaram em fracasso e arrepiar caminho. O Cartão de Adepto não serve a ninguém, à parte de uma suposta bem-intencionada burocracia, ainda mais despropositada neste regresso do público ao futebol.

3 - Pedro Pablo Pichardo e Fernando Pimenta tiveram uma grata e merecida homenagem no relvado do Estádio da Luz. Foram gigantes em Tóquio. Brilhantes embaixadores do Sport Lisboa e Benfica no pináculo dos valores olímpicos. No trabalho que neste semana trazemos no jornal O Benfica destacamos o mérito dos clubes nos resultados que engrandecem e projetam Portugal e que orgulham os portugueses. São os clubes que formam, treinam e potenciam os atletas. São os clubes que criam condições para que possam expressar o seu talento ao mais alto nível, num acompanhamento técnico, médico e de enquadramento financeiro que lhes garante foco total para a explanação da sua qualidade e capacidade de superação. O projecto olímpico do Sport Lisboa e Benfica é, neste contexto, uma aposta de excelência do Clube que a todos os benfiquistas envaidece e que merece aplauso geral."

Pedro Pinto, in O Benfica

Liga Portugal em êxtase


"Foi há cerca de 48 horas divulgada a nomeação da equipa de arbitragem para o jogo Famalicão-FC Porto, a realizar-se este domingo: Nuno Almeida como árbitro e André Narciso como VAR. Esta dupla, na época passada, protagonizou uma das arbitragens mais escandalosas dos últimos largos anos no futebol Português.
Depois do sucedido, voltar a nomear a mesma dupla para um jogo do FC Porto é um atentado à verdade desportiva.
Mas como “vergonha” é palavra que não consta no dicionário do Conselho de Arbitragem, decidiram ir mais longe e coordenar tudo à descarada. Luís Godinho foi o árbitro eleito para dirigir o Braga-Sporting e, como se isto não bastasse, decidiram ainda eleger Hugo Miguel para VAR.
Recordamos que Luís Godinho foi o árbitro responsável por na época passada decidir sempre a favor do Sporting CP. Um árbitro completamente condicionado pelo Departamento de Comunicação do Sporting CP que viu a sua integridade ser atacada e posta em cheque ao longo de todo o campeonato, apesar de todo o favorecimento que retribuiu ao clube verde e branco.
Não obstante esta nomeação escandalosa, escolherem Hugo Miguel (Macron) para videoárbitro é o mesmo que dizerem em alto e bom som que o Apito Dourado está mais vivo que nunca e que eles - CA da PPF - podem decidir e maniatar o que bem entenderem porque são inatingíveis.
Fontelas Gomes - coadjuvado por Bertino Miranda e Paulo Costa - continua a presidir o CA da FPF como se fosse o seu quintal, com manifesto benefício para os mesmos de sempre.
Compete ao Sport Lisboa e Benfica e a nós lutar contra tudo isto e expor o lamaçal que é o futebol português. Felizmente não somos os únicos atentos. Vítor Pinto, subdiretor do jornal Record, disse em viva voz o que todos sabemos. Vejam o vídeo."

Antevisão...

DesLiga!!!


"Para o campeonato, o SL Benfica estreou-se no ano civil de 2021 nos Açores, defrontando o Santa Clara sem 6 jogadores (Jardel, Gonçalo Ramos, Seferovic, João Ferreira, Gabriel e Cervi), todos acometidos de infecção por coronavirus. Na altura, ninguém pensou em adiar o jogo, conquanto o Vitória - Nacional da mesmíssima jornada tivesse passado para o final do mês por 6 atletas vimaranenses terem testado positivo.
A ideia de adiar partidas, só apareceu 3 jornadas mais tarde na recepção ao Nacional, a meio do Grande Surto de Janeiro. Apesar dos precedentes, inclusive dos auto intitulados impolutos de Alvalade, o pedido foi negado e o SLB teve de entrar em campo com o que tinha, onde não se incluía o Diogo Gonçalves que os madeirenses exigiam por empréstimo em troca da alteração da data do jogo.
Meros 7 meses depois, o Fantasma do Covid volta a ensombrar o campeonato e o Santa Clara coloca nos ombros do Moreirense a árdua tarefa de decidir se há jogo ou não. O que mais impressiona nisto é que quase um ano e meio depois do inicio da pandemia, a Liga de Clubes ainda não definiu regras claras e inquestionáveis para a resolução desta questão, atirando para os clubes o ônus da responsabilidade, abrindo portas aos favores e compadrios que tanto minam a transparência do futebol português.
Urge decidir de uma vez se surtos são razão para adiamentos de jogos. Se são, a partir de quantos jogadores? Ou se por outro lado, infecções são lesões, os clubes só têm mais é que se adaptar aos novos tempos e andar com as competições para a frente, como de resto faz a UEFA. Já não é só uma questão de igualdade de tratamento, é mesmo de credibilidade da competição, que precisa de tudo, menos de mais uma zona opaca."

Descaramento!!!


"A prova que faltava que Fontelas faz o que quer ao serviço do Calor da Noite, coadjuvado por Bertinos e Paulo Costas.

Foi hoje divulgada a nomeação da equipa de arbitragem para o Famalicão-Calor da Noite: Nuno Almeida como árbitro e André Narciso como VAR.

Ora bem, esta dupla protagonizou nem há um ano a arbitragem mais escandalosa dos últimos largos anos do futebol Português, que envergonhou tudo e todos, adeptos, comentadores, paineleiros. Tudo.

O escândalo foi tal que os próprios responsáveis do Calor da Noite tiveram de admitir, escudando-se num "mas não ganhámos" para legitimar arbitragem tão vergonhosa a seu favor.

Nomear a mesma dupla para um jogo do Calor da Noite é a maior afronta à verdade desportiva que Fontelas faz desde que há 4 anos é Presidente do CA. E não é fácil escolher no meio de tantas outras!

Isto é motivo mais que suficiente para obrigar à demissão imediata de uma vez por todas de Fontelas, Bertino e Paulo Costa. É o mínimo que um Presidente do Benfica deveria fazer. O mínimo! Mas o caminho é continuar a não denunciar esta pouca vergonha toda, não é Rui Costa?"

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Talento e ambição no Andebol


"O talento vence jogos, mas só o trabalho em equipa vence campeonatos. Foi com este desígnio, presente no corredor junto ao seu balneário, que o andebol do Sport Lisboa e Benfica arrancou a época 2021/22.
Desde o passado dia 21 de julho que o grupo de trabalho cumpre um planeamento exigente, no sentido de chegar bem ao primeiro compromisso oficial para a EHF European League frente aos suíços do Kriens-Luzern.
No arranque da pré-temporada, o capitão Paulo Moreno sublinhou que esta fase de preparação “é sempre muito importante”, lembrando que preparam “o corpo para aguentar durante toda a época”.
Para atacar com ambição o que vem aí ao longo de 2021/22, o andebol do Sport Lisboa e Benfica identificou as necessidades da equipa técnica para aplicar de forma mais consolidada o seu sistema de jogo.
Os categorizados pivots internacionais Alexis Borges e Rogério Moraes chegaram para dar mais consistência na defesa e no ataque, enquanto o experiente ponta-esquerda Jonas Kälmann “pode fazer todas as posições na defesa, no centro, na lateral e na ponta”, tal como já explicou o treinador Chema Rodríguez, que vê no lateral-direito Demis Grigoras um atleta com “um talento extraordinário”, o mesmo sucedendo com o lateral-direito Tadej Kljun, que acredita que será “uma das figuras do andebol no futuro”.
Depois de uma época de trabalho no Clube, em que já se viu significativas melhorias em termos competitivos, Chema Rodríguez já considerou que os encarnados estão “mais completos e com variantes diferentes”.
“Queremos que esta seja uma equipa lutadora e que o adepto que venha ver os jogos se identifique com estes jogadores, que estão a dar tudo pelo Clube: vencer as partidas e dar espetáculo. Que os benfiquistas se sintam orgulhosos”, vincou o treinador.
Com uma carga física intensa, o plantel vai prosseguir a sua preparação durante a próxima semana, na qual irá participar no prestigiante Torneio Internacional Cidade de Viseu, a partir do dia 20 de agosto, frente aos espanhóis do Ademar León e ao Sporting.
Estes dois jogos servirão para retirar ilações destas semanas de treino e, assim, afinar todos os detalhes para entrar de forma positiva na nova temporada.
Refira-se que, além de ir discutir o apuramento para a EHF, o conjunto benfiquista tem como objetivo mais imediato a participação na edição 2021 da Supertaça, cujo modelo de competição contará com a presença de quatro equipas e que irá decorrer entre os dias 11 e 12 de setembro, na Nazaré."

Lanças...

Contas...

Benfica After 90 - Spartak...

Valter Neves...

Analisar os resultados dos J.O.


"Após a euforia inicial, a euforia do melhor resultado de sempre de Portugal em J. O., após a exaltação dos objectivos nos Jogos Olímpicos de Tóquio terem sido “plenamente atingidos, senão ultrapassados” *, após se terem lançado os foguetes é necessário apanhar as canas.
"Tínhamos previsto um resultado não inferior a duas posições de pódio, alcançámos quatro. Um resultado não inferior a 12 diplomas, alcançámos 15, nos quais se incluem os quatro pódios” foi o mote. Para reforço acrescentou-se que foram alcançados “três recordes nacionais, cinco recordes pessoais, 17 melhores marcas em Jogos Olímpicos e 26 melhores classificações também em Jogos Olímpicos” conseguidos por atletas portugueses. Alguém que falou em nome de todos os portugueses afirmou que “foram superadas todas as metas contratualizadas e as expectativas dos portugueses.” Afirmações que dão razão a Millôr Fernandes: “o homem é um produto do meio. O meio é um produto do homem. O produto é um homem do meio.”
Olhando para os números a frio, a tirania desses mesmos números na realidade aponta para o melhor resultado de sempre, mas essa mesma tirania cria falácias. Pretendermos só analisar os resultados será redutor, pelo que teremos de recorrer também ao destaque da filáucia de alguns competidores e à ausência de hombridade de outros, onde poderemos também incluir treinadores e dirigentes.
Nuns J. O. onde desfilaram cerca de 11 mil competidores em representação de mais de 200 países, nuns J. O. em que o COP recebeu do Estado 18,5 milhões de euros de 1 de Janeiro de 2018 a 31 de Dezembro de 2021 para a preparação olímpica de desportistas que estiveram presentes em Tóquio – mas também de alguns que não estiveram lá, pois chegaram a ser 141 –, poderíamos analisar os resultados da comitiva portuguesa analisando a classificação dos competidores em relação ao número de presentes em cada uma das provas (rácio classificação/participantes), poderíamos analisar esses resultados comparando-os com as medalhas ganhas por outros países com uma população semelhante a Portugal, ou até em relação a países com PIB parecido com o nosso (Portugal rondará o 49º posto em termos de PIB e é o 38º no Índice de Desenvolvimento da ONU) ou ainda em relação a países com o mesmo número (ou aproximado) de participantes nestes Jogos… alguém mais habilitado o fará! Seguiremos uma outra linha, até porque, como dizem os japoneses, “quando um sábio aponta para o céu, o ignorante olha para o dedo.”
As 4 medalhas conquistadas posicionaram-nos num 56º lugar numa tabela em que apenas 86 países foram medalhados. Logo, abaixo da metade e no limite final dos dois terços. Ahhhh, mas participaram cerca de 200 países! Sim, aí ficamos no início do segundo quarto…
Olhando só para o medalheiro de todos os J. O., Portugal esteve presente em 23 Jogos antes de Tóquio 2020. Em 11 destes Jogos teve um lugar inferior ao 56º lugar obtido nos presentes Jogos. Nos restantes 12 a posição no medalheiro foi superior… E se o esquecimento é próprio da sociedade, ou dos indivíduos, não é por esse motivo que a história é reescrita…
No medalheiro actual, Portugal está a um nível da Etiópia… abaixo da Eslovénia, Grécia, Irlanda, Ucrânia, Bielorússia, Roménia, Eslováquia e Áustria. Longe da Bulgária, da Bélgica, ou da Croácia, e muito longe de países como a Dinamarca, a Suécia, a Suíça, a Espanha, a Noruega, a República Checa ou a Polónia (esqueçamos a Itália, a Alemanha e a Grã-Bretanha). Países europeu depois de Portugal só a Estónia, a Letónia, a Lituânia e a Finlândia. E nem valerá a pena falar dos Países Baixos (36 medalhas, 10 de ouro) ou da Hungria (20 medalhas, 6 de ouro), ou até daqueles que se situam nos antípodas: a Nova Zelândia, um país com metade da nossa população, conquistou 5 vezes mais medalhas (20 medalhas, 7 de ouro).
Esta foi a terceira maior Missão Olímpica de sempre. Noventa e dois desportistas! Não sabemos quantos treinadores, quantos médicos/fisioterapeutas, quantos árbitros/juízes, quantos dirigentes – sim, porque para o cômputo geral todas as presenças implicaram despesas…
O desempenho da Missão Olímpica, que se iniciou com desaires atrás de desaires, logo começou a ser branqueado na comunicação social e nas redes sociais. “O 5º lugar foi o melhor 3º lugar de sempre nos J. O.” ou “ o 11.º lugar a 75 centésimos da final, o terceiro melhor resultado olímpico” foram narrativas que nos começaram a inundar. E eram premonitórias…
“É difícil falar neste momento porque não me preparei para um discurso de derrota. A única coisa que me cabe dizer é: desculpa. Desculpa, Portugal!” Há, para além da imprevisibilidade do resultado, variáveis que um(a) competidor(a) e um(a) treinador(a) não conseguem dominar, não podem controlar. Os resultados também dependem dessas variáveis. Por isso o acaso, por muito que muitos não o queiram admitir, está presente no desporto. Uma desportista que fica à beira de um lugar de pódio, uma competidora que se preparou a longo prazo para estar no seu pico de forma nos J. O. mas porque devido exactamente a essas variáveis não consegue alcançar o pódio, não tem que pedir desculpa a Portugal. Nem aos portugueses. Mas devido à imprevisibilidade do resultado deveria ter preparado um discurso de derrota. Faz parte do planeamento, principalmente quando sabemos que a este nível os participantes são sempre solicitados no final das suas provas para prestarem declarações à comunicação social. E o planeamento não é da sua responsabilidade. Mas a sinceridade acima de tudo!
E se “não podemos ser esquisitos quanto à cor das medalhas”, quando se possuem responsabilidades no campo do treino de um competidor nos J. O., teremos mesmo de ser esquisitos quanto à cor das medalhas, pois só uma nos interessa: a de ouro. A alta competição não se compadece com amadorismos. Temos de deixar de ser pequeninos, tal como teremos de deixar de ser pequeninos quando um competidor afirma que “é melhor um 10º lugar do que um 11º ou qualquer outro.” É um competidor que está completamente errado no seu modo de ver as coisas, o que influencia a sua prestação psicológica no desenrolar da prova.
Mas de realçar o atleta que reconhece o seu desaire ao afirmar “falhei no dia errado”. Falhar faz parte do desporto… haver dias errados também. E que o erro sirva para ser corrigido para que num próximo dia errado a falha não aconteça.
E também houve quem dissesse que “queria fazê-lo bem e não pude”. Alguém operado a um joelho a três meses de uns J. O. nunca se poderá apresentar nestes na sua melhor forma. Que medidas ditaram a sua presença nos mesmos? Um atleta que, vítima das suas próprias palavras, “aprendeu com a vida”. É de lamentar que quem nos deu tantos resultados, quem nos deu tantas alegrias, saia do circuito olímpico pela porta pequena. Como dizem os japoneses, “quando um olho está fixo no destino, só resta um olho para encontrar o caminho." E felizmente que existem atletas que são capazes de reconhecer que “estou muito bem mas nem sempre o nosso muito bem sai e se realiza no grande momento. (…) A cabeça manda muito, o corpo manda ainda mais (…).” A desmistificação de que a mente comanda o corpo… ou de que os limites são para se ultrapassarem…
E felizmente também a existência de atletas que dão conta de que “e foi aí que eu cometi a falha – e por isso sim, o erro foi da cavaleira porque o cavalo estava perfeito.” Aqui sim, aprende-se com o erro, mais um que serve para ser corrigido como a própria reconheceu. Recuperar de adversidades é uma coisa, quando elas foram originadas por variáveis que estão - e sempre estiveram - fora do nosso controle. Cair voluntariamente nessas adversidades é outra totalmente diferente!
Se uma competidora não tem noção das possibilidades do seu rendimento isso só se poderá dever a uma de três coisas: mau planeamento do treino com a consequente preparação insuficiente (estratégica, física e psicológica), falta de competências ou irresponsabilidade. Não queremos acreditar que tenha sido alguma destas duas últimas quando uma competidora afirmou: “tinha boas adversárias na minha eliminatória, mas não sei se dei o máximo.”
A deficiente preparação e planeamentos deficitários de alguns competidores ficaram latentes quando foi afirmado o seguinte: “passei uma época muito longa, intensa e desgastante (…). Aqui, estou a pagar a fatura de tudo isso, pois não estou no máximo das minhas capacidades físicas e mentais.” Não são só os que são visíveis que possuem responsabilidades nos resultados dos Jogos. Treinadores e dirigentes, apesar de na sombra, possuem tanta ou mais responsabilidade que os mesmos. É inglório sacrificar-se carne para canhão quando os decisores são os principais responsáveis. “Relativamente às provas, não tivemos provas. Não treinámos para isto, estamos cá a lutar.” Ficou demonstrado que lutar não chega. Como dizem os japoneses, “visão sem ação é um devaneio. Ação sem visão é um pesadelo”. O desporto ignora a igualdade de condições desses mesmos competidores – condições individuais diferentes (quer sejam de ordem genética, anatómica, fisiológica ou psíquica), condições de treino diferentes (no que diz respeito a metodologias, a instalações, a treinadores e a todo o restante apoio, incluindo o económico) e até diferentes condições de participação no momento (tempo) comum a todos os competidores (onde os antecedentes e todos os níveis de preparação emergem tal como as variáveis de circunstância momentâneas).
A paixão pela pista surge “muito por causa da adrenalina e pelo espectáculo” proporcionado. Exactamente! Desporto é espectáculo em que se exploram os corpos e que serve para entretenimento e para criar consumidores. Quem lucra com isso? Motivo para reflexão! (E sobre o “quem lucra com isso”, só mais uma questão, embora fora do contexto: a quem interessou o Karate no programa destes J. O?).
E para meditarmos sobre resultados, terminamos com uma interrogação: tem mais significado um 20º lugar quando estão presentes 88 atletas e só 73 chegam ao fim ou um 3º lugar entre apenas 12 concorrentes?

Parte superior do formulário
* Propositadamente não identificamos os autores das declarações que transcrevemos e citamos. Leitor atento facilmente reconhecerá os que as proferiram."

Um passeio no parque de João Mário


"O médio do Benfica rubricou na passada noite uma exibição de mão cheia. Com João Mário, tudo se torna fluido, eficiente e eficaz. A presença do médio traz ainda Weigl para um nível superior – Passa a ter não apenas com quem jogar, mas a redução do número de perdas deixa de expor de forma drástica o alemão.
Recebe, deixa a bola rolar, deixa chegar a pressão, gira, roda, temporiza pela melhor linha de passe, invade espaços interiores, liga o jogo pelo exterior. Tudo com uma simplicidade incrível de quem melhora o jogo e os seus colegas.
Um autêntico passeio no parque. Eis João Mário a pegar na batuta."

Dentadinha em ano de dobradinha


"Na 19.ª jornada, Cavém entrou em campo a pensar que ia jogar futebol, mas no fim parecia saído de um combate de boxe

A época de 1956/57 terminou bem para o Benfica, na medida em que conseguiu a terceira dobradinha da sua história. Em Março de 1957 ergueram o troféu do Campeonato Nacional e em Junho fizeram a festa no Estádio Nacional. Mas ali a meio da época aconteceu algo inédito, uma falta nunca antes vista, que deixou todos boquiabertos. Literalmente.
Estávamos em 20 de Janeiro de 1957 e a equipa acabara de chegar às Caldas da Rainha para disputar a 19.ª jornada do Campeonato. A cidade fundada pela rainha D. Leonor amanheceu fria, mas sob um esplendoroso sol de inverno que se manteve todo o dia. As rústicas bancadas do Campo da Mata estavam a transbordar de vermelho e branco, não havia dúvidas: ali, ia jogar o Benfica.
Do onze rubro fazia parte Cavém, a personagem principal desta história. O jogador tinha integrado a equipa principal do Clube na época anterior e foi sempre considerado um atleta corretíssimo para com os colegas da equipa e adversários, mas neste jogo, frente ao Caldas, a história seria outra, que um homem não é de ferro. Antes fosse!
Soou o apito inicial, e a sorte começou a sorrir ao Benfica. Aos 4 minutos, Cavém marcou de cabeça o primeiro tento da partida. O avançado foi 'o motor do ataque', quem mais contribuiu para o sucesso do Benfica, que acabou por vencer o jogo por 1-4, tomando parte efetiva na maioria dos lances contra a baliza do Caldas, protegida por Rita.
Tudo corria de feição até que, aos 88 minutos, todos assistiram a uma pitoresca situação. A uma bola atirada para a baliza do Caldas, acorreram Cavém e Rita. O guarda-redes intercetou a bola e, num ato de fúria, aproveitou que Cavém estava já ali, abraçou-o pelas costas e... deu-lhe uma valente dentada! Desta é que ninguém estava à espera Cavém gritou de dor e, assim que se conseguiu libertar do abraço envenenado do adversário, virou-se a ele para se defender. Lá está, um homem não é de ferro. Se fosse, nem tinha sentido a carícia. Mas até este repente de raiva lhe saiu furado, pois Rita, assim que viu Cavém furioso, dou-lhe uma valente murraça que o deixou estendido no chão. Os dois acabaram expulsos do retângulo, e Cavém regressou a Lisboa com uma dolorosa recordação marcada nas costas. O correto jogador entrou em campo a pensar que ia jogar futebol, mas no fim parecia saído de um combate de boxe.
Para saberem as histórias de que são feitas as conquistas do Benfica no Campeonato Nacional, visitem a área 6 - Campeões Sempre, no Museu Benfica - Cosme Damião."

Marisa Furtado, in O Benfica

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

A realidade não foi apanhada de surpresa. Nunca pareceu que seria


"O primeiro de dois obstáculos no caminho para a Liga dos Campeões foi ultrapassado pelo Benfica que, no Estádio da Luz com gente, voltou a ganhar (2-0) ao frágil e quase inofensivo Spartak de Rui Vitória. Viu-se, mais uma vez, muito de João Mário no ordenamento da bola e o próximo adversário é holandês: o PSV Eindhoven será o adversário no play-off

Esperar, desta terça-feira, mordomias capazes de espantar seria o diametralmente oposto a, neste momento, estalar os dedos e esperar que aparecesse à nossa frente um maço de notas de quinhentos euros enroladas por um elástico, nem nós dominamos a alquimia da fantasia, nem o Paris Saint-Germain engana quem seja com emojis de ampulhetas a legendarem os vídeos provocatórios do sublime futebolista que vai contratar. Surpreenderia era se, por obra e graça do acaso, fosse de outra forma.
De pasmar também seria se, nem uma semana depois, um mesmo treinador com horas de vídeo, treinos para dar, palestras nas quais falar e conversas para ter com os jogadores, não cuidasse de prevenir a repetição dos erros do jogo anterior. Por alguma razão ouvimos banalidades como a de não existirem jogos iguais e Rui Vitória reforça essa razoabilidade com o zelo que, a surpreender, talvez apenas pelo excesso.
Em Moscovo, o Spartak era a casa das autoestradas de espaço dadas pelas alas, onde o Benfica o machucou insistentemente, mas, na Luz, os russos jogaram durante 45 minutos a precaverem-se contra a projeção que Grimaldo e Diogo Gonçalves voltaram a ter no campo, ainda mais quando terão percebido que Larsson e Bakaev, os extremos, os acompanhavam até bem perto da linha dos quatro defesas. Muitas vezes, esse eixo ficava com seis homens. Eram um alinhamento de receio contra a possível reincidência de um desmantelamento.
Que se conceda o sucesso vindo da não-surpresa: na primeira parte, por apenas uma vez o Benfica teve alguém a correr atrás de uma bola posta nas costas de defesas (tabela de Grimaldo com Rafa) e a acelerar uma tentativa na terra de ninguém conhecida por profundidade. Mas, focando-se tanto em corrigir o que de tão falível teve em Moscovo, o Spartak encurtou a equipa e retirou-lhe duas opções de passe úteis para os momentos em que recuperasse a bola. A cabeça que cada russo levantava nessas alturas só via um dos dois avançados, o que facilitou as reações do Benfica às bolas que acabava de perder.
A bola e a relva foram dois monopólios da equipa de Jorge Jesus, que jogou quase sempre na metade russa do campo, teve quatro remates entre Pizzi e Rafa bloqueados por corpos e gozou de ataques com quatro, cinco fases seguidas a entrarem na área. Excetuando um par de tentativas do pequeno, rápido e barbudo, porém, o Benfica quase nada conseguia ligar pelo centro nos últimos 30 metros, onde, mesmo bombardeando a área com cruzamentos insistentes, era capaz de assustar o encolhido bloco russo.
Também seria assim que Diogo Gonçalves correria atrás de uma bola quase até à beira da linha de fundo, onde adornou o pé a colocar rasteira na área e para trás, no dito mais atarefado dos cruzamentos para quem defende - apanha essa gente em contra pé, obriga-a a ter de virar o corpo. O primeiro remate de Rafa ainda voltou para trás, batendo no corpo de um adversário. O de João Mário também faria ricochete, mas seguiria baliza dentro (58’) para o médio que trocou de margens na 2.ª Circular se estrear a marcar.
Nem com o prejuízo ainda mais avolumado o Spartak perturbou o conforto do Benfica no jogo, surpreendente também seria se o tivesse feito, porque as pouco mais de duas horas de eliminatória já vistas resumiam-se com o retrato desta equipa russa: pouco capaz de ousar no ataque sem destapar a organização defensiva; sem uma estrutura ordeira para os jogadores mais hábeis inventarem bons rodeios com a bola; e sem qualidade per capita para beliscarem muita gente até nestes primórdios da Liga dos Campeões.
Todo um contrário do que, neste contexto, já é o Benfica. Mesmo que só tenha, depois, ameaçado a baliza russa com um remate brusco de Everton, sozinho na área, a equipa controlou o volante da partida até ao fim. Os três centrais a filtrarem sempre a saída de bola (Lucas Veríssimo voltou a ligar-se com os médios ou extremos com passes interiores, Weigl e João Mário a serem o escorredor constante de jogo ao centro e um avançar no campo que com facilidade deixava os alas só com o lateral adversário pela frente.
Haveria tempo, ainda, para o Yaremchuk ter uns minutos, o ucraniano não teve pré-época, tempo para treinar tão pouco, mas no seu perfil grandalhão e musculado há um avançado com tendência para não existir só na área. Ele esquiva-se dos centrais, foge do retângulo e dá-se a tocar na bola e a deixá-la em quem esteja de frente para a baliza. É um tipo com pés leves e assim picou à colherada uma tabela com João Mário, que lhe tentou devolver a bola na área. Um ressalto depois, a sobra foi de Yaremchuk, cuja realidade do remate também teria um ricochete (90’+2). A intervenção do ucraniano seria um auto-golo de Gigot.
O total de 4-0 é surpresa nenhuma, jamais um coletivo que tem agora maior fôlego a respirar por em João Mário estar o entroncamento preferido da bola pareceu, sequer, poder ser ameaçado por um Spartak de Moscovo que ainda pareceu sustido por arames mais típicos de pré-época."

Um silêncio de morte para Ottavio...


"Ottavio Bottechia foi o primeiro italiano a vencer o Tour. Meio-analfabeto, encantou-se pela propaganda anti-Mussolini

Até hoje não há quem nos consiga contar todos os pormenores da morte de Ottavio Bottechia. Cada um atira aos sete ventos a teoria que lhe agrada e isso é tão típico do género humano como o visco é próprio dos batráquios. Oitavo filho de uma família indigente de nove irmão, Ottavio praticamente não frequentou a escola. A fome grassava lá por casa e cada um tinha de contribuir como pudesse. Era ainda um menino de seis anos quando se tornou aprendiz de sapateiro. Como era de têmpera rija e alargava a olhos vistos, o pai empurrou-o para a construção civil. É por essa altura que aprende a andar de bicicleta e fica absolutamente fascinado com aquela ideia de equilíbrio em movimento que lhe marcará a vida para sempre.
A I Grande Guerra atira Ottavio Bottechia para os bersaglieri e para os ideais socialistas. Criados no Reino da Sardenha, onde o dinheiro abundava tanto como em casa dos Bottechia, em San Martino de Colle Umberto, não longe de Veneza, os bersaglieri, como os seus chapéus largos, de penacho orgulhoso, ganharam o respeito de toda a Itália, sobretudo no período da Unificação, quando entraram em Roma pela Porta Pia, no dia 20 de Setembro de 1870, exibindo um garbo soberbo, de fazer inveja a qualquer outro grupo militar.
Na I Grande Guerra, dos 210 mil elementos dos bersaglieri enviados para a frente de combate, 32 mil foram mortos e 50 mil ficaram estropiados, o que serviu para que o respeito em seu redor crescesse à velocidade com que o sangue se espalhava pelas trincheiras. Ottavio viveu peripécias durante o conflito dignas de fazer inveja a Miguel Strogoff e Rocambole juntos. O facto de se sentir tão confortável em cima de um selim como na sala lá de casa, fez com que fosse nomeado correio. As bombas rebentavam à sua volta e as balas silvavam-lhe aos ouvidos enquanto Bottechia pedalava furiosamente por entre cadáveres e moribundos que gritavam de forma lancinante. Apanhou malária, chegou a ser capturado, foi suficientemente expedito para escapar aos seus algozes e pôs-se ao fresco, regressando às linhas italianas onde foi tido como um herói e medalhado a preceito.
De volta ao conforto do lar, que não era tão confortável como isso, convenhamos, voltou à sua função de carregador de de tijolos, vivendo uma existência sem história junto da sua mulher e dos seus três filhos. Mas a sua fama de ciclista emérito já não lhe permitia uma existência sossegada como seria sua vontade. Certo dia, bateu-lhe à porta um certo Teodoro Carnielli, presidente de um clube da região do Venetto. Trazia-lhe uma oferta: uma bicicleta moderna, nova em folha. E trazia-lhe um desafio: participar em provas velocipédicas.
Em 1923, Ottavio Bottechia participa na Volta à Itália. Não tem equipa, corre sozinho, obtém um espantoso quinto lugar. Num abrir e fechar de olhos, convidado pelo grande ciclista francês Henry Pélissier, junta-se à equipa do Automoto-Hutchison.
Ottavio tem 29 anos e um mundo inteiro na sua frente. Finalmente, consegue aprender a ler e a escrever, coisa que a escola não lhe dera. Deixa-se encantar pelo panfletos de propaganda anti-Mussolini, desperta a sua alma revolucionária, está disposto a lutar novamente, agora em nome da Liberdade. Nesse mesmo ano, garante o segundo lugar na Volta a França, logo atrás de Pélissier, e a sua fama percorre toda a Itália como uma aragem fresca do Adriático. O próprio Mussolini está encantado com Ottavio, representante dessa classe que fez de Roma dona de meio mundo.
No ano seguinte, Ottavio foi supersónico: ganhou a Volta a França carregando com a camisola amarela da primeira à última etapa. Nunca um italiano ganhara o Tour. Bottechia ganhou novamente, na edição seguinte. E, de um momento para o outro, a vida começou a correr-lhe mal.
No dia 23 de maio de 1927, o seu irmão Giovanni foi atropelado enquanto pedalava na sua bicicleta. Morte imediata. No dia 3 de junho, Ottavio é encontrado por um camponês. Enfiado num fosso macabro, com dificuldade em exprimir-se, está gravemente ferido e completamente ensanguentado. Tem vários ossos fraturados além de um fortíssimo traumatismo craniano. Supõe-se, a principio, que lhe terá sucedido a mesma coisa do que a Giovanni, mas, encontrada não muito longe, a bicicleta de Ottavio não apresenta qualquer dano. É carregado para a taberna mais próximas, mas não se consegue exprimir. O padre da terra dá-lhe a extrema-unção. Segue para o hospital de Gemona mas só para morrer embrulhado em lençóis limpos e num mistério para o qual ninguém tem resposta. Uns anos mais tarde, um mafioso italiano de Nova Iorque, confessou no leito de morte ter assassinado os dois irmãos Bottechia, Ottavio à pedrada. «Estava a roubar uvas», justificou, embora não haja uvas em Junho.
No seu funeral não apareceu ninguém. Havia demasiado medo. Sussurrava-se a cada esquina que fora eliminado pelos fascistas. Tornara-se demasiado incómodo com a sua popularidade."

Jogos Olímpicos "misturados"


"Após a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio, disputados até há dois dias, recebi uma mensagem de um amigo brasileiro pelo WhatsApp: "Você viu? A delegação da Alemanha tem mais negros do que nós!" Eu não tinha visto. Também não me preocupei em apurar se tal informação era rigorosamente factual ou apenas impressão à primeira vista, provocada pela (ainda) relativa surpresa que é descobrir que a Alemanha, afinal, também tem negros. Mas, por curiosidade, passei a prestar uma atenção particular à composição "cromática" de todas as delegações.
Essa minha curiosidade só era superada por poucas outras: os resultados do andebol feminino angolano; o desempenho geral dos africanos; o desfecho das provas de atletismo, em particular as corridas e os saltos; e as conquistas do Brasil.
Como não me anima nenhum tipo de fanatismo, confesso que, de um modo geral, fiquei satisfeito com os resultados no campo desportivo, embora desiludido com um ou outro. Mas já passou.
Entretanto, pude confirmar, com agradável surpresa, que os Jogos Olímpicos encerrados no passado domingo na capital japonesa terão sido, com toda a certeza, os mais "misturados" da história dessa emblemática prova. É verdade, pelo simples facto de contar com a participação de todas as nações do mundo, a mesma sempre espelhou a diversidade que caracteriza a humanidade, mas, em Tóquio, a mesma foi visível em praticamente todas as delegações presentes. Era como que uma diversidade "interna" à maioria dos países concorrentes, logo, transversal aos Jogos.
Desde logo, fiquei particularmente surpreendido e agradado com os exemplos dessa "mistura" nas delegações de países como o próprio Japão, país anfitrião, e até a China, pois, como se sabe, as nações asiáticas tendem a ser mais homogéneas etnicamente do que a maioria dos países, embora uma análise mais acurada permita confirmar que tal homogeneidade está muito longe de ser absoluta. Mas cito igualmente como "novidades" mais ou menos relativas os exemplos de países como o Qatar, a Espanha, a Alemanha, a Itália e mesmo a Holanda, onde a conhecida diversidade do seu futebol parece ter chegado, por fim, às modalidades olímpicas.
Todos esses e outros exemplos juntam-se ao caso dos países cuja diversidade "cromática" e étnica (não é a mesma coisa) é constitutiva, como os Estados Unidos, o Brasil ou a África do Sul, assim como os países africanos de língua portuguesa, mas também ao daqueles que começam agora a discuti-la e a assumi-la (vantagem estratégica da tão necessária reescrita da história), como, só para dar esses exemplos, a França, a Inglaterra, Portugal e outros.
A mudança demográfica e epidérmica que está a ocorrer presentemente em vários países do mundo (ou começa a ser assumida agora) deve-se em grande medida, embora não só, à emigração africana, em particular para a Europa e a América e provocada por várias razões. O supremacismo branco não gosta, como se observou com a reação de alguns portugueses à vitória do afro-cubano naturalizado português Pedro Pichardo na prova de triplo salto dos Jogos de Tóquio. É preciso recordar aos seus defensores os milhões de europeus (brancos) que emigraram durante séculos, como "conquistadores" ou simplesmente à procura de melhores condições de vida, para África ou para as Américas?
A maior diversidade das delegações desportivas dos diferentes países do mundo, em todas as modalidades e em todas as competições, é, sem dúvida, um facto interessante e estimulante para a consolidação de uma verdadeira "humanidade compartilhada". Mas, como é óbvio, não basta. São imprescindíveis outras medidas, em todas as esferas. Parafraseando o poeta angolano António Jacinto, esse é "o grande desafio" pelo qual vale a pena lutar."

Obrigado, Pichardo


"A medalha de oiro do atleta português Pedro Pablo Pichardo em Tóquio, triunfando de forma categórica no triplo salto, gerou animado debate. Porquê? Porque Pichardo não nasceu português, é naturalizado. Ao que se somou o picante político de Pichardo ser cubano e um dissidente desportivo do regime de Fidel Castro.
Este foi o motivo para um dos ataques mais infelizes que lhe foram feitos. Soube-o, nas redes sociais, por um amigo, João Pedro Dias, aveirense, democrata, personalista. Miguel Viegas, professor auxiliar da Universidade de Aveiro, cabeça-de-lista pelo PCP nas eleições autárquicas de Aveiro, atingiu os patamares inferiores da baixeza no seu Facebook, Página Miguel Viegas. Logo a seguir à vitória de Pichardo, escreveu assim: "Mérito do atleta que treinou, da escola que o criou e do clube que o comprou! Mas esta não é seguramente uma medalha 100% portuguesa!" Dias antes, assinalara o novo feito de Fernando Pimenta na canoagem (K1 1000): "Uma medalha 100% portuguesa!" E, ao final do mesmo dia, também na canoagem, vibrou com a vitória de uma dupla cubana, em C2 1000: "Cuba vencerá!" Com isto, ficou tudo dito.
Miguel Viegas, em Abril, já atacara a Universidade de Aveiro de "anticomunismo primária", por ter colocado no exterior um pedaço do Muro de Berlim. Agora, entrou pelos Jogos de Tóquio como guarda avançada do regime comunista de Cuba. Merecidamente fustigado na sua página, viria refugiar-se, depois, numa alegada crítica à política desportiva. É desculpa tola, pois Pichardo, todos o sabem, não é um "campeão pronto-a-vestir" recrutado - tem uma história pessoal e desportiva credora do maior respeito ético e social. Não há nada de errado, aliás, em atrair selectivamente técnicos e atletas para ajudar ao desenvolvimento de certas modalidades, ensinando e puxando por outros. É linha que pode seguir-se (e sempre se seguiu), desde que não para fins de propaganda, nem de forma excessiva, antes limitada, nem prejudicando a educação e formação desportivas da juventude. D. Dinis também foi buscar um almirante genovês para criar a nossa Marinha.
Mas este não é sequer o caso de Pichardo. E o pensamento real de Miguel Viegas gera mais dúvidas, ao não ter uma só palavra para as medalhas, brilhantes, de Jorge Fonseca e Patrícia Mamona, dois grandes nomes actuais do desporto nacional. Não nos elucidou sobre a percentagem de portugalidade que atribui aos títulos de ambos. O que são êxitos "100% portugueses"? Que efeitos pretende tirar disso? E, quanto aos atletas que não atingem as medalhas, que bitola tem para eles? Terão os candidatos a medalha que apresentar "cadastro étnico-racial" (de que falou André Ventura), acrescentando ainda (na versão Viegas/PCP) um certificado ideológico, para aferir do grau percentual de portugalidade a atribuir aos êxitos de cada um? Coisa pobre... medíocre... confrangedora...
O foco em Pichardo como originário de outro país é despropositado. Para mais atingindo alguém que tem tido comportamento exemplar, como soube confirmar neste contexto sensível, exigente e de forte exposição. Na equipa olímpica que nos representou em Tóquio, havia 19 atletas que não nasceram em Portugal: quatro em Cuba, três no Brasil, dois na China e ainda naturais de Cabo Verde, Camarões, Congo, Costa do Marfim, EUA, França, Geórgia, São Tomé e Príncipe, Suíça e Ucrânia. Nestes, há alguns casos de emigração portuguesa, mas a maioria é como Pichardo: estrangeiros que escolheram Portugal para seu país. São milhares os que o fazem todos os anos, por razões da sua própria vida e nos termos das nossas leis. No futebol, já houve vários casos. Nada de novo. O problema de Pichardo foi ganhar a medalha de oiro.
Para ele, só há duas palavras: obrigado, parabéns. Tudo o que vá além ou fique aquém da gratidão e do aplauso a Pichardo, é muito mau exemplo. Muito inferior ao exemplo que nos deu."