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sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Um Olímpico mercantilismo

"Durante a sessão de abertura da II convenção MEMOS (Executive Masters in Sport Organisations Management) que se realizou no Estoril o presidente Constantino do Comité Olímpico de Portugal (COP), destacou a importância da gestão do desporto no combate à “mercantilização do desporto”. E, num discurso de carácter moralista, afirmou: “A mercantilização do desporto a que assistimos, que acentua a avidez pelo lucro e pelo dinheiro, traz com ela o aparecimento de fenómenos que lesam a boa imagem do desporto, como a dopagem, a corrupção ou a manipulação de resultados. Portanto, se o desporto deve estar ao serviço do desenvolvimento humano, a governação não pode viver apenas em função da obsessão pelos resultados desportivos e descurar a credibilidade, a integridade e a democraticidade das suas organizações”. (Cf. Sapo, 2018-12-6).
O mercantilismo, enquanto sistema económico, do ponto de vista lato, teve diversas interpretações desde que Adam Smith, em 1776, publicou “A Riqueza das Nações”. Do ponto de vista estrito significa a tendência para, a partir de interesses pessoais ou corporativos, subordinar tudo ao comércio. Desde Adam Smith que políticas mercantilistas foram desenvolvidas e postas em prática por comerciantes e governos nos mais diversos países. O desporto não escapou ao mercantilismo pelo que, desde inícios do século XX, que o comercialismo afligia aqueles que lideravam o Movimento Olímpico (MO) tanto a nível internacional quanto nacional. Pierre de Coubertin, ao longo da sua vida, foi um inquebrantável lutador contra o mercantilismo que já ameaçava tomar conta dos Jogos Olímpicos. Repare-se que ele não era contra a economia associada ao desporto mas, simplesmente, contra os abusos da sua exploração comercial.
Postas estas premissas, temos de dizer que não se percebe o discurso do presidente do COP. Em primeiro lugar, porque, nos tempos atuais, à revelia do espírito de Coubertin, têm sido as organizações do MO aquelas que mais têm mercantilizado e comercializado o desporto como qualquer pessoa minimamente atenta pode constatar. Em segundo lugar, se existe organização que mais tem demonstrado avidez pelo dinheiro tem sido o Comité Olímpico Internacional (COI) com os seus cadernos de encargos destinados às cidades candidatas e os seus contratos milionários com as cadeias de televisão em todo o Mundo. Em terceiro lugar, o evento que mais tem descredibilizado o desporto, lamentavelmente, tem sido os Jogos Olímpicos (JO) desde os velhos comportamentos da URSS e da RDA que, no Rio de Janeiro (2016), tiveram um epílogo monumental com a questão do doping que envolveu o Comité Olímpico Russo, o Estado Russo e os atletas russos. Em quarto lugar, quanto à credibilidade, integridade e democraticidade das organizações, só podemos estranhar a posição do presidente do COP quando, ele próprio, chefia uma organização em que o processo eleitoral decorre com listas solidárias (Assembleia Plenária, Comissão Executiva, Conselho de Ética e Conselho Fiscal) e, como se não bastasse, a Assembleia Plenária e a Comissão Executiva são presididas pela mesma pessoa, quer dizer, ele próprio. Acresce que o Conselho de Ética, incompreensivelmente, não segue o padrão democrático de eleição livre e independente da Comissão de Ética do COI. E, por isso, não merece qualquer credibilidade.
Todavia, o discurso do presidente do COP tem a virtude de levantar uma das questões mais críticas que, de há vários anos a esta parte, caracteriza a práxis do MO nos mais diversos países do Mundo. Trata-se do mercantilismo e da sua dimensão comercialista. Qualquer observador minimamente atento sabe que as organizações desportivas que mais têm mercantilizado o desporto têm sido, precisamente, as do MO. E de tal maneira que, para além da máquina mercantilista em que os atletas são envolvidos e, até, explorados, quando se chega aos cadernos de encargos absolutamente exorbitantes exigidos pelo COI às cidades candidatas a receberem os JO e respectivos países, é confrangedor verificar, posteriormente, o rasto de miséria que fica da realização dos JO como, entre outros, foram os casos de Atenas (2004), Sochi (2014) ou Rio (2016) em que, como referem os brasileiros, o COI ficou com os lucros e eles com as dívidas para pagar.
Apesar dos inúteis esforços posteriores à Grande Guerra (1939-1945) desenvolvidos por Siegfried Edström, Michael Killanin e Avery Brundage, o que aconteceu foi que Antonio Samaranch resolveu abrir as portas do COI ao mercantilismo iniciando uma política, diga-se em abono da verdade, que reanimou o MO que, ao tempo de Killanin, ameaçava extinguir-se. Na realidade, o mercantilismo começou a tomar conta do MO a partir dos JO de Roma (1960) quando a televisão entrou, pela primeira vez e em força, no JO. Mais tarde, o mercantilismo assentou verdadeiramente arraiais no MO quando, em 1980, Antonio Samaranch foi eleito para a presidência do COI. E não foi por acaso que ele foi eleito, sobretudo, com o apoio dos países socialistas e dos países africanos que, na sua generalidade também eram socialistas. A partir de então, Samaranch instituiu uma dinâmica mercantilista no MO que, com uma estratégia comercial de grande agressividade, encheu os cofres do COI e abriu a caixa de Pandora. Mas, pelo que nos foi dado observar ao longo dos anos, nem os CONs, nem as Federações Internacionais (FI), nem os Comités Organizadores dos JO (COJOs) alguma vez manifestaram qualquer preocupação relativamente às avultadas somas de dinheiro que que passaram a receber da máquina mercantilista organizada por Samaranch. E os próprios governos que, como se viu nos JO de Montreal (1976), ficavam com as facturas para os contribuintes pagarem, a partir de então, aderiram à nova dinâmica mercantilista de Samaranch que passou a ser recebido nos mais diversos países como um autêntico chefe de Estado. E, deste modo, os CONs, numa lógica neo-mercantilista, passaram a ser considerados um instrumento da política económica dos respectivos governos a fim de estes, no domínio do “soft power”, ganharem vantagem competitiva nas relações internacionais. E Samaranch, já no final do seu mandato, na 108ª Sessão do COI, realizada em Lausana, a 17 e 18 de março de 1999, esclareceu a sua estratégia com uma simples metáfora: “… we said yes to commercialisation...”. O problema é que parece que ninguém reparou ou quis reparar que, entretanto, os diabretes que tinham fugido da caixa de Pandora já estavam, por todo o Mundo, a corroer a alma do desporto moderno instituída por Coubertin em finais do século XIX.
O “sucesso” de Samaranch ficou a dever-se ao facto de ter escancarado as portas do MO ao mercantilismo que, para além do comercialismo, envolveu, contranatura, os governos dos países tanto na obtenção de resultados de prestígio nos JO como na candidatura das cidades a receberem a organização dos JO. Por isso, não percebemos a posição do presidente do COP quando no seu discurso se manifesta contra o mercantilismo acusando-o de ser o responsável pelos diversos estigmas do desporto porque, para além da organização que chefia receber muitos milhões de euros do Estado, numa entrevista ao jornal O Jogo (2018-06-16), afirma: “Eu veria, com muito bons olhos, uma candidatura ibérica à organização de uns Jogos Olímpicos. Espanha já foi candidata e não correu bem, mas tem capacidade para isso e acho que Portugal poderia ser parceiro desse desígnio, permitindo que se aproveitasse muito daquilo que nos é comum”. Lindo!
Independentemente de não serem nem regiões nem países a candidatarem-se não à organização mas a sediarem os JO, a opinião do presidente do COP revela acerca do assunto a mais genuína perspectiva mercantilista que ele critica no discurso que reproduzimos inicialmente. Direi mesmo que, do ponto de vista ideológico, considero a perspectiva do presidente do COP relativamente aos JO Ibéricos do mais genuíno neo-mercantilismo uma vez que, por contraditório que possa parecer, o neo-mercantilismo é uma fase avançada do neo-liberalismo em que os Estados através dos governos, numa lógica proteccionista, actuam ao estilo de empresas na competição económica internacional como, hoje, está a acontecer, por exemplo, entre a RPC e os EUA. Nestas circunstâncias, os CONs passam a ser uns meros instrumentos da ação política do Estado o que nos parece uma perfeita aberração tendo em conta os princípios da Carta Olímpica que, embora indirectamente esclarece: Ao Estado o que deve ser do Estado, ao MO o que deve ser do MO.
Entretanto, é bom recordar que o mercantilismo comercial de Samaranch, embora possamos admitir que trouxe vantagens para o desenvolvimento do desporto, o que aconteceu foi que, o COI, tal qual novo rico, perdeu o controlo da situação e de tal maneira que, cerca de vinte anos depois, em 1998, o mundo tomou consciência de que as coisas tinham descambado para o lado da corrupção quando o membro do COI de seu nome Marc Hodler teve a coragem de afirmar publicamente aquilo que há muito já se suspeitava: que, de 5 a 7 por cento dos membros do COI eram compráveis. Infelizmente, embora tivessem sido expulsos do COI vários dos seus membros o que é facto é que, porque a dinâmica mercantilista fora de controlo continuou, passados cerca de 10 anos, surgiram novamente os mesmos problemas. No dia 2 de Outubro de 2009, na Sessão do COI em que se decidia a cidade que receberia os JO da XXXI Olimpíada, depois da cidade de Chicago, conjuntamente com outras, ter sido preteria relativamente ao Rio de Janeiro, Barack Obama manifestou o seu descontentamento ao afirmar ser o COI similar à FIFA e a decisão, relativa à cidade que iria receber os Jogos da XXXI Olimpíada (2016), como "little bit cooked". Em consequência, Obama decidiu não assistir às cerimónias de abertura dos JO de Londres (2012), Sochi (2014) Rio (2016). E as palavras de Obama até foram premonitórias. As instalações de milhões de dólares construídas para os JO do Rio (2016) acabaram no mais degradante abandono e, por suspeita de compra de votos, o Presidente do Comité Olímpico Brasileiro (COB) que, simultaneamente, sob o beneplácito do governo, presidia à Comissão Organizadora dos Jogos, acabou preso e acusado de corrupção. Na realidade, na luta neo-mercantilista, o Brasil ganhou aos EUA, todavia, foi uma vitória de Pirro.
Hoje, o discurso neomercantilista quer seja produzido consciente ou inconscientemente, está a superar o discurso pedagógico, cultural, económico e social por muito que, na maior das hipocrisias, alguns dirigentes digam que o MO está ao serviço do desenvolvimento humano. Desde logo porque, para além dos discursos moralistas, os CONs estão ao serviço daqueles que os patrocinam. E, muitas vezes, para não dizer todas, as grandes empresas que os patrocinam não passam de multinacionais mercantilistas que se limitam a defender os seus próprios interesses. E, depois, sob a indiferença dos governos, facturam lucros extraordinários que disfarçam através do patrocínio de organizações e eventos desportivos a fim de credibilizarem e notabilizarem junto das populações que exploram o respectivo logotipo. E não é necessário sair de Portugal para se constatar esta triste realidade.
Mas, simultaneamente, as populações também estão a atingir o limite da sua paciência como temos estado a ver em França um País cujo orçamento previsto para os JO de Paris (2024) é de 6,8 bilhões de euros, sabendo-se, desde já, que a pressão dos prazos vai fazer disparar os custos para valores astronómicos. O que está a acontecer é que, enquanto os dirigentes desportivos e políticos vivem na mais pura irresponsabilidade a candidatarem as suas cidades, países e regiões a fim de receberem os JO e outros grandes eventos, felizmente, as populações, cada vez mais conscientes dos seus interesses, estão, simplesmente, a rejeitar a organização de tais eventos como já aconteceu com Nova Iorque (2012); Roma (2024); Hamburgo (2024); Boston (2024); Budapeste (2024); Graubünden (cantão suíço) (2022 & 2026); Innsbruck (2026); Graz/Schladming (Austria)(2026); Cracóvia (2022); Munique (2022); Oslo (2022); Roma (2020 & 2024); Sion (2026); Estocolmo (2022); Viena(2028).
Felizmente, as populações já começaram a perceber que, depois da festa e da condecoração dos dirigentes políticos e desportivos, ficam as despesas para elas pagarem. Por isso, no que diz respeito aos JO Ibéricos e ao Mundial de Futebol (2030), espero que os portugueses tenham aprendido a lição com o Euro 2004 cujos estádios ainda estão por pagar e, se necessário for, seja desencadeado um movimento nacional contra esses eventos que só servem para depauperar o País, prejudicar o desenvolvimento do desporto e deixar dívidas inúteis para as futuras gerações.
Contudo, muito embora a ideia de uma candidatura Ibérica a receber os JO seja perfeitamente idiota, a situação é, deveras, preocupante porque o COI, como referimos, está a receber cada vez menos candidaturas pelo que, na maior das irresponsabilidades, no sentido de estimular o aparecimento de novas candidaturas, até podem surgir incentivos a fim de, artificialmente, sustentar a candidatura ibérica. Só assim se compreende as dramáticas palavras do presidente do COI Thomas Bach quando, durante os JO da Juventude realizados em Buenos Aires (2018-10-06- 201810-18), sugeriu que a cidade estava em condições de se candidatar a receber a edição dos JO de 2032 (globoesporte, 2018-10-19). Tal sugestão é, no mínimo, despropositada para não se dizer trágica uma vez que é do conhecimento geral que a Argentina tem a economia em colapso ao ponto de, em Maio de 2018, devido à queda da sua moeda (peso), ter sido obrigada a receber um empréstimo de 50 mil milhões de dólares do FMI. Para além do mais, o orçamento dos JO da Juventude Buenos Aires (2018), em 2017, já tinha derrapado mais de 700% (A Bola, 2017-01-10) relativamente ao orçamentado em 2013. Mas a sugestão de Thomas Bach também revela a mais absoluta falta de sentido de oportunidade na medida em que foi realizada na Argentina país vizinho do Brasil que vive uma profunda crise económica, social e política da qual os JO têm grande responsabilidade.
Não vale a pena a oligarquia olímpica chorar lágrimas de crocodilo quando já ninguém acredita nos seus lacrimosos discursos acerca de um desporto ao serviço do desenvolvimento humano. Desde logo porque, ao contrário da afirmação do presidente do COP, não é o mercantilismo que está na causa dos graves problemas que o desporto tem de enfrentar. O mercantilismo é, eventualmente e tão só, mais um dos estigmas que decorrem das opções políticas que apostaram mais na angariação de espectadores desportivos que alimentam a economia (veja-se o IVA dos espectáculos de futebol a 23% em Portugal) do que na formação de novos praticantes desportivos através do financiamento de políticas públicas direccionadas para os grupos sociais mais desfavorecidos, sobretudo num país como Portugal em que a taxa de prática desportiva é muito baixa e cerca de 25% das crianças são pobres.
Por isso, o maior problema do MO moderno não é o mercantilismo. Nem vale a pena transformá-lo em bode expiatório. O maior problema do MO moderno é, salvo as devidas excepções, a falta de coerência dos seus dirigentes que, à semelhança dos dirigentes políticos, passaram a desenvolver um discurso de convenientes incoerências a fim de se desculpabilizarem e, simultaneamente, ganharem a notoriedade necessária de modo a embarcarem no elevador socio-político. Por um lado, proclamam os valores pedagógicos e culturais do desporto e reclamam um desporto livre do doping, da corrupção, dos resultados viciados entre outros malefícios, mas, por outro lado, subordinam toda a sua acção a critérios do mais puro mercantilismo comercial desde logo instituindo um sistema híper-competitivo porque o que interessa é facturar seja do Estado seja das entidades comerciais. E, assim, para além de todas as competições nacionais e internacionais promovidas pelas Federações Desportivas, o COP já anunciou que, em 2019, vai chefiar cinco Missões Olímpicas (Portal/COP, 2018-08-02). E compreende-se porque, se por um lado, é necessário satisfazer os patrocinadores, por outro lado, é conveniente manter o País entretido. Em conformidade, entre outras medidas, os prémios de mérito desportivo até foram devidamente alterados para privilegiarem os resultados obtidos nos JO relativamente aos obtidos nos Campeonatos do Mundo ou da Europa. (Portaria nº 103/2014 de 15 de maio) A este respeito, F. Pacheco Torgal investigador da Universidade do Minho, levantou as seguintes questões: “Faz algum sentido que um país tecnicamente falido pague mais do que pagam vários países muito mais ricos do que o nosso por uma medalha olímpica? Faz sentido Portugal pagar 40.000 euros por uma medalha de ouro (e 25.000 por uma de prata) e Alemanha pagar 20.000 euros ou o Canada pagar 12.900 euros? E porque é que o mesmo Estado Português paga literalmente zero a algum cientista que faça importante descoberta científica ou que consiga tornar-se uma referência a nível mundial?”. (Novembro de 2018 /mail). É claro que não faz sentido. O problema é que o alto rendimento desportivo nacional como não é, naturalmente, alimentado a montante já não funciona sem doping financeiro.
Por isso, temos de dizer que o verdadeiro problema do desporto moderno não é o mercantilismo. O verdadeiro problema é falta de coerência, em matéria de políticas públicas para o desporto, da generalidade dos dirigentes políticos e desportivos. Aliás, basta ver quem são os grandes patrocinadores do COI e os dos CONs por esse mundo fora para se perceber o padrão de incoerência que, hoje, reina, no MO à escala do Planeta. Por um lado criticam os malefícios do mercantilismo, mas, por outro lado vivem à custa dele. Mas, até se pode levar a análise mais longe. Basta realizar uma breve consulta ao que se passa nas minas de cobalto na República Democrática do Congo que, exploradas por empresas estrangeiras, alimentam a industria das novas tecnologias ou ao que se passa em vários países orientais nas “fábricas familiares” da industria têxtil e outras que alimentam as grandes marcas de material desportivo que, por sua vez, financiam o MO nos mais diversos países do Mundo, para se perceber que os verdadeiros problemas do desporto estão a montante no mercantilismo e dos fenómenos que, segundo o presidente do COP, dele decorrem e que lesam a boa imagem do desporto, como a dopagem, a corrupção ou a manipulação de resultados. Os grandes problemas do MO estão na falta de coerência (falta de educação e de cultura) dos dirigentes que criticam o mercantilismo, acusam-no dos mais diversos crimes e, depois, colocam as organizações que chefiam e os eventos que promovem precisamente, por um lado, ao serviço do mercantilismo, quer dizer, ao serviço de grandes empresas multinacionais que até exploram o trabalho infantil e, por outro lado, ao serviço dos negócios mercantilistas do Estado quer sejam financeiros quer sejam políticos quer sejam desportivos.
Por tudo isto, com a actual incultura dos actuais dirigentes políticos e desportivos, não acredito que, salvo as devidas excepções, seja possível construir um desporto que, verdadeiramente, esteja ao serviço da generalidade dos cidadãos e não dos interesses das grandes empresas neo-mercantilistas. Todavia, também sou daqueles que acredita que Pandora quando viu todos os diabretes a fugirem da caixa que, por curiosidade, abriu, ainda foi a tempo de a fechar conseguindo reter lá dentro a esperança. Pois é na esperança de contribuir, ainda que modestamente, para a construção de um desporto melhor que, apesar de tudo, continuo a acreditar que o Olimpismo é uma filosofia de vida que coloca o desporto ao serviço do desenvolvimento humano."

Benfiquismo (MXXVII)

King em Newcastle, 1971

Vitória na Grécia...

Iraklis 0 - 3 Benfica
13-25, 12-25, 15-25


Mais fácil do que na Luz...

Nos Oitavos-de-final vamos defrontar os nossos conhecidos Romenos do Zalau... Temos equipa para chegar aos Quartos!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Vitória em Faro...

Farense 0 - 1 Benfica B


Mais 3 pontos, num jogo com poucos pontos de interesse, num relvado impróprio... onde os nossos jovens souberam fazer o necessário para ganhar, mesmo cometendo alguns erros, principalmente a nossa defesa...!!!

Vitória... a controlar !!!

Benfica 33 - 30 Belenenses
(19-9)

Grande arranque... e final demasiado 'controlador'!!!

Descodificando um génio

"Na noite de ontem, o Benfica apresentou em simultâneo dois dos seus três mais talentosos. Faltou Jonas, claro.
Talento expresso na capacidade para decidir, percebendo e vendo com uma qualidade extrema, tudo o que se passa ao redor, e qual o caminho que aumentará as probabilidades de mais tarde a bola chegar à baliza adversária, e qualidade na execução para dar corpo ao que a mente alcança.
Krovinovic e João Félix, pois claro.
Dois jogadores ainda em processo de crescimento, por diferentes razões.
Com eles, associando-se a Jonas, o Benfica tem potencial para voltar a crescer e encantar na realidade nacional.
É nas coisas “simples”, que está a qualidade e a capacidade para ligar o jogo colectivo até à zona de finalização. É no ver sempre, e por vezes ver até mais que os próprios colegas.
Trago-vos uma lição de decisões e execuções de João Félix, na noite em que, tivesse coabitando o espaço com um avançado de outra competência e teria saído da Luz com uma mão cheia de assistências, juntando assim uma exibição sublime à notoriedade. Ora veja:
"

Os prémios da discórdia

"O ano de 2018 está a ser o mais incaracterístico da última década no que aos grandes prémios do futebol mundial diz respeito. Nos últimos dez anos assistimos ao domínio absoluto de dois jogadores de outro planeta, Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.
Chegaram, aliás, a faltar adjectivos para caracterizar as prestações do português e do argentino, mas eis que, de um momento para o outro, nenhum dos dois conquista qualquer prémio em 2018.
E surge um novo nome que passou a reunir o consenso nos quatro prémios atribuídos este ano: Luka Modric. O médio croata do Real Madrid conquistou o Prémio de Melhor Jogador do Campeonato do Mundo, o Prémio de Melhor Jogador para a UEFA, o Prémio "The Best" de melhor jogador para a FIFA e esta semana a Bola de Ouro da revista France Football.
E o que fez Modric para merecer o pleno, pergunto eu e perguntar-se-á o leitor?
Desde já me confesso admirador da forma de jogar do croata, com uma inteligência e capacidade de antecipação acima da média, uma técnica refinada e um posicionamento táctico irrepreensível.
Mas daí até ao melhor do mundo vai uma distância gigante.
Terá então sido pelas prestações individuais? Não me parece.
Em 2018 Modric venceu a Liga dos Campeões, ao serviço do Real Madrid (feito idêntico ao conseguido por Cristiano Ronaldo que conquistou a sua quinta Liga dos Campeões), e foi finalista vencido do Campeonato do Mundo de 2018, no qual a Croácia perdeu com a França por 4-3, enquanto Portugal foi eliminado nos oitavos de final pelo Uruguai.
Na Rússia, Cristiano marcou quatro golos em quatro jogos, três deles à Espanha, Modric marcou dois em sete. Na Liga dos Campeões o português apontou 15 golos em 13 jogos com cinco assistências pelo meio, Modric marcou apenas um em 11 jogos, com uma assistência. A nível interno, no Real Madrid, CR7 cilindra o antigo colega de equipa, já que na mesma equipa e na mesma época, 2017/2018 o português marcou 26 golos em 27 partidas contra um único golo de Modric em 26 jogos. Apenas nas assistências para golo, o croata levou a melhor com 6 contra 5 do português.
Face a estes números, qual terá sido então o factor que desequilibrou o prato da balança?
Só podem ter sido aqueles 15 dias a mais em que Luka Modric se manteve no Campeonato do Mundo da Rússia, comparativamente com Cristiano Ronaldo.
Só pode.
Ou isso, ou uma mudança do paradigma, com os grandes prémios do ano a premiarem não o espectáculo do jogo, mas a cor das camisolas.
O branco e negro da Juventus contra o branco do Real Madrid?
Não sou muito fã de teorias da conspiração, mas já diz o ditado em castelhano que no creo em brujas, pero que las hay, las hay, e para muitos a influência do clube espanhol continua a ser brutal nas mais altas instâncias do futebol.
Só assim consigo acreditar que Cristiano, que continua a espalhar magia nos relvados por onde passa e a dar espectáculo sempre que joga, e até mesmo Lionel Messi, sejam relegados para segundo plano face a um excelente jogador mas, quanto a mim, não um super-jogador!

P.S.: Em relação à última votação, a da Bola de Ouro, o que dizer dos 35 países (sim, 35!!!) que pura e simplesmente se esqueceram de Cristiano Ronaldo nas suas votações? Alguns deles, a votarem em Neymar ou em Eden Hazard, sendo que nesses 35 estão, a título de exemplo, Suíça, Irlanda do Norte, Dinamarca, Finlândia ou Turquia... Países onde, supostamente, o futebol é igualmente uma paixão. 
Ou será que nem por isso?"

Eu tive um tio na Índia

"Pangim - “I had a farm in Africa”, começou por escrever Karen Blixen em “Out of Africa”. Depois vi cinco vezes consecutivas o filme. Era tão extraordinariamente bonito que não dormi descansado antes de sobrevoar num balão de ar quente os flamingos e os hipopótamos do lago Nakuru, os leões e elefantes e girafas da savana do Serengueti, e descer as ravinas do vulcão antigo do Ngorongoro.
Eu tive um tio na Índia. E nunca comecei a escrever um livro assim. Incompetência minha.
O meu tio Carlos viveu na Índia. E em muitos outros lugares em redor dos trópicos, como Sá da Bandeira e São Tomé. Fui lá procurá-lo, mas a vida tinha mudado demais. Era uma figura fascinante e estive com ele tão pouco. Dono de uma tristeza profunda, mas cheia de dignidade. Há tristezas assim: não provocam pena, provocam inveja. Acho que se alimentava dela. Ou ela dele. Sei que eram inseparáveis porque a tristeza nunca está nas coisas: está em nós. Ele e a tristeza eram e foram amantes. Até ao fim.
Comecei a vir à Índia há mais de 30 anos. Entretanto, o meu tio resolveu morrer e nunca pude falar com ele sobre os lugares onde esteve e eu o procurei. Se querem saber, não é importante. Aquilo que nos liga vai para além da vida e da morte. Vai para além do sonho e do sofrimento. Fica naquele lugar de apenas ser. Gostava de me oferecer livros de geografia e desafiava-me a ir pelo mundo. Fui. E irei.
É domingo. Milhares de goeses foram em romaria a Velha Goa para a novena. A tarde arde de um calor capaz de rachar a fachada da Igreja de São Caetano, que é uma cópia meio desajeitada de São Pedro, em Roma, não muito longe do Arco de Afonso de Albuquerque, na Rua Direita, que conduz ao porto dos ferries do Mandovi, mas ligeiramente mais longe da Basílica do Bom Jesus, onde repousa o corpo insepulto (e maltratado) de São Francisco Xavier, motivo de todas as peregrinações. 
Lá em Colva, a praia enche-se de mulheres que se deixam boiar ao sabor das ondas, os saris e os sarongues berrantes vogando na água como gigantes alforrecas polícromas. Não faltará muito para que a águia venha pescar, assustando os corvos.
Não, não me sinto em casa. É bem mais do que isso. Sinto-me no lugar ao qual sempre pertenci, mesmo quando ainda não tinha percebido. Do Malabar ao Coromandel. De Buj a Tiruchirappally ao ritmo monocórdico dos tirantes. Num autocarro que se desfazia enquanto trepava os contrafortes do Kachenjunga. Em Bikaner, onde há um templo onde os ratos são tratados a pires de leite, de tão sagrados; em Calcutá, a caminho do Sikkin, de Gangtok e de Darjeeling; em Madrasta, que agora se chama Chennai, a terra dos caris de todas as cores que se comem sobre folhas de bananeira. “Índia: meu pai, minha mãe, minha primeira grande verdade”, dizia Salman Rushdie.
Eu tive um tio na Índia. É uma frase que podia começar qualquer livro e ir por aí fora à medida do seu próprio ritmo. Quando me sento no lugar geométrico dos meus dias sem nome, convenço-me de que os fantasmas são como as moscas e é impossível enxotá-los. Aí olho o sol de frente, como num desafio, e ele envergonha-se e mergulha no mar, corado de tons laranja.
Goethe afirmou: “A coisa mais elevada a que um homem pode aspirar é ao assombro!” Eis-me assombrado. Nunca, desde que foi expulso do paraíso, Adão voltou a estar tão perto dele outra vez. Talvez um dia, um sobrinho meu escreva um livro começado assim: “Tive um tio que morreu na Índia.” Ou ganhe o atrevimento de copiar Guimarães Rosa: “Tive um tio que se encantou na Índia.” Talvez tenha razão. Posso ficar aqui para sempre, com o mar como música de fundo na noite de estrelas alinhadas. Por mim, o sítio mais longe onde posso ir parar é ao silêncio…"

Cadomblé do Vata

"1. Jogo de extrema utilidade... foram 90 minutos em que pude jantar, dar o pitéu ao puto, tratar da lareira e ver 2 golos do Maior.
2. Um enorme obrigado ao João Félix... se não fosse ele, daqui a alguns anos, este jogo seria recordado como aquele "em que o melhor do SLB foi o Alfa Semedo".
3. Svilar começa a parecer um daqueles casos em que quanto melhor está, mais banal fica... foi preciso esperar pelo último minuto da compensação para o ver jogar fora da área.
4. Seferovic está num excelente momento de forma, mas continua muito inconstante na finalização... tão depressa mete uma bomba no poste à Cardozovic, como no seguimento da jogada chuta nas orelhas da bola à Makukulovic.
5. É um mimo ver João Félix, Zivkovic e Krovinovic juntos... Rui Vitória tem a obrigação moral de os colocar em campo com o Jonas em todos os jogos."

Cadomblé do Vata (especial tuguices)

"1. Noticia-se hoje que o SL Benfica quer emagrecer o plantel e tem 7 jogadores na porta de saída... bastaria no entanto a venda do Gabriel para o efeito ser o mesmo.
2. Um estudo revelou que a Liga Portuguesa é a que menos tempo de jogo tem durante os 90 minutos... o que vale é que compensamos com longos prolongamentos após o apito final.
3. Modric ganhou a Bola de Ouro, relegando Cristiano Ronaldo para o segundo lugar... depois de anos a ser considerado o Melhor do Mundo com votações limpas e legais, o português é derrotado na primeira aparição da máfia e da podridão do futebol neste troféu.
4. Sérgio Conceição foi novamente multado pelo CD, após a 3ª expulsão só nesta época... o FC Porto vai recorrer da decisão, porque para uma SAD que está há anos a apresentar dezenas de milhões de prejuízo, uma suspensão por 10 jogos, é mais bem vinda do que uma coima de 765,00€.
5. Apenas 1 dia após ter dito que o Sporting era o seu amor, Coentrão emendou a declaração e agora afirma que afinal é o Rio Ave... amanhã vai ser o Vit. Setúbal, na sexta do Atlético Nacional e antes da próxima jornada ainda se torna ferrenho do Celtic."

Benfiquismo (MXXVI)

Traídos pela chuva!!!

Lanças... Apito Dourado II !!!

Vermelhão: Sangue novo...

Benfica 2 - 0 Paços de Ferreira


Jogo com pouca história... Ambas as equipas a não apresentarem o 11 titular e com o Benfica a marcar cedo, mesmo sem 'forçar'...!!! Num jogo com pouca intensidade, o Svilar só foi obrigado a uma defesa digna desse nome, num livre directo... as outras oportunidades (poucas) foram nossas, incluindo uma bomba no ferro do Seferovic...
Sim, no 1.º golo o Seferovic está ligeiramente adiantado! Não percebi as queixas do Paços no 2.º golo do Benfica, se calhar toques de calcanhar são proibidos e ninguém nos avisou!!!
O destaque vai claramente para os jovens, com Félix à 'cabeça' (5 jovens da formação titulares, além do Svilar...), mas com Alfa a demonstrar pormenores de 'jogador'! Mesmo com muitas 'escorregadelas' gostei da evolução do Krovi, que está a ganhar ritmo...
Com os 4 pontos do Aves, este jogo acaba por não ser decisivo, vamos na última jornada à Vila das Aves e não podemos perder... Como é óbvio, temos tudo para nos qualificar para a Final Four, mas com uma qualificação matemática à 2.ª jornada, daria para 'rodar' completamente o plantel, assim temos que ir com algumas precauções, pois este Aves já provou ser uma equipa matreira...

PS: Hoje, antes do jogo respeitou-se 1 minuto de silêncio em memória do nosso Ex-Vice-Presidente da Assembleia Geral Vítor Neves.

VideoVAR

"1. Em seis anos, Jorge Jesus deu 6728 minutos a miúdos da formação do Benfica. Em menos de três anos e meio, Rui Vitória vai em 30311 - nestas contas não estão Oblak (2251' com JJ) nem Nélson Semedo (5664' com RV), pois nunca jogaram nos escalões de formação das águias, só na B. Mal de Luís Filipe Vieira e do seu projecto se só tiver Jesus como alternativa no dia em que Vitória sair.
2. Uma cadeia de restaurantes inglesa oferece as refeições às crianças se os pais desligarem o telemóvel enquanto comem. O CD da FPF devia pegar nisto e adaptar, dando um prémio a Luís Gonçalves sempre que não protestar com os árbitros nos jogos do FC Porto.
3. Por falar em CD da FPF, Brahimi foi multado em 19,13 euros por apertar o pescoço a Niltinho. Uma tentativa de decapitação seriam 38,26 euros?
4. «Em caso de dúvida, o VAR não tem sido muito feliz para nós», disse Sérgio Conceição há cerca de um ano. E sim, é verdade que os dragões tiveram razões de queixa, escrevi-o aqui. Seria justo, agora, que o Sérgio Conceição dissesse: «Em caso de dúvida, o VAR tem sido muito feliz para nós». Porque é verdade.
5. Face ao acumular de disparates, talvez esteja na altura de discutir a criação de um vídeoVAR, basicamente uma equipa de árbitros que, com recurso à tecnologia, auxilie o VAR.
6. Tinha escrito que o jogo com o Vildemoinhos era um copo de água em relação às análises sobre o Sporting de Keizer. Agora já pode dizer-se que há uma piscina de boas ideias. Só estranho que Bruno de Carvalho ainda não tenha culpado Keizer do ataque à Academia.
7. Aos que este ano decidiram dar todos os prémios a Modric (o álibi mais à mão para desenjoar), permitam-me citar, com ligeira adaptação, um famoso poeta da Roma, Kolarov. «Têm o direito de votar, mas também devem ter a noção de que nada percebem de futebol».
8. No fim de semana, o Penafiel foi a única equipa dos campeonatos profissionais que entrou em campo com 11 portugueses. Merecem ser dito «à boca cheia»."

Gonçalo Guimarães, in A Bola

O último lugar da nossa Liga

"O Observatório do Futebol levou a cabo um importante estudo sobre tempo útil de jogo em 37 competições de futebol disputadas na Europa, com os dados a serem recolhidos entre Junho a Novembro de 2018. Quem ficou em último lugar? A Liga portuguesa. Sem surpresa, posso dizer, já que acumulamos más práticas, não de ontem mas de há muito tempo a esta parte. Os males que levam a tão escasso tempo útil (na nossa Liga jogam-se em média 46 minutos, enquanto que, por exemplo, na I Liga dos Campeões se jogam 54...) são variados e vão da apologia de comportamentos errados na formação, no desequilíbrio competitivo no escalão principal, sem esquecer as sinfonias de apito com que muitos árbitros nos continuam a brindar. É pena que até agora ninguém tenha visto os resultados deste estudo como um grito de socorro do futebol português, a precisar de debater de forma adulta matérias relevantes como esta, que não cabem propriamente nas peixeiradas que fazem as delícias das audiências televisivas. Mas talvez um dia destes o International Board aceite o tempo cronometrado e assim recebamos, por via administrativa, uma ajuda que nos equipare aos melhores, no tempo útil de jogo...
Por outro lado, as cenas dos próximos episódios dos clubes portugueses a nível internacional não são entusiasmantes. Continuamos a cair no ranking da UEFA e haverá uma possibilidade mais do que académica dos nossos emblemas virem a engrossar as fileiras da nova competição que aí vem, uma espécie de terceiro escalão à medida da Europa.
Salva-se a Selecção dos emigrantes, que jogam em ligas a sério..."

José Manuel Delgado, in A Bola

Sabe quem é? Na Luz por falta de luz - Deyverson

"Guarda-redes no clube que o pai fez no bairro pobre, fome, pagode e salgados na rua; Maracugina, o outro segredo

1. Carlos Roberto Silva foi guarda-redes, não chegou onde pôs o sonho. Ao deixar de jogar, criou por Santa Margarida, bairro pobre da zona oeste do Rio, a Associação Esportiva Social e Cultural Mamaô. (Mamaô era a alcunha que tinha). Anderson, o filho mais velho logo se tornou seu guarda-redes - e quando o mais novo chegou aos 12 anos abriu-lhe igual destino. (É ele).
2. Dois anos andou entre postes, Anderson contou-o: «Venho que tinha qualidade para jogar na linha, disse a papal que talvez fosse melhor mudar ele para lá, que ser goleiro é posição ingrata - e papai logo achou que sim, que já tinha até pensado o mesmo». (E como ponta de lança saltitou para o Tigres do Brasil e para o Nova Iguaçu).
3. A caminho dos 18 anos, achou que não era no futebol que tinha a chave do paraíso: «Falei para papai que queria virar pagodeiro - e quase matei ele do coração. Sim, eu cheguei a ter dois grupos: o Juventude do Samba e o Banda Boa Influência, a gente tocava em festinhas do bairro». Deixou de treinar, pôs-se a vender salgadinhos pela rua. «Antes também vendi caldo de cana» - e a vida já lhe andara por outros caminhos de pedras (também foi Anderson quem o contou): «Nosso pai chegou a tirar do almoço dele para pagar a passagem de ônibus, para que ele fosse treinar lá a Mangaratiba...»
4. Pouco se deixou levar pela ilusão do pagode - e, ao chegar aos 20 anos, voltou ao Mangaratinense. (Estava-se por 2012). «Me prometeram 500 reais por mês. 500... quando recebia. E, às vezes, tinha de ficar sem café da manhã, almoço: era pipoca ou pão sem manteiga para a gente se alimentar».
5. No Mangaratinense estava quando o destino se lhe abriu aos pés (num capricho talvez): Francisco Oliveira, português que trabalha para o Benfica, estava na sua casa em Angra dos Reis - e, de súbito, a luz faltou-lhe. Sem TV, alguém o desfiou a ir ver um jogo da quarta divisão carioca, murmurando-lhe: «Tem lá cara que a gente chama Acosta que é fogo». (Acosta é um dos seus apelidos - e por Acosta haveria de entrar, como entrou, na história...) Meteu-se no carro, o que viu logo o deslumbrou: «miúdo rápido, que, de pé esquerdo, fez dois golos - e na semana seguinte outros três». Perguntou-lhe se queria ir fazer uma experiência a Portugal (sem lhe dizer onde). Ouvindo que sim, pegou no telefone - e a Luís Filipe Vieira e a Norton de Matos anunciou-lhes que descobrira um «diamante em bruto»...
6. O Benfica deu-lhe contrato a 1200 euros por mês (pondo-o na equipa B). El pediu a Jessica, a namorada, que viesse juntar-se-lhe. Como era uma ninharia o que recebia. Alan Kardec deu-lhe amparo, pondo-os a viver no seu apartamento. Jorge Jesus não lhe deu uma única oportunidade na equipa principal - e acabou dispensado ao Belenenses. Ainda se aventurou ao Colónia - com Lito Vidigal mostrou o futuro que tinha nos pés em pólvora (e, às vezes, na cabeça também).
7. 2 milhões de euros desviaram-no para o Levante, de lá saltou para o Alavés - onde fez mais do que histórico golo da vitória em Camp Nou, mais do que pôs o Alavés na final da Copa do Rei. (Deliciado, o revelou: «No primeiro jogo no Camp Nou alucinei ao ver Neymar entrar. A gente estava aquecendo e eu sempre olhando para ele, o meu ídolo. O treinador tocava a bola e eu devolvia errado. Ele falava: 'Atenção!'. Mas eu só ficava prestando atenção no Neymar, sem acreditar que eu estava ali com ele...»
8. O seu fulgor por Espanha levou a que Cuca o desafiasse para o Palmeiras (para substituir Gabriel Jesus que o City lhe levara), Bruno de Carvalho pensara nele, o telefonema de Cuca não o deixou um segundo na dúvida - e 5 milhões de euros levaram-no para São Paulo. Doença atirou Cuca para fora dos estádios, ainda andou em fugaz travessia de deserto - com Roger Machado quase não jogou, achava-o... «maluquinho».
9. Com o Palmeiras em negrume, foi Scolari para o lugar de Roger. Para «amansar a fera» usou sessões espirituais com Padre Pedro, para lhe travar a inquietude o irrequietismo pô-lo a tomar maracugina. Ainda teve de lhe suportar uma ou outra briga (que o deixou a jogar com 10) - e foi ele que rasgou a história no golo que fez do Palmeiras campeão. E bem mais fez para além desse golo ao Vasco - seu clube quando andava ainda por Santa Margarida e era goleiro sofrido."

António Simões, in A Bola

Passe e devolução: Tiago Dantas e um diálogo representativo do nosso futebol

"(...) escreve sobre Tiago Dantas, jovem jogador de 17 anos do Benfica, que representa um tipo de futebolista que ainda não é tão apreciado como devia ser em Portugal

Passe e Devolução é uma alusão clara à forma como o Nuno Amado, em três palavras, caracteriza a ideologia do melhor treinador que já existiu. Nunca vi ninguém definir tão bem e de forma tão simples o futebol de Guardiola. Veja-se a criatividade no uso de tão poucas palavras mas que abrangem toda a complexidade do jogo que vive na cabeça do génio catalão. E serve essa alusão para falar daquele que é o melhor jogador da sua geração.
Eis o diálogo:
T: Tiago Dantas recebe o passe e joga para trás.
T: A bola é devolvida para Dantas que de primeira toca, novamente, para trás.
D: Parece que o médio tem alguma dificuldade em jogar com a pressão, e ainda não está preparado para as exigências do futebol sénior. O facto de não arriscar jogar para a frente, e de preferir a segurança do passe para um colega mais recuado, é um claro indicador disso.
T: O médio volta a receber a bola e a sua opção é, novamente, jogar para um colega mais recuado.
D: Como estava a dizer, parece um jogador tímido que não quer arriscar e que está a atacar no sentido da própria baliza quando deveria estar a tentar jogar positivo para a baliza adversária. É um puto imberbe.
T: Tiago Dantas recebe e acelera, faz o passe que isola o colega e…
D: Aqui está! Tal como eu comentava, é isto que o Dantas deve fazer regularmente. Jogar com mais risco, jogar positivo, acelerar o jogo. Ele tem qualidade, mas fruto da sua inexperiência ainda não é algo regular no seu jogo e é isso que precisa de melhorar…
T: Talvez se sinta algo intimidado pelo choque, uma vez que não é um jogador potente.
D: Sim. A pouca robustez costuma resultar nisso, e numa maior dificuldade de adaptação ao futebol moderno. É um futebol que está cada vez mais rápido, mais intenso, que tem menos espaço e que por isso os jogadores chocam mais uns contra os outros. Essa vai ser uma barreira difícil de superar.
T: E o jogo aéreo?
D: Esse vai ser outro trabalho que os treinadores do Tiago vão ter que fazer com ele. Vão ter que ser criativos o suficiente para não deixar que esse factor prejudique as suas equipas. Um jogador com esta altura no meio-campo vai perder as bolas todas de cabeça. Aqui, no contexto de formação, ele pode ir jogando porque o resultado não é assim tão importante. Aqui pode errar sem grandes consequências. No patamar seguinte já não lhe vai ser perdoado não ser corpulento porque na alta competição joga-se para ganhar. Imaginem o que será deste jogador num jogo contra a selecção francesa…
FO: Perdoem-me a interrupção, mas está um olheiro do Manchester City a tirar notas e parece que se levantou para aplaudir o lance de pé.
T: Será possível que este jogador tenha espaço num clube tão poderoso?
D: Sim. Só um treinador como Guardiola é que pode apostar nele.
T: Numa equipa de uma liga tão física como a inglesa, não será uma aposta de risco?
D: Claro. Ainda mais na posição em que atua. Em Inglaterra o jogo é mais direto, tem menos interrupções, há os tackles, e é muito difícil para jogadores com este tipo de perfil. Para não voltar a falar do facto de não arriscar muito, e isso numa equipa grande não é visto com bons olhos.
T: Sim. Os números nunca mentem, e este lance é o exemplo disso. Nas quatro vezes que recebeu a bola fez três passes para trás, e só à quarta oportunidade é que tentou virar-se para a frente.
D: A estatística é clara, e diz-nos que ele não produz o suficiente para que se possa considerar neste momento como um talento emergente. E como dá para perceber pelos números apresentados por este gráfico, é dos jogadores que menos correu em campo. Falta-lhe intensidade, e uma maior amplitude no seu jogo para conseguir galgar mais metros.
FO: Entrevistei um adepto que me pede que questione ao nosso painel se este tipo de jogador não faz falta à nossa selecção.
T: Com maior robustez e mais objetividade, este miúdo poderia ser um caso sério para as selecções nacionais.
D: Concordo. Com mais altura, e mais peso, com mais músculo, de certeza que estaria sempre presente nas convocatórias das selecções mais jovens, e teria lugar de destaque como jóia do trabalho de formação que se faz em Portugal. Mas para isso, precisa de crescer e de trabalhar a atitude competitiva.
No diálogo acima: T é o Tiago, narrador de um jogo entre a equipa B do Benfica e o Estoril Praia, a contar para a segunda divisão. D é o Dantas, o comentador convidado. FO é o Filipe Oliveira, o repórter de campo. O diálogo não é mais do que uma conversa normal, e em larga medida representativa, do nosso futebol.
O futebol em Portugal, infelizmente, ainda é muito pensado assim. Não aprendemos nada com Cruyff e com Maradona, tão pouco com Chalana ou George Best. Tivemos o Ricardo Carvalho. Passou o Paulo Sousa, o Figo, o João Pinto, o Rui Costa e o Deco.
Jogadores para os quais todos olhávamos com um brilho especial, jogadores que todos admirámos, e nem por uma vez pestanejamos por serem baixos ou magrinhos. Não dissemos que não teriam hipótese de singrar. Foi-se Xavi, eternizou-se o Iniesta, e agora até temos um jogador que se olharmos com atenção parece que passa fome votado como o melhor jogador do mundo. Nem com a eleição de Modric, para quem só entende o estatuto, nos convencemos de que o critério fundamental para o futebol é o talento incomensurável. Talento que se percebe no pormenor.
Dos 58 quilos que Tiago Dantas pesa, 50 são massa encefálica, os restantes 8 são o suporte para essa musculatura. E é por isso que ele é capaz de brincar com o jogo com acções simples mas de uma enorme complexidade. É tão cerebral, o que ele faz do jogo, que dá até a impressão que ele faz de propósito para complicar os lances apenas para satisfazer a sua necessidade de resolver problemas mais complexos.
No jogo da equipa B do Benfica contra o Estoril, com passe e devolução, ele coloca três colegas no lance, fixa a oposição que se desloca para perto da bola, atraí a pressão de quatro elementos, para depois receber nas costas deles. Aí acelera. Arrisca manter a bola no mesmo sítio, arrisca manter a bola sob pressão, arrisca não fugir da pressão, arrisca provocar a pressão, arrisca que os colegas percam a bola por terem menos tempo e espaço, com um e apenas um só foco: transformar uma situação banal numa situação de verdadeira vantagem para ele ou para os colegas atacarem a baliza adversária.
Por aí, pela forma como envolve os colegas e os adversários se percebe a sua superioridade sobre os demais. Este lance é tão bom quanto qualquer um do Messi em que ele ultrapassa quatro, cinco, ou seis adversários em fila e depois atira ao ângulo. É um lance tão vistoso quanto esses, e que apresenta o talento do jogador de forma inequívoca. A forma como faz com que tudo pareça tão fácil e tão natural, tão limpo, é sublime.
Como se percebe, ele não precisa de corpo porque quando os adversários pensam tirar vantagem disso ele já soltou a bola e já caminha para outro espaço onde estará livre para receber. Infelizmente, o Dantas é mais um daquela estirpe que ousa desafiar a complexidade cognitiva com acções tão simples quanto o passe e a devolução. No Benfica há algum tempo que se percebeu o tamanho, a dimensão, que ele já tem; e percebeu-se também onde pode chegar no futuro. Falta o resto do nosso pequeno mundo tomar nota de algo que já é mais que evidente."

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Polémicas com o VAR no olho do furacão

"Do fim-de-semana mais longo em termos de arbitragem resultou uma série de casos de jogo e de reclamações, cuja maior parte entroncou não na Continua a haver muitas dúvidas acerca do que é essencial, e até por parte dos intervenientes directos, treinadores e jogadores, o que prova que o papel da Federação, em termos de informação aos clubes e aos espectadores, ainda está longe de ser perfeito. As dúvidas são mais que muitas no que diz respeito ao protocolo e suas limitações, recaindo sobre o VAR um conjunto de críticas - algumas delas sem fundamento -, porque, de forma oficial, ninguém vem informar ou esclarecer na praça pública que, neste ou naquele casos, o dito protocolo não permite intervir. Na base do mesmo, de forma bem explícita, embora eu não concorde em absoluto, está o facto de só poder haver intervenção quando a decisão inicial do árbitro for “Um Erro Claro e Óbvio”.
Continua a haver muitas dúvidas acerca do que é essencial, e até por parte dos intervenientes directos, treinadores e jogadores, o que prova que o papel da Federação, em termos de informação aos clubes e aos espectadores, ainda está longe de ser perfeito. As dúvidas são mais que muitas no que diz respeito ao protocolo e suas limitações, recaindo sobre o VAR um conjunto de críticas - algumas delas sem fundamento -, porque, de forma oficial, ninguém vem informar ou esclarecer na praça pública que, neste ou naquele casos, o dito protocolo não permite intervir. Na base do mesmo, de forma bem explícita, embora eu não concorde em absoluto, está o facto de só poder haver intervenção quando a decisão inicial do árbitro for “Um Erro Claro e Óbvio”.
Já falei aqui e em outros espaços de intervenção imensas vezes sobre isto, mas vou repetir as vezes que forem necessárias que no caso em que um videoárbitro vê um lance, ou melhor, vai “checkar” um lance e tem dúvidas em relação ao mesmo, ou ache que há erro do árbitro, mas que esse erro não é evidente aos olhos de toda a gente, ele não intervém. Não intervém, nem faz aquilo que eu acho que deveria fazer, e que o treinador do Boavista, Jorge Simão, também referiu na conferência de imprensa e com o qual eu concordo em absoluto: é que sempre que houvesse um lance de um potencial erro ou de uma decisão que levantasse dúvidas, o VAR deveria dizer ao árbitro isso mesmo. "Olha, tens aqui um lance que levanta dúvidas", por exemplo, de possível penálti, "toma lá as imagens e vai ao monitor ver e depois decide se queres ou não manter a decisão inicial".
É que, no meio disto tudo, nos lances de limite e de potencial penálti, e de cartões vermelhos duvidosos, o protocolo faz com que o VAR se abstenha de intervir e permite que, desta forma, vão caindo e passando lances que eu, como ex-árbitro e com a experiência que isso me confere, creio que levariam alguns árbitros a alterarem a sua decisão depois de reverem as imagens.
Dentro destes lances-limite e duvidosos, destaque para o jogo entre Rio Ave e Sporting e para o possível penálti de Mathieu sobre Vinícius, aos 41' (para mim, era penálti), e para uma eventual expulsão que foi resolvida com cartão amarelo a Vinícius (para mim, cartão vermelho). Do jogo Boavista-FC Porto, é de realçar o lance em que Rochinha cai na área por duas vezes, ao minuto 69, com Brahimi (para mim, penálti), e o minuto 78, com Éder Militão (sem motivo para penálti).
Do jogo Benfica-Feirense, o destaque vai para dois possíveis penáltis não assinalados pela equipa de arbitragem e com os quais concordo plenamente com a decisão. Falo do minuto 50, em que Pizzi cai na área em lance de contacto com Cris, e do minuto 85, em que Seferovic não comete falta sobre Briseño.
Desta jornada ainda, o caso maior de jogo, o golo validado ao V. Setúbal, uma situação que levou o árbitro a ir ao monitor rever o lance, por um fora-de-jogo posicional de um jogador que, não tocando na bola, deixou a dúvida sobre se a sua acção teria ou não impacto no adversário e na capacidade de ele jogar a bola. Um caso interessante, que só é possível explicar acompanhado das imagens, um golo decisivo a poucos minutos do fim, que resultou na vitória dos sadinos, mas que para mim foi obtido de forma ilegal, pois, na minha interpretação, havia mesmo posição de fora-de-jogo que deveria ter sido assinalada.
O VAR tem ainda um longo caminho a percorrer, mas é inevitável, neste momento, afirmar de forma peremptória que veio para ficar. Mesmo a UEFA, com as muitas dúvidas que tinha, já anunciou a introdução do VAR a partir dos oitavos-de-final da principal e mais importante competição de clubes do mundo, a Champions. Por isso, insisto neste ponto: todos os contributos são importantes para o desenvolvimento e melhoria de todo este processo, e os agentes desportivos com responsabilidades directas - e, sobretudo, com poder de intervenção na praça pública - podem e devem criticar a actuação, aqui ou acolá do VAR, mas devem ao mesmo tempo defender esta utilíssima ferramenta que veio trazer mais verdade desportiva ao futebol e ajudar nas tomadas de decisão do árbitro."

Já não primaveril mas não invernosa

"Quando é meia-noite em Manama, Adliya estende-se pelas suas ruelas pedonais ao sabor dos néones dos restaurantes e bares onde se bebe álcool como em qualquer país civilizado

Manama – Quando é meia-noite em Manama, não deixa de ser apenas um começo de noite. Se há algo que me fascina no Oriente – e no Oriente a Oriente, como dizia Pessoa – é o facto de as horas teimarem em não viver preocupadas com o movimento da Terra em redor de si própria. Aqui, a rotação não passa de uma abstracção. Já da translação, não querem nem saber…
Quando é meia-noite em Manama, Adliya estende-se pelas suas ruelas pedonais ao sabor dos néones dos restaurantes e bares onde se bebe álcool como em qualquer país civilizado. Se me dão licença, o álcool é uma forma de cultura como outra qualquer. William Faulkner, que não pode ser confundido com um bêbado barato de boteco ou de taberna, nunca teve dúvidas: “A civilização começou com a destilação!” Quem sou eu para o desmentir. Não tenho quaisquer dúvidas que o vinho fez pela literatura, pela pintura, pela música e por todas as formas de expressar a arte e a criatividade mais do que o velho Louis Pasteur fez pelo queijo fresco.
Adliya é o bairro de Manama onde se bebe e se come e se conversa, e lá pelos primeiros raios de sol perguntamos, muito a propósito, por que raio deram tal nome à capital desta ilha minúscula que para o mundo todo é Bahrain mas já foi, para nós, portugueses, o Barém das pérolas que nasciam das águas doces de um mar salgado: Manama significa Lugar que Dorme. E não só não dorme como não se apaga, transformada como está, tal como as vizinhas Doha, Dubai, Abu Dhabi ou Cidade do Koweit, numa espécie de parque de diversões dos arquitectos que inventam prédios que piscam de luzes e luzinhas, construídos em todas as formas e feitios, em paralelepípedo, em cubo, em elipse, em triângulo e losango e o mais que se está para saber e de fazer inveja a um certo léxico que tomou conta deste novo pontapé na bola no qual alguns furiosos da física e da mecânica resolveram descobrir fantasiosas e vagas geometrias e postulados euclidianos. Felizmente, os mestres que foram fazendo o favor de me ensinar, há mais de 30 anos, encaravam o futebol de outra maneira. (Ia para escrever de outra forma, mas sujeitava-se a mal-entendidos). O Carlos Pinhão, por exemplo, avisava logo que não admitia pontos de interrogação num título ou no final de uma reportagem: “Então o pobre do leitor gasta dinheiro no jornal e ainda tem de responder a perguntas?! Ele compra o jornal para lhe darmos respostas!” Tinha toda a razão, mas hoje faço-lhe aqui uma pequenina desfeita e guardo o pontinho marreco para o fim.
Sentados à minha frente, há quatro casais alemães que comemoram aniversários, desprezando os conselhos do sapiente João de Deus:
“Anos? Não caia nessa
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira
Mas depois se se habitua
Já não tem vontade sua
E fá-los queira ou não queira.”
Estes, pelos vistos, querem. Escorropicham copos de tequila, enchem-se de margaritas e devoram nachos e burritos com uma obstinação de nibelungos. Uma observação mais pormenorizada da mesa estrepitosa permite perceber que a vítima, ou a protagonista, ou aquilo que vos passe pela cabeça, é uma fêmea já não primaveril mas ainda não invernosa. E lá está, em cheio: meia-noite em Manama. A hora que apavorava Machado de Assis mas alegra estes cavaleiros teutónicos que invadiram o Cale México – dá-me a sensação que deverá ter nascido Calle México mas, entretanto, houve alguém que se baralhou com os eles –, algo absolutamente inofensivo se pensarmos que uma das últimas vezes que um grupo de alemães montou uma farra igual, em vez de invadirem um restaurante, invadiram a Polónia. A primaveril mas não invernosa aniversariante faz-me um gesto de convite. Sossegado no canto da minha escrita, recuso, cavalheiro, galante. Provavelmente leu o meu pensamento e o gesto é como o do domador de leões invetivado por um espectador menos convencido da sua coragem: “Vem cá dizer-me isso, mas dentro da jaula!” Mas depois lembrei-me daquele inenarrável personagem queirosiano, o Conselheiro Gama Torres, e fiquei com vontade de lhe responder: “Minha senhora, como posso eu sorrir se a Polónia sofre?”"

Gosto de futebol

"Gosto de assistir a um jogo de futebol. É um espectáculo único em movimento, colorido e animado, em que convivem diferentes estratos sociais e faixas etárias. Faz parte da entidade cultural de muitos países, movimentando assistências mais numerosas do que qualquer outra actividade.

Vibro com as vitórias do meu clube, no respeito por todos aqueles que são adeptos de outras cores. Fico fascinado com a movimentação colectiva de uma boa equipa, de que retenho na memória o Milan de Fábio Capelo, o Barcelona de José Guardiola ou o Porto de José Mourinho. Aprecio a arte dos muitos que fui vendo ao longo dos anos, como Eusébio, Cubillas, Oliveira, Maradona, Deco, Messi, Ronaldinho Gaúcho, Neymar ou Cristiano Ronaldo, só para citar alguns. Apreciei e aprecio mais as jogadas de um destes jogadores do que as músicas de um concerto dos manos Carreira. Não tenho medo de afirmar que, se tiver que escolher, prefiro um bom jogo de futebol a um espectáculo de ópera.
É um erro confundir futebol com algo de menos digno. Em Portugal é uma das actividades com sucesso, quando comparada com diferentes pontos do Mundo, incluindo a União Europeia. Só na actual época desportiva, ainda longe de terminar, os dois clubes que participam na Liga dos Campeões já contribuíram com quase 115 milhões de euros de saldo positivo directo para a balança de transacções. Em 2018, o Futebol Clube do Porto será mesmo a das melhores empresas nacionais neste capítulo.
Sendo uma actividade sujeita a um rápido e intenso desgaste, em que na melhor das hipóteses um jogador tem uma vida profissional útil de cerca de um terço do padrão habitual, não me parece aceitável que o nível de tributação se equipare na totalidade a qualquer outra actividade. Em países como a Espanha, ou Alemanha, por exemplo, os impostos sobre a actividade dos futebolistas chegam a ser quase metade dos praticados em Portugal. Finalmente, quando assistimos ao frenesim da luta pela aplicação da taxa mínima de IVA a todos os espectáculos, das salas de teatro vazias, aos concertos de verão com muita fumaça, terminando na inenarrável discussão do conceito da dor provocado pelos ferros espetados num animal, é revoltante ver o futebol a pagar taxa máxima, englobado no mesmo grupo das actividades obscenas ou de carácter pornográfico! É um insulto à inteligência de todos nós. Por isso digo que gosto de futebol. Ponto!"