Últimas indefectivações

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Sempre Benfica!

"É fácil ser adepto fervoroso quando tudo corre bem; o mais significativo desse fervor é num momento mais difícil e doloroso

1. O Benfica perdeu, no seu reduto, contra o SC Braga para o campeonato nacional. Já não acontecia há 65 anos, era eu uma criança.
Sobre o jogo falarei adiante. Um desaire do meu Benfica perdura-me a alma, sem cuidar da anestesia. Uma vitória do meu Benfica alimenta-me mais do que o mais calórico dos alimentos e anima-me mais do que uma mão cheia de antidepressivos. Na vitória,  meu amor ao clube é partilhado, mas na derrota o mesmo afecto toma a forma de solidão. E, como acontece com a pessoa amada, o seu verdadeiro teste concretiza-se nos momentos difíceis.
É em horas mais tristes que vejo o meu clube como um privilégio de coração e uma cumplicidade que afasta todas as outras circunstâncias. Seja na vitória, seja no desaire, o Benfica aconchega-me dentro de mim e eu dentro dele, num sentimento de pertença mútua, sem personagens, sem fronteiras, sem outras referências. Apenas a imanência de o Benfica estar dentro de mim e eu dentro do Benfica.
Basta pensar os olhos pelas redes sociais para perceber como estranhamente convergem as naturais hossanas de adeptos de clubes rivais com certas críticas a quente de pessoas que se dizem benfiquistas. Até posso perceber a decepção e a raiva nos momentos que se seguem a derrotas, como a de sábado, só não aceito que alinhem com o radical clube do anti-Benfica e contribuam para uma atmosfera de desalento e de derrotismo quiçá bastante exagerados.
No futebol, nada é definitivo. No futebol, e durante uma época, há momentos de intenso júbilo vitorioso e depressivo tempo de insucesso. No futebol, há momentos de sorte (e o Benfica já os teve) e momentos de azar (que também já os sofreu). No futebol, há tendências para o exagero quando se vence e se está na dianteira e para o bota-baixismo diante de um desaire. No futebol é fácil congregar na vitória, mas é mais decisivo unir perante a derrota. Os benfiquistas estão, pois, confrontados com este desafio: continuando na rota do título ainda que, agora, sem margem de erro, devem apoiar a equipa e não se deixarem contaminar por algum desalento, tantas vezes induzido por vias travessas.
No futebol a opinião é movediça, demasiado conjuntural, ao sabor do momento, cheia de hipérboles abonatórias ou de amplificações destrutivas. Há pouco mais de uma semana, toda a gente falava de um Benfica hegemónico, de um Porto em crise prolongada, de um desnível entre a capacidade do SLB e tudo o resto, de uma estratégia segura e duradoura, de uma competição não competitiva, de Bruno Lage sólido. Agora, tudo inverteu. Afinal, no campeonato há há abundante competitividade no nosso cantinho futebolístico, o Benfica deixou de ser o clube da vanguarda, o Porto é um prodígio de sabedoria e capacidade, Sérgio Conceição é, abrasivamente, o rei da união portista. Isto tudo dito pelos mesmos intérpretes sem pestanejar. E quem sabe se daqui a algum tempo não voltarão ao ponto de partida.
Em suma: é fácil ser adepto fervoroso de um clube quando tudo corre bem; no entanto, o mais significativo desse fervor é estar ao lado do clube num momento mais difícil e doloroso. Como, aliás, tem sido bem audível no apoio nos campos de futebol.

2. Sobre o jogo da Luz, começo por referir que foi um dos melhores jogos deste campeonato, sobretudo na primeira parte. O Braga foi feliz, mas lutou por sê-lo. É; inegavelmente, uma equipa magnífica que em menos de um mês, venceu os cinco jogos com os ainda chamados grandes, sendo que ganhou na Luz e no Dragão. Claro que teve alguma felicidade em momentos decisivos desses encontros, mas trata-se de um plantel (sim, também com um excelente banco) valioso que, financeiramente, custa muito menos do que o dos três clubes referidos. Além disso, descobriu Rúben Amorim, um jovem, sagaz e educado técnico, com consciência da transitoriedade inerente ao futebol, e que, de facto, revolucionou o espírito, a estratégia e a coesão do futebol do Braga.
O Benfica poderia ter resolvido o jogo a seu favor nos primeiros trinta minutos, onde se superiorizou ao adversário. Desta feira, faltou-lhe a eficácia letal que tem caracterizado a sua acção em jogos anteriores. Percebe-se que a equipa está algo cansada (ou melhor, alguns atletas) e - ao contrário do que parecia há tempos - existem posições sem uma alternativa adequada. É o caso da posição de lateral-esquerdo, onde Grimaldo precisaria de descansar em algumas partidas, de um outro defesa-central, sendo que Ferro está manifestamente em baixa de forma, e de alternativas fortes no meio-campo. Estes são os pontos que me parece terem sido menos bem tratados no mercado de Janeiro. Faltou contratar um defesa-central à altura das exigências e um lateral-esquerdo (digo isto, no pressuposto de haver razões para a não utilização de Nuno Tavares, que desapareceu do radar após o início da temporada, ainda que jogando na direita). Foi um azar - obviamente não previsível - emprestar Gedson, quando, dias depois, Gabriel se viu impossibilitado de jogar durante um longo período. Bom seria ter agora a opção de Zivkovic que, pelos vistos, se sente bem em receber um farto salário sem grande trabalho. Já Samaris talvez merecesse ser mais bem aproveitado, tendo em atenção a importância que teve na reconquista no ano passado, precisamente por causa de uma lesão prolongada do mesmo Gabriel. Por fim, repito o que já aqui escrevi:deixar sair Salvio, um jogador que, embora irregular, era capaz de resolver jogos complicados e contratar Caio Lucas, um brinca-na-areia que logo se viu que não passava disso, foi incompreensível.

3. Gabriel. Mais do que a sua falta (muito grande, mesmo) no plantel do Benfica, importa atender à pessoa, agora que está confrontado com uma situação clínica delicada. Nesta coluna, quero expressar os meus votos de total recuperação, sabendo, de antemão, dos cuidados clínicos, pessoais e familiares que o clube lhe está a prestar. Enquanto sócio e adepto do clube, e no plano desportivo, estou-lhe grato pelo seu impecável profissionalismo, pela sua competência e pela sua entrega e disponibilidade em campo. Gabriel tem sido um jogador azarado. Esta é a sua terceira incapacitação prolongada nas duas épocas que leva de águia ao peito. Quis o destino que a última acção desta temporada tenha sido o terceiro golo marcado ao Famalicão no último minuto, o qual verdadeiramente permitiu ao Sport Lisboa e Benfica estar na final da Taça de Portugal.

4. O Manchester City foi duramente castigado pela UEFA, não só em termos pecuniários, como o sobretudo pela sua exclusão das provas europeias (neste caso, leia-se da Champions) por batotas financeiras e contratuais que lhe permitiu fugir ao espartilho do fair play financeiro. Tenho pena desta situação, sobretudo pelo Bernardo Silva, brilhante jogador, e por Pep Guardiola, grande treinador. Mas, ao mesmo tempo, fiquei satisfeito pelo facto de esta decisão provar que não há clubes acima das regras. Quanto aos factos em que se baseou a sentença. nada que seja surpreendente neste mundo global do futebol, onde a ganância e a aldrabice andam de mãos dadas. Coincidência ou não (vide também o PSG e outros clubes), trata-se de um clube adquirido por um magnata de petrodólares e de outros rendimentos fáceis, o que talvez nos deva fazer pensar sobre este tipo de aquisições feitas mais em nome do endeusado dinheiro do que do futebol. O futuro o dirá...

5. Tratando-se embora de uma classificação não oficial, A Bola faz o escalonamento dos árbitros nos seus jogos da temporada. Como já estamos para lá do meio da época, este ranking tende a esbater a subjectividade de cada apreciação e dá uma boa ideia do desempenho arbitral. E o que constatamos ao ver a classificação? Os piores árbitros (de uma lista de 16) são os gurus oficiais e sempre designados para os jogos mais decisivos, Jorge Sousa e Artur Soares Dias, a uma grande distância do melhor (João Pinheiro). Por coincidência, estes dois árbitros treinam no centro de estágios da Maia, alvo de pressões e sevícias a que, porém, ninguém com responsabilidades liga. Para bom entendedor..
Nesta lista dos primeiros 16 árbitros, é também sintomático não aparecerem dois juizes que, na minha opinião, são a expressão da pior arbitragem que temos de suportar através de um incompetente Conselho de Arbitragem: o inefável Fábio Veríssimo e o envieado Tiago Martins agora remetido mais no esconderijo do VAR, onde continua inspirado.

P.S. Abominável, a todos os títulos, o que aconteceu com o jogador Marega, numa vergonha perpetrada por indivíduos que jamais deveriam estar num estádio de futebol. Aplaudo a reacção imediata das entidades que supervisionam o futebol, esperando que, desta feita, saibam tomar as medidas punitivas e, sobretudo, preventivas que se impõem. Mas não bastam comunicados. E, nesse momento, recordo também os insultos racistas a Nélson Semedo, também em Guimarães, em 2017, sem qualquer reacção mediática e sem a decida punição."

Bagão Félix, in A Bola

Reinvenção da águia, sim

"Lage tem a consciência plena de que o seu estado de graça acabou por ter permitido a recuperação portista em seis pontos e pela discrição exibicional da sua gente

Bruno Lage, na primeira declaração sobre a derrota sofrida com o SC Braga, afirmou não ter memória de a sua equipa ter feito um jogo «tão sólido e constante». Enfim, foi a forma que encontrou para tentar justificar um resultado com o qual não contaria, apesar de os desempenhos recentes terem indiciado mau tempo no percurso da águia. Acrescentou o treinador benfiquista que vai enfrentar o problema de frente e com essa mentalidade «chegar ao final do campeonato» na posição que hoje ocupa e, naturalmente, voltar a ser campeão.
Palavras circunstanciais, admite-se, mas ditas com a firmeza de quem acredita no seu trabalho, não só pelo exemplo que deu quando foi chamado para substituir Rui Vitória e conduziu ao título um plantel descrente, mas também por saber que ser campeão com um ponto de vantagem ou com dez vale exactamente o mesmo.
Lage tem a consciência plena de que o seu estado de graça acabou, ou, no mínimo, sofreu uma ligeira interrupção, não apenas por, em duas jornadas, ter permitido a recuperação portista em seis pontos, mas, principalmente, pela discrição exibicional da sua gente, uma constante ao longo da presente época apenas disfarçada pelas vitórias e pelos golos marcados.

Em Janeiro de 2019, Bruno Lage pensou e decidiu, 'vou lançar o miúdo'. Inventou. Mudou o sistema, a dinâmica, a atitude, mudou quase tudo e o efeito surpresa foi demolidor. Entretanto, os adversários foram adquirindo defesas e hoje verifica-se que boa parte deles conseguiu descodificar os segredos do futebol encarnado.
Como não vejo este Benfica mais forte do que o anterior, pelo contrário, creio que o grande desafio que se coloca a Lage é o de reinventar qualquer coisa, não me ocorre outra expressão, para surpreender outra vez. Há um ano, mudou para o 4x4x2 e foi determinante, não pelo desenho táctico em si, mas por ter entendido que em função das características dos seus actores principais este seria o cenário mais favorável. Em cheio! João Félix e Jonas, quando as costas lho permitiram, em meia época, valeram 26 golos e através deles foi possível gerar imensas soluções para outros se destacarem e enriquecerem a capacidade concretizadora do colectivo.
Hoje, ou insiste numa fotocópia do que correu maravilhosamente na época transacta, embora com outro intérpretes, ou investe em novo formato para equilibrar a equipa e protegê-la de correntes de ar na sua organização defensiva e que lhe têm provocado severos arrepios, em concreto a partir do jogo com o Aves, na Luz, no dealbar do corrente ano.

O que custou à família benfiquista, mais do que ficar com a liderança segura por um ponto, foi a dupla derrota com o FC Porto, apesar de na época anterior ter alcançado uma dupla vitória, mas a memória dos adeptos é fraca.
Perder dois jogos com o FC Porto no mesmo campeonato pode ferir o orgulho da nação benfiquista, mas não é suficiente para abalar o projecto de Luís Filipe Vieira, como testemunha o exemplo de 2016, no consulado de Rui Vitória, em que derrotas no Dragão e na Luz não impediram que o Benfica festejasse o título.
Dos 28 campeonatos do FC Porto, 18 foram conquistados a partir de 1990, coincidente com a presença do Benfica na última final da Taça dos Campeões Europeus, em Viena. Depois, a história encarregou-se de contar o resto. À imparável ascensão portista correspondeu brutal colapso encarnado, consequência de erros trágicos que deixaram o clube de mão estendida, sem dinheiro, sem rumo, sem futuro.
Já neste século, porém, a tendência começou a alterar-se, com o FC Porto a continuar mais forte na primeira década, mas a fraquejar na segunda perante a resposta forme do Benfica, com cinco campeonatos nos últimos seis anos. A terceira está a começar e vai decidir para que lado penderá o fiel da balança.

Moussa Marega
Ouviu, encheu e explodiu, trazendo para a discussão pública um problema que se pensava ser dos outros e que ele provou ser também nosso: o que levou a classe política a atropelar-se em manifestações de solidariedade e de repúdio, como é costume. Podia ter acontecido noutro estádio, mas se calhar não foi por acaso que aconteceu no do Vitória de Guimarães. Percebo a posição do treinador do clube minhoto, entendo mal a do seu presidente e sinto-me não sei como depois do que ouvi ao secretário de Estado do Desporto, na TSF: passou a bola aos clubes, argumentou que a questão é complexa, desculpou-se com a falta de cultura da pessoas e defendeu que o problema é de todos, apelando à intervenção de espectadores mais sensatos no sentido de fazerem pedagogia junto dos mais exaltados.
O primeiro-ministro teve a virtude de ir direito ao assunto.

Nota final: A quem faz o favor de me ler retribuo com um convite para as noites televisivas de segunda-feira, excessivamente acaloradas e ácidas em todos os canais. Se preferirem um programa em que se fala de futebol com graça, sugiro o Amigos da Bola, em A Bola TV, às onze da noite. Com o benfiquista Luís Filipe Borges, o portista Vasco Correia e o sportinguista Bruno Ferreira, se não em engano. Experimentei e fiquei. A entrevista a Paulo Bento, que já consegue dizer umas frases em coreano aos seus jogadores, foi de rir até a barriga doer... Experimentem também."

Fernando Guerra, in A Bola

Um pontinho... que é só meio

"Quem de sete tira seis, só pode contar com um. Um pontinho apenas, é o que o Benfica conta para a defesa da sua liderança. Aliás, se fizermos bem as contas, é meio ponto de vantagem, porque o FC Porto chegar à igualdade pontual com o Benfica ficará, desde logo, no topo da classificação.
Diz Lage que, diga-se o que se disser, mesmo que seja por um ponto, é o Benfica que vai na frente. É matematicamente certo, mas há que considerar a matemática e as suas circunstâncias. A primeira é a tendência. Há uma tendência de queda do Benfica e uma tendência de ascensão do FC Porto. Mudar esta realidade é mudar a situação traumática do Benfica para um estado de boa saúde física e mental, coisa que não se percebe bem como Lage irá conseguir; e mudar o sentimento de confiança e até a estrelinha da sorte, que tanto se nota num FC Porto que sente a presente que a liderança é uma questão de tempo e paciência. Há ainda uma segunda circunstância e, essa, é de natureza histórica, a começar pela história muito recente em que o Benfica estava precisamente a sete pontos do FC Porto e foi por ali fora, até dar a volta a conquistar o título, situação que pode agora repetir-se, mas de forma inversa.
Pelo meio da discussão do título mete-se a quase já esquecida questão europeia. Será muito curioso ver como o Benfica irá abordar o seu compromisso europeu. Regresso a uma desvalorização competitiva para lhe permitir apostar as fichas todas na defesa do título de campeão? Aproveitar haver menos pressão para reconquistar níveis de confiança que andam totalmente perdidos? Não deixa de ser curioso ver o que acontecerá."

Vítor Serpa, in A Bola

'Egoponto'

"1. Luís Filipe Vieira após a vitória do Benfica em Alvalade: «Deixem lá os sete pontos, façam de conta que é apenas um». Os jogadores não precisavam de levar estas palavras tão à letra.
2. Coates devia pensar seriamente em pedir ao tribunal uma ordem de restrição contra Taremi, do Rio Ave.
3. Se tivesse mais uma substituição frente ao SC Braga, de certeza que Bruno Lage teria metido a newsletter para acabar com quatro pontos de lança.
4. Apesar dos últimos resultados, não acho que o Benfica precise de um treinador estrangeiro ou de um central estrangeiro para o lugar de Ferro.
5. Se o futebol escolhesse um embaixador para a futilidade, seria Neymar: depois de duas descolorações para conseguir o tom rosa, teve de rapar o cabelo e fazer tratamento ao couro cabeludo.
6. Com este plantel não é fácil Silas ser GodSilas, mas em 24 jogos não era preciso ter utilizado 24 tácticas.
7. Um jogo não pode ser um egoponto onde as pessoas reciclam frustrações, como se os insultos a árbitros fossem plástico, o racismo fosse papel e a violência contra adeptos, rivais fosse metal. Alguém meta mão nisto.
8. Num dos últimos casos de racismo na Liga (com Renato Sanches), o Rio Ave pagou a fortuna de 536 euros. Que a mão pesada continue após todos terem cumprido a sua missão no caso Marega: falar à Lusa ou fazer um comunicado.
9. O presidente do V. Guimarães ainda agora chegou e já parece estar a mais no futebol. A única provocação de Marega, pelos vistos, é ser preto. Por acaso o nome Pinto Lisboa é uma provocação à cidade do Porto ou a Pinto da Costa?
10. A frase mais imbecil que encontrei nas redes sociais: «Se eu ganhasse o que Marega ganha podiam chamar-me o que quiserem». É um problema da sociedade antes de ser do futebol.
11. Luís Filipe Vieira sobre o facto de o Benfica já só ter um ponto de avanço sobre o FC Porto: «O trajecto culminará por duas vezes no Marquês». Se os jogadores fizerem de conta, é possível."

Gonçalo Guimarães, in A Bola

Portugal e o Futuro

"Estamos a assistir a uma progressiva radicalização da sociedade portuguesa, onde os extremos ganham força, cada um alimentando o outro. Ao mesmo tempo, no espaço público, está aberta via verde para a cultura do ódio, onde não há adversários, apenas inimigos. Este caminho, se não for, entretanto, arrepiado, fará de nós um País pior.
O futebol, congregador de massas e portento de força mediática, não tem contribuído para a pacificação da sociedade, e os pirómanos ao serviço dos clubes têm encontrado respaldo em decisões frouxas dos tribunais, que desvalorizam a ofensa que aconteça nesse ambiente específico.
O caso Marega abre-nos portas para uma discussão profunda e devemos estar gratos pela pedrada no charco de Guimarães. O racismo deve ser combatido sem tréguas nem quartel; mas, e toda a restante violência associada ao futebol, que tem sido atacada com punhos de renda por juizes diletantes, governantes temerosos e dirigentes de vistas curtas?
O que aconteceu a Marega é intolerável. Mas igualmente intoleráveis são os cânticos que há décadas somos obrigados, sem que ninguém se rebele, a ouvir nos nossos estádios, seja «SLB, SLB; SLB, filhos da p...», seja «Em cada tripeiro há um p...», ou «Em cada leão há um c...».
Aos juízes, pergunto por que razão há de uma ofensa num estádio ser menos ofensa do que num tribunal? Aos governantes, pergunto se já não é tempo de se mostrarem de espinha direita e legislarem sem medo dos lóbis do futebol? E aos dirigentes, a pergunta que deixo é simples; querem matar a galinha dos ovos de ouro e, pactuando com a violência, liquidar uma indústria que tem tudo para ser próspera?"

José Manuel Delgado, in A Bola

Benfica Poscast #354 - 7 to 1 in 7 days

Vamos todos rir

"A lista seria interminável, mas não temos tempo, nem caracteres para isso.
Para além de centenas de outros casos, quando alguém que acede a material roubado (de que forma, ainda por apurar), manipula, divulga e trunca correspondência privada de um competidor directo, alicerçado numa campanha suja, tóxica e manipuladora, vem dizer uma coisa destas, que mais há a dizer?
Isto não é falta de noção, é gozo e consciência do vale tudo em que vivem. Até quando?"

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

A luta da UEFA contra a contas maquilhadas dos clubes!

"Depois do escândalo das contas do Manchester City, a UEFA pretende passar à acção.
Deste modo, a Confederação europeia de futebol estará a estudar a implementação de uma norma que restrinja as mais valias financeiras obtidas pelos clube de modo fictício e não correspondentes à verdade, tal como ocorreu com o clube inglês. Tal sucedeu, também, com o Chievo, na Serie A italiana, que para cumprir os pressupostos financeiros de participação, trocou jogadores com o Cesena, a preços muito acima dos normais, para ter um balanço financeiro positivo.
Assim um dos modos mais comuns para serem alcançadas as referidas mais valias passará pela compra e troca de jogadores a preços superiores ao que se encontram avaliados (o player-trading), que, como pelos exemplos dados, demonstramos ser o modo mais rápido e eficaz de equilibrar as contas de qualquer sociedade desportiva.
Tal permitirá aos emblemas em questão ludibriar as regras preconizadas pelo fair-play financeiro, evitando deste modo a aplicação de sanções pelos órgãos reguladores.
A UEFA, essa, já assumiu que tem um problema entre mãos. Encontra-se, neste momento, à procura da melhor solução para o resolver, de modo a que os balanços dos clubes reproduzam a realidade das suas contas, ao invés de iludirem as entidades fiscalizadoras.
Veremos se conseguirá!"

Sport Lisboa e (Pouco) Benfica

"Fevereiro tem sido um mês avassalador para o Sport Lisboa e Benfica. Até ao momento, em quatro partidas disputadas, leva uma vitória, um empate e duas derrotas. Um registo muito mau para uma equipa que se assume candidata ao título nacional e que aspira a muito mais.
Neste momento, ao passar da 21ª jornada, o SL Benfica poderia estar confortavelmente no cimo da tabela classificativa, com mais dez pontos que o segundo classificado, mas não. Está apenas com um ponto de avanço do seu rival FC Porto e tudo por culpa própria.
As más exibições da equipa, no seu todo, são a principal razão para o actual momento de forma dos encarnados, mas há mais alguns factores que influenciam este descalabro.
Gabriel vinha a ser um dos pilares do meio campo do glorioso nesta temporada e a sua lesão revelou a sua importância no miolo do Benfica. A verdade é que a sua lesão veio na pior altura possível. Facto curioso: sempre que o Benfica perdeu pontos no campeonato, Gabriel esteve ausente da convocatória. Isto diz muito da preponderância que o médio tem na formação de Bruno Lage.
É urgente substituir este jogador, porque está claro que a equipa baixou imenso o seu rendimento e sem data prevista para voltar aos relvados, torna-se imperial arranjar uma alternativa viável.
Outro factor, este também bastante evidente, é o mau rendimento de Ferro. O jovem central tem comprometido muito na linha defensiva das águias e tem sido o elo mais fraco das águias.
A sua disponibilidade física é uma das razões para esta baixa de rendimento, o que tem influenciado directamente as suas exibições, sendo que muitos dos golos sofridos pelos encarnados têm surgido pela zona defendida por Francisco Ferreira. Numa situação normal, Ferro já estaria no banco de suplentes, mas a falta de opções para o eixo defensivo concedem-lhe um estatuto de quase intocável. 
Está bem evidente que no mercado de Janeiro o Benfica deveria ter contratado um substituto capaz de fazer concorrência para o centro da defesa. Com a lesão de Jardel, Samaris seria alternativa, pois não faz sentido continuar a jogar com o Ferro, se o jogador não está bem.
Ter um plantel curto até poderia fazer sentido, mas, neste momento, o Sport Lisboa e Benfica está em três frentes: Primeira Liga, Liga Europa e Taça de Portugal. Ora, tendo em conta que um clube como o Benfica tem o objectivo de estar e vencer em tudo, também tem de ter profundidade no plantel para conseguir disputar todas estas competições.
Jogadores como Pizzi e Grimaldo têm sido titulares indiscutíveis e raramente são poupados por Bruno Lage. Ambos os jogadores têm apresentado uma quebra no seu rendimento e julgo ser por terem demasiados minutos nas pernas.
Nuno Tavares podia ser uma opção para render Grimaldo naqueles jogos de menor intensidade, mas, por qualquer motivo, Lage aposta sempre no mesmo. Também Jota, Florentino e até Samaris podiam ser boas escolhas para rodar a equipa nesta fase da temporada. Esperemos só que não comecem as poupanças nos jogos da Liga Europa.
Bruno Lage enfrenta o maior desafio desde que está no comando técnico do glorioso: recuperar uma equipa que está em clara quebra de rendimento e que tem várias frentes por disputar.
Veremos como é que o técnico dos encarnados reagirá a este problema que está a afectar as exibições do Benfica. Os problemas, ou parte deles, já foram identificados. Agora, Lage, é trabalhar para os corrigir."

Jogadores que Admiro #108 – Nicolás Gaitán

"Osvaldo Nicolás Fabián Gaitán – Nico Gaitán – é um prodígio de técnica, um raro exemplar de inteligência em campo.
Pessoa tímida que sempre teve no relvado o mundo onde expressar as suas emoções, sempre de bola no pé, sempre emocionalmente ligado ao fenómeno que é o futebol. O argentino nunca conseguiu esconder das bancadas os seus sentimentos. Os seus toques, os seus passes, as suas fintas, tabelinhas e remates sempre foram um espelho da sua alma.
Já vimos um Nico triste de futebol desinspirado, já vimos um Nico feliz de futebol alegre e já vimos um Nico realizado e de futebol entusiasmante
Chegou ao Estádio da Luz no Verão de 2010. Chegou para substituir o seu compatriota Ángel Di Maria. Dois mágicos, um mais desequilibrador pela linha em velocidade e outro pelo centro em classe.
Foram seis anos de águia ao peito. Meia dúzia de anos onde actuou pela esquerda, pelo centro e pela direita. Chegou mesmo a ser um Simão da ala direita. Enfrentou lesões e problemas de confiança (talvez também pessoais) que durante ano e meio condicionaram o seu futebol. Nos primeiros três anos de vermelho e branco não sentiu o sabor de ser campeão. Foram anos de maturação. Foi abaixo e levou o seu futebol consigo, voltou à tona e elevou o futebol do Sport Lisboa e Benfica.
Quando saiu foi como tricampeão. Deixou na Luz e na memória dos adeptos momentos épicos que irão perdurar para sempre. Juntamente com Pizzi, Jonas e Mitroglou formou um quarteto mágico de sonho.
Era capaz de resolver um jogo por si, com um remate impensável ou uma arrancada imparável. Era capaz de vencer pela forma como fomentava o colectivo da equipa, provocando os seus colegas a serem melhores, entendendo-os e encontrando-os em qualquer pequeno espaço onde se encontrassem.
No Sport Lisboa e Benfica foram 253 jogos, 41 golos e 88 assistências. Conquistou três títulos de campeão nacional, uma Taça de Portugal, cinco Taças da Liga, uma Supertaça e ainda foi duas vezes vice-campeão da Liga Europa.
Não dá para esquecer Nico Gaitán de vermelho e branco a criar a vitória do Benfica em pleno Vicente Calderón. Na segunda-parte, já depois de ter concretizado o golo do empate, o argentino desenhou uma jogada de futebol de rua. Arrancou da área encarnada, tabelou na linha com Jonas, em velocidade tirou uma garrafa de água do caminho, puxou para dentro batendo o seu marcador e de pé direito encontrou a desmarcação de Gonçalo Guedes para o golo da vitória.
Em jogo de Liga Europa conseguiu na Luz, frente ao PAOK, baptizar um livre com o seu nome. Uma “panenkada” de fora da área a sobrevoar a barreira até se aninar no conforto das redes. Um golo impensável. Um golo só possível no mundo maravilhoso de um virtuoso como Nico Gaitán.
E para todo o sempre ficará o bailado em pleno Estádio José Alvalade. Impossível descrever. No momento em que recebe a bola deu-se um clique na cabeça do argentino e de repente descobriu o fogo e criou a teoria da relatividade. O golo nasceu assim que tocou na bola. A partir daí foi bailado. Dançou, avançou, tabelou com Enzo que lhe devolveu de primeira pelo ar e Nico, sem deixar a redonda tocar no relvado, tocou também de primeira para Lima, ao primeiro toque, finalizar no ar um golo pintado pelo fantástico maestro que Gaitán se tornara.
Em 2016 procurou um campeonato com outra qualidade, mas acabou por escolher uma casa que não o compreendia. Nico Gaitán respira e vive Futebol. Sem bola é um homem triste, um jogador apático. No Atlético de Madrid perdeu a alegria. Seguiu-se a China e a MLS, desaparecido num mundo que não era seu.
Agora, a fazer 32 anos, poderá voltar a encontrar em França a felicidade e o prazer do jogo. Bom campeonato, boa equipa para o seu futebol e um clube que está a lutar pelo pódio francês. No Lille OSCM poderemos voltar a ver o Nico fantasista que vive feliz a vender fantasias aos adeptos do Futebol.
Eu estou desejoso por o ver renascer. O futebol de Nico Gaitán é pura emoção na ponta da chuteira."

Uma causa de todos os dias

"O Sport Lisboa e Benfica e a sua Fundação todos os dias fazem da solidariedade e da inclusão uma acção permanente, e de há muito que fazemos do combate ao racismo uma causa prioritária, participando de forma activa em diversas iniciativas da UEFA.
Mais do que nunca, confrontados com o deplorável ato de racismo de que o jogador Marega foi vítima, importa recordar as palavras do Presidente Luís Filipe Vieira quando, a 23 de Outubro de 2019, lançámos uma pioneira iniciativa pela igualdade junto da UEFA.
"O Sport Lisboa e Benfica fez questão de se associar à campanha #EqualGame da UEFA porque a nossa história, como instituição de referência desportiva em Portugal, no resto da Europa e mundo, acolhe múltiplos exemplos e tem tudo a ver com os valores de inclusão, de diversidade e de acessibilidade que esta iniciativa promove e que estão inscritos na nossa identidade.
Uma das nossas grandes forças sempre foi sermos um espaço aberto, popular e diversificado de talento, de oportunidades e de humanismo, bastando recordar esse maior símbolo do nosso clube, Eusébio da Silva Ferreira.
Nas competições desportivas como na vida não pode haver espaço para a discriminação, seja ela de que natureza for. Em campo somos todos iguais, fora dele todos temos de ter oportunidades de dar expressão às nossas diferenças e competências em plena igualdade.
Estamos totalmente sintonizados com o espírito e os objectivos da campanha #EqualGame da UEFA porque somos parte desse combate, porque somos todos iguais!""

A fantochada do racismo

""Marega não só não se portou como um profissional íntegro, porque se deveria ter limitado a jogar futebol, como ainda ajudou à festa, retribuindo ao público os gestos ofensivos que lhe eram endereçadas"

Um jogador, negro, marca um golo contra a sua antiga equipa, por sinal aquela que o catapultou para o futebol português, e em vez de o ir festejar junto dos adeptos do seu clube, como seria natural e expectável, opta por se dirigir a uma das bancadas repletas de claques da equipa adversária e, numa atitude provocatória, aponta para a côr da sua pele. Não contente, ainda lhes faz um gesto obsceno, com o dedo do meio.
Imagine-se, agora, que tem sido ao contrário, ou seja, o jogador seria branco e teria-se-ia encaminhado para uma bancada frequentada maioritariamente por negros e insinuado a superioridade da sua raça! No mínimo, era irradiado do futebol e os folhetins televisivos, alusivos ao acto ostensivamente racista e xenófobo, prolongar-se-iam durante semanas a fio.
Mas não, no pensamento dominante que impera nos meandros políticos da sociedade portuguesa, bem como junto daqueles que se consideram uma casta superior, somente existe racismo quando praticado contra minorias! Por isso não se ouviu uma única palavra de condenação do comportamento do jogador que fez a apologia da côr da sua pele para celebrar um golo, porque, pura e simplesmente, se trata de um negro, e estes, na acepção do politicamente correcto, são sempre vítimas, nunca agentes provocadores.
Mas voltemos a Guimarães, berço da nacionalidade e que acolhe como clube principal da terra um que ostenta como cores o preto e o branco, símbolo da concórdia entre raças. A reacção natural, mas não inteligente, dos adeptos, conhecidos no mundo do futebol como dos mais bairristas e agressivos no apoio à sua equipa, foi de responder pela mesma moeda, perdendo-se em insultos ao jogador que os ofendera, muitos deles de cariz racista, entoados por uns quantos pobres de espírito.
Obviamente que se tratou de uma resposta lamentável e absolutamente condenável, porque perderam completamente a razão ao baixarem o nível para o mesmo patamar para onde descera aquele que procuraram atingir.
A histeria colectiva que se abateu sobre a sociedade, de repúdio pelo comportamento dos adeptos vimarenses, teria toda a razão de ser se os arautos de tamanha indignação tivessem, igualmente, criticado a performance do Marega, porque ambos, público e jogador, praticaram actos racistas e deploráveis.
Ao orientarem toda a sua raiva para apenas uma das partes, tornaram-se parciais; ao branquearem os gestos lamentáveis do jogador, transformaram em herói aquele que foi também vilão.
E o argumento de que os insultos ao Marega começaram muito antes do minuto em que ele marcou o golo que deu vantagem no marcador ao FCP, não tem qualquer fundamento que justifique o seu posterior comportamento: houve insultos, sem dúvida, bem audíveis nas reportagens televisivas que nos foram facultadas, logo no período de aquecimento, mas não foram de índole racista, mas sim direccionados, maioritariamente, à senhora sua mãe! Do mesmo tipo daqueles que os árbitros passam os jogos todos a ouvir e nem por isso resolvem abandonar o campo. Ou dos que os próprios jogadores dirigem uns aos outros em disputas mais quizilentas ou com que o público brinda este ou aquele jogador, simplesmente por não gostar dele.
Marega não foi, nessa altura, insultado por causa da sua origem racial, mas sim por se tratar de uma antigo jogador da casa. As claques, regra geral, não perdoam a quem troca o seu clube por um rival e, como represália, fazem-lhes a vida negra sempre que regressam ao estádio onde já foram acarinhados.
Todos nos recordamos, certamente, dos insultos infames que eram lançados sobre Luís Figo, durante toda a partida e sempre que tocava na bola, quando este ia jogar a Barcelona, depois de ter trocado o clube daquela cidade pelo Real Madrid. Inclusive tinha que suportar o arremesso de objectos, que por vezes o atingiam, mas mantinha a cabeça erguida e fazia aquilo para que era muito bem remunerado, ignorando o que se passava à sua volta. Agia como um verdadeiro profissional.
Acontece que na alta competição os seus intervenientes são pagos a peso de ouro e têm de estar preparados, física e psiquicamente, para suportar as amarguras das ofensas, mantendo a concentração exclusivamente dentro daquilo que se passa no interior das quatro linhas.
Marega não só não se portou como um profissional íntegro, porque se deveria ter limitado a jogar futebol, como ainda ajudou à festa, retribuindo ao público os gestos ofensivos que lhe eram endereçadas, contribuindo, dessa forma, decisivamente, para o ambiente escaldante que tomou conta das bancadas de espectadores.
Condene-se quem proferiu comentários racistas. É imperativo que esses comportamentos desapareçam da nossa sociedade. Mas sancione-se igualmente quem não esteve à altura daquilo que dele era exigido e perdeu-se também em atitudes provocatórias, incluindo algumas de teor racial.
Por cá proliferam diversos movimentos políticos, alguns requalificados em partidos, que devem a sua existência ao pressuposto de que a sociedade portuguesa é estruturalmente racista. Se se provar que os portugueses, como um todo, nada têm de racistas, essas oportunistas agremiações perdem a razão da sua vivência. Conscientes disso procuram, insistentemente, encontrar racistas onde eles não existem e provocam aqueles que, em certa medida, o são, obrigando-os a sair da toca.
No fundo, esses supostos apologistas de um são relacionamento entre todas as comunidades, em que a côr da pele não represente qualquer conflito de interesses, não pretendem, de maneira alguma, combater o racismo, mas sim fomentá-lo! E, com as suas falinhas mansas, conseguem converter para as suas enganadoras causas os mais incautos, que os seguem cegamente, da mesma forma como um rebanho de ovelhas caminha atrás do seu pastor.
Há racistas em Portugal? Claro que os há! Mas daí concluir-se que a nossa sociedade é estruturalmente racista, como essa gente nos pretende fazer crer, será o mesmo que acusar-se os portugueses de serem ladrões, só porque há quem se dedique à ladroagem. Ou que somos um povo de assassinos, somente porque, entre nós, há quem tire a vida a um seu semelhante.
Já chega de tanta parvoíce e hipocrisia. É altura de abrimos os olhos e ganharmos a capacidade de saber distinguir os justos dos oportunistas. E mandarmos estes últimos à sua vidinha, acabando com o seu reino!"

"A esta distância e com outra frieza, o incidente com Marega deve merecer alguma reflexão e várias considerações. A primeira é a de que é errado (e muito injusto) confundir a árvore com a floresta. Guimarães é uma cidade lindíssima, o Vitória SC um clube gigante e a maioria dos seus adeptos devotos e apaixonados. A segunda é a de que foi claro, para todos, que ninguém estava à espera que aquilo acontecesse. E por "aquilo" não me refiro ao facto de meia dúzia de jumentos divertirem-se a imitar sons de babuíno. Refiro-me à coragem do atleta em dizer: "Basta!!"

A esta distância e com outra frieza, o incidente com Marega deve merecer alguma reflexão e várias considerações.
A primeira é a de que é errado (e muito injusto) confundir a árvore com a floresta. Guimarães é uma cidade lindíssima, o Vitória SC um clube gigante e a maioria dos seus adeptos devotos e apaixonados. A segunda é a de que foi claro, para todos, que ninguém estava à espera que aquilo acontecesse. E por "aquilo" não me refiro ao facto de meia dúzia de jumentos divertirem-se a imitar sons de babuíno. Refiro-me à coragem do atleta em dizer: "Basta!!".
A reacção - inesperada e impactante, fruto da sua personalidade e temperamento - apanhou tudo e todos de surpresa. Curiosamente, esse seu temperamento deu o mote para que alguns "atiradores de areia" recordassem-nos que o franco-maliano também tinha provocado as bancadas, em atitude que já não era nova.
Percebe-se a fuga para a frente. Tentar descredibilizar a idoneidade da vítima é modus operandi comum nas salas de audiências. Neste caso, a teoria fez-me lembrar um filme protagonizado por Jodie Foster (violada repetidamente num bar cheio de cowboys). No tribunal, o juíz perguntou-lhe: "Você foi para lá de mini-saia... estava à espera de quê?!".
Fazer da vítima o homicida é macabro.
Faz lembrar-me outra história, real, de um tipo que espetou mais de cinquenta facadas num amigo só porque ele lhe tinha dado um estalo na cara. Alegou... legítima defesa.
Quem não anda a dormir é o país e o mundo. As reacções de condenação foram avassaladoras, sendo que a grande dificuldade aí foi distinguir as genuínas das hipócritas. As verdadeiras das falsas.
É importante chamar as coisas pelos nomes e a verdade é que uma percentagem considerável de "Je suis Marega" são conhecidos pirómanos da nossa praça. Pirómanos profissionais, com licenciatura, mestrado e doutoramento.
Confesso, não deixa de ser surpreendente a forma como tantos usam agora asas de anjo, quando vestem diariamente a pele de diabo. Será que eles acham mesmo que nós não sabemos quem são? 
Outra das expectativas também é a de perceber quando é que as firmes palavras de repúdio passarão a sanções efectivas.
Sabemos que há regulamentos e leis para cumprir e que, em boa verdade, quem tem o poder de decisão está literalmente algemado. Mas também sabemos que quando a pressão atinge determinado patamar, as coisas podem acontecer ainda que de forma excepcional. Quanto às "armas que agora existem", bem, têm que voltar a ser revistas. Só se combatem crimes graves com artilharia pesada e por cá já se percebeu que a melhor prevenção é a punição.
A nota final vai para uma triste constatação: foi preciso que um profissional de futebol conhecido abandonasse o terreno de jogo, para que uma nação inteira despertasse para uma realidade que existe há décadas. Mas a intolerância racial é apenas a face visível de várias desigualdades que proliferam na nossa sociedade. O desporto, com o futebol à cabeça, apenas a montra maior para que muitos a exerçam de forma (quase) impune.
A verdade é que, todos os fins de semana, árbitros, atletas, treinadores, jovens jogadores, roupeiros e guardas de campo são insultados, diminuídos e ridicularizados por serem "pretos, monhés, gordos, anões, marrecos, zarolhos ou coxos"
É um festival de horrores a céu aberto, perante a passividade de tantos que agora destilam moralismo impoluto... em nome de Marega. Que jeito que deu.
E vergonha na cara, não?"

Um tinto para o Buldogue Branco

"Vencedor da primeira Volta à França, Maurice Garin. nasceu tão pobre que os pais o trocaram por uma arroba de queijo

Maurice Garin era aquilo que os franceses gostam de chamar de mignon. E, já agora, um mignon rigolo. Um malandrim, se quiserem. Tão baixote que parecia estar a aprender a ser anão. Algo que não o impediu de se tornar no primeiro vencedor da Volta a França, em 1903. Natural de Arvier, no Vale de Aosta, era o quarto de uma ninhada de nove irmãos de uma família tão numerosa e tão pobre que acabou por ser trocado por uma arroba de queijo comté e levado para a zona de Saboia por um magarefe que usava crianças diminutas como ele para limpar chaminés, usando e abusando das suas estaturas enfezadas. Não se deu mal de todo. Era desenvolto e expedito e não tardou a ganhar dinheiro suficiente para mandar às malvas o patrão explorador e se fixar por conta própria. Instalou-se primeiro em Reims e, em seguida, na Bélgica. Foi aí que se deixou encantar pelos velocípedes. Comprou uma bicicleta e foi premiado com a sua primeira alcunha: Le Fou. Um esgrouviado que pedalava loucamente por entre os transeuntes, pondo em risco de vida não apenas os pobres incautos como até ele próprio. Descobriu que podia ganhar mais dinheiro com essa brincadeira espinoteada do que a trepar por colunas fuliginosas de chaminés alheias. Na sua estreia competitiva, uma prova que ligava Maubeuge a Hirson, embolsou 850 francos e, pela primeira vez, sentiu-se aburguesado. O pequerrucho de um metro e sessenta e um crescia a olhos vistos.
À moda de Lisboa, Maurice podia ser considerado um manguela. Tendo sofrido um furo a meio da então célebre Namur-Dinant-Givet e volta, não foi de cerimónias e roubou a bicicleta a um papalvo que observava o esforço dos competidores, lançando-se numa tirada vitoriosa com a frustrada vítima correndo atrás dele gritando como um bezerro. Cruzou a meta com uns confortáveis dez minutos de avanço sobre o segundo, devolveu a máquina ao extenuado infeliz, e ficou marcado para o resto da vida como um cara-de-pau sem escrúpulos, embora sempre de sorriso aberto de orelha a orelha. Pudera!
Maurice cometeu façanhas de fazer inveja às diatribes de Lemuel Gulliver. Quando o jornal Le Vélo resolveu organizar as 24 Heures des Arts Libéraux, apresentou-se com a habitual desfaçatez. A prova, em circuito fechado, teve lugar em Fevereiro de 1895, um dos mais gélidos da história meteorológica da França. Os concorrentes foram tombando como tordos, incapazes de resistirem a tiradas medonhas com temperturas negativas. Garin era imune ao frio. Percorreu mais de 700 quilómetros sem parar e deixou o segundo classificado, o inglês Williams, a 49 quilómetros de distância. De todos os que se enfileiraram à partida, foram os únicos dois que chegaram ao fim. Maurice acabaria por confessar o segredo da sua resistência inumana: vinho tinto. Trazia presa à cintura uma garrafa e ia-se abastecendo de cada vez que o pundonor dava sinais de quebra. Luís Fernando Veríssimo deve tê-lo compreendido bem:
«Beba vinho para o espírito
e para a boa digestão
Beba vinho na festa
e beba vinho na solidão
Beba vinho por cultura
ou por boa educação
Beba vinho porque...
Bem, você encontrará uma razão».
Não se pode afirmar que Maurice Garin era um bêbado irremediável, alcoólico de pai e mãe, mas nunca recusava um cordial. A sua fama de corredor espalhou-se por toda a França e no primeiro Tour deram-lhe a braçadeira n.º 1. Nessa altura os números não se exibiam nas costas e sim num pedaço de pano preso à manga da camisola com um alfinete-de-dama. Vestia de branco, a farda da equipa que representava, La Française-Diamant, e cerrou os dentes logo na primeira etapa, Paris-Lyon, devorando os 467 quilómetros do percurso de uma forma tão autoritária e feroz que alguém se lembrou de o alcunhar de Buldogue Branco. O seu principal rival era Hippolyte Aucouturier, um calmeirão de bigodes imponentes como os do Kaizer Guilherme. Mas, ao quilómetro 320, Hippolyte abandonou queixando-se de tremendas dores de estômago. Resolvera aplicar a receita de Maurice e bebera quase dois litros de vinho ao longo da estrada. Valeu-lhe que as regras permitiam que os desistentes de uma etapa pudessem iniciar a seguinte. Aucouturier ganhou as duas rondas posteriores, mas não passaria do segundo lugar final a 2 horas, 59 minutos e 21 segundos do Buldogue. Não restavam mais dúvidas de que o vinho deste era de qualidade superior.
Em finais de 1956, Maurice Garin estava a morrer. Os pulmões manchados pela fuligem provocavam-lhe ataques cavernosos de tosse. Vagueava pelas ruas de Lens, onde vivia, perguntando aos passantes pelo lugar do controlo no qual devia apresentar-se. No centro de toda a confusão que se instalara na sua cabeça, continuava a pedalar no vazio com um medo-pânico de ser desqualificado. Levavam-no à esquadra, apresentava-se pelo nome, e saía feliz. Regressava à estrada. Havia sempre uma meta à sua espera."

A bela e mística solidão do campeão

"A celeuma da final do US Open de 2018, entre Serena Williams e o árbitro português Carlos Ramos, já não faria sentido com estas novas regras

Wimbledon, a final de 1980, John McEnroe acabou de vencer o tie-break do século por 18/16 e salvou 5 match-points pelo caminho. Bjorn Borg estava por baixo, mas no quinto set elevou a percentagem de primeiros serviços, subiu muito mais à rede e venceu o seu quinto e último título de Wimbledon por 8-6 no set final.
Open da Austrália, final de 2009. Roger Federer tinha ganho nas meias-finais a Andy Roddick por 6-2, 7-5 e 7-5 no dia 29 de janeiro. Rafa Nadal só jogou a sua meia-final no dia seguinte e superou Fernando Verdasco por 6-7, 6-4, 7-6, 6-7 e 6-4. Cinco horas e 40 minutos! A final jogou-se no dia 14, Nadal está mais cansado e teve menos tempo para recuperar, mas ao longo da final, ganha por 7-5, 3-6, 7-6, 3-6 e 6-2, surpreendeu com alterações tácticas, para ele inovadoras na altura, como, por exemplo, jogar mais em cima da linha de fundo e roubar tempo a Federer.
Poderia trazer aqui outros exemplos, com diversos protagonistas, mas estes dois ilustram um dos aspectos que mais me fascina no ténis: o ‘mano-a-mano’ entre dois guerreiros.
No court estão sós, mesmo que rodeados por milhares de espectadores e televisionados por milhões. Estudaram aquele confronto detalhadamente com as suas equipas técnicas, mas naquele momento a solidão é total.
A dimensão mental do duelo ganha uma relevância descomunal. Naquelas duas finais os vencedores não foram os que jogaram melhor. Ganharam os que mostraram mais força de vontade e, sobretudo, os que souberam tomar as melhores decisões nos muitos momentos de crise com que se depararam, sob enorme pressão.
O circuito WTA já autorizava que os treinadores viessem ao campo uma vez em cada set, a pedido das jogadoras. Em 2020 permite que as jogadoras e os treinadores possam conversar brevemente, sempre que quiserem, desde que a jogadora esteja perto do local onde o treinador se senta. E também passa a ser possível o envio de mensagens verbais ou gestuais para o campo.
A enorme celeuma da final do US Open de 2018 entre Serena Williams e o árbitro português Carlos Ramos já não faria sentido ao abrigo destas novas regras, porque o treinador Patrick Mouratoglou já não estaria a violar qualquer norma.
Note-se, no entanto, que esta nova regra só é aplicável em torneios do circuito WTA. Não está em vigor nem no ATP Tour nem nos torneios do Grand Slam.
Há muitas vantagens em permitir a comunicação entre uma jogadora e um treinador durante os encontros. Para a semana explicá-las-ei. Mas há uma certa beleza e, principalmente, uma pureza e uma crueza dos místicos mano-a-mano que se perdem."

O estigma do fato de treino

"Em conversa com uma pessoa amiga sobre educação física e desporto, fui chamado a atenção para o “estigma do fato de treino”. Alguns professores de educação física sentem-se diferentes por andarem de fato de treino no seu dia a dia nos estabelecimentos de ensino. Contaram-me também um episódio caricato: num almoço de convívio escolar um aluno cumprimentou todos os seus professores, excepto o professor de educação física. Chamado a atenção, o aluno disse que estava habituado a ver o professor de fato de treino, e não de outra forma, daí a dificuldade no reconhecimento do mesmo. Perante o fato, o professor em causa ficou muito aborrecido.
Que se deve este estigma? O ensino da educação física em Portugal, apesar das honrosas iniciativas, tardou a se generalizar. Foi desvalorizado! A disciplina e os professores foram considerados com um estatuto “periférico”, sobretudo em relação a outras disciplinas (português, matemática, história, físico-química, etc.). Muitos encaixaram socialmente ser os “parentes pobres” do ensino ou uma espécie de “segunda linha” de educadores. Quando alguém fala de educação física e desporto, não sendo da área, mas que estuda profundamente o fenómeno, muitos professores, que se consideram “herdeiros” da temática, chateiam-se e amuam. Outros, porque estão em lugares de poder, até impedem o alavancar de importantes iniciativas.
A criação de vários cursos na área da educação física e desporto, com ou sem qualidade, trouxeram uma divisão na classe e uma desorientação conceptual, metodológica e deontológica. A formação, no ensino superior (universitário e politécnico), tem dado origem a tensões e conflitos. Era importante fazer-se um estudo científico, procurando averiguar como os professores de educação física e desporto, de diferentes escolas de formação, são percepcionados pelos alunos, pelos professores de outros grupos disciplinares e por funcionários da escola."

O treinador do treinador

"Ao longo da minha carreira de treinador profissional de basquetebol, fui ajudado a reflectir sobre o meu comportamento pelo que designámos então ser o “treinador do treinador”. Um apoio do prof. Dr. José Miguez, psicólogo de organizações e então professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Como responsabilidade desse “treinador do treinador”, observar treinos, jogos, reuniões, acompanhar viagens da equipa, questionando-me posteriormente sobre a eficácia a minha liderança. Um exemplo deste tipo de apoio, um texto que me entregou no início da disputa de uma das finais do play-off onde a equipa que eu treinava, o F. C. Porto, acabou por se sagrar campeão nacional.
1. A principal função do treinador é saber gerir paradoxos em situações com um grau de imprevisibilidade terrível. Não existem duas situações iguais, o que funciona agora optimamente, pode ser um “buraco” no momento seguinte.
A história desta final do play-off vai ter muito deste cenário de “parada-resposta”, em que as fases positivas no interior dos jogos e de jogo para jogo, introduzem também elementos negativos que importa saber gerir.
2. As análises que “a posteriori” possamos fazer sobre os factos são potencialmente falsas e geradoras de enviesamentos na delineação das estratégias, pois têm tendência a “fechar-nos” o campo de análise e a perdermos capacidades de intervenção, “bloqueando-nos” quando a situação futura “cai fora” do "mundo que construímos. Ao centrar a estratégia seguinte da equipa, nas situações que funcionaram bem no jogo anterior, correm-se riscos enormes, porque não só os jogadores do jogo anterior “não são os mesmos” do próximo jogo, como também a equipa adversária vai naturalmente preparar-se para “impedir” o que funcionou bem na outra equipa.
3. O próximo jogo será certamente, pela facilidade e/ou dificuldade, diferente do previsto. Prepara-te assim e aos jogadores para serem capazes de gerir o francamente imprevisível. Não faças dos jogadores aplicadores “cegos” da estratégia engendrada pelo expert (ler esperto!) do treinador. Mais do que estratégias globais tipo “quartel-general numa guerra clássica”, importa preparar “mini-soluções” (instrumentos) para serem interpretados e utilizados pelos jogadores, numa vasta panóplia de soluções versus soluções possíveis, tipo “grupo de combate numa guerra de guerrilha.
Quando antes do jogo da final li este texto, estava longe de antever quanto o meu “treinador do treinador” tinha razão. As «paradas e respostas» sucederam-se e culminaram, no quarto jogo, com o lance que decidiu a final a nosso favor do modo mais «imprevisível» possível!
A quatro segundos do final do jogo, recuperamos a posse da bola com o jogo empatado (o adversário podia ter ganho o jogo na posse de bola que lhe pertenceu a 24 segundos do final). Uma recuperação da posse da bola que só foi possível porque, na preparação feita antes do jogo, tínhamos treinado a solução defensiva adequada para o caso daquela situação acontecer. Mas, a partir daí, nada aconteceu como previsto. Durante o desconto de tempo solicitado, após a recuperação da posse da bola, decidimos o que fazer nos quatro segundos que restavam. Mas, ao retomarmos o jogo, foi de imediato visível que o adversário antecipara as nossas intenções. E ali estava o treinador, impotente, «entregue» à capacidade e criatividade individual do jogador com bola, confirmando quanto o meu «treinador do treinador» tinha razão, quando escreveu.
Não faças dos jogadores aplicadores “cegos” da estratégia engendrada pelo expert (ler esperto!) do treinador!
Um outro exemplo que julgo complementar do que acabo de apresentar, tem a ver com a reprodução de uma passagem de uma entrevista à Harvard Business Review de sir Alex Fergusson, o famoso treinador escocês de futebol profissional: Nunca permitimos uma má sessão de treino. Aquilo que vemos nos treinos manifesta-se no campo de jogo. Assim, cada sessão de treino tinha a ver com qualidade. Não admitíamos faltas de concentração. Tratava-se de intensidade, concentração, velocidade, um elevado nível de desempenho. Eu tinha de elevar as expectativas dos jogadores. Estes nunca podiam ceder. Eu dizia-lhes sempre: “Se cederes uma vez, cedes duas”. E a minha ética de trabalho e a minha energia parecem ter-se espalhado por todo o clube. Eu era o primeiro a chegar de manhã. Nos últimos anos, muito do meu pessoal já lá estava quando eu chegava, às sete da manhã. Acho que eles compreenderam por que razão eu chegava cedo — sabiam que havia um trabalho a fazer. Havia aquele sentimento, se ele é capaz, eu também sou. Dizia sempre à minha equipa que trabalhar arduamente toda a vida é um talento. Mas esperava ainda mais das estrelas da equipa. Esperava que trabalhassem ainda mais arduamente. Dizia-lhes: vocês têm de mostrar que são a nata dos jogadores. E era o que eles faziam. É por isso que são estrelas — estão preparados para trabalhar mais. Superestrelas com egos não são o problema que as pessoas podem pensar. Eles precisam de ser vencedores, porque isso lhes massaja os egos, e farão o que for necessário para vencer. Costumava ver o [Cristiano] Ronaldo [um dos melhores avançados do mundo, que joga agora no Real Madrid], Beckham, Giggs, Scholes e outros a treinar durante horas. Tinha de os mandar para dentro. Batia na janela e dizia-lhes “Temos um jogo no sábado!”. Mas eles queriam tempo para treinar. Percebiam que ser jogador do Manchester United não é um trabalho fácil.
Dois exemplos esclarecedores do modo como o “treino do treinador” necessita ser encarado e praticado. Confirmando que os comportamentos podem ser trabalhados em determinadas situações (treinos) desde que estas não se descolem ou percam de vista a realidade (a competição). Reforçando a importância da dimensão intersubjetiva do comportamento, ao mostrar que o exemplo de quem se respeita contribui para a acção.
Identificando uma verdadeira dimensão emocional de partilha e incentivo, fundamental quando cada um individualmente compreende que os objectivos comuns são sempre “maiores” do que os desejos particulares."

Em Portugal é a cor das camisolas que define critérios!!

Diz não ao ódio!

O caso Marega

"Em volta do sucedido no passado domingo no estádio D.Afonso Henrqiues durante o jogo entre Vitória e Porto, relativamente ao atleta Marega, anda demasiada poeira no ar e demasiado ruído de fundo para resistir a escrever algumas linhas sobre um assunto que na sua relativa insignificância parece ter-se tornado uma prioridade do país e, pasme-se, das suas principais figuras políticas.
Ao sabor de um populismo, uma futilidade e uma irresponsabilidade que merecerá, certamente, análise noutras instâncias que não as desportivas.
Vamos então ao “Caso Marega”.
Não começa no passado domingo, como alguns poderão pensar, mas sim em 2014/2015 quando ele depois de uma carreira sem qualquer relevo e passada em clubes de divisões inferiores chega à Madeira para representar o Marítimo, onde a par de começar a revelar talento para o futebol revela também uma preocupante queda para a indisciplina e o descontrolo emocional que viriam a valer-lhe multas e suspensões disciplinares pelo clube.
Ainda assim na primeira época faz dezasseis jogos e oito golos e desperta atenções.
Na primeira metade da época seguinte continua na Madeira, onde faz sete golos em dezoito jogos, e em Janeiro de 2016 é transferido para o FC Porto onde em 13 jogos faz apenas um golo e se transforma em alvo preferido do anedotário azul e branco face às suas exibições e aos golos falhados, sendo nas redes sociais e no estádio alvo de frequentes insultos e chacota.
São factos.
No final de época, completamente desvalorizado, sem lugar no plantel portista e sem ter quem lhe pegasse consegue ainda assim ser emprestado ao Vitória perante a peplexidade dos vitorianos que não entendiam o interesse no jogador.
Pese embora isso a partir do momento em que vestiu a camisola vitoriana (a branca ou a preta) foi recebido, apoiado e acarinhado como qualquer outro jogador de qualquer raça ou nacionalidade que vem para Guimarães e recebeu aplausos quando os mereceu e alguma reprovação quando as suas exibições não agradavam aos adeptos exactamente como qualquer outro jogador do clube.
Um dia, frente ao Nacional, com o jogo parado e sem qualquer motivo em mais uma exibição de descontrolo emocional, não arranjou melhor para fazer do que dar um estalo num adversário, ser expulso e deixar a equipa reduzida a dez unidades ainda no decorrer da primeira parte.
Não contente com isso, ao sair do relvado insultou por palavras e gestos os adeptos do Vitória (os tais que agora diz sempre ter respeitado, mas é uma das muitas mentiras de que adiante falaremos) e ausentou-se do estádio partindo tudo o que lhe apareceu à frente no balneário da equipa em mais uma manifestação de puro descontrolo.
Mesmo com esses comportamentos, a SAD do Vitória resolveu não deixar cair o jogador (o que poderia ter significado o fim da sua carreira) e procurou reintegrá-lo no grupo com compreensão pela sua forma de estar ao mesmo tempo que os adeptos também lhe perdoaram o comportamento e continuaram a apoiá-lo como se nada se tivesse passado.
Mais, até para sermos rigorosos.
Marega acabou por fazer uma excelente época, marcando 14 golos em 31 jogos, tornando-se um ídolo dos adeptos que com ele festejavam as vitórias e choravam as derrotas como na final de Taça frente ao Benfica em que o jogador quando descia da tribuna após receber a medalha e finalista quase se envolveu em confrontos com um espectador por força de uma “boca” que ouviu e de que não gostou.
Os colegas evitaram que algo acontecesse, mas o descontrolo estava, uma vez mais, lá.
No final da época regressou ao FC Porto, reabilitado e com o prestígio em alta, fazendo questão de agradecer publicamente ao Vitória e aos vitorianos tudo que tinham feito por ele e pela sua carreira. 
Nos dois anos seguintes sempre que Vitória e FC Porto se encontravam Marega era aplaudido pelos adeptos vitorianos (como na época passada em que saiu lesionado no jogo em Guimarães e foi aplaudido de pé) e em contrapartida nos vários golos que marcou ao Vitória teve sempre o gesto de não os festejar como forma de mostrar o respeito a um clube ao qual assumia tanto dever.
Como já no presente campeonato tinha acontecido no jogo da primeira volta em que Marega fez dois golos e não festejou nenhum deles.
E chegamos a domingo passado.
No qual começo por deixar uma nota pessoal.
Sendo sócio com lugar anual na bancada nascente, precisamente aquela em frente à qual tudo se desenrolou, cheguei ao estádio ainda as equipas não tinham subido para o aquecimento, pelo que tive oportunidade de presenciar tudo quanto se passou. Vi e ouvi. Não me contaram.
E o que vi foi o FCP fazer parte do aquecimento perto da bancada nascente e alguns adeptos vitorianos mais próximos do tereno de jogo (quatro ou cinco) aproveitarem para mandarem algumas “bocas “aos jogadores adversários como acontece em todos os estádios de todo o mundo, especialmente com os guarda-redes, sem que isso acarrete problemas.
Há videos, gravados com telemóveis, dessas “bocas” que, não sendo obviamente simpáticas, também não têm qualquer cariz racista, nem nada que se pareça, pelo que a alegação de Marega e dos responsáveis do FC Porto sobre o assunto são mentira. Uma das várias.
Aliás, se isso tivesse acontecido - os insultos racistas - seria incompreensível que não os tivessem comunicado de imediato ao árbitro e aos delegados da Liga.
No decorrer do jogo, tudo se processou com absoluta normalidade, sem insultos de qualquer espécie (outra mentira de Marega & Cia) especialmente em relação a Marega que vinha produzindo uma exibição tão discreta que quase passava despercebido.
Na única vez em que se mostrou foi quando isolado atirou ao lado da baliza de Douglas, gerando algumas manifestações de descontentamento nos adeptos do... FC Porto, que não se conformavam com semelhante falhanço.
A normalidade foi de tal ordem que ao intervalo ninguém do FC Porto denunciou junto de árbitro e delegados da Liga qualquer tipo de anormalidade.
E chegamos ao fatídico minuto 60.
Em que Marega faz golo e perante o espanto de todo o estádio em vez de festejar junto dos adeptos portistas ali por trás da baliza resolve correr umas dezenas de metros para ir provocar por gestos e palavras os adeptos vitorianos...
...Que reagiram (que adeptos de que clube não o fariam?) de forma indignada com vaias, insultos e arremesso de cadeiras ao jogador não por ele ser negro, mas pelas atitudes que tomou perante adeptos que, ainda por cima, sempre o tinham acarinhado. Se o golo tivesse sido de Otávio, que também passou pelo Vitória (ou de Soares se tivesse jogado e também ele ex-vitoriano), a reacção teria sido exactamente a mesma porque o que estava em causa era a atitude e não a cor da pele.
Depois foi o que se sabe, nos dez minutos em que a indignação de Marega lhe permitiu continuar em campo. Cada vez que tocava na bola era vaiado, insultado num coro imenso de “ Ó Marega vai para o c....” mas sem qualquer cântico racista ao contrário das mentiras propaladas pelo jogador e por alguns responsáveis do FCP.
Não houve um único cântico racista no estádio D. Afonso Henriques!
Houve, isso sim, a atitude lamentável de alguns adeptos vitorianos (dezenas? centenas? não sei quantificar nem me parece que isso alguma vez seja possível) que por breves segundos produziram alguns urros a imitar macacos o que pode ser considerado como uma atitude imbuída de racismo, mas nada mais do que isso.
Foram poucos e foram breves mas sendo identificados devem ser sancionados face à legislação existente.
Depois foi a rábula das cenas de Marega a querer sair do relvado, num descontrolo emocional (mais um) completamente despropositado mas que ainda lhe deixou tempo e disposição para provocar e insultar os adeptos vitorianos antes de desaparecer no túnel.
O que aconteceu em Guimarães foi muito desagradável não vale a pena esconder o facto.
Tem um responsável principal, o jogador profissional de futebol Moussa Marega, e alguns responsáveis secundários, alguns poucos adeptos do Vitória que contestaram o jogador com os tais urros, mas foi um episódio que sendo melhor não ter acontecido não merece de forma alguma o impacto e a divulgação nacional e internacional que está a ter por força do sensacionalismo da imprensa, do oportunismo de forças políticas e de figuras do Estado que cavalgam o populismo do anti-racismo sem sequer perceberem que não sabem do que estão a falar neste caso específico.
Há tanta gente no país a falar de cátedra sobre o que não viu, com base no que lhe contaram, no que leram aqui ou ali, no que ouviram dizer que deviam ter vergonha de ajudarem a enlamear Guimarães e o Vitória com base numa inventona que pode deixar marcas extremamente negativas na imagem de uma comunidade e de um clube.
Guimarães não é racista.
O Vitória não é um clube racista nem de racistas.
Tem mais de sessenta anos de perfeita integração de atletas estrangeiros de várias nacionalidades e raças (desde os primeiros brasileiros que vieram para Portugal pela porta do Vitória na década de 50 do século passado) muitos dos quais escolheram Guimarães para residir depois de terminarem as suas carreiras.
Tem como alguns dos seus maiores ídolos jogadores de raça negra como Ndinga (dez anos no clube, recordista de jogos com a camisola vitoriana, capitão de equipa durante vários anos) , Neno, Jeremias, Rui Rodrigues, Joaquim Jorge, Almiro, Desmarets, Soudani, Ricardo Pereira, Cafú entre tantos outros que poderia citar.
Tem nos seus valores enquanto clube a “assumpção das cores preta e branca como alusão à igualdade e à admissão de todos sem distinção de raças”.
Esta é a minha verdade sobre o que se passou no domingo no estádio D. Afonso Henriques.
A verdade de quem, ao menos, viu o jogo e assistiu a tudo que lá se passou.
Não é uma verdade absoluta, como é evidente, mas o que não é de certeza é uma mentira absoluta como tantas que por aí andam sem qualquer respeito por Guimarães, pelo Vitória, pelos vimaranenses e pelos vitorianos e que estão a lançar anátemas e a criar injustiças a que urge por cobro tão depressa quanto possível.
Porque já há quem esteja a sofrer com esta situação apenas e só por ser de Guimarães e do Vitória.
O combate ao racismo é um combate civilizacional do qual nenhum cidadão, nenhuma colectividade, nenhuma instituição estão dispensados porque significa lutar por valores humanos que não são sequer discutíveis.
Mas o combate à injustiça que o racismo é não pode ser feito com outras injustiças como a de criar bodes expiatórios para os males globais como alguns estão agora a quererem fazer com Guimarães e com o Vitória com base num incidente ocorrido num estádio e que em nada justifica isso."

Houve um tempo em que fomos todos macacos

"Cheguei a Portugal com 9 anos. Da escola aos meus vizinhos mais próximos, houve sempre quem tentasse tirar partido do facto de eu ser preto e eles brancos. Posso inclusivamente confidenciar que a minha mais velha amiga em Portugal e madrinha da minha filha (têm o mesmo nome) cresceu sob a influência de um pai racista. Na escola ou fora dela eram constantes as manifestações de superioridade racial quando ouvia coisas como: “Para preto, falas muito bem”. Ou: “Tu és preto mas não és burro”.
Portanto, desde cedo fui habituado a olhar e a sentir na pele esse problema. Desde situações em que o pai da minha grande amiga dizia para ela não se juntar aos pretos, ao tratamento policial discriminatório, a que assisti de perto, à minha família adulta, até às perseguições dos seguranças à entrada das lojas onde vou fazer compras: fui crescendo com uma noção clara de que os pretos, como eu, teriam sempre de ser muito melhores e fazer muito mais para vingar numa sociedade dominada por tons pálidos.
Enquanto joguei futebol (nunca profissional), desde a formação até aos seniores assisti e senti vários ataques racistas. A mim, a outros colegas de equipa e a jogadores adversários. Enquanto treinador, ainda mais. Fossem os pais dos jogadores da minha equipa ou o público adversário que assistia ao jogo da bancada. Os sons a imitar macacos, chimpanzés ou outros primatas, as vozes que gritavam “preto de merda”, “vai para a tua terra”, ou, pior, os apedrejamentos que apenas seleccionavam os elementos da equipa com a pele mais escura são-me tremendamente familiares.
Conheço-os bem, vivi de perto, senti na minha pele escura o peso do tom que ela carrega.
Porém, tive a sorte de conhecer um irmão branco que me deu uma outra mãe, um outro pai, uma outra família que me ama tanto como se tivesse sido fruto da criação deles. Nunca me limitaram ou sequer insinuaram alguma coisa por causa das nossas diferenças, mas sempre me abraçaram por aquilo que nos unia. Com eles e com a minha mãe preta aprendi que, enquanto os insultos não limitassem as minhas acções eu deveria fazer o máximo possível para responder com mais elevação, uma vez que era essa a melhor forma retirar importância a quem se sentia importante sempre que me sentisse ofendido. Endureci com a experiência, tornei-me um pouco mais frio, e com isso fui-me sentindo cada vez menos vítima e cada vez mais parte da solução de um problema que me afectava de forma profunda.
O racismo é, e tem sido, um grande flagelo de uma sociedade evoluída que se quer pintar como multicultural. É parte de um problema maior – a discriminação -, e a forma como tem sido ignorado não ajuda a que se encontrem soluções para um problema real e que afecta vários quadrantes sociais. Há quem tente omitir que o problema existe, e esse ponto de partida é o que tem impedido em larga medida que se encontrem soluções duradouras, para lá da moldura penal, que nos eduquem de forma adequada para conseguirmos dar melhores respostas quando enfrentamos uma situação clara de discriminação.
Não criticando as diferentes reacções que os alvos de racismo podem ter, uma vez que cada um tem uma experiência de vida diferente, sentiu coisas diferentes, aprendeu coisas diferentes, e tem todo o direito de agir em legítima defesa, a melhor resposta a dar aos parvos que discriminam é retirar importância ao acto. E isso, à longo prazo, acabará por ter repercussões em massa. Pensemos nisso como numa criança que encontra o ponto de fragilidade para irritar outra: quando isso acontece, a criança não para enquanto o outro se sentir irritado pela brincadeira. Quando, num acto de lucidez, a outra criança deixa de se importar, a brincadeira deixa de ter piada e termina. De repente, uma vítima transforma-se apenas num alvo que não se deixa vencer pela parvoíce alheia. Claro que o problema também deve ser atacado numa perspectiva de educação, e de punição (em casos graves) por parte de quem discrimina; mas educar quem sofre a saber defender-se é parte importante da solução e ninguém parece ter grande interesse em pensar nisso.
Todos nos lembramos de como o Cristiano Ronaldo, durante um largo período, era assobiado em todos os estádios por onde passava. Uma vez ele referiu numa entrevista que esse tipo de recepção hostil o motivava ainda mais a vencer o jogo e a querer marcar golos ou fazer assistências. A coincidência disso é que durante um par de anos ele foi fazendo golos nos estádios onde era mais maltratado, e nos anos seguintes desapareceram os apupos. A resposta dele não foi vitimizar-se, mas sim responder de forma superior e o problema deixou de existir.
Claro que estamos a falar de alguém com uma força mental extraordinária, mas a sociedade cresceu e evoluiu sempre que se fez uso dos melhores exemplos do passado para educar o futuro. É também óbvio que a educação, a aculturação de comportamentos, não se faz a curto prazo. Como em tudo na história, o reflexo das acções percebe-se ao longo de gerações; mas temos uma oportunidade única para começar a pensar que o problema está nos parvos que usam a discriminação para atacar os alvos que definem, mas também na vítima que não se sabe defender de forma a que aquele agressor não a volte a alvejar.



Os parvos vão continuar a existir e dependendo do tipo de resposta que lhes dermos, dependendo se recompensamos ou não os desejos que eles têm de que nos sintamos ofendidos, estaremos a incentivar mais ou menos o uso dessa parvoíce como arma de ataque. As vítimas podem ser sempre grandes agentes catalisadores de uma resposta positiva e duradoura.
Houve um tempo em que fomos todos macacos. Aprendi com Daniel Alves a melhor resposta."