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quarta-feira, 30 de junho de 2021
A modelação de jogo pelas equipas de futebol
"A discussão em torno das ideias, modelos e sistemas de jogo no futebol é, nos dias de hoje, comum. Não raras vezes, esta discussão sustenta-se num mau entendimento sobre o significado de cada um destes conceitos que, se tratados com banalidade, resultam invariavelmente em reflexões ambíguas e pouco esclarecidas. Ao longo deste artigo procurarei refletir acerca de alguns dos conceitos que estão na base da modelação de jogo de equipas de futebol.
Nota prévia
Apesar de atual, o conceito de modelo de jogo não é novo. Não sendo objetivo desta peça descrever a sua evolução histórica, importa referir que autores clássicos da área do treino desportivo como Léon Teodorescu já refletiam sobre a sua importância ainda nos anos 70 do século passado. O importante trabalho que treinadores como Carlos Queiroz, Jesualdo Ferreira e Nelo Vingada desenvolveram no antigo ISEF (agora Faculdade de Motricidade Humana) e que contribuiu de forma importante para a reformulação dos conteúdos de formação de treinadores em Portugal, teve como ponto de partida muitos destes conceitos que foram sendo continuamente aprofundados no nosso país por autores importantes como Júlio Garganta, Jorge Castelo e muitos outros.
Da Ideia ao Modelo de Jogo
É frequente ouvirmos adeptos, comentadores e até treinadores referirem-se aos conceitos de “ideia de jogo” e “modelo de jogo” como se de um sinónimo se tratassem quando, em bom rigor, estão longe de o ser. O primeiro é um conceito bastante mais simples e que se traduz essencialmente na forma como o treinador responde à seguinte questão: como é que eu gostava que a minha equipa se comportasse em cada uma das fases, etapas e momentos do jogo? A resposta a esta questão resulta fundamentalmente do modo como o treinador interpreta a própria lógica interna do jogo – outro conceito fundamental que deixarei para um próximo artigo – e, em função dessa interpretação, concebe uma determinada ideia sobre a organização da sua equipa. É caso para dizer que ideia de jogo, cada treinador tem a sua. Para além do modo com o treinador interpreta o jogo, também outras características como as experiências anteriores, crenças pessoais e, inclusive, a sua filosofia de vida e os seus traços de personalidade podem contribuir para a construção desta ideia.
Da ideia ao modelo de jogo, contudo, há todo um caminho a percorrer. Se a primeira depende essencialmente do treinador, já o segundo depende da interação de um conjunto de fatores, entre os quais se destacam a própria ideia de jogo do treinador e (muito importante!) as características dos jogadores. A discussão sobre se o treinador deverá ajustar a sua ideia às características dos jogadores ou, por outro lado, são os jogadores que se devem adaptar à ideia do treinador não cabe neste artigo. Contudo, o que me parece menos discutível é que os jogadores são diferentes uns dos outros a vários níveis e, portanto, sendo os principais atores do jogo, a aplicação de um determinado modelo só poderá resultar tendo também em consideração as suas características. Para além das características do treinador e dos jogadores, também as características contextuais influenciam a conceção do modelo de jogo, como por exemplo fatores culturais associados ao país ou ao próprio clube, o tipo e o formato da competição e os próprios objetivos competitivos definidos. Assim, podemos perceber que o modelo de jogo é um conceito bastante mais complexo e que, embora a ideia do treinador constitua a base fundamental para a definição dos princípios que vão orientar os comportamentos da equipa, a sua operacionalização propriamente dita só emerge efetivamente da relação entre todas estas características que acabámos de referir. É também por esta razão que não é possível haver dois modelos de jogo exatamente iguais, mesmo com o mesmo treinador.
Mas o que se entende afinal por modelo de jogo? O modelo de jogo não é mais do que o referencial através do qual os jogadores combinam e coordenam os seus comportamentos competitivos, de acordo com um conjunto de princípios de ação definidos pelo treinador e a que designamos de princípios de jogo. Estes princípios orientam (não determinam!) os comportamentos individuais e coletivos no decorrer do jogo e possuem associadas determinadas intenções que traduzem a forma como a equipa irá procurar comportar-se (do ponto de vista estrutural e funcional) nas diferentes fases, etapas e momentos do jogo. Não será demais reforçar que, no respeito da natureza complexa e dinâmica que caracteriza a lógica interna do jogo de futebol, os princípios associados ao modelo de jogo devem ser entendidos como orientadores e não como determinantes dos comportamentos. Significa isto dizer que não devemos olhar para os princípios de jogo como um conjunto de soluções fechadas pré-determinadas, mas, ao invés, como um conjunto de orientações que atribuem um fator de direccionalidade aos comportamentos competitivos da equipa. Comportamentos esses que, efetivamente, resultam não exclusivamente dos princípios de jogo definidos, mas também das relações de cooperação e oposição que se estabelecem na confrontação entre as duas equipas no decorrer de um jogo.
Uma outra noção importante é a de que a operacionalização do modelo de jogo tal como é idealizado nunca chega efetivamente a acontecer. Pelo menos não na sua plenitude. Em primeiro lugar porque os comportamentos competitivos possuem uma natureza emergente, como já referimos, que resulta de interações que se desenvolvem em contextos e condições de aplicação que nunca são exatamente iguais; e em segundo porque o modelo de jogo é um referencial que está em constante evolução, cresce com a própria equipa e com o rendimento individual dos jogadores e é feito de avanços e recuos na sua operacionalização através do processo de treino.
O papel do Sistema Tático no Modelo de Jogo
O sistema tático caracteriza a organização estrutural de base da equipa e a sua importância está relacionada com a atribuição de funções e tarefas aos jogadores. A escolha por um determinado sistema deve ter em consideração a aplicação dos princípios que compõem o modelo de jogo e as características dos jogadores que o compõem. Assim, é o sistema tático faz parte do modelo de jogo e não o contrário. É por isso que um mesmo modelo de jogo pode utilizar diferentes sistemas táticos preservando os seus princípios essenciais. Não faz sentido retirar importância ao sistema tático para valorizar as chamadas “dinâmicas” coletivas na medida em que este também contribui de forma importante para organização funcional da equipa, nomeadamente através da promoção de determinadas interações entre jogadores decorrentes das suas funções (dimensão funcional) e dos espaços que ocupam predominantemente (dimensão estrutural). Mesmo quando assistimos a variações na organização estrutural da equipa em diferentes fases ou etapas do jogo (por exemplo a atacar e a defender), percebemos que essas adaptações não são totalmente independentes do sistema tático de base. Além do mais, a utilização de diferentes configurações estruturais constitui um importante fator estratégico, permitindo uma maior adaptabilidade ao jogo da equipa adversária – aqui entendida como uma adaptabilidade disruptiva, ou seja, que permita condicionar o adversário e ganhar uma vantagem competitiva."
terça-feira, 29 de junho de 2021
Unidos pelo casamento e pelo Benfica
"Ilda e José Dias Afonso foram um casal de cicloturistas e, juntos, envergaram a camisola encarnada ao longo do país.
Na secretaria da Rua Jardim do Regedor, por volta das 8 horas da manhã de 3 de Junho de 1936, o casal de cicloturistas Ilda e José Dias Afonso, 'irrepreensivelmente equipados, envergando as garridas camisolas do Benfica', subiram para as suas bicicletas e fizeram as suas despedidas, com bastante público a desejar-lhes uma boa viagem.
O projecto era ambicioso, um rali ao Norte de Portugal, numa jornada de propaganda do cicloturismo e do Benfica. Numa época em que havia poucas mulheres a praticar desporto em Portugal, Ilda Dias Afonso causou admiração, 'pois não é muito vulgar entre nós uma senhora abalançar-se a fazer 1250 quilómetros de bicicleta'. Esta interessante iniciativa do casal foi também 'digna de elogios pelo espírito de sacrifício dos dois velocipedistas, que efectuam o «rallye» sem encargos para a colectividade que representam».
Ao longo de 11 etapas, entre Lisboa e Porto visitaram várias filiais do Benfica, tendo sido recebidos com afectuosas recepções, nas quais entregaram placas de prata com o emblema do Clube. A iniciativa foi um 'êxito e decorreu com a máxima regularidade' e, ao fim de 12 dias de viagem, os cicloturistas percorreram os últimos quilómetros acompanhados por sócios do Benfica e ciclistas até ao Campo das Amoreiras, 'onde lhe foi feita uma carinhosa recepção', recebendo um lido ramo de flores da Direcção do Clube.
Durante vários anos, Ilda e José Dias Afonso participaram, individualmente ou juntos em raides, passeios e provas de regularidade, nas quais obtiveram vários títulos individuais, de pares e de equipa. Todavia, mais do que as suas conquistas desportivas, estes atletas destacaram-se como impulsionadores do cicloturismo, granjeado de grande popularidade. Até o cão do casal, o 'Pirilau', alcançou a fama: tornou-se a mascote da secção e acompanhava-os em passeios da modalidade, através da qual contribuíram para a propaganda do Benfica, de norte e sul de Portugal.
Saiba mais sobre o cicloturismo na área 4 - Momentos Únicos do Museu Benfica - Cosme Damião."
Lídia Jorge, in O Benfica
A laicidade e o facto religioso no campo desportivo
"O desporto agrada pelo fervor das competições e pelas garantias morais. Impôs-se para além dos muros da Escola. Nasce na segunda metade do século XIX, conquistou o planeta num tempo relativamente curto e impôs-se como uma prática de massas. Ele é associado às ideias de progresso e de equidade. Pierre de Coubertin, na sua Pédagogie sportive (1972), entende-o como “o culto voluntário e habitual do exercício muscular intensivo, incitado pelo desejo de progresso e sem medo de ir até ao risco” (p. 7).
O desporto representa o melhor meio de nos conhecermos e de medir os limites. É um “combate”, permitindo desenvolver uma rivalidade entre os Homens e as nações. Com o reconhecimento dos méritos de cada um, procura-se explicar as diferenças sociais entre os indivíduos. As regras fundam o desporto, assegurando o seu funcionamento e a diferenciação das práticas. A prática desportiva é multiforme e ela continua a ser um campo (espaço simbólico, no qual os atores sociais legitimam as suas representações) propício para a expressão e interação entre os indivíduos. É a sua grande força que permite a realidade do “vivermos em conjunto” (comunidade, sociedade). Não sendo uma religião, funciona como tal. Incorpora “na sua estrutura e funcionamento valores e práticas passíveis de uma leitura religiosa, naquilo que consideramos ser uma religião camuflada”, diz-nos Garcia e Cunha (2016, p. 81). A expressão do facto religioso e da laicidade não são incompatíveis no campo desportivo. O que se entende por laicidade? Para melhor compreender o que é a laicidade, três aproximações são complementares. Ela assenta em quatro princípios e valores:
1) A liberdade de consciência;
2) A liberdade de manifestar as suas convicções no limite do respeito da ordem pública;
3) A separação das instituições públicas e as organizações religiosas;
4) Igualdade de todos perante a lei, independentemente das suas crenças e convicções.
Neste sentido, a laicidade garante aos crentes e aos não crentes o mesmo direito à liberdade de expressão das suas convicções. Ela assegura o direito de ter ou de não ter uma religião ou de mudar. Ela garante o livre exercício dos cultos e da liberdade de religião, mas também a liberdade da religião: ninguém pode ser constrangido relativamente ao respeito dos dogmas ou das prescrições religiosas. A laicidade supõe a separação do Estado e das organizações religiosas. Portugal é um país laico e a separação entre a Igreja e o Estado foi decretada em 1911, na sequência da instauração da República, em 05 de outubro de 1910.
Se a laicidade parece relativamente simples de definir, a sua aplicação no terreno pode ser mais complexa. A boa aplicação do princípio da laicidade e da boa gestão dos factos religiosos supõe um importante trabalho de pedagogia, em todos os domínios, nomeadamente o do desporto. O desporto não está desconetado da sociedade e pode ser uma caixa de ressonância das crispações e desafios atuais da nossa sociedade. As regras aplicadas em matérias de laicidade e de gestão do facto religioso são transponíveis para o campo desportivo. O respeito do princípio da laicidade no quadro da atividade ou da prática desportiva deve conciliar em permanência três exigências:
1) A manifestação da liberdade de consciência do praticante sob reserva do respeito da ordem pública;
2) A exigência da neutralidade das coletividades territoriais (câmaras municipais, juntas de freguesia, etc.) na organização e no acesso às atividades desportivas;
3) A exigência da neutralidade dos dirigentes, dos árbitros e das pessoas que enquadram as federações desportivas e dos órgãos desconcentrados (comités, ligas), etc.
A neutralidade da prática desportiva não deriva exclusivamente do princípio da laicidade. Ela resulta do respeito pelos valores do desporto, das regras do jogo e dos regulamentos técnicos desportivos. Por outro lado, o respeito pelo princípio de neutralidade não proíbe o financiamento de atividades desportivas e de interesse geral das associações desportivas com um carácter confessional, nas condições em que elas não imponham as suas práticas culturais e não exerçam uma discriminação de entrada pelo facto de não pertença comunitária. A laicidade deve ser uma ferramenta de emancipação e de união na República."
segunda-feira, 28 de junho de 2021
SL Benfica | Um novo rumo no futsal encarnado?
"A época da equipa de futsal masculina do SL Benfica foi mais uma desilusão somada às várias desta época, com a equipa a não conquistar qualquer troféu e a demonstrar uma clara inferioridade em relação ao rival lisboeta, naquela que foi uma das finais mais desequilibradas entre as duas equipas.
Poucos dias após o término da temporada, o clube anunciou a saída do treinador Joel Rocha. Após sete anos no comando técnico dos encarnados, nos quais conquistou um total de nove troféus, o técnico natural da Covilhã terminou a sua ligação com as águias.
Joel Rocha não era um técnico consensual entre os adeptos. Havia quem achasse que já estava há tempo a mais no SL Benfica para aquilo que mostrou, como também havia quem achasse que a sua escassez de troféus se devesse em grande parte ao facto de defrontar os melhores plantéis do Sporting CP da história da modalidade, sendo que maioria dos anos, os homens da Luz não tinha um plantel a altura.
No entanto, independentemente da opinião e do gosto de cada um, creio que a reta final desta temporada fez transparecer a ideia de que o ciclo de Joel estava esgotado e de que era necessário dar um novo rumo ao futsal encarnado.
Após o anúncio da sua saída, foram vários os nomes apontados para a sucessão. E apesar de ainda não haver uma anúncio oficial, tudo indica que o substituto de Joel Rocha seja o espanhol José Maria Mendez, mais conhecido no mundo do futsal por Pulpis.
Pulpis é um treinador que passou por vários clubes do seu país, tendo pelo meio uma passagem pelo futsal croata. Começou a revelar-se ao serviço do Lobelle Santiago Futsal, clube pelo qual conquistaria a Taça das Taças em 2006/2007, derrotando o SL Benfica na final. Desde 2008, a carreira de Pulpis estaria dividida em três países: Vietname, Uzbequistão e Tailândia, sendo atualmente o selecionador tailandês, cargo que desempenha desde 2017.
Pulpis é um treinador com uma ideia de jogo inspirada na escola espanhola, que gosta de futsal ofensivo, podendo, assim, apresentar um estilo de jogo mais positivo e atrativo. O grande senão que há sobre ele, e sobre aquilo que poderá dar ao SL Benfica, prende-se com o facto de estar há mais de dez anos sem treinar ao mais alto nível, o que levanta dúvidas sobre o facto das suas ideias serem ajustadas à realidade do futsal atual.
Outra grande dúvida que se coloca é qual será a influência que ele tem na construção do plantel. O SL Benfica já anunciou a saída dos internacionais portugueses Tiago Brito e Fábio Cecílio, assim como a contratação dos jovens Carlos Monteiro e Lúcio Rocha. A imprensa também já apontou os nomes de Bruno Cintra, Rômulo e Dieguinho, havendo ainda indefinições no plantel quanto às posições de guarda-redes e de pivot.
Um novo ciclo irá ter início no futsal encarnado, mas ainda existem pontos de interrogação quanto ao que será esta equipa e, sobretudo, se esta será capaz de se superiorizar ao atual campeão nacional e europeu, encaminhando o SL Benfica para um período mais vitorioso."
O que joga Renato
"O bulo é o homem em foco na selecção portuguesa na primeira fase. Não ignorando os cinco golos de Ronaldo – Gesto técnico simples, mas são 5!!! em 3 jogos. Quem mais?! – mas foi em todos os jogos, Renato Sanches que trouxe futebol para o lado luso.
O nível absurdo a que se encontra permite-lhe ter impacto em todos os momentos do jogo! É cada vez muito mais que um jogador de Transições. Em Organização Ofensiva, não erra, é o homem que não pode ser pressionado porque desmonta sempre em drible pressão – Mesmo que venha de Pogba ou Kanté! – que liga o jogo com qualidade até às zonas de criação – Com a França é dele o passe para a zona de criação que encontrou Moutinho no lance do empate, e é sobre ele a falta que valeu o primeiro golos. Já contra a Hungria havia estado nos golos, ora isolando Rafa, ora solicitando a presença interior entre linhas para a combinação Rafa – Ronaldo – e em Organização Defensiva, é o tanque que fecha os espaços, recupera a bola e encontra saída partindo o jogo nas suas acelerações.
Olhar para Renato como apenas aquele jovem cheio de potencial que surgiu em 2016 é um erro. Está um jogador completo e prova no Europeu que as épocas em França não foram um acaso. A “Máquina de Guerra” que joga bom futebol caminha para cumprir o seu destino, depois de um salto em falso para Munique aos dezoito anos."
domingo, 27 de junho de 2021
Euro (2)
"Na semana passada versei sobre a indiferença que sinto pela selecção e obtive várias reacções, umas de estupefacção, outras de aprovação por razões erradas.
Sobre as primeiras, faço notar a irracionalidade do vínculo emocional no desporto. E se este é válido para a pertença, por que razão não o há-de ser também para o alheamento por muito que nos impinjam patriotismo artificial a roçar, na mensagem, o nacionalismo? E quanto às segundas, reafirmo que nada me move contra. Embirrar com esta ou aquela figura ou desaprovar isto ou aquilo na Federação não me condiciona. Se Portugal vencer, tanto melhor. Só que não tenho nada que ver com isso, tanto me faz.
Retrospectivamente, a minha indiferença terá começado na percepção de que Portugal não contava para o Totobola. Acresceu, em determinada altura, o escasso contributo benfiquista e o entendimento da selecção de tratar do pináculo dum futebol português podre. Depois uma certa arrogância, reconheço, por achar caricato haver tanta gente que, a cada dois anos, se tornava adepta de futebol 'a equipa de todos nós'. Mas também um princípio: para mim não há 'equipa de todos nós' se no todo se inclui quem manifestamente desprezo, não quero misturas.
Depois, em 1996, irritou-me a turba lusa, repleta de neoconvertidos ao futebol, reduzir à sorte a magnífico gesto técnico de Poborsky frente a Portugal. E, em 2004, apesar de ainda freneticamente entusiasmado com alguns golos portugueses, não senti qualquer tristeza pela derrota na final e guardei sobretudo indignação pela chantagem emocional de Scolari ao versar sobre patriotismo e a apelar por bandeirinhas (com pagodes) em cada janela. Foi o ponto final. E sinto pena: A alegria que teria tido em 2016..."
João Tomaz, in O Benfica
Futebol tem que sair do armário
"Na passada segunda-feira, Carl Nassib tornou-se o primeiro jogador no activo da NFL (campeonato profissional de futebol americano) a assumir ser gay. Nassib é jogador dos Las Vegas Raiders e publicou um vídeo nas redes sociais a partilhar a informação. Disse ele: 'Finalmente sinto-me confortável para tirar isto do meu peito, porque penso que a representatividade e visibilidade são muito importantes'. E acrescentou esperar que 'um dia, este tipo de vídeo deixe de fazer sentido'. Um dia, Carl? Amanhã já é tarde demais para isso.
Estamos em 2021 e ainda há quem olhe para o homossexualidade como um pecado, uma doença ou uma aberração. E quem vá para os estádios e redes sociais insultar outros seres humanos só porque amam de forma diferente da sua. No futebol profissional, no nosso futebol com bola redonda, mais do que assustadora, a realidade é hipócrita. Estima-se que 10% da população mundial seja homossexual, mas não no futebol praticado por homens ao mais alto nível. Aí continua a viver-se na Idade Média - nem lhes passa pela cabeça aceitar que, num plantel de 30 pessoas, pelo menos três atletas sejam gays. Tirando honrosas excepções, não há jogadores que assumam a sua orientação, seja por medo de represálias dos adeptos, dos patrocinadores, dos companheiros de balneário ou dos dirigentes.
Até quando? Provavelmente até ao dia em que um clube de dimensão internacional assuma a causa LGBTQ+ como sua e a defenda como deve ser defendida, colocando-se ao lado dos seus e suas atletas. Outras modalidades já evoluíram nesse sentido, como o rugby, o ténis ou a patinagem. O futebol no masculino continua a fingir que não se passa nada, como se esconder a cabeça na areia fosse a melhor política. Se as instituições não actuam, terão que ser os adeptos a fazerem ouvir-se."
Ricardo Santos, in O Benfica
O Engenheiro tem tudo controlado... acho eu
"Portugal ainda não enfrentou a França no preciso momento em que estou a redigir este texto, mas uma coisa é certa: só um autêntico descalabro pode retirar Portugal do Euro 2020 na fase de grupos. A história do futebol já provou diversas vezes que a teoria é apenas isso mesmo... teoria. Porém, em teoria... mesmo perdendo com a França por dois golos de diferença poderemos seguir em frente. Para esse resultado servir os interesses portugueses é necessário a Alemanha não perder com a Hungria, pelo que a derrota incontestável por 4-2 com os alemães foi extremamente importante para motivar os germânicos. O comum adepto tem a mania que sabe muito, mas o Engenheiro Fernando Santos está sempre um passo à frente.
A cada 10.000.000 de portugueses, 9.999.999 suspira pela titularidade do Renato Sanches desde o primeiro jogo. Acredito que, no jogo com a França, o Bulo será finalmente lançado de início. Aliás, já todos identificamos alterações capazes de melhorar o rendimento da selecção portuguesa, porque a excelente forma do Palhinha ou a potência do Nuno Mendes não podem continuar a ficar de fora. Para além disso, as fragilidades defensivas demonstradas com a Alemanha têm de ser corrigidas, porque se o Diego Armando Gosens fez o que fez... imagino o Mbappé. Assim, não tenho a mais pequena dúvida relativamente à equipa inicial de Fernando Santos para garantir um resultado que assegure a qualificação: Rui Patrício (GE), Nélson Semedo (DD), Diogo Dalot (DD), Pepe (DC), Rúben Dias (DC), José Fonte (DC), Nuno Mendes (DE), William (MDC), Danilo (MDC), João Palhinha (MDC) e Renato Sanches (PL). Bem sei o que estará o leitor a pensar neste momento: caraças, Pedro como é que tu sabias?"
Pedro Soares, in O Benfica
A alma do futebol
"Independentemente dos aspectos estritamente desportivos, o Campeonato da Europa já deu aos amantes do futebol algo assinalável: voltámos a ver estádios cheios. Há mais de um ano que tal não acontecia. E embora ainda não de forma generalizada, já foi possível, pelo menos em algumas partidas, saborear o futebol tal como o conhecíamos antes.
Ao longo deste período - demasiado longo e demasiado penoso - sofremos por ver bancadas despidas, sem cor, sem som e sem alma. Ficou dramaticamente demonstrada a falta que fazem os adeptos, e como o futebol é um quadro ao qual a moldura é absolutamente indispensável. No plano desportivo o Benfica foi o clube português mais penalizado, não só (como se sabe) com o próprio vírus, mas também com a ausência de público. Único no país capaz de encher todos os estádios onde joga, o nosso 'Glorioso' viu-se privado daquela que é, indiscutivelmente, uma das suas principais armas. E foram muitas as situações em que o grito oriundo das bancadas talvez pudesse ter galvanizado a equipa para melhorar resultados.
A pandemia não está ainda ultrapassada. Mas seria muito mau vivemos mais uma temporada desportiva de portas fechadas, mais um ano de futebol triste e meramente burocrático como aquele que, infelizmente, tivemos de suportar durante todo este tempo.
Quero acreditar que está próximo o momento de voltarmos a sentar-nos nas cadeiras do Estádio da Luz, e a festejar os golos do Benfica sem quaisquer restrições Já está longe o dia 2 de Março de 2020, data em que enchemos a Luz pela última vez. A saudade aperta. Acreditemos que o regresso está para breve."
Luís Fialho, in O Benfica
Futuro risonho
"Os campeonatos nacionais de sub-20, em atletismo, foram a prova provada da forma como o SL Benfica está a trabalhar no presente e a preparar o futuro. Em Viana do Castelo, as nossas equipas femininas e masculina alcançaram resultados que nos permitem sonhar com grandes conquistas na próxima década.
É verdade que estamos a destacar as nossas estrelas da modalidade - o triplista Pedro Pablo Pichardo, que voltou a brilhar em Madrid, com a melhor marca do ano, Samuel Barata, que domina o meio-fundo, Francisco Belo e Tsanko Arnaudov, os reis do lançamento do peso, o fantástico Paulo Conceição do salto em altura, o imparável Diogo Ferreira, na vara, o eterno Marcos Chuva no comprimento, a eterna Dulce Félix e a sensacional Marta Pen. Mas temos que olhar com muita atenção para as nossas estrelas - Isaac Nader (800 e 1500m), Leandro Ramos (dardo), Frederico Curvelo, Delvis Santos e André Prazeres, nos 100 e 200m, Gerson Baldé e Victor Korst, no salto em altura, Emanuel Sousa (disco), Etson Barros (3000m obstáculos), Edgar Campré (decatlo), Arialis Gandulla Martinez (100 e 200m), Ivanilda Lopes (disco) e Aleida Mendes (dardo).
Foram 38 os atletas que a professora Ana Oliveira convocou para honrarem a nossa camisola e devemos passar a fixar vários nomes, os juvenis Sisínio Ambriz e Leonor Ferreira (100 e 200m), e os juniores Diogo Barrigana (400m) e Camila Gomes (800 e 1500m). Elenquei apenas 17 futuras. A verdade é que o trabalho realizado, nos últimos 17 anos, tem sido notável - 166 títulos conquistados.
Seguem-se os campeonatos de Portugal, e os campeonatos nacionais de clubes, em Guimarães, nos próximos dias 3 e 4 de Julho, competição em que ambicionamos o 11.º título consecutivo."
Pedro Guerra, in O Benfica
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