Últimas indefectivações

terça-feira, 19 de maio de 2020

Silêncio ensurdecedor

"A partir do último fim-de-semana, ficámos todos a saber que iremos ter durante vários meses espectáculos sem público pela Europa fora, ajudando a criar em todos nós uma estranha sensação de vazio que, se as condições não se alterarem, não vai ser fácil preencher.

“Deus criou o mundo e desistiu de continuar a sua obra ao sétimo dia porque era domingo e havia um desafio de futebol”, uma frase metafórica do jornalista Francisco Sousa Neves que, quando proferida, teve como única intenção elevar ao cume um fenómeno que tomou conta de toda a humanidade em todos os quadrantes desde que inventado em finais do séc. XIX.
E não é apenas pelo ambiente que gera à sua volta que existe paixão universal por esse jogo fantástico, mas por toda a magia que o envolve e que se repete de cada vez que a bola começa a rolar nos tapetes mais diversos, sejam eles relvado ou de simples terra batida.
A partir do último fim-de-semana ficámos todos a saber que iremos ter durante vários meses espectáculos sem público pela Europa fora, ajudando a criar em todos nós uma estranha sensação de vazio que, se as condições não se alterarem, não vai ser fácil preencher.
Na Alemanha jogaram-se os primeiros 17 jogos, em dois escalões, que constituíram também um bom motivo de análise, no sentido de se concluir se o método é ou não recomendável, sabendo-se que é, antes de tudo, possível por força de necessidades conhecidas.
E vimos vários jogos sem novidades de monta: o Bayern de Munique venceu, o Borússia de Dortmund também ganhou tendo, por isso, ficado tudo na mesma. Ou seja, após a 26ª jornada da Bundesliga o duo da frente mantém imutável a diferença que os separa de quatro pontos, com vantagem dos campeões da Baviera.
Pondo de lado resultados e classificações ficaram especialmente na retina o silêncio e o eco produzidos em todos os estádios germânicos, sendo esse, sem dúvida, o ponto mais sensível de todas as análises.
A sensação que fica é a de estarmos diante de um fenómeno novo, com menos vida, nalguns casos quase a provocar sonolência.
Para já o futebol arrancou na Alemanha.
Os outros parceiros europeus também estão a preparar-se para o tiro de partida, oxalá sem outras novas interrupções."

O Covid-19 vai mudar o futebol para sempre

"É preciso reinventar o futebol. A solução já não é contratar uma estrela e ter sorte. Os clubes precisam de definir fluxos de trabalho, de reestruturar-se e automatizar processos através da tecnologia

“As pessoas perceberam que o Futebol não é indispensável”, Fernando Gomes, presidente da FPF.
De um dia para o outro, fecharam-se os estádios e os centros de treinos. Toda a actividade parou. Os jogadores foram para casa, os adeptos também. Tal como o mundo e os nossos hábitos, a organização dos clubes do futebol vai ter que mudar.
A maior parte dos clubes só vive para o jogo do fim de semana. Contratam-se estrelas sem que exista capacidade financeira para pagar salários, com o intuito de agradar à massa adepta e tentar ter resultados a curto prazo, a maior parte das vezes abrindo buracos financeiros dificilmente recuperáveis.
Dentro dos clubes, a área técnica, scouting, departamento médico, nutrição, performance, residências, logística, gestão de jogadores e de agentes… normalmente trabalham separadas geográfica e logisticamente. A informação é espalhada pelos diferentes departamentos, com sistemas tecnológicos diferentes, o que acarreta uma imensa ineficiência dos processos e das decisões.
Com o Covid-19 fomos todos obrigados a mudar. Como disse o presidente da FPF, a pandemia também nos ensinou que” o futebol não é indispensável”. É preciso reinventar o futebol. A solução já não é contratar uma determinada estrela e ter sorte. Os clubes devem ter uma definição sistematizada dos fluxos de trabalho e, acima de tudo, uma reestruturação e automação de processos através da tecnologia, para garantir um crescimento sustentável, através de uma estratégia de investimento em recursos humanos e tecnológicos de médio e longo prazo.
A evolução tecnológica é cada vez mais utilizada pelos treinadores para os seus próprios trabalhos, mas é ainda muito descurada por todos os outros departamentos.
Hoje, a maior parte dos clubes de primeira e segunda divisão utilizam coletes GPS para medir o comportamento físico do atleta. Mas a empresa/clube deveria cruzar os dados da performance física com os dados académicos, económicos ou alimentares. Ter esta informação centralizada é a possibilidade infinita de cruzamentos de dados que irá servir para analisar tendências, tanto físicas como logísticas, e inclusive conseguir prever o futuro utilizando o Machine Learning.
Nesta actividade do Futebol a resistência à mudança é grande. É difícil convencer um treinador que prepara treinos em papel há 25 anos que utilize um sistema tecnológico. Além disso, a elevada rotatividade não só dos funcionários do topo, como dos treinadores, também não ajuda.
O que acontece actualmente é que o know how, os dados e as análises, ficam na posse dos treinadores/dirigentes que, inevitavelmente, abandonam o clube, obrigando-o a recomeçar do zero sistematicamente.
Actualmente já temos projectos em Portugal interessantes e que lutam contra essa dinâmica, como o Famalicão, que investiu na formação garantindo a definição de uma lógica entre todos os escalões de formação. Nos últimos 15 anos, também o Benfica definiu uma estratégia de reestruturação. Seguramente que os adeptos estavam muito impacientes na altura mas, quando as coisas são bem feitas, os resultados falam por si- nos últimos seis anos, cinco títulos de campeão nacional.
Também temos casos como o Vitória SC ou o Estoril Praia que vão percebendo a importância desta visão. Infelizmente, ainda são poucos.
A Federação e a Liga muito têm feito para o bem do futebol português. Desde o certificado de entidades formadoras, ao processo de inscrições online da Liga, etc. Mas para garantir que o futebol cresce de maneira sustentável é necessário que a evolução na área desportiva seja acompanhada de uma evolução na área operacional e administrativa.
A pandemia do Covid-19 deve ser aproveitada como uma oportunidade de aceleração da digitalização do sector do futebol. Não há alternativa. Quem continuar a gerir um clube com base no fim-de-semana seguinte, irá ficar para trás."

Benfica FM #113 - 2000/01

Reconquista: Félix Brothers !!!

Semanada...

"1. Os Reforços de Bruno Lage. Leo Kokubo (GR), João Ferreira (DD), Morato (DC), Rafael Brito (MC), Paulo Bernardo (MC), Tiago Dantas (MOC), Tiago Araújo (EE) e Gonçalo Ramos (SA) foram chamados para treinar com a equipa principal. A imprensa, sedenta por notícias, fez disto uma grande coisa. Na verdade, parece-me que é apenas uma maneira do clube se salvaguardar caso de repente haja uma sucessão de lesões em determinada posição. É pouco provável que qualquer destes rapazes se venha a estrear pelo Benfica. Só se formos campeões com umas jornadas de avanço. De qualquer maneira, desta lista dá para perceber quem é que o clube mais acredita. Porque se a maioria dos nomes são consensuais, há outros que não são tanto. O caso mais flagrante é o de Tiago Araújo, que eu gosto como jogador, mas que era um jogador dos S23 e passou à frente de todos os extremos da equipa B. Outro ponto a retirar daqui é que está desfeita a dúvida - se é que ainda havia - de quem é o central que o clube vai apostar na próxima época. Vai ser Morato. Kalaica perdeu, mais uma vez, a corrida. Ainda vai dar jogador, mas não no Benfica.
2. Catió Baldé. Um dos nomes que Tiago Araújo ultrapassou foi Úmaro Embaló. Úmaro tem de facto um potencial maior do que Tiago Araújo. Na minha opinião, só não está aqui porque teve uma temporada complicada com lesões. Logo, acaba por fazer sentido. Mas prontamente tivemos mais um show mediatico do seu empresário. Catió Baldé começa a ser insuportável. É verdade que ele traz rapazes da Guiné Bissau e permite-lhes ter uma oportunidade na vida que dificilmente teriam. Mas também é verdade que depois explora esses rapazes e os leva a tomar más decisões para as suas carreiras. O exemplo mais claro e óbvio é o de Bruma. O próprio Úmaro não foi para a Alemanha há uns anos porque os alemães não quiseram pagar a Baldé uma comissão. É o exemplo perfeito daquilo que um empresário não deve ser. Infelizmente é cada vez mais o tipo de empresários que há.
3. O Erro de Pinto da Costa. O representante do dono do Porto Canal dirigiu-se a São Bento e aos jornalistas acabou por falar mais sobre o FC Porto do que sobre o Porto Canal. Houve duas coisas interessantes que Pinto da Costa disse (a) Se a indústria do futebol não puder voltar (“onde os atletas têm uma alimentação equilibrada e saúde controlada”), nenhuma outra indústria pode. Isto é verdade. Mas também desmente grande parte dos comentadores do FCP que dizem que o Campeonato só vai regressar porque o Benfica está em segundo. (b) Se o Campeonato for cancelado, deve-se fazer como se fez na 2º Liga. Aqui Pinto da Costa quis dizer que o FCP deveria ser campeão. Isso foi um erro. Porque apesar do Nacional e do Farense terem subido de Divisão, nenhum destes clubes foi considerado, pelo menos até agora, como Campeão da 2º Liga. Há uma diferença bastante grande entre subir de Divisão e ser considerado Campeão.
4. Quão provável é de facto a Liga terminar? Ao longo das últimas semanas, as equipas da primeira têm tido alguns casos positivos de covid-19. Os jogadores vão ser testados com regularidade antes e depois dos jogos. Mas os jogos vão envolver centenas de pessoas. A hipótese do virus entrar numa equipa não é remota. Faltam ainda 10 jornadas. Acho que era importante começar-se a discutir-se o que aconteceria caso a Liga não terminasse. Porque a hipótese, mesmo com todos os cuidados, não é impossível e se acontecer, já todos sabemos qual vai ser o forrobodó se não houver uma decisão antes. A decisão parece-me que já está tomada. Não haverá Campeão e servirá a classificação da altura para os apuramentos europeus. Foi a mesma decisão da Federação no Futsal e no Futebol Feminino.
5. Playoff no Hóquei em Patins. A FPP aprovou a mudança na estrutura do Campeonato. A partir da próxima época estão de volta os playoffs. É uma notícia muito boa. Os playoffs dão uma espetacularidade a qualquer modalidade e se à modalidade que corta a respiração num playoff é o Hóquei. O playoff em si retira qualquer peso aos jogos pequenos e mete-o todo nos jogos grandes. Ainda é cedo para prever quem vai ser beneficiado com isso. Mas no final, em vez de ganhar a equipa mais constante, ganhará a melhor equipa. Regra geral, a melhor equipa é também a mais constante. O maior impacto diria que vai ser na bilhética, o que é sempre bom.
6. Segundo reforço do Futsal. Depois de Nilson, o Benfica parece ter fechado o seu segundo reforço. Trata-se do pivot que também faz de ala iraniano de 31 anos, Hossein Tayyebi. Tayyebi jogou os últimos quatro anos no Kairat. Tem passagens pela Rússia também, além do início da carreira ter começado no Irão. Foi a peça principal do Irão que ficou com a medalha de bronze no Mundial de 2016. Na altura eliminaram o Brasil no 16-avos de final e bateram Portugal na decisão do 3º lugar. Nos últimos quatro anos foi sempre umas das peças principais do Kairat, que terminou duas vez no pódio na UEFA Futsal Champions League. É um jogador tecnicamente muito evoluído. Vai ser concerteza um reforço interessante. A dúvida será mais quem é que ele irá substituir. No Kairat jogava sobretudo a pivot. Logo para ele vir, ou Fernandinho ou Fits estarão de saída. Fernandinho tem sido um dos melhores do Benfica nos últimos anos. Com 38 anos as pernas podem começar a pesar a qualquer altura...
7. Mais saídas nas Modalidades. Desde do meu último post, o clube anunciou as saídas Albert Casanovas (Hóquei) Chaguinha (Futsal), Gary McGhee (Basquetebol), Pedro Seabra (Andebol) e pela imprensa portuguesa fala-se também da saída de Jordi Adroher (Hóquei). Adroher e Chaguinha são saídas naturais. São dois jogadores que o rendimento baixou bastante em relação aos últimos anos. McGhee e Casanovas foram apostas falhadas. Pedro Seabra é a que me deixa mais triste. Foi o meu jogador favorito do Andebol do Benfica nos últimos três anos e no período desta página. Acho até que é o meu jogador favorito de sempre no Andebol do Benfica. Sai pela porta pequena e numa decisão que me parece mais ligada a finanças do que outra coisa (a sua saída abre massa salarial para contratar jogadores para o novo treinador). Que tudo corra bem aos cinco.
8. Helton Leite. Tudo indica que está fechado o segundo reforço do plantel para 2020-21. Helton Leite vai ser o nosso segundo guarda-redes. O brasileiro de 29 anos já é, para mim, um dos três melhores guarda-redes do Campeonato (só atrás de Vlachodimos e Marchesin). É um upgrade muito significativo a Ivan Zlobin, que tal como Mile Svilar, deverá ser emprestado no próximo ano. Helton Leite é muito completo, tem grandes reflexos. Tem tudo para ser o segundo guarda-redes do Benfica durante 3 a 4 anos."

Golo: Samaris

Festa...

Mais um...

10

Golo defensivo !!!

Revira-Rafa !!!

Dérbi...

Benfiquismo (MDXXIX)

Voando...

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Comemorar o presente...

"... para comemorar no futuro. A BTV tem dedicado, nos últimos dias, parte da sua programação a evocar o inédito Tetra e a homenagear os protagonistas deste feito alcançado há três anos.
Em 2015, festejámos o Bicampeonato, o que não conseguíamos desde 1984, no segundo ano da primeira passagem de Eriksson pelo Benfica. O sexto Tri da nossa história deu-se no ano seguinte, 39 anos depois do anterior, quando, em 1977, a equipa era liderada por Mortimore. E o muito ambicionado Tetra finalmente aconteceu em 2017 à sexta oportunidade.
Têm passado, pelos ecrãs da BTV, vários artífices do Tetra, entre os quais Luís Filipe Vieira, Rui Costa, Shéu, Luisão, Jonas, Salvio, Gaitán, Paulo Lopes, Nélson Semedo, Gonçalo Guedes, Renato Sanches, além dos treinadores Jorge Jesus e Rui Vitória.
Hoje celebra-se um ano da Reconquista, o 37.º título nacional benfiquista, na sequência do brilhante percurso da nossa equipa desde que Bruno Lage assumiu o cargo de treinador. Foram 18 vitórias e um empate, em 19 jogos, que nos permitiram regressar ao Marquês. E com 103 golos marcados, igualando o recorde benfiquista na prova, estabelecido 55 anos antes, em 1963/64.
A recordar este percurso brilhante estará hoje, na BTV, o decisivo para a reconquista João Félix, acompanhado do seu irmão, Hugo Félix, mais um jovem promissor da nossa formação.
Trata-se simultaneamente de uma justa homenagem aos protagonistas das conquistas desportivas e de um forte tónico para as onze finais que se avizinham. Somos campeões em título e queremos muito sagrarmo-nos Bicampeões Nacionais mais uma vez, para podermos pensar depois na final da Taça de Portugal e tentarmos a dobradinha!
#PeloBenfica

P.S.: Faz também hoje um ano que a nossa equipa feminina de futebol conquistou o seu primeiro título ao mais alto nível. Foi uma tarde em cheio, com o triunfo, no Jamor, da Taça de Portugal, o que permitiu às nossas futebolistas, horas mais tarde, celebrarem e serem homenageadas em pleno Estádio da Luz, no intervalo da partida frente ao Santa Clara."

37

Golo: Salvio

Skill: Salvio

Ody e Svilar

Vi que Nélson Semedo, Ederson, Gonçalo, David Luiz, Renato e Bernardo querem regressar. Benfica: diz-me que é impossível depois de tentares

"Há poucos dias um misto de orgulho e melancolia apoderou-se de nós. A data assinalava o décimo aniversário do primeiro título da era Jesus.
Orgulho pela qualidade do futebol praticado. Afinal foi nessa altura que o termo rolo compressor se tornou célebre na luz. Havia gente a usar fraldas em plena bancada porque não queriam arriscar-se a perder um golo ou algum lance ofensivo como há muito não se via na Luz.
Orgulho, também, pela promessa de dias melhores que aquele tempo continha, e que o futuro se encarregou de confirmar com a maioria dos títulos nacionais na década seguinte.
Orgulho, ainda, por termos sido capazes de atrair e reter uma mão cheia de jogadores que, como a equipa de 2013/14, se tornaram referências para quem hoje continua a celebrar mas também a sofrer com o Benfica, que é um outro.
Orgulho, finalmente, por sentirmos, então e agora, que tudo aquilo era muito mais sobre futebol do que sobre outra coisa qualquer. Há dez anos o terreno era diferente, menos acidentado e menos acidentado. Um tipo calçava uns crocs e até era capaz de fazer uma festa aos crocodilos.
Hoje, os jogos ganham-se no lamaçal. A bola mal circula. Todos os jogos parecem-se metaforicamente com a partida dos distritais caracterizada por ocorrências algures entre uma bojarda para o pinhal, o pontapé para o ar, o chavascal de pancadaria, ou a bancada desorientada.
Não me parece que o lamaçal vá secar nos próximos tempos, portanto o último reduto é mesmo jogar à bola e com isso devolver alguma da alegria que esta doença roubou às pessoas.
Nesse sentido, não é difícil acreditar que continuaremos a ser quase sempre melhores do que os nossos adversários nacionais, como, infelizmente, a avaliar por erros de planeamento recente, é difícil acreditar que os traumas principais venham a ser ultrapassados: o confronto directo com o FCP e o regresso a uma grande presença europeia.
A sorte do Benfica é que tem muitas efemérides para celebrar e muitas datas das quais o clube e os seus adeptos se podem orgulhar. O azar é que as efemérides nos relembram de tudo o que já vivemos e da nossa condição actual. Os adeptos querem sempre mais do melhor que já viveram. Todos nós queremos, num certo sentido, mais do mesmo. Até nos fartarmos de vencer, coisa que evidentemente jamais virá a suceder.
E não são só os adeptos que querem mais do mesmo ou se deixam comover com as efemérides e com este clube lindo.
Os atletas que o representaram parecem concordar, e é aí que toda esta conversa pretende chegar. Nos últimos dois meses vimos Nélson Semedo, Ederson, Gonçalo Guedes e David Luiz, entre outros, falarem de um tempo que viveram e que gostariam de recuperar. Todos eles dizem que querem viver isso antes da reforma. Nunca duvido da sua sinceridade porque sei, todos sabemos, o quanto foram acarinhados pelo clube.
Depois tivemos Renato Sanches, que confirmou ter quase regressado por duas vezes. O caso de Bernardo Silva é ainda mais grave: o nosso modelo desportivo, mais financeiro do que futebolístico, colocou um dos maiores talentos esculpido no Seixal a caminho de um principado como se o tivéssemos entregado para adopção, apesar de termos todas as condições para ele viver feliz com o resto da nossa família.
Pois bem, se queremos voltar a sentir o tal orgulho de há uma década, não precisamos de olhar para o futuro em busca de abstracções e muito menos de prometer feitos grandiosos - um Benfica europeu - em relação aos quais pouco ou nada fizemos. Se o objectivo é tornar o Benfica ainda mais forte em Portugal e na Europa, que o façamos seguindo o modelo de há uma década: contratar jogadores feitos, neste caso, jogadores feitos por nós.
Digam-me que é impossível depois de tentarem.
Os seis atletas que referi querem voltar a representar o clube. O desígnio do clube deveria ser o de reter estes talentos. Se não os retém, que os devolva ao sítio onde foram mais felizes, e onde querem continuar a orgulhar-nos. Sobre isto, não devia haver mas nem meio mas. Dizem que este tem sido um período de reflexão.
Pois bem, eu tenho reflectido muito: não tenho saudades nenhumas do lamaçal que se viu interrompido nos últimos dois meses, e estou absolutamente farto que o Benfica não seja tudo aquilo que poderia ser, que a política desportiva não seja, como aquilo que é exigido aos nossos atletas, a de deixar tudo em campo. Estou absolutamente farto que, hoje, a percepção colectiva do Benfica se deixe infelizmente prejudicar pelos enormíssimos danos reputacionais que nos têm sido infligidos, e cujo desgaste teimamos em ignorar.
Há uns dias lia algures - penso que era isto - que há hoje mais pessoas em Portugal nascidas após o 25 de Abril do que nascidas antes. Alguém disse, de forma oportuna, que isso explica parte do esquecimento ou da frágil memória história de alguns.
Pois bem, a história do Benfica não é assim tão diferente. Infelizmente, tem a agravante de viver de muitas efemérides bem mais antigas do que o 25 de Abril. Se queremos que as nossas efemérides europeias não sejam esquecidas, temos de lhes dar sequela, temos de presenciar mais alegrias. Se queremos que o Benfica seja tudo aquilo que nós dizemos que é, o Benfica tem de voltar a ser tudo isso novamente, dentro de campo, onde nada mais interessa a não ser lutar para merecer o orgulho e entrar na história.
Isto não é uma ideia para o mandato, ou para a década, ou para sabe Deus quando. É para ontem. E escusam de lhe chamar ingratidão para com esta direcção. É exigência, e quem não a tiver estará sempre mais perto de perder."

O regresso do pontapé na bola (que é uma lata de atum, porque o bife do lombo ainda não voltou)

"Dizem que o campeonato alemão recomeçou. Dizem e eu acredito. Até vi imagens nos noticiários – “o futebol recomeçou na Alemanha” – como se a Segunda Vinda de Cristo fosse em chuteiras e camisolas Adidas. “É um teste”, dizem os senhores da bola com ar de funcionários da Direcção-Geral de Saúde. “A seguir é a Europa inteira”, asseguram, escapando-lhes o lado ominoso da profecia. “É melhor do que nada”, dizia uma adepta do Borussia Dortmund habituada ao bife do lombo, num esforço para se contentar com a lata de atum, o “novo normal.”
Melhor do que nada? Desculpem lá qualquer coisinha, eu sei que a ressaca é custosa, que uma pessoa já está por tudo, mas esta pressa de jogar nos escombros só é útil para definir classificações, determinar apurados para as competições europeias, etc. Futebol? Só se o futebol agora é aquilo, aquele desconsolo de bancadas vazias, como se todos os clubes tivessem sido castigados com jogos à porta fechada. O castigo é dos adeptos. Mas the show must go on e tal.
Então, desinfectam-se as bolas, mede-se a temperatura aos jogadores (só antes dos jogos? Porque não durante? Seria uma forma de compensar os sites de apostas: aposte na temperatura do defesa-central do Mainz ao intervalo ou do guarda-redes do Hertha de Berlim depois de sofrer um golo!), árbitros e capitães evitam cumprimentos na escolha de campo, os suplentes ficam a metro e meio de distância, os festejos com abraços são desaconselhados, os ecrãs dos estádios exortam o público (que público?) a cumprir as normas de segurança.
E o jogo lá decorre com a emoção de quem preenche um relatório. No Twitter, Cesc Fabregas queixou-se: “Sinto que estou a ver um treino”. Mas eu tenho a certeza de que preferia ver alguns treinos de antigamente do que assistir a estes simulacros de futebol competitivo. Quem me dera que fosse só eu, exigente adepto de sofá, a reclamar desta variante anémica da modalidade. O pior é que treinadores e jogadores sofrem mais do que ninguém com as bancadas vazias, como se fossem fantasmas a jogar nas ruínas de um estádio.
Lucien Favre, treinador do Dortmund, disse que se ouvia tudo: “Foi uma sensação muito estranha”. O treinador do Friburgo, Christian Streich, afirmou que a “qualidade não se perde, mas faltou o indispensável calor humano.” Uwe Rosler, do Fortuna Dusseldorf, apelou à resignação: “Vamos ter de nos habituar a esta nova realidade, por mais estranha que seja.” Também Julian Brandt, jogador do Dortmund, alinhou pela filosofia do mal menor: “Preferia que as condições fossem normais, mas é o que temos.”
Reparem, “é o que temos.” Nenhum espectáculo que viva da emoção, de uma certa megalomania quanto às suas próprias virtudes espectaculares, pode mergulhar nesta filosofia de tasca – é o que temos, é o que é, é o que se arranja, já temos a cozinha fechada, acabámos de limpar a máquina do café – sem desmotivar profundamente todos os envolvidos na produção do espectáculo. E os clientes lá vão roendo a sandes de torresmo com pão de três dias: “Melhor do que nada, não é?”
Confesso que o meu desgosto também deriva de uma certa germanofobia ou, para ser mais exacto, de uma bundesligofobia. A liga alemã não me interessa nada. É uma liga de bárbaros, um colóquio de búlgaros, polacos, austríacos e turcos conduzido por armadas de alemães carregadinhos de Sturm und Drang. Quando por acaso vejo um jogo do campeonato alemão, estou sempre à espera de que um jogador desembainhe o sabre ou saque do revólver e mate um arquiduque. A competitividade, tão louvada pelos próprios, é negada pela superioridade avassaladora do Bayern de Munique, que os adversários aceitam com excessiva bonomia. Acredito que um Schalke 04-Leipzig ou um Bayer Leverkusen-Baader-Meinhof sejam confrontos emocionantes, mas para isso precisam, mais do que qualquer outro campeonato, da presença de público.
Enquanto a Premier League não regressar, e o regresso seja a sério e não com este sucedâneo insatisfatório, para mim o futebol continuará em hibernação. Se é para defender o “melhor do que nada” preferia então o método pré-histórico da moeda ao ar. Lembram-se? Eu não, mas sei que o Benfica até foi eliminado por ter escolhido cara ou coroa. Transmitia-se o lançamento da moeda, sei lá, à melhor de sete. Aleatório? Jogo é jogo. Para as coisas serem mais justas podiam dar um ponto de vantagem aos mais fortes.
A mim interessava-me tanto ver a moeda, num suspense de câmara lenta, a rodopiar no ar, como este espectáculo de jogadores no banco à distância regulamentar e no relvado uns marmanjos de que se ouvem os impropérios, a respiração pesada e os grunhidos. Sem público, o futebol é mais lento, mais mortiço, um quadro sem moldura. Já o disse, sem público todos os jogos têm qualquer coisa de III Divisão, sem o encanto primitivo desta. Não, o futebol ainda não voltou. O que agora nos servem é pontapé na bola. Futebol é outra coisa."