Últimas indefectivações

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Quando Eusébio foi Pelé...

"O 'King' às vezes afinava quando o queriam comparar com Pelé: 'Pelé da Europa? Porque não é ele o Eusébio da América so Sul?' Mas, em 1958, o Braisl foi campeão do mundo na Suécia, e havia uma equipa chamada 'Os Brasileiros' na Mafalala.

Pelé fez há bem pouco tempo 76 anos. Há 59 anos foi campeão do mundo pela primeira vez. Extraordinário, não é?
Lá, na Mafalala, Lourenço Marques, Moçambique, em 1958, D. Elisa Anissabani gritava por Eusébio, mas Eusébio não vinha. Ficara de ir buscar o jantar da família, agora maior: D. Elisa Anissabani tivera até mais duas, e já somava seis rapazes. No regresso, faltava um. Faltava um no campo da bola de terra vermelha, estavam dez para onze, Eusébio era preciso. Esqueceu o jantar, esqueceu a família. O chamado da bola era mais forte do que a voz da mãe. E, ainda por cima, a Mafalala ganhara um clube de futebol: Futebol Clube Os Brasileiros.
Futebol Clube Os Brasileiros: nome de pompa e circunstância.
Em 1958, na Suécia, operou-se o milagre: o Brasil deixava de ser apenas a selecção que melhor futebol jogava e passava a ser, de facto, a melhor de todas, títulos incluídos. Nelson Rodrigues chamou-lhe 'O Triunfo do Homem'.
No dia 29 de Junho de 1958, o Brasil venceu a Suécia, no Estádio Raasunda, por 5-2. Pela primeira vez uma selecção vencia um Campeonato do Mundo num continente que não o seu; pela primeira vez uma selecção vencia uma final de um Campeonato do Mundo de goleada. Pelé, tinha somente dezassete anos. 'Pelé é um menor total, irremediável', gritava Nelson Rodrigues nas páginas da Manchete Esportiva. «Não pode nem assistir a um filme da Brigitte Bardot. Ao receber o ordenado, o bicho, é o pai que tem de representá-lo. Pois bem: - Pelé assombrou o mundo! Não se limitou a fazer os gols. Tratava de enfeitá-los, de lustrá-los. (...) Ninguém é melhor do que ele. Tivesse jogado contra a Inglaterra e creiam: - havia de driblar até a rainha Vitória.»
Com Pelé havia também Garrincha, o Anjo das Pernas Tortas de Vinicius de Moraes. E havia Didi, da 'folha seca', e Zagalo, e Vavá, e Nílton Santos, e Bellini, e Djalma Santos, e Zito, e Gilmar. Ainda e sempre Nelson Rodrigues: «Cada golo de Vavá era um hino nacional. Na defesa, Bellini chutava até a bola. E quando, no segundo tempo, Garrincha resolver caprichar no baile, foi um carnaval sublime. A coisa virou show de Gande Otelo. E tem razão um amigo que, ouvindo o rádio, ao meu lado, sopra-me: 'Isso que o Garrincha está fazendo é pior que xingar a mãe!' (...) Como apalpar o impalpável? Como marcar o imarcável? Na sua indignação impotente, o adversário olhava Garrincha, olhava as pernas tortas de Garrincha, e concluía: 'Isso não existe!?'»
'Não faz mal dizer...'
Eusébio era apenas um pouco mais novo do que Pelé.
Afirmava Eusébio: 'Não se falava noutra coisa. Brasil, campeão do mundo, o futebol fantástico, os dribles, os golos. Além disso, tinham sido equipas brasileiras e deixar mais cartel em Lourenço Marques, nas poucas vezes em que éramos visitados por clubes estrangeiros. Por isso baptizámos o nosso clube de FC Os Brasileiros. E cada um de nós tinha o seu nome de guerra correspondendo aos grandes craques. Um era o Didi, outro o Garrincha, outro o Zagalo, e por aí fora. E eu? Tenho de contar tudo, não é? Então não faz mal dizer que eu era o Pelé...'
Eusébio, Pelé; Pelé, Eusébio: os dois nomes parecem ligados por um hífen. Às vezes, Eusébio levava a mal a comparação, irritava-se, desabafava: 'Chamaram-me o Pelé da Europa? Porquê? Porque não chamam ao Pelé o Eusébio da América do Sul?' Mas uma saudável amizade os uniu desde que se encontraram pela primeira vez, em Paris, no Parque dos Príncipes, num extraordinário Benfica - Santos que marcou a estreia internacional do menino de Mafalala.
Falavam a mesma língua Português? Não. A língua universal do futebol dos grandes nomes. Uma língua quase só deles. Dos que ficam para lá da lenda."

Afonso de Melo, in O Benfica

O encontro de dois 'solistas'

"O Estádio da Luz fo palco do encontro de duas vedetas. Eusébio e Chico Buarque 'trocaram galhardetes' no futebol e na música

Eusébio atravessou o campo do Estádio da Luz 'com o seu ar tímido de menino envergonhado, pontapeando uma bola', até chegar junto de uma das balizas, onde um grupo de pessoas o aguardava. Para trás ficaram os seus colegas de equipa, a treinar para o jogo que iria decorrer no domingo seguinte, a 27 de Abril de 1969, dali a apenas dois dias.
Chico Buarque esperava-o, juntamente com alguns jornalistas, envergando uma camisola do Benfica com o n.º 10 e uma viola. Esta era a terceira vez que vinha a Portugal, em quatro anos de actividade profissional. Contudo, era a primeira vez que o cantor que 'Lá pelos Brasis onde é «Rei» incontestado' iria conhecer o 'Rei' do futebol português.
A admiração era mútua: o atleta português, conhecido apreciador de música, tinha vários dos seus discos, o músico brasileiro, conhecido aficionado por futebol, tinha-o como ídolo do desporto-rei português. Portanto, foi com naturalidade que Chico Buarque, após estender desembaraçadamente a mão, disse:
'-Eu com a bola, você com o violão. A ver se resulta.'
E a troca fez-se, após Mário Coluna ser também apresentado ao artista. Eusébio ficou surpreendido com o talento demonstrado pelo jovem brasileiro com a bola, mas não ficou atrás quando foi a sua vez com a viola.
O treinador Otto Glória aproximou-se para os chamar para junto do resto da equipa, mas não sem antes 'bater um papo' com o seu compatriota sobre a Cidade Maravilhosa, a Praça Onze e as garotas de Ipanema... O tempo passou rapidamente, Chico Buarque olhou para o relógio e viu que estava atrasado para o ensaio no Teatro Villaret, onde nessa noite iria actuar juntamente com Vinicius de Moraes e Nara Leão. Estava na hora de partir, com a única tristeza de saber de que não conseguiria ver um jogo de futebol em Portugal, de ver Eusébio jogar...
Pode ficar a conhecer mais momentos em que o caminho de Eusébio se cruzou com outros mitos na área 24. O 'Pantera Negra' e outras lendas do Museu Benfica - Cosme Damião."

Lídia Jorge, in O Benfica

Benfiquismo (CCLXXXVII)

Vermelho do Benfica

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Mais-valia de jogadores na venda

"Há um jornalista televisivo de um grande canal, após a publicação do relatório e contas da Benfica SAD - individual e consolidado - que se entreteve a fazer o que mais sabe - dizer bacoradas!
Desta vez, num programa com um enorme tempo de antena, meteu-se a falar sobre as transferências do Benfica e bem vistas as coisas não foi nada ajudado por quem supostamente deveria ajudar e estar dentro da 'poda'.
Eu, que já não me chateio com muita coisa, desta vez fiquei mesmo irritado! Não tanto com o facto de o senhor jornalista estar a 'regar', mas muito com o facto de estar a falar sobre matéria de que não percebe nada e que, infelizmente, eu percebo.
A distinção entre o fenómeno financeiro e o fenómeno económico era evidente que não era apanágio do referido senhor. A distinção entre receita bruta e mais-valia contabilística também não era muito a sua 'praia'! Bem analisadas as coisas, não surpreendi nada em que fosse realmente bom!
A rubrica 12 do anexo às contas publicadas da Benfica SAD do exercício de 2015/2016 reza:
12 Amortizações e perdas de imparidades de direitos de atletas.
A rubrica de amortizações e perdas de imparidade de direitos de atletas é analisada como segue:
As amortizações de direitos de atletas compreendem o reconhecimento dos gastos incorridos com a aquisição dos direitos dos jogadores profissionais de futebol que são capitalizados, conforme analisado na nota 18. O gasto de aquisição inclui as importâncias despendidas a favor da entidade transmitente, os encargos com serviços de intermediários, os encargos com direitos de imagem de atletas (quando o pagamento não está dependente do cumprimento do contrato de trabalho desportivo do jogador) e os prémios de assinatura pagos aos atletas, assim como os efeitos da actualização financeira, tendo em consideração os planos de pagamento estipulado.
Por sua vez a rubrica 13 reza:
As rubricas de rendimentos com transições de direitos de atletas e de gastos com transacções de direitos de atletas são analisados como segue (...).
Vamos desenvolver um pouco mais o tema, reproduzindo as maiores alienações - aquelas que tanta asneira geraram.
As alienações no exercício findo a 30 de Junho de 2016, que geraram ganhos e perdas no montante líquido de 68.002 milhares de euros (conforme referido na nota 13), resultaram, essencialmente, da:
- Alienação dos direitos de inscrição do atleta Renato Sanches ao Bayern Munique, pelo montante de 35.000 milhares de euros, que gerou um ganho de 31.500 milhares de euros, após dedução de gastos com serviços de intermediação, no montante global de 3.500 milhares de euros;
É só ler o que está escrito!
- Alienação dos direitos de inscrição do atleta Nicolás Gaitán ao Atlético de Madrid, pelo montante de 25 milhões de euros, que gerou um ganho de 18.939 milhares de euros, após dedução: (i) de gastos com serviços de intermediação; (ii) do efeito da actualização financeira tendo em consideração os planos de recebimento e pagamento estipulados e (iii) do valor líquido contabilístico do direito do atleta à data da alienação, no montante global de 6.091 milhares de euros;
Também é só ler o que está escrito, mas, sim, é preciso perceber um bocadinho de contabilidade.
Damos de barato a questão da actualização financeira que é um custo efectivo, mas que até esquecemos. O que efectivamente nos interessa é isto:
'... do valor líquido contabilístico do direito do atleta à data de alienação, no montante global de 6.061 milhares de euros;'
Ora, isto é o valor contabilístico pelo qual o jogador se encontra contabilizado na conta do SNC de Activos Intangíveis e que em bom rigor é um custo contabilístico e não um custo financeiro!
Um ACTIVO (jogador) é contabilizado por um determinado valor. Em função dos anos de contrato esse valor vai sendo amortizado, pelo que o seu valor vai sendo amortizado, pelo que o seu valor de Activo vai sendo diminuído anualmente. Veja-se que este Governo até publicou agora um diploma que permite reavaliar os Activos!
Exemplo: Um atleta custou à sociedade 2 milhões e o seu contrato é válido por quatro anos. Isso significa que, em cada ano, vai-se amortizando 500.000€ no valor do atleta, o que significa que no fim do primeiro ano ele vale 1,5 milhões na contabilidade, ao fim do segundo ano ele vale 1 milhão, na contabilidade, e assim sucessivamente.
Voltando ao exemplo, temos que na contabilidade, o Gaitán estava avaliado num determinado valor, pelo que, no apuramento da mais-valia, o mesmo valor teve de entrar em linha de conta, pois pela venda são levados amortização (custo), todos os valores líquidos pelos quais o Activo está valorizado contabilisticamente.
Mas acrescentamos o seguinte.
Em 10/11/2014, o Benfica prolongou o contrato de trabalho desportivo por mais 2 (duas) épocas desportivas, ou seja, até 30 de Junho, até 30 de Junho de 2018, tendo fixado a cláusula de rescisão em 35 milhões €.
Em 9/12/2015, o Benfica prolongou o contrato de trabalho desportivo por mais 1 (uma) época desportiva, ou seja, até 30 de Junho de 2019, tendo fixado a cláusula de rescisão em 45 milhões €. Ora, isto custa dinheiro e é contabilizável!
Assim, dizer-se que o atleta foi afinal vendido por 18,939 milhares de euros é um autêntico disparate!
- Alienação dos direitos de inscrição do atleta Ivan Cavaleiro ao AS Monaco, pelo montante de 15.184 milhares de euros, que gerou um ganho de 13.684 milhares de euros, após dedução de gastos com serviços de intermediação, no montante global de 1.500 milhares de euros;
É só ler o que está escrito!
- Alienação dos direitos de inscrição do atleta Lima ao Al-Ahli Dubai, pelo montante de 7 milhões de euros, que gerou um ganho de 5.208 milhares de euros, após dedução: (i) de gastos com serviços de intermediação e (ii) do valor líquido contabilístico do direito do atleta à data de alienação, no montante global de 1,792 milhares de euros.
O mesmo raciocínio que se fez quanto ao Gaitán.
Pois é! Não estudam Matemática e depois quem paga é a verdade desportiva-financeira!
(...)"

Pragal Colaço, in O Benfica

E assim tiraram tijolos ao muro

"Como pegando no exemplo solidário dos jogadores de Estados Unidos e México se chega à história de Guilherme Espírito Santo...

Sempre entendi que o desporto e a política não se devem misturar, correndo cada um em pistas necessariamente paralelas. Os maus resultados da promiscuidade são mais do que conhecidos e como não há almoços grátis e conta chega sempre no fim. Porém, ma coisa é manter o primado da separação de águas, outra é a intervenção civilizacional, que em muitas circunstâncias é obrigação dos desportistas. A participação em causas solidárias só enobrece quem as acolhe, o sentido da dávida é um dom precioso e usar a visibilidade social para ir ao encontro das necessidades dos mais desfavorecidos constitui uma das facetas mais interessantes de muitos desportistas, envolvidos em fundações ou mesmo em organizações supranacionais.
Vem estes introito a propósito do que aconteceu antes do jogo entre os Estados Unidos e o México (1-2), que teve lugar imediatamente após a eleição de Donald Trump. Numa altura em que a construção de um muro entre os dois países está na ordem do dia (e ainda ontem, em entrevista à CBS, Trump reafirmou o que prometera em campanha...), os jogadores dos dois países decidiram enviar uma mensagem solidária, formando juntos e intercalados, sem divisões e em plano de igualdade.
Com esse gesto - que não contestou a legitimidade presidencial de Donald Trump - os internacionais dos Estados Unidos e do México foram mais eficazes do que todas as manifestações folclóricas a que o mundo tem assistido. E mostraram urbi et orbi que quem anda no desporto, onde todos são iguais, não tolera a segregação.
Há muitos anos, na década de trinta do século passado, o Benfica deslocou-se à Madeira. Chegados ao hotel, foi dito à comitiva encarnada que um dos jogadores Guilherme Espírito Santo, o primeiro negro a vestir a camisola das águias, teria de ficar no anexo. Os restantes jogadores protestaram sem sucesso e acabaram por decidir que se um deles tinha de ficar no anexo, então ficariam todos, como veio a acontecer. É esse o desporto em que me revejo, nobre, solidário e igualitário. Num campo de futebol ou numa pista de atletismo, numa piscina ou num pavilhão, a diferença faz-se pela aptidão e pelo talento, nunca pela cor, condição social, poder económico, credo religioso ou orientação sexual. Sem muros...
(...)"

José Manuel Delgado, in A Bola

William fez tremer engenheiros em Silicon Valley e Um Azar do Kralj já tem missão para André Silva em 2026

"Rui Patrício
Obrigado a defesa atenta logo aos 9 minutos. Entre esse momento e o golo da Letónia, aos 66’, aproveitou a boa visibilidade dos céus algarvios e a inépcia do adversário para tentar observar a super lua. Quando percebeu que isso é só amanhã, decidiu pôr leituras em dia e acabou a assinar uma petição para abolir a eleição do colégio eleitoral nos EUA. É de longe a pessoa menos culpada no lance do golo e na eleição de Donald Trump.

João Cancelo
Um lateral que consegue ser tão bom a defender como os seus concorrentes - Cédric e Nélson Semedo - e quase sempre melhor a atacar. Fez o que quis dos seus oponentes directos mas revelou excesso de misericórdia num ou noutro lance em que esperou que o defesa recuperasse o fôlego para lhe dar mais um nó. É titular do Valência e pretendido por Barcelona e Real Madrid. Alguns invistais afirmam que isso se deve aos dotes empresariais de Jorge Mendes. Apenas uma coisa é certa: não se deve aos dotes tácticos de Jorge Jesus.

José Fonte
Aos 26 minutos foi apanhado desprevenido em zonas mais avançadas do terreno e aproveitou para se tornar o oitavo jogador da selecção portuguesa a humilhar um letão com uma finta inconsequente. Pelas feições que apresenta, não parece ser o tipo de pessoa que prega partidas ao Renato Sanches no snapchat, o que nos deixa confortáveis.

Bruno Alves
O nosso gigolo favorito fez a vez de Pepe e até marcou, mas não esquecemos a passividade no lance do golo da Letónia. Enquanto José Fonte se esfalfava para, pelo menos, dar a entender que fizera o possível para evitar o empate, Bruno Alves acompanhou o lance com a atitude de quem sabe que vai voltar para o banco.

Raphael Guerreiro
Cristiano Ronaldo terá dito há uns dias que, a ter de escolher um jogador para reforçar o Real Madrid, seria Raphael Guerreiro. Depois da sua prestação no Europeu ao lado de Fernando Santos, ninguém duvida da seriedade desta afirmação. Para que se perceba melhor, Cristiano Ronaldo não recomendava a contratação de ninguém desde que exigiu a presença do Regufe em qualquer circunstância da sua vida. Quanto ao Guerreiro, joga por Portugal, veio lá da França, e agora que trabalha em Dortmund parece mais engenharia alemã do que Citroen. O seu futebol fá-lo parecer mais velho do que é, característica que partilha com Renato Sanches, excepto a parte do racismo. 

William Carvalho
Desconhece-se quantos empregos serão ocupados por robôs nos próximos anos, mas se William Carvalho continuar a jogar assim, o seu posto de trabalho está seguro. De longe o melhor em campo. Não só cumpriu com elevada nota artística tudo aquilo de maquinal que se espera de alguém responsável pelas operações a meio-campo, como ainda criou inúmeros lances ofensivos que fizeram centenas de engenheiros em Silicon Valley temer pelos seus empregos. Se dúvidas restassem, ainda apareceu lá à frente e marcou um golo de cabeça. Agora, digam-me o nome de um robô que tenha marcado golos de cabeça. Digam-me um! Digam-me um!

André Gomes
Costuma piar mais fininho quando joga no Barcelona e se vê remetido ao papel de André Almeida do meio-campo catalão. Hoje, porém, vimos André Gomes, o esteta, em todo o seu esplendor. Nunca negou as responsabilidade proletárias que lhe assistem e acompanhou bem William nas tarefas defensivas, mas procurou quase sempre jogar bonito numa floresta de troncos de leste. É um dos poucos jogadores portugueses que tem quase sempre uma ideia genial sobre o que fazer à bola assim que lhe chega aos pés. Como nem sempre a poesia se cumpre numa modalidade com tantos canalizadores, esperam-lhe uns 10 aninhos de amor e ódio nesta selecção.

João Mário
É um jogador que raramente demonstra qualquer tipo de emoção em campo, limitando-se a fazer aquilo que o seu quociente de inteligência dita, sendo isso 99 em cada 100 vezes suficiente para lhe assegurar a titularidade nesta selecção. Hoje pareceu-nos um pouco triste em campo. Aqui vai uma dedicatória: Esquece lá a adversidade / E vê se te pões bom João / Aproveita as gatas dessa cidade / E caga no Inter de Milão.

Nani
Todo o Cristiano tem o seu Gareth Bale, incluindo na selecção. Serve isto para dizer que a relativa pobreza exibicional de Cristiano durante a primeira parte foi compensada por um Nani irrequieto. Tal como Bale no Real Madrid, acabaria ofuscado pelo festival de golos marcados e falhados pelo seu colega de equipa. Always the bridesmaid, never the bride.

André Silva
Que maravilha de jogador. Hoje não marcou, mas fartou-se de ajudar os colegas a encontrarem espaços, tanto nos flancos como na área. Tem um problema sério de métrica, já que é conhecido pelo seu primeiro e último nome. Ora, ninguém no seu perfeito juízo consegue imaginar-se no Verão de 2018 em plena rua a cantar “e foi o André Silva que os f$%#&”. Mas o melhor mesmo é que já não conseguimos imaginar esta selecção sem o miúdo. Ainda por cima marca penáltis, algo que nos poderá dar jeito em 2026, quando Ronaldo se reformar.

Cristiano Ronaldo
Objectivamente falando, é o melhor marcador desta fase de qualificação, marcou dois golos e só não marcou mais dois ou três porque não calhou. Subjectivamente falando, sentimos que devemos ser objectivos.

Quaresma
Depois do futebol taciturno de João Mário, até os adversários terão ficado emocionalmente desgastados. Fernando Santos percebeu a oportunidade e colocou Ricardo Quaresma em campo. E o que é que aconteceu? Uma ofensiva terrestre, foi o que aconteceu. Quaresma rebentou com a pouca aptidão futebolística que se encontrava no flanco esquerdo da Letónia e contribuiu decisivamente para a vitória. No final, exibiu a já típica expressão facial de quem se limitou a fazer o que era necessário. Não, esse dobrar da língua é quando lhe apetece agredir alguém.

Gelson
Nós não queríamos nada dizer uma daquelas baboseiras institucionais, tipo presidente da federação, sobre como o Gelson, o André Silva e tantos outros nos permitem vislumbrar um futuro muito risonho para esta selecção nacional, portanto vamos ficar por aqui.

Renato Sanches
Cinco minutos em campo, três passes realizados, zero falhados e meio golo numa assistência para Ronaldo. A brincar a brincar foram as suas melhores estatísticas esta época. Não deixa de ser o maior."

Celis no Alta...

Amor eterno

"Para lá do resultado, que se aceita lindamente em função da empreitada, o que mais gostei no Porto - Benfica foi o beijo que o Luisão deu na cabeça do Maxi Pereira antes de o jogo começar. Não foi um beijo qualquer, foi magia. Teve o condão de dissipar na origem a tempestade anunciada. Sim, o clássico do ódio eterno - porque, sem que ninguém o contrariasse, foi a palavra de ordem lançada pelo líder da claque Super Dragões nas vésperas do acontecimento - revelou-se um fraquíssimo desconchavo do ponto de vista do ódio eterno,esse espírito eticamente reclamado como condição sem a qual não seria possível ao Porto Vencer o Benfica.
A verdade é que não venceu, persistirão os supersticiosos e até alguns recém-douturados quando confrontados com o resultado final que foi um empate. É de crer que o próprio Nuno Espírito Santo, entre dois desenhos abstratos, tenha decidido lançar Maxi Pereira para o jogo no lugar do impecável Layun, tendo por garantido o efeito destrutivo que a presença do ex-benfiquista uruguaio em campo não deixaria de provocar entre muitos dos seus amigos e antigos colegas de equipa, mas não foi nada disso que aconteceu.
Já na última temporada tinha sido Gaitán o único jogador do Benfica que se comoveu em campo face à presença de Maxi Pereira equipado com as cores adversárias nos dois jogos para o campeonato. Como o talentoso argentino foi vendido ao Atlético de Madrid no verão passado esse problema deixou de existir. Ainda não havia um minuto de jogo no Dragão e já Cervi, justamente o substituto de Gaitán, tinha ludibriado o seu totalmente desconhecido Maxi Pereira num lance puro de velocidade a que acrescentou outros requintes de malvadez.
A culpa não foi de Nuno Espírito Santo por ter decidido meter o uruguaio a jogar contra a sua antiga equipa, recomendando-lhe que fechasse o rosto durante aquela cerimónia simples que antecede os desafios quando, um a um, todos os jogadores se cumprimentam. A culpa foi de Luisão e do amor eterno a Maxi selado com um beijo à frente de toda a gente. Aliás, é também para isto que serve um grande capitão.
Luís Figo assinou com Luís Filipe Vieira os termos de uma parceria que visa a prospecção de jovens talentos nas escolas de Lisboa. Aos 44 anos, Figo veio fazer "uma perninha" ao Benfica. Bem-vindo."

Benfiquismo (CCLXXXVI)

Com estilo...!!!

domingo, 13 de novembro de 2016

Vitória em Espinho

Sp. Espinho 1 - 3 Benfica
30-32, 25-23, 24-26, 25-27

Ché(28), Reis(14), Honoré(13), Lopes(12), Zelão(9), Oliveira(2), Vinhedo, Violas, Gaspar, Mart, Rapha, Casas

Excelente vitória, na raça, naquela que tradicionalmente é a nossa deslocação mais complicada... Na época anterior, com uma situação financeiramente caótica, o Espinho foi obrigado a 'cortar' nas despesas, mas um ano depois estão de volta, com um plantel que vai lutar pelo título... Eles até podem dizer, que os favoritos são o Benfica e a Fonte, mas o objectivo do Sp. Espinho é claro... Sendo que a maior 'contratação' até foi o treinador... Na minha opinião, o melhor treinador português, por larga margem...!!!
E depois, existem sempre as 'inclinações' habituais, como os toques na rede, toques no bloco, as bolas na linha... sempre a 'caírem' para o mesmo lado... Como aconteceu hoje!!!
(vá lá, hoje, marcaram 2 toques ao Maia,... Milagre!!!)

Os parciais dizem tudo, jogo muito equilibrado. A maior vantagem foi mesmo no início do 1.º Set para o Benfica (1-8), mas essa foi a excepção!

Numa análise mais a médio/longo prazo, creio que no futuro próximo vamos ter que reforçar a posição do Oposto! A idade não perdoa, e o Gaspar já não é o que era... (isso não quer dizer que faça bons jogos), aquele que durante várias épocas, foi o nosso segundo Oposto (Ché), é hoje, a primeira opção...
Temos profundidade, e futuro, nas outras posições, mas o Oposto é quase sempre o principal pontuador de todas as equipas...!!! O ano passado, perdemos o título para a Fonte, porque tínhamos uma Distribuição mais fraca, e porque a Fonte tinha um Oposto melhor... 

Reforços de Novembro

"Os pacotes televisivos vão aumentar. Os operadores - não todos, por ora - à 'boleia' dos 'custos' do futebol ajustam preços.

1. (...)

2. (...)

3. Depois desta curta pausa para as selecções, o futebol da intensa paixão não vai parar até ao Natal. Entre nós, e no próximo fim de semana, é o regresso da Taça de Portugal. Depois a retoma das competições europeias com jogos determinantes ou decisivos para todas as equipas portuguesas que resistem na Europa. A visita do Benfica a Istambul é determinante. O jogo do Sporting frente ao Real Madrid é decisivo para a equipa de Jorge Jesus. E, depois, é o regresso da Liga nacional com o Benfica a receber o Moreirense, e a voltar a defrontar, agora no Funchal, o Marítimo logo no arranque de Dezembro e a encontrar, no Estádio da Luz, porventura para um jogo decisivo para o seu futuro na Liga dos Campeões, o Nápoles! Antes de receber na Luz o Sporting na décima terceira jornada da Liga. No próximo mês - um mês exactamente! - muito se decide na Europa e por . E são boas as notícias que anunciam os reforços de Novembro para o Benfica. Diria que são as contratações de São Martinho - que ricas castanhas nos ofereceram de Resende! - para a equipa de Rui Vitória. Fejsa já voltou a correr. Jardel e Rafa estão recuperados. Só Jonas tem ainda um tempo mais para um regresso que todos festejaremos. Todos aqueles que, qualquer que seja a cor da nossa paixão, gostamos de futebol. E da magia de alguns dos seus momentos. São boas estas notícias. Todas elas. Estar bem e bem de saúde é um privilégio. É o que acontece comigo. E também como em relação a todos estes excelentes jogadores que na Turquia ou em Portugal terão a oportunidade de voltar a demonstrar, a milhões de adeptos, o perfume do seu futebol. Força Rafa! Força Jardel! Força Luisão! Força Fejsa! E muita força Jonas! Bons regressos!

4. (...)

5. Como aqui antecipámos - e também há meses n'Bola TV! - os pacotes televisivos vão aumentar. Os operadores - não todos, por ora - à boleia dos custos do futebol ajustam os preços. Importa não abusar diria eu!! Também aqui parece haver reforços... em Novembro... para determinados operadores. E numa das transmissões do último fim de semana parece que não houve adeptos do Benfica no Estádio da Dragão... Coisas de câmaras e do seu posicionamento, decerto... Decerto mesmo. Seria preciso reforços de câmaras..."

Fernando Seara, in A Bola

A crise das papoilas

"Nos jogos de qualificação para o Mundial 2018 disputados esta semana por Selecções britânicas, foi manifestada à FIFA a intenção de usar braçadeiras com papoilas, em celebração do 'Dia da memória'. A polémica instalou-se quando foi noticiado que a FIFA havia proibido a utilização de tal símbolo, advertindo para as possibilidade de aplicação de sanções.
A FIFA, porém, afirma que apenas lembrou a Lei 4 das Leis do Jogo - curiosamente criadas pela IFAB, fundado pelas federações de futebol da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte em 1886 - que dispõe o seguinte:
«O equipamento não pode conter slogans, mensagens ou imagens, políticas, religiosas ou pessoais. Os jogadores não estão autorizados a exibir roupa interior com slogans, declarações ou imagens políticas, religiosas ou pessoais ou publicidade para além do logotipo do fabricante. Se for cometida qualquer infracção o jogador e/ou a equipa são sancionados pela organização da competição, pela respectiva federação membro ou pela FIFA».
Na verdade, as opiniões dividem-se quanto ao significado da papoila. Há quem entenda que existe uma conotação política e até interesses comerciais envolvidos neste movimento, embora a maioria afirme que é tão-somente uma homenagem às vitímas de conflitos armados e símbolo de uma campanha de solidariedade.
A eventual decisão de aplicação de uma sanção pelo Comité Disciplinar da FIFA passará pela interpretação desta Lei 4 e por considerar que o uso da papoila é uma mensagem ou imagem política, caso em que os equipamentos não podem ostentar tal símbolo."

Marta Vieira da Cruz, in A Bola

Benfiquismo (CCLXXXV)

Mago no teatro dos sonhos...

sábado, 12 de novembro de 2016

Vitória no Fundão

Fundão 1 - 2 Benfica

Entrámos praticamente a perder, com um auto-golo, mas não perdemos a calma... Não foi um grande jogo, mas acabámos por merecer a reviravolta... O início da 2.ª parte foi a nossa melhor fase.
Após o 1-2, soubemos congelar o jogo, e defendemos bem o 5x4.

O MVP da partida, como não podia deixar de ser, foi o guarda-redes do Fundão!!!

Bom regresso do Chaguinha.... Bebé novamente bem. Patias merecia o golo...

Uma nota para as lesões, desta vez 'faltou' o Elisandro, o Chaguinha e o Bruno não parecem estar a 100%... o Jefferson ainda não recuperou! Espero que não 'copiem' os maus exemplos do Futebol!!!

Vitória em Tomar

Sp. Tomar 4 - 9 Benfica

Talvez, o jogo mais 'descansado' da época!!! Entrámos muito bem, chegámos rapidamente aos 0-4 (antes de começar a rotação...) e nunca demos hipóteses!

Praticamente no último minuto sofremos 2 golos, e isso deu uma imagem errada ao marcador... Desta vez, tivemos melhor na defesa. Aliás dois dos golos do Tomar, foram dois 'chouriços'!!!

PS: Nota para a vitória da nossa equipa feminina de Hóquei em França, na 1.ª mão, da 1.ª eliminatória da Liga Europeia: Merignac 0 - 5 Benfica (Marlene(2), Vieira, Abreu, Rita)

Vitória em Ponte de Sor

Eléctrico 62 - 85 Benfica
10-13, 15-18, 15-23, 22-31

Em crescendo, fomos melhorando com os minutos...

Na Terça-feira temos jogo decisivo na Luz, para a Europe Cup. Para conseguir a qualificação, o Benfica tem que ganhar... ao Chalon. A equipa mais forte do grupo!

Vitória em Matosinhos

Leixões 0 - 3 Benfica
17-25, 17-25, 18-25


Vitória esperada... Amanhã, temos jogo tradicionalmente difícil em Espinho com o Sporting local...

24 horas na Academia do Benfica: dormir com as estrelas do Seixal

"O SAPO24 foi ao Caixa Futebol Campus. Leu 90 páginas de boas vindas, comeu, treinou no 360s, andou por corredores e foi à escola. Falou com jogadores, técnicos, scouting, nutricionista e apoio escolar. Registou 200 refeições servidas por dia, com direito a gelado em dias de jogo e 16 toneladas de roupa lavadas por mês. Ficou a saber que, em 2015-16, os olheiros percorreram 206 mil quilómetros e que foram escritos 5443 relatórios de jogadores e 128 foram contratados. 65 vivem no Seixal e 18 estão em famílias de acolhimento. E o Renato Sanches é a bandeira que querem copiar.
À hora combinada, 7h30, chegámos ao Caixa Futebol Campus do Seixal, Centro de Estágio do Sport Lisboa e Benfica. Os seguranças tinham o nome registado. Entrámos. Visto de fora parece uma espécie de prisão de Alcatraz. Lá dentro, nove campos de futebol espalhados por 19 hectares. Os artistas vestidos de encarnado pisam os tapetes onde são gastos 700 kg de fertilizante por mês. O verde é a cor dominante. Há árvores e jardins, muito terreno livre, o que nem sempre acontece noutras academias em que muito dos espaços disponíveis são desenhados a regra e esquadro para as 4 linhas.
Quem chega de novo recebe no e-mail (nomedojogador@benfica.pt) 90 páginas de um regulamento interno de funcionamento. Está lá tudo. Multas e comportamentos, código de conduta e horários. Para ler e ser avaliado através de um teste.
É hora do pequeno-almoço, uma das refeições obrigatórias. “Há pão, queijo e fiambre, cereais mais saudáveis, batidos, fruta, leite, compotas, manteiga de amendoim e ovos mexidos três vezes por semana”, discrimina Diana Granja, nutricionista. Espécie de mãezinha que “obriga” os miúdos a comerem sopa e legumes, não ficou nada contente com a presença ali de uma máquina de doces. “Vamos substitui-la”, afastando o fruto proibido de olhares e paladares. “Há alturas em que podem comer um chupa-chupa, mas ter aqui à mão não era bom”, ri. Mas nem tudo é mau: em dias de jogos levam um “miminho” em forma de “gelado”.
Dos 65 miúdos que vivem no Seixal, a que se juntam 18 alojados em famílias de acolhimento, uns vão para a escola, outros calçam as chuteiras e transportam a bola debaixo do braço a caminho dos treinos.
O autocarro, 61 lugares, está à porta do Centro de Estágio. Destino: Escola José Afonso, escolhida pelo Gabinete de Apoio Socio-Escolar. Miúdos de todas as idades entram, um a um, pausada e ordeiramente. Ouvem música nos headphones, teclam nos telemóveis, vestem camisolas do Benfica e calçam ténis. O condutor tem a lista de presenças. À entrada um pedido sui generis: “assina aí o meu nome”, escutou-se.
Na bomba combustível da Repsol, entram três jogadores...perdão...alunos. A escola está a uns breves minutos de distância. Francisco Morais, 15 anos, veio de Guimarães e cumpre a segunda época no Seixal. Central, estuda Design de Computadores, mas assume que o futuro passa pelos pés. Sandro Cruz, lateral esquerdo, 15 anos, três de Benfica, veio de Braga “em busca do sonho”. Está no 9º ano. Tocou. Entraram.

Um vídeo de Chalana como fonte de inspiração
De regresso ao Seixal há treinos a decorrer. Os sub-19 jogaram na véspera na UEFA Youth League. Uns recuperam do esforço, outros “dão o litro”. José Henriques, antigo guarda-redes imortalizado como “Zé Gato”, sentado num carro eléctrico, fala de Ederson, que viu naqueles relvados e hoje é titular da baliza das águias.
É team manager, cargo que ele e outras velhas glórias ganharam no Seixal. Por lá andam Nené e Chalana. Este último tem direito a um vídeo motivacional para ser visto por quem entra pela primeira vez no Seixal. “As fintas, no Benfica, na selecção e no Bordéus servem de inspiração”, esclarece Filipe Alves, responsável pela visita às instalações do Caixa Futebol Campus.
10 elementos da estrutura acompanham e analisam o treino. Pertencem à Benfica LAB. Há câmaras de filmar colocadas estrategicamente. Tudo é monitorizado e será devidamente informatizado, tratado e guardado.

5, 4, 3, 2, 1... bola a 120km/h dominada em jogada de laboratório
O simulador de treino 360S é palco de uma experiência única. Sentimo-nos como um rato de laboratório a pisar relva sintética. Inaugurado em 2014, há luzes LED, cores florescentes, um centro de terreno, quatro balizas, quatro canhões em cada um dos lados do quadrado e bolas a saírem projectadas de 20 km/h a 120 km/h.
Pouco espaço para agir, pouco tempo para pensar e executar. É pura ficção científica transformada em realidade. “O 360s procura, em certa medida, recriar algumas das questões técnicas, tácticas, físicas e exigências da tomada de decisão dos jogadores em campo”, explica Nuno Maurício, responsável da Benfica LAB.
Os exercícios são controlados por tablet. Tudo programado às diversas posições. Da teoria à pratica fizemos o gosto ao pé. 5, 4, 3, 2, 1... ouve-se. Sai bola disparada do canhão. Controlada. Passámos. Apoio frontal, jogo em profundidade, temos que optar. O jogador “faz de conta”, que veste de azul, receciona. Mais uma bola projectada, mais uma recepção. Hora do remate. Falhámos o golo.
A nossa avaliação ficou registada para conhecimento interno duma estrutura composta por 24 pessoas que engloba fisiologia, nutrição e observação. Neste último, uma revelação. “No estádio temos um sistema de traking, só nosso, que permite, para além, dos nossos dados físicos e estratégicos, ler o adversário. Nos jogos fora de casa temos outras ferramentas...”, anuncia. “Quase um SIS no bom sentido”, sorri.

10332 relatórios de jogos, 2683 jogadores referenciados e 128 contratados
Carácter. Personalidade. Podemos ver 20 jogos...não é fácil ver logo, mas dita a experiência, quando falamos com os pais, identificamos padrões de comportamento, conseguimos detetar talento”. Pedro Ferreira, responsável pelo Scouting e Observação, fala do ABC deste trabalho feito em casa e a nível nacional por 54 colaboradores remunerados e 118 não remunerados. “O vídeo vale pouco. Perder, ou antes, ganhar o tempo a ver jogos, vale muito mais”, continua.
No flashback da época passada saem números. Os observadores percorreram 206 mil quilómetros. Foram escritos “10332 relatórios de jogos observados, 1170 de torneios, 5443 de avaliação de jogadores” de que resultaram “2683 jogadores referenciados”, dos quais “1460 vieram a treinos de captação” e “509 estiveram presentes em treinos integrados”, discrimina. No final, tudo espremido, 128 jogadores contratados. “Já perdemos uns, ganhámos outros”, assume. São as regras de um jogo que “obriga a fazer mais quilómetros, a observar, filtrar e escolher cada vez mais os melhores”.

José Saramago escrito nas paredes
Às 13h15, nova correria à entrada do Centro de Estágio. No refeitório geral convivem as 10 equipas da formação. As presenças são controladas “por três monitores que aqui vivem, que estão todos os dias da semana a toda a hora”, explica Filipe Alves. Faltas sem justificação “dão multa de 20 euros”. O trabalho não se esgota na vigilância. “Acompanham os miúdos em tudo o que é necessário. Estão no refeitório enquanto comem, durante a noite se algum deles tem febre, dores de cabeça ou medo”, acrescenta Catarina Santos, directora do Apoio Socio-Escolar.
Nas paredes há frases. Destaca-se uma: “No Benfica, a vitória tem algo negativo: nunca é definitiva” escrita por José Saramago. Convive com outras que não levam selo de Prémio Nobel, mas antes chancela presidencial de Luís Filipe Vieira.
A sã convivência que hoje existe entre formação e plantel principal, que tem um espaço reservado para o pequeno-almoço, é alimentada ao almoço ou jantar. É aqui que entra a sopa e os legumes já referidos e “dois pratos de peixe e de carne”, diz a nutricionista que trata da balança dos futuros craques. “Fazemos avaliações periódicas de peso, altura, massa gorda e intervimos individualmente”. 

“Não bater com as chuteiras na parede”, lê-se num aviso
Se Saramago pode inspirar, a frase “não bater com as chuteiras na parede”, avisa quem entra na área reservada à formação. Incumpridores pagam multa. O cumprimento entre todos, miúdos e hierarquias, é obrigatório. Todos os dias, a qualquer hora. Nuno Gomes passa e faz hat-trick de apertos de mãos. Há salas de treinadores e de psicólogos. Na sala de musculação, fisiologistas acompanham a recuperação de lesões. Na sala de lazer, as mesas dos matrecos identificam os rivais Porto e Sporting. O Snooker tem pano vermelho. Pelas cinco rouparias passam 16 toneladas de roupa por mês.
Na sala de estudo, dois professores ajudam. Até ao 9º ano “é obrigatório durante 45 minutos”. Más notas dão direito a mais tempo de estudo, alerta Catarina Santos. “Fazemos questão que a escola corra bem. Estar aqui pode iludir e nós puxamos para outra realidade”, sustenta a responsável do departamento que trata de tudo o que não diz respeito ao futebol. “As visões (e ilusões) dos jogadores têm muito a ver com a visão dos pais. Na parte do futebol, gostariam de intervir mais e são travados. Na parte escolar, às vezes gostaria que interviessem mais... felizmente vão tendo mais noção que os filhos podem não chegar lá e é importante que invistam na escola”.
Aos 17 anos, Diogo Pinto, sub18, tem dois anos de Seixal. Veio de Leiria, onde jogou um ano, depois de ter estado em Alcochete (Sporting) desde os 13, idade com que saiu da casa dos pais. É médio interior. Quer “chegar lá”. Paralelamente, dá importantes passos na escola. Estuda à noite por causa dos treinos. Está no 12º ano e com as portas abertas para o Curso de Relações Internacionais, no qual quer matricular-se.
A família é o seu suporte. Fala “duas a três vezes por dia” com os pais. As origens (Tomar) estão tatuadas no corpo com a Ordem dos Templários. “É uma forma de estar próximo da família”, atira. E este ano tem a companhia do irmão (13 anos).
Arrumadinho define-se como “normal”, uma normalidade que espera ter no olhar de quem, na escola, o vê como alguém que joga no Benfica. Com três mil seguidores no Instagram, gosta de Playstation e de fazer o “treino invisível, a descansar”. Tal como outros craques made in Seixal namora com uma geração de raparigas born in Seixal. “É um must namorarem com jogadores do Benfica”, graceja Filipe Alves.

O filho do Sérgio Conceição, o guarda-redes campeão do mundo de Pentatlo, o primo do Renato e o guineense que treinou e ficou
O dia aproxima-se do seu fim. Caminhamos ao lado do cicerone Filipe Alves. Aponta para o hotel e para os campos. Fala do alargamento da infraestrutura (mais 30 quartos) e da eventual “anexação” do campo do Seixal FC. Mas há mais. Na cabeça de Luís Filipe Vieira pode estar um Campus à americana, desvenda. “Ter uma escola dentro da academia, controlar tudo dentro de portas, afastar o problema dos horários escolares. Temos miúdos que acabam os treinos as 21h00 e vão para Évora e Nazaré”.
A actividade não dá tréguas. Dois ingleses correm. Fazem parte de uma escola que está no Centro de Estágios do Benfica. É normal ter gente de fora a estagiar. “Estamos sempre cheios, no inverno, Páscoa e no verão com o Elite Training Camps”, sublinha. “É um programa exigente que dá a atletas do mundo inteiro as vivências exactamente iguais aos nossos, passando pelo 360s e acompanhamento do gabinete de nutrição. “No ano passado tivemos 204 jogadores de 44 países. Pagam por uma semana 1300 euros, é uma fonte de receita”, garante. E é também uma chance para alguns.
Foi através desta via que Umaro Embaló, guineense que joga na selecção portuguesa, entrou para o Seixal. Treina ao lado de um dos filhos do Sérgio Conceição, que se faz ouvir a todo o instante. Fala com o guarda-redes João Valido, campeão do mundo e europeu de Pentatlo Moderno (ao serviço do Setúbal), com o primo de Renato Sanches, com o colega bósnio e com outro filho de mãe portuguesa e pai americano.
João Santos, Director Técnico da Formação, é orientador dos técnicos da formação: 35 técnicos, adjuntos, fisiologistas, treinadores de guarda-redes e analistas. Fala sobre futebol. E do que se faz no Seixal. “Procuramos não formatar o jogador. Aproveitamos o talento natural e adaptamos ao modelo. Afinamos parafusos e folgas”, resume.
Admite que copia e é copiado. Mas nada é “robotizado”, avisa. Há criatividade e liberdade dada dentro de parâmetros definidos. “Cada vez mais é a qualidade individual que é determinante. A tomada decisão faz a diferença entre o grande jogador e o assim-assim”, sustenta.
Tudo é discutido em reuniões. Há várias. E depois há uma reunião mensal, numa espécie de “Conselho Geral no qual estão treinadores, todos, Rui Vitória incluído, LAB e o presidente, formação, pupilos, toda a gente”, explica.

23h00: hora para dormir com as estrelas
O Centro de Estágio do Benfica celebrou 10 anos no passado dia 22 de Setembro. Inconformismo é o lema do ano. “Não podemos estar satisfeitos com aquilo que fazemos, há aspectos a melhorar...outros inovar...”, sustenta o Director Técnico da Formação. Renato Sanches é “o exemplo do que é possível fazer”.
É noite escura. Os treinos vão chegando ao fim. Os jantares são servidos. Há quem regresse da escola e quem siga a vida para fora do Caixa Futebol Campus. Há menos movimento. Quem lá vive, recolhe aos quartos. Diogo Pinto e o irmão conversam.
23h00. Luzes apagadas. Hora de recolher e dormir. Um clarão provocado por telemóveis e tablets invade os lençóis. Últimas mensagens nas redes sociais, vídeos e músicas. Adormecemos. Não chorámos durante a noite. Algo que por vezes acontece. “No ano passado, um não estava preparado, regressou a casa e este ano está de volta”, exemplifica Filipe Alves.
São 07h00. Hora de despertar. Dormimos com as estrelas do Seixal. Chegou ao fim a estadia. Pequeno-almoço servido, idas para a escola e idas para treinos. Uns saem, outros entram. Tudo se repete, como no início do artigo. Nós, regressámos a casa."

Joãozinho

Toni no Aquecimento

Recomendações dos atletas

"Esta semana realizaram-se duas reuniões com o objectivo de analisar a prestação da Missão Portuguesa nos últimos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Uma reuniu os atletas e a Comissão de Atletas Olímpicos (CAO), outra entre treinadores e o Comité Olímpico de Portugal (COI).
A reunião entre atletas e CAO contou com a presença de 43 atletas olímpicos. No final da reunião foram anunciadas várias conclusões. Duas delas não podem deixar de nos chamar a atenção:
1) Maior transparência das federações na gestão das verbas de apoio à preparação desportiva.
2) Necessidade de uma definição clara do país do propósito do Projecto Olímpico e do Alto Rendimento.
Os atletas recomendam que deve haver uma maior transparência das federações na gestão das verbas de apoio à preparação desportiva. A questão é qual a origem desta conclusão/recomendação. Não há transparência? Os montantes destinados à preparação não são canalizados para a preparação? Não se concretizando a origem desta conclusão e deixando tão grave dúvida no ar, descredibiliza-se o trabalho de todos em prejuízo do incumprimentos de alguns. Seria avisado identificar e responsabilizar, não ficando pela recomendação, sob pena de haver conivência com a falta de transparência!
Recomenda-se também ser necessária a definição clara do país do propósito do Projecto Olímpico e do Alto Rendimento. Ora, a sinalização desta necessidade partir dos atletas é um óptimo sinal. Eles que teoricamente até poderiam ser os beneficiados de um sistema de alto rendimento que não privilegie a excelência e que permite financiamento alargado a atletas sem o crivo da análise técnico desportivo rigorosa.
Não nos devemos ficar só pelas recomendações e conclusões. Chegou o momento das acções, monitorizações e avaliações."

Mário Santos, in A Bola

Benfiquismo (CCLXXXIV)

Família Benfiquista...

Um ponto ganho ou dois perdidos?

"Está por provar se o Benfica ganhou um ponto no Dragão ou perdeu dois. A depressão colectiva em que mergulharam os azuis e brancos tem mais a ver com uma ambição deslocada da realidade que com o jogo em si. Se fosse como querem fazer querer os adeptos portistas - e não é - a sua situação ainda era pior que a que anunciam.
Se o pior Benfica, na mais modesta exibição da época, sem seis titulares (Jonas, Rafa, Fejsa, Jardel, Grimaldo, Luisão) empata com o deslumbrante FC Porto, então quando viesse quem falta, e o Benfica jogasse melhor, a diferença seria abissal.
O problema maior é que o FC Porto só empatou porque o Ederson teve um deslize, a realidade é que este «super Porto» teve uma bola na trave, não teve mais posse de bola que o Benfica, nem teve mais cantos que o Benfica. Ainda assim, um Benfica muito limitado pelas lesões, que fez uma exibição pálida, chegou para manter os cinco pontos de vantagem sobre o rival. A depressão azul e branca tem a ver com o Benfica não ser olhado como um adversário mas ser vivido como um complexo. Gostava de estar contente com o empate, mas tenho receio ter perdido dois pontos na luta pelo título, num campo que venha a ser fácil para outros rivais (oxalá me engane).
Ver o desespero dos adeptos azuis e brancos no fim do jogo, alguns que conheço e estimo, é perceber que a angustia não foram os últimos três anos sem ganhar mas talvez perceber a inversão da situação que existirá (ou não) nos próximos dez.
A este propósito um elogio que não consigo conter: que grande jogador é André Silva, um avançado do melhor que Portugal viu nos últimos 30 anos, só ele é mesmo de outra galáxia neste universo azul e branco.
Quanto ao Benfica resta-nos constatar que o Marítimo (para a Taça de Portugal) e Moreirense vão ser bem mais difíceis, e Rui Vitória sabe que não podemos continuar a perder pontos porque só temos cinco pontos de vantagem."

Sílvio Cervan, in A Bola

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

É preciso cortar o mal pela raiz

"Há muitos anos que me habituei a admirar a eficácia das nossas forças de segurança. Por vezes, a opinião pública quer resultados imediatos para investigações complexas e reivindica celeridade. Mas, no fim, é como a polícia montada do Canadá, que apanha sempre o seu homem, seja Palito, Piloto ou... o ladrão da FPF.
Vem este introito a propósito da vandalização de duas carrinhas do Pedrouços e do relvado sintético do Grijó, clubes que disputam a Divisão de Elite da AF Porto. Não me passa pela cabeça que as forças policiais não venham a colocar (quanto mais cedo melhor), atrás das grades, os vândalos que destruíram propriedade alheia, tentando atemorizar quem entendem ter-se colocado no seu caminho. Por esse lado, de eficiência policial, estou descansado. Porém, há outro lado, alegadamente desta equação, que me deixa muito mais preocupado. O Pedrouços e o Grijó fazem parte do conjunto de clubes que se recusam defrontar o Canelas, na Divisão de Elite da AF Porto, por sucessivos casos de violência dentro (e fora) das quatro linhas. E não é que, da AF Porto, que tutela desportiva e disciplinarmente a competição, nem uma palavra, apenas um silêncio ensurdecedor que, se persistir, assumirá foros de cumplicidade? Ou será que a AF Porto não tem nada a dizer sobre esta matéria, quando a integridade da competição e os princípios do desporto estão em xeque?
Creio que, se da AF Porto não emanar nenhuma posição sobre este caso, não restará à FPF outra solução que não seja entrar em campo. Porque há coisas que não podem ser permitidas (nem que seja por omissão), sob pena de ficarmos reféns do hooliganismo."

José Manuel Delgado, in A Bola

Nuvens negras

"Trump, Erdogan, Putin, Kim Jong-un, Le Pen, Lukashenko, Al-Assad, Maduro, Castro, Mugabe. Dez nomes, dez mensageiros de ódio, de divisão, de intolerância e que ocupam (ou podem estar perto de ocupar, caso de Marine Le Pen) cadeiras poderosas, demasiado e perigosamente poderosas.
O mundo vive, de facto, dias loucos, difíceis de entender. Por esta altura, ainda procuramos perceber como é possível que um homem que passou toda uma campanha a vender mensagens sexistas e racistas conseguiu chegar à presidência de uma das maiores potências do mundo - militarmente, continua a ser a maior; economicamente, mantém papel dominante; e social e culturalmente é ainda muito influente.
Num ápice, uma imensa maioria de não-americanos (e de americanos também) invadiu as redes sociais apontando o dedo à «estupidez» da América branca, pouco ligando ao facto de muitos milhares de homens e mulheres muçulmanas, hispânicas e negras terem votado em... Trump. Sim, é difícil entender como é possível alguém assim chegar por via democrática ao poder. Mas há explicações - como houve, em 1933, quando Hitler, depois de muitas eleições perdidas, conseguiu, enfim, vencer e chegar ao topo (o resto da história, infelizmente, é conhecida por todos... Ou será que já esquecemos?). Entre os principais motivos está o facto de uma fatia grande da população dos EUA (a par do que se vai vendo pela Europa) estar cansada do establishment que figuras como Clinton representam e que ajudaram a conduzir a situação financeira precária de muitas famílias de classe média (uma vez mais, a par do que sucede também na Europa).
No meio da tempestade, há porém raios de luz que tudo fazem na busca de iluminar-nos um pouco. Um bom exemplo (curioso, até) pode ser encontrado no primeiro evento desportivo internacional duma equipa norte-americana após a eleição de Trump: precisamente um duelo EUA - México, de qualificação para o Mundial-2018, já hoje, no Ohio..."

João Pimpim, in A Bola

As últimas Lanças...

O Homem que treina e ensina

"São muitas as definições de um treinador. A de Cruyff soa perfeita do ponto de vista ideológico, orientada pela independência dos resultados: "Só há duas espécies: os que treinam e os que ensinam." César Menotti dá uma achega, acreditando que o talento do líder se mede pelo progresso dos seus jogadores: "Se um futebolista tem sempre as mesmas virtudes e os mesmos defeitos, é porque não tem um bom treinador." Rui Vitória corresponde às duas definições, na qualidade de gestor e pedagogo de altíssima qualidade, que não choca com a realidade, adapta-se a ela; não luta por mudar as regras instituídas, trabalha para melhorar o que tem; não se propõe fazer revoluções, aperfeiçoa a orientação vigente.
Em apenas 16 meses, RV confirmou ser o treinador certo para a nova etapa na vida benfiquista. Integrou-se na máquina, imprimiu uma dinâmica, escolheu um estilo, definiu elos de ligação entre os vários sectores, defendeu princípios e indicou o caminho. Nas suas escolhas estão implícitas opções estéticas, um espírito de trabalho saudável e o respeito sagrado pela história do clube. Para tanto precisou de aproveitar as estrelas que já tinha e conduzir jovens com talento, mas sem experiência, ao patamar de excelência que reclamam; de lhes incutir uma atitude ofensiva e pugnar por um comportamento elegante, estimulando atitude congregadora e generosa capaz de levar a bola para o outro lado do campo, de preferência às redes adversárias.
O grande futebol constrói-se com sentimento e tradição. Todo o seu enlevo histórico e social é património de uma entidade colectiva alicerçada nos adeptos. RV tem mobilizado essas emoções profundas e misteriosas com resultados à altura mas também com ética irrepreensível. E tem-no feito com a imensa grandeza de um discurso aglutinador; com domínio perfeito da matéria e na acção focada apenas no laboratório que ampara o dia-a-dia do treino. Seguro de si próprio, recusa adornar a lenda que está a construir com caprichos, desplantes, provocações, insinuações maldosas, polémicas estéreis ou qualquer outra grosseria. Simplesmente assume o papel que lhe cabe como responsável de uma grande equipa e nunca se lamenta do que corre mal. É incrível como o Benfica lidera a Liga com 5 pontos de vantagem ao fim de 10 jornadas, depois de quase todos os jogadores do plantel terem passado pelo estaleiro.
No decorrer da época já teve os dois pontas-de-lança na enfermaria (Mitroglou e Jiménez); praticamente não contou com Jonas e Jardel; perdeu logo Rafa para várias semanas; abordou o clássico sem Fejsa e Grimaldo, e ainda ficou sem Luisão ao fim de um quarto de hora do jogo. Metáfora de toda a vigência de RV na Luz, o Benfica soube encontrar no Dragão argumentos para evitar a derrota ao soar do gongo. Não é legítimo exigir agora ao treinador encarnado que se automutile porque teve sorte, porque não agrediu quando teve azar; que agradeça aos deuses o milagre do empate e reconheça a dádiva divina diminuindo os méritos da sua equipa. Há um ano, perdeu com o FC Porto, naquele mesmo palco, com um golo de André André aos 86 minutos, e saiu derrotado, na Luz, de um jogo em que podia até ter goleado. O futebol é fértil nestas situações extremas.
RV é o timoneiro de nau a caminho da terra prometida, que tem passado pelas tormentas do alto-mar com a serenidade de quem se convenceu, transmitindo essa confiança à tripulação, de que nada nem ninguém pode impedir a expedição de chegar a porto seguro. Se vai ou não navegar até ao destino, é impossível sabê-lo nesta altura. Mas que estão todos convictos de que tal vai suceder, sente-se em cada palavra. Para acentuar a ideia de que sim, é possível lá chegar, até já saem íntegros e felizes de clássicos em que foram amplamente inferiores com um golo marcado aos 90’+2.

Joel Campbell cada vez melhor
Joel Campbell não se afirmou logo no Sporting de Jorge Jesus. Não se pode dizer, também, que tenha caído no goto dos adeptos, razão pela qual precisou de contar mais com o seu talento do que propriamente com a condescendência alheia. O costa-riquenho trocou o banco do Arsenal pelo que pensava ser um lugar no onze leonino. Está a jogar cada vez mais e melhor. Em 6 presenças na Liga marcou 3 golos.

Óliver explodiu com o Benfica
Óliver ainda não tinha confirmado a exaltação que marcou a primeira passagem pelo FC Porto. O jogo com coeficiente de dificuldade mais elevado serviu para o jovem espanhol se libertar e explanar todos os recursos técnicos do reportório. Foi deslumbrante frente ao Benfica e a ele deve o FC Porto muito do excelente futebol que exibiu no clássico. Com ele a grande nível, o dragão é muito mais forte.

Duas expulsões inexplicáveis
Marega perdeu a cabeça e, sem razão aparente, agrediu um adversário com uma estalada; Boateng marcou um golo e, indiferente ao cartão amarelo que vira cinco minutos antes, tirou a camisola nos festejos para anunciar que chegara a sua hora. Podemos teorizar à volta das motivações que levaram os dois jogadores a fazerem-se expulsar de um modo tão infantil. Mas nenhuma teria uma base futebolística."

Amor eterno

"Já passou quase uma semana desde o Clássico no campo das Antas e há coisa que não me sai da cabeça - o ódio eterno. Foi esse o mote que antecedeu o jogo entre o Tricampeão nacional e o terceiro classificado da época passada. Do líder do grupo de apoio até à página de rede social do neto do ainda presidente, passando por uma grande fatia dos adeptos da colectividade da cidade do Porto, todos juraram ódio eterno ao SL Benfica.
É isso que os motiva, foi isso que os fez estar acordados na madrugada anterior à partida rebentando petardos à porta do hotel onde pernoitou o Glorioso. É isso que comunicam todos os dias, há mais de 30 anos. Como se alguém deste lado perdesse tempo a pensar neles.
Parece-me que é esse o grande problema destes antis. E de outros, que nem vale a pena mencionar. Preocupam-se tento, mas tanto, com o SL Benfica, que se esquecem de resolver os problemas que têm em casa. Empréstimos bancários, comissões a empresários, relatórios e contas duvidosos, contratações falhadas, vidas pessoais expostas na praça pública, desastres desportivos, utopias para cegos verem, esquecem tudo. Só vêem vermelho à frente.
É assim que vão continuar, a ver vermelho à frente. Para já com cinco pontos de distância, espero que com mais nas próximas jornadas. Jogo a jogo, a pensar apenas no Benfica, como fazem os outros. No SL Benfica não há tempo para ódio. Só concentração no amor. Um amor eterno que não se explica, mas que se põe em prática todos os dias."

Ricardo Santos, in O Benfica

Estrelinha


"Do jogo parece sobrar a 'estrelinha'. Qual estrelinha? A que nos fez tricampeões? A que nos mantém invencíveis há 21 deslocações consecutivas no campeonato? A que nos deu o melhor ataque, a melhor defesa e cinco pontos de avanço à entrada para o clássico? A que lesionou Jonas, Jardel e Rafa e afastou ainda Fejsa e Grimaldo a escassos dias do jogo? Ou a que obrigou Rui Vitória a substituir Luisão ao quarto de hora da partida? É preciso ter lata!
Estrelinha foi termos Lisandro teoricamente o quarto central na hierarquia dos centrais, a entrar a frio e a fazer uma bela exibição coroada com o tento do empate. Estrelinha foi termos, em Rui Vitória, a capacidade para, mesmo com tantos lesionados, mexer na equipa e mudar o rumo da partida. Estrelinha foi termos Benfiquistas na bancada que nunca deixaram de apoiar os nossos jogadores... Já para não referir a estrelinha que foi a actuação de Nuno Espírito Santo no banco, apesar dos rabiscos que ilustram o 'jogador à Porto', qual pintura rupestre. Sem apitos dourados, cafés com leite e quinhentinhos, resta-lhes o anti-benfiquismo primário e não há desenhos abstractos que lhes valham.

Mas não julgue o leitor que sou injusto nas minhas apreciações artísticas, pois houve jogadores que assimilaram bem o conceito de 'jogador à Porto' transmitido pelo seu treinador. Refiro-me concretamente a Otávio, o sabujo que cuspiu no Ederson, e a Filipe, o central especialista em auto-golos que num momento de êxtase após derrubar André Horta com a complacência de Artur Soares Dias, puxou pelo público portista como se tivesse acabado de marcar um golo. Aquela impetuosidade toda deve ter sido do vermelho de camisola do André..."

João Tomaz, in O Benfica

Até ao fim

"Há pouco mais de um ano, saíamos do Estádio do Dragão vergados a uma derrota injusta, com um golo sofrido nos últimos minutos, após uma excelente exibição - que de algum modo anunciava o potencial que a equipa viria a demonstrar meses mais tarde.
Ainda no último Campeonato, mas já na segunda volta, na Luz, depois de dominarmos completamente o FC Porto, e de criarmos cerca de uma dezena de ocasiões flagrantes para marcar, acabámos por perder de forma inacreditável por 1-2, num dos “Clássicos” com resultado mais desfasado da realidade a que alguma vez assisti.
Indo mais atrás, ainda hoje é difícil de engolir o trágico minuto 92 que, em 2013, nos custou um Campeonato - com toda a certeza o momento mais cruel que o desporto me proporcionou em 47 anos de vida e de benfiquismo.
Ao contrário das situações acima invocadas, há que reconhecer que desta vez a sorte esteve do nosso lado.
Com um golo nos instantes finais de uma partida que, até então, não nos correra bem, evitámos uma derrota que poderia efectivamente ter acontecido.
Sem subtrair mérito à performance do adversário, há que salientar o facto de os nossos jogadores nunca terem deixado de acreditar que podiam ser felizes. E sublinhar que a forma como Rui Vitória mexeu na equipa se revelou determinante no desfecho do jogo.
Não festejo empates, e era o triunfo que eu queria. Mas, dadas as circunstâncias, o ponto alcançado e os dois subtraídos ao rival acabaram por saber bem, mantendo-nos firmes na caminhada rumo ao grande objectivo da época.
Ficou o aviso. Nada nos será dado gratuitamente, e até Maio ainda teremos muito que sofrer."

Luís Fialho, in O Benfica

Benfiquismo (CCLXXXIII)

Símbolos...