"Marco Silva quase, quase a respirar de alívio e as últimas movimentações dão um novo alento ao Benfica.
1. Sou um admirador confesso das qualidades de João Palhinha e assumi que Portugal perdeu muito em não o levar ao mais recente Campeonato do Mundo.
Foi um dos erros crassos de Roberto Martínez. Espero, sinceramente, que Jorge Jesus corrija essa situação, até porque foi ele quem o mandou regressar ao Sporting, em 2017, para ser alternativa a William Carvalho, quando estava emprestado ao Belenenses e foi com ele nesse ano que Palhinha fez a estreia na Champions, com a Juventus…
2. Mas não é obviamente Jorge Jesus quem está agora na jogada. Na jogada da transferência do Bayern para o Benfica (dada oficiosamente pelos ‘encarnados’, à hora a que escrevo, como iminente) está Marco Silva, que levou Palhinha do Sporting para o Fulham, e isso é um dado muito relevante. Porque ambos conviveram durante duas temporadas completas em Londres no Craven Cottage e não é despiciendo que o médio já tenha trabalhado com três treinadores portugueses com história no futebol europeu e mundial: precisamente Marco Silva, mas também Jorge Jesus, e também Ruben Amorim (no SC Braga), antes de rumar a Alvalade e depois a Manchester e a Milão.
3. Relevante é igualmente o facto de Palhinha ter feito, no Fulham, com Marco Silva 79 jogos oficiais (40 em 22-23 e 39 em 23-24, o que revela uma notável regularidade). Desses 79 jogos, 68 foram realizados na Premier League e nesses 68 jogos foi titular em 66. Quer dizer: na competição mais apaixonante do Mundo, só em duas ocasiões foi suplente no Fulham com Marco Silva, pelo que é fácil de inferir que assumiu a titularidade em cerca de 97% das vezes.
Não tenho dúvidas de que Marco Silva, junto de Rui Costa, apostou todas as fichas na contratação de Palhinha e, como observador, vejo nisso todo o sentido, no território da ‘Marcolândia’ que se começa a desenhar e a delimitar.
4. Porque acho mesmo que a posição ‘6’ é fundamental em qualquer equipa e o Benfica precisa de ‘6’ à séria, que – com todo o respeito – não é Enzo Barrenechea.
O Benfica precisa de um ‘6’ que seja ao mesmo tempo posicional, que dê bola aos médios que joguem na periferia, que seja forte nos duelos e nas divididas, que seja lesto e agressivo nos cortes e nas dobras, que baixe para a posição entre os ‘centrais’ quando for necessário e que esteja ‘sempre em campo’ como um radar que identifica qualquer movimento mais perigoso do adversário.
Com 1,90m, Palhinha tem isso tudo e mesmo nas iniciativas um pouco mais ofensivas, ‘a coisa’ faz-se, mesmo não sendo a praia dele, sem esquecer a importâncias bolas paradas, sobretudo as defensivas, mas também na área do adversário (dos 8 golos marcados no Fulham, 4 foram de bola parada, um dos quais, vai fazer agora 3 anos, resultou no golo do empate na parte final do jogo com o Arsenal, no Emirates).
5. Se se olhar para a actual equipa do Benfica, a colocação de Palhinha a ‘6’ não vai apenas constituir um reforço excelentíssimo na zona central defensiva da equipa, junto de Tomás Araújo e Lenglet, e também de Alessandro Circati, mas converter-se-à, também, num elo de ligação com Aursnes, formando um meio-campo fortíssimo, independentemente de quem seja o terceiro médio, entre Rafa, Sudakov (se se aguentar neste balanço, o que não está fácil) e Richard Ríos, sem descartar as hipóteses – em linha com a variabilidade que os jogadores da frente dão a Marco Silva – de Prestianni ou mesmo Schjelderup possam ter uma palavra a dizer nessa posição, embora eles estejam muito bem nas funções que ora desempenham, mais sobre os flancos mas com movimentos constantes para aparecerem na zona do golo.
6. Àqueles que olham para o ‘fator idade’ (31 anos) e que, por isso, esta aquisição não faz o mínimo sentido, porque não dará retorno financeiro ao Benfica, eu respondo obviamente sem procuração: quantos jogadores já passaram pelo Benfica rotulados de grandes promessas e não tiveram nem retorno financeiro nem desportivo? Daqui a 4 anos (tempo de contrato que está acordado entre as duas partes), Palhinha terá 35 de idade e posso estar enganado mas – se tudo correr bem, sem contratempos – terá tudo para ser ‘capitão’ do Benfica e uma enorme mais-valia no objectivo principal de quebrar o jejum da Luz e criar, com Marco Silva, uma identidade própria.
7. Há um lado mais emocional na equação, que sei também ser muito importante para Palhinha neste processo: o regresso à capital portuguesa, do lado contrário da Segunda Circular, uma vez que esteve 9 anos ligado ao Sporting, entre 2015 e 2022, contando com formação/equipa B e equipa principal, onde realizou 95 jogos oficiais e 7 golos (5 de bola parada), permitindo aos ‘leões’ um encaixe na ordem dos 25,5M€.
É legítimo querer estar mais perto da família, o que se entende, percebendo esta fase da vida pessoal, sobre a qual ninguém tem de meter a colher e há uma coisa que – valendo o que vale – a maioria dos adeptos não sabe e que deixo aqui, com sentido construtivo, face à contrastante dialéctica entre adeptos sobre o tema: apesar da ligação ao Sporting desde menino, depois de Aurélio Pereira e Abel Ferreira (dos quadros técnicos leoninos) terem detetado as qualidades de Palhinha quando ainda era junior do Sacavenense, o seu clube do coração não era o Sporting, mas o Benfica, por influência do pai.
Isto altera alguma coisa sobre o nível de profissionalismo do jogador? ZERO! ZERO mesmo!
Sempre foi um grande profissional, em todos os clubes que representou e no Sporting ninguém tem nada a apontar-lhe em doação competitiva.
8. A asserção sobre o ‘lado de adepto’, que no futebol, hoje, vale cada vez mais zero ou perto disso, só tem uma vantagem: desmontar a tese da traição (no universo dos sportinguistas) e desmontar a tese da desconfiança (no universo dos benfiquistas) perante um ex-Sporting com uma passagem longa por Alvalade e Alcochete.
O profissionalismo tem sempre de vencer (entre o ‘diz-se, diz-se’) e Palhinha merece ser feliz, por tudo o que já fez, esteja onde estiver.
9. Estamos sensivelmente a 10 dias do fecho do ‘Mercado’ e o Benfica, mesmo tendo começado ‘a treinar’ nas eliminatórias de acesso à Liga Europa, ‘treinos’ que foram muito úteis para perceber ideias, desequilíbrios e fazer uma melhor avaliação das carências e dos recursos, está a atingir, com Ciricati e na iminência de Palhinha, uma nova ideia de consistência e pode dar um importante salto qualitativo na operacionalidade do plantel. Tem casos para resolver (a baliza não está… ‘resolvida’) e tem, sobretudo, excedentários para colocar, sob o princípio de que, para além das questões técnicas e tácticas e a necessidade de ter um bom ‘banco’, numa época longa com muitos desafios, é importante não reter jogadores que não tenham a consciência profissional adequada para ajudar mesmo quando não assumem a condição de titulares. É muito importante saber o que fazer com Barrenechea, Richard Ríos, Sudakov e Lukebakio. Os que não quiserem somar – isto sempre na ótica do interesse do Benfica e não, como é óbvio, dos seus rivais – mais vale vender (se houver mercado) ou emprestar.
10. É minha convicção que, com Palhinha, o Benfica ficará muito mais forte e em melhores condições para tentar ‘atacar’ o título. O FC Porto acaba de vender Mora, um jogador que faria tudo para manter no plantel. Quero entender Farioli (que é campeão e por isso merece esse crédito) mas não consigo. Um craque como Mora tem de ser sempre um potencial titular, mas nesta gestão há sempre outros factores, nomeadamente na relação entre o seu representante (Jorge Mendes) e a ‘estrutura’ do FC Porto… Financeiramente (para já garantidos 25M€) veremos no que resulta: pode ser um bom ou um mau negócio. Mas a perda de uma referência, que diz muitíssimo aos adeptos, é sempre um dado a considerar…
Finalmente, o Sporting. A construir uma nova equipa com jogadores de muito bom nível, mas o arranque do campeonato, com a pressão que não existe nos jogos amigáveis, trouxe com ele o ‘fantasma’ da natureza da gestão da liderança de Rui Borges, acentuada com o ‘caso’ Luis Suárez. Da resolução deste ‘imbróglio’ pode depender a temporada dos ‘leões’. Vão rolar cabeças ou, depois da tempestade, virá a bonança?..."

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