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sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Noite à antiga na Luz


"Benfica dominador frente ao Nápoles, como não se via na Europa há mais de um ano; sinais animadores da equipa de José Mourinho, mas o contexto, convenhamos, ajudou

Há mais de um ano que o Estádio da Luz não vivia uma noite assim. Parece muito? É. Mas na Champions, excluindo pré-eliminatórias, seguia há sete partidas sem ganhar em casa: derrotas com Leverkusen e Qarabag, esta época; dupla derrota com Barcelona, desaire com o Feyenoord e empates com Mónaco e Bolonha, na anterior. O último triunfo? Um memorável 4-0 ao Atlético de Madrid a 2 de outubro de 2024, que terá criado uma ilusão que os resultados seguintes se encarregariam de desmentir.
Mourinho esperará que este triunfo na noite fria desta quarta-feira em Lisboa não seja também um fogacho que depressa se apague. Os sinais são animadores: o Benfica tem vindo a subir de produção — não venceu o dérbi de sexta-feira, é certo, mas também não esteve perto de perdê-lo... — e o treinador parece ter encontrado uma fórmula que resulta, mesmo que não sejam assim tantos os jogadores em quem confia — fez duas alterações no onze... mas os jogadores que saíram foram os dois únicos que ainda jogaram minutos significativos vindos do banco, ou seja, salvo recuperações de lesões (quanto tempo para Manu Silva ser opção a sério?) ou alguma surpresa vinda da formação, a rotação dos encarnados parece limitada a 12 jogadores de campo.
Além disso, ao contrário do que aconteceu nessa partida com o Atlético de Madrid há mais de um ano, a história do jogo não sorriu propriamente ao Benfica — apesar de terem marcado cedo, as águias já tinham desperdiçado duas ocasiões flagrantes antes de Ríos inaugurar o marcador, tão flagrantes que foram melhores que qualquer uma que o Nápoles tenha criado em todos os 90 minutos.
É preciso, porém, ter consciência do contexto, e o contexto, ontem, jogou e muito a favor do Benfica. Na véspera do encontro, Mourinho desvalorizara as ausências no adversário, mas esperar que uma equipa que tem De Bruyne, Lukaku, Anguissa ou Lobotka produza o mesmo sem eles é ingenuidade, na melhor das hipóteses. Depois, o facto de o Nápoles ter jogado no domingo, e o Benfica logo na sexta-feira, também pesou, mesmo que não tenha sido fator decisivo. Já agora, e sem tirar mérito às águias, convém assinalar que a equipa do sul de Itália é uma no Diego Armando Maradona e outra, bem pior, fora de casa — tinha perdido com o City em Manchester e com o PSV em Eindhoven (por 2-6). Mas venceu o Qarabag e o Sporting em casa, coisa que o Benfica de Lage, primeiro, e de Mourinho, depois, não conseguiu..."

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Janeiro vai decidir campeonato


"Lesões de Luuk de Jong, Lukebakio e Quenda vão obrigar a encontrar substitutos. Os grandes vão abrir os cordões à bolsa e o que mais acertar ganhará pontos na corrida ao título.

Aproxima-se o fim do ano e com ele reabre o mercado de transferências. Uma oportunidade para os clubes equilibrarem os plantéis ou mesmo darem armas decisivas aos treinadores. Acredito mesmo que janeiro decida o campeonato.
Como todos sabemos, o dinheiro não abunda em Portugal, pelo que todo e qualquer investimento tem de ser bem ponderado. O mesmo será dizer que as verbas têm de ser canalizadas para os alvos certos, para jogadores que sejam mais-valias, que dispensem adaptações e que de imediato tenham rendimento.
O FC Porto está a ter um percurso praticamente imaculado e é o líder inquestionável, mas sou daqueles que não acredita que o campeonato esteja decidido, mesmo com os dragões a mostrarem-se muito fortes, como se constata pelos cinco pontos de vantagem sobre o segundo, o Sporting – que venceu em Alvalade –, e oito sobre o terceiro, o Benfica, o único que foi capaz de travar os azuis e brancos, em pleno Dragão.
Na próxima temporada o futebol português vai manter os mesmo lugares na UEFA Champions League e com o segundo classificado a ter de sujeitar-se a pré-eliminatórias, o que significa que há apenas dois poleiros para três galos. Isto num momento em que as verbas provenientes da UEFA têm um peso decisivo nos orçamentos dos clubes e o que ficar de fora só tem duas possibilidades: a venda dos melhores jogadores ou o… endividamento.
Têm a palavra André Villas-Boas, Frederico Varandas e Rui Costa. Há um ano foi o presidente do Benfica quem mais investiu e agora, digo eu, também vai ser. Dahl, Manu Silva, Bruma e Belotti foram as prendas de Bruno Lage, que pouco depois perdeu os dois portugueses, devido a lesão. O sueco e o italiano não chegaram para o Benfica alcançar o título, que fugiu para o rival Sporting, que muito o deve a Rui Silva, que acabou por ser o reforço de inverno mais decisivo da época transata. A outra contratação dos leões foi o brasileiro Biel, que se revelou um fiasco.
Já no FC Porto salvou-se no meio do caos que foi a era Martín Anselmi o brasileiro William Gomes, que só agora, sob o comando de Francesco Farioli, se mostra uma mais-valia. Já sobre o jovem argentino Tomás Pérez ainda ninguém sabe bem o que vale.
Luuk de Jong, Lukebakio e Quenda lesionaram-se com gravidade e obrigam os clubes a encontrar substitutos. Não duvido que os três grandes vão abrir os cordões à bolsa e o que mais acertar ganhará pontos na corrida ao título. É que não acredito que se repita o operado por Rui Borges em Alvalade na época transata…"

Mourinho a ser Mourinho


"No rescaldo do triunfo do Benfica sobre o Nápoles, o treinador aproveitou para os críticos no devido lugar. Sem levantar a voz, fez o que melhor sabe: usou as palavras como bisturi, não como martelo

Há poucas figuras no futebol português capazes de transformar uma simples conferência de imprensa em espetáculo como José Mourinho. No rescaldo do triunfo do Benfica sobre o Nápoles — uma vitória de afirmação mais psicológica do que classificativa — o treinador aproveitou o pós-jogo como quem regressa ao palco, não para justificar-se, mas para pôr o público e os críticos no devido lugar. Sem levantar a voz, Mourinho fez o que melhor sabe: usou as palavras como bisturi, não como martelo.
Porque se há coisa que o Special One não faz é desperdiçar um microfone. Falou do jogo, sim, mas mais do que isso, falou através do jogo. Fez do 2-0 ao campeão italiano um manifesto: contra os «experts em atacar o Benfica». Os tais que, diz ele, se têm fartado de «dar pauladas» na sua equipa, que, resiliente, continua «viva». Mourinho sabe que o desgaste não vem só dos pontapés dentro de campo — vem, sobretudo, do ruído fora dele. E é aí que ele se agiganta, no campo pantanoso da opinião pública, onde se sente em casa desde os tempos de Porto ou Chelsea.
A tirada sobre o 'golo de nota artística' foi mais do que um recado — foi um espelho. Mostrou a Mourinho de sempre: o que não perdoa o que vê como discurso enviesado contra si ou contra o clube que representa. Ao insinuar que, se o lance de Barreiro e Ríos tivesse sido pintado de verde ou azul, as manchetes seriam outras, expôs a velha ferida do futebol português: a fronteira difusa entre análise e ressentimento. Não disse nomes, porque não precisa — a arte de Mourinho está precisamente em deixar as balas com destinatário e sem remetente.
E se havia dúvidas sobre a intenção da mensagem, bastou ouvir a ironia final. «Ríos piorou comigo, está a ver-se que sim; e o Dahl também...» Uma frase curta, com a acidez certa, como só Mourinho sabe temperar. Um elogio disfarçado de sarcasmo, uma palmada nas costas dada com a mesma mão que aponta o erro. No fundo, uma maneira de dizer que, mesmo sob fogo, a equipa tem alma e sentido coletivo — e que ele, José, ainda manda no balneário e na narrativa. Oportuna ou provocadora? Talvez as duas coisas. Mourinho joga com o tempo e com o contexto; sabe que quando vence, é legitimado a falar mais alto. Mas também sabe que precisa dessas vitórias para manter vivo o mito que construiu: o de que o mundo o persegue porque ele incomoda. E se há coisa que Mourinho gosta de fazer, é incomodar. A crítica, os rivais, e até os próprios benfiquistas que ainda não perceberam que, com ele, cada palavra tem uma estratégia. Até nas vitórias, Mourinho joga o seu próprio campeonato — o do discurso. Mourinho a ser Mourinho."

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