Últimas indefectivações
domingo, 22 de setembro de 2024
Cerveja e futebol
"Há a rima poética, na qual alma rima com calma ou agitação com animação. Depois há a rima simbólica, que tem também ela uma interessantíssima liberdade poética. Não conheço rima mais simbólica e acertada que a de futebol com cerveja, ou cerveja com futebol.
Há várias práticas diferentes na Europa. Portugal, Israel, Irlanda do Norte, Escócia e França são exemplos de países em que a venda é interdita. Na Bélgica, na Letónia, nos Países Baixos, na Dinamarca, na Chéquia e em Itália a venda é livre. Na Grécia, na Irlanda, na Islândia e em Inglaterra pode beber-se uma cerveja, mas não se pode levá-la para a bancada. Ora aqui está o que me parece um belo compromisso entre o bem-estar de todos e a poesia que ainda deve comandar a experiência de ir ao futebol.
De chorar por mais
Grandes golos de Debast e Kokçu em duas das três noites de Champions. Clubes portugueses também dão cartas. E ganham.
No ponto
Carlos Queiroz recebeu uma justa homenagem da Universidade Lusófona. É uma figura incontornável do futebol português.
Insosso
Veremos se a Liga consegue que os clubes de primeira deixem os de segunda receber verbas das competições europeias.
Incomestível
Os incêndios pararam o futebol em três distritos, mas isso é o menos importante de tudo. O flagelo persiste."
Isto foi rápido...!!!
Coitadinho. Não houve foi tomates para o condenar na justiça desportiva. https://t.co/9qmTeduEE8 pic.twitter.com/bFAZOYEBvF
— VZKY (@vermelhovzky) September 21, 2024
A visão do Tiago
"Julho de 2014. Mundial de futebol. Brasil.
A Seleção portuguesa decide estagiar em Campinas, a cem quilómetros de São Paulo. Escolha estranha, até porque, para a fase de grupos, Portugal defrontaria a Alemanha em Salvador da Bahia, os Estados Unidos em Manaus e o Gana em Brasília.
Quem conhece o Brasil sabe do que falo: temperaturas muito distintas, humidade assimétrica, viagens muito longas e desgastantes. O país-continente merece um cuidado muito especial na preparação para competições de topo.~
A presença de Portugal no Mundial-2014 saldou-se por um desaire (quase) absoluto, não conseguindo o apuramento para os oitavos de final.
Curiosamente, essa dificuldade foi transformada em oportunidade, porque mais fundo não se poderia ir. Fernando Gomes e Tiago Craveiro, há pouco chegados aos lugares de decisão na Federação Portuguesa de Futebol, quase inverteram as polaridades e repensaram as prioridades: construir de raiz um edifício para o futebol português, que aliasse a vertente desportiva e competitiva, a componente formativa e evolutiva, e a substância estrutural essencial para garantir o futuro a médio e longo prazo.
Começava uma grande aventura, justamente a partir de um mau resultado desportivo. A primeira fase da Cidade do Futebol foi inaugurada a 31 de março de 2016, exatamente para servir de base à preparação da Seleção A, que se viria, apenas, a sagrar campeã europeia nesse ano, em França.
Isto é, pensava-se o Futebol como um todo, nas suas diversas particularidades e necessidades. Um passo como ninguém havia dado, pese embora a intenção da edificação de uma casa das Seleções fosse um desejo antigo, do tempo dás presidências de Gilberto Madaíl, mas, por isto ou por aquilo, nunca concretizado.
Mas a FPF foi mais longe na sua missão e tornou-se benchmark em dois aspetos, a nível mundial. A criação do Canal 11 foi uma pedrada no charco da comunicação social portuguesa no que ao tratamento do futebol global diz respeito, na sua génese e nos seus objetivos.
E a Portugal Football School, o braço universitário da FPF, é hoje referência global na formação de quadros nas mais diversas áreas correlativas ao fenómeno desportivo e na investigação em áreas de ponta relacionadas com o treino do futebol.
É uma história que conta com o engajamento de uma equipa de profissionais de elevadíssima qualidade e reputação. Mas há um nome que, inevitavelmente, emerge como fio de primo e corrente transversal a todo este pensamento estratégico adaptado às necessidades do futebol português e à sua valorização perante os pares internacionais. Tiago Craveiro é, seguramente, o melhor dirigente português, do ponto de vista da visão e orientação para o futuro. E dos mais avessos às luzes da ribalta, o que só o tranquiliza e valoriza.
Independentemente do envolvimento de todos os arquitetos deste processo, Craveiro soube conduzir (por vezes por terrenos desconfortáveis e com marés contrárias…) este barco a bom porto, fruto de algo que falta, sistematicamente, no nosso país: capacidade de elencar necessidades, de ir ao fundo da questão e dos problemas para perceber o que efetivamente necessita de intervenção, gestão de prioridades e de equipas, equilíbrio de sensibilidades, jogo motivacional e visão periférica, de helicóptero, a tal que, quando temos, nos mostra uma realidade completamente diferente da perspetiva inicial.
Não me surpreendeu a saída do Tiago para a UEFA, a convite de Aleksander Ceferin. A sua experiência, aliada a uma permanente busca de inovação, já havia proporcionado ao organismo que gere os destinos do futebol continental a criação da Liga da Nações, a tal prova que, desde 2018, permite às seleções nacionais de menores recursos competitivos lutar entre si, conquistar pontos de ranking, equilibrar jogos e ganhar motivação, com o sistema de promoções e despromoções da mais recente competição.
Tem também o seu dedo a reestruturação competitiva a nível europeu, que bem dela necessitava para fazer face aos novos desafios dos direitos televisivos, das verbas de publicidade e marketing e da necessidade de continuar a gerar envolvimento entre público, negócio, espetáculo e competição.
Seria ele (inequivocamente), o melhor candidato à sucessão de Fernando Gomes na presidência da Federação Portuguesa de Futebol. O mais dotado tecnicamente, o de visão mais ampla e transversal, o mais conhecedor, o mais consensual. O mais competente, portanto.
Duvido que ele queira o cargo, o que é uma pena, porque dificilmente algum dos putativos candidatos já em trabalho de bastidores cumprirá tão brilhantemente todos os requisitos (embora, na minha opinião, haja um que se destaca, e dele falarei em breve…).
Fernando Gomes deixará uma marca indelével de competência e arrojo, de estruturação e conquistas. E também sabe, porque é um homem grato, que muito deve a Craveiro em todo o processo.
Nota final: sou amigo do Tiago há mais de trinta anos, o que em nada influencia a opinião que sobre ele exprimi. Espero que ele continue, em cada função e a cada minuto, a ser o que sempre tem sido.
Cartão branco
Quatro fases finais de campeonatos do mundo não são para qualquer um. São, aliás, para muito poucos… Eduardo Coelho, aos 44 anos, cumpre a sua quarta presença na prova máxima do futsal mundial: Tailândia (2012), Colômbia (2016), Lituânia (2021) e Uzbequistão (2024). O árbitro nascido na cidade francesa de Lourdes passa o testemunho a Cristiano Santos (dez anos mais jovem), que faz a sua estreia em Mundiais este ano, por terras uzbeques. Para Eduardo Coelho a certeza de que será um exemplo de dedicação, resiliência e competência numa área e numa modalidade em que esses são valores determinantes.
Cartão amarelo
É dos melhores treinadores portugueses e é, sobretudo, um cavalheiro. Porém, a sua saída do Al Nassr reveste-se de contornos tão previsíveis que não havia necessidade de, na véspera, vir a terreiro dizer que «mentir é uma coisa muito feia», quando confrontado por um jornalista com a quase inevitabilidade deste desenlace. Os jornalistas têm, por vezes, fontes que nem os treinadores dominam, e nem o discurso perfeito, são e escorreito de Luís Castro substitui o dislate da mentira feia… Uma coisa é certa: o técnico português continuará a ser um dos principais nomes na carteira de grandes clubes."
O paradoxo da abundância
"Desde de 30 de agosto, quando expirou o contrato com o Hajduk Split, sem clube, o médio croata Ivan Perisic assinou a 18 deste mês pelo PSV. Mas a 5 de setembro, no Estádio da Luz, lá estava ele sentado no banco ao lado do selecionador Zlatko Dalic, primeiro, e em campo, depois, para os últimos 15 minutos do Portugal-Croácia.
Na hora de convocar, Dalic deve estar-se nas tintas para saber qual é o momento de forma dos jogadores: chama os de sempre, incluindo o então desempregado Perisic, e siga. À frente de uma seleção de um país com menos de quatro milhões de habitantes, o treinador sabe que não tem base de recrutamento suficiente para experimentalismos e inovações se quiser manter os níveis competitivos.
E esse défice quantitativo tem se revelado... uma benção, traduzida em duas meias-finais seguidas de mundiais.
Já o Brasil, que desde que levantou a taça em 2002 só chegou às meias-finais uma vez e era melhor que não tivesse chegado (levou 7-1 da Alemanha), sofre daquilo que em economia se chama de maldição dos recursos ou paradoxo da abundância.
Essa tese contraintuitiva defende que países com mais recursos naturais — petróleo e minerais, sobretudo — tendem a ter crescimentos económicos mais baixos, menor desenvolvimento geral da população e índices piores de democracia do que os países com menos.
Os economistas que mais a estudaram, Jeffrey Sachs e Andrew Warner, comparam os segundos com a imensidão de cidadãos comuns que têm de administrar, tostão a tostão, o orçamento familiar e os primeiros com os raros vencedores de lotarias que gerem os rendimentos sem cuidado.
Voltando ao futebol, enquanto Dalic chamava Perisic e mais aqueles outros ic do costume, Dorival Júnior convocou em 2024, só para o ataque, Endrick, Martinelli, Raphinha, Richarlison, Rodrygo, Savinho, Vinicius Júnior, Galeno, Pepê, Evanílson, Pedro, Estêvão, João Pedro, Luiz Henrique e Lucas Moura. E ainda há Neymar. Como se constrói uma equipa — no sentido de equipa mesmo, oleada, mecanizada — se para as duas ou três posições de ataque há 16 candidatos, todas de qualidade indiscutível, uns mais velhos, outros mais novos, uns mais rápidos, outros mais fortes, todos a reclamarem e a merecerem uma oportunidade, fora mais uns quantos que a imprensa sugere e o público exige? Em suma, pobre Dorival. E rico Dalic.
Por falar no jogo com Portugal, dia 5 na Luz, além de Perisic, estiveram Livakovic, Sosa, Gvardiol, Kovacic, Modric, Kamaric, Pasalic, Budimir e Petkovic. Todos eles, com golo deste último e defesas essenciais do primeiro, eliminaram o Brasil, abundante e cheio de recursos naturais, no jogo dos quartos de final do Mundial-2022 do Catar."
O sistema é relação
"Tudo é sistema — digo eu e dizem outros que sabem mais disto do que eu! Se bem compreendo a ideia de sistema, podemos concebê-lo como uma totalidade organizada, com inter-relações constantes entre os elementos que o constituem. Como se aprende no Método-1, de Edgar Morin: «Fora dos sistemas, há apenas dispersão particular (…). Aquilo a que chamamos natureza não é outra coisa senão essa estranha solidariedade de sistemas emaranhados, construindo-se uns sobre os outros, pelos outros, para os outros, com os outros, contra os outros.» Portanto, um chefe prepotente, que se instalou na convicção que não tem dúvidas, porque vive de princípios absolutamente indiscutíveis; ou um treinador desportivo que vive no conforto de critérios que julga superiores ao tempo e à história — hoje, ambos mostram uma redonda ignorância do que é a Verdade, do que é a Certeza. Certeza só há uma: a Verdade não existe no reino do humano e que nos encontramos tanto mais próximos da inalcançável Verdade, quanto mais, simultaneamente, praticarmos e dialogarmos e estudarmos a área do conhecimento em que nos consideram (e nos consideramos) especialistas. Ninguém, nem nenhuma instituição, possuem a Verdade. Uma Verdade possuída não passa de uma trapaça ou de um logro ou de uma ilusão de um doente mental. A Verdade é um processo em constante construção e, porque é humana, não é uma verdade a-histórica, imperturbável, inamovível, mas um processo em incessante dialética, em imparável devir. Daí, a necessidade absoluta do estudo e do diálogo. A ausência do estudo e do diálogo empurra-nos a verdades inquestionáveis, ou seja, a erros imperdoáveis, ao dogmatismo afinal, que mais não significa do que esclerose e esterilidade do poder criador. Como já o assinalou Bachelard, uma cabeça que se julga bem feita é uma cabeça mal feita que tem a necessidade de ser refeita.
Com o estudo, com o diálogo e quando consciencializo que sou a parte de um todo, surgem em mim, como por milagre, qualidades inesperadas, inéditas e novas, as qualidades chamadas emergências, que assim se definem, em Edgar Morin: «Emergências são as qualidades ou propriedades de um sistema, que apresentam um caráter de novidade, em relação às qualidades e propriedades dos componentes considerados isoladamente, ou posicionados de maneira diferente num outro tipo de sistema». Reside na ideia de emergência pedra angular do pensamento sistémico, pois que só há emergência, novidade, progresso, quando há diálogo, inter-relações, sistema. Quando um dirigente desportivo (fenómeno evidentíssimo no futebol) se desentranha em explicações públicas às atuações menos felizes da sua equipa técnica, está normalmente a desviar as atenções dos sócios e simpatizantes da verdadeira patologia de que sofre o seu clube. Porque, por mais que se vistam com as lantejoulas da retórica, a sua presença nos pedestais, nos lugares-de-honra da vida desportiva portuguesa significa, antes do mais, que há, aqui e além (há muita gente séria no futebol) demasiada ignorância e um pavoroso oportunismo, em certos dirigentes do futebol. De facto, se tudo é sistema; se tudo é uma unidade complexa de vários elementos: as culpas das crises que vergam os clubes não se refugiam só nos treinadores (ou nos árbitros), mas nos sistemas que os clubes são. E começam, demasiadas vezes, na incapacidade de auto-crítica dos seus dirigentes e na falta de hábitos de estudo de alguns seus técnicos e na ausência do velho (e dizem que extinto) amor à camisola nos jogadores, que o profissionalismo extinguiu. Esperava-se de algumas pessoas que tivessem uma mensagem a dar, um sólido projeto a desenvolver, uma obra a construir. E, por vezes, terminam os seus mandatos, com pouca mensagem, com limitadíssimos projetos e com um currículo gotejando inêxitos. Mas com muito ressentimento e muito azedume…
Já fomos campeões europeus de futebol; é português o melhor jogador do mundo; José Mourinho, Fernando Santos e Jorge Jesus (e mais nomes poderia citar) podem ombrear com os melhores treinadores da atualidade; os treinadores portugueses têm um árduo, mas vitorioso, caminho percorrido, ao serviço de clubes estrangeiros; o Dr. Fernando Gomes tem obra inigualável ao leme da Federação Portuguesa de Futebol — não nos falta portanto conhecimento, ou seja, teoria e prática, quero eu dizer: ciência e consciência; liderança e capacidade de comunicação; ganhar condição ética, pela competência, pelo trabalho, pela solidariedade. Os economistas, se bem leio, procuram ensinar que é informacional e global a economia capitalista: é informacional, porque a produtividade e a competitividade dos seus agentes muito dependem da sua capacidade de criar e aplicar informação, baseada em conhecimento. É global, porque tudo se organiza, principalmente a competitividade, à escala global. Mas é preciso não desistir na luta persistente, na esteira de Edgar Morin, de uma ciência com consciência. É que o progresso, no âmbito da tecnociência, como esconder-se? E, no entanto, é também inquestionável o recrudescimento do desemprego e de uma alta competição marginalizante. Deve-se à tecnociência progressos fundamentais no bem-estar de cada um de nós, mas ainda se investe demasiado na ignorância das maiorias como forma de manutenção de um status quo manipulador e alienante. Alguns agentes desportivos prestam-se a situações ridículas, não por falta de boa vontade, mas porque a alta competição, sem o apoio de certos valores e de um rigoroso espírito crítico e auto-crítico, deixa, mais tarde ou mais cedo, nos homens (e mulheres) que dizem servi-lo, uma imagem degradada, amesquinhada de si próprios — que afinal não merecem, porque não é fácil gerir a alta competição desportiva, onde há (suprema contradição!) mais irracionalidade do que racionalidade…
Tudo é sistema, quero eu dizer: numa situação de crise, todos os elementos do sistema, por ação, ou ausência dela, por desconhecimento, por cegueira ou por interesse — todos têm a sua quota parte, na crise que se lamenta. Há um escopo primacial a transmitir: é preciso mudar de paradigma! Por outras palavras: é preciso uma revolução paradigmática. Só que uma revolução paradigmática depende de condições históricas, sociais e culturais, que nenhuma consciência poderia controlar. Mas depende também de uma revolução na consciência das pessoas. «O novo paradigma só pode conceber-se e compreender-se, através de um pensamento complexo. Só que este ainda não está enraizado na nossa cultura [Edgar Morin]». E, por isso, em situações de crise, ninguém quer esclarecer o que parece disperso, vago, informe. Ninguém tem culpa: a culpa é sempre do outro. E, porque ninguém tem culpa — a culpa não existe, não há transformações a fazer. E assim fica tudo na mesma — porque não há culpados, ou seja, ninguém põe em causa as suas certezas, os seus axiomas, os seus métodos. Por outro lado, os discursos permanecem exteriores uns aos outros, recusam o necessário diálogo, ou a indispensável interdisciplinaridade. No entanto, tudo é sistema: voluntaria ou involuntariamente, a crise (e as causas) está em todos os elementos da mesma totalidade. Não há ideias puras, não há factos puros, não há homens puros. Dentro de cada um de nós, o trigo e o joio crescem inextrincavelmente unidos. Não escondamos o joio que há também em nós… para que a crise se resolva! Entretanto, tudo é sistema: tudo está em tudo! Mas, principalmente no âmbito social e humano, tudo é sistema, porque tudo deve converter-se em relação fraterna."
sábado, 21 de setembro de 2024
Um Lage que recuperou o seu Ferrari
"Esta semana, ao entrevistar Paulo Alves, treinador com quase 20 anos de experiência, fixei-me numa frase que me disse e que me serviu de reflexão para este texto: «A gestão mental ainda é a charneira de uma equipa de futebol».
Por muita competência que se junte, acredito que o ambiente onde nos inserimos condiciona os resultados. Quanto melhor é o ambiente em casa, no trabalho, no balneário, no restaurante, no café, melhor nos sentimos e melhores coisas produzimos.
Os jogadores e as equipas de futebol são o reflexo máximo dessa teoria: quanto mais saudável é o ambiente, mais rendimento têm.
Bruno Lage veio com a prioridade de uma mudança de ambiente na Luz, e sobretudo no Seixal. Para além de uma gestão mais inteligente dos seus melhores talentos em campo, também aliviou a tensão no plantel e priorizou o retorno da harmonia entre adeptos e equipa, algo que parecia ter sofrido um revés irreparável pela teimosa frieza de Roger Schmidt.
Não bastava todo o clima hostil à volta da equipa, da direção e do processo de escolha do treinador, e ainda se somou uma colherada de Vieirismo, numa entrevista que veio colocar em causa tudo e todos dentro do SL Benfica.
Mas Lage provou ter sido o analgésico certo na hora certa. Foi muito competente a gerir estas bolas de malabarismo a arder nas suas mãos. Trouxe um discurso motivacional previsível mas eficaz, uma energia necessária aos bastidores e às bancadas, uma cara em quem os jogadores e adeptos reconhecem energia e paixão.
Após a desconfiança inicial de uma escolha que soou a secundária, Bruno Lage está a provar ter sido uma boa solução, pelo menos a curto prazo.
No entanto, já dizia José Mourinho, e em jeito de desafio para outro setubalense: uma substituição de treinador no decorrer da época traz efeitos imediatos, mas os efeitos a longo prazo, quando se esvaziar o balão da novidade, são mais difíceis.
Essa avaliação só pode ser feita com tempo, mas o inicio da era Lage 2.0 foi firme e varreu para debaixo do tapete os problemas expostos por Roger Schmidt."
Bruno Lage, Benfica e a 'nova' comunicação
"Bruno Lage ainda mal reaqueceu o lugar e tanto o regressado treinador como o Benfica começaram a comunicar melhor. O técnico fê-lo logo na conferência de imprensa em que foi oficializado, dispondo-se a namoriscar os jornalistas com cumprimento individual aos presentes, arrepiando caminho na recuperação da boa imprensa que teve durante muito tempo na primeira estada no comando da equipa principal e desbaratou com comportamento quase neurótico na fase final que precipitou a sua demissão em finais de junho de 2020.
Desde o dia da (nova) apresentação, sempre que falou à imprensa, Lage fê-lo inteligentemente, seu apanágio após a promoção, ascensão e glória na sua primeira vigência. Nesta, a segunda, deverá persistir nessa atitude positiva e frontal, mostrando, nos bons e mais momentos, que é treinador mais amadurecido também nesta marca de personalidade. Não se trata de agradar aos jornalistas, mas aos benfiquistas e aos bons adeptos de futebol.
O Benfica começou aparentemente também a comunicar melhor. Desde logo, ao informar, publicamente, sobre procedimento da AG extraordinária de sábado, subordinada aos Estatutos do clube, esclarecendo que não lhe imporá restrições temporais, mas restringindo-a a tema único. Ou seja, cumpra-se a reunião magna sem pressa, mas não tolerando outros assuntos que se sabe poderem ser controversos. No dia 27, nova AG, esta ordinária, sobre gestão e contas do exercício de 2023/24, será bem mais difícil aos órgãos sociais evitar que se disperse."
Bruno Lage e um Benfica emocional
"Discurso do treinador do Benfica não é necessariamente cativante e, para já, só tem sido exposto a vitórias, mas o comportamento apela a que as bancadas entrem sempre em campo
Dois jogos depois, a maior vitória de Bruno Lage é a recuperação de alguma confiança em torno da equipa. Os resultados diante do Santa Clara e, sobretudo, na visita ao sempre terrível ambiente do Marakana de Belgrado, sustentam-no. No entanto, é sobretudo pelas dinâmicas acrescentadas, maioritariamente no que diz respeito ao meio-campo, que o crescimento do moral dos benfiquistas deve assentar. Numa Liga em que o primeiro lugar está cinco pontos acima e com esta Champions, que encerra tanto dificuldades quanto eventuais surpresas lá mais para a frente, voltar a acreditar num final feliz pode ser a maior conquista das águias nos próximos tempos. Não garante títulos, todavia poderá ser o princípio de algo.
Os caminhos que daqui partirão só o treinador os conhecerá, se é que já os projetou, mas o que o acrescentou ao modelo existente, transformando o 4x2x3x1 num 4x3x3 assimétrico que permite controlar melhor o espaço à volta de Ángel Di María, merece ser de imediato valorizada. Não só por ser mais um esquema a entrar no seu portfólio, ou seja, a experimentação de algo específico e não necessariamente antes tentado, mas ainda porque, deste logo, o plot twist tem permitido um maior equilíbrio na reação à perda e garantido, ao mesmo tempo, o crescimento da influência de Kokçu, a atravessar o melhor momento desde que chegou à Luz.
O triângulo criado, com o vértice defensivo a ser pisado por Florentino, está a conseguir libertar os outros dois médios, o turco mais no perfil de um 8 e o argentino mais 8,5, e ambos com o pé mais forte por dentro, prontos para ações decisivas, como passes de rotura, envolvimentos em progressão e finalizações. Logo aí, nota-se uma mudança de abordagem: Roger Schmidt dificilmente criaria uma dinâmica para proteger um jogador, por mais importante que este fosse, mesmo com o exemplo positivo que até vem de uma Argentina campeã do mundo e dupla vencedora da Copa América, em que Rodrigo De Paul se torna uma espécie de cão de guarda de Lionel Messi (e antes também de Di María, com a ajuda de MacAllister e Enzo).
Aursnes, pedra essencial para Schmidt, não esteve no primeiro encontro e acabara de regressar para o segundo, e poderá baralhar as contas deste centro de equilíbrio descoberto, tanto defensivo como ofensivo. Resta saber se Lage já tem a resposta que não só lhe permitiria criar espaço para a reentrada do norueguês como, ao mesmo tempo, manter o que avançou na construção do novo modelo. Não jogarão os quatro ao mesmo tempo e Aursnes dificilmente voltará a ser olhado como interior esquerdo – o que a série goleadora de Akturkoglu apenas confirma –, por isso entre Florentino, Kokçu e Rollheiser um poderá estar a prazo.
O elo mais fraco até poderia ser o português. Já o foi antes, com a chegada de Weigl e o mesmo treinador, e que derivará também de um novo posicionamento que lhe retira aquilo que gosta de fazer: pressionar mais à frente. No entanto, o nórdico, perante maior agressividade na pressão, já mostrou igualmente sentir problemas com a bola nos pés. Se sem o turco, se perderia uma boa ligação entre meio-campo e ataque, com o ex-Estudiantes de fora a passividade de Di María sem bola será muito mais exposta, como foi no segundo tempo em Belgrado. Não é uma equação de resolução fácil.
O bloco, entretanto, baixou uns metros e os setores ficaram mais juntos, o que também ajuda uma linha defensiva lenta como a formada por Otamendi e António Silva no controlo da profundidade. Há espaço para atacar e contra-atacar, e ferir os rivais.
Os encarnados não jogaram sozinhos, o ambiente no Marakana não é fácil para ninguém e, no Estrela Vermelha, mora um ou outro jogador de qualidade. Todavia, depois de uma boa primeira parte e com uma boa vantagem alcançada, o Benfica adormeceu. Perdeu critério na saída, descansou em cima do resultado e acabou a sofrer. Praticamente não chegou à baliza de Glazer e, quando a rondou, tomou más decisões sucessivas. Entregou a bola, não soube arrefecer o jogo, consentiu demais. Ainda houve um remate ao poste de Amdouni, porém foi o tal oásis no deserto. E esta quebra, que pode ser trabalhada, não se consegue explicar. Os encarnados deviam ter reentrado para um novo jogo, mas deram a entender que estavam a caminho do aeroporto. Uma dúvida que ficará para os próximos desafios.
A instabilidade nos segundos 45 minutos chegou à defesa. Kaboré não escondeu debilidades e depois Lage, para ajudar Florentino (com Aursnes), tirou a proteção a Di María (ao substituí-lo por Rollheiser). Se a decisão acalmou inicialmente os sérvios, a verdade é que o tempo voltou a trazê-los de volta ao jogo e agora com mais espaço. Com o encontro ainda assim mais ou menos controlado, Otamendi, que até atravessava bom momento na partida, decidiu sair de posição para ajudar António Silva, porém, ao fazê-lo, libertou o espaço que Milson precisava para bater Trubin. Mais um erro do argentino, a juntar a vários nos jogos anteriores, que não encaixam bem com o exemplo de serenidade e liderança que deveria dar em campo. Até quando a tão sublinhada experiência continuará a ser sobrevalorizada?
Bruno Lage quer claramente jogar com o lado emocional do jogo. O seu discurso, embora algo insosso, aponta sempre aos adeptos, já que sentiu que precisará deles do seu lado para fazer com que a equipa entre em velocidade cruzeiro e eventualmente acelere na perseguição dos rivais, já para não falar do que pode ser uma Luz vestida de Inferno na prova milionária. Não digo que não seja genuíno quando bate no peito depois do apito final no Marakana ou levanta os braços após o empate contra o Santa Clara a pedir o empurrão do terceiro anel, apenas que tal poderá ser tão importante quanto o novo triângulo a meio-campo.
Para já, tudo corre bem e não excessivamente bem, o que é bom. Há resultados a que dar continuidade e mantêm-se os alertas para que não se embandeire em arco. Lage não poderia ter desejado melhor reentrada."
Eles estão loucos por vender Gyokeres
"Ou pelo menos parecem estar… Este é o Canto Curto, como sempre à sexta-feira
A convicção é minha. Mas ela só existe à luz de palavras de outros. E não de quaisquer outros. O que me leva a ter a convicção de que, no Sporting, estão loucos por vender a sua mais valiosa pérola, a mais preciosa das suas pedras, o sueco Viktor Gyokeres, são declarações das principais figuras, do presidente Frederico Varandas ao treinador Rúben Amorim, passando pelo próprio avançado que tantos golos, vitórias e, agora, também os milhões de Champions tem conseguido garantir com a camisola verde e branca.
«Uma cláusula de 100 milhões e o ser batida depende do momento do jogador, da idade, se há mais do que um clube na luta por ele. Já vi jogadores inferiores a serem transferidos acima de 100 milhões e grandes jogadores abaixo dos 100 milhões», disse Varandas há uma semana no palco do Football Thinking.
«O que eu digo é que o Viktor é um grande jogador e eu acho que ele vale 100 milhões [de euros]. E, principalmente o Sporting, o seu presidente [Frederico Varandas] e o diretor desportivo [Hugo Viana] acreditam que ele vale 100 milhões. Portanto, é esse o preço que ele tem, quem quiser [contratá-lo] terá de pagar 100 milhões», acrescentou, também nesse dia, Amorim.
«Por que valor posso sair? Boa questão... Não sei. Não trabalho para um clube nem sou empresário, não estou por dentro disso. É muito alta [a cláusula de 100 milhões] e não saí para lado nenhum. O meu valor é o meu valor, vamos ver…», atirou por fim Gyokeres, antes do jogo de terça-feira com o Lille, para a Liga dos Campeões, no qual marcou o primeiro golo da vitória por 2-0.
Posto isto, chamem-me louco a mim, se quiserem, mas… se temos um objeto valioso, o mais precioso de todos e queremos preservá-lo sem reservas, o que fazemos? Aproveitamos toda e qualquer oportunidade que temos para bradar aos sete ventos que o temos e que por determinado valor até prescindimos de ficar com ele, trocando-o de boa vontade pelos milhões publicitados? Ou guardamo-lo a sete chaves e ficamos bem caladinhos?
Pois… Eu, se estivesse louco por vendê-lo a troco de um importante encaixe histórico, não tenho qualquer dúvida de que seguiria a primeira linha de ação e andaria por aí a espalhar palavra."
Rodri sempre, excesso de jogos nunca mais!
"Jogadores alertam que o calendário vai trazer consequências – para os próprios e para o espetáculo. O futebol, como desporto e sobretudo negócio, já se tinha esquecido de outros protagonistas…
Está a crescer uma espécie de movimento entre os jogadores contra o calendário excessivo, que lhes carrega nas pernas jogos de três em três dias como regra e não exceção. Em ano de mudanças nas competições europeias e com Mundial de Clubes a fechar, a tendência só será para ouvirmos mais queixas.
Compreendo que os jogadores, mais do que ninguém, querem estar sempre no seu melhor. E que são e serão as próprias competições a sair prejudicadas se assim não for (no Euro 2024, quantas das maiores estrelas estiveram bem abaixo do que se esperaria?). Acho até comovente que os protagonistas estejam a perceber que são trabalhadores (muito bem pagos) por vezes explorados para que o negócio dê mais e mais dinheiro. E é importante que falem da sua saúde (também a mental), do pouco tempo que passam com a família, que queiram ter mais vida. O mundo pula e avança.
Esta semana, o camarada Rodri ameaçou mesmo com uma greve. O médio é o porta-voz perfeito: um dos melhores do mundo, vencedor de tudo e mais alguma coisa no Man. City e campeão da Europa. Rodri é tão bom e tão inteligente a jogar que faz todo o sentido que também domine uma conferência de imprensa. E Rodri tem razão: se ninguém se preocupar com os jogadores, talvez tenham de ser eles a agir.
Há, no entanto, uma parte da equação esquecida: o futebol (tanto o desporto como o negócio, como lhe chamou Rodri) só rende muito porque tem público (tanto os adeptos como os clientes, como o marketing os quer chamar). E os jogadores só vencerão esta luta por um calendário mais simpático se tiverem o público do seu lado. Pelo que fui lendo nos últimos dias, e sem haver grande discordância pelos argumentos dos jogadores, há um problema saliente: as pessoas que gostam de futebol ganham muito menos do que as que praticam futebol ao nível de Rodri, Alisson ou Bernardo Silva (alguns dos que falaram sobre o assunto). E esse mesmo público foi explorado cada vez mais nos últimos anos, pelos preços dos bilhetes ou das camisolas dos ídolos que tiveram de deixar de comprar, ou pela experiência que lhes querem vender e que só está acessível a alguns. Não será um público fácil de convencer, portanto.
É bom que os jogadores falem e lutem por um futebol melhor. Mas quando vemos protagonistas do Man. City, onde quase tudo é dinheiro e atropelos que aumentam a desigualdade entre clubes e ligas, a expor os seus problemas, sem até agora terem estado muito preocupados com o que o tal negócio está a fazer aos adeptos, a revolução parece menos entusiasmante."
Triunfo justo
"Na jornada inaugural da fase de liga da Liga dos Campeões, o Benfica foi superior e venceu, por 1-2, na visita ao Estrela Vermelha. Este é o tema em destaque na BNews.
1. Importante começar com vitória
Bruno Lage evidencia a relevância do início vitorioso, agradece o apoio dos Benfiquistas e já pensa no próximo desafio: "A equipa entrou muito bem, com personalidade. São mais três pontos muito importantes a iniciar este novo formato da Liga dos Campeões e a dar continuidade ao que fizemos no último jogo. Os nossos 500 adeptos fizeram-se ouvir no momento em que a equipa mais precisou. O nosso foco já está em recuperar e preparar o jogo seguinte com o Boavista."
2. Vitória sólida
Di María, considerado o homem do jogo pela UEFA, refere que "o importante é a equipa e as pessoas que viajaram para estar connosco. Jogámos duas partidas positivas, ganhando".
Aktürkoglu considera que "foi um jogo complicado, num ambiente difícil para qualquer equipa, mas merecemos a vitória".
Carreras salienta que "viemos com a mentalidade de conquistar os três pontos, e cumprimos o objetivo. Seguimos com os nossos objetivos, agora, pensando na partida da Liga. Vamos jogo a jogo".
3. Nomeado para Golo do Dia
O golo apontado por Kökcü, de livre direto, está nomeado para Golo do Dia.
4. Bilhetes esgotados
Já não há bilhetes disponíveis para a partida entre Boavista e Benfica, segunda-feira, às 20h15, no estádio do Bessa.
5. Início com o pé direito
Na 1.ª jornada da fase da liga da UEFA Youth League, o Benfica venceu, por 1-2, no campo do Estrela Vermelha. Vítor Vinha afirma que "somos justos vencedores. Talvez o resultado até peque por escasso. Foi um excelente jogo da nossa parte".
6. Na final
Na meia-final da ronda de qualificação para a fase de grupos da Basketball Champions League, o Benfica venceu, por 89-88, frente ao Rilski Sportist, da Bulgária.
Norberto Alves considera que "o mais importante era ganhar, e conseguimo-lo fazer, mas, ofensiva e defensivamente, jogámos com muitos altos e baixos".
O jogo decisivo é no sábado, com o Fribourg Olympic.
7. Ambição
Em entrevista aos meios de comunicação do SL Benfica, Rui Moreira, treinador da equipa feminina de voleibol, faz o ponto de situação da pré-temporada, analisa os reforços e aborda os objetivos para a época.
8. Goleada
Frente ao Nafarros, o Benfica ganhou, por 4-13, na Taça Jesus Correia.
9. Agenda desportiva do fim de semana
Hoje, às 19h30, a equipa feminina de basquetebol do Benfica disputa, com o GDESSA, em Aveiro, os quartos de final da Taça Vítor Hugo.
Amanhã, os Sub-19 recebem o Académico de Viseu às 15h00. No voleibol é dia de meias-finais da Taça Ibérica: no masculino, em Matosinhos, o jogo com o Río Duero Soria é às 18h00; no feminino, o Benfica joga com o Club Voleibol JAV Olímpico, às 16h00, em Las Palmas. No basquetebol, o Benfica procura chegar à fase de grupos da Basketball Champions League e tem o desafio decisivo, às 17h00, na Turquia, frente ao campeão suíço Fribourg Olympic.
Domingo, às 11h00, a equipa feminina de futebol tem embate, no Benfica Campus, com o Famalicão. À mesma hora, os sub-17 visitam o Torreense. Às 16h00 há dérbi de andebol no pavilhão João Rocha. Passada uma hora, a equipa feminina atua no reduto do ABC.
10. Mundiais de futsal e hóquei em patins
Siga a prestação dos vários atletas do Benfica nos Campeonatos do Mundo de futsal (masculino) e de hóquei em patins (masculino e feminino).
11. História agora
Veja a rubrica habitual das manhãs de quinta-feira na BTV.
12. Revisão dos Estatutos
Jaime Antunes, vice-presidente do SL Benfica, João Pinheiro, membro da Comissão de Revisão dos Estatutos, e Guilherme Fontes, membro da direção do Movimento Servir o Benfica, debateram, na BTV, a revisão estatutária do Clube.
E o vice-presidente da Mesa da Assembleia-Geral do Sport Lisboa e Benfica, José Pereira da Costa, esclarece os procedimentos da sessão."
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