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terça-feira, 16 de julho de 2024
O exemplo de Espanha
"'Nuestros hermanos' merecem ser campeões europeus
O Euro-2024 termina hoje com um grande jogo entre Espanha e Inglaterra. As duas seleções têm características diferentes e muito talento: Bellingham, Saka, Kane, Foden ou Rice vs Yamal, Nico, Olmo, Fabián Ruiz ou Rodri. Contudo, coletivamente, a seleção espanhola tem-se destacado. Independentemente do resultado final, para mim, Espanha já venceu pelo exemplo. Trouxe uma forma de jogar que encanta e delicia quem gosta de futebol. Dominou todos os adversários que encontrou e teve de enfrentar seleções de grau de dificuldade elevado: Croácia, Itália, Alemanha e França. Pelo trajeto, pela qualidade, pela alegria, pela filosofia e pela forma como se impuseram perante todos os outros, Espanha é um exemplo e merece ser campeã europeia.
De la Fuente
Ex-jogador, atuava como lateral esquerdo, tendo vencido duas ligas, uma Taça e uma Supertaça de Espanha. Já enquanto treinador, liderou alguns clubes sem grande relevo. Onde se tem destacado é nas seleções espanholas. Foi campeão europeu de sub-19 (em 2015) e de sub-21 (em 2019) e ganhou a Liga das Nações em 2022/23. Sucedeu a Luis Enrique, herdando um estilo de jogo atrativo, dominador e onde o coletivo foi sempre mais importante que o individual. Luis Enrique, seu antecessor, teve a capacidade de eliminar os egos na seleção, sendo muito criticado pelas convocatórias que foi fazendo. Na minha opinião, uma parte do sucesso que a seleção espanhola está a ter neste Europeu deve-se à filosofia e forma de estar que Luis Enrique introduziu.
O ADN foi implementado e respeita a cultura dos jogadores espanhóis do século XXI. De la Fuente teve a inteligência e perspicácia de perceber o que de bom estava a ser feito e, não só, seguiu a filosofia do seu antecessor, como manteve a coerência nas convocatórias, com jogadores que têm as caraterísticas ideais para a forma como pretende jogar e que sabem respeitar as suas decisões.
Ideia de jogo
O sucesso depende sempre de muitos fatores. Um dos principais passa por conseguir fazer com que os jogadores acreditem na ideia de jogo e se mantenham fiéis à mesma. A Espanha de De la Fuente é uma equipa dominadora, que sabe ocupar os espaços e que tem movimentos bem definidos para potenciar as caraterísticas dos seus atletas. Por exemplo, durante os 90 minutos a seleção espanhola consegue criar condições para que os seus extremos (Yamal ou Nico) façam situações de um contra um, fazendo com que nesse momento possam existir desequilíbrios. Fabián Ruiz, Pedri ou Olmo, apesar de serem diferentes, percebem as funções que lhes estão destinadas. Olmo tem mais chegada à área, é agressivo, reage bem à perda de bola e aproveita os espaços deixados pelos movimentos de Morata. Pedri tem uma enorme visão de jogo, capacidade de circulação de bola e define quase sempre bem. Fabián Ruiz tem segurança na posse de bola, sabe entrar dentro de área e finalizar e tem a capacidade de, defensivamente, ocupar o seu espaço com agressividade.
Rodri – o comandante
Atrás de Fabián Ruiz, Pedri ou Olmo está um dos melhores jogadores do mundo: Rodri. Tem uma capacidade incrível de ler o jogo, de simplificar, de definir o momento de pressão e empurrar os colegas, de perceber quando está marcado e tem de arrastar os adversários ou quando tem espaço para ser ele a construir. Tem capacidade de remate de longa distância. É o comandante e é aquele que transmite calma e segurança quando as coisas não correm tão bem. O jogo com a França foi um exemplo. Depois de começar a perder tão cedo, era fundamental manter a concentração e continuar a seguir o caminho e o ADN espanhol com paciência. Rodri foi fundamental para que tal acontecesse. Com Rodri, Yamal ou Nico estão mais próximos de poderem brilhar.
Coletivo ‘vs.’ Individual
Para termos uma noção da qualidade coletiva de Espanha devemos fazer a seguinte questão: antes da competição, quantos jogadores da seleção espanhola colocaríamos como titulares no melhor onze do Euro? Ao dia de hoje, e depois de analisar a prestação dos jogadores espanhóis, possivelmente encontraríamos vários jogadores que encaixariam nesse onze. Tal acontece porque a forma de jogar da seleção espanhola valorizou, praticamente, todos os jogadores envolvidos. Contudo, antes de a competição começar, só encontro um jogador que teria lugar cativo num onze formado pelos melhores jogadores (por posição) das seleções em prova. Esse jogador é o Rodri mas, com a competição a terminar, já olhamos para vários jogadores espanhóis com outros olhos. Isto acontece porque o coletivo de Espanha foi (até ao momento) o mais forte e completo. É a equipa que pratica melhor futebol e que mais vitórias tem na competição. Já esteve em desvantagem no marcador (por duas vezes) e soube reagir sem ter de alterar a sua forma de jogar e sem se deixar levar pela pressão ou ansiedade. Com o passar dos jogos, e com as exibições a subirem de nível, os jogadores foram ganhando cada vez mais confiança, mais união e compromisso entre todos. Ao contrário do que referiu Roberto Martínez, as seleções fortalecem-se com boas exibições e golos e não com vitórias nos penáltis.
Saber dar tempo ao tempo
A performance de Espanha no Euro é o resultado de vários anos de trabalho. Não é fácil substituir jogadores como Iniesta, Xavi, Busquets, Fàbregas, David Villa ou Sérgio Ramos. Não é fácil manter o ADN quando as coisas não correm bem. A realidade é que quando se acredita muito numa ideia de jogo e se tem a coragem de a implementar, nas derrotas e nas vitórias, o sucesso está muito mais próximo. No Mundial, Espanha foi eliminada (injustamente) nas grandes penalidades frente a Marrocos. Estava tudo mal? Não. Estava tudo perfeito? Não. A ideia de jogo ou a forma de jogar estavam bem claras e definidas. A continuidade fez a diferença.
Egos
Outro ponto fundamental no sucesso de Espanha é a ausência de egos. Todos percebemos que existe uma liderança respeitada e bem definida. A convocatória foi feita em função da forma como De la Fuente pretende jogar. O onze inicial tem em conta as características dos jogadores e forma como se complementam. A estratégia para os jogos passa por ser uma equipa dominadora, que respeita os adversários e que sabe que, em alguns momentos, terá de sofrer. Pode alterar alguns movimentos para potenciar as caraterísticas dos seus jogadores, mas nunca altera o seu padrão de jogo. Existem diferentes caminhos para se chegar ao sucesso. No caso de De la Fuente ou Luis Enrique, o caminho passa por serem dominadores no jogo, por fazerem com que os jogadores, independentemente dos adversários e das circunstâncias, tenham a capacidade e personalidade de assumir esta forma de jogar. Isto só se consegue se todos tiverem qualidade, compromisso e se perceberem que o coletivo está acima do individual.
A valorizar:
Yamal
Incrível a qualidade e maturidade que o jovem de 17 anos (feitos ontem) demonstra. O seu golo contra a França nas meias-finais é uma obra de arte. Valorizou-se muito neste europeu. Se não tiver lesões, poderá marcar a sua geração.
A desvalorizar:
Didier Deschamps
Com tanta qualidade individual à disposição, França nunca se apresentou como uma verdadeira equipa e foi vivendo de rasgos individuais. Um futebol pobre que se refletiu nos quatro golos marcados em seis jogos. Muito pouco para quem tinha tantas soluções."
O outro jogo da nova época
"Terminado o Europeu, viram-se de novo todas as atenções para a vida dos clubes. A nova temporada, porém, traz outro desafio bastante interessante de seguir: o da FPF
E eis que esta segunda-feira, 15 de julho de 2024, marca o regresso à normalidade mediática e futebolística. Jogada a final do Europeu, a atenção vira-se totalmente para a atividade dos clubes. Este acontecimento dá-se depois de uma verdadeira cimeira, em Berlim, entre duas monarquias, o que não deixa de transportar alguma ironia em tempos que se revelam bastante complicados para várias repúblicas Mundo fora. Mas não será a política a principal convidada desta conversa, pelo menos até ver.
Gozadas as férias da maioria, as equipas dos principais clubes já trabalham a todo o gás tendo em vista a nova temporada. Todos eles condicionados até final de agosto, por força do mercado de transferências. Uns mais necessitados que outros, mas nenhum com margem financeira suficiente para se dizer indiferente à força do dinheiro que ditará leis no resto do verão.
Sporting e FC Porto ainda não apareceram em público, mas tem havido notícias de jogo-treino com vitórias prometedoras. O Benfica sim, já chegou ao espaço mediático com dois jogos em dois dias, ainda que em canal fechado. E também ele com fartos motivos para fazer sorrir e inflar de esperança os adeptos. É sempre assim: os candidatos ao título — onde se inclui, por maioria de razão, o SC Braga — vivem defesos cheios de promessas, boas expectativas, regressos saudados, ausências choradas, novidades apetitosas. Quando as coisas se passam de outra forma é sinal de que nem tudo está normal nos mundos mediático e futebolístico. E o futebol também se faz desta magia.
A temporada de 2024/2025 traz desafios importantes: as competições europeias mudaram de formato; a Taça da Liga diminuiu o quadro competitivo, mas os calendários continuarão apertados por força do aumento de jogos europeus, para os que lá vão, e menos preenchidos para quem não joga na UEFA; a centralização dos direitos televisivos é um tique-taque constante que poucos parecem estar a escutar com ouvidos de ouvir; a entrada de estrangeiros está limitada por força de decisões governamentais.
No meio destes desafios — e afinal cá está a política — a Federação Portuguesa de Futebol vai fechar um ciclo de 13 anos sob a presidência de Fernando Gomes, o mais tardar em fevereiro de 2025. Até agora há quatro protocandidatos à sucessão, nenhum oficializado: Pedro Proença (o que significaria alteração também na Liga Portugal), Nuno Lobo, José Couceiro e Rui Moreira. Vai correr muita água debaixo das pontes até percebermos os cenários finais. Mas a par dos resultados desportivos desportivos este será um jogo interessante de seguir na presente temporada."
O Euro-2024 ficará ou não como um marco na evolução do futebol?
"Pontapés de saída longos, mais golos de meia-distância, muita flexibilidade posicional, pressão com referências individuais e proliferação das linhas de 3 e 5 - algumas tendências táticas na Alemanha
As grandes competições de seleções são, muitas vezes, marcos no que diz respeito a tendências táticas. Isto acontece não só porque são as grandes equipas que abrem caminho e influenciam as restantes, mas também por se tratar da grande montra do futebol mundial. Se, por vezes, as tendências podem ser transitórias e esquecidas, noutros casos podem marcar a história evolutiva dos sistemas e dos métodos de jogo.
Mesmo que as novidades não tenham surgido em âmbito de seleção — os curtos períodos preparatórios não ajudam —, a sazonalidade destas grandes provas ajuda a apalpar o pulso à evolução do jogo. Por exemplo, embora o WM tenha sido inventado pelo Arsenal de Herbert Chapman, a tendência ficou marcada nos Mundiais dos anos 30. A marca do aparecimento das linhas de 4 defesas, que quase nos habituámos a ver como cânone, surge em 1958, no primeiro Brasil campeão do Mundo, na Suécia. O futebol total de Rinus Michels e de Cruyff pode ter tido o seu advento no Ajax, mas deixou marcas através dos Países Baixos finalistas do Mundial de 1974 e 1978.
É também impensável não associar Guardiola e o Barcelona aos anos dourados da roja, que venceram tudo entre 2008 e 2012.
É, portanto, com natural expectativa que se espera por ver a dinâmica dos melhores treinadores e jogadores do mundo, invariavelmente presentes nestas provas. Quais têm sido, então, as tendências táticas deste Europeu? Terão seguimento?
Rotinas de pontapé de saída
O golo mais rápido de sempre dos Europeus, marcado pela Albânia, surpreendeu toda a gente. Mais do que a oferta de Dimarco a Bajrami, importa lembrar que o lançamento para a Itália no seu terço defensivo proveio de... uma bola longa no pontapé de saída albanês.
Na primeira ronda do Euro 2024, mais de metade das equipas procurou rotinas de pontapé de saída que implicassem uma bola longa, ou na área, ou através de diagonais. Outros trouxeram ainda outras estratégias: por exemplo, a Polónia frente aos Países Baixos colocou vários jogadores de um lado, para iludir o adversário e jogar do lado contrário.
Numa era em que o jogo é analisado ao milímetro, e numa prova em que muitas equipas se apresentam com mais medo de perder do que com vontade de ganhar, talvez esta possa ser uma nova forma de criar desequilíbrios na estrutura adversária.
Remates de meia-distância
Dos primeiros 42 golos da prova, 12 (29%) foram marcados de fora da área. Os Europeus anteriores demonstram o quão estes números estão em contraciclo com a tendência evolutiva do jogo — 13,4% dos golos do Euro 2020 foram de fora da área. Em 2016 foram 15,7% (obrigado, Éder!).
Estes são dados mais alinhados com a realidade atual e, na verdade, demonstram que o tiro de longe é recurso em desuso. Na Premier League deste ano, apenas 11,5% dos golos resultaram destes remates. A baixa eficácia nestas ações e a proliferação do big data pode explicar porque se atira menos de fora da área. Contudo, porque é diferente neste Europeu?
Não há uma explicação clara. A mais óbvia é que se trata de uma anormalidade estatística que a longo prazo se anularia. Não parece absurdo, contudo, que esta possa ser uma estratégia para contornar blocos baixos e equipas que amarram o jogo até mais não o conseguirem.
Flexibilidade posicional e criação de superioridade numérica
Há muito que se diz que o jogo parece evoluir no sentido do desaparecimento dos sistemas e talvez este Europeu tenha sido um passo nesse sentido. Foi cada vez mais recorrente vermos laterais que jogam por dentro, extremos que jogam como médios, ou médios que constroem como centrais ou laterais.
Este tipo de mobilidade ajuda a confundir marcações adversárias, mas principalmente ajuda a criar superioridade numérica em zonas-chave do terreno. Tomemos como exemplo João Cancelo como médio frente à República Checa, ou os ingleses Bellingham e Foden como extremos, mas na verdade a formar um quadrado na zona central com Rice e Mainoo, no jogo frente aos Países Baixos.
Referências individuais na construção adversária
É cada vez mais frequente ver equipas a assumir o risco da referência individual na saída de bola do adversário. Neste Europeu, esta realidade foi frequente em equipas que optaram por pressionar alto, procurando encurralar o adversário em situações de 1x1 em praticamente todo o campo.
A ideia talvez tenha tido o seu epítome na Atalanta de Gasperini, com exemplo claro na final da Liga Europa, em que fez cair com estrondo o imbatível Bayer Leverkusen de Xabi Alonso (3-0). Contudo, teve continuidade neste Europeu: veja-se como a Sérvia ameaçou o empate frente à Inglaterra no primeiro jogo ou como a Áustria procurou quase sempre pressionar alto. Contudo, num torneio em que se joga de 4 em 4 dias, será possível apresentar índices físicos que permitam sempre este comportamento? Por outro lado, se o adversário for melhor no duelo individual, como resolver sem o coletivo?
Linhas de 3/5 defesas
Depois de muitos anos em que as linhas de 4 defesas pareciam ser o paradigma para o futebol europeu, parece que as linhas de 3/5 vieram para ficar. A linha defensiva com 3 centrais, que deixa implícito que dois laterais estejam à largura com propensão ofensiva, parece apenas ter atingido mediatismo nos anos 80, com o 3-4-3 da Holanda e do Barcelona de Cruijff, ou com o 3-5-2 da Argentina de Maradona e de Bilardo.
Mais de metade das equipas do Euro 2024 (Portugal está entre elas) começaram o jogo, em algum momento, numa linha de 3 defesas. Recuemos a 2016: de toda a fase de grupos, apenas País de Gales e Itália jogaram assim. Esta realidade era pouco comum no Velho continente nos anos 90 (embora Jorge Jesus, inspirado por Cruijff, a tivesse trazido da Catalunha), e foi surgindo na Serie A italiana, quem sabe inspirada pelos sul-americanos.
Claro está que vai um universo de diferença da trincheira georgiana em 5-3-2 ao 3-4-3 que a Inglaterra trouxe às meias-finais (um dos alas até era Saka).
A única certeza no futebol é a mudança. Grandes génios do passado inventaram ideias que hoje parecem ultrapassadas. Os jogos de elite do passado parecem agora demasiado lentos e previsíveis. Apreciar a complexidade do jogo é apreciar o seu carácter evolutivo e a sua mutação constante."
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