Últimas indefectivações

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Dos campeonatos

"Em disputa estava a Taça das caraíbas - e por estranho capricho decerto se colocou no regulamento:
- Jogo ganho no prolongamento através do golo de ouro deve ser qualificado como vitória por 2-0, independentemente do resultado com que ele fechar...
Barbados tinha de vencer Granada por pelo menos dois golos, de outro modo finalista seria Granada. Estava a ganhar por 2-0 - e, aos 87 minutos, Granada reduziu para 2-1. Presumindo que, em três minutos, mais fácil do que ir em busca do 3-1 seria procurar o golo de ouro no prolongamento  - um jogador de Barbados fez, o golo na própria baliza que pôs o placard em 2-2. Claro, logo se percebeu também - que ainda havia outra hipótese. Que se Granada fizesse autogolo - perdendo por 3-2, não lhe escaparia a final de pronto. O que aconteceu, pois? Dois emocionantes minutos em que os 11 jogadores de Barbados se puseram dentro da baliza de Granada a evitarem, em afã, que um granadino pusesse, sorrateiro ou não, a bola na sua própria baliza. Conseguiram-no - e, no prolongamento, também conseguiram o golo de ouro que levou Barbados à final - e, na final, à conquista da Taça.
O caso virou exemplo de como a «esperteza criativa» (sem que o carácter importe...) pode dar a volta à realidade - no futebol ou na vida. Ao ouvir Bruno de Carvalho afirmar que o Sporting não foi 18 vezes campeão nacional, foi 22 (esses quatro seriam os Campeonatos de Portugal de 1922/23, 33/34, 35/36 e 37/38) alguém me diz que é mais uma forma muito dele de «esperteza criativa» - e eu acho que não, que é um absurdo. Ou, então pior: o topete de quem não sabe (ou não quer saber...) que o Campeonato de Portugal (que nunca se fez em poule, sempre se fez a eliminar...) passou em 1938/39 a Taça de Portugal - ano em que o Campeonato da I Liga, mudando-se-lhe a denominação, passou a Campeonato Nacional da I Divisão (andando, depois, por outras denominadas, sem nunca deixar de ser o que é: o campeonato, o único que dá campeões...).

António Simões, in A Bola

Ética e exemplariedade

"Há muito desporto para além do futebol. E deveria haver sempre mais ética para além dos resultados. Se em muitas modalidades tem  havido uma assinalável e irrepreensível atitude de atletas e dirigentes, o futebol tem potenciado, por excesso, balbúrdia e violência verbal. Programas televisivos há que têm contribuído para esta degradante evolução, numa guerra de audiências onde vence a vozearia, a má-educação, a insinuação e a transformação de um qualquer jogo numa guerra.
Promover o sentido ético do futebol não rende, num tempo em que a turba quer contenda e sangue. Atenção, porém: está-se no limiar de consequências imprevisíveis, seguramente com a culpa a morrer solteira.
Sobre ética, há, todavia, uma boa notícia que merece ser enfatizada. Há dias, o Instituto Português do Desporto e Juventude, através do Dr. José Carlos Lima, coordenador do Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED), recebeu em Viena o Prémio Fair-Play SPIRIT Award 2016, atribuído pelo European Fair Play Movement (que representa 42 países).
Foi uma atribuição muito honrosa e responsabilizadora de um trabalho persistente, pedagógico, solidário, estimulante e de despertar de consciência. Já aqui falei, há tempos, na feliz ideia do cartão branco, inédito na Europa. Sei que o PNED vai também avançar com a bandeira da ética como certificação dos clubes sobre boas práticas a nível do fairplay.
Muito mais haveria a dizer sobre o significado deste reconhecimento exemplar. E bom será que o PNED não seja apenas notícia de brevíssimos rodapés ou mesmo não notícia. Consulte-se o sítio www. pned.pt e, talvez, o leitor tenha uma boa e edificante surpresa."

Bagão Félix, in A Bola

Lanças...

Rubén Dias...

André Horta...

Grimaldo vs. Salvio

Nem sépia torna bonito o futebol do Facebook

"Diz-se que a vida das pessoas é muito melhor no Facebook do que fora dele. Se assim for, é precisamente o contrário do futebol.
O futebol do Facebook é mil vezes pior do que o futebol a sério. Não se safa nem com filtro sépia. Ninguém que goste do futebol a sério dá um gosto ao futebol do Facebook. Quanto muito, escolhe aquele bonequinho com a boca aberta. Seja de espanto ou de horror.
Se as pessoas, muitas vezes, maquilham no Facebook os problemas da vida lá fora, o futebol cá de fora deveria maquilhar no terreno os problemas do futebol do Facebook. Mas nem sempre consegue. 
Ainda recentemente passaram-se horas em horário nobre a discutir o que vinha numa página desta rede social. E o tudo inclui a mensagem, a forma, os critérios que podem levar a mesma a excluí-la, o potencial interesse dos autores e acabando no autor em si, que, como se sabe, nunca saiu do campo da suposição.
Da minha parte, peço desculpa, mas o futebol do Facebook pouco (ou nenhum) interesse me desperta.
Na verdade, não peço desculpa. E explico porquê.
Não me lembro de uma jogada de génio do futebol no Facebook. De um corte limpo. De uma saída a jogar perfeita. De um remate ao ângulo. De uma defesa impossível que afinal não o é.
Não me parece que haja um único miúdo na rua que, antes de começar a jogar e enquanto coloca as pedras que fazem de baliza, diga que quer ser aquele senhor que escreveu aquele comunicado brilhante com farpas certeiras no rival ou o outro que respondeu à letra ao roubo descarado de que está a ser alvo. Normalmente querem ser Jonas, Adrien ou André Silva.
O futebol do Facebook nunca me arrancou um arrepio. Uma emoção, sequer. É um monte de letras, escritas a ódio, seja qual for a cor da caneta.
É por isso que não compreendo como o rescaldo pareça despertar ainda mais interesse do que o futebol a sério. Como não entendo que um senhor de gravata possa ser o maior destaque desportivo num jornal. Ou como não entendo que o adepto que cresceu a idolatrar os artistas da relva perca agora tempo com os da secretaria. E já sabem que artista é das palavras portuguesas com duplo sentido, não é?
Juntar 22 jogadores num relvado começa a aparentar ser apenas um pormenor no bolo em que se transformou o futebol português. Um pretexto para que políticos da bola, expressão que acabo de cunhar, tenham espaço para medir intenções, históricos, perspectivas, ângulos de visão, comunicados, número de adeptos, malas, vouchers, apitos. O que for.
Desde que não seja futebol a sério.
Porque no futebol do Facebook há espaço para tudo menos para a estreia do Gelson na selecção, para os hat-tricks do Diogo Jota e do André Silva ou para o crescimento de Grimaldo. É outro futebol. Outro desporto.
Há coisas que nem o golo do Eder consegue mudar."

Guardiola, partidário radical da nossa causa

"O processo está em andamento, imparável. O mundo junta-se a esta causa, as Chuteiras Pretas sacodem a poeira, são engraxadas e voltam a brilhar.
Não há coincidências. Depois de dois números desta rubrica, Pep Guardiola percebeu que não está sozinho. Idealista, sonhador, quiçá o derradeiro moicano do futebol romantizado, o espanhol terá lido o espaço Chuteiras Petras e ganho coragem para tomar uma decisão drástica. E definitiva.
A partir de agora, sentenciou Pep, nenhum jogador das camadas jovens do Manchester City está autorizado a calçar botas coloridas.
O mantra imposto pelo mais fiel seguidor de Johan Cruijff é simples e encontra eco neste cantinho do Maisfutebol: na busca pela excelência desportiva, os jovens executantes devem concentrar-se no futebol e banir todos os adereços potencialmente desviantes.
A notícia foi publicada pelo Manchester Evening News, jornal de forte influência na região, e acolhida com agrado de forma unânime. Para onde Pep vai, vão também as suas ideias. De jogo, naturalmente, mas não só.
Guardiola tem o condão de acreditar no que defende. E de passar com clareza as suas mensagens ao grupo que comanda. Isso é particularmente evidente nesta transição de Munique para Manchester.
Em poucas semanas, o treinador espanhol tinha absoluto controlo sobre o comportamento da equipa. Um ventríloquo, um mestre na arte de manusear marionetas. O que Pep decide, a equipa faz.
Ser um bom treinador é isto. Acreditar num código, levar o plantel a agarrar essas ideias e a partir daí manuseá-lo com arte e rigor. Se nesse código estiver previsto um futebol atraente, ainda melhor.
E, sim, é muito mais difícil trabalhar uma equipa para ser forte na posse de bola, no passe curto, na movimentação constante, do que organizar 11 homens competentes no processo defensivo e nas saídas rápidas para o ataque. Isso até uma boa equipa dos distritais consegue ensaiar em dois treinos semanais.
Pep Guardiola, o melhor treinador do mundo, gosta de Chuteiras Pretas e percebe tudo o que isso significa dentro do complexo laboratório que é um clube profissional de futebol.
É infalível? Felizmente, a modalidade não contempla essa palavra.

PS: Pedrinho (Paços Ferreira), um soldado de botas pretas De duas em duas semanas, este espaço destacará um futebolista profissional que resista ao avanço do mau gosto na escolha das chuteiras. 
Depois de Rafael Assis (D. Chaves), hoje é a vez de elogiar Pedrinho, talentoso médio contratado pelo Paços Ferreira ao Freamunde. Aí está ele, de Chuteiras Pretas na imagem que se segue, descoberto por dois jornalistas do Maisfutebol (Sara Marques e Adérito Esteves) em diferentes estádios da nossa Liga.
Parabéns, Pedrinho!"

Guardiola proíbe internet no Manchester City

"No início desta semana surgiu uma notícia, no mínimo, curiosa, na imprensa internacional. Pep Guardiola, com o intuito de reforçar a comunicação "frente-a-frente" e o espírito de equipa, lançou um conjunto de medidas para promover maior aproximação entre os seus atletas e, para isso, solicitou que em determinadas áreas específicas do clube fosse bloqueado o acesso à internet.
Na realidade, se pararmos um pouco para analisar, a actual população de atletas pertence àquilo que alguns autores (ex: Strauss & Hove, 2000) designam como Geração Milénio. A maioria dos investigadores e demógrafos, identifica esta geração a partir do ano de nascimento de 1980 até 2000 e, por esta razão, uma elevadíssima percentagem dos grandes nomes do desporto, pertencem efectivamente a esta geração.
Sabendo antecipadamente que o desenvolvimento de um atleta não ocorre da mesma forma que um individuo não atleta - muitos autores consideram os atletas mais evoluídos do ponto de vista de competências como resistência à frustração, motivação, capacidade de sacrifício, tomada de decisão, entre outras... Contudo, inversamente menos hábeis em competências sociais ou maturidade emocional - ainda assim, naturalmente que, estando expostos aos mesmos estímulos que outros indivíduos também nascidos dentro desta "geração milénio", acabam por partilhar com eles muitas características.
A propósito deste artigo, iremos debruçar-nos apenas sobre alguns traços desta "geração milénio".
Na realidade, estamos perante uma geração que, comparativamente a todas as outras, mais acesso teve à educação (algo que facilmente se observa quando se anda no terreno, pois enquanto que há mais ou menos 20 anos, e a título de mero exemplo, um atleta no seu último ano de juniores em futebol, se tivesse o 9.º ano de escolaridade seria já um caso de sucesso - hoje em dia, estão muitas vezes a acabar o 12.º ano e a entrar para a Universidade), logo, é mais diferenciada cognitivamente e que, tendo nascido na “era digital”, é claramente mais evoluída em termos tecnológicos, fundamentando, muitas vezes, as suas relações, com recurso a este tipo de ferramentas.
Facebook, Instagram e outros acabam por substituir as histórias que se contam horas a fio numa mesa de café... Messenger, Whatsapp e outros substituem um telefonema ou um encontro pontual para “saber das novidades”.
São, por isso, a geração mais digitalmente conectada mas, curiosamente, também a que se encontra, muitas vezes, emocionalmente menos habilitada e mais isolada.
Ferramentas digitais criam uma “realidade virtual” de que temos muitos “amigos”/conhecidos mas, lentamente (e naturalmente) vão delapidando a nossa confiança em saber estar com o outro e em criar relações de entre-ajuda, cooperação e confiança no outro e, mais grave ainda, vão comprometendo, acima de tudo, a nossa capacidade de Empatizar, atendendo a que as relações se vão estabelecendo com um “espelho” que é um qualquer “ecrã” e não o rosto de uma pessoa.
Ou seja, QI (inteligência cognitiva) a subir e QE (inteligência emocional) a descer!
É que, numa qualquer interação desagradável... o recurso ao “delete” ou ao “unfriend” ou ao “block” resolve o assunto muito mais rapidamente... do que ter que “levar” com um humano que teima em contra-argumentar e só se vai embora quando bem lhe apetecer!
Mas sim, nem tudo é mau e a era digital e as ferramentas em questão Se Bem Utilizadas (e sim, há muitas pessoas que o sabem fazer), podem ser uma fortíssima alavanca de crescimento e diferenciação. O problema reside em que, na maioria das situações, esta não é a realidade e, muito frequentemente, as pessoas acabam por ficar “reféns” da sua “vida digital”.
Mas voltemos ao Guardiola (sim, porque teríamos muito por onde ir, a partir deste tema): afinal, o que pretende este treinador?
É curioso que, num dos relatos acerca deste tema, um dos entrevistados (claramente admirador dos métodos deste treinador) refere-se a uma das estratégias dizendo: “Ele Força-nos a Tomar o Pequeno Almoço e a Almoçar Juntos no clube".
Não, na realidade ele não “força”... da mesma forma que não “pune” ao retirar o acesso à internet em determinadas zonas do centro de estágio.
Na realidade, ele Cria Condições de Treino, para que os Skills que sente que estejam em Défice possam ser trabalhados, elevando-os para um patamar diferente.
O que este treinador faz é, questionando a “ordem natural das coisas” que tem à sua volta, jogar com todos os elementos para fazer o seu grupo melhorar em termos da qualidade das interacções interpessoais e da própria dinâmica de grupo (e, consequentemente, em termos de desempenho!).
É uma realidade: o contexto “lá fora” treina os nossos atletas (ou, já agora, os seus colaboradores... ou, os seus filhos...) num conjunto de skills cognitivos muito importantes. Por isso, fica aqui o seu desafio da semana:
“Aí dentro” (do clube, da empresa, da sua família), o que pode fazer para, à semelhança de Guardiola, potenciar os skills socio-emocionais dos demais?"

Benfiquismo (CCXLVIII)

Vale Vermelho...

Adroher on fire !!!

Riba d'Ave 4 - 8 Benfica

Vitória, apesar dos 4 golos sofridos... num jogo muito atípico, onde o Benfica marcou todas as 'bolas paradas', e o nosso adversário falhou 'todas'!!!!!!! Era bom que fosse sempre assim...!!!
O jogo não teve transmissão televisiva, mas a tal questão dos 4 golos sofridos, não me deixa descansado...

Agora concentração na 2.ª mão da Continental com o Barcelos... e apesar do golo de desvantagem, o segredo para a vitória, está na 'defesa'!!!

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Normal...

Benfica 85 - 64 Guimarães
23-14, 19-10, 24-22, 19-18

Regresso normal às vitórias...
Este campeonato vai ser muito desequilibrado, talvez a Oliveirense, o CAB, o Galitos ou o Lusitânia, possam fazer uma ou outra surpresa, mas os 'finalistas' estão encontrados!!!

Entrada com goleada...

Benfica 7 - 1 Azeméis

Elisandro a fazer a diferença logo deste início, mas quando o Bebé 'frangou' (agora até tem graça...!!!), o Benfica 'tremeu' um pouco, permitindo alguns ataques perigosos aos adversários... Mas com o 3-1 antes do intervalo, tudo ficou mais calmo...
Mas o jogo ainda não estava 'fechado', só o 4.º golo a meio da segunda parte 'encerrou' a contenda!!!

Ainda existe muito que melhorar, o entrosamento do Elisandro com os jogadores que estiveram no Mundial, ainda não está no patamar ideal... Mas a equipa já joga claramente para o Pivot brasileiro.
Aliás, um dos factores decisivos da época, será a capacidade dos jogadores adaptarem-se à presença do Elisandro em campo; no no banco; temos que variar, com eficácia, entre jogar em 3:1 ou em 4:0...

Quando recomeça a Liga?

"A UEFA põe e dispõe. Em tudo. Ou quase tudo. Mas, agora é dos calendários que falo. São as datas do defeso do Verão, do defeso pós Pai Natal (e entre as duas, o permanente desassossego que lemos sobre este ou aquele jogador), das semanas de interrupção das competições nacionais, das horas de início de jogos, estranhas ou sujeitas a publicidade compulsiva, como, por exemplo, na Liga Europa, onde se começa 5 minutos depois da hora certa (20 horas).
Desta vez parou-se, para se disputarem partidas de apuramento para o Mundial da Rússia. A nós, depois de um jogo de preparação decisivo contra a poderosa equipa gibraltina, calham-nos dois desafios para igualar ou ultrapassar recordes e conhecer terras distantes. Os andorrenhos, coitados, acabaram com 9 atletas e nós acabámos a ver quantos golos falhávamos, para além dos 6 marcados. As Ilhas Féroe (ou Faroé), pertencestes ao reino da Dinamarca, com 50.000 habitantes lá tentaram, sem êxito, fazer das tripas (do atum e baleia que por lá abundam) coração de vikings de segunda categoria. Tudo muito excitante.
Em particular, os 3 grandes de Portugal fornecem jogadores em jeito de Nações Unidas em viagens de circum-navegação. Quanto ao meu clube, a única preocupação é saber se não vêm directamente para a enfermaria.
Como se não bastasse, vai haver, entrementes, uma não menos emocionante eliminatória da Taça de Portugal, já com os clubes da 1.ª divisão, mas só a jogar com equipas de escalões abaixo (ainda que sempre nos campos destes, o que, como nova regra, é de aplaudir).
Se a memória não me atraiçoa, depois parece que recomeça o campeonato."

Bagão Félix, in A Bola

Os Donos da Bola mataram a bola (ou porque odiamos as segundas-feiras)

"Aconteceu ontem à noite:
O comentador disse que tinha provas do que tinha dito na semana passada – e estava ali para apresentá-las, doesse a quem doesse, em nome da verdade, etcetera. “Não tenho medo”, garantiu ele à jornalista, que atravessou o corredor da TV onde trabalha para perguntar ao outro comentador o que achava ele daquilo tudo.
No caminho, a jornalista falou da “tensão no ar”, que era muita e quase tangível, ao ponto de a estação se ter visto obrigada a pôr os homens em salas opostas em nome da segurança - não fossem eles pegarem-se, subentenda-se.
“Estou aqui, calmo, à espera do que ele tem para me mostrar”, respondeu à repórter.
Um chama-se André Ventura, o outro é Paulo Andrade.
O primeiro tinha para mostrar ao país do futebol e dos portugueses, enfim, ao mundo em geral, que há uma claque que tem por hábito interferir nas AG de um certo e determinado clube. E o segundo iria perguntar ao primeiro porque raio falava ele dos outros clubes (e não do dele), e que isso enquadrava uma clara desobediência às recomendações do seu próprio presidente.
Rame-rame e lenga-lenga entrecortada com dotes de oratória e truques de argumentação, como o de responder com uma pergunta. O acusado passa a acusador.
O que interessava na CMTV fabricar um acontecimento, empolando o áudio do prestador de provas do Benfica e os argumentos do sócio que não fora à AG do Sporting porque um familiar seu fizera anos.
O canal deu tudo - e não desiludiu.
Mas não foi o único.
Noutro lado, à mesma hora, na TVi24, José de Pina tapou a cara com um tecido branco, porque Vieira tinha amordaçado os comentadores do Benfica – e todos sabemos que Pedro Guerra é um deles. Mas Pina, adepto do humor físico, também pôs um boneco do pinóquio à frente do portátil e, sempre que lhe cheirava a mentira, fez soar um alerta igual ao que se ouve quando o concorrente dá uma resposta errada nos concursos da TV. Chamou-lhe simplesmente “Alerta Pinóquio.”
E Pedro Guerra chegou a falar dos pais de Pina (que não o tinham educado para aquilo), do “mentiroso” Bruno de Carvalho, e do bom nome do Benfica. De Manuel Serrão, pouco, porque o que está a dar é o Pina e o Guerra.
Também à mesma hora, na SIC Notícias, discutiu-se o Facebook do Sporting, a candidatura de Vieira e a lealdade dos comentadores a Vieira, a comunicação dos clubes, e por aí fora. Um bocadinho mais sóbrio do que os outros, talvez pela natureza dos próprios intervenientes, mas com os mesmos conteúdos, como se não houvesse outros sobre que falar.
Mas havia.
Portugal tinha vencido as Ilhas Faroé por 6-0, André Silva marcara três, João Cancelo chegara ao terceiro em três jogos, Ronaldo abichara mais um recorde, Gelson partira dois pares de rins e até João Moutinho fizera um golo-de-fino-recorte-técnico, como diziam os antigos. E é a esses tempos antigos que podíamos voltar, a lugares saudáveis e higiénicos como o Domingo Desportivo, que nos ensinou a gostar de bola. Deixámos de gostar dela, salvo erro, quando apareceu o programa Os Donos da Bola.
Hoje, quando lhe perguntarem porque odeia as segundas-feiras, responda-lhes que não se aprende nada à segunda-feira."

Benfiquismo (CCXLVII)

O trio maravilha...!!!

PS: Sim, a Taça do 'meio', também é oficial:

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Grande líder ou talvez não

"O problema de BdC é ver aproximar-se o quadro eleitoral sem conquista desportiva relevante para apresentar ao fim de quatro anos de mandato.

O 'jogo falado' não é um factor de perturbação do jogo jogado. Pelo contrário, contribui para a valorização do espectáculo, através da análise, do comentário e do debate. Foi assim no passado, é assim no presente e será assim no futuro. As dúvidas que se têm levantado dirigem-se mais ao estilo do discurso e à linguagem utilizada, talvez resultado de inovadoras e agressivas estratégias de comunicação, admite-se que eficazes e com objectivos precisos, embora difíceis de avaliar para o cidadão comum. Além de, nesta conflitualidade clubista, pairar o perigo do mau recurso às redes sociais, transformando-as em vazadouro de insultos, ódios e invejas, uma prática condenável, mas respaldada no anonimato e em páginas ditas oficiais que ora deixam de o ser, ora aparecem, ora desaparecem.
O problema não reside, pois, no futebol, mas sim nas pessoas e nas atitudes que elas tomam, devendo acentuar-se que nenhuma mal virá ao mundo se não for ultrapassada a fronteira da razoabilidade e, sobretudo, de respeito pelo próximo como se impõe em sociedade civilizada.
Acredito ter sido em obediência a este princípio basilar que Luís Filipe Vieira não só apelou ao silêncio como pediu aos benfiquistas para falarem dos problemas do seu clube e se absterem de referâncias a outros emblemas, no caso particular o Sporting. Disse mais: «Servimos e vivemos o Benfica e não vivemos os outros. Respeitamos os outros, mas vivemos o nosso Benfica».
Em qualquer país do mundo moderno esta posição do presidente benfiquista, além de oportuna e até pedagógica, teria sido aplaudida, com o desejo de captar seguidores em outros clubes. No entanto, para mal dos nossos pecados, a reacção foi precisamente a oposta da que seria expectável, entre gente de bem: não a que grita, mas a que, embora com a liberdade de discordar, patrocina o consenso.

Em concreto, o presidente leonino não só não bateu palmas, nem tinha de bater, obviamente, como se aproveitou do apelo do homólogo benfiquista para emitir uma resposta que em nada ajuda ao desanuviamento do ambiente de tensão que se pretende eliminar. «Quando se tem uma liderança séria, se é respeitado e se trabalha com uma equipa leal e coesa não é preciso fazer apelos», disse.
Adivinhando-se que a situação não vai dar sinais de melhoria, por uma questão de personalidade do próprio líder leonino e, principalmente, por ver aproximar-se o quadro eleitoral sem nenhuma conquista desportiva relevante para apresentar ao fim de quatro anos de mandato, o mais prudente seria fazer o que pode Vieira: cada um trata de si, sem ligar ao que se passa em casa do vizinho. A sugestão é sensata e poderia funcionar como ponto de partida para um novo ciclo, de coabitação pacífica, mas o problema não se resolve quando as pessoas rejeitam o diálogo e preferem a confrontação permanente, a propósito de tudo e de nada. Aliás, ajudando as memórias mais débeis, deve recordar-se que o primeiro alvo do líder leonino foi o FC Porto e o seu presidente, ao qual chegou a referir-se de uma forma, julgo, por todos considerada reprovável. Insistiu e, não obtendo resposta, virou as baterias para o outro lado da Segunda Circular, pela razão simples de se localizar lá o elo mais forte e não a norte, como imaginou de início.

Para não subsistirem dúvidas, convém esclarecer que uma coisa é a história e a grandeza da instituição Sporting, outra, incomparavelmente diferente, a política seguida pelo seu líder, o qual terá feito promessas demasiadas sem possibilidade de as cumprir. Por outra lado, os adeptos dos grandes clubes, e não só, já aprenderem que a seguir a um colapso desportivo se inventam, geralmente, manobras de diversão para se desviar a atenção dos adeptos daquilo que não interessa a quem manda; ou será que ainda haverá alguém sem se dar conta que esta poeirada surgiu na sequência do inesperado empate em Guimarães, da forma como ocorreu, e da alteração que provocou na tabela, com o pujante Sporting, como tem sido rotulado, igual em pontos ao problemático FC Porto, a recuperar a sua identidade, e três abaixo do Benfica, que lidera, apesar da grave crise de leões que o tem prejudicado?

Mesmo sem Jonas, sem Jiménez, sem Mitrolgou e sem Rafa, que chegaram a estar incapacitados em simultâneo, desde o começo da temporada, mesmo em condições tão adversas, a verdade é que Rui Vitória não vacilou e Nuno Espírito Santo, cercado por críticas ao seu trabalho, regularmentarmente, está em segundo.
É aqui, e só aqui, que se localiza a dor de cabeça do líder leonino. Dor que não consegue controlar e para a qual só existe um remédio: ser o melhor no campo em vez de querer sê-lo fora dele. Para ser o melhor em campo se calhar tem de incomodar menos o treinador, porque considerar-se o culpado pelo resultado em Guimarães em nome de uma grande liderança pessoal, enfim, dá para sorrir... A não ser que, sendo um presidente de banco se dê o caso de não resistir à tentação de emitir palpites... Atrevimento que, garantidamente, Jorge Jesus não permitiria."

Fernando Guerra, in A Bola

Não insistam! O «Buda» não morre!

"Podem dizer que o Mário Wilson não voltará do mundo para onde partiu, mas a gente não acredita. À sua maneira foi eterno. Tranquilo, calmo, pacífico como um oceano.

Eu sei, eu sei. Dizem: morreu Mário Wilson. E a gente não acredita porque pensávamos que Mário Wilson era eterno, assim uma espécie de avô de nós todos, calmo, pacifico, tranquilo. O mundo a seus pés.
Chamaram-lhe, um doa, o Buda. Pela barriga, pela forma arrastada de falar, pela certeza de cada frase. Que frase» Mário Wilson falava sentenças, não frases. Era correcto e amigo, conselheiro e bondoso. Houve gente menor que lhe quis fazer guerras imundas e ele ficou lá no alto, sobre os insultos - uns vergonhosamente racistas, como os de José Maria Pedroto que fez sempre questão em ser seu inimigo, como se o «Velho Capitão» pudesse ter inimigos.
Um dia chegou ao Benfica, depois de ter sido treinador de uma equipa da Académica, formada por jogadores/estudantes, que tanto treinavam como andavam na incontornável farra coimbrã, e que mesmo assim foi segunda classificada do campeonato, e disse. «Aqui qualquer um se arrisca a ser campeão». Ele foi campeão. De Portugal uma só vez, maldita seja a ironia. Da vida, foi sempre campeão. Até na morte.
Todos terão uma palavra a dizer sobre Mário Wilson. Ele mexeu com toda a gente que vive do futebol e em redor do futebol nem que seja por uma frase, por um gesto, por algo que não sabemos ao certo explicar o que é mais fica cá dentro, bem no fundo, naquele lugar dos momentos eternos.
Falem de saudade, mas a saudade é pouco. O «Velho Capitão», com a sua alcunha que ressoa a livros de Robert Louis Stevenson, era único. Único na sua forma de estar, na sua forma de ser para quem o rodeava, pela forma de reagir às circunstâncias. O Benfica contou sempre com ele. Chamaram-lhe também o «Bombeiro». Estava pronto, disposto. A cada aflição de treinador que saía, Mário Wilson trazia a calma de uma serenidade intrínseca. Resolvia problemas, ouvia os outros, ia sendo ele mesmo na voragem dos dias que atropelam a simplicidade dos seres humanos.

Foi para cada um de nós cada um de si
Quando chegou a Lisboa vinha para o Sporting. Deram-lhe o lugar de Peyroteo, esse marcador faminto de golos que decidira afastar-se por falta de dinheiro, mas não era fácil tomar o lugar de uma lenda. Foi campeão, ponta-de-lança meio esquecido pelos anos que passaram entretanto, mas aquele não era, definitivamente, o seu lugar. Instalou-se em Coimbra. A Lusa Atenas era perfeita para o crescer das suas filosofias. Ganhou espaço, ganhou tempo, ganhou uma personalidade sem comparação. O «Velho Capitão» - foi assim que o conheceram. Entrava nos cafés, esses centros conimbricenses de teoria do jogo inventado pelos ingleses, e todos o respeitavam. Mário Wilson era Mário Wilson e ponto final.
A velhice trouxe-lhe uma aura que não é possível definir. Todos o víamos como um amigo, como um parente sábio, como alguém que, de uma forma ou de outra, fazia parte das nossas vidas. Dizem que ele morreu, neste dia 3 de Outubro de 2016, a poucos dias de cumprir 88 anos. Dizem, mas a gente não acredita. O «Buda» não morre! É inteiro na sua presença infinita. Tentaremos lembrá.lo e também não será possível. Cada um o lembrará à sua maneira. Por que ele foi para cada um de nós cada um de si."

Afonso de Melo, in O Benfica

Superstição com barbas

"A história dos pelos faciais que venceram o histórico rival e que se tornaram 'um óptimo talismã para os jogos decisivos'.

Foi ao balneário do Estádio da Luz que Roland Oliveira fotografou três jogadores do Sport Lisboa e Benfica no momento em que se barbeavam: Era domingo, dia 10 de Abril de 1960. O Benfica acabara de disputar a 24.ª jornada do Campeonato Nacional, frente ao Sporting. Cavém, Mário João e Neto foram os protagonistas e o momento, esse, não era o dum barbear qualquer.
Dias antes, intrigados pela 'barba (...) exageradamente crescida para um jogador da bola' que os três futebolistas apresentavam, os jornalistas questionaram: 'Doença de pele?', 'Não havia dinheiro para as lâminas'? Cavém explicou:
'É cá uma promessa. (,,,)
- E você Mário João?
- Desculpe mas não posso responder.
- Será uma questão de fé?
A sorrir retorquiu:
- Talvez...'.
Tudo começou em Viana do Castelo, após o jogo da 1.ª mão dos oitavos de final da Taça de Portugal, a 27 de Março. Foi aí que Cavém fez a barba pela última vez, dizendo que não voltaria 'a barbear-se antes de realizado o encontro com o Sporting'. Segundo explicou, 'tinha sonhado que se deixasse crescer a barba, ganhava o desafio. Os colegas imitaram-no, simplesmente'. Estava 'reunida a trindade benfiquista dos barbudos'!
Ontem, inicialmente, não gostou da ideia foi o treinador. Segundo Mário João, 'Béla Guttmann não gostava muito que os jogadores usassem barba. Mas quando lhe explicámos do que se tratava, aceitou. Era muito surpresticioso! A partir daí, passou a zelar por elas', E recorda ainda: 'A barba incomodava-me a dormir por isso, um dia, depois de um treino, decidi fazê-la. Béla Guttmann, ao ver-me de lâmina na mão, começou aos gritos e proibiu-me terminantemente'.
Eis que chegou o tão ansiado Benfica-Sporting. 'De automóveis, de autocarro, de eléctrico, de bicicleta, a pé...', quarenta mil pessoas rumaram ao Estádio da Luz para assistir ao dérbi. No final, a vitória foi 'encarnada' e 'abraçados (os três jogadores) exclamavam:
« -Já podemos fazer a barba!
- Deu sorte, viram?»'
A superstição de Cavém revelou-se auspiciosa e as suas barbas 'passaram a ser um óptimo talismã para os jogos decisivos'. De face barbada venceu o Barcelona e o Real Madrid e tornou-se bicampeão europeu.
Até 15 de Outubro, pode ver esta e outras fotografias na exposição Ronald Oliveira, na Rua do Jardim do Regedor, em Lisboa."

Mafalda Esturrenho, in O Benfica

Benfiquismo (CCXLVI)

Começa esta semana a caminhada para o Jamor...
Inauguração 1944