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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Não ganhar não é não ter sucesso


"Não custa simpatizar com Emmanouíl Karalis. Sorriso fácil de reclame a dentífrico e feições quadradas em cima de musculatura esculpida, tem o físico a juntar ao afável feitio. Ele extasiou-se em Lausanne, na Suíça, ao pular do grosso colchão que lhe amparou a aterragem após superar 6,16 metros de altura da trave: pôs-se de pé no tartã, saltou para esmurrar o ar, depois agachou-se, curvado sobre os punhos fechados e perdido de alegria enquanto era aplaudido pelo público.
Acabava de domar a altura que apenas três homens na história lograram no salto com vara, uma das disciplinas mais técnicas do atletismo, de longe das mais árduas de tão contra-natura. Os 6,16m nem eram novidade para o grego: ficaram a um centímetro da sua melhor marca, os 6,17m a que já se catapultou com uma vara de fibra de vidro ou de carbono, pesada em três quilos, comprida à volta de cinco metros, depois de nela pegar de uma forma longe de ser intuitiva para um leigo e com ela correr o mais rápido possível. Por mais incríveis que foram as façanhas, ambas deixaram o filho de um decatleta, e de uma mãe outrora especialista no salto em comprimento, no mesmo lugar — em segundo.
Dentro da fortuna de ser um dos melhores de sempre no salto com vara calhou a Karalis, alcunhado de ‘Manolo’, também ser desafortunado por coincidir com Armand Duplantis. O sueco a quem os papás, nos Estados Unidos, montaram uma pista no quintal das traseiras para ele de pequenino lhe pegar o gosto é, aos 26 anos, a incontestável estrela polar da modalidade: já bateu 15 vezes o recorde do mundo, 14 das quais depois de o próprio o fixar, é bicampeão olímpico, hexacampeão mundial e tetracampeão europeu, puxando a bitola da modalidade (para já) até aos 6,31 metros. Nos últimos três anos apenas perdeu uma das 42 competições onde entrou.
Na sexta-feira, com o Lago Genebra no enquadramento, Karalis sorriu e saltou e celebrou ao acrescentar 10 centímetros à anterior melhor marca que não chegou para ganhar o ouro na prova da Liga Diamante, o equivalente à Champions do atletismo — foi a primeira vez na história que dois homens saltaram, pelo menos, 6,10 metros na mesma prova.
Terminou atrás de Duplantis, igual ao que aconteceu no domingo, noutra prova da mesma espécie na Silésia, Polónia, onde também abraçou o sueco e com ele cavacou ao ficar aquém dos suas rebeldias contra a gravidade, incapaz aí de ir além dos 6 metros enquanto viu o sueco tentar superar, sem o conseguir, uns inauditos 6,32 metros. Tratou-se da repetição de uma película estreada em 2020, quando o atleta se estreou a desfeitear o recorde e desde então que o vai quebrando um centímetro de cada vez.
Espero que não, e creio que não, mas não terá havido na Grécia quem tenha escrito que Karalis “falhou” o ouro por não sei quantos centímetros, sendo o grego o antónimo em pessoa do que possa constituir falhar. Ele não alcançou os 6,15m, os 6,21m e os 6,20m, alturas com que um imbatível Duplantis venceu este mês os Europeus de atletismo e depois, assim de chofre, duas etapas seguidas da Liga Diamante. O grego ficou três vezes no segundo lugar em coisa de 10 dias.
Com a mesma idade, crescidos a competir juntos, é sequer possível Karalis ser identificado como o tipo que falha e guardar Duplantis como o bem-sucedido?
Infelizmente é. Vemo-lo em cadência frequente, ainda a semana passada dois tenistas portugueses perderam nos ‘oitavos’ de um Masters de ténis pela primeira vez e ambos “falharam”, como se leu; há uma quinzena houve atletas e nadadores nacionais a não se apurarem para a final, ou a ‘meia’, dos respetivos Europeus e lá surgiu o carimbo do “falhou” por centímetros ou centésimos de segundo. Parecemos viciados em arranjar ‘falhistas’ no desporto onde ínfimos são os que tentam e chegam a profissionais, ainda mais aqueles que agarram medalhas - só há três - em provas internacionais.
E eles sentem-no. Jamais me esquecerei como, há uns anos, o treinador de um atleta olímpico português se queixou ao meu ouvido de que tal tratamento simplório era do mais injusto que há. Porque a piorar essa psique estamos nós, os jornalistas, sempre com pressa ou com alguém a apressar-nos para sermos rápidos, tão urgidos pela rapidez que não sobra tempo para ter presente que um atleta “falhar” o acesso a qualquer coisa é um exercício preguiçoso. Ao serem descritas com esse verbo as margens por vezes microscópicas — por alguma razão existe o photo-finish —, apresenta-se a quem talvez liga patavina à modalidade em questão, e ouve falar dela pela primeira vez em anos, a ideia de insucesso, de ser alguém que ficou aquém.
Atribuir o incumprimento a pessoas que acordam todos os dias para se esfolarem a treinar, a quem anos de dedicação monástica nas sombras muitas vezes se resumem aos poucos minutos em que surgem na televisão a competir num país futebolcêntrico, no caso de Portugal, cujos hábitos de consumo polinizam o trato que se dá a outras formas de desporto: parece que a única forma de sucesso que se aceita é ganhar a toda a gente e ser campeão.
‘Manolo’ Karalis é o segundo melhor saltador com vara da história da humanidade e parte da sua carreira resume-se a ser isso, o segundo, o tipo que vem a seguir a quem ganha. Porque lhe calhou ser contemporâneo de ‘Mondo’ Duplantis, um daqueles atletas que provam como existe vida além da Terra. Não é por ficar atrás dele que o grego não tem sucesso."

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