Últimas indefectivações

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Conti & o 5.º dia em Inglaterra...

Boas-vindas...!!!

Emails e notícias falsas e arguido verdadeiro

"A Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD esclarece que os diversos emails divulgados pela notícia do site da revista Sábado, com base em alegados emails publicados no blogue clandestino “Mercado de Benfica”, são falsos no conteúdo e nos endereços referidos.
Como tal, proporemos os competentes procedimentos regulatórios e judiciais, nos locais próprios e no momento certo. É absolutamente inaceitável e estranho que se presuma como verdadeiro material divulgado por um blogue com um vasto curriculum de práticas ilegais e de diversos crimes.
Tal conduta, aliás, conforma violação dos mais elementares princípios da ética jornalística, como colide com a recente deliberação da Entidade Reguladora da Comunicação Social no processo n.º 2018/112, de 14 de Junho de 2018.
Acresce ainda que a notícia dada, referindo-se a suposta correspondência privada, careceria de consentimento prévio no âmbito do novo regulamento geral de protecção de dados, circunstância só por si violadora do referido regulamento e susceptível de ser objecto de competente acção indemnizatória.
No dia em que se ficou a conhecer publicamente a constituição como arguido do director de comunicação do FCP no âmbito da queixa apresentada pelo SLB contra o crime de violação e divulgação ilícita de alegada correspondência privada do nosso Clube, estas desesperadas tentativas de lançar emails falsos e notícias falsas só demonstram que a justiça está a fazer o seu caminho e a seu tempo a produção de conteúdos falsos será devidamente responsabilizada e punida."

Na bola com mulheres bonitas

""Falamos de forma individual com todas as operadoras para que deixem de focar nas raparigas que podem ser consideradas atraentes. É trazer uma carga sexista desnecessária ao futebol". O pedido mais idiota do fenómeno desportivo universal foi feito assim, pelo dirigente da FIFA Federico Addiechi. Se há certeza dos nossos tempos é que a imaginação delirante do "politicamente correto" consegue ser estupidamente infinita, mesmo na crença estranha de um mundo virtualmente assético e assexuado. E se o jogo for de futebol feminino?
E se se der o caso de as jogadoras, a começar, serem realmente bonitas? Não sendo olhar pecado - por este caminho, já não é certeza -, será que o italiano responsável pelo programa de diversidade da FIFA reparou alguma vez na sueca Josefine Oqvist, na brasileira Laisa Andrioli, na australiana Ellyse Perry, na americana Hope Solo ou na francesa Corine Franco, só para ter em conta alguns, poucos, exemplos ? Fazer o quê? Filmar poucochinho em campo, para que não se notem? E depois o quê? Não focar entre os adeptos os feios, os negros, os brancos, os amarelos, os coxos? É que onde acaba o sexismo também pode haver quem ache que começa a discriminação.
Dito isto, lá em Zurique, na sede da FIFA, não terão mesmo nada melhor com que se entreter? É que assim de repente, antes do pecado da beleza, expurgada das bancadas para uma espécie de "buraco negro" das teleobjetivas, há certamente outros assuntos que beneficiariam muito do zelo crítico e censório da FIFA. A tendência para uma certa prodigalidade nos gastos, os representantes corrompidos por causa das escolhas para a realização de campeonatos, os processos judiciais e detenções por fraude, extorsão e lavagem de dinheiro, o pagamento de 71 milhões de euros durante cinco anos a Joseph Blatter, Jerôme Valcke e Markus Kattner, até as campanhas descaradas de Michel Platini - inabilitado depois de receber de Blatter dois milhões de francos suíços - contra Cristiano Ronaldo, escolhido várias vezes com toda a justiça melhor jogador do Mundo, a contragosto do francês. Grande Cristiano...
Já agora, conviria que a FIFA se recordasse que durante muito tempo a atenção prestada às mulheres ajudou precisamente a mostrar que o futebol não é um desporto de homens apenas. Num estádio de futebol cabem todos. E na verdade, nas alegrias do fenómeno desportivo, todas as pessoas são bonitas. Deixem-nas lá em paz."

A força de Thomas e uma tirania com enredo

"Um ciclista formado na pista a ganhar no alto do Alpe d'Huez, ao cabo de uma etapa duríssima com três subidas de categoría especial e no derradeiro dia de um tríptico de etapas nos Alpes, parece uma contradição. Se lhe juntarmos que foi uma chegada ao sprint com cinco corredores, é mesmo para torcer o nariz. Porém, mais do que traduzir um ritmo lento, esse dado dá conta da força da Sky, que tudo controla e abafa.
Wiggins também veio da pista (e a ela voltou) e ganhou um Tour, mas sem esta exibição de poder do corpulento galês Geraint Thomas, pela segunda jornada consecutiva a impor-se a mais de 1800 metros de altitude. Milagres vindos da Sky (!?), que deu ontem a imagem de quem é o verdadeiro líder da equipa quando Bernal abandonou a cabeça do grupo do camisola amarela e foi este, Thomas, quem deu a cara ao vento em perseguição do escapado Kruijswijk e em defesa do chefe, pois claro, Froome.
Se Dumoulin mostrou, mais uma vez, ser o único capaz de aguentar (e desafiar) o andamento dos dois Sky, talvez a verdadeira notícia do dia tenha sido o momento de menor fulgor - que é diferente de fraqueza - de Froome, quando atacou mas não conseguiu mais do que alguns metros de avanço e depressa foi alcançado. Vã glória para o holandês Dumoulin, no entanto, já que agora há três dias para descansar antes da aproximação aos Pirenéus.
Thomas lidera com uma vantagem razoável e está em melhor forma do que Froome. E se o próprio amarela questiona a sua capacidade numa prova de três semanas, também o desgaste que teve o Giro em Froome e Dumoulin poderá ser ainda chamado à conversa. Mas para isso será preciso esperar mais uma semana e rezar para que o Tour não se limite a um espectáculo de voyeurismo em que meio mundo torce para um desfalecimento em directo da equipa mais forte. Haja quem seja capaz de a encostar às cordas, a bem do ciclismo e do espectáculo.
As tiranias no pelotão não são de agora. O "canibalismo" sobre rodas tem décadas - leia-se Merckx ou, mais recentemente, Armstrong (e por este nome se percebe, talvez, uma certa antipatia gerada pela Sky). Este mesmo Alpe d'Huez, em 1986, foi palco de uma das maiores demonstrações de insolência e superioridade por parte de uma equipa, a La Vie Claire, patrocinada por Bernard Tapie, que viu os dois líderes, Hinault, vencedor do Tour pela quinta vez no ano anterior, e Lemond, de amarelo e que venceria o seu primeiro de três, cortarem a meta de mãos dadas na frente. Só que ao contrário de agora, em que nada parece abalar a rigidez programática da equipa britânica, essa foi uma chegada com história e nunca devidamente esclarecida. Nessa etapa, Hinault atacou e seria depois alcançado por Lemond nas 21 curvas da subida; no final, disse ter sido para eliminar a concorrência e retribuir a ajuda do norte-americano no ano anterior, mas tratando-se do indomável bretão, apetece mesmo acreditar que se tratou de um golpe de teatro falhado..."

Alvorada... do Valdemar

Benfiquismo (DCCCXCIII)

King e o seu ídolo!

Lanças... Regresso ao lamaçal

Contas... Dúvidas... Empréstimo Obrigacionista, Transferências...

Pontapé de Canto... Rescaldo do Mundial

Ataques de fisga contra o couraçado

"Houve um tempo no ciclismo em que os grandes sabiam ser magnânimos, permitindo que pequenos pudessem festejar vitórias de etapa se isso não se intrometesse no grande objectivo da vitória final. Se tivesse corrido nesse tempo, certamente Mikel Nieve não teria deixado a imagem de desalento que ficou da chegada de hoje a La Rosière, a primeira realmente em alto deste Tour. A 300 metros da meta, Nieve foi ultrapassado por Geraint Thomas e, logo depois, por Froome e Dumoulin, altura em que nem esboçou uma tentativa de resistência. A guerra pela geral vitimou o escalador espanhol, frustrado após um dia em fuga e a quem só faltaram 300 metros para saborear os seus 15 segundos de glória.
Neste tempo, no entanto, vive-se sob uma ditadura, que fez questão de mostrar como domina o pelotão com punho de ferro na primeira oportunidade. A Sky ganha mas não de uma forma qualquer: tem especial prazer em esmagar a concorrência, que, pelo menos por enquanto, pouco mais pode fazer do que apostar em tácticas de guerrilha para tentar detectar pontos fracos naquele rolo compressor. Foi o que fez a Movistar a meio da etapa, ao lançar o eterno jovem Valverde ao ataque, beneficiando da ajuda de Soler, que ia em fuga, e foi o que fez a Sunweb, quando Dumoulin atacou a descer, numa tentativa de surpreender a organização e programação da Sky.
Só que a solidez da equipa britânica, que entra na última subida com cinco elementos quando as outras formações têm apenas um ou dois, parece não ter fissuras. Dir-se-ia que chega a ser um domínio insultuoso esta forma de correr, que faz primeiro e terceiro lugar numa dura etapa nos Alpes, assumindo os dois primeiros degraus da classificação e deixando aos outros ditos candidatos o papel de pequenos David, armados de uma mera funda ou uma fisga... Amanhã, quinta-feira, chega-se ao Alpe d'Huez, depois de subir a Croix de Fer e a Madeleine. É uma espécie de "rien ne va plus" do ciclismo, ainda que pareça haver pouco a fazer para derrubar a ditadura da Sky. É claro que não foi por isso que outros, noutros tempos e lugares, deixaram de tentar!"

Belenenses em patins e patins na Corunha

"Mas não há ninguém que, com humildade e racionalidade, diga Basta a esta usurpação de história?

1. Lamentável tudo o que se vem passando em redor do futebol no Clube de Futebol Os Belenenses (CFB), um dos clubes com maior tradição e significado no panorama desportivo nacional. Creio que, no fim, só haverá vencidos. Desde logo, o próprio vencidos. Desde logo, o próprio clube. Mas também aqueles que protagonizam o cisma. Não me interessa de que lado está ou não está a razão, se é que está de algum dos lados. Não tenho suficiente conhecimento do que se terá vindo a passar no olho do furacão que avassalou os azuis de Lisboa, mas é razoável pensar-se que seria obrigação dos contendores preservarem, acima de tudo, a história e a vida do clube que está para além de todas as vicissitudes pessoais e institucionais.
Bem vistas as cosias, é no que dá uma legislação permissiva e aligeirada feita para uma realidade que já não é a de hoje. O risco de fragmentar irreversivelmente a ideia do clube-coração e a do clube-capital está aí neste tempo onde qualquer entidade ou pessoa pretensamente endinheirada se pode intrometer, não raro, invocando razões reais ou forjadas de sobrevivência de um clube falido ou endividado até ao pescoço. A partir daí, só o dever de bom-senso pode contribuir para que a unidade clube/SAD não se destrua, sabendo nós que a sensatez e o sentido estratégico são bens cada vez mais escassos.
Hoje é com Os Belenenses. Amanhã será com outros. Bem sei que há um certo vento de inevitabilidade no reforço da lógica capitalista, pela qual os donos-sócios de um clube são substituídos por um dono de capital. Lá fora isso espalha-se virulentamente com clubes importantes possuídos por árabes, russos, asiáticos endinheirados e, muitas vezes, fazendo dos clubes adquiridos verdadeiras lavandarias de dinheiro sujo. O futebol de há muito que deixou de ser um simples desporto competitivo para se tornar numa indústria pesada, onde muitos poucos ganham quase tudo e todos os outros vivem na ilusão do que jamais alcançam. As organizações que tutelam o futebol, desde as poderosas FIFA e UEFA às agremiações paroquiais fingem ignorar o que, mais tarde ou mais cedo, vai implodir e, pelos vistos, dão-se bem com as golpadas e truques financeiros de instituições desportivas transformadas em dissimulados offshores de diversas naturezas e (des)ordem.
Aqui, no nosso cantinho à beira-mar plantado, ainda estamos no dealbar destas aquisições que começaram por surgir em clubes modestos, agora nas mãos de pequenos e disfarçados abutres. O Atlético Clube de Portugal, um clube com tradição na cidade de Lisboa, já provou o fel desta tendência.
Voltando ao CFB, assistimos a um divórcio que seria apenas burlesco, não fosse a magnitude das suas consequências. O Belenenses SAD na Primeira Divisão irá, em transumância, para o Estádio Nacional. O Clube de Futebol Os Belenenses vai iniciar a sua caminhada partindo da última divisão distrital da AF de Lisboa, e jogando no seu lindo Estádio do Restelo. O primeiro campo, provavelmente às moscas, a não ser nos jogos com os grandes como se estes jogassem em casa. O segundo, com os resistentes belenenses de coração e assistir aos iniciáticos futebolistas num estádio só com despesa e sem receita. O emblema da Cruz de Cristo, algures disperso entre Belém e o Jamor, ou como agora se diz a marca, avocada em regime de bigamia. Até agora, um silêncio insuportável da Federação e da Liga de futebol, mais preocupados com passagem entre os pingos da chuva. E, assim, se vai dissolvendo um clube que já foi grande desportivamente, que nunca havido deixado de ser grande no coração de muitas gerações de portugueses aqui e na diáspora, e que arrisca passar a ser irrelevante no próximo futuro.
Mas não haverá ninguém que, com humildade e racionalidade, diga Basta a esta usurpação da história de uma instituição como é o CFB e se revolte contra uma aparente inacção ou apatia de quem tem deveres inalienáveis para com o clube?
O futebol português não são só os três grandes, o Ronaldo, a selecção e os programas televisivos sobre árbitros, transferências e patetices. É muito mais do que isso que importa considerar, sob pena de um dia o tsunami se voltar contra a ilusão da efemeridade do pequeno círculo de vedetas, vedetismo e celebridades.

2. Está a decorrer esta semana mais um Europeu de hóquei em patins com 11 selecções. Portugal defende o titulo de há dois anos e procura alcançar uma conquista internacional fora do país, o que já não acontece desde 1993 no Mundial de Itália e desde 1996 num Europeu também em Itália.
Pertenço a uma geração que tinha nesta modalidade o sonho e o orgulho de ser o campeão. Hoje, submergido pelo poder totalizante do futebol, o hóquei minguou no coração dos portugueses. Continuo a acompanhá-la com gosto, quer a nível nacional onde as competições têm reganhado consistência e emoção que andavam arredias, quer a nível internacional onde a Espanha tem tido agora uma grande hegemonia.
De um modo geral, deixou de haver individualidades que só por si decidiam títulos, como o nosso grande e saudoso jogador Livramento. Agora é tudo mais programado colectivamente, o que talvez tenha tornado este desporto menos espectacular. Ainda hoje recordo, com saudade, o campeoníssimo Portugal de Moreira, Vaz Guedes, Adrião, Velasco e Bouços. E os históricos confrontos com os espanhóis Zabalia, Orpinelli, Boronat e Puigbó, os italianos Panagini e Gelmini e até os irmãos suíços Monney. E sinto a falta de equipas adormecidas pela erosão do tempo, como o CACO de Campo de Ourique, o Hóquei de Sintra, o Infante de Sagres ou a CUF.
Neste Europeu, certamente acontecerá o costume: a seriação das selecções em 3 níveis estanques (Portugal, Espanha e vá lá a Itália, as 3 ou 4 do meio e as que fazem apenas turismo desportivo), onde as primeiras jornadas são só para aquecer. Ressalva-se o regresso da Holanda e Bélgica (embora esta num nível indigente) e a teimosia de Andorra e Áustria. As constantes mudanças de regras de jogo também em nada têm contribuído para reabilitar esta belíssima modalidade.

3. Entre futebol mundial e hóquei europeu, jogou-se ténis em Wimbledon, que foi - como sempre - a rainha deste desporto. Este torneio de Grand Slam é, aliás, insuperável. Jogado em relva, o que lhe dá até uma frescura e estética inigualáveis, com um respeito bem britânico pela tradição que obriga jogadores e jogadoras e equipar só com a cor branca e não com o folclore de cores e vaidades de outros torneios, e não passando das 23 horas da noite para não perturbar as pessoas que vivem porto, tem também uma particularidade que, ainda que bastante discutível, tem algo de épico, qual seja a de não haver tie break no último set com o jogo empatado. Foi assim que, numa das meias-finais, se jogou durante 6 horas e 35 minutos com um final do 5.º set de 26-24, mesmo assim ainda longe do impensável 70-68 em 2010 (partida com 11h05m). A transmissão televisiva deste torneio foi, como sempre, admirável.

Contraluz
- Escolhas: neste Mundial-2018
... não vi todos os jogos, longe disso. Mas, do que observei, elejo:
a) melhor futebol: o da Croácia;
b) melhor jogador: Luka Modric;
c) melhor guarda-redes: Courtois;
d) grande revelação: Mbappé;
e) jogo que mais me agradou (não necessariamente o melhor): Bélgica 3, Japão 2;
f) equipamento mais bonito: Inglaterra;
g) melhor golo: o 2.º do Uruguai (Cavani) contra Portugal;
h) melhor organização: a próprio do Mundial que foi imaculada e a televisão russa que superou todas as expectativas.
- Aplauso: equipamento do Benfica
... este ano respeitando integralmente as três cores inerentes do SLB: encarnado, branco e preto. Assim, além de um equipamento principal simples, sem floreados e com mais vermelho, temos um alternativo bem bonito e sem a invenção de cores que nada dizem aos adeptos, como os cinzentões ou os cafés com leite.
- Diferença: na apreciação de jogadores
... na minha opinião inexplicável. Em A Bola de 11/7, na crónica do Benfica - Napredak, Paulo Alves fala da «falta de presença de Svilar na baliza» (com seta para baixo!) quando noutra apreciação de Rui M. Melo na página seguinte, o rapaz «não precisou de fazer qualquer defesa»! Em que ficamos? Falta de presença sem defesas? Ou falta de defesas sem presença?"

Bagão Félix, in A Bola

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Vermelhão: em Terras de Sua Majestade...



Benfica 5 - 0 Swindon Town

Titulares: Varela, Ebuehi, Luisão, Lema, Yuri Ribeiro, Keaton Parks, Samaris, Alfa Semedo, Cervi, Salvio e Castillo
Entraram: Odysseas, Jardel, Conti, Grimaldo, Fejsa, Pizzi, Gedson, Rafa, Zivkovic, Ferreyra. Rúben Dias, Lisandro e Ola John 


PS: Os B's empataram com o Nacional 1-1 (os sub-23 também empatarem hoje com o Olímpico do Montijo com 1-1, golo marcado pelo Diogo Pinto)...
Titulares: Ivan Zlobin, Alex Pinto, David Zec, Ferro, Pedro Amaral, Guga, Ilija Vukotic, Tiago Dantas, Chris Willock, Ivan Saponjic e Daniel dos Anjos.
Acabaram: Fábio Duarte, Simón Ramírez, Gonçalo Loureiro, Pedro Álvaro, Nuno Tavares, Bernardo Dias, Diogo Mendes, Martin Chrien, Edi Semedo, Rodrigo Conceição e Anthony Carter.

Bigode

"1. Talvez eu não tenha sido claro na semana passada. Não rejeitava o cenário de Bruno de Carvalho e Carlos Vieira avançarem ambos para eleições (no caso de os deixarem...), mas sim a hipótese de estarem verdadeiramente de costas voltadas. Seria como separar Bud Spencer e Terence Hill (depois de tanta pancada que deram no Sporting...). Não tendo a certeza em relação à melhor estratégia, criaram duas com objectivo comum.
2. Por falar em grandes duplas, ver Elsa Judas e Bruno de Carvalho a trocarem acusações no Facebook é uma espécie de arrufo entre o Rato Mickey e a Minnie. Claro que podia ilustrar a minha ideia com outra figura animada, mas o Pateta não tem par.
3. Quem conduz um Ferrari durante muitos anos tem obrigação de não o confundir com um Fiat 500. Espero sinceramente que Ronaldo tenha a oportunidade de, pela Juventus, esfregar a Champions na cara de Florentino Pérez, pela simples razão de que não há nada que mais deteste no futebol do que presidentes (e treinadores) com egos maiores do que os verdadeiros artistas, os jogadores.
4. Dos 169 golos marcados no Mundial da Rússia, 72 foram de bola parada (42,6 por cento, quase metade, o registo mais alto de sempre com 32 selecções). A caça à bola parada é tal que um dia destes ainda vamos dizer que os lances de bola corrida fazem parte do futebol.
5. Foi também batido o recorde de penáltis (29). O último, na final, a beneficiar a França, foi uma aberração, digam o que disserem os árbitros e ex-árbitros, com todo o respeito. Perguntem a quem joga ou jogou à bola a sério.
6. William Carvalho diz que corta o bigode se ganhar a Liga Europa ou a Taça do Rei pelo Bétis. Se ele o conseguir, eu deixo crescer o bigode e ainda roubo o chapéu de chuva a Putin.
7. O Borussia estava interessado em Rafael Leão, mas esqueceu-se de avisar o Dortmund. Acontece."

Gonçalo Guimarães, in A Bola

O Mundial na era da estratégia

"Diz-se por aí que, depois das evoluções tácticas da última década, que se caracterizaram acima de tudo pelo advento da ideia de modelo de jogo (os jogadores passaram a comportar-se constantemente em função de uma ideia de jogo concreta, modelada em treino), entrámos agora na ‘era da estratégia’. A expressão visa assinalar uma mudança de paradigma: uma vez que, ao mais alto nível, já todas as equipas funcionam de acordo com um modelo trabalhado com rigor e já não há equipas desorganizadas, nas quais os jogadores se comportem como bem lhes apetece, a diferença far-se-á muitas vezes pela estratégia particular de cada jogo, sendo por isso mais competente a equipa que melhor trabalhar para contrariar o próximo adversário e, por isso, a equipa que melhor souber adaptar-se às circunstâncias específicas de cada jogo. Ter uma ideia de jogo muito bem definida, e ter os jogadores preparados para jogar de uma determinada maneira, sejam quais forem as circunstâncias, terá assim passado para segundo plano. Não deixando de ser importante, já não é aquilo que faz a diferença nesta nova era. De acordo com a doutrina da ‘era da estratégia’, aquilo que faz a diferença é a forma como a equipa se prepara para explorar as fraquezas específicas de cada adversário e a forma como tenta anular os pontos fortes desse adversário.
A principal implicação desta doutrina é a de que, para estar mais perto do sucesso, nenhuma equipa pode ser predominantemente ofensiva ou predominantemente defensiva. Se o que faz a diferença é a forma como, jogo a jogo, a equipa se adapta às circunstâncias, o sucesso estará necessariamente mais perto daquela equipa que ora se defende de adversários que gostam de assumir a iniciativa, ora ataca adversários que não se importam de cedê-la. Como não é possível optimizar duas maneiras de jogar completamente diferentes (são aliás pouquíssimas as equipas que conseguem optimizar uma única maneira de jogar), o que acontece é que as equipas que aceitam de algum modo a importância da estratégia no jogo nem são particularmente boas a defender-se de adversários predominantemente ofensivos, nem são particularmente boas a atacar adversários predominantemente defensivos. Não é aliás raro que muitas destas equipas consigam um resultado óptimo num fim-de-semana contra um adversário muito competente do ponto de vista ofensivo, o que parece validar a estratégia adoptada, e depois obtenham um péssimo resultado no fim-de-semana seguinte contra um adversário menos competente.
Estas equipas, na verdade, sempre existiram. Sempre houve quem desse mais importância à ‘estratégia’ do que a outra coisa qualquer. O que aconteceu sobretudo na última década é que, justamente pelo advento de ideia de modelo jogo, e pelo aparecimento de alguns modelos muito bem trabalhados, as equipas que faziam da ‘estratégia’ a sua única arma não tiveram grande sucesso. Com o aparecimento de várias equipas com uma ideia de jogo muito definida, com padrões de comportamento muito bem treinados, e com uma lógica de jogo concreta, aplicável a todos os desafios, as equipas que privilegiavam a adaptação às circunstâncias, que modificavam a sua maneira de jogar em função do desafio que tinham pela frente, deixaram de ter espaço para triunfar. A ‘estratégia’ é relevante, por isso, apenas quando o modelo de jogo não o é. A ideia de que, passada a era dourada dos modelos de jogo, se segue agora a era não menos reluzente da ‘estratégia’ é por isso falaciosa. Aquilo a que chamam ‘estratégia’ sempre existiu. Quando as equipas não têm ideias próprias, normalmente têm ‘estratégias’. Não se apresentam em campo para jogar o seu jogo, mas para jogar em função daquilo que, por antecipação, acreditam que vá ser o jogo do adversário. Sempre existiram equipas destas. E o sucesso destas equipas sempre foi maior quanto menos bem trabalhadas, e por isso mais dependentes da sua própria ‘estratégia’, eram as equipas adversárias. Como em qualquer jogo ou em qualquer confronto que oponha duas forças antagónicas, a estratégia tem a sua importância, mas nunca a expensas de um modelo ou de uma identidade própria.
Há um lado de verdade, no entanto, na ideia de que estamos a viver uma ‘era da estratégia’. Por razões que me escapam (posso apenas conjecturar que a importância desmedida que se dá hoje às intenções dos treinadores no que se passa dentro das quatro linhas tenha alguma coisa a ver com isso), há hoje em dia uma obsessão com a ‘estratégia’. Uma grande quantidade de treinadores considera que o sucesso da sua equipa passa em grande medida pela análise do adversário seguinte e pelo plano de jogo que decide adoptar em função dessa análise. E, convencidos de que os jogadores são marionetas que a todo o momento o marionetista espertalhão consegue manobrar a partir de fora, vão a jogo julgando que, se os jogadores fizerem o que prescrevem, a vitória não lhes escapa. O grande problema destes treinadores é não perceberem que o futebol é um jogo de circunstâncias atípicas. Ainda que consigam preparar os jogadores para três ou quatro aspectos, não os preparam para a atipicidade do próprio jogo. E ficam por isso muito mais à mercê dos imponderáveis.
O mundial de 2018 tornou evidente essa obsessão. A quantidade de equipas que abdicou literalmente da iniciativa e se resguardou num bloco baixo, muitas vezes com os onze jogadores enfiados nos últimos trinta metros, unicamente à espera de um erro em posse do adversário para sair numa transição que lhes garantisse a vantagem no marcador, foi assustadora. A ‘estratégia’, no caso destas equipas (por exemplo, Rússia, Uruguai, Irão, Portugal, França, Austrália, Islândia, Dinamarca, Suécia, Suíça, Panamá, Senegal), era óbvia: defender com muitos, para tornar mais difícil a aproximação dos adversários à baliza, e atacar apenas pela certa, para não dar ensejo a contra-ataques indesejados ou inferioridade numérica em momento defensivo. É claro que nem todas o fizeram com o mesmo compromisso e é claro que, em casos de desvantagem, algumas destas equipas adoptavam posturas diferentes. Mas a postura-padrão destas equipas foi este. Para todas elas, a iniciativa nunca foi importante. A não ser que precisassem mesmo de marcar. Se acrescentarmos a estas aquelas equipas que, em vantagem, não se incomodavam em baixar linhas e em dar a bola ao adversário, temos quase a totalidade dos participantes no mundial. À excepção da Espanha e da Alemanha (apesar de nunca abdicarem da iniciativa, nunca foram competentes a explorar a posse como noutras alturas e não foram capazes de vencer a própria soberba) e do Japão e do México (as duas melhores excepções deste campeonato), as restantes selecções não apresentaram uma identidade própria. Jogavam aquilo que o adversário deixava jogar, moldando-se consoante as necessidades: se por acaso precisavam de ir à procura de um golo, assumiam as rédeas do jogo e arriscavam um pouco mais; se não, atacavam só pela certa; e, em vantagem, assumiam que competia ao adversário impor-se e limitavam-se a esperar que o relógio andasse.
Este predomínio da ‘estratégia’ reflectiu-se de vários modos. Em primeiro lugar, na qualidade dos espectáculos. É preciso recuar a 2002 (justamente no apogeu da última ‘era da estratégia’), para encontrarmos tantos bocejos. À monotonia de grande parte dos desafios junta-se, por exemplo, a quase inexistência de momentos de génio ao longo de todo o torneio. À excepção de alguns bons golos, não se viram na Rússia grandes rasgos individuais ou combinações bem pensadas. Houve muitos momentos de vertigem, de entusiasmo junto às balizas e de superação atlética. Mas criatividade quase não se viu. E não se viu porque os criativos, inseridos numa ideia de jogo que privilegia a ‘estratégia’, foram quase sempre abandonados a si mesmos. A quantidade de grandes penalidades assinaladas e de autogolos (o maior número de sempre) também é um sintoma deste futebol das ‘estratégias’: quando se mete tanta gente atrás da linha da bola o tempo todo, quando se defende à molhada dentro da área, quando se convence os jogadores de que é boa ideia dar a vida apenas para evitar que um adversário ganhe vinte centímetros, é natural que a confusão seja maior, que as bolas divididas se sucedam, que as faltas se acumulem e que os alívios levem a direcção contrária à desejada. O enorme número de golos de bola parada, aliás, explicam-se da mesma maneira. Na ‘era da estratégia’, há menos jogo a meio-campo. Como tal, não só as zonas de pressão são mais próximas das áreas, o que faz com que naturalmente haja mais faltas nessas zonas, como o número de pontapés de canto tenderá a ser maior.
Sendo um jogo de pontuações baixas (quando comparado com outros desportos jogados com bola), o futebol é também o jogo em que os detalhes têm maior peso. Idealmente, o papel de um treinador deveria ser o de preparar a sua equipa para que esta dependesse o menos possível de todos os imponderáveis e para que os detalhes fossem o menos decisivos que pudessem ser. Além da fraca qualidade do futebol que praticam, as equipas que apostam tudo na ‘estratégia’ ficam assim também muito mais dependentes dos detalhes, de uma bola parada no último minuto, de uma mão involuntária na área, de uma abordagem deficiente a um cruzamento e que direcciona a bola para a própria baliza, etc.. E não será ‘estratégia’ também promover um futebol que procure reduzir a probabilidade de estas coisas acontecerem?
Quando se fala de ‘estratégia’, em futebol, pensa-se invariavelmente em equipas cínicas, com muito mais preocupações defensivas do que ofensivas, em equipas que sacrificam a sua maneira de jogar para se precaverem das principais armas do adversário, e em equipas que defendem com muitos e durante a maior parte do tempo, e que atacam cirurgicamente. Tendemos a achar que defender primeiro para atacar depois é ‘estratégico’ e, em contrapartida, nem sequer concebemos que atacar muito para ter de defender pouco conte como estratégia. Esta obsessão com a ‘estratégia’ não é senão cobardia. É mais fácil definir estratégias defensivas que consistam em amontoar jogadores atrás e esperar por um erro do adversário ou uma qualquer ajuda divina do que em definir estratégias ofensivas, e é mais fácil pedir aos jogadores para ficarem fechadinhos à espera do milagre das rosas do que trabalhar de modo continuado para que os jogadores saibam por si próprios o que fazer em cada situação de jogo. Na ‘era da estratégia’, os jogadores são mais tarefeiros do que artistas. Aquilo que se espera deles é que cumpram a sua missão em campo e mais nada, de modo a que a estrategiazinha do treinador supere a estrategiazinha do treinador adversário. É por isso natural que o espectáculo se ressinta. Na ‘era da estratégia’, não surpreende que o campeonato do mundo se tenha pautado pela mediocridade. Suponho que, tirando uma ou outra curiosidade, não vá deixar grandes saudades, e antevejo que muito pouco do que aconteceu na Rússia ao longo deste último mês fique na memória dos vindouros. A posteridade costuma ter o bom gosto de não dar assento a cobardes e de não convidar medíocres para jantar."

Sempre o melhor de sempre – parte V

"Esta é a 5.ª e última semana em que me debruço sobre os Mundiais de Futebol. Tenho escrito como quem faz radiografias ao torax do planeta, não para explicar uma doença, mas para explicar uma saúde. Estes campeonatos arrastam o mundo para períodos excepcionalmente saudáveis; nem ocidentalizado, nem orientalizado, trata-se dum sadio mundo futebolizado.

Talvez pouca gente compre esta ideia de que a vida é melhor durante a competição rainha da FIFA. A minha teoria do “ar mais respirável de 4 em 4 anos” é mesmo uma subjectividade difícil de encarar quando, por exemplo, se tem de engolir o monóxido de carbono da Av. da Liberdade em dia de jogo. Admito ainda que a tese de que se vive um “clima de armistício” durante o Mundial enfrenta novas dificuldades, e esta recente final entre a França e a Croácia bem o provou – nas redes sociais foi a politização do costume (às vezes boa, mas geralmente perversa); depois a intervenção do VAR parece ter desumanizado a justiça e a injustiça.
Não é fácil falar de “armistício” quando a tecnologia nos oferece uma infalibilidade opressiva – purga o erro como uma bactéria nos purga as entranhas, e passamos da justiça salomónica para a justiça salmonélica. Não alinho em revisionismos históricos, nem em negacionismos. Alguém que desminta a existência do Holocausto, por exemplo, não é bem-vinda a minha casa. Mas nisto do futebol encontro um regime de excepção. Sou um revisionista dos Mundiais, e digo que foram sempre os melhores independentemente de o terem sido ou não. Mesmo admitindo que nem todas as edições da competição contribuíram para uma existência melhor, forço-me a dizer que sim, que contribuíram. Não se trata tanto de analisar o passado, mas de disciplinar o futuro.
Mesmo que um honroso embate entre selecções seja insuficiente para tornar o mundo melhor, porque não haveríamos nós (o mundo) de aproveitar esse pretexto para nos melhorarmos? É por isso que o meu revisionismo não se resume à vontade de ver os Campeonatos com bons olhos; é mais a vontade de aguardá-los com bons corações. Se os Mundiais fossem o meu Museu dos Descobrimentos, não havia cá colonialismos sangrentos, nem culpas esclavagistas – retinha o bem para melhor fazer (mas, repito para que não haja equívocos, tenho no futebol um regime de excepção).
E assim de rajada, vou concluir o meu périplo pelos Campeonatos do Mundo dos últimos 30 e tal anos. 2006, 2010 e 2014 são, respectivamente, a melhor edição de sempre, a melhor edição de sempre e a melhor edição de sempre. Em cada um destes Verões, o ar estava mais respirável e vivia-se um clima de armistício.
Na Copa de 2006, o melhor futebolista duma geração acabou a carreira enquanto enterrava violentamente a careca no peito do melhor sarrafeiro duma geração – o primeiro foi expulso, o segundo foi campeão do mundo. Cristiano Ronaldo perdeu a corrida para Melhor Jovem Jogador da competição por ser considerado “batoteiro”. A partida entre Portugal e a Holanda bateu o record de cartões vermelhos num só jogo de Mundial, e igualou o record de cartões amarelos. O jogo que opôs Suíça e Ucrânia pode muito bem ter contido os 120 e tal minutos mais aborrecidos do séc. XXI. Então estamos a falar do pior Campeonato do Mundo de sempre, certo? Errado.
A Copa de 2006, decorrida na Alemanha, foi mesmo a melhor de sempre. Para já, tornou-se palco de justiça poética, e justiça com poesia de Pavese, Dante, Boccaccio, Petrarca ou Ariosto (pseudónimos de Buffon, Cannavaro, Gattuso, Zambrotta ou Pirlo). Mesmo que o futebol italiano não fosse o melhor (e mau não era de certeza - basta ver os nomes que acabei de recordar), a Squadra Azzurra merecia esta título nem que fosse pelos infortúnios e injustiças passadas: a tragédia de Roberto Baggio em 94 e a roubalheira frente à República da Coreia em 2002. O Campeonato do Mundo da Alemanha é recordado também pela mescla de gerações dentro das grandes potências - as que desvaneciam e as que se estabeleciam - apurando assim os paradigmas futebolísticos dos últimos 10 anos. Foi ainda um dos mundiais mais competitivos de que tenho memória, no sentido em que eram muitos, e muito fortes, os candidatos ao título (e talvez tenha esta noção vincada porque Portugal tinha um pé neste lote).
Já a edição do Campeonato de 2010 decorreu de forma diferente, embora neste ponto convergisse com as anteriores: será recordada como a melhor de sempre. E, acreditem, para um evento infestado de vuvuzelas ser o melhor de sempre é preciso ter muito a seu favor. Para começar, estamos a falar do primeiro mundial realizado no Continente Africano, mais propriamente na África do Sul. A localização do evento não é apenas o primeiro motivo que invoco, é mesmo o mote fulcral para termos uma boa memória do campeonato. É que, apesar dos grandes jogos e grandes jogadores que desfilaram nos relvados, e apesar de Maradona ter regressado a um Mundial, desta feita no comando técnico da Argentina (numa versão irrequieta de treinador, a lembrar um Paco Fortes da alta roda), apesar de todos estes factos, é no próprio país de Mandela que está a grande virtude da competição.
O que se passou na África do Sul em 2010 corrobora inteiramente os penosos, mas benfazejos, primeiros parágrafos desta crónica. O país com uma das mais aterradoras taxas de criminalidade, com cidades onde a violência extrema impera, foi o mesmo país que quis superar-se por intermédio do futebol. Respirou-se o ar melhor, viveu-se o armistício, e pouca importa se foi o espírito do Mundial quem levou a paz, ou se foi a paz quem se chegou à frente para acolhê-lo. Saudemos tal ideia: os mundiais favorecem o melhor do planeta, e o melhor do planeta favorece os mundiais. Esta cultura do “ser-se melhor” deu inolvidáveis frutos na África do Sul, e ainda melhores sementes plantou.
Vou fermentar por 4 anos a minha vontade de falar acerca do Rússia 2018, acerca de Modric, Coutinho e Hazard. Assim sendo, a última abordagem desta série recairá sobre o Campeonato do Mundo do Brasil em 2014 - aquele que, como devem suspeitar, foi o melhor de sempre. Tratou-se tanto duma competição quanto dum axioma, uma vez que valeu sempre o “11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha”.
Há vários motivos celebráveis sobre este Brasil 2014, mas estou (com alguma mesquinhez, admito) tão apegado a só um deles que vou despromover os restantes para depois. Ora, toda a gente gosta de ver um charlatão desmascarado, e para mim foi isso que aconteceu no jogo em que o Brasil concedeu 7 golos à Alemanha. Lição dura para a canarinha, mas é o preço a pagar quando nos deixamos deslumbrar pelo carisma casmurro de Scolari. Felizmente, a tareia revelou-se pedagógica, e neste Mundial de 2018 os brasileiros já levaram para a competição um treinador a sério.
Não tenho embirração desmesurada com o Felipão. Nem tampouco é pessoal. O embuste Scolari até me parece ser mais fruto do desleixo e da credulidade em torno dele que das fracas qualidades técnicas do próprio. É que, por exemplo, enquanto cá andávamos a acenar bandeiras e a endeusar o sargentão por nos ter conduzido a uma final, quase ignorámos que a selecção derrotada tinha Figo, Ronaldo, Rui Costa, Deco e Ricardo Carvalho. Perdemos. Em casa. Contra a Grécia. Pode ter sido só um dia mau, mas foi mau o suficiente para justificar desconfiança eterna, e para não nos hipnotizarmos pelo encanto supersticioso e tacanho do Gene Hackman brasileiro.
Scolari tem, obviamente, os seus méritos. O mérito de transformar selecções em plantéis herméticos, vedando as equipas a experimentações desnecessárias (mas também vendando as equipas a craques com quem foi embirrando). O mérito de tornar o nosso país numa claque (ou melhor, numa torcida). O mérito de, nem ele, ter conseguido estragar a canarinha de 2002 – Ronaldo Nazário, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos ou Rivaldo transformaram o Brasil numa equipa de rainhas, e não era preciso ser-se um Garry Kasparov para movimentar razoavelmente tais peças.
Há mais méritos a reconhecer a Scolari, e mais justiças a serem-lhe feitas. Ainda assim, é impossível conter certa indignação quando um treinador destes – mediano, tecnicamente atamancado - granjeia estatuto e currículo que ultrapassam as suas reais capacidades. Já que passámos mais de uma década a bater continência ao sargentão, e a ser encandeados por aparições da Nossa Senhora do Carvaggio, estávamos mesmo a precisar de 7 golos alemães para abrir a pestana. É que tínhamos ignorado outros sinais: Felipão foi campeão do mundo no mesmo ano em que morreu Michael Young, o inventor do termo “meritocracia”.
Talvez esteja a acabar esta série com uma nota mesquinha. Que seja. O ar anda menos respirável e enfraqueceu-se o clima de armistício. O Mundial acabou há uns dias."

Alvorada... do Bernardo

Com a morte na mão esquerda

"Enquanto Ernie Shaaf caía no ringue a caminho da morte, o público, empurrado pela raiva gritava: "You are a fake!"

Tinha 24 anos, mas o corpo, enorme, não passava de um invólucro. Pesava 95 quilos. Provavelmente, agora menos, sem a alma. Era um homem grande e tinha uma alma grande mas não faço ideia de quanto pesaria a sua alma. O comboio viajou com ele de Nova Iorque para Boston. Com ele, com a mãe e com as irmãs. Nenhum disse palavra.
O médico garantira que se tivesse sobrevivido ficaria aleijado para sempre, mais que provavelmente hemiplégico. Mas Shaaf não fez um esforço sequer para continuar vivo a partir do momento em que entrou em coma. O punho de Primo Carnera desabara sobre ele como uma avalancha dos Apeninos. Carnera tinha 1,97 de altura; 125 quilos de peso. A imprensa italiana foi cruel: «Il gigante dal destro che uccide».
Dia 10 de Fevereiro de 1933, Madison Square Garden em Nova Iorque, 13º assalto. Os jornais estavam errados: o golpe final de Carnera foi com a esquerda. Durante um, dois segundos, parece, pelas imagens do filme antigo, que Shaaf percebeu, de repente, o que lhe ia acontecer. A morte deve tê-lo olhado de frente com o seu olhar vítreo de quem não sabe o que é a indulgência. «Nem esquecimento nem perdão», como bradava o Conde de Monte Cristo. Ernie desapareceu no vazio. Tombou inerte no ringue, o árbitro começou a contar. E contava o quê? Os minutos que ainda teria de vida? Mais de 20 mil pessoas se levantaram, os pés impulsionados por molas de raiva, cuspilhando desprezo pelos cantos das bocas deformadas: «Fake! Fake! You are a fake!»
A malta de Carnera leva o vencedor em ombros nos festejos espúrios. Jack Sharkey, o amigo de Shaaf, seu camarada na Marinha, seu treinador, procura afastá-lo da confusão, esforça-se para que desperte, para que reaja, arrasta-o para o seu canto, vai ficando desesperado, uma angústia tremenda ocupa-lhe o peito, grita, pede auxílio. Nas bancadas, os loucos da cidade nada percebem do drama que se desenrola. Estão presos na sua fúria enlouquecida que nem sequer deixa perceber a chegada da Cavaleira do Apocalipse. Também eles cavalgam a morte.
Shaaf está longe.
É apenas um rapazinho perdido e sem regresso.
Testemunhas dizem que, quando chegou ao Polyclinic Hospital, Shaaf ainda balbuciou umas palavras. Depois caiu na apatia total. A seu lado, Jack Sharkey, ‘brother in arms’, campeão do mundo de pesos-pesados.
Carnera recebeu a notícia de morte de Shaaf como um tiro. Foi assoberbado por uma maré de emoções, desfez-se na consolação das lágrimas, jurou nunca mais erguer o seu punho assassino para quem quer que fosse. A sua carreira terminaria ao mesmo tempo da do homem que matara. Seria Lucy, mãe de Ernie, a impedi-lo. Escreveu-lhe: «Kindly be assured that I do not consider you in any way responsible for the death of my boy. I feel toward you like I would have wished your mother to have felt toward my Ernie if you had met with some misfortune during your bout with him».
Palavras embrulhadas numa elegância de dor.
O funeral de Shaaf, na sua cidade natal de Wrentham, foi invadido pelos seus companheiros dos ringues. Todos os boxeurs apareceram menos Carnera. A depressão tomara conta dos seus nervos.
Há páginas extraordinárias na história do desporto e esta é uma delas: quatro meses após a morte de Shaaf, Primo Carnera, o homem que o matou, disputou o título mundial com Jack Sharkey. 
Escreveram-se laudas de amor e vingança. As pessoas esqueceram-se de que se tratava simplesmente de um combate de boxe, tal como tinha sido o que opusera o experiente italiano Carnera ao jovem ambicioso americano Ernie Shaaf.
Ao sexto assalto, Primo Carnera desferiu um golpe inexorável. Shark foi ao tapete. Como uma baleia que dá à praia retorceu-se num estertor mas não voltou à luta. Desilusão por entre os espetadores que previam novo combate entre a vida e a morte. Rumores correram à disparada sobre a verdade do knock-out. Que a Mafia teria controlado ambos os adversários e acertardo o resultado. Jack apressou-se a desmentir: «Estava em perfeitas condições físicas e já tinha combatido o tipo antes. Mas algo não me deixou ir além. Havia sempre, em redor dele, uma imagem difusa de Ernie. Não há dor tão grande como a que sentimos em sonhos. Depois dei por mim envergonhado. Perdi»
O fim da vida de Primo Carnera foi melancólico. O antigo campeão de pesos pesados dispôs-se a figuras ridículas como wrestler e morreria atacado pela diabetes e por problemas de fígado. O dia 15 de Fevereiro de 1933 nasceu pleno de azul em Boston. Para Ernie Shaaf de pouco serviu. Estava envolto num repouso tão potente, de fazer parar o coração."

O fim do Mundial não é o fim do mundo

"Como sempre, a FIFA declarou que este Mundial foi o melhor de todos os tempos. Disse o mesmo ao fechar o bailarico brasileiro em 2014. No próximo, o discurso não será diferente.

No fim, tudo faz sentido. E, se não faz sentido, é porque não chegou ao fim. O meu Tio Olavo não diria melhor.
Melhor. Como sempre, a FIFA declarou que este Mundial foi o melhor de todos os tempos. Disse o mesmo ao fechar o bailarico brasileiro em 2014. No próximo, o discurso não será diferente. Tais declarações têm pouco ou nada a ver com a verdade. São apenas palavras, nada mais do que palavras, para alimentar a fome de conteúdos da comunicação social.
Social. O que será que a sociedade russa achou da gastança? Não sou dos que gostam de misturar futebol com política (embora tenham lá a suas semelhanças; o escritor Nelson Rodrigues, por exemplo, observou: "Muitas vezes é a falta de carácter que decide um jogo. Não se faz política, literatura e futebol com bons sentimentos"). Mas, diferente do Brasil, onde os protestos foram tão ruidosos quanto inúteis, não creio que os vassalos de Putin tivessem muito espaço para alardear as suas insatisfações. Este foi o Mundial do come e cala. O próximo, no Qatar, não será diferente. 
Diferente. Algumas coisas foram distintas na narrativa. Tivemos um Mundial mais pudico. Os closes nos seios e nas nádegas das senhoras nas arquibancadas foram extintos. Repórteres mulheres que se sentiram assediadas por adeptos bêbados durante as transmissões revidaram em directo. Foi como se o #metoo chegasse à bola.
À bola. Daquilo que pôde ser visto dentro do campo, a tudo faltou uma certa dimensão. Não tivemos um grande herói como Zidane em 1998 ou Ronaldo, o fenómeno, em 2002. Tampouco ninguém assumiu o posto de grande vilão (vale lembrar Suárez, em 2014, o devorador de orelhas ou o drogado Maradona de 1994, com os olhos esbugalhados, a ameaçar comer uma câmara de TV, ou ainda a bola com vontade própria, a nefasta Jabulani, criada pela Adidas para atrapalhar os golos na África do Sul). O Mundial da Rússia vai entrar para história como um evento morno, nada de inesquecível. 
Inesquecível. Como esquecer o meme do Mundial? O quanto rimos com Neymar e as suas quedas espectaculares. Por mais que não concorde com boa parte da crítica (não foi Neymar a inventar a simulação nem o único a utilizar tal recurso nesse e em outros campeonatos), todos acompanhámos a gargalhada planetária a gozar o menino Ney. Futebol também é isso: humor grosseiro, porém engraçado. No futebol, assim como o choro, o riso é livre.
Livre. Ou livres. Assim estamos depois de um mês de emoções à flor da pele. Resta-nos esperar pelo regresso das actividades de ludopédio daqui a algumas semanas. Sem a bola não ficamos nem melhores, nem piores, apenas ficamos incompletos. Afinal, a bola é o nosso circo romano onde somos todos cristãos e no final ganha sempre o leão, digo, o alemão."

Minuta falsa e forjada

"Fomos esta manhã confrontados com a divulgação por parte do blogue “Mercado do Benfica” de uma pretensa minuta de contrato de trabalho desportivo do jogador Cristian Lema, em que numa montagem ridícula e falsa apagaram as assinaturas dos subscritores e colocaram dois xx na data com o claro intuito de induzir que a origem das fugas de informação não estavam nas entidades que rececionaram os contratos.
A Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD garante que essa minuta é forjada e não corresponde a qualquer documento interno existente no Clube, e reagirá a mais esta grosseira falsidade pelos meios e locais próprios."